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Mais um ano. O mundo está um lugar triste e perigoso. O nosso país também. À minha volta há cada vez mais ódio e egoísmo. Na política, nas redes sociais, na rua. Temo que nos próximos anos nos vamos afundar ainda mais neste caldo de extremismos temperado por trumpes e venturas, que vamos ter ainda mais conflitos sociais e guerras mortíferas, que vamos viver tempos terríveis antes de retormamos, outra vez, o caminho do humanismo. Resta-nos continuar a lutar - cada um à sua maneira - por aquilo que julgamos correcto, pela igualdade, pela liberdade, pelo bem comum, pela solidariedade.
Pessoalmente, 2025 foi um ano bom. Nem me lembro da última vez que disse uma coisa destas. Não aconteceu nada de extraordinário, mas também não aconteceu nada de trágico. Mais importante: chego ao final do ano a sentir-me em paz, como há muito tempo não sentia.
O segredo para ser feliz num mundo assim não é segredo nenhum: é rodearmo-nos de pessoas boas, encontrar/criar uma comunidade de gente que nos acompanhe neste olhar para o lado bom do mundo, sem alimentar a raiva e o ressentimento, que nos estenda a mão e nos acolha no seu colo nos momentos maus, gente com quem podemos conversar sobre tudo, com quem podemos chorar e gargalhar, pensar, dançar, viajar ou apenas estar. Tenho muita sorte por ter algumas pessoas assim na minha vida. Os melhores momentos do ano foram, como sempre, todos aqueles que passei com os meus amigos e a minha família.
Para memória futura:
Não falei de tudo aqui, mas como habitualmente entre o melhor do ano estão os livros, os espectáculos de teatro e dança, os concertos, muitos filmes e muitas séries, algumas exposições. Nestes tempos sombrios é ainda mais importante alimentar o espírito.
Aceitei participar num grupo de escrita. O nosso largo está cheio de mulheres muito diferentes e com ideias diversas. Tem sido um desafio e tanto, e nem sempre consigo corresponder, mas espero que continuemos a escrever juntas.
Sobrevivemos ao apagão.
Fui ao Tremor, em São Miguel. Foi incrível. Vamos voltar.
O António saiu de casa durante sete meses. Esteve a morar noutra cidade, a três horas daqui, trabalhou, cresceu e depois voltou. Está mais responsável, mais decidido, mais autónomo. Está a transformar-se num adulto com a cabeça no lugar e o coração no sítio certo. Às vezes custa-me acreditar. Acho que até sinto um certo orgulho (não quero lançar foguetes antes do tempo, mas estou contente, sim).
O Pedro ainda me dá (e vai continuar a dar) muitas dores de cabeça. Seguimos fortes nesta travessia pela adolescência.
Os meus filhos são o meu barómetro. Se eles estão bem, já é meio caminho andado. E este é o meu texto preferido do ano neste blogue.
Fui à Ucrânia e a Madrid. Há muito tempo que o trabalho não me levava a entrar em aviões e foi bom como sempre é. Sobretudo porque na maior parte dos dias o trabalho não me dá grandes motivos de felicidade. Parece que vamos ter de trabalhar até quase aos 68 anos, não sei como irei aguentar.
De um dia para o outro, o envelhecimento tornou-se real. Nos meus grupos de amigas, fala-se muito sobre menopausa, queixamo-nos dos males dos nossos corpos, trocamos mezinhas e recomendações médicas. Angustiamo-nos com o envelhecimento dos nossos pais, entristecemo-nos com as perdas, cada vez mais comuns.
Mas também há bebés, e a cada bebé renova-se a esperança. Nasceu o Xavier. Em breve nascerá a Emília. Por causa dos filhos das minhas amigas, voltei a bordar em ponto-de-cruz e tem sido muito divertido.
Mergulhei no Mediterrâneo. Foi fantástico (e não só por causa da temperatura da água). Estes últimos anos têm me ensinado a não fazer planos. Desfrutar o presente, aproveitar cada minuto como se fosse o último, é um desafio nem sempre fácil. "Contra todas as evidências em contrário, a alegria" - mais uma vez, ainda, enquanto for bom.
Queria escrever sobre fúrias, porque tinha falhado a última sexta-feira no largo e achei que ainda vinha a tempo de destilar aqui um pouco das muitas fúrias que me têm acometido por estes dias. São tantas que a dificuldade seria escolher a qual me deveria dedicar. Mas, depois, na segunda-feira fui ver o concerto de Bonnie "Prince" Billy, no Teatro São Luiz. Preciso sempre de uma grande dose de boa vontade para sair de casa depois de um dia de trabalho, mas como o concerto foi logo às 20:00 (um grande bem-haja para quem teve esta ideia) lá me animei. E ainda bem que não sucumbi à preguiça, pois foi uma belo serão.

