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Estávamos mesmo a precisar disto. Desde 10 de março que estávamos a precisar disto. De sentirmos que somos muitos, que estamos aqui e estamos juntos nesta luta. De dizermos: não esquecemos. De dizermos: não passarão. Não tem a ver com ser de esquerda ou ser de direita, tem a ver com defender a democracia, a liberdade, os direitos de todos. O que aconteceu ontem foi bonito e emocionante. Uma Avenida cheia como nunca tinha visto. Milhares de pessoas, quantas seriam?, tão diferentes. Tão coloridas. Tão felizes. Tão determinadas. Cantámos e abraçámo-nos e gritámos juntas: fascismo nunca mais.

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A luta continua.

Sei que não é suficiente, mas, para já, contribuo como posso, ou seja, escrevendo: 

  • Um museu  que conta a história do "Grândola, Vila Morena"
  • Uma conversa com o músico Francisco Fanhais
  • Um olhar de esperança sobre o presente: o poder ainda está na rua, se quisermos
  • Uma conversa (que, para mim, foi extraordinária) com Domingos Abrantes, comunista e resistente anti-fascista, a propósito do novo Museu Nacional Resistência e Liberdade

 

Trabalhei muito, muitos dias seguidos, muitas horas para além da hora. E depois passei muitas horas de pé na noite de 24 e no dia 25. A celebrar. Hoje sinto-me como se tivesse sido atropelada por um camião. Mas valeu a pena. Afinal, não é todos os dias que podemos celebrar os 50 anos da nossa democracia, não é?

publicado às 22:36

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Nas primeiras eleições após o 25 de Abril, "o número de eleitores recenseados passou de cerca de 1 milhão e 800 mil para 6 milhões e 200 mil, e foram as eleições mais participadas de sempre, com uma taxa de abstenção de apenas 8%". As eleições foram uma festa, as pessoas estavam felizes por poder finalmente exercer o seu direito de voto e, livremente, decidir o futuro do país.

Como é que em menos de 50 anos chegámos aqui, a uma taxa de abstenção de cerca de 40%, com um partido populista e anti-democrático a ser a terceira força política no Parlamento?

Vão votar. Não deixem que os outros decidam por vocês.

publicado às 00:20

Um filme

Só há pouco vi o multipremiado Alma Viva, o filme de Cristèle Alves Meira. Não sei porque adiei tanto. Talvez porque tenho uma relação difícil com o cinema português. Ou porque na corrida dos Óscares estava a torcer pelo Great Yarmouth. Mas lá acabei por me resignar. E foi uma muito agradável surpresa, apesar de não ser grande fã do tema dos espíritos e do diabo. Na verdade este é mais um filme sobre um Portugal que às vezes, aqui em Lisboa, nos esquecemos que existe. O interior. Sobre as relações que se estabelecem numa pequena comunidade. Sobre emigração e raízes. Férias de verão por entre os montes, bailaricos e algodão doce, rezas e superstições, os badalos das cabras como música de fundo, os rituais da morte. Também é sobre a família - e os gritos e as desavenças e os abraços e tudo isso que faz as famílias. E sobre as mulheres. Todas bruxas, mesmo as que não. De sublinhar as excelentes interpretações de Lua Michel (a "garota", Salomé, que na vida real é filha da realizadora) e Ana Padrão. 

Um livro

Mulher, Vida, Liberdade é um pequeno tesouro. Organizado pela Marjane Satrapi, artista iraniana que nos deu Persépolis, mas com a participação de vários ilustradores, este livro é tanto uma homenagem à luta das mulheres do Irão como uma aula de história ou um documentário sobre um país que vive num regime extremista do ponto de vista religioso e ditatorial do ponto de vista político. Satrapi acredita que a revolta pode sair vitoriosa. Eu não tenho tanta certeza. Podem saber mais neste artigo.

