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O documentário Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story, do Scorsese, que está na Netflix, é um objecto fascinante. Podemos vê-lo como um simples documentário e acreditar em tudo o que ali é mostrado - e já é fascinante, só assim, poder ver e ouvir Bob Dylan, Patti Smith, Joan Baez, Alan Ginsberg, Sam Shepard ou Joni Mitchell. Ou então podemos ficar intrigados com o que acabámos de ver e pesquisar um pouco mais para perceber como é que o documentário foi feito e descobrir que há ali uma parte que é pura ficcção - e mais fascinante ainda se torna. E divertido. Mesmo muito divertido.

A Rolling Thunder Revue foi uma digressão liderada por Bob Dylan com quase 20 pessoas em palco que começou em outubro de 1975 em Plymouth e terminou em maio de 1976 em Salk Lake City. Depois de uma digressão em estádios, o músico quis fazer algo diferente: em salas mais pequenas e reunindo um grupo de amigos em concertos que podiam durar três horas, onde havia espaço para a poesia e para a improvisação, para cantarem juntos e a solo, cada um apresentado os seus temas. Dylan aparecia em palco com a cara pintada de branco e um chapéu a tapar-lhe os caracóis e cantava e encantava.

O filme tem alguns momentos especiais - por exemplo, as primeiras cenas, ainda antes da digressão, com Patti Smith, ou quando Dylan e Ginsberg visitam a campa de Jack Kerouac, os ensaios com Joni Mitchell ou o movimento pela libertação do lutador Hurricane, que motivou a canção com o mesmo nome. E um diálogo (será verdadeiro? será ficção?) quase amoroso entre Baez e Dylan: casamos com quem amamos ou com quem pensamos que amamos?  O amor não é, definitivamente, assunto para a cabeça, conclui Dylan. Todas as imagens dos concertos são preciosas e as imagens antigas (até mesmo as que possam ser forjadas) ajudam-nos a fazer o retrato de uma época. Não só pelas personagens que aparecem e por todo o espírito da digressão e dos concertos, mas também por mostrarem aquele momento de transição política (de Nixon para Jimmy Carter), o fim da guerra do Vietname, a crise económica, os jovens e os menos jovens das muitas Américas por onde os músicos andaram.

E o resto? O que é verdade e o que é mentira? Não é por acaso que o documentário começa com imagens do espetáculo de ilusionismo de Georges Méliès. O facto de Bob Dylan ter aceite fazer este filme e ter pactuado com Scorsese na criação de uma ficção como que a gozar com aquela digressão histórica diz muito sobre o Prémio Nobel da Literatura e do quanto ele, mesmo não parecendo, não se leva assim tão a sério.

Podemos questionar se, tendo um material tão rico para trabalhar, valeria a pena inventar uma ficção. Ou até se, num momento em que tanto falamos de fake news, um filme que propositadamente mistura verdade e mentira não poderá ser visto eticamente como uma irresponsabilidade. Mas também podemos ver este filme como uma resposta de Dylan a este mundo de celebridades que vivem numa montra constante (e a recusa de Dylan, acompanhada de uma gargalhada sarcástica, em expor-se totalmente). Ou então apenas como um divertimento.

Seja como for, se me diverte e me faz pensar, para mim nunca é tempo perdido.

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Joan Baez e Bob Dylan

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publicado às 19:13



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