Sempre com um boné na cabeça, como que a esconder a careca, um boné que, diga-se, parece destoar do resto da indumentária indie-folk mas entretanto já se tornou uma imagem de marca sua, Bonnie falou pouco com a plateia (mas o suficiente para criticar o estado da política americana), entregando-se por completo à guitarra e às canções que trazia para cantar. Os músicos eram todos excelentes. Fui pesquisar para poder dizer os seus nomes: Eamn O’Leary (bouzouki), Jacob Duncan (flauta e saxofone) e Thomas Deakin (guitarra barítono, clarinete, corneta) e, juntando-se um pouco mais tarde, Nuala Kennedy (flauta e voz). Não conhecia todas as músicas mas isso não fez diferença nenhuma. Durante mais de uma hora e meia, esqueci todas as fúrias e estive completamente imersa naquela músicas que pareciam vindas de um outro tempo para nos fazer olhar com olhos-de-ver para o mundo que nos rodeia e para as coisas que realmente importam.
Numa entrevista publicada no Expresso no fim-de-semana anterior, ele tinha dito isso mesmo: "Penso que a forma como nos tratamos uns aos outros, mesmo em microinterações, é impossível registar o impacto disso, mas penso que é o mais importante. A música tem o seu valor, como tudo aquilo que valorizamos, respeitamos e que fazemos com uma certa intenção. Mas as as coisas que nos mantêm vivos e coexistem connosco é que permitirão à minha filha encontrar bolsas de felicidade no futuro."
Deixo aqui três canções das que ele cantou e de que gosto particularmente:
Lay and Love (a abertura do concerto)
From what I've seen, you're magnificent
You fight evil with all you do
Your every act is spectacular
It makes me lay here and love you
From what I hear, you are generous
You make sunshine and glory too
When you walk in things go luminous
It makes me lay here and love you
From what I know, you're terrified
You have mistrust running through you
Your smile is hiding something hurtful
It makes me lay here and love you
It makes me lay here and love you
I'm filled with violet and red and blue
I have a feeling from what I do
That you might lay there and love me too
*
The Water's Fine
*
Our home (a fechar o concerto)
Sobre as fúrias - ou sobre outra coisa qualquer - vale sempre a pena ler o que escrevem as minhas companheiras do largo:
Às vezes no meio de um acontecimento feliz, um qualquer - um jantar com amigos, uma brincadeira com os miúdos, um silencioso dia de praia só com um livro, um barulhento encontro de família, um passeio de mão dada, um concerto daqueles -, de repente dou por mim a parar um segundo e a pensar: porra, sou mesmo uma pessoa com sorte.
Nesses momentos fugazes de felicidade plena, sinto-me em paz, de coração lavado.
Quero guardar esse sentimento, tê-lo sempre comigo. A minha reserva pessoal de alegria para usar em caso de necessidade. Para os dias em que estou miserável e penso que vai tudo correr mal. As boas memórias são o detergente mais eficaz.

Diz que há outros corações lavados por aí:
Este ano não me apetecia muito fazer balanços, mas, por outro lado, sei que me vai fazer bem este momento de reflexão, portanto, vamos a isso. Há dois aspectos da minha vida - o trabalho e os filhos - que continuam a ser motivo de enorme frustração. Não vou aprofundar este tema. É o que é, um dia voltarei à terapia e terei muito que contar, por agora é lidar o melhor possível com a situação. Aprendi as minhas lições. Para não cair em depressão, optei por contrabalançar as tristezas enchendo os dias com muitas outras coisas muito boas. E, aqui e ali, a felicidade acontece. Foi assim que se passou mais um ano:
A democracia fez 50 anos e eu também.
Tatuei a liberdade e os meus dois amores.
Tirei o útero e isso melhorou muito a minha vida.
Fui mais vezes ao teatro e vi espectáculos maravilhosos (ainda assim, não vi todos os que desejaria), li livros que me encheram as medidas, vi muitos bons filmes, alguns bons concertos (A Garota Não - outra vez -, mas também Patti Smith, Sérgio Godinho, Luísa Amaro, Ana Lua Caiano, Expresso Transatlântico, Cara de Espelho, Samuel Úria, Nick Cave, Rodrigo Amarante, Dora Morelenbaum), poucas exposições (recordo duas idas ao MAAT, para ver a Joana Vasconcelos e a instalação de Ernesto Neto, o novo CAM, as fotografias de Luís Pavão, Eduardo Gageiro, Maria Lamas, Júlia Ventura e Sebastião Salgado, as enormes mostras de João Abel Manta e Pedro Cabrita Reis).
