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06
Mar19

Mulher

Esta coisa de sermos quem somos, sem mas, sem culpas, sem tabus. Esta tem sido a longa caminhada das mulheres ao longo da história. E tem sido também a minha própria caminhada nestes quase 45 anos. As mulheres crescem sob censura. Uma menina não deve. Uma rapariga nunca. Uma senhora jamais. De coisas tão simples como não dizer palavrões a coisas tão complexas como não revelar os seus desejos sexuais (mulher decente não tem cá disso) passando pelas coisas óbvias como não andar sozinha na rua à noite, é longa a lista de coisas que as mulheres não devem fazer porque são mulheres e só por isso estão sujeitas a mil perigos ou apenas porque têm uma reputação a manter (o que é que as pessoas vão pensar?).

 

Esconder. Calar. Aceitar. Obedecer. Tapar o corpo. Sufocar as vontades. Conter os gestos. Silenciar as palavras. Sentir vergonha.  

 

Evoluímos muito, não há dúvida. Mas ainda há muito por fazer. No mundo inteiro. Aqui mesmo em Portugal, não se deixem enganar. As mulheres que fazem o que querem ainda são seres estranhos. Ainda são motivos de artigos de jornal no dia da mulher - e enquanto for necessário fazer artigos de jornal sobre as mulheres extraordinárias que fazem o que querem é porque ainda há um caminho por andar.

 

A propósito:

 

- O filme Period. End of sentence, que ganhou o Óscar para Melhor Curta Metragem de Documentário, mostra uma comunidade na Índia (um país onde apenas 10% das mulheres usam pensos higiénicos, as outras usam "paninhos") onde uma pequena unidade de produção de pensos low cost está a mudar a vida de muitas raparigas. É comovente de muitas maneiras. E não deixa de nos pôr a pensar que enquanto nós, na Europa, nos preocupamos com o ambiente e andamos a tentar substituir os pensos por copos menstruais, ainda há mulheres para quem o simples uso de um penso descartável pode significar um passo gigantesco rumo à emancipação. O filme está disponível na Netflix.

 

- A música de Mynda Guevara, uma rapper de 22 anos. Conto a história dela e da sua determinação AQUI

 

- E, já agora, o filme de Raquel Freire onde Mynda Guevara aparece. Chama-se Mulheres do Meu País e é um documentário que nos mostra como várias mulheres são heroínas todos os dias, só pelo simples facto de serem mulheres e de, apesar disso, não quererem deixar de fazer as coisas que têm vontade de fazer. Estudar, pescar, ser bombeira, fazer rap, o que for. O filme tem ante-estreia amanhã, em Lisboa, e depois vai chegar à RTP. 

 

Embora não ligue nada, acho bem que se assinale o Dia da Mulher, porque ainda é necessário, mas não se esqueçam: somos mulheres todos os dias.

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publicado às 17:36



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