Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Ao 100º dia os miúdos foram passar o fim-de-semana com o pai. E eu adoro-os do fundo do meu coração mas estava mesmo a precisar disto. De não pensar neles, de não me preocupar com a escola, de não ter que fazer o jantar, de não ouvir as parvoíces que eles dizem o dia inteiro enquanto jogam playstation, estava a precisar de não pensar em absolutamente nada. E assim foi. Nestas 34 horas fui só eu. Uma amiga ao jantar de sábado, outra amiga ao almoço de domingo, muita conversa para pôr em dia, uma peça de teatro pelo meio e uma casa em silêncio. Vai acabar não tarda (e também é por isso, por ser assim só por um bocadinho, que é tão bom, como é óbvio).

IMG-20200620-WA0003.jpg

By Heart, outra vez. E aquela sensação de voltar a casa. Como escrevi há pouco mais de um ano: "A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo."

publicado às 19:12

20
Mar20

Primavera

unknown_1.jpeg

"Do remember they can't cancel spring", 
uma mensagem de David Hockney para estes dias estranhos.

publicado às 10:37

O Pedro viu o anúncio na televisão e pediu: podemos ir, mãe? Eu nem tinha sugerido nada porque já tínhamos visto os Stomp há seis anos (já seis anos? o tempo passa depressa), mas a verdade é que ele era ainda pequeno e por isso tinha memórias um pouco difusas. Além disso, uma pessoa não se cansa de ver os Stomp, não é? Eu já os vi três vezes e continuo a adorar. Então, em vez de estudar a fotossíntese, como planeado, deixámos um jogador de futebol lesionado em casa a estudar (ou a jogar playstation, nunca o saberemos) e lá fomos os dois. 

Sorrimos durante uma hora e quarenta minutos. Que alegria. Que alegria a dele. Que alegria a minha, com o espectáculo mas também por vê-lo assim feliz.

Ao longo do espectáculo, apercebi-me de outra coisa: os intérpretes, além de extraordinários e também eles felizes por estarem ali, são um grupo diverso, composto por gente de todas as cores, homens e mulheres, altos e baixos, gordos e magros, com muitas tatuagens e penteados divertidos. É bom ver a diversidade no palco. A mensagem que isto transmite aos miúdos é que qualquer um deles poderá um dia também estar no palco (ou onde quiser estar). Não é preciso corresponder a um esteoreótipo qualquer para fazer algo belo e ouvir aplausos. Podemos dizê-lo muitas vezes mas nada como vê-lo para que a lição fique bem sabida.

stomp-1.jpg

Os Stomp estão no Teatro Tivoli, em Lisboa, até 29 de março. Se ainda não os viram, aproveitem que é mesmo fixe.

publicado às 16:40

No outro dia fomos ao cinema ver o 1917. Eu e os meus dois filhos.

É engraçado. Para o António ir ao cinema não é sequer uma hipótese de programa com os amigos. Os amigos servem para jogar à bola ou playstation ou para ficarem horas a fio na conversa, a dizer parvoíces e a deambular por aí. Ir ao cinema? Eles estão habituados a ver os filmes e as séries nos telemóveis (ou, na melhor das hipóteses, no computador), com phones nos ouvidos, sozinhos. É uma experiência completamente diferente da que eu tive, quando ir ao cinema ao sábado à noite era não só a única maneira de ver algum filme como era também a única coisa que havia para fazer com os meus amigos. Já para estes miúdos, ir ao cinema é um desperdício de tempo útil com os amigos (certamente porque ainda não descobriram as maravilhas do "escurinho do cinema") e um desperdício de dinheiro. Uma pessoa argumenta com a qualidade da imagem e do som mas não é fácil. Talvez tenham de crescer mais um pouco.

De maneiras que, por agora, parece que ir ao cinema é um programa com a mãe. Uma coisa de cota. Que seja. Não me parece mal se isto se tornar "a nossa coisa em conjunto". Apesar de cada vez ver mais filmes em casa (é inevitável) eu gosto muito de ir ao cinema. E mal posso esperar pelo momento em que poderei ir com eles ver todos os filmes. Neste momento estamos numa fase complicada. O António já poderia ver tudo mas o Pedro ainda só tem 11 anos -  ele é um valente e não protesta nem mesmo quando numa das nossas noites de cinema em casa vemos o Platoon e ele não percebe grande parte do que se passa. Mas, ainda assim, não convém exagerar. Gostou do 1917, não se queixou nem se aborreceu, mas pediu para da próxima vez irmos ver um filme "de acção". É justo.

