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Comecei a fazer um diário da quarentena no facebook. Porque no primeiro dia não tinha computador e, no telemóvel, é mais fácil ir ao facebook do que vir ao blog. E porque escrever é a minha maneira de me organizar. Ou pelo menos tentar. E porque sinto que, de alguma forma, isto que estamos a viver agora nos vai mudar e quero que fique documentado. Para mais tarde poder perceber o modo como vamos mudando de opinião e de estado de espírito, como o tempo ou o isolamento ou a doença nos afecta. No facebook escrevo menos. Não sei se gosto. Não sei se continuarei por lá ou por aqui, se o farei todos os dias ou se manterei o diário por muito tempo. Para já, tem sido assim:

Dia 1, sexta-feira, 13 de março
O António foi à escola porque teve um teste.
Eu e o Pedro não saímos de casa.
O computador teve um peripaque... tenho até segunda para resolver e garantir o teletrabalho.
Os putos querem internet no quarto e mais uma televisão.
Também nos dava jeito ter um quintal (ou uma varanda, vá).
Ouviram se frases como: já estou farto, agora é a minha vez na playstation, ooohhhhh maaaaaae, e agora o que é que eu faço?, quem me dera ser filho único, podem calar se um bocadinho?, acho que temos de comprar mais bolachas, eu não vou estudar era o que faltava.
Não fiz nada e estou exausta.
Mais vai correr bem.
Vai, pois.
Não temos outra hipótese, pois não?

Dia 2, sábado, 14 de março
Podia ser um sábado como qualquer outro.
Abrimos janelas para arejar a casa e a cabeça.
Aproveitámos o sol que inunda a cozinha durante a manhã.
À tarde, os miúdos foram ao terraço jogar a bola.
Tomámos todos banho.
Isto sem ter que trabalhar até seria suportável.

Dia 3, domingo, 15 de março
Saí de manhã para apanhar sol e mexer as pernas. Foi muito bom.
Os rapazes não saíram de casa.
Fiz crepes para o lanche e preparei o jantar ao som de Devendra.
Agora estamos a ver o Dr. Pol.
So far so good.

Dia 4, segunda-feira, 16 de março
Fui buscar o computador que passou o fim-de-semana no "hospital" e pude, finalmente, começar a trabalhar à uma da tarde.
A partir daí é tudo muito desfocado.
Acho que os putos jogaram playstation, que foram ao terraço jogar à bola, que lancharam e tomaram banho.
O António tirou a louça da máquina e o Pedro fez o sumo de laranja para o jantar.
Jantámos já depois das 21.00.
Estou muito cansada.
Amanhã vai ser melhor.

Dia 5, terça-feira, 17 de março
Antes das 8 da manhã estava à porta do talho.
Depois, fui a primeira na fila do supermercado.
Quando cheguei a casa, o António estava a fazer os trabalhos de português.
Despacha-te, puto, que às 10 começa o meu turno no computador.
A essa hora ainda estava animada, tinha apanhado sol e mexido as pernas.
Este ia ser um dia bom.
Afinal, não.
Foi um dia demasiado comprido, em que estive demasiadas horas sentada, a olhar para o ecrã, a ver números de mortos e infectados, sempre ligada e sempre com a sensação de que estava a perder alguma informação importante. Trabalhar em casa, sem nos mexermos nem falarmos com ninguém, tem se revelado muito pior do que poderia imaginar.
Desliguei às 19.00, não porque não tivesse mais coisas para fazer mas porque, simplesmente, não conseguia continuar.
Adormeci, exausta, no sofá depois do jantar e estou agora a mudar-me para a cama.
Ainda não foi hoje que inscrevi o Pedro na plataforma da escola.
Sobrevivemos. Não está mal.

#keepsafe 

publicado às 18:41



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