Aceitei desafios que me fizeram tremer a voz - e isso foi bom.
Continuo no caminho (tortuoso) para me mexer mais e comer melhor.
Fui muito feliz com os meus amigos. Estou cada vez melhor nisto de estar sozinha, mas os melhores momentos, aqueles que quero recordar e repetir, foram todos, mas todos, vividos acompanhada.
"Contra todas as evidências em contrário, a alegria". Trouxe o verso de Manuel Gusmão de 2023 e ele acompanhou-me ao longo de 2024. Ainda não sei muito bem o que fazer com esta alegria inesperada. Espero levá-la para o ano que aí vem. Juntamente com este sorriso.

Dizem que a idade, além das rugas e dos cabelos brancos, traz-nos também sabedoria. Não sei se será bem assim. Querem conselhos? Bebam água, façam exercício, sejam boas pessoas. Querem mais conselhos? Vejam o vídeo fantástico do Baz Luhrmann, Everybody’s free (to wear sunscreen). Está lá tudo o que importa. Eu não tenho lições para dar a ninguém. Mas aprendi as minhas próprias lições. Isto é o que eu tento não esquecer:
1. A vida vai-se num sopro. Ainda ontem, a ler as notícias, pensei nisso. Não devemos perder tempo com o que não é importante. Temos que aprender a ignorar. Ignorar as pessoas que não nos interessam. Ignorar as pressões, as opiniões e as expectativas dos outros. Dizer não quando nos apetece dizer não. Sermos nós mesmos. Sem mentiras. Sem vergonha. Sem medo.
2. O trabalho até pode ser bom, mas é só trabalho. O trabalho permite-nos ganhar dinheiro para pagar as contas e para comprarmos coisas que nos podem fazer mais felizes, mas o trabalho não nos define. E, certamente, não define aquilo que valemos. O melhor mesmo seria não ter que trabalhar.
3. As coisas nem sempre correm como desejaríamos. Nem sempre é culpa nossa. Nem sempre está nas nossas mãos. Temos de fazer o nosso melhor, lutar o que houver para lutar e aceitar o que houver para aceitar (esqueço-me muitas vezes disto, ainda é um processo).
4. As pessoas são o mais importante. As nossas pessoas. Não nos podemos esquecer de dizer-lhes o quanto gostamos delas. Melhor ainda: mostrá-lo. As pessoas que escolhemos e que nos escolhem são verdadeiramente a única coisa que importa nisto tudo.
5. É essencial encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Mesmo quando tantas coisas correm mal, há sempre algo. Um sorriso. Uma música. Uma mensagem. Um livro. Uma palavra. Um abraço. Um cheiro. Uma memória. Há tantas coisas boas, só temos que estar atentos.
Por exemplo: esta playlist (feita há já uns tempos) para celebrar todas as mulheres, de 50 anos e não só.
Para não me stressar, meti férias na semana dos 50. Dediquei estes dias a fazer coisas que me dão algum prazer. Por exemplo, no sábado, a convite da Filipa, passei um dia inteiro à mesa, com amigos e amigos de amigos, a conversar, entre comidas e copos de vinho, sem dar conta do frio e da chuva lá fora. No domingo, do nada, o telefonema da Paula F. com convites inesperados para o concerto do Nick Cave, tirou-me do sofá para uma noite maravilhosa. Desta vez, senti-o menos melancólico, menos triste, pelo contrário, saímos de lá em paz, felizes por termos podido estar ali, por termos partilhado aquelas quase três horas de música, por vermos o prazer que todos tinham em cima do palco, o prazer de todos os que encheram a arena. O resto da semana está a correr tranquilamente. A organizar os álbuns de fotografias, a ir a aulas de pilates, a ler a Virginie Despentes, a cozinhar sem pressa, a jantar com os rapazes, a ver filmes de pijama, a aproveitar o silêncio, a trabalhar nas minhas coisas, nas coisas que gosto, para me lembrar que trabalhar também pode ser bom. Não vi notícias. Tatuei a liberdade. Comprei bilhetes para concertos em 2025. Inscrevi-me num voluntariado. Podia viver assim e ser feliz, só a deixar-me levar.
