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No outro dia fomos ao cinema ver o 1917. Eu e os meus dois filhos.

É engraçado. Para o António ir ao cinema não é sequer uma hipótese de programa com os amigos. Os amigos servem para jogar à bola ou playstation ou para ficarem horas a fio na conversa, a dizer parvoíces e a deambular por aí. Ir ao cinema? Eles estão habituados a ver os filmes e as séries nos telemóveis (ou, na melhor das hipóteses, no computador), com phones nos ouvidos, sozinhos. É uma experiência completamente diferente da que eu tive, quando ir ao cinema ao sábado à noite era não só a única maneira de ver algum filme como era também a única coisa que havia para fazer com os meus amigos. Já para estes miúdos, ir ao cinema é um desperdício de tempo útil com os amigos (certamente porque ainda não descobriram as maravilhas do "escurinho do cinema") e um desperdício de dinheiro. Uma pessoa argumenta com a qualidade da imagem e do som mas não é fácil. Talvez tenham de crescer mais um pouco.

De maneiras que, por agora, parece que ir ao cinema é um programa com a mãe. Uma coisa de cota. Que seja. Não me parece mal se isto se tornar "a nossa coisa em conjunto". Apesar de cada vez ver mais filmes em casa (é inevitável) eu gosto muito de ir ao cinema. E mal posso esperar pelo momento em que poderei ir com eles ver todos os filmes. Neste momento estamos numa fase complicada. O António já poderia ver tudo mas o Pedro ainda só tem 11 anos -  ele é um valente e não protesta nem mesmo quando numa das nossas noites de cinema em casa vemos o Platoon e ele não percebe grande parte do que se passa. Mas, ainda assim, não convém exagerar. Gostou do 1917, não se queixou nem se aborreceu, mas pediu para da próxima vez irmos ver um filme "de acção". É justo.

Isto tudo é só um pretexto para dizer que o meu filho mais velho fez 16 anos. Ele não gosta de tirar fotografias e mesmo quando me deixa fotografá-lo não me deixa partilhar as fotos. E também não gosta muito que eu escreva sobre ele. Tenho que respeitar. Por isso só posso dizer-vos isto: o meu filho fez 16 anos e tem sido o maior desafio da minha vida. Em bom e em mau. Aliás, isto de ser mãe sozinha de dois rapazes tem sido uma aventura e pêras, uma daquelas coisas que só quem passa por elas é que pode entender. Um dia, quando isto tudo passar, talvez vos conte. 

Por agora fiquem a saber que fomos ao cinema os três ver um filme de adultos. Não foi a Velocidade Furiosa nem o Homem Aranha. Foi um filme de crescidos, escolhido por mim. E isso, parecendo tão pouco, deixa-me muito feliz. São assim, tontas, as mães.

publicado às 16:29

O maior desafio da maternidade? Uma pessoa acha que nada pode ser pior do que aqueles primeiros dois meses depois do nascimento do primeiro filho em que a sua vida se virou de pantanas, em que está exausta e com as hormonas aos saltos e só quer dormir uma noite inteira sem ter que dar de mamar nem trocar fraldas. Depois uma pessoa acha que nada pode ser pior do que separar-se e ficar sozinha com dois filhos pequenos e de repente ter que ser mãe e pai e correr de um lado para o outro para apagar todos os fogos e nem sequer ter um colo aonde desabar ao final do dia. E depois chega a adolescência e, juro-vos, nada é pior do que isto, assim ao nível do cansaço mental, do desespero de nos sentirmos umas completas incapazes na tarefa de educar um filho e do consequente sentimento de culpa. Os últimos dois anos têm sido, sem dúvida, o maior desafio da minha carreira como mãe. E o pior é que vai continuar e, provavelmente, ainda vai piorar, porque a adolescência do primeiro está longe de terminar e, entretanto, o segundo já dá sinais de se querer armar em adolescente. 

Não está fácil.

Uma vez que não há teenblogs, como há babyblogs, isto de ser mãe/pai de adolescentes acaba por ser muito solitário. Aqui estamos nós, apavorados com o que nos está a acontecer, mas achando que somos os únicos a passar por isto, que todos os outros pais estão felizes e contentes e só nós é que nos sentimos miseráveis. Visto de fora, a mim parece-me sempre que os filhos dos outros dão muito menos chatices do que os meus. 

