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A Gata Christie



Domingo, 23.12.18

Roma

(spoiler alert)

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Vi, finalmente, Roma, o filme de Alfonso Cuarón que tem ganho vários prémios, está em quase todas as listas de melhores do ano e irá, tudo o indica, ser um dos vencedores nos Óscares.

Antes de vê-lo já tinha visto comentários maravilhados e críticas tremendas. Na maior parte dos casos, fiquei-me só pelos títulos, porque não gosto de ler muita coisa sobre um filme antes de ter oportunidade de desfrutá-lo plenamente. Tenho esta convicção de que uma obra de arte deve valer por si mesma, antes de mais. E pela relação que estabelecemos com ela, sem intermediários. Só preciso saber o básico, seja de um filme ou de um quadro. E, depois, então sim, vou à procura de informação, de contexto, de outras opiniões. Na maioria dos casos, sobretudo quando a obra é boa, essas pesquisas e o debate com outras pessoas trazem-me novos pontos de vista, ajudam-me a perceber ou, pelo contrário, criam-me perplexidades, levam-me a fazer interrogações, mas sempre enriquecem a minha experiência. Vi, então, o Roma, e fui depois ler o que se tinha escrito por aí. 

Eu gostei muito do filme.

A história passa-se em 1971, na casa de uma família de classe média alta que mora num bairro de elite na Cidade do México. Um casal desavindo, quatro filhos, uma avó, duas empregadas internas, um motorista. A câmara anda em volta de Cléo, uma das empregadas. São duas raparigas novas e indígenas, que deixaram a sua terra, a sua família, a sua cultura, para viverem em função das vidas e dos desejos dos patrões. Trabalham imenso, a toda a hora, cumprindo tarefas grandes e pequenas, desde limpar o cocó do cão no quintal a distribuir miminhos e aconchegar os lençóis das crianças. Facilmente reconhecemos esta dinâmica. Cléo não é muito diferente das criadas que também existiam nessa altura em Portugal, adolescentes vindas da província e de quem se esperava dedicação total. Aliás, a presença de uma criada-ama que cuida dos filhos da família e acompanha o seu crescimento, criando com eles uma ligação afectuosa, não foi, de todo, um exclusivo mexicano nem português.

Cuarón explicou, entretanto, que o filme se baseia na sua própria experiência, na sua família e na empregada que tinham lá em casa, chamada Libo. Para fazer este filme, além das suas memórias, entrevistou Libo, com quem ainda hoje mantém uma relação de amizade. O realizador explicou ainda que este filme é uma homenagem e uma agradecimento a Libo (e, através dela, às muitas outras criadas que abdicaram de si para cuidar de uma família que não é sua).

No entanto, o filme nunca assume o ponto de vista de Cléo. Nunca penetra nos seus sentimentos. Nunca nos dá a sua visão da história. Nós conseguimos perceber o que ela sente, o que deseja, o que cala, o que a magoa. Mas ela nunca o exprime. Embora o filme seja sobre Cléo, o ponto de vista é de Cuarón (não o Cuarón criança, mas o Cuarón realizador mexicano instalado em Hollywood que olha para traz e se enternece com aquela mulher).

Esta é a crítica mais recorrente a Roma. Leiam AQUI e AQUI, por exemplo. Os que não gostaram do filme acusam-no de justificar e prolongar a exploração daquela mulher, mostrando-a submissa e dedicada perante uma família, como se houvesse entre eles uma espécie de amor, um laço afectivo, que na verdade só existia na cabeça dos patrões, ignorando as queixas que Cléo certamente teria e o seu desejo de ter uma vida muito diferente daquela. Onde está a sua revolta perante tamanha injustiça?, perguntam.

Tenho uma perspectiva um pouco diferente.

Tenho algumas questões sobre a estética da pobreza, este embelezamento da miséria, que se deve muito ao preto e branco (e não tenho qualquer dúvida de que se tivesse sido filmado a cores Roma seria um filme muito mais cru e realista e perderia grande parte do seu lirismo e também da sua capacidade de encantamento), mas estas questões não são suficientes para me fazer não gostar. Gostaria, talvez, de ver mais aprofundado o contexto político da época mas percebo que o filme não é sobre isso. Há que fazer escolhas para que a história não se perca.