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Uma boa notícia

No próximo ano celebram-se os 50 anos do 25 de Abril e, apesar de temer pelo resultado das eleições de março, estou pronta para, aconteça o que acontecer, descer a avenida da Liberdade e emocionar-me várias vezes a cantar o Grândola, Vila Morena. A propósito, publiquei hoje esta notícia sobre a classificação como Património Nacional de dois registos desta canção de Zeca Afonso: no I Encontro da Canção Portuguesa, em 29 de março de 1974, e no programa "Limite", da Rádio Renascença, na madrugada de 25 de Abril, onde serviu como senha para dar início às movimentações dos militares. 

publicado às 19:28

No 25 de Abril de 1974 eu já andava por aí, na barriga da minha mãe. Nasci em liberdade e tenho muita noção do quão privilegiada sou por isso. Cresci a ouvir as histórias dos meus pais e dos meus avós, a saber da fome e do medo, da guerra e da opressão, da pobreza e da falta de perspectivas de futuro. Cresci sabendo que comigo seria diferente. Que na minha escola todas as crianças tinham sapatos nos pés. Que votar no dia das eleições é um direito, um dever e uma enorme alegria. Que podia discordar. Sou filha da escola pública e do serviço nacional de saúde, da Comunidade Económica Europeia e dos sonhos que se poderiam realizar: "Não somos ricos nem temos cunhas, mas se estudares e trabalhares podes ser o que tu quiseres", disse-me o meu pai. Eu estudei e trabalhei e aqui estou. Sou o que quero (e se não sou mais é porque não soube sê-lo). 

Há dias em que isto faz tudo sentido.

Nos últimos dias andei a recolher testemunhos de pessoas muito fixes sobre o significado pessoal desta data.

Ontem estive no Palácio de Queluz a ver o Chico Buarque a receber o Prémio Camões e tive que me controlar para não deixar cair uma lagriminha. 

Hoje, irei descer a avenida, encontrar amigos e dar abraços. 

Gosto muito do dia 25 de Abril. Estou geralmente feliz. Emociono-me de todas as vezes que ouço o "Grândola". Sorrio sempre ao ver as imagens dos militares nas ruas, da multidão em êxtase, dos cravos. Sinto uma enorme gratidão e ao mesmo tempo o receio de que tudo isto seja demasiado frágil, às vezes tenho a sensação de que não estamos a cuidar tão bem quanto deveríamos da nossa democracia. Pergunto-me se faço o suficiente. 

Esse questionamento também é uma das heranças do 25 de Abril.

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Populares saudam os militares no dia 25 de Abril 

publicado às 08:58

Sempre que vou à Avenida da Liberdade no 25 de Abril encontro amigos. São encontros inesperados. Olha, tu, aqui. E é uma festa. Amigos que já não via há que tempos e que me aparecem à frente de braços abertos. No meio daquela gente toda, encontramo-nos. São esses momentos que me fazem acreditar que isto tudo há-de ter um sentido. Que o sentido disto tudo talvez seja só dar abraços e sorrir de felicidade por estarmos nisto juntos. E por nos emocionarmos, todos os anos, a cantar o Grândola. 

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publicado às 11:53

Dia 43, sexta-feira, 24 de abril
Hoje, depois de passar a manhã a estudar matemática, fui às compras, diverti-me a inventar histórias com os títulos dos livros, a seguir demorei horas a arrumar os livros todos nos seus lugares, respondi a um inquérito do Oceanário, votei num cartaz para o Todos, transformei o hall de entrada num ginásio e fiz uma aula de "glúteos + abdominais + pernas", vi dois episódios e meio de uma série e fui passear com o Pedro.
Já faltou mais para me pôr a fazer pão.
De facto, a quarentena sem trabalhar é outra coisa (mas amanhã estou outra vez a bulir que é para não me habituar).
Doem-me bastante as pernas. Acho que estou a acordar músculos que estavam adormecidos há décadas.
Amanhã experimento o pilates.

Dia 44, sábado, 25 de abril
De manhã estudámos o Estado Novo, o que até fazia todo o sentido.
À 1 comecei a trabalhar. Às 3 fiz uma pausa, levei o computador para a janela da cozinha e pus o Zeca a cantar. Oh mãe, a sério?, suspiraram eles, sem se moverem do sofá. Cantei feliz, apesar de envergonhada. Apareceram dois ou três vizinhos. Nada de entusiasmos. Fui à janela da frente e pus a cabeça de fora para acenar a uma vizinha lá de cima que também tinha o Grândola a tocar.
Voltei ao meu trabalho.
O António, que desde que isto começou ainda não tinha ido mais longe do que o terraço, decidiu sair de casa para ir comprar gomas. A adolescência é, de facto, um lugar estranho.
O Pedro foi ao terraço festejar o aniversário de uma vizinha. Eram uma meia dúzia de miúdos a brincar às escondidas e era já de noite quando o chamei para jantar.
Agora, e seguindo as indicações das professoras de história, estivemos a ver o Capitães de Abril. Mas foi uma seca para todos, incluindo para mim que não me consegui abstrair da falta de sincronização entre a voz e os lábios e achei o filme de uma maneira geral bastante mauzinho.
Valha-nos a Revolução que foi bonita e nos deu a democracia e a liberdade.

