Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



É importante estarmos disponíveis para olhar para o outro, para conhecermos o outro, diferente de nós, seja qual for essa diferença, a cultura, o género, a língua, disse o André Tecedeiro numa pequena conversa com o público após uma sessão do filme Orlando - A Minha Biografia Política, de Paul B. Preciado. Gostei tanto deste filme. Desafiado a fazer um filme sobre a sua vida, Preciado respondeu que preferia fazer uma adaptação documental de Orlando de Virginia Woolf. Escrito em 1928, Orlando foi o primeiro romance em que a personagem principal muda de sexo no meio da história. Ou, dito de outra forma, como ele diz no filme, Preciado achava que não havia necessidade de escrever uma nova biografia, uma vez que ela já tinha sido escrita. Como se todas as histórias das pessoas transgénero se misturassem, de alguma forma, com a história de Orlando. Todas são Orlando, embora cada uma à sua maneira. E, assim, em vez de se mostrar a si mesmo, desafiou outras pessoas transgénero a serem Orlando neste filme e a contarem um pouco das suas histórias. Da incompreensão da sociedade aos consultórios dos psiquiatras, da busca incansável (e tantas vezes frustrante) pelo amor, à busca por um corpo a que possa chamar seu (uma cena tão bonita na sala de operações) e ao direito a um nome, ou seja, uma identidade. Que cada um possa ser o que quiser ser, nos seus próprios termos, é de facto uma conquista importante - para cada um de nós, para todos nós, enquanto sociedade. E, no entanto, parece que é (ainda) tão dificil. Tantos passos já dados, tantos passos ainda por dar. 

A propósito: 

Uma entrevista do Paul B. Preciado em que ele explica a ideia para o filme.

"Este é o meu corpo", uma reportagem do meu colega Wilson Ledo sobre algumas destas questões.

Falei com a Maria João Vaz, a propósito do livro de memórias que publicou, e fiquei desarmada com a sua honestidade e felicidade.

Sobre este tema, Girl - O Sonho de Lara é um filme de 2018 de Lukas Dhont que me perturbou muito quando o vi, por todo o sofrimento que vemos na protagonista. Está disponível no Filmin, tal como outro filme de Dhont, que não é sobre pessoas trans mas continua a ser sobre a importância de podermos ser quem somos e sobre a pressão que a sociedade exerce sobre todos nós para nos "conformarmos" à norma: Close esteve nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional e é tão belo quanto triste.

publicado às 20:05



Mais sobre mim

foto do autor