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Dia 43, sexta-feira, 24 de abril
Hoje, depois de passar a manhã a estudar matemática, fui às compras, diverti-me a inventar histórias com os títulos dos livros, a seguir demorei horas a arrumar os livros todos nos seus lugares, respondi a um inquérito do Oceanário, votei num cartaz para o Todos, transformei o hall de entrada num ginásio e fiz uma aula de "glúteos + abdominais + pernas", vi dois episódios e meio de uma série e fui passear com o Pedro.
Já faltou mais para me pôr a fazer pão.
De facto, a quarentena sem trabalhar é outra coisa (mas amanhã estou outra vez a bulir que é para não me habituar).
Doem-me bastante as pernas. Acho que estou a acordar músculos que estavam adormecidos há décadas.
Amanhã experimento o pilates.

Dia 44, sábado, 25 de abril
De manhã estudámos o Estado Novo, o que até fazia todo o sentido.
À 1 comecei a trabalhar. Às 3 fiz uma pausa, levei o computador para a janela da cozinha e pus o Zeca a cantar. Oh mãe, a sério?, suspiraram eles, sem se moverem do sofá. Cantei feliz, apesar de envergonhada. Apareceram dois ou três vizinhos. Nada de entusiasmos. Fui à janela da frente e pus a cabeça de fora para acenar a uma vizinha lá de cima que também tinha o Grândola a tocar.
Voltei ao meu trabalho.
O António, que desde que isto começou ainda não tinha ido mais longe do que o terraço, decidiu sair de casa para ir comprar gomas. A adolescência é, de facto, um lugar estranho.
O Pedro foi ao terraço festejar o aniversário de uma vizinha. Eram uma meia dúzia de miúdos a brincar às escondidas e era já de noite quando o chamei para jantar.
Agora, e seguindo as indicações das professoras de história, estivemos a ver o Capitães de Abril. Mas foi uma seca para todos, incluindo para mim que não me consegui abstrair da falta de sincronização entre a voz e os lábios e achei o filme de uma maneira geral bastante mauzinho.
Valha-nos a Revolução que foi bonita e nos deu a democracia e a liberdade.

Dia 45, domingo, 26 de abril
De manhã acabei de ver a série Unebelievable na Netflix e agora à noite vimos o Hotel Mumbai - digamos que hoje a minha fé na bondade das pessoas está um pouco pelas ruas da amargura.
Há coisas que não mudam: estamos confinados mas continua a não ser fixe trabalhar ao fim-de-semana.
Há coisas que mudam: estar de folga à segunda-feira costuma significar tempo para mim e para as minhas cenas, mas amanhã vai ser só mais um dia como os outros.

Dia 46, segunda-feira, 27 de abril
Às segundas os professores mandam os planos de trabalho da semana. Os professores estão a dar matéria nova, a toda a velocidade. Lê o manual e resolve a ficha. Agora faz a correção. Agora vê o vídeo. Faz um trabalho de pesquisa. Copia a definição para o caderno. Faz mais uma ficha. E a seguir temos videochamada para esclarecer dúvidas. Um professor com 20 a 30 alunos de 11 anos em videochamada a darem os números racionais ou o estado novo ou o sistema reprodutor. Desliguem o micro, não se ouve, podem calar-se? E nisto vamos avançando mais uma páginas. Não tarda nada chegamos ao fim do livro e lançamos um foguete.
Está tudo bem. Eu controlo tudo, mais de perto ou mais de longe, conforme o caso, temos computadores e agora até tenho algum tempo. Não me queixo. E no fundo eu até gosto de estudar com eles algumas matérias (e nas outras dou um jeito). Mas é muito exigente. E se eu - que tenho estas condições - acho exigente, então, de certeza que há muitos miúdos que estão a ficar para trás porque não têm quem lhes explique, quem controle, quem os mande ficar sentados, quem os corrija, quem os lembre dos prazos, quem os incentive, quem se zangue (às vezes é preciso). Quem lhes diga: vai brincar, paciência, entregas esse trabalho fora do prazo, não faz mal.
Continuo com muitas dúvidas sobre isto tudo.

Dia 47, terça-feira, 28 de abril
O dia começou com um senhor a bater-me à porta para me entregar uma prenda-surpresa-deliciosa da minha irmã.
E acabou comigo a adormecer no sofá pouco depois das dez da noite.
Os dias de quarentena são assim como as relações. No início, parece mesmo que é desta que vamos cumprir o plano de ginástica e fazer pão e quem sabe até jogar monopólio com os putos. Mas pouco depois percebemos que afinal vai ser só mais um dia como os outros, com trabalhos da escola, limpeza da casa, passeios higiénicos e, com sorte, um filmezeco da Netflix.

Dia 48, quarta-feira, 29 de abril
Começou bem. Com uma chuvinha mas bem. Fomos fazer o cartão de cidadão do Pedro, que estava marcado há meses mas que foi pago como urgente (lol), e aproveitámos para fazer a caminhada higiénica e comprar fruta e legumes, tudo de uma assentada. Às 11.30 já estava outra vez em casa, de banho tomado, devidamente higienizada e confinada.
E pronto. A partir daí foi só chateações, entre trabalhos da escola e reuniões de zoom, mails e grupos de WhatsApp de trabalho. Nem sequer jantei. Acabei agora mesmo de comer um prato de Nestum e vou direitinha para a cama.
Um dia ainda me hão de contar como é que funciona isso de "ter demasiado tempo livre". Estou curiosa.

Dia 49, quinta-feira, 30 de abril
Hoje o Pedro teve cinco "aulas síncronas", incluindo uma aula teórica de educação física, e as três últimas aulas sem sequer ter intervalos (isto está tudo a correr lindamente, como se vê). Às 20 para as seis, dez minutos antes do fim da aula de ciências, e já com fernicoques (bela palavra) no corpo, enquanto a professora explicava o teste do pezinho, olhou para mim e: posso desligar? Eu estava mesmo a acabar o meu trabalho, por isso: podes. Desligámos os dois e fomos passear.
Já há um arrumador no Fonte Nova. E usa máscara. É a normalidade a regressar de forma bastante anormal.
Ao serão vimos O Impossível. O António já tinha visto e anunciou que não ia ver outra vez porque era muito triste. Eu também já tinha visto mas nunca recuso uma oportunidade para derramar uma lagrimita.

Hoje é Dia do Trabalhador e eu tinha tantas coisas a dizer sobre o assunto. Mas fica só esta música, para dançar e libertar todos os demónios:

Blister in the Sun, Violent Femmes

publicado às 10:45



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