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20
Out25

Pulso

A minha mãe usava uma pulseira elástica no pulso direito, o seu único pulso, cansado e desgastado por ser o único há tanto tempo, por ter de fazer sozinho o trabalho de dois. Era uma pulseira castanha que ela apertava com a ajuda dos dentes, como fazia tantas outras coisas, porque arranjara maneira de fazer quase tudo, teimosa como era, determinada a não dar parte de fraca, para que nunca a olhassem como uma aleijada, de tal maneira que cresci a achá-la completa, de tal maneira que quase nos esquecíamos, que quando alguém me perguntava, então a tua mãe?, eu era apanhada de surpresa, porque não a via como alguém com uma falta. Era isso que a deixava feliz. Essa aparente normalidade. Acho que só percebi verdadeiramente a dimensão disto muito mais tarde, já crescida, já com filhos meus, quando lhes pegava ao colo, quando os embalava, quando os alimentava, quando lhes dava banho. A falta de um pulso não é só a falta de um braço, que se compensa pedindo braços emprestados aos que te rodeiam. É uma falta maior. É a falta de tudo o que não podes fazer porque um bebé não é uma toalha que queres dobrar e basta pegar uma das pontas com os dentes para desenrascar. Há faltas que doem mais do que outras e esta deve lhe ter doído de maneiras que nunca saberei porque nunca falámos sobre isto, entretidas que andávamos a fingir que nada nos faltava.

Hoje é o dia da nossa mãe. Aqui está ela, linda, fotografada pelo nosso pai, o único com quem falava sobre tudo, o único que a conhecia totalmente, acho. 

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Achei que esta semana ia falhar no largo, mas hoje acordei com isto para dizer e acho que ainda vou a tempo. Há pulsos mais arrebitados por aqui:

publicado às 11:10


1 comentário

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Bea 22.10.2025

Tão bonito e sentido este seu post. Tão conforme aos outros em que sua mãe pontua. Sobre as mães nunca se diz tudo, há uma incompletude terna suspensa sobre o amor que lhes dedicamos. As palavras são inermes seres, tentativas incapazes, tenteios de bebé que nunca chega à outra ponta, cai antes do ponto de chegada. Mas, quem sabe, é mais bonito pela fragilidade, mais bonito porque tropeça.

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