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06
Jan20

Joker

Andei a adiar. Porque tenho um bocadinho de mau feitio e quando toda a gente anda a dizer muito bem (os críticos, os amigos, a malta do facebook, toda a gente) eu começo a desconfiar. Mas também porque, por aquilo que fui lendo, já previa que eu não fosse delirar.

Não me interpretem mal. Joker é um grande filme. Muito bom mesmo. O Joaquin Phoenix merece todos os prémios que lhe derem e os outros que não lhe derem. E o filme não é só bom por causa dele. Aquela Gotham City que é tal e qual a Nova Iorque dos anos 80 e que é tal e qual uma cidade qualquer do nosso tempo é um retrato perfeito dos males, das injustiças e das incongruências da sociedade. Quase conseguimos sentir o cheiro do lixo que se acumula nas ruas. Depois há o riso. Aquele riso de Arthur, tão despropositado e incontrolável, tão desconfortável ao mesmo tempo. O riso triste dos palhaços. O riso forçado dos espectadores do talkshow. O riso falso do candidato a presidente da câmara. Há a pobreza. A riqueza. A corrupção. A frustração. A degradação. O espectro da doença mental. O bullying.  A solidão. A marginalidade. A loucura. A maldade. O que fazer quando se está completamente sozinho no mundo? Onde está a sociedade que nos devia amparar quando alguém se afunda na sua própria tristeza e loucura? Essas são perguntas que não podemos deixar de fazer. E está tudo muito bem filmado e muito bem feito. Não sendo um filme realista, mesmo quando é claramente exagerado não chega a ser cartoonesco (não, isto não tem nada a ver com o mundo de Batman e isso, para uma espectadora como eu, só pode ser bom).

Ainda assim, eu gostei bastante de Joker mas não achei que fosse um murro no estômago (leiam AQUI um texto interessante do Vítor Belanciano sobre isso). 

Além disso, gostei bastante de Joker mas com um distanciamento. É que, gradualmente, ao longo do filme, vai-se impondo a ideia de que a injustiça social pode servir de justificação para a violência. E essa é uma ideia que me afasta. A injustiça social é justificação para muita coisa - para a falta de educação, para a falta de oportunidades, para a pobreza, para um sentimento de revolta - mas, para mim, não pode servir de justificação para assassínios e para a violência indiscriminada. Mesmo que o seja só na cabeça dele.

E ainda estou a decidir se perdoo ao Todd Phillips por ter usado o tema That's Life, do Frank Sinatra, que assim ganha um sentido completamente diferente daquele que eu lhe dava...

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publicado às 08:25


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