Há sorrisos que dizem mais do que muitas palavras. Sou feliz a trabalhar (mas só às vezes).
Há um novo episódio do podcast da Arte em Rede para ouvirem AQUI. Ainda não ultrapassei a estranheza de ouvir a minha voz, mas já estou mais apaziguada com isto de fazer jornalismo na primeira pessoa.
A fotografia é do Pedro Jafuno.
Podia falar-vos das minhas mil angústias, do trabalho que me faz infeliz quase todos os dias, dos horários terríveis, do ordenado miserável, da prestação da casa a subir, da frustração, podia dizer-vos das noites que passo sem dormir preocupada com os meus filhos, com o futuro que não consigo prever nem controlar, da culpa permanente, sempre a culpa, das saudades, do cansaço, do quão farta estou de decidir o que vai ser o jantar, de preparar marmitas, de estender a roupa, de mandá-los arrumar os quartos e desligar os telemóveis, das listas de compras, da máquina da louça avariada, das luzes que se fundem, do bolor no tecto da casa-de-banho, das obras que queria fazer, que é preciso fazer, mas é tudo tão difícil, tantos problemas, tantas preocupações e ainda mais as guerras, as alterações climáticas, a pobreza, a maldade das pessoas, podia contar-vos dos dias, semanas, meses em que o meu corpo sangra incontrolavelmente por causa da porcaria da perimenopausa, do meu médico a dizer "é só sangue", com um sorriso de desdém, como se por ser mulher tivesse que aguentar todos os incómodos sem me queixar, dos quilos que ganhei, das rugas, das peles flácidas, da exaustão, da apatia que me invade em dias em que me afundo no sofá e não me apetece nada, falar-vos da solidão que se esconde atrás das gargalhadas.
É tudo verdade. E, no entanto, 2023 não foi só isto.
"Contra todas as evidências em contrário, a alegria".
A alegria dos putos nos dias bons. Só isso já basta.
Aprendi a fazer pão. Fiz pão. Voltarei a fazer pão, isso é certo.
Páscoa na praia de sempre. Os putos com pranchas de surf. E o meu pai comeu pizza pela primeira vez na vida.
Quando a Paula me diz: vou passar aí. E vamos as duas. Seja onde for.
Nós os três a jogarmos snooker numa noite de verão.
Um grupo de whatsapp com amigas pode ser um refúgio, um colo, um escape, um conforto. Sabermos que não estamos sozinhas.
Os poemas que nunca teria descoberto sozinha e as pessoas que dizem esses poemas naqueles encontros que juntam comida e bebida e tantas partilhas.
Os amigos. Os amigos de sempre, os amigos recentes, os amigos que vêm e que vão. Os que estão sempre aqui. Os que raramente vejo. Os que me levam para copos, jantares, programas, e me obrigam a sair de mim. Aqueles com quem converso e me fazem mergulhar no mais fundo de mim. Os que telefonam e os que mandam muitas mensagens. Os que quase não dizem nada. São todos importantes, à sua maneira.
As vezes em que consegui vencer a preguiça. Ir a uma aula de yoga ou de pilates. Caminhar. Pedalar. Passear. Ir. Não me deixar ficar. Partir a telha.
Os livros (Annie Ernaux, Fernanda Melchor, Anabela Mota Ribeiro, Alia Trabuco Zerán, Catarina Gomes, Susana Moreira Marques, Ruy Castro, Douglas Stuart, Nathan Thrall, outros que agora não me lembro porque não conto os livros que leio); os filmes (tantos, não consigo enumerá-los); os espectáculos (menos do que gostaria, mas ainda assim); os concertos (Chico e Caetano no mesmo ano é como ganhar o totoloto, não é? Mas também Blur, Arcade Fire, Dino D'Santiago, Ana Lua Caiano). As artes todas. Janelas abertas para o mundo. Oxigénio para mim.
A Garota Não. À parte porque é especial. Vi-a três vezes e foi sempre maravilhosa. "A vida fica difícil, o tempo passa tipo míssil, derramado em suor."
Os dias em que o trabalho vale a pena. Poucos mas bons.
Os putos a pintarem as paredes do quarto, com a música em altos gritos.
A viagem a Nápoles. E a Alda.
Os miúdos fizeram-me um "bolo da caneca" e foram acordar-me à meia-noite para me cantarem os parabéns.
Um ano sem aplicações de encontros. Muita tranquilidade.
O António a chegar a casa às quatro da manhã, vai ao meu quarto - "Mãe, já cheguei" - deita-se ao meu lado e conta-me como foi a noite.