Dia 45, domingo, 26 de abril
De manhã acabei de ver a série Unebelievable na Netflix e agora à noite vimos o Hotel Mumbai - digamos que hoje a minha fé na bondade das pessoas está um pouco pelas ruas da amargura.
Há coisas que não mudam: estamos confinados mas continua a não ser fixe trabalhar ao fim-de-semana.
Há coisas que mudam: estar de folga à segunda-feira costuma significar tempo para mim e para as minhas cenas, mas amanhã vai ser só mais um dia como os outros.

Dia 46, segunda-feira, 27 de abril
Às segundas os professores mandam os planos de trabalho da semana. Os professores estão a dar matéria nova, a toda a velocidade. Lê o manual e resolve a ficha. Agora faz a correção. Agora vê o vídeo. Faz um trabalho de pesquisa. Copia a definição para o caderno. Faz mais uma ficha. E a seguir temos videochamada para esclarecer dúvidas. Um professor com 20 a 30 alunos de 11 anos em videochamada a darem os números racionais ou o estado novo ou o sistema reprodutor. Desliguem o micro, não se ouve, podem calar-se? E nisto vamos avançando mais uma páginas. Não tarda nada chegamos ao fim do livro e lançamos um foguete.
Está tudo bem. Eu controlo tudo, mais de perto ou mais de longe, conforme o caso, temos computadores e agora até tenho algum tempo. Não me queixo. E no fundo eu até gosto de estudar com eles algumas matérias (e nas outras dou um jeito). Mas é muito exigente. E se eu - que tenho estas condições - acho exigente, então, de certeza que há muitos miúdos que estão a ficar para trás porque não têm quem lhes explique, quem controle, quem os mande ficar sentados, quem os corrija, quem os lembre dos prazos, quem os incentive, quem se zangue (às vezes é preciso). Quem lhes diga: vai brincar, paciência, entregas esse trabalho fora do prazo, não faz mal.
Continuo com muitas dúvidas sobre isto tudo.

Dia 47, terça-feira, 28 de abril
O dia começou com um senhor a bater-me à porta para me entregar uma prenda-surpresa-deliciosa da minha irmã.
E acabou comigo a adormecer no sofá pouco depois das dez da noite.
Os dias de quarentena são assim como as relações. No início, parece mesmo que é desta que vamos cumprir o plano de ginástica e fazer pão e quem sabe até jogar monopólio com os putos. Mas pouco depois percebemos que afinal vai ser só mais um dia como os outros, com trabalhos da escola, limpeza da casa, passeios higiénicos e, com sorte, um filmezeco da Netflix.

Dia 48, quarta-feira, 29 de abril
Começou bem. Com uma chuvinha mas bem. Fomos fazer o cartão de cidadão do Pedro, que estava marcado há meses mas que foi pago como urgente (lol), e aproveitámos para fazer a caminhada higiénica e comprar fruta e legumes, tudo de uma assentada. Às 11.30 já estava outra vez em casa, de banho tomado, devidamente higienizada e confinada.
E pronto. A partir daí foi só chateações, entre trabalhos da escola e reuniões de zoom, mails e grupos de WhatsApp de trabalho. Nem sequer jantei. Acabei agora mesmo de comer um prato de Nestum e vou direitinha para a cama.
Um dia ainda me hão de contar como é que funciona isso de "ter demasiado tempo livre". Estou curiosa.

Dia 49, quinta-feira, 30 de abril
Hoje o Pedro teve cinco "aulas síncronas", incluindo uma aula teórica de educação física, e as três últimas aulas sem sequer ter intervalos (isto está tudo a correr lindamente, como se vê). Às 20 para as seis, dez minutos antes do fim da aula de ciências, e já com fernicoques (bela palavra) no corpo, enquanto a professora explicava o teste do pezinho, olhou para mim e: posso desligar? Eu estava mesmo a acabar o meu trabalho, por isso: podes. Desligámos os dois e fomos passear.
Já há um arrumador no Fonte Nova. E usa máscara. É a normalidade a regressar de forma bastante anormal.
Ao serão vimos O Impossível. O António já tinha visto e anunciou que não ia ver outra vez porque era muito triste. Eu também já tinha visto mas nunca recuso uma oportunidade para derramar uma lagrimita.