Isto tudo é só um pretexto para dizer que o meu filho mais velho fez 16 anos. Ele não gosta de tirar fotografias e mesmo quando me deixa fotografá-lo não me deixa partilhar as fotos. E também não gosta muito que eu escreva sobre ele. Tenho que respeitar. Por isso só posso dizer-vos isto: o meu filho fez 16 anos e tem sido o maior desafio da minha vida. Em bom e em mau. Aliás, isto de ser mãe sozinha de dois rapazes tem sido uma aventura e pêras, uma daquelas coisas que só quem passa por elas é que pode entender. Um dia, quando isto tudo passar, talvez vos conte. 

Por agora fiquem a saber que fomos ao cinema os três ver um filme de adultos. Não foi a Velocidade Furiosa nem o Homem Aranha. Foi um filme de crescidos, escolhido por mim. E isso, parecendo tão pouco, deixa-me muito feliz. São assim, tontas, as mães.

publicado às 16:29

30
Dez19

Best of 2019

Foi, genericamente, um ano mau. Não tão mau quanto 2012. Mas provavelmente pior do que todos os outros. Ou então é porque ainda está tudo muito fresco na minha cabeça. Mas estou em crer que não. Este foi o ano em que me senti mais frustrada no meu trabalho. Este foi o ano em que me senti mais frustrada como mãe. Este foi o ano em que me senti mais sozinha do que nunca e em que a única pessoa que me fez cócegas no coração não se apaixonou por mim, o que também me fez sentir frustrada. O que, vendo bem, é o retrato perfeito da minha vida, toda ela muito mais ou menos. Muito assim-assim. Muito nada de especial. Não quero ser injusta. Sei que tenho uma família que me apoia e me ajuda em tudo. Sei que tenho amigos dos bons. Sei que tenho muita sorte porque não temos doenças graves e este ano não perdi ninguém. Sei que tenho uma casa pela qual pago um preço justo e tenho um emprego que, até ver, me vai dando para pagar as contas. Sei que tenho dois filhos lindos que amo até ao infinito e mais além. Mas no momento em que me sento a fazer um balanço deste ano que passou não consigo sentir-me feliz. Pelo contrário. A única palavra que me ocorre é frustração. E só não faço deste um post de lamentações porque quero acabar o ano como o comecei: a pensar em coisas boas. Vou fixar-me nelas. Vou reviver todos os momentos bons de que me lembrar e fazer deles as minhas passas da meia-noite (as passas que eu nunca como à meia-noite porque só gosto de passas misturadas com comida, se calhar tem sido esse o meu erro). 

Para memória futura, o meu melhor de 2019 há de ser qualquer coisa como isto:

Os dias em que não me zango com eles.

Aquela tarde a beber chá na cama da Aline.

O jardim da Gulbenkian.

Os beijos.

E os abraços.

Fazer bolos.

Um jantar inesperado no indiano com a Sónia C.

A alegria do Pedro no parkour.

Cantar a Valsinha de mãos dadas.

Chegar ao final de mais um ano lectivo.

As férias.

Almoçar com o João Miguel.

O António está mais alto do que eu.

O Panorâmico de Monsanto.

O almoço no terraço da Sónia.

Na esplanada com a Ângela.

Os vários jantares com elas (all aboard ou lá o que é).

Aquela noite com a Paula F. e o Ricardo.

As conversas com a Paula (e tudo o que não precisamos de dizer porque já nos conhecemos tão bem).

O Alentejo. E as minhas pessoas de lá.

Um dia de praia na Arrifana.

Outro na Praia Verde.

Vê-los a dar mergulhos.

O concerto da Mayra Andrade com a Lina.

A minha amiga curou-se de uma doença má.

A serenidade da Cecília.

O almoço de aniversário, marcado em cima da hora, com a Isabel, a Helena e a Rute.

Os meus amigos. Todos eles.

A minha cozinha.

A viagem com a Ana ao Algarve.

Tricotar.