Dito isto, para mim, a infelicidade de Cléo está toda lá para quem a quiser ver. Uma tristeza permanente naquele olhar, nos gestos, na voz. Sim, ela conforma-se à vida que tem, como milhares de outras mulheres o fizeram. Pensando: do mal o menos. Talvez até agradecendo que a levem ao médico e que lhe ofereçam o berço para o bebé. Talvez até sentindo profunda ternura por aqueles miúdos e verdadeira alegria quando a abraçam. Aquela felicidade que se sente no meio de toda a infelicidade da vida. Mas claro que ela não é feliz. Eu acho que o filme não nos leva a acreditar que ela seja feliz, e que nem quer que pensemos isso. 

Há momentos, é verdade, em que sentimos que por parte da família e especificamente da sua patroa há uma tentativa de criar uma narrativa de felicidade, com aquela ideia de "gostamos tanto dela como se fosse da família" e que era uma coisa também bastante comum. Já ouvi pessoas a dizerem isto das suas amas dos tempos coloniais e a sentirem-se muito generosos por pensarem tal coisa (ah, ela até gostava de ser nossa criada porque nós a tratávamos muito bem, para mim era da família). Mais uma vez: vejo-o como o retrato de uma situação verosímil. Não sinto que o filme tome esse partido ou que nos tente convencer que a Cléo era, de facto, feliz assim.

Aliás, a tristeza (o abandono, a solidão, a desesperança) daquela mulher parece-me tão pungente e tão incontornável que se dissermos que Cuarón tinha outro objectivo que não mostrar-nos isso (e o absurdo e a injustiça de se viver assim, quase como uma escrava) então teremos que admitir que este é um filme completamente falhado. E no meu ponto de vista não é. Ele mostra exactamente aquilo que lá está: uma mulher que é forçada a deixar a sua vida anterior e que se entrega à sua função com todo o sentido de dever (disposta até a pôr em perigo a sua vida para salvar as crianças, não porque as ame mas porque esse é o seu dever - ou então sou eu que estou influenciada pela releitura recente do conto A Aia, de Eça de Queiroz), uma mulher que vai progressivamente perdendo a sua vida própria, que se apaga, que perde o seu bebé provavelmente porque trabalhou de mais durante a gravidez, que sofre (nós vemos que sofre, querem sofrimento maior do que aquela cena do parto?) mas é ensinada a esconder o seu sofrimento, e que neste processo todo se conforma perante a incapacidade de mudar a situação e porventura até se ilude com uma certa ideia de felicidade.

Como fazemos tantas vezes, para tornar tudo isto suportável.

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por Gata às 14:31


3 comentários

De Anónimo a 23.12.2018 às 22:53

Não li o que escreveu sobre o filme porque é o próximo a ver e gosto do efeito surpresa. Desconhecia que andasse toda a gente a falar sobre, simplesmente o que a netflix me mostrou entusiasmou-me. E o que acrescentou o meu cinéfilo privado.

De Anónimo a 27.12.2018 às 14:15

é que é isso mesmo tudo!

De Anónimo a 30.12.2018 às 19:54

Bom , devo dizer que li apenas a sua crítica. E vi agorinha o filme. De que gostei. Não sei se por estar próximo da realidade dessa e de tantas outras mulheres. Ou pela fidelidade ao espírito da época que, como diz, não é apenas português e mexicano. Vi uma entrevista com o realizador e em que falou sobre o filme e a sua experiência de vida com a empregada da casa; e também gostei dele:). Conheço gente como ela, que serviu numa casa durante anos, criou laços com a família e decerto arriscaria o que ela arriscou para salvar as crianças. Por dever, sim. Mas também por estimá-las de verdade, se dedicar e afeiçoar a elas. E olhando para quem conheço, tenho muitas dúvidas sobre a perspectiva da empregada ser bastante diferente da do patrão. Do que sei, eram abnegadas e submissas, aceitavam a sua condição sem revolta e sentiam-se gratas por servir em casa de bons senhores, "andar ao campo" era bem pior. As clivagens entre classes eram tal forma fortes que não dava para invejar. Invejar o impossível é coisa de muita coragem e pensamento. Para elas, a vida era assim por assim ser. E o que leio no seu olhar é resignação. A resignação não é alegre.

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