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31
Jul19

Julho a acabar

Sair cedo do trabalho. Fazer o jantar enquanto bebo uma cidra e ouço a bola a bater no terraço e os putos a brincar com os vizinhos. Não pensar.

Voltar a esta música da Nina Simone as vezes que forem necessárias: I got life.

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publicado às 20:37

Começou assim em conversa de circunstância: o que fazes amanhã? nada e tu? eu também. eu estou sozinha. eu também. podemos encontrar-nos, se calhar.

Começou assim, por vamos tomar um café ou petiscar qualquer coisa ao fim do dia, só para ver se me esquecia daquela sexta-feira negra e de como é triste isto de estar sozinha apesar de estar feliz por uma vez (uma vez em meses) ter uma noite de sábado sem filhos. Então, enquanto fazia tempo, durante a tarde, fui ao Teatro São Luiz ouvir a Joacine Katar Moreira, que é uma mulher que me faz acreditar no mundo mesmo quando o mundo insiste em me desiludir, e quando saí de lá e olhei para o whatsapp já éramos três e o café já era jantar e se as miúdas diziam que tinham de ir para casa cedo que estavam cansadas e velhas, o rapaz apostava que a noite ia ser comprida. É claro que ele tinha razão. Entre as sete da tarde e as três da manhã, as conversas encadearam-se umas nas outras, rimo-nos como perdidos, dissemos coisas muitos sérias, abraçámo-nos, partilhámos segredos, brindámos à nossa e ao futuro e à amizade, lamentámos as tristezas do mundo em geral e do jornalismo em particular, e alegrámo-nos por nos termos encontrado naquele fim de tarde de sábado e por não termos cedido ao cansaço, à velhice e às merdinhas todas que nos moem o juízo (e os sonhos). É tão bom quando um encontro assim acontece.

Às vezes é só isto. Quando menos estamos à espera, aparece alguém que transforma uma noite de solidão num daqueles momentos que temos de fotografar e registar em palavras para que, mesmo que a vida nos afaste e o alzheimer nos ataque, a gente nunca se esqueça como foi bonito.

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Com a Paula e o Ricardo.

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publicado às 22:45

My favourite things por You Sun Nah.

 

Podia queixar-me do trabalho e dos meus chefes, podia queixar-me dos meus filhos, das contas para pagar, da falta de tempo, da falta de paciência, da falta de perspectivas. Teria bons motivos para me lamentar, não duvidem. Mas hoje não me apetece. Hoje apetece-me fingir que está tudo bem e continuar a empurrar a vida com a barriga como se não fosse nada. Ouvir esta música. E o que tiver de ser, será.

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publicado às 16:07

Já há muito tempo que não venho aqui partilhar coisas bonitas, o que é uma injustiça porque até quando tudo parece correr mal na nossa vida há coisas bonitas a acontecerem.

Por exemplo, ainda vão a tempo de ir ver o espectáculo Xtròrdinário do Teatro Praga para os 125 anos do Teatro São Luiz. Se gostaram da Tropa Fandanga vão gostar ainda mais deste "musicól" que é muito divertido e "não binário". E tem os Fado Bicha, que são maravilhosos.

Já estreou na Netflix a terceira temporada da série Easy e continua a ser muito a vida como ela é, histórias de pessoas comuns com desejos comuns e problemas comuns. Sem batalhas sangrentas. Tal e qual como que gosto.

A Lena D'Água tem um disco novo, que se chama Desalmadamente. Eu ainda não o ouvi todo mas gostei muito daquilo que ouvi. Espero mesmo que lhe corra bem este come back. Esta é a Grande Festa e faz-nos abanar o corpinho com leveza:

E, já agora, o Manel Cruz também tem Vida Nova, que é como quem diz um novo álbum. E esta canção, O Navio Dela, é qualquer coisa. Prestem atenção à letra.

