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A minha descoberta do ano é Leila Slimani, uma escritora franco-marroquina de 43 anos, que nasceu em Rabat e aos 17 se mudou para Paris, estudou Ciência Política e foi jornalista. Dela, li O Perfume das Flores à Noite, que é um ensaio nascido do convite para passar uma noite num museu em Itália, e é ok para o que é. Mas depois descobri a sua ficção e fiquei rendida.Canção Doce é um livro extraordinário e O País dos Outros não lhe fica muito atrás. Quero muito ler os outros livros dela. 

Canção Doce começa com um acontecimento trágico: uma ama mata as duas crianças de que é cuidadora. Voltamos depois atrás para conhecer a sua história. Estamos em Paris, em casa de um jovem casal de classe média culta, Paul e Myriam, não ricos mas com um bom nível de vida. Quando Myriam retoma a sua actividade profissional, como advogada, após o nascimento dos filhos, decidem contratar uma ama. Depois de várias entrevistas, a escolhida é Louise. A ama perfeita. Carinhosa com as crianças, boa dona de casa, excelente cozinheira, parece ter sempre tempo para fazer tudo e ainda brincar e dar atenção aos pequenos. Louise é a salvação daquela família. Mas, longe da vida de contos de fada da família, Louise também tem uma vida e tem os seus problemas, vive com dificuldades financeiras, sente-se sozinha, mal consegue dormir, há momentos em que a sua cabeça parece explodir. Aos poucos, a ama começa a ter comportamentos sufocantes, a relação com Myriam torna-se tóxica, tudo se desmorona até ao desfecho horrível.

Em O País dos Outros a acção passa-se em Meknés, em Marrocos, para onde os recém-casados Mathilde e Amine vão morar após a Segunda Guerra Mundial. Foi durante a guerra que Amine, marroquino que combateu no exército francês, conheceu Mathilde. Apaixonaram-se. Mas a vida em Marrocos acaba por ser um desafio enorme para esta jovem francesa, uma vez que, ali, as diferenças culturais tornam-se muito mais visíveis. A família instala-se numa quinta, Amine trabalha para que os campos produzam, Mathilde ocupa-se da casa, os filhos nascem e crescem ao mesmo tempo que o país inicia um processo revolucionário tendo em vista a independência. Mathilde sente-se sozinha. Amine teme pelo futuro. A relação nem sempre é pacífica, mas,  mesmo quando tudo corre mal, continuam juntos. A história, tanto quanto percebi, é inspirada na da família da autora.

O que torna estas histórias especiais é a maneira como Leila Slimani as conta, numa escrita clara mas sem facilitismo, recusando a linearidade, entrançando pequenas histórias e pequenos acontecimentos para dar corpo ao tronco principal da narrativa, desviando-se sempre que sente que é necessário porque nenhum desvio é tempo perdido, pelo contrário, como numa pintura, todos os pormenores fazem parte do quadro que se está a pintar. A mim encheu-me completamente as medidas. Gosto quando me sinto tão afundada nas histórias que estas quase me parecem reais, quando consigo imaginar os rostos das personagens, entender o que sentem, visualisar os seus gestos, mergulhar nos seus mundos. Gosto desta atenção aos detalhes. Que a acção principal seja simplesmente a vida a acontecer. Que não seja preciso explicar porque é que Louise cometeu um crime horrendo ou porque é que Mathilde fica, mesmo depois de ser espancada pelo marido. Que as personagens sejam tão humanas que quase nos pareçam familiares.

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publicado às 11:23


3 comentários

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Rhesus 31.12.2024

Só li No jardim do ogre, sem grande entusiasmo: a história é banal, com uma burguesa aborrecida com a vida real, e uma escrita fluída, mas só isso não chega...
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Inês 31.12.2024

Gostei muito de «Canção doce», quero ler «O país dos outros»
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Gata 27.01.2025

Inês, obrigada por avisar do post repetido. Não sei o que se passou. Quando apaguei o post que estava duplicado o seu comentário ficou também apagado, lamento muito. beijinho

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