Os filmes, os livros, os espetáculos, as exposições, as músicas. The National, Devendra Banhardt, Dino D'Santiago, CapicuaDulce Maria Cardoso, Francisco José Viegas, Afonso Cruz, Pedro Almodóvar, Tiago Guedes, Jafar Panahi, Grada Kilomba, Mário CruzTiago Rodrigues, Ivo Canelas, Mónica Calle, Miguel Seabra, Giacomo e Madalena. Outros de que agora não me lembro.

Dançar. 

Aqueles momentos em que acredito que vai correr tudo bem.

Nós os três.

Deitar-me de consciência tranquila.

publicado às 09:11

Quando estava a escrever sobre Todas as coisas maravilhosas, do Ivo Canelas, andei à procura de uma música que se ouve ao longo do espectáculo e de que eu tinha gostado muito. Mas foi em vão. A única coisa que me lembrava era que a canção começava com a frase "the sun came up" (que no espectáculo se ouve várias vezes) e o google é fabuloso mas desta vez não me conseguiu ajudar. Ainda pensei pôr a Elis Regina (mais uma coisa maravilhosa deste espectáculo) mas como queria que o post transmitisse uma energia mais positiva, que tinha mais a ver com a energia com que saímos dali, acabei por colocar o tema dos Violent Femmes, Blister in the Sun, que é o que encerra o espectáculo e que também tem um cantinho muito especial no meu coração.

Mas um leitor querido descobriu qual era a canção e mandou-ma (obrigado, obrigado). Chama-se Road to Joy e é do grupo americano Bright Eyes. 

Aqui está, portanto, este "caminho para a alegria" com votos de um bom fim-de-semana, apesar da chuva e dos testes que se aproximam (nem me digam nada). 

"Let's fuck it up boys, make some noise!"

Road to Joy, Bright Eyes

publicado às 09:41

Comecei esta série, "A felicidade nas coisas pequenas", a 3 de janeiro de 2013. A minha vida nessa altura estava um pequeno caos, depois de eu ter descoberto que o amor da minha vida afinal já não era o amor da minha vida e de me ter separado e de estar em vias de me divorciar. Mas nem tudo era mau. Há sempre pequenas coisas que nos deixam felizes. Às vezes coisas inesperadas. Coisas de nada. Quando estamos muito em baixo as pequenas coisas fazem a diferença e podemos ficar felizes com coisas tão simples como comer amêndoas de chocolate ou ver um arco-iris ou ouvir uma música de que gostamos ou receber uma mensagem de um amigo. Encontrar a felicidade nas coisas pequenas é uma das minhas estratégias para ultrapassar os momentos mais complicados.

Ora, é precisamente disso que fala o espectáculo Todas as coisas maravilhosas, de Ivo Canelas. Trata-se de um monólogo sobre a doença mental, a depressão e o suicídio e, sim, tem partes muito duras mas também é (surpreendam-se) bastante divertido. O texto original é do britânico Duncan Macmillan mas a versão portuguesa é muito boa e o Ivo Canelas é fantástico nesta dança entre os momentos mais emotivos e as explosões de energia (e ainda a responder aos espectadores-actores que nem sempre reagem como seria expectável). 

Resumindo: quando o protagonista tinha sete anos, a mãe tentou suicidar-se e para a animar ele decidiu começar a fazer uma lista de todas as coisas maravilhosas que existem no mundo, aquelas coisas por que vale a pena viver. Coisas como:

1. gelado

2. guerras de água

25. usar uma capa

A lista foi sendo atualizada, ao longo dos anos, sempre que a mãe sofria mais um episódio depressivo:

319. rir com tanta força que até se espirra pelo nariz

516. ganhar alguma coisa

577. bolachinhas no leite

994. cabeleireiros que ouvem mesmo aquilo que queremos

E foi-se complicando, tal como se complica a cabeça das pessoas crescidas:

1010. ler algo que descreve exactamente o que estás a sentir mas que não tinhas palavras para descrever

253 263. a sensação de calma que se segue à constatação de se estar metido em sarilhos mas que já não há nada a fazer em relação a isso

999 997. o alfabeto

(o resto da história têm de ir ver para saber como é)

A lista é infinita e é diferente para cada pessoa.

