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Escrevi-o no primeiro dia: não estamos todos em casa. Para alguns poderem publicar no instagram fotografias dos almoços que encomendam na ubereats, felizes e contentes por estarem em casa, a beber um copo de vinho na varanda, a devorar séries na netflix, a falar com os amigos no zoom e a mandar bitaites #stayathome, há uma multidão de gente a trabalhar na agricultura, nas fábricas, na distribuição, nos mercados e supermercados, nos restaurantes, nos transportes, na recolha do lixo, nas limpezas, na segurança, na comunicação social, nos hospitais, nas farmácias, nos lares, na assistência social, na construção, na manutenção, nas funerárias, em muitos outras atividades. Não são meia dúzia, são milhares de pessoas. Que nos últimos 50 dias continuaram a fazer a sua vida normal, a  acordar às 5 da manhã, a esperar meia hora por um comboio, a andar em autocarros cheios de gente, a trabalhar imenso, provavelmente com dificuldades e preocupações acrescidas e - muitos deles - a ganharem muito mal. Também continuou a haver gente a viver na rua, em barracas, em sítios sem condições. Para todas essas pessoas não houve confinamento. 

Sim, a romantização da quarentena é um privilégio de classe. Não temos que nos martirizar por causa disso. Mas um bocadinho de consciência social não nos ficaria mal.

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Ilustração de Bruno Saggese.

publicado às 10:04


4 comentários

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Mafalda 05.05.2020

É verdade!
A minha mãe está parcialmente em quarentena, trabalha 15 dias e vem outros 15 para casa, e conheço tantos outros que não pararam, porque não há essa hipótese e mesmo que houvesse talvez se parassem não poderiam sustentar-se a si e aos seus.
Outro dia passei por uma sem abrigo da minha cidade, temos muito poucos aqui, são 3 ou 4 ao todo mas pus me a pensar como estaria aquela senhora, nesta situação, sem sítio para se poder abrigar, exposta ao virus e ao resto dos elementos, fiquei triste ao pensar como tenho tanto e como outros têm tão pouco.

Obrigada pela reflexão
Beijinho

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