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Um dia, estava a conversar com a minha amiga Paula e o que é que vais fazer nas férias, sei lá, os putos não querem fazer nada, acham tudo uma seca, pois é, podíamos fazer alguma coisa juntos, isso era giro, eu gostava de os levar aos Açores, olha, eu também, o que dizes?, é uma boa ideia, pois é, vamos tratar já disso. Confirmámos as disponibilidades com os adolescentes, perdemos horas em sites a ver preços de voos e marcámos. São Miguel, aí vamos nós. 

O único receio era juntar este quatro putos - o mais novo com 14 anos, um de 17, outro de 18 e a mais velha com 20. Os miúdos conhecem-se. Brincaram juntos quando eram pequenos. Tínhamos passado uma semana de férias em 2015 e tinha sido óptimo. E voltámos a encontrar-nos na praia durante uns dias em 2018. Mas, depois disso, vieram as adolescências. E a pandemia. Cada um cresceu à sua maneira. Tornaram-se pessoas muito diferentes. Ainda assim, pareceu-nos possível. E toda a gente estava animada com a ideia.

No primeiro dia, depois de uma noite mal dormida e de uma madrugadora viagem de avião, olhei para os quatro putos a dormitar estendidos na areia preta, cada um para seu lado, quase sem trocarem uma palavra entre si, e temi o pior. Ai, tu queres ver que isto vai correr mal? Mas, logo nessa noite, os três mais velhos saíram para beber um copo em Ponta Delgada e no regresso, quando o táxi os deixou à porta de casa à duas da manhã, já eram grandes companheiros. A partir daí correu tudo bem. Mesmo com todas as diferenças de gostos e de personalidades. Foi lindo de se ver, sobretudo os dois rapazes do meio que, há que admitir, vivem em mundos completamente distintos, mas conseguiram facilmente encontrar uma plataforma de entendimento e de cumplicidades que fez com que, pelo menos durante aqueles dez dias, fossem os melhores amigos.

Com este problema resolvido, as férias só podiam ser óptimas. Alugámos uma carrinha de sete lugares e fizemo-nos à estrada, por paisagens verdejantes, espreitando em miradouros, com os putos a protestarem por causa da música que as cotas escolhiam e nós a odiarmos a música que eles escolhiam. A ilha de São Miguel é linda, já se sabe, e entre águas quentes e águas frias, águas doces e águas salgadas, acho que mergulhámos em todos os cantos em que se podia mergulhar. Bom, eu não, bem entendido, que não sou muito de mergulhos, mas o resto do grupo. Da Caldeira Velha à Ponta da Ferraria, com passagens repetidas pela Poça da Dona Beija e pelas praias - Milícias, Pópulo, Mosteiros, Santa Bárbara (e os rapazes divertidos, nas ondas, a fingirem que sabiam surfar). Os dois rapazes foram acampar uma noite com amigos da ilha e foram a um "festival de música" numa aldeia próxima. As mães vestiram roupa colorida e foram destoar para a "noite branca" de Ponta Delgada. Fizemos umas férias low-cost, sem hotel nem restaurantes. E foi do melhor. Dormimos ao molho na casa da família Paula, comemos bolos lêvedos todos os dias, provámos os gelados do Tomé, eles beberam Kima, eu deliciei-me com os chicharros fritos e ainda tivemos a sorte de fazer um almoço nas Furnas, com uma bela de uma feijoada caseira. 

Foram dias muito bons. Familiares. Entre amigos que são casa. Sem merdas. Foram dias muito felizes, daquela felicidade que nos enche a alma e nos faz pensar que, mesmo com todas as dificuldades e todas as tristezas, esta vida vale a pena. Porque, com sorte, uma vez por ano, temos direito ao nosso bocadinho no paraíso.

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publicado às 15:59

Uma das coisas mais incríveis que aconteceram este verão foi eu ter ido a dois festivais de música. 

É preciso dizer que eu vou a festivais de verão desde praí 1998 quando fui pela primeira vez ao Sudoeste e aquilo era um mar de pó e uma bebedeira de liberdade e, desde então, fui a vários festivais, sempre em trabalho. Que me lembre, só por uma vez comprei um bilhete para um festival. Foi em 2013 para ver os Depeche Mode, no Alive. De resto, sempre tive acreditações e sempre fui lá fazer o meu trabalho e vi muito poucos concertos. Muito poucos mesmo, sobretudo se tivermos em conta que poderia tê-los visto todos. Eu não sou a maior fã de festivais de música. Mesmo gostando de música, não gosto de multidões nem de filas nem de casas-de-banho sujas nem de cerveja nem de ver concertos esmagada. 

Ou, pelo menos, era isso que eu pensava.

Por isso, é, de facto, surpreendente que este ano eu tenha comprado passes - algo que fiz pela primeira vez na minha vida - e tenha ido a dois festivais de música, pura e simplesmente como espectadora.