As minhas coisas maravilhosas, estou sempre a dizê-lo, são os abraços das pessoas de quem gosto, o sorriso dos meus filhos, os amigos, dançar, cozinhar, ler um bom livro, apanhar sol. E também: ir ao teatro com uma amiga numa sexta-feira à noite, pôr a conversa em dia, beber um copo de vinho e ainda poder rir e quase chorar com este espectáculo maravilhoso.

"Aproveitem, isto passa a correr."

Blister in the sun, Violent Femmes

publicado às 16:47

35388596_GI0882019REINALDORODRIGUES171.JPG

"Temos de descobrir novas formas de sermos maravilhados", diz-nos Martim Sousa Tavares no último Casa de Partida, um programa que ele apresentou ao longo de doze semanas na Antena 2. Ele chamou a este último episódio "Como cuidar do seu jardim". Não é um título lindo?

Conheci o Martim este verão e gostei imenso de conversar com ele. Tem apenas 27 anos e é uma daquelas pessoas apaixonadas por aquilo que faz, e isso nota-se. Tenho muita pena de não ter tempo para acompanhar as "sessões de apreciação musical" que ele conduz por estes dias na Temporada de Música em S. Roque. Mas, se não puderem ir, experimentem ao menos ouvir os programas no site da RTP Play. Mesmo que - como eu - achem que não são muito fãs ou que não conhecem muito de música clássica, verão que não se vão aborrecer. Ele vai contando histórias sobre músicos e fazendo comentários que vão para além da música e vai nos mostrando músicas ou bocadinhos de músicas e quando damos por nós já passou uma hora.

"Sejam permeáveis e deixem-se influenciar pelos gostos dos outros, se calhar a pessoa ao vosso lado é capaz de vos ensinar a gostar de algo novo", aconselha Martim, no final do último programa. 

Abrirmo-nos aos outros, diferentes de nós. Na música e no dia-a-dia. E deixarmo-nos maravilhar. É uma das formas de cuidar do nosso jardim. 

Uma das coisas que me maravilhou recentemente: a pianista Joana Gama, que também é uma pessoa de quem gosto muito, a tocar Satie.

(a foto lá em cima é do Reinaldo Rodrigues/ Global Imagens)

publicado às 09:49

31
Jul19

Julho a acabar

Sair cedo do trabalho. Fazer o jantar enquanto bebo uma cidra e ouço a bola a bater no terraço e os putos a brincar com os vizinhos. Não pensar.

Voltar a esta música da Nina Simone as vezes que forem necessárias: I got life.

publicado às 20:37

Começou assim em conversa de circunstância: o que fazes amanhã? nada e tu? eu também. eu estou sozinha. eu também. podemos encontrar-nos, se calhar.

Começou assim, por vamos tomar um café ou petiscar qualquer coisa ao fim do dia, só para ver se me esquecia daquela sexta-feira negra e de como é triste isto de estar sozinha apesar de estar feliz por uma vez (uma vez em meses) ter uma noite de sábado sem filhos. Então, enquanto fazia tempo, durante a tarde, fui ao Teatro São Luiz ouvir a Joacine Katar Moreira, que é uma mulher que me faz acreditar no mundo mesmo quando o mundo insiste em me desiludir, e quando saí de lá e olhei para o whatsapp já éramos três e o café já era jantar e se as miúdas diziam que tinham de ir para casa cedo que estavam cansadas e velhas, o rapaz apostava que a noite ia ser comprida. É claro que ele tinha razão. Entre as sete da tarde e as três da manhã, as conversas encadearam-se umas nas outras, rimo-nos como perdidos, dissemos coisas muitos sérias, abraçámo-nos, partilhámos segredos, brindámos à nossa e ao futuro e à amizade, lamentámos as tristezas do mundo em geral e do jornalismo em particular, e alegrámo-nos por nos termos encontrado naquele fim de tarde de sábado e por não termos cedido ao cansaço, à velhice e às merdinhas todas que nos moem o juízo (e os sonhos). É tão bom quando um encontro assim acontece.

Às vezes é só isto. Quando menos estamos à espera, aparece alguém que transforma uma noite de solidão num daqueles momentos que temos de fotografar e registar em palavras para que, mesmo que a vida nos afaste e o alzheimer nos ataque, a gente nunca se esqueça como foi bonito.

67242916_2700298843317811_5356548671720652800_n.jp

Com a Paula e o Ricardo.

publicado às 22:45


Mais sobre mim

foto do autor