Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Como sempre, aproveito esta época do natal em que estou mais liberta dos afazeres de mãe para tentar ver alguns filmes e desta vez tive muita sorte porque deu para ir ao cinema ver dois dos filmes que mais queria ver em 2021: Madres Paralelas, de Pedro Almodóvar, e Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson. O resto vi em casa, na televisão.

Licorice Pizza

Licorice-Pizza-courtesy-of-We-Got-This-Covered-.jp

Licorice Pizza é absolutamente delicioso. Eu sou grande fã do Paul Thomas Anderson (na verdade, não consigo lembrar-me de nenhum filme dele de que não tenha gostado) e tinha lido umas coisas sobre o filme mas não sabia exactamente o que esperar. O próprio título não nos dá nenhuma pista. Aparentemente, Licorice Pizza era o nome de uma loja de discos que havia em San Fernando Valley, Los Angeles, onde o realizador cresceu e onde se passa a ação, nos anos 60.

O filme acompanha a amizade entre um rapaz que no início tem apenas 15 anos (interpretado por Cooper Hoffman, que é filho de Philip-Seymour Hoffman - com quem PTA trabalhou e de quem era amigo) e uma rapariga dez anos mais velha (interpretada por Alana Haim, uma das músicas das Haim, para quem PTA realizou vários videoclipes). É a estreia cinematográfica de ambos mas não se nota nada. Os borbulhentos Gary e Alana (assim se chamam as personagens) partilham o sonho de ser ricos (e famosos, afinal, Hollywood está mesmo ali ao lado) e estão dispostos a tudo para isso, vão ser parceiros de negócios, ganhar e perder dinheiro e ter muitas discussões, às vezes pondo em causa a sua amizade. Há momentos em que quase parece estarmos perante um filme de aventuras de adolescentes, mas com óptimos diálogos, uma banda sonora escolhida a dedo e a aparição surpreendente de figuras como Tom Waits, Sean Penn ou Bradley Cooper.

Simples e tocante, como eu gosto. E o Cooper tem o sorriso do pai.

Madres Paralelas

Seria sempre muito difícil a Pedro Almodóvar fazer um filme depois de Dor e Glória, que era magnífico. Ainda assim este filme é muito bom. Madres Paralelas é também uma reflexão sobre a maternidade e, ao mesmo tempo, sobre a importância de sabermos de onde viemos e onde estão as nossas raízes (e o sub-enredo sobre a Guerra Civil de Espanha, com um toque quase documental, não deixa de ser um pouco surpreendente). Mas é sobretudo um filme sobre mulheres, nas suas diferentes facetas e papéis. O filme tem pormenores muito bons, começando pelos actores (Penélope Cruz, Milena Smit e Israel Elejalde - dois rostos que eu não conhecia) e passando pela música, os cenários, as cores, os enquadramentos perfeitos e a ressonância de todos os melodramas que já vimos e que nos dão uma reconfortante sensão de familiaridade. Tudo extraordinariamente belo. 

O Poder do Cão

Confesso que ia um pouco desconfiada. Gajos a tomar conta do gado e que se descobrem gay, onde é que já tínhamos visto isto? Mas até que gostei deste O Poder do Cão, de Jane Campion, filme marcado pela lentidão, pelos muitos silêncios, por uma natureza hostil e uma masculinidade "bruta". Mas onde também há subtilezas. Benedict Cumberbatch e Kirsten Dunst estão muito longe daquilo que costumam ser os seus registos e isso, particularmente nela, acaba por ser uma boa surpresa. Na Netflix.

A Mão de Deus

Nápoles, Itália, anos 80. Tudo acontece entre aquela altura em que se especulava sobre a vinda (quase impossível) de Diego Maradona para o clube de futebol da cidade, a chegada do jogador argentino, e o momento em que o Nápoles se sagra campeão italiano. Paolo Sorrentino regressa à sua cidade e ao seu bairro (vale a pena ver o mini-doc de oito minutos com a entrevista ao realizador) para contar a história de Fabietto, um jovem liceal, ainda quase sem barba, fascinado por Maradona e por mulheres voluptuosas (o que - embora me tenha feito alguma confusão, confesso - pode justificar em parte o modo "babado" como Sorrentino mostra as mulheres neste filme). A família de Fabietto é composta por figuras estranhas e exacerbadas, tudo muito barulhento. No entanto, a trágica morte dos pais vai mudar definitivamente a sua vida e obrigá-lo a crescer. Filme de uma beleza muito fotográfica, A Mão de Deus é também uma homenagem aos cineastas italianos que inspiraram Sorrentino e à magia do cinema, que nos ajuda a esquecer a realidade. Este é o filme italiano candidato aos Óscares. Na Netflix. 

A Metamorfose dos Pássaros

Candidato português ao Óscar de Melhor Filme Internacional, A Metamorfose dos Pássaros é uma viagem de Catarina Vasconcelos pela história da sua família, centrada nas figuras da sua avó paterna, que ela não chegou a conhecer, e da sua mãe, que morreu quando ela tinha onze anos. Misturando memórias reais e ficção, actores e verdadeiros elementos da sua família, Catarina Vasconcelos presta homenagem a estas mulheres e às mulheres e às mães, de uma maneira geral. Filme sobre o amor, sobre a família e sobre a perda, A Metamorfose dos Pássaros é um filme bastante emocionante e íntimo, o que contrasta com a racionalidade dos planos, belos na sua composição perfeição. Como quadros. Óptimo para quem, como eu, gosta de folhear álbuns de fotografias antigas. Deu ontem na RTP2, por isso é aproveitar.

Não Olhes Para Cima

A comédia de Adam McKay é protagonizada por dois cientistas - interpretados por Leonardo Di Caprio e Jennifer Lawrence - que descobrem que um cometa está em rota de colisão com a Terra e que se nada for feito a vida humana não irá sobreviver ao impacto. Os seus alertas são ignorados pela fútil presidente dos Estados Unidos (Meryl Streep) que está demasiado ocupada a tentar ganhar as próximas eleições, são gozados pelos media (Cate Blanchet é a apresentadora de televisão) demasiado ocupados em entreter as massas e são ignorados pela generalidade das pessoas, demasiado autistas e com as cabeças enfiadas nos seus telemóveis para perceberem o que realmente vai acontecer. A cereja no topo do bolo é um magnata tecnológico, espécie de Steve Jobs misturado com Bill Gates e Elon Musk, que aparece como messias com um solução milagrosa mas que, afinal, se revela um embuste. A paródia à sociedade contemporânea é mais do que óbvia. As caricaturas são, como todas as caricaturas, exageradas. Não Olhes para Cima tem provocado reacções extremadas, de amor e de ódio, como se fosse o grande marco distintivo entre esquerda e direita, mas a mim parece-me que lhe estão a dar demasiada importância. Garanto que sou de esquerda até à medula e posso dizer que o filme me aborreceu de morte e não lhe achei graça nenhuma. Nem me vou incomodar a argumentar. Basicamente, isto os filmes é como os homens: até podia ser perfeito mas não houve química.

Tags:

publicado às 17:16



Mais sobre mim

foto do autor