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06
Jan19

Eliete

A Dulce Maria Cardoso tem a capacidade incrível de escrever sobre o mundo, o nosso mundinho, aquelas pequenas coisas do dia-a-dia em que nós quase nem reparamos mas que fazem parte da nossa vida. Os likes no facebook. A pastelaria da esquina. O quintal da avó. Os ciúmes da tableforone. As casas à venda. Os sapatos que magoam os pés. O frango assado para o jantar. A cave onde guardamos o passado encaixotado. Os betos do liceu. A lingerie barata. Os turistas na praia. O inglês macarrónico com que cantamos as canções da rádio. A final do europeu. O cheiro a desinfectante nos lares da terceira idade. Além disso, a Dulce Maria Cardoso tem a capacidade muito rara de escrever sobre o que se passa na cabeça das mulheres - sem preconceitos. Lemos Eliete e sentimos que ela está a falar de nós. Não porque eu seja como ela ou faça o que ela faz. Mas porque sabemos exactamente como é que ela é e tudo o que sente. Está lá tudo. A relação de amor-ódio com a mãe. As saudades do pai. A melhor amiga. Os miúdos da escola. As memórias da infância. O príncipe sonhado. O sexo sonhado. O futuro sonhado. O presente mal-amanhado. As rugas na cara. A celulite. A dieta. Os filhos que crescem. A avó com alzheimer. O envelhecimento.  O querer sentir-se desejada. Estão lá os desejos e as frustrações de uma mulher de 40 anos, que podia ser alguma de nós, que de certa forma é uma de nós. A solidão. A insegurança. A busca por algo que dê sentido a isto tudo. 

De Dulce Maria Cardoso já li O Retorno (o meu preferido) e Os Meus Sentimentos. O mais recente, Eliete, é um daqueles livros que nos agarra e nos leva sofregamente por ali afora com aquelas palavras simples encadeadas como se encadeia a vida. Só é pena aquele final. O Salazar. Que despropósito. Mas pronto. 

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publicado às 23:17


5 comentários

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De Sónia Filipa Rito Teixeira a 07.01.2019 às 11:45

Também gosto muito da Dulce maria Cardoso. Li "Os meus sentimentos" (que tenho autografado) e o "Tudo são histórias de amo" (que aluguei em biblioteca).

O tom terra a terra dela também me fascina. Estou muito contente e orgulhosa porque acho que nos últimos anos têm-se dado mais relevância a escritores portugueses e a qualidade que têm em geral é muito acima da média.
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De Anónimo a 07.01.2019 às 23:39

Não li Eliete, mas li o retorno e gostei. Também estive numa conferência onde a escritora fazia parte da mesa. É uma mulher muito feminina e cuidada e conversa com calma desenvoltura. Contou como e porque escreveu o retorno.
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De imsilva a 08.01.2019 às 23:27

Ok. Fiquei curiosa, não conheço a autora nem a obra mas em tudo me recorda as crónicas de Alice Vieira ; Pézinhos de coentrada, Bica escaldada e outros. Gosto do gênero porque em tudo nos faz sentir o dia a dia, em que se quisermos conseguimos sempre levar as coisas pelo lado mais leve e ver o lado positivo e caricato do quotidiano.
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De Francisca a 09.01.2019 às 10:22

Não conhecia esta escritora e foi-me recomendado o 'Eliete' e adorei. Gostei da forma realista da sua escrita.
Agora quero muito ler o 'Retorno'.
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De Anónimo a 20.01.2019 às 17:36

É como diz: Eliete "é um livro que agarra e nos leva por ali fora", onde nos encontramos e descobrimos, ou não tivesse como subtítulo "A vida normal". Aconteceu comigo, como aconteceu quando li o Retorno,.
A carta tem a função de criar o suspense ... para nos dar a conhecer esses tempos "do Salazar" porque a vida normal de Eliete irá ter continuação em próximo volume... penso eu.
Adelaide

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