Hoje é Dia do Trabalhador e eu tinha tantas coisas a dizer sobre o assunto. Mas fica só esta música, para dançar e libertar todos os demónios:

Blister in the Sun, Violent Femmes

publicado às 10:45

Eu digo a palavra "exposição" e eles ficam logo com aquelas caras de enfado. "Oh mãe, tem mesmo de ser?" Tem. Nem lhes dei hipótese. Como ambos estão a falar do espaço na escola, achei que só teriam a ganhar em ir ver a exposição "Cosmos Discovery", que está instalada numa tenda gigante em Belém. Mesmo que odeiem, alguma coisa haverá de ficar naquelas cabeças, é sempre o que penso. E assim fomos, meio contrariados mas fomos. E, como sempre, valeu a pena o esforço. A exposição tem muitas coisas giras - os fatos dos astronautas, os capacetes, as embalagens da comida, os modelos dos carrinhos que se usam na Lua - mas as mais giras de todas são, obviamente, as cápsulas espaciais (a americana e a russa) e a reconstituição da cabine de comandos de uma nave espacial (que pena não podermos sentar-nos lá e carregar naqueles botões todos!). Na verdade, há tanta coisa para ver que o mais complicado, pelo menos com os meus putos, é conseguir mantê-los atentos e interessados durante toda a visita, chega ali uma altura em que já passam pelas vitrines sem parar, é preciso ir chamando a atenção deles para alguns pormenores sem ser demasiado professoral mas, ainda assim, passando alguma informação (uma canseira, é verdade, mas com isto descobri que sei imensas coisas sobre o espaço, o que não deixa de ser incrível, a quantidade de conhecimento que uma pessoa vai acumulando quase sem se aperceber, o que só comprova a minha teoria de que, se variarmos as abordagens, alguma coisa vai ficando). No final, o Pedro quis experimentar o "giroscópio", que é uma maquineta que os astronautas usam para se prepararem para as viravoltas da viagem. Mais ninguém na família se atreveu.

Único senão: os bilhetes são um bocadinho caros.

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No 25 de abril não descemos a avenida. Largámos amarras e fomos ao espaço.

Isto também é Liberdade. 

publicado às 10:05

Os miúdos dormiram em casa de uns amigos do peito (obrigado, obrigado). O António teve um jogo de futebol. Fomos experimentar os hamburgueres da praça de londres. Não conseguimos encontrar cravos. Já em casa, o Pedro andou a recolher informações sobre a chita, recentemente eleita o seu animal preferido, e o António estudou para o teste de ciências. Jogaram playstation enquanto eu me divertia na cozinha. Olhei a chuva pela janela da cozinha e pareceu-me inverno. O Pedro cantou o Grândola enquanto tomava banho e explicou-me que esta era uma música proibida mas que havia outra, que era uma "música da moda", que também foi um sinal para os militares. Depois do jantar houve wrestling e eu temi pelos móveis da sala e pelos ossos das crianças. Consegui pô-los na cama mesmo a tempo de ver, na RTP2, o documentário sobre os últimos dias das Pide. Emociono-me sempre com as imagens do 25 de abril.

IMG_1098.JPGEste ano não descemos a avenida. A revolução acontece todos os dias. 

publicado às 23:27

O jornalista e escritor brasileiro Zuenir Ventura foi um dos primeiros repórteres estrangeiros a chegar a Portugal após o 25 de abril de 74. Ontem, Zuenir, com 82 anos, esteve na Fundação José Saramago a contar algumas das memórias desses dias de loucura e ainda outras histórias, revelando um sentido de humor delicioso. Também lá estava o grande, mas mais reservado, Luís Fernando Veríssimo. Foi um privilégio acabar o dia assim, a ouvir estes senhores falarem das ditaduras, dos políticos, de futebol e das netas. E nem sequer tive que tirar notas. Foi mesmo só prazer. E, depois, continuar à conversa com a Joana em frente de uma pizza e de um copo de vinho.

Este é Zuenir, em Lisboa, em 1974. A foto foi encontrada aqui.

publicado às 15:24

25
Abr14

Sempre

publicado às 23:11


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