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O meu pai mandou-me esta foto em jeito de prenda de anos. Há 46 anos eu era assim, pequenina e tranquila ao colo da minha avó.

Agora já não sou pequenina. Mas estou tranquila. 

Este foi um fim-de-semana cheio de emoções. Um confinamento. Um despedimento. Um aniversário. E uma bela TPM. A tempestade perfeita. E, afinal, correu tudo bem. Pela primeira vez desde que me lembro não fiz nenhum bolo mas tive dois bolos deliciosos. E, de longe ou de perto, tive muitos abraços. Porque tenho amigos dos bons (os amigos salvam-me todos os dias, já o sabia, e posso sempre recorrer a um texto lamechas lido na adolescência e trazê-lo para aqui e está tudo certo). E, para terminar em grande, levei os meus filhos a ver todas as coisas maravilhosas e só o facto de termos ido e de eles terem gostado (principalmente o adolescente) foi maravilhoso. 

Nem de propósito, uma das músicas do espectáculo é esta, do Jorge Palma, que cantei em coro com o Ivo Canelas e as lágrimas a embaciarem-me os óculos. 

Acho que é mesmo a música perfeita para hoje.

"Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"

publicado às 12:51

A liberdade é uma luta constante é o título do livro da Angela Davis que ando a ler agora. São entrevistas e pequenos ensaios sobre o feminismo, a democracia, as desigualdades e como combatê-las. Nada de muito profundo, mas bom para nos lembrarmos do muito que ainda nos falta lutar. Às vezes, estamos tão entretidos nas nossas vidinhas que nos esquecemos.

Nem de propósito:

Esta semana tive o privilégio de conversar com uma pessoa muito bonita: a Teresa Coutinho, que é uma mulher corajosa e talentosa.

E, no fim-de-semana, por entre a limpeza da casa (desta vez, incluiu janelas e frigorífico), duas pilhas de roupa para passar (ainda não acabei) e uma incursão ao supermercado, consegui ver o documentário Women, de Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova, que passou na RTP2 (foi na quinta-feira, ainda o apanham na box), com testemunhos de mulheres do mundo inteiro sobre o que é isto de ser mulher. Muito bonito às vezes, muito triste noutras.

E, para além disto tudo, deu para estar com algumas das minhas amigas. Sim, sim, temos que aprender a estar sozinhos e blá blá blá mas nada se compara à felicidade de estar com aqueles de quem gostamos.

E rir.

Rir da vida para que a vida não se fique a rir de nós. 

publicado às 16:46

01
Set20

A vida acontece

Somos uma família muito pouco instagramável. Não fomos às grutas de Benagil nem ao glamping da Nazaré nem a nenhuma das magníficas praias fluviais do nosso país. Para dizer a verdade, e com muita tristeza minha, este ano não consegui tirar uma fotografia (uma que fosse) com os meus filhos. Ainda assim, apesar de não haver fotos que o provem nem possa sequer adiantar muito mais do que isto, quero deixar aqui escrito que as nossas férias-covid foram bem boas. A vida nem sempre cabe nas redes sociais e isso não é mau.

E, no último dia, quando eu menos esperava, uma amiga acenou-me com um bilhete para o concerto dos 75 anos de Sérgio Godinho. Fomos dar-lhe os parabéns e celebrar a amizade. Fiquei rouca de tanto cantar por trás da máscara, com os olhos húmidos e a garganta seca. Não me ocorre melhor maneira de acabar o verão e de voltar ao rame-rame do que a cantar isto:

"Só há liberdade a sério
Quando houver
A paz, o pão
Habitação
Saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir"

publicado às 10:09

Tínhamos o covid-19, tínhamos restrições financeiras e tínhamos um adolescente em plena fase tudo-o-que-for-com-a-família-é-um-aborrecimento.

Mas, por outro lado, tínhamos uma semana de férias em julho que, com a ajuda do layoff e das folgas devidas por trabalho no fim-de-semana anterior, se transformaram em 12 dias de descanso.

Pesando prós e contras, decidi que desta vez não iríamos ao Algarve e ficaríamos por casa. Em agosto logo se vê.

Para mim, só o facto de não ter horários, nem trabalhos da escola, nem nenhuma obrigação já é um descanso enorme. Eliminamos os principais focos de stress da nossa vida e tudo fica mais fácil. Mesmo. Aproveitei, então, para tratar de algumas burocracias que estavam pendentes e para fazer umas arrumações em casa (e muito ainda ficou por fazer). Os putos aproveitaram para dormir até mais tarde e jogar muita playstation. E depois tentámos, apesar do calor abrasador, sair de casa, apanhar sol e estar com alguns amigos. O António só se juntou a nós por um dia (tanto que havia a dizer sobre isto...) mas eu e o Pedro fomos várias vezes à praia na Costa da Caparica ou em Carcavelos, ao final do dia (depois das 17.00, às vezes depois das 18.00), só os dois ou com amigos, até ao pôr-do-sol, e por três vezes até conseguimos jantar na praia, ainda com areia nos pés e muitas gargalhadas à mistura. O Pedro está numa fase óptima (é aproveitar que isto vai passar, já se percebeu) e entre a prancha de bodyboard, os óculos de mergulho e a prancha de skimboarding, entretém-se na boa durante umas três horas.