"A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela"

As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar. Mas há meses (anos?) que ando sem paciência para discotecas e noitadas. Tenho de encontrar um sítio com bom ambiente para dançar antes, muito antes, da meia-noite. Alguma sugestão?

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publicado às 08:29

Domingo às oito da manhã estava na cozinha a fazer massa com atum, antes de ir trabalhar. À hora do almoço liguei ao António, que estava sozinho em casa. "Está óptima, mãe, mesmo boa", disse-me, com a boca cheia, enquanto tirava garfadas de massa directamente do tacho, sem sequer a aquecer. Senti-me feliz. Acho que foi o melhor momento do meu dia da mãe.

Cozinhar para os outros, ainda que seja cozinhar uma coisa banal como massa com atum, é um ato de amor tão importante como dar braços. 

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publicado às 16:07

How-to-Get-in-Touch-with-Physical-Pleasure-in-a-Di

"We’re conditioned to maximize (and monetize) every moment of our days, and we often feel guilty if we forego work for the sake of acting purely for pleasure. I’m constantly complaining about being trapped in a capitalist system that runs on sexism, white supremacy, self-policing and devotion to devices that — one could argue — have become crucial to our survival. Yet I barely notice the wonder that is the sun’s photons warming my face because I’m too busy swiping through the paths of least congestion to get to work faster and increase my efficiency.

My new inspirational mantra is: fuck efficiency, get pleasure. What if we took a break from double-timing eating and answering emails, or tweeting while we poop? (Say what you will, but for many defecating is a pleasurable experience.) What if we just allowed ourselves these few, precious moments a day to feel unabashed, unmitigated pleasure?

Of course, reconnecting with the sensual experiences of being human isn’t a switch to be flipped, and there isn’t a definitive cure-all (i.e. “going outside”). But in a time when we’re encouraged to measure fulfillment in likes and emails answered, reclaiming pleasure in these small ways — in pausing to take the first deep breath of our day before checking our mentions, or allowing ourselves a post-exercise stretch without digital double-tasking — can be an act of resistance, and has the power to make us more fulfilled and energized in the long run.

Not to mention, it can be delicious."

Texto de Molly Savard. Ilustração de Rose Wang.  

(na sequência do post anterior)

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publicado às 01:46

"Nestes tempos de mercantilização de cada recanto da nossa existência, da precarização, da desconexão com o que está à nossa volta, sentados, diante da TV, olhando também para o telemóvel e o computador, as pequenas alegrias do quotidiano, aqueles momentos de sentidos imensamente despertos, são essenciais.

Mas até isso se pode dissolver, adormecidos que estamos, sem percebermos que esses instantes não virão até nós por acaso. Temos que reconhecê-los para ficarem connosco. Coisas sem importância, mas que por vezes nos reconciliam com isto. Uma boa conversa. O primeiro gole de cerveja ao final da tarde. Ir para a cama sem despertador. Aquela sessão de dança. O beijo na filha de quatro anos. Rirmos sem sentido aparente. Tirar os sapatos depois de um dia duro. O cheiro de pão acabado de fazer. Apanhar um taxista calmo. O odor a terra molhada depois de uma tempestade de Verão. Um duche com música que apetece cantar. Uma declaração de amor de alguém que também se ama. Entrar na cama com lençóis lavados. Andar de mão dada na rua. Um verdadeiro e prolongado abraço. À janela, com tempo, vendo as vidas passar.

Pensar na sociedade como uma grande família em que não se compete pela sobrevivência e onde todos têm as necessidades básicas garantidas. Ter tempo. Resistir ao ruído permanente. Imaginar, viajando, existindo. Às vezes é apenas isso. Andamos em círculos, em círculos, em círculos, à procura, e está tudo aqui."

O Vítor Belanciano a dizer verdades na sua última crónica intitulada "Sem os outros somos menos que nada" (só o nome é lindo). Verdades óbvias mas tantas vezes esquecidas - até por mim, que ando há anos a apregoar "a felicidade nas coisas pequenas" (e já vamos no capítulo XXXVII).

