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09
Mai19

Recomeços

"Vladimir: We could start all over again perhaps.
Estragon: That should be easy.
Vladimir: It's the start that's difficult.
Estragon: You can start from anything.
Vladmir: Yes, but you have to decide."

Waiting for Godot (1952), Samuel Beckett

 

No fim-de-semana fui ao Teatro Nacional D. Maria II ver o espetáculo Conversations Out Of Place, uma criação de Ivana Müller, e lembrei-me muito de Godot - e não foi só porque, tal como na peça de Beckett, também aqui o palco está praticamente vazio, apenas com uma árvore. Quatro personagens caminham perdidas numa floresta, não sabemos muito bem quem são nem de onde vêm, imaginamos que procuram o caminho de regresso a casa mas sem nunca alcançá-lo. Passam-se dias, semanas, meses. E nada mais lhes resta se não continuar a mexer-se (em câmara lenta) e a falar, pois enquanto se mexerem e enquanto falarem continuarão vivos. Mesmo que a deteterminada altura já não consigam lembrar-se para onde se dirigem nem porque continuam a caminhar. As conversas repetem-se mas já não interessa nada do que digam. É só preciso continuar. Tal como Estragon e Vladmir estão presos naquela encruzilhada, passam a vida a dizer "vamos" mas nunca vão, também estas personagens estão presas neste movimento permanente. A mensagem acaba por não ser tão desesperante quanto a de Godot mas não deixa de nos pôr a pensar. Estamos perdidos nesta floresta, e isso tem tanto de assustador como de desafiante. Iremos alguma vez encontrar o caminho para casa? Ou, como disse a minha amiga Cláudia, colocando o foco no livre arbítrio, teremos coragem para romper com o rame-rame da vida e fazer um verdadeiro esforço para encontrar o outro (para nos encontrarmos) ou seguimos a nossa vidinha fazendo aquilo que é esperado de nós, sem qualquer entusiasmo, sem objectivo?

Podemos sempre começar. Ou começar de novo. Mas para isso temos que decidir fazê-lo. Essa é a parte verdadeiramente difícil.

publicado às 08:08


2 comentários

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Anónimo TFM 10.05.2019

Eu não me importo de saltar, tenho apenas a terrível incerteza de não saber para onde... acontece por coincidência neste preciso momento ter saltado e, algo que do ponto de vista Newtoniano é perfeitamente razoável, ter a sensação de ir aterrar exactamente no mesmo sitio...

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