É por isso que me sinto mais apaziguada quando encontro alguns artigos que me ajudam a desdramatizar um pouco os meus problemas - que, vendo bem, não são assim tão graves - e me dizem que isto que está a acontecer com o meu filho e comigo é, afinal, algo bastante normal.

Por exemplo, estes artigos:

Be prepared, give them space, let them fail: how to survive the terrible teens (no The Guardian)

Jaume Funes: "Educar um adolescente é dar-lhe autonomia e fazê-lo aprender a gerir riscos" (no DN)

Claro que as dúvidas e as preocupações continuam cá todas. E as respostas tortas dele e as discussões entre nós também. Mas ao menos, ao ler isto, não me sinto a pior mãe do mundo. E até consigo reconhecer que estou a fazer algumas coisas bem feitas e que, a seu tempo, hão de dar os seus frutos (hopefully).

E, assim, continuamos na luta. Nesta montanha-russa.

publicado às 22:13

Na primeira vez em que fomos de férias a três eu estava um bocadinho ansiosa. O António tinha 9 anos, o Pedro 5. Eu já estava há mais de um ano sozinha com eles mas nunca tínhamos estado assim, umas três semanas por nossa conta, longe de casa, a inventar programas e a aturar-nos 24 horas por dia. Acabou por correr tudo surpreendentemente bem. Muito melhor do que eu poderia imaginar. De então para cá, já tivemos muitas férias diferentes. Umas vezes juntando-nos com amigos. Outras vezes só nós. Umas vezes indo mais longe, outras ficando mais perto, umas vezes por muito tempo, outras só uns dias. Mas sempre com um lema: no stress. Como o nosso dia-a-dia é geralmente feito de horários e pressões, as férias tornaram-se uma oportunidade única para estarmos sem grandes compromissos e para desfrutarmos ao máximo da companhia uns dos outros com o mínimo de discussões e muita leveza. É mesmo só isso que procuro. E tem sido muito bom. 

Entretanto os putos foram crescendo, o que facilita muito a parte logística mas levanta outro tipo de questões. Este ano, pela primeira vez, temi que as coisas não corressem tão bem. Afinal, o adolescente está numa fase complicada, naquela fase em que tudo é um aborrecimento, sobretudo tudo o que envolva a mãe (seca) e o irmão mais novo (mais seca). Além disso, tinha que se afastar da sua querida playstation e (oh, o horror) passar a maior parte do tempo sem wifi. Respirei fundo e lá fomos. E não digo que foram as melhores férias de sempre nem que não houve ali uns momentos de tensão. Mas foi muito melhor do que eu estava à espera. Sem grandes dramas a assinalar. E houve até momentos em que deu para sentir aquela emoçãozinha por ainda conseguirmos fazer isto de estarmos juntos e sermos felizes os três com coisas simples como jogar às cartas ou ficarmos deitados todos numa cama a conversar ou até só numa ida ao supermercado para comprar o jantar. Foi talvez o ano em que passámos mais tempo sem fazer nada. Foi o ano em que estivemos mais tempo no Alentejo com a família. Foi o ano em que os putos dormiram quase sempre até ao meio-dia. Foi definitivamente o ano em que passámos menos tempo na praia (e em que cheguei ao fim menos bronzeada do que é habitual). E no entanto, parece-me, não poderia ter sido melhor. Era exactamente isto que eu precisava. Até porque, sinceramente, acho que cada vez preciso de menos. Basta-me ficar a olhar para eles a dar mergulhos, felizes. Posso ficar assim durante horas. E eles também.

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(Porque nem tudo é perfeito: o António está na fase "no photos". No ano passado, já tinha sido uma selfie tirada a ferros, este ano não sei sequer se tenho alguma foto decente dele na máquina. Mas tenho esta, que é muito representativa dos meus putos,)

Gosto muito de nós nas férias. Estes são os momentos e os sentimentos que temos de guardar. É a esta felicidade que viremos beber ao longo dos próximos meses quando estivermos cansados e zangados, quando nos odiarmos, quando tudo estiver a correr mal e quando sentirmos vontade fugir.