A felicidade também pode ser só isto: encontrar um texto que nos faz parar e pensar. 

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publicado às 20:24

12
Fev19

Com o coração

Saber de cor um texto é sabê-lo "by heart", dizem os ingleses. Com o coração.

No sábado voltei a By Heart, o espetáculo de Tiago Rodrigues. Tinha-o visto há quatro anos e nessa noite saí do teatro com a certeza que queria voltar a vê-lo. Esperei pacientemente. Assim que soube desta apresentação única comprei os bilhetes à maluca. Como se conseguisse prever a minha vida com mais de um mês de antecedência. Calhou num fim de semana de trabalho, o António tinha um jantar de aniversário, o Pedro teve de ficar um bocadinho em casa de um amigo, a minha companhia cortou-se à última hora, eu estava exausta. Podia ter corrido tudo mal. Mas não. Embora já sem o factor surpresa, foi tão bom como da primeira vez. Se houver outra oportunidade, quero lá estar, de novo, para aprender de cor o soneto 30 de Shakespeare. By Heart é um espetáculo sobre a memória e o esquecimento. E sobre aquilo que realmente importa: aquilo que está dentro de nós. Além disso é uma experiência de partilha - partilha de histórias, de risos, de lágrimas, partilha de palco, de coisas para pensar, de afectos.

A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo. 

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publicado às 09:06

22
Dez18

Nearness

Ontem à noite, no CCB, a Gisela João cantou isto. À sua maneira, como fez com o Silent Night ou com o Nature Boy, como se fossem fados acompanhados por uma orquestra e por um trio de jazz. E eu até me emocionei em alguns momentos. Porque é tão bonito. E porque é isto o importante da vida. 

"I need no soft lights to enchant me
If you will only grant me
The right to hold you ever so tight
And to feel in the night
The nearness of you"

The nearness of you, aqui por Ella Fitzgerald & Louis Armstrong

 

Não vale a pena guardar por escrito as coisas más que nos acontecem. Não vale mesmo. Não quero guardar as discussões, as injustiças, as idiotices, as pessoas que me magoam, o tempo mal gasto, os tropeções, as tristezas, as lágrimas, a solidão. De tudo isso não quero guardar se não uma vaga memória. Um sinal, apenas, para me recordar dos erros que não quero repetir. Quero guardar, isso sim, os abraços apertados, as gargalhadas partilhadas com quem importa, aquele dia em que fomos todos ver o Bohemian Rhapsody e saímos de lá a cantar We will rock you como se todos os dias fossem felizes (e depois tive que explicar aos putos o que é a Sida), quero guardar os nossos fins de tarde na praia, as férias (as férias, as férias), o sol quente na pele, a felicidade no rosto deles, os momentos que passamos com os nossos amigos, as palavras bonitas, a cara dos miúdos, de boca aberta de espanto a verem a magia Impossível do Luís de Matos, as borboletas na barriga quando damos um beijo e nada mais interessa. Por estes dias quero que seja assim. Que a vida desabe à nossa volta, não quero saber. Vou fechar os olhos, ouvir a Ella ou a Gisela, e só vou pensar em coisas boas.

Feliz natal.

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publicado às 09:45

Sexta-feira. Uma amiga com quem partilhar as angústias e as alegrias.

E um gin tónico de pijama.

Sábado. Uma amiga com quem partilhar um filme sobre o amor, A Star is Born.

E esta canção:

Bradley Cooper e Lady Gaga, Shallow

Domingo. Uma amiga que me dá abraços bons.

Um concerto para me aquecer a alma.

E esta canção:

Tribalistas, Sem você 

Há sempre coisas boas a acontecerem. Todos os dias. Só temos que estar atentos. 

E as coisas más a gente esquece.

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publicado às 08:55


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