O meu pai, de braço dado comigo, a reaprender a andar com a sua anca nova.
Tricotei um cachecol enorme e lindo.
Eu e o Pedro a andarmos de bicicleta junto ao Tejo.
Pôr música a tocar e passar horas a cozinhar. Não por obrigação, mas por prazer.
O Natal. Apesar de tudo. E o privilégio de participar numa festa diferente.
A casa da minha irmã, sinónimo de família, de Alentejo, o sítio onde voltamos sempre.
A surpresa de encontrar alguém com quem me apetece estar. Aceitar a impossibilidade. Sentir que me poderia apaixonar. Ficar feliz só com a possibilidade.
Ter uma agenda para 2024. Fazer planos.
O verso de Manuel Gusmão que está no título desde post é bem conhecido, mas foi só quando o re-ouvi no espectáculo Bravo 2023!, dos Praga, que percebi que era a frase ideal para descrever este ano (ou esta vida). Contra todas as evidências em contrário, a alegria surge nos momentos mais inesperados. A tal da felicidade nas coisas pequenas, que é o combustível que nos faz continuar todos os dias e não nos deixa desesperar. Que nos salva.
(nesta foto, a minha maior alegria, o meu maior medo, o meu tudo, para o bem e para o mal)
No camarote dançámos, cantámos, ficámos só muito atentos a ver e ouvir Caetano Veloso, emocionámo-nos. A certa altura pensei: que privilégio este, estar aqui, rodeada de amigos, vendo e ouvindo mais uma vez um dos meus artistas preferidos, que privilégio poder ouvir esta voz, desfrutar desta música. Não sou nada da moda do "estar grata", pelo contrário, queixo-me e reclamo muito, passo demasiado tempo zangada com a vida, sempre a querer mais. Mas há momentos assim, tão bons, que é impossível não pensar: que privilégio. Em vez de pensar nos concertos e nos espectáculos e nas viagens e em todos os programas a que não me consigo juntar por falta de tempo, de dinheiro ou de energia, prefiro pensar em todas as coisas boas que me acontecem e nas pessoas amigas com quem as partilho. Tanta felicidade nas coisas pequenas que me tenho esquecido de assinalar. Este ano, por exemplo, o privilégio duplo de ver ao vivo Caetano, com 81 anos, e Chico, com 79 (não os vou comparar sequer, estou só a dizer que senti o mesmo com ambos).
Nesta entrevista, Caetano explica quase tudo sobre o seu último disco, Meu Côco.
E esta é a parte sobre uma das minhas cançõs preferidas desse disco, Não Vou deixar:
"Não vou deixar, não vouNão vou deixar você esculacharCom a nossa históriaÉ muito amor, é muita luta, é muito gozoÉ muita dor e muita glória"
Para ler
Os livros da Jessi Klein, que descobri já não me lembro por recomendação de quem nas redes sociais. A Jessi Klein é uma atriz, stand-up comedian e argumentista norte-americana que escreveu dois livros com pequenos textos onde fala disto de ser mulher, de chegar à meia-idade e de ser mãe, com grande realismo e algum humor. Intitulam-se You'll Grow Out of It (2016)e I'll Show Myself Out: Essays on Midlife and Motherhood (2022) e têm lá muito daquilo em que nós, as mulheres, pensamos, dos cabelos brancos à busca pelo amor.

Para ver
Duas sugestões muito diferentes (entre as milhares de coisas que tenho visto no streaming):
Heartstopper (Netflix), uma série sobre adolescentes, que é também uma série sobre pessoas LGBT. Podia ser só mais uma série sobre miúdos num liceu, mas é tão fofinha que conseguiu emocionar uma cota quarentona
Olive Kitteridge (HBO): a partir do livro de Elizabeth Strout, esta minissérie protagonizada por Frances McDormand, Richard Jenkins e Bill Murray acompanha o casamento entre uma rígida professora de matemática e um farmacêutico gentil numa terra perdida em New England, EUA, ao longo de uma vida, por entre obrigações, sonhos e desilusões, filhos que crescem e o lento envelhecimento, com a doença e a morte à espreita. E no meio disto tudo o que é o amor e onde fica a felicidade? E como é que vamos mudando e nos vamos adaptando a todas as mudanças da vida?
Para ouvir
A playlist de outono do ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, é ainda melhor do que a playlist que ele tinha feito para o verão. São quatro horas de puro deleite (e melancolia q.b.). Por aqui está em repeat.