Aconteceu assim. Não tem grande explicação. Foi tudo um pouco por acaso. E foi exactamente como deveria ser. Uma conjugação daquela urgência do fim da pandemia com filhos crescidos que já me deixam respirar, um não me apetece nada ir trabalhar em festivais com um queria tanto ver aqueles concertos, o meu psicólogo a falar-me da necessidade de sair da minha zona de conforto com a Alda a dizer-me: vem, e eu, quase sem dar tempo para pensar muito, porque se pensasse nunca o teria feito, a comprar o bilhete para o Primavera Sound com a emoção de uma miúda adolescente. 

Fui então ao Primavera Sound, onde nunca tinha ido, com um grupo de pessoas que conheci às duas da tarde de quinta-feira, em Algés, quando entrámos no carro para nos dirigirmos ao Porto. Vi o Nick Cave e o Beck e o Arnaldo Antunes e os Gorillaz e mais outros, mas estes foram os que me marcaram mais. E foi bom, foi mesmo, mas não foi "tcharán!" como toda a gente disse que ia ser. As multidões e as filas, sim, e a dificuldade em chegar a casa porque não havia transportes decentes, tudo isso me tirou ali um bocadinho do prazer, mas pronto, faz parte. E foi preciso haver Primavera para depois haver Bons Sons.

Fui, mais ou menos com o mesmo grupo de pessoas, ao Bons Sons, que eu já conhecia bem. E foi lindo de mais e foi exactamente aquilo que eu precisava para fechar aquelas semanas de férias, com quatro dias longe do mundo, sem pensar em nada, só a desfrutar da música e da felicidade e dos abraços que fui dando a todos os amigos que encontrava pelo caminho. Mesmo com mais gente do que seria desejável e um grave problema sanitário (vejam lá isso, para o ano, ok? é que têm mesmo de melhorar essa parte), o Bons Sons é o único festival onde podemos aplaudir com a mesma intensidade um grupo de cantadeiras de Viana de Castelo, o fado da Aldina Duarte e das fabulosas Fado Bicha, a ironia do B Fachada, a criatividade de Omiri, a energia dos Pluto e a coragem dos 5ª Punkada, entre tantos outros concertos, terminando com a Lena D'Água, depois de saltos e saltos, a cantar a capella que "a culpa é da vontade", do grande Variações. É de rir e chorar ao mesmo tempo, com tanta emoção junta.

E, para além da música, estes festivais foram também, e sobretudo, as pessoas. Foram as viagens de carro e dançarmos e cantarmos em coro e acordarmos todos estremunhados e as conversas ao almoço e descobrirmos músicos que não conhecíamos e fazermos piadas sobre o Reininho e, por uns dias, esquecermos juntos as preocupações. E, entre as pessoas, a Alda, amiga de amigos que eu conhecia de longe e que agora espero manter por perto, que entrou na minha vida no momento certo, trazendo consigo um grupo de outras pessoas bonitas e levando-me pela mão, a furar por entre multidões, até chegarmos lá à frente, o mais perto possível dos palcos, mesmo junto às grades se tivermos sorte. Acho que nem ela sabe como isto tudo tem sido importante para mim (mas isso fica para contar noutra altura). 

Aconteceu assim. Não tem grande explicação. Foi tudo um pouco por acaso. E foi exactamente como deveria ser. Para o ano não sabemos como será. Se calhar, para o ano apetece-me ficar em casa a ler os clássicos. Aconteceu assim e foi bom, mas bom. E isso já ninguém nos tira.

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publicado às 23:25

Fomos passar o fim-de-semana a Sevilha. Fomos - eu e um grupo de amigas. Foi espectacular. Por estarmos juntas. Pelas conversas e pelas partilhas e pelas gargalhadas. Porque é muito fixe ver como esta amizade entre seis pessoas tão diferentes e tão parecidas tem evoluído. Porque é bom ter pessoas que são casa. Eu já tinha algumas pessoas assim e, nos últimos anos, ganhei mais estas pessoas-casa e sinto uma enorme alegria por isso. Foi muito fixe também porque comemos maravilhosamente e passeámos e porque (do pouco que vi) achei Sevilha uma cidade muito bonita. Agradável, animada e com poucos carros. Num momento em que em Lisboa se discute tanto esta questão, foi bom passear no centro de Sevilha com tantas ruas sem carros. Não são uma nem duas, são muitas. Ruas largas, ruas estreitas, ruas antigas, ruas novas. E não há carros a passarem nem carros estacionados em cada canto nem carros de pessoas que vão só ali e já vêm nem carros de lojistas nem carros de moradores nem carros de ninguém. Há eléctricos e bicicletas e trotinetes e pessoas a andarem a pé. Muitas pessoas na rua, muitas lojas, muita vida. Todo o centro sem carros. Acho que o Moedas devia ir lá, e os seus acólitos também. Para verem que é possível. Que até pode ser difícil ao início, que é preciso garantir que os transportes públicos funcionam e é preciso todo um trabalho de educação para o civismo mas, sabem, não é assim tão complicado não chegar de carro até à porta da Louis Vitton ou da escola ou do escritório ou do cinema ou do que for. E que é bom passear e parar numa das muitas esplanadas, aproveitando o silêncio e o ar puro.