Só temos que nos lembrar que não tarda nada é verão outra vez. 

publicado às 22:13

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Eles crescem e fica tudo mais fácil? Nem tudo. Tirá-los de casa, por exemplo, é muito mais difícil. Há uns tempos, bastava-me dizer vamos ali ao parque jogar à bola e assim, com umas horas passadas no parque das nações ou no jardim das conchas, resolvíamos a tarde de sábado e éramos todos felizes. Agora, o Pedro ainda alinharia na boa num programa desses mas para isso precisava do irmão porque ir ao parque sozinho com a mãe não é lá muito divertido. E o irmão... o irmão tem 15 anos e já não acha muita piada a ir ao parque com o mano mais novo. Portanto, este é um dos meus novos desafios: encontrar programas que agradem aos dois. Sobretudo: encontrar programas que agradem a um adolescente e que o tirem de casa sem ser obrigado (eu obrigo, de vez em quando, sei que não é a melhor maneira e que as mães perfeitas arranjam sempre uma maneira melhor mas eu não sou uma mãe perfeita e por vezes tem mesmo que ser). 

Um truque: convidar amigos deles. 

Melhor ainda: combinar com amigos deles cujas mães são minhas amigas. Ou com amigas minhas cujos filhos têm idades parecidas aos meus.

Às vezes conseguimos. E até conseguimos ficar na praia até ser noite. Mas é só às vezes.

publicado às 11:42

21
Jul19

Privilégios

O vídeo aparece de vez em quando partilhado nas redes sociais. A primeira vez que o vi (há uns dois anos?) doeu-me a alma mas ainda estava na fase do não querer acreditar que isto ia ser mesmo assim. Da última vez que o vi (na semana passada) já não consegui evitar emocionar-me. A "corrida do privilégio" começa com todos os jovens alinhados mas, antes de ser dada a partida, o juiz faz algumas perguntas a que cada um deve responder. Se a resposta for positiva, dão dois passos em frente. Se a resposta for negativa, ficam no mesmo lugar. São perguntas sobre privilégios (do tipo: se estudaram em escolas privadas, se estão sempre seguros sobre a próxima refeição, etc.). No final, há uns que estão mais à frente, outros que ficaram lá para trás. E esta corrida - que é a vida - ainda nem começou. Há um grupo de jovens que ainda nem teve que fazer nada e já está em vantagem. É isso o privilégio. Isto já seria coisa para mexer com o meu coração de esquerda mas o que me doeu mais foi que as perguntas começam assim:

Dêem dois passos em frente se...

1) os vossos pais ainda são casados

2) cresceram com uma figura paterna em casa

Portanto, à segunda pergunta os meus filhos já ficaram bem para trás.

(momento para engolir em seco e ter aquele sentimento de culpa)

(seguido de momento para acordar para a vida e dizer culpa de quê? quem tem de sentir culpa não és tu, tu estás aqui todos os dias)

(seguido de momento para arregaçar as mangas e continuar em frente)

Cá em casa corremos atrás do prejuízo. Permanentemente. Já há uns tempos que tenho plena consciência disso. Não é fácil. As coisas nem sempre são como eu gostaria. Às vezes temos assim uns tropeções e uns trambolhões. Mas damos o nosso melhor. E não desistimos nunca.

publicado às 22:11

Domingo às oito da manhã estava na cozinha a fazer massa com atum, antes de ir trabalhar. À hora do almoço liguei ao António, que estava sozinho em casa. "Está óptima, mãe, mesmo boa", disse-me, com a boca cheia, enquanto tirava garfadas de massa directamente do tacho, sem sequer a aquecer. Senti-me feliz. Acho que foi o melhor momento do meu dia da mãe.

Cozinhar para os outros, ainda que seja cozinhar uma coisa banal como massa com atum, é um ato de amor tão importante como dar braços. 

publicado às 16:07

1 - Nunca serei a mãe que imaginei ser. Essa é a maior frustração.

2 - O amor de mãe (ou de pai) é o maior do mundo. É um cliché mas é verdade. 

3 - Ser mãe é ter medo. Constantemente. Medo de que algo de mal lhes possa acontecer, seja uma coisa grave ou uma coisa de nada. Medo de não estar lá quando eles precisam. De não ser suficiente. Que alguém os magoe. Que eles se magoem. Medo.

