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Frida Mom é uma marca de produtos de higiene íntima feminina. O seu último anúncio publicitário foi censurado pela ABC e proibido de passar na televisão no intervalo da cerimónia dos Óscares. Demasiado gráfico, disseram. Não porque seja violento ou porque revele qualquer nudez, mas porque mostra algo que nunca é mostrado e de que ninguém fala: o sofrimento de uma mulher, depois de dar à luz, com algo tão básico como fazer chichi.

É um daqueles tabus que ainda existem em volta do corpo (sobretudo do corpo da mulher). O parto parece que já é um assunto mais ou menos normal mas a menstruação e as necessidades fisiológicas são temas proibidos. Sobre o pós-parto, então, ninguém fala. Nem às grávidas. É como se não existisse. Dizem-nos: "o corpo está preparado para cicatrizar e voltar ao lugar". Ninguém nos diz quão doloroso vai ser. Porquê? 

Quando o António nasceu eu fui cortada e cosida, como quase todas as mulheres que vão parir aos hospitais públicos. A episiotomia é (ou pelo menos era) um procedimento de rotina, feito por princípio, sem se avaliar da sua real necessidade e sem que a mulher seja consultada. O pós-parto é terrível. As dores são imensas. No hospital, deram-me gelo para ajudar o inchaço a diminuir. Como sabem, mesmo depois do nascimento do bebé, o corpo continua a libertar muito sangue. E mesmo com dores e com pontos na vagina, é preciso ir à casa-de-banho, fazer chichi e cocó (e por mais que nos digam que está tudo bem, é inevitável ter medo de fazer força). Não é uma fase muito agradável. A cicatrização pode correr às mil maravilhas ou podem surgir complicações. No meu caso, talvez porque eu estava imbuída do espírito da super-mulher, típico de quem é mãe pela primeira vez, e me tenha esforçado mais do que era aconselhável, correu mal. Os pontos caíram mas a costura não cicatrizou, avisou-me a médica na primeira consulta do puerpério, daí o facto de as dores persistirem. Eu quase não me conseguia mexer, nem andar nem sentar-me normalmente. Foi preciso ter cuidados redobrados. De cada vez que ia à casa-de-banho lavava-me com água fria (que arrepio) e com um sabão especial e limpava-me com uma toalha com muito cuidado. Depois, usava o secador, com vento frio, para ter a certeza que a zona ficava bem seca. Tenho ideia que também punha uma pomada qualquer. O processo demorou quase um mês. Aquele mês em que estava a aprender a ser mãe, a lidar com hormonas aos saltos, com noites sem dormir e com essas coisas todas, boas e más, que nos acontecem no corpo e na vida quando temos um filho. Entretando, as dores passaram e a médica confirmou a cicatrização. Mas a minha (nossa) vida sexual continuou arruinada ainda por bastante tempo. Por medo, sim, mas também porque a cabeça é lixada e não é fácil ter vontade de procurar o prazer numa zona do corpo que tanto sofrimento me tinha causado. Com o segundo filho as coisas correram bastante melhor. Voltei a ser cortada e cosida mas já sabia o que tinha de fazer e não fazer, desde o primeiro dia, para evitar complicações. Doeu mas foi tudo mais fácil e rápido.

Disto ninguém fala, não é?

Ah, não é bonito, é uma coisa íntima, que necessidade há de contar? 

Pois eu acho que é muito importante. Quanto mais preparadas estivermos para o que vai acontecer mais hipóteses temos de que tudo corra bem. Quanto mais avisadas estivermos de que isto é normal, menos probabilidades haverá de nos sentirmos miseráveis e ainda mais deprimidas (porque este é um momento muito propenso a depressões). Quanto mais informados estiverem os que estão à nossa volta (incluindo os companheiros) melhor compreenderão o nosso sofrimento.

Não é bonito, pois não, mas existe, é o que é, portanto, mais vale aprendermos a lidar com isto como gente grande. 

publicado às 11:10



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