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01
Abr14

O divórcio

Um dia, uma amiga disse-me que o pior de tudo no divórcio tinha sido a sensação de falhanço. Não a percebi, na altura. Mas percebo-a agora. O fim de um casamento não é só o fim de um casamento. É o fim de um projecto de vida. Um projecto que era para sempre. Que incluía filhos e netos, tios e primas, sobrinhos e afilhados. Que incluía férias no Algarve e sonhar com uma casa no campo. Que incluia o colchão que comprámos a pensar no modo como os nossos corpos se encaixam, o candeeiro que escolhemos juntos, o tapete de que um de nós nunca gostou. Que metia os amigos ao barulho e as festas que planeávamos fazer e as conversas que tínhamos. Que metia gargalhadas e discussões. Projectos de trabalho, lutas a travar, promoções e contrariedades. Rotinas. Idas ao supermercado. Sopas. Roupa por estender. Colos. Coisas boas e coisas más. Memórias que se acumulam. Envelhecer de mão dada. Cuidar um do outro. Um casamento não é só um papel que se assina. É uma vida que se constrói todos os dias a dois (e a mais). Por isso quando um casamento acaba não é só o casamento que acaba. É a vida tal como a conhecemos que acaba. E começa de outra maneira. Com um tapete novo. Com outro colchão. Sem aqueles primos. Sem aquela rotina. Com outros sonhos. Talvez outro amor. Por isso, mesmo quando temos a certeza que é o divórcio que queremos. Mesmo quando o afecto já se foi. Mesmo quando há rancores que nos corroem. Mesmo quando sabemos que estamos a dar o passo certo, o passo que nos vai fazer bem, o único passo a dar. Mesmo assim (ou, talvez, sobretudo aí) perguntamo-nos como foi possível acreditar tanto e, afinal, estar tão errada. Como foi possível perder tanto tempo e desperdiçar tantos sonhos. Como foi possível investir tanto, querer tanto. E não conseguir. É que não foi um mero engano, uma coisa de nada. Foi um erro do tamanho de uma vida. Um falhanço, como quando se erra um golo de baliza aberta. Estava ali tudo e no entanto.

No dia em que fui assinar o meu divórcio não tirei os óculos escuros. Chorei o tempo todo. A senhora a ler aquelas coisas todas, o nosso nome, a morada, a casa, o carro, o número do cartão de cidadão, papéis intermináveis para assinar, a senhora a perguntar se eu queria mesmo divorciar-me e não bastou eu acenar com a cabeça, tem que dizer em voz alta, disse ela, e eu disse numa voz sumida, sim, quero, como tinha feito para casar, sim, quero, são as mesmas palavras, mas desta vez eu estava de óculos escuros e a chorar. Não era um chorar de tristeza. Essa já tinha passado, há muito. Era o chorar de quem se confronta com o seu falhanço. Total. Era um chorar de vazio. De quem perdeu o chão e agora vai ter de começar de novo. Tudo de novo. Ou quase tudo.

Outra vida. A mesma vida, que é a nossa.

publicado às 15:31


14 comentários

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Agridoce 02.04.2014

É a primeira vez que comento, mas não podia não comentar.

Escreveste o que eu tentei tantas vezes e não consegui. O que custa é esse assumir do erro, é o assumir o falhanço, o assumir que aquilo em que acreditávamos não era verdade. Ou talvez assumir que não acreditámos o suficiente. Ou que acreditámos mas não foi suficiente. E ficar com aquela dúvida se algum dia será suficiente. E ficar a remoer se seremos capazes de recomeçar do zero. De correr o risco de voltar a errar.

É uma grandessíssima treta, isso de construirmos uma vida a dois que, de repente, é deitada ao chão.

Abraço!
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A Miúda Lusitana 03.04.2014

Nunca passei por isso (e espero nunca passar), até porque nunca me casei. Mas já passei por uma separação e, embora numa escala diferente, foi a coisa mais dura que me aconteceu até hoje. Não há muito a dizer além dos clichés, portanto apenas lhe desejo que tenha força. Tudo correrá bem.
A dor faz-nos escrever textos muito tristes. Mas, muitas vezes, incrivelmente bonitos. Este é um dos casos.
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CAL 07.04.2014

Boa tarde,

a fonte presta-se a risota (para muitos), descrédito, e similares. Não obstante, acredito que um dia acontecerá sentir o teor da mensagem esboçando, naturalmente, um genuíno sorriso.

https://www.facebook.com/psychicmediumje/photos/a.457116754305599.127858.116996081651003/863522130331724/?type=1&theater

(percebo se optar por não publicar, em boa verdade, foi a pensar em si, se não mesmo exclusivamente em si, que decidi comentar)
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James 23.05.2017

Exactamente como me sinto. Obrigado por este texto!

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