4 - Os filhos não são como nós queremos. Nós podemos orientá-los, educá-los, puxar por eles, ajudá-los, apoiá-los. Mas eles são como são. E isso é uma coisa boa (mesmo que às vezes não pareça).

5 - Não é preciso ter um bebé na barriga para se ser mãe (os pais não têm bebés nas barrigas e são pais).

6 - Relativizar é preciso. Sempre. Com tudo. 

7 - Há momentos em que eles nos odeiam. Custa mas faz parte. 

8 - Os filhos crescem. Deixam de caber no nosso colo, deixam de ouvir os nossos conselhos. Temos que os deixar ir. Temos que os deixar escolher. E errar. E aprender. Não é fácil mas tem mesmo de ser. 

9 - Poucas coisas são mais dolorosas do que ver um filho triste. Magoado. Doente. Choroso. Abraçamo-lo com força mas a impotência é enorme.

10 - Vê-los felizes é a maior felicidade de todas. Não é possível ser feliz todos os dias a todas as horas. Mas é possível ser feliz de vez em quando. É possível ser feliz com coisas pequenas. E isso é o que nos move. A felicidade está onde menos se espera.

 

É mentira. Não aprendi nada disto. Ainda estou a aprender. Tenho muitas dúvidas. E há dias em que me apetece desistir. E desespero. E zango-me. E sinto-me muito culpada. E choro. Mas depois acordo no dia seguinte e recomeço. Porque a única coisa que aprendi verdadeiramente, a única lição disto tudo, é que o trabalho de uma mãe nunca acaba. 

Ontem foi dia da mãe e foi um dia mau. Vamos ver como será hoje.

publicado às 09:00

Não são bem umas férias. Foram só quatro dias de folga que eu consegui tirar para estar um bocadinho com eles sem a pressão da escola e dos horários. Só para estarmos. O primo juntou-se nestes dias e os crescidos foram ao cinema ver o "Capitão Marvel" mas não ficaram muito satisfeitos. Além disso, houve muita playstation, alguns jogos de bola no terraço e intermináveis conversas na cama, muito para além da hora de dormir. Faz parte. Depois, todos os dias, tivemos um pequeno programa organizado por mim. Apenas para tirá-los de casa. O adolescente de serviço foi sempre obrigado e contrariado, prometendo odiar tudo. Também faz parte. Não tivemos muita sorte com o tempo. Mas é preciso muito mais do que uma chuvinha para derrotar uma mãe-que-quer-afastar-os-seus-rapazes-dos-ecrãs, não é? No final, não correu assim tão mal. Acho que até houve momentos em que se divertiram.

1. Exposição "Cérebro - mais vasto do que o céu"

Muito interessante esta exposição na Fundação Gulbenkian. Os rapazes não tiveram paciência para ler os textos e absorver toda a informação (que é imensa) sobre o funcionamento do cérebro. Mas acho que experimentaram todos os jogos interactivos e acabaram por se divertir bastante. Mesmo. Ainda por cima, os preços são simpáticos: os miúdos até aos 12 anos não pagam, os jovens pagam 2,50 euros e os adultos 5 euros. Para ver até 10 de junho.

2. Miradouro Panorâmico de Monsanto

Um antigo restaurante abandonado no meio de Monsanto com uma vista fabulosa e muitos recantos para explorar - os meus filhos são mais do tipo explorador do que do tipo contemplador de paisagens. E ainda dá para ver de perto o retrato de Marielle feito por Vhils. Das 9.00 às 19.00. Entrada livre.

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3. Exposição "Living among what's left behind"

O fotógrafo Mário Cruz - premiado pelo World Press Photo - esteve em Manila e fotografou toda a pobreza daquelas pessoas que vivem do/no lixo junto ao rio Pasig. São imagens impressionantes e ele tem a capacidade de fotografar a miséria de forma bonita mas sem fazer da miséria uma coisa bonita (que é algo que me irrita muito num determinado tipo de fotojornalismo). Foi um murro no estomago para todos, sobretudo para os miúdos que se esquecem muita vezes do quão privilegiados são. A exposição está no Palácio dos Anjos, em Algés, até 26 de maio e a entrada é livre.

