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A Gata Christie



Segunda-feira, 05.03.18

Montanha russa

Ter um filho adolescente é como ser mãe pela primeira vez, outra vez. Nada nos prepara para isto. As crianças têm 10 anos e uma pessoa acha que já sabe mais ou menos com o que pode contar, que já dá conta do recado, que isto de ser mãe se calhar não é assim tão difícil, julgamo-nos o melhor condutor do mundo e, no entanto, lá vem a adolescênca para nos trocar as voltas. 13 anos. Aquela criança linda e amorosa transforma-se, de repente, numa pessoa que mal conhecemos, uma pessoa de phones nos ouvidos e os olhos pregados ao telemóvel, que tanto nos derrete com as suas conversas queridas e com o seu sentido de humor como diz umas parvoíces enormes e é tão mal educado que temos que nos controlar para não lhe dar um belo par de estalos. É como ter um estranho em casa. Dou por mim a perguntar: onde está o meu filho? Os adolescentes fazem coisas como soprar quando os mandamos arrumar a roupa, dar respostas tortas, mentir quando não lhes convém dizer a verdade, amuar quando os obrigamos a fazer programas de família, não estudar, ouvir músicas horríveis, desafiar a autoridade dos pais, ignorar o que lhes dizemos, estar-se nas tintas para o mundo, teimar que estão certos, ser ainda mais mal educados. Pelo meio também fazem coisas boas, é claro. Mas em muito menos quantidade. Ter um filho adolescente é muito mas mesmo muito mais difícil do que ter um bebé, e eu sei que isto é um cliché mas não é por isso que é menos verdade. Porque nós sabemos que os bebés crescem rapidamente e, com mama ou sem mama, com chucha ou sem chucha, com mais ou menos histórias ao fim do dia, desde que a gente esteja ali a tomar conta deles, desde que haja colo e comida e amor tudo irá ao lugar. Já quanto aos adolescentes aquilo que sinto é que posso mesmo estar a fazer tudo errado e que os erros que eu cometer agora poderão ter consequências mesmo graves no futuro. Estamos permanentemente na corda bamba. E nunca se sabe o que poderá acontecer. É uma sensação horrível. Mas continuarei a dar o meu melhor, que é a única coisa que posso fazer.

Não tenho soluções milagrosas. Vou errando. Vou aprendendo. Continuo a errar.

Sei que não estou sozinha nisto. O que não me ajuda mas dá-me algum alento.

E tento sempre lembrar-me que se isto é mau para mim, para ele também não deve ser nada fácil. Afinal, estamos juntos nesta montanha russa de emoções e hormonas descontroladas. 

É sobre isto tudo que fala o espectáculo Montanha Russa, de Miguel Fragata e Inês Barahona, que se estreia esta semana no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Eu vi um ensaio mas gostei tanto que já reservei bilhetes para ir ver de novo e levar os meus miúdos. Aconselhado a adolescentes e a pais de adolescentes. E ainda que não tenham nada a ver com adolescentes podem ir ver à mesma porque é um espectáculo muito fixe, com boa música, bons actores. Que nos diverte. Que nos faz pensar. Que nos faz voltar aos nossos 13 anos.

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Fotografia de Nuno Fox/ Agência Lusa

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por Gata às 10:23


4 comentários

De Anónimo a 05.03.2018 às 13:32

já comprei também. obrigada pela dica e pelas palavras que podiam ser minhas.

De Anónimo a 02.04.2018 às 15:06

Boa tarde,
Depois deste post, e sendo mãe de dois pré-adolescentes, comprei bilhete, aproveitando umas mini-férias na zona de Sintra. Adorámos, nós os pais, e eles, os pré-teen.
Muito obrigada! Sou uma leitora assídua, gosto das suas partilhas.
Manuela

De Gata a 02.04.2018 às 16:48

Que bom, Manuela. Ainda bem que gostaram :)
obrigada pela companhia.
Maria João

De Anónimo a 04.04.2018 às 13:52

Nunca comentei nada aqui. Nem aqui nem em lado nenhum...
Mas li isto agora. Também li o outro post, o do orgulho que tem dele em jogo, pelas atitudes e valores que lhe vão no coração. Identifiquei-me muito!
Por isso, queria só dizer-lhe: hoje o meu tem 16 acabados de fazer. Aos 13, às vezes, também não o conhecia e magoavam-me muito as mentiras. Tenha só muita paciência mais 2 ou 3 anos.
E quando esse tempo passar, ele vai começar a querer ser "adulto". Arranje espaço. Arranje muito espaço no seu peito, porque o orgulho que vai sentir pelo "seu adulto", às vezes não nos cabe cá dentro.

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