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A Gata Christie



Segunda-feira, 30.07.18

Nanette

Há um momento, a meio do espetáculo de stand-up comedy Nanette, em que as gargalhadas deixam de se ouvir. Nem um aplauso. Nem sequer um daqueles risos envergonhados. Nada. Só o silêncio na enorme sala da Ópera de Sydney enquanto Hannah Gadsby, de 40 anos, conta como foi crescer na Tasmânia onde 70% das pessoas achavam que a homossexualidade era não só um pecado como deveria ser considerada um crime - como aconteceu até 1997. Conta como disse à mãe que era lésbica mas nunca, até agora, teve coragem de contá-lo à avó porque, apesar de fazer espetáculos onde fala abertamente sobre o assunto, no seu íntimo continua a sentir vergonha. Conta como foi violada por duas vezes e como foi espancada por um homem por ser, como ele lhe chamou, “uma aberração” e “uma paneleira de merda”. Conta como construiu uma carreira “à base do humor autodepreciativo”, humilhando-se voluntariamente em público, e como não quer continuar a fazê-lo. “Vou deixar a comédia”, anuncia, sabendo que é um paradoxo irresolúvel e até risível isso de se anunciar que se vai deixar a comédia a meio de um espetáculo de stand-up comedy.

“Quando saí do armário, a única coisa que sabia fazer era ser invisível e odiar-me. Demorei dez anos a perceber que podia ocupar um espaço no mundo mas, nessa altura, já o tinha transformado em piadas, como se não fosse nada de importante. Agora, preciso de contar a minha história como deve ser”, explica. Contar uma história com princípio, meio e fim; não em forma de piada. Porque “o riso é só o mel que adoça o remédio amargo”. O riso não é a verdadeira cura, percebeu.

E, já que estamos a ser sinceros, vamos lá falar de preconceitos e misoginia e machismo e de todas as outras mulheres que desde que o mundo é mundo são alvo de abusos vários. Vamos lá falar de Weinsten, de Bill Clinton, de Picasso. Também questionar o que é isso de fazer um "humor lésbico" e o que é isso de ser artista (toda a história em volta do Van Gogh é deliciosa). Nos momentos em que este ainda é um espetáculo de stand-up comedy, Hannah Gadsby é uma das mais corrosivas e certeiras humoristas que andam por aí e não é por acaso que Nanette se estreou em 2017 e ganhou prémios em vários festivais de humor até, em junho passado, chegar à Netflix e se tornar um verdadeiro fenómeno global. Nanette é também por isso uma lição de alguém que domina perfeitamente a arte da comédia e que decide desconstruí-la ali, à nossa frente. Pôr-nos a rir desbragadamente. E depois calar-nos. 

Na sexta-feira, em Montreal, Hannah Gadsby apresentou Nanette pela última vez. Ou pelo menos é o que ela diz. Se vai deixar a comédia? Isso não é importante. E o mais provável, ela já o admitiu, é que não desista. Mas talvez procure outros caminhos. “Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu”, avisa. Essa é a grande lição deste espetáculo. O que nos faz continuar, o que nos permite sobreviver é a ligação aos outros. Essa é a sua última palavra em palco: connection. Como quem diz: amor.

Este texto é uma adaptação de um texto que publiquei no passado domingo do DN.

Sobre Hannah Gadsby há muito para ler na internet. Aconselho-vos:

Entrevista à Vulture, em janeiro

Um texto da própria Hannah 

Este artigo no The Lily

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por Gata às 19:12




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