publicado às 11:32

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2006

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2015

Hoje o António fez 15 anos e caiu nas escadas do prédio. No hospital, onde fomos só por prevenção, para termos a certeza que as dores eram só dores e não havia ossos partidos, disseram-nos que ele já não podia ir para as urgências pediátricas, que aos 15 já se vai ao médico dos crescidos. E foi ali, enquanto pagava 40 euros para esperar uma hora e meia por uma consulta de 10 minutos e sair de lá com uma receita de benuron e emplastro para as costas, que olhei de esguelha para o meu filho, um magricelas da minha altura com a cara cheia de borbulhas e os olhos permanentemente enfiados no telemóvel, e quase me emocionei. Quinze anos, caramba. E eu ainda tão à nora como quando o trouxe para casa da maternidade e mal sabia trocar uma fralda. Quinze anos, caramba. E ele ainda com o mesmo sorriso maroto. Tão lindo o meu filho de quinze anos. É uma peste, claro. Mas é a minha peste. O amor que temos pelos filhos é das coisas mais inexplicáveis e extraordinárias do ser humano.

publicado às 23:44

05
Mar18

Montanha russa

Ter um filho adolescente é como ser mãe pela primeira vez, outra vez. Nada nos prepara para isto. As crianças têm 10 anos e uma pessoa acha que já sabe mais ou menos com o que pode contar, que já dá conta do recado, que isto de ser mãe se calhar não é assim tão difícil, julgamo-nos o melhor condutor do mundo e, no entanto, lá vem a adolescênca para nos trocar as voltas. 13 anos. Aquela criança linda e amorosa transforma-se, de repente, numa pessoa que mal conhecemos, uma pessoa de phones nos ouvidos e os olhos pregados ao telemóvel, que tanto nos derrete com as suas conversas queridas e com o seu sentido de humor como diz umas parvoíces enormes e é tão mal educado que temos que nos controlar para não lhe dar um belo par de estalos. É como ter um estranho em casa. Dou por mim a perguntar: onde está o meu filho? Os adolescentes fazem coisas como soprar quando os mandamos arrumar a roupa, dar respostas tortas, mentir quando não lhes convém dizer a verdade, amuar quando os obrigamos a fazer programas de família, não estudar, ouvir músicas horríveis, desafiar a autoridade dos pais, ignorar o que lhes dizemos, estar-se nas tintas para o mundo, teimar que estão certos, ser ainda mais mal educados. Pelo meio também fazem coisas boas, é claro. Mas em muito menos quantidade. Ter um filho adolescente é muito mas mesmo muito mais difícil do que ter um bebé, e eu sei que isto é um cliché mas não é por isso que é menos verdade. Porque nós sabemos que os bebés crescem rapidamente e, com mama ou sem mama, com chucha ou sem chucha, com mais ou menos histórias ao fim do dia, desde que a gente esteja ali a tomar conta deles, desde que haja colo e comida e amor tudo irá ao lugar. Já quanto aos adolescentes aquilo que sinto é que posso mesmo estar a fazer tudo errado e que os erros que eu cometer agora poderão ter consequências mesmo graves no futuro. Estamos permanentemente na corda bamba. E nunca se sabe o que poderá acontecer. É uma sensação horrível. Mas continuarei a dar o meu melhor, que é a única coisa que posso fazer.

Não tenho soluções milagrosas. Vou errando. Vou aprendendo. Continuo a errar.

Sei que não estou sozinha nisto. O que não me ajuda mas dá-me algum alento.

E tento sempre lembrar-me que se isto é mau para mim, para ele também não deve ser nada fácil. Afinal, estamos juntos nesta montanha russa de emoções e hormonas descontroladas. 

É sobre isto tudo que fala o espectáculo Montanha Russa, de Miguel Fragata e Inês Barahona, que se estreia esta semana no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Eu vi um ensaio mas gostei tanto que já reservei bilhetes para ir ver de novo e levar os meus miúdos. Aconselhado a adolescentes e a pais de adolescentes. E ainda que não tenham nada a ver com adolescentes podem ir ver à mesma porque é um espectáculo muito fixe, com boa música, bons actores. Que nos diverte. Que nos faz pensar. Que nos faz voltar aos nossos 13 anos.

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Fotografia de Nuno Fox/ Agência Lusa

publicado às 10:23


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