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08
Jan21

"Fofinhas"

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Vi, finalmente, nas férias de natal, o polémico filme Mignonnes (Cuties, na versão inglesa), da francesa Maïmouna Doucouré. A realizadora, filha de senegaleses, cresceu dividida entre a cultura muçulmana da sua família e a cultura ocidental da cidade de Paris, e foi buscar muita dessa experiência para fazer a sua primeira longa-metragem. O filme acompanha Amy, uma rapariga franco-senegalesa que, além de viver neste caldo de culturas, tem 11 anos, ou seja, está a deixar de ser criança e, como todos os adolescentes, tem na cabeça um turbilhão de dúvidas, de insatisfações e de vontades. Faz parte do crescimento.

Tendo filhos adolescentes, consigo identificar perfeitamente alguns dos problemas por que os miúdos passam nestas idades, seja pela pressão de pertencer a um grupo e de se identificarem com os outros, seja pela dependência das tecnologias e pelo papel exagerado que as redes sociais têm na sua visão do mundo. Mas claro que os rapazes sofrem menos pressão em relação à sua imagem. A hiperssexualização das raparigas na adolescência, visível no modo como se vestem e nas fotografias que publicam, é um dos aspectos que é focado no filme. Elas têm muita pressa de crescer mas continuam a dormir com peluches e a perder a cabeça por um saco de gomas.

Cuties é bastante realista e isso é algo que me agrada. Percebe-se que Maïmouna Doucouré conhecia a realidade que estava a filmar e escolheu bem as atrizes, sobretudo a protagonista Fathia Youssouf e a sua melhor amiga, Médina El Aidi-Azouni. As cenas do quotidiano das raparigas, em casa e na rua, são as mais bem conseguidas do filme. No entanto, e sem querer ser spoiler, eu achei o final um bocadinho moralista.

Sobre a polémica: é preciso lembrar que ela foi provocada acima de tudo pelo modo como o filme foi promovido pela Netflix, que usou no cartaz uma imagem que explorava a sexualização do corpo das miúdas (precisamente um dos aspectos que o filme pretende criticar) e é uma pena que, como sempre, tantas pessoas embarquem em críticas e petições sem primeiro ver o filme e construir a sua própria opinião.

Podem ler AQUI algumas das explicações que a realizadora deu nessa altura.

Vendo o filme, não me parece que haja motivo a tamanhas indignações, embora haja motivo para grandes reflexões. Mesmo. Eu confesso que apesar de ter gostado senti algum desconforto. Primeiro, não é despropositado questionar se, ao reproduzir a estética dos videoclipes no modo como filma as cenas de dança das raparigas, Doucouré não estará a perpetuar o tal male gaze que tanto nos incomoda. Há, de facto, demasiados grandes planos de rabos e de boquinhas. E também é importante lembrar que as atrizes que ali vemos a fazer twerking e a imitar posições sensuais tinham 12 e 13 anos na altura - sim, sabemos que de uma maneira geral as raparigas dessa idade não são assim tão inocentes, mas isso não faz com que seja legítimo colocá-las nessa situação (são, para todos os efeitos, crianças e por isso não terão a capacidade de perceber o alcance e o significado que aquelas imagens podem ter, logo, é suposto serem protegidas - em vez de expostas - pelos adultos). 

publicado às 09:56


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