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A Gata Christie



Domingo, 18.02.18

Heróis acidentais

Clint Eastwood é republicano, conservador e anti-controlo de armas. E isso nota-se nos seus filmes. Se pensarmos em todos os filmes que ele já realizou, é interessante ver quantos é que são sobre guerra e quantos têm gente a dar tiros, em quantos o tema da segurança/insegurança é relevante, quantos falam da inevitabilidade da violência quotidiana. Eu não sou republicana, nem conservadora nem defendo a liberalização do uso de armas. No entanto, posso dizer que gosto muito de muitos filmes de Eastwood. As suas posições políticas, sempre bastante claras nos filmes que realizou, não me impedem de gostar deles - sobretudo naquele período entre 1992 (Imperdoável) e 2008 (Gran Torino). Olho para a lista - estão lá Um Mundo Perfeito, As Pontes de Madison County, Mystic River, Million Dollar Baby - e até mesmo aqueles de que gosto um bocadinho menos são bons filmes. Bem feitos, com boas personagens, com boas histórias. Eastwood conseguiu trazer para a actualidade o melhor do chamado "cinema clássico americano" que é a arte de contar histórias e de encontrar heróis, até mesmo na nossa rua. Além de que foi também - com os filmes que interpretou neste período - um dos realizadores que melhor filmou o envelhecimento, no seu próprio corpo, nas suas rezinguices, nos sonhos perdidos, no confronto com a morte.

É por isso um pouco triste, quase doloroso, ver como os seus últimos filmes têm vindo a perder a capacidade de complexificar e de problematizar todas as questões que atrás referi para se tornarem quase panfletários. Isso já era muito claro em American Sniper (um filme bem feito mas muito, mesmo muito liso do ponto de vista psicológico) e é-o ainda mais em 15:17 Destino Paris, que bem pode ser usado como propaganda para convencer os jovens a irem para as forças armadas. É como se o patriotismo (que sempre esteve presente mas em doses suportáveis) e a procura de um herói americano (aquele que usa a violência para salvar o mundo e usa deus para caucionar essa violência) se tornassem mais importantes do que o próprio filme, enquanto objecto artístico. 

Essa cegueira leva Clint Eastwood a tomar más decisões, como a de colocar os três protagonistas dos eventos reais, ocorridos no verão de 2015 num comboio com destino a Paris, a interpretarem o seu próprio papel. Como actores são péssimos e como statement parece-me falhado -  até porque ter essa informação (de que eles são os verdadeiros protagonistas) muda completamente o modo como vemos o filme, e não deveria ser assim, o filme deveria bastar-se a si mesmo. Se a história fosse suficientemente boa não precisaríamos de mais nada.

Ou talvez a verdadeira má decisão tenha sido apenas a de querer fazer um filme com a história destes rapazes que, é verdade, tiveram um acto heróico, mas se calhar têm vidas bastante banais e pouco interessantes do ponto de vista cinematográfico. Toda a sequência das férias, na Europa, é aborrecida. Não acontece nada de verdadeiramente importante para a história, estamos só a fazer tempo para o grande acontecimento (que, ainda por cima, nós já sabemos qual é). E quão ridícula aquela dúvida permanente: vamos a Paris ou não vamos? Ah, o destino, aquilo que tem mesmo de ser, será, blá, blá, blá, todos temos uma missão na vida. Temos mesmo? E a missão daqueles rapazes terminou ali, aos vinte e poucos anos? 

Se querem ler uma crítica de alguém que percebe do assunto e discorda de tudo o que eu disse, leiam AQUI o Eurico de Barros. Não podemos concordar sempre, não é?

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por Gata às 10:12




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