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Eu já sabia. No primeiro dia do confinamento, quando me vi aqui enfiada em casa com os meus dois filhos e me apercebi da loucura que ia a ser a nossa vida, lembrei-me imediatamente: e as pessoas que estão sozinhas?

Eu já sabia. Porque por muito que me queixe da minha vida, eu sei que são os meus filhos - com os seus gritos e discussões e preocupações e brincadeiras e tudo e tudo - que são o meu chão. Eu já sabia mas não há nada como ter a experiência da coisa para poder falar com conhecimento de causa: estou há seis dias a trabalhar em casa e não tenho cá os meus filhos. Eles estão de férias com o pai e estão muito bem. E eu precisava muito de estar de férias deles, admito. Mesmo. Precisava de descansar a cabeça e o corpo e sair desta rotina infernal de comidas e compras e nós todos juntos o tempo todo.  Mas uma coisa é estar sozinha quando se está de folgas e se anda a laurear a pevide (faço isso de vez em quando e é óptimo). Uma coisa é estar sozinha quando se tem uma vida normal de trabalho, num escritório, e se passa o tempo a falar com outras pessoas e depois até se vai jantar fora ou ao cinema ou beber um copo (tenho sempre alguns dias por ano assim). Outra coisa, completamente diferente é estar sozinha, a trabalhar em casa, sem ter ninguém com quem falar o dia inteiro, sem ter grandes opções ao final do dia, porque ainda está tudo com medo e não há filmes que interessem no cinema e os bares estão fechados e estamos todos em modo recolhimento. E ficamos assim só nós e o computador e o silêncio, um dia depois do outro. Não é bom, posso dizer-vos. Nada bom. É até bastante deprimente. Dá vontade de comer chocapic e gelado a todas as refeições, dá vontade de deixar a louça na pia e de nem fazer a cama, dá vontade de não fazer nada, na verdade.

Claro que não foi isso que eu fiz, porque eu sou teimosa (e, pelo menos até ver, sã) e se me deprimo um dia, no dia seguinte já estou a arranjar maneira de arrebitar. Não me fiquei. Fui à feira do livro e ao teatro, falei com amigos, combinei encontros. Saí de casa só porque sim. Resisti. Mas foram só seis dias. Como seria se fossem seis meses? Teria eu conseguido não enlouquecer? 

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publicado às 12:20


1 comentário

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Bruxa Mimi 08.09.2020

Acho que fizeste bem em contactar amigos e tudo o mais, mas acho também que, só pelo facto de escreveres no blogue e teres quem leia o que escreves, já não estás assim tão sozinha (sobretudo se fizerem comentários, para te responderem)...

Férias de filhos? Gostava de saber o que isso é...

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