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publicado às 18:18

Sempre que vou à Avenida da Liberdade no 25 de Abril encontro amigos. São encontros inesperados. Olha, tu, aqui. E é uma festa. Amigos que já não via há que tempos e que me aparecem à frente de braços abertos. No meio daquela gente toda, encontramo-nos. São esses momentos que me fazem acreditar que isto tudo há-de ter um sentido. Que o sentido disto tudo talvez seja só dar abraços e sorrir de felicidade por estarmos nisto juntos. E por nos emocionarmos, todos os anos, a cantar o Grândola. 

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publicado às 11:53

Viajei. Mas o importante não foi a viagem em si nem os passeios que demos por Bruxelas. O importante foi, primeiro, poder partilhar esta experiência com o Pedro e passarmos tempo os dois e voltarmos a andar de avião e tentar explicar-lhe que é bom sair de casa e descobrir o mundo (e também irritar-me um bocadinho com ele, que está naquela fase aborrescente mas, pronto, faz parte). E, depois, visitar a minha amiga Aline e a sua família. Já não nos víamos há quase um ano e foi bom demais voltarmos a partilhar as nossas alegrias e as nossas angústias e comer os seus cozinhados e desfrutar da sua alegria e da sua energia. E depois da viagem ainda deu para ir ao Alentejo e para passear por Lisboa, para ir ao MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia ver as "Interferências" e a fantástica instalação do Vhils (por favor, não percam), para ver as maravilhosas "Bacantes" da Marlene Monteiro Freitas, para dar um passeio na praia, para ir dançar no Incógnito (as saudades que eu tinha disto), para fazer isto tudo ao mesmo tempo que estava com amigos bons e conversávamos e ríamos e chorávamos juntos. Porque o mais importante são sempre as pessoas que estão connosco neste caminho e os abraços todos que damos.

Foram 10 dias bons, depois de muitos dias difíceis, ou melhor, no meio de muitos dias difíceis. Não tem sido fácil, por vários motivos, muito diversos, muito meus. Mas, como diz, a canção

"Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar"

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publicado às 19:18

Dançar. Amigos. Conversas. Dançar. Rir. Cumplicidades. Dançar. Não pensar. Só ser. 

The Cure, Close to Me

publicado às 11:36

01
Mar22

Aos meus amigos

Agradeço a todas as pessoas que, nesta última semana, nos fizeram chegar o seu apoio e o seu carinho, das mais variadas formas. Mas agradeço em especial aos meus amigos. Foram e são todos importantes à sua maneira. E acima de tudo agradeço àqueles, vocês sabem quem são, que são os meus mais-que-tudo de todas as horas, boas e más, que me dão a mão e me amparam as quedas, que me fazem rir, até nas situações mais difíceis, que percebem as minhas palavras e os meus silêncios, que me chamam a atenção quando é preciso e me ajudam a tentar ser melhor, que estão sempre comigo, até mesmo quando estão longe.

No meio de toda a tristeza, é muito bom sentir tanto amor. E, sinceramente, acho que sem vocês não conseguiria.

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publicado às 10:29

Dar abraços a uma amiga, conversar, rir, falar de coisas sérias e outras nem por isso, comer bolo de morangos com chantilly sem pensar em calorias, ir ver o filme A Pior Pessoa do Mundo e ficar a pensar na vida e nisto das relações, das pessoas que encontramos por aí e o que elas significam para nós.

Este é o meu tipo preferido de gala.

publicado às 10:25

Eels, "That look you give that guy"

 

Tenho saudades de ter disponibilidade (não é tempo, tempo eu tenho, é mesmo disponibilidade) para ouvir música e sobretudo tenho muitas saudades de me sentar ao lado de pessoas como o JMT, o JP Oliveira, o Moço e o Galopim, que me davam a conhecer músicas novas para eu gostar. Isto sozinha é muito mais complicado. 

publicado às 11:17

Não sejamos injustos. Houve coisas boas em 2021.

Novos trabalhos, novos desafios.

Voltei a fazer yoga. Sou péssima mas estou a esforçar-me.

A viagem a Paris.

Os bons momentos com os meus putos.

Caminhar, voltar aos transportes públicos, andar a pé sempre que possível.

Voltei à terapia. Também sou péssima nisto mas estou a esforçar-me.

Os meus amigos (vocês sabem quem são). Não estive com eles tanto quanto gostaria mas aproveitei todas as oportunidades para encontrá-los, abraçá-los e mostrar-lhes o quanto são importantes para mim.

Fiz uma amiga nova ("e coisa mais preciosa no mundo não há").

Os espectáculos que vi, os filmes e as séries, os livros (poucos mas bons), as músicas que descobri e todas as outras coisas boas da vida.

A família reunida e feliz no dia do meu aniversário.

Os sonhos do natal.

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Para 2022 só queria isto tudo mas mais. 

publicado às 13:31


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