Pelo meio, deixei o adolescente ir passar uns dias ao campo com os amigos, à sua vontade, e cometi duas extravagâncias:

Fomos os três por duas noites a um turismo rural perto de Santarém. Marquei isto há já algum tempo, aproveitando uma promoção, e ficou francamente acessível. Não era nada luxuoso mas tinha uma piscina e internet (foram as duas exigências dos miúdos), uma cozinha para preparar as refeições, muito silêncio e ar puro - tudo o que eu precisava para desintoxicar destes últimos meses fechada em casa.

E, neste último fim-de-semana, quando os miúdos estavam com o pai, fui passar uma noite a Tróia com um grupo de amigas. Éramos seis, todas a deixar maridos e/ou filhos, para conseguirmos pôr a conversa em dia, espairecer a cabeça e desfrutarmos deste tempo juntas, depois de tanto afastamento. Fomos no sábado logo de manhã, aproveitámos a piscina e a praia e voltámos a casa no domingo já à noite, todas bastante queimadas e muito felizes. Não me lembro da última vez que tinha feito uma coisa deste género mas já combinámos que havemos de fazer isto mais vezes. Porque foi mesmo muito bom.

Resumindo e concluindo: esta espécie de férias acabou por correr muito bem, muito melhor do que eu estava à espera, dentro do contexto. Descansei verdadeiramente a cabeça, estive com os miúdos sem zangas nem stresses, estive com alguns amigos de quem ainda estou a matar saudades e acabámos por nos divertirmos todos, eu e os putos, cada um à sua maneira.

Posso repeti-lo todos os anos e todos os anos será verdade: somos sempre mais felizes nas férias. Mesmo com uma pandemia e um baixo orçamento.

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publicado às 07:47

Ao 100º dia os miúdos foram passar o fim-de-semana com o pai. E eu adoro-os do fundo do meu coração mas estava mesmo a precisar disto. De não pensar neles, de não me preocupar com a escola, de não ter que fazer o jantar, de não ouvir as parvoíces que eles dizem o dia inteiro enquanto jogam playstation, estava a precisar de não pensar em absolutamente nada. E assim foi. Nestas 34 horas fui só eu. Uma amiga ao jantar de sábado, outra amiga ao almoço de domingo, muita conversa para pôr em dia, uma peça de teatro pelo meio e uma casa em silêncio. Vai acabar não tarda (e também é por isso, por ser assim só por um bocadinho, que é tão bom, como é óbvio).

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By Heart, outra vez. E aquela sensação de voltar a casa. Como escrevi há pouco mais de um ano: "A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo."

publicado às 19:12

15
Jun20

Desconfinando

Houve um momento, já quase no fim do almoço, em que, não sei bem como nem porquê, pusemo-nos a cantar os Vampiros do Zeca Afonso. E eu dei por mim a pensar nas saudades que tinha da minha família. Caramba. Encontrámo-nos, finalmente, no feriado do corpo de deus, depois de quase seis meses de distância - o que é imenso, até para mim que estou habituada a estar longe por dois ou três meses  - e demos abraços e beijos, com moderação mas demos, porque não podíamos não o fazer. Temos estado a desconfinar, lentamente mas a desconfinar. O Pedro voltou aos treinos de parkour e continua a brincar com os vizinhos no terraço - é engraçado ver como a quarentena uniu os miúdos destes prédios, uns que já se conheciam, outros que nunca sequer tinham aparecido à janela, e agora são todos amigos. O António tem saído pelo menos uma vez por semana para estar com os amigos, jogar à bola e cirandar por aí, e até foram um dia à praia. Com mil recomendações e máscara e gel para as mãos, mas a tentar recuperar a sua adolescência interrompida. E eu também. Apesar de ainda em teletrabalho tenho feito cada vez mais trabalhos na rua e tentado estar com algumas pessoas que são importantes para mim. Ainda faltam algumas. E têm sido encontros muito breves e sempre ao ar livre. Mas, apesar de todas as mensagens e telefonemas e videochamadas, e mesmo, na maior parte dos casos, sem beijos e abraços, não há nada melhor do que estar com as nossas pessoas. Só estar. Sentirmo-nos acompanhados. E depois as conversas, os olhares, as gargalhadas, os momentos partilhados. As canções que cantamos juntos. 

publicado às 10:03

16
Abr20

Ode aos amigos

Uma das coisas boas desta quarentena: os amigos.

Os que mandam mensagens, os que telefonam, os que me lêem, os que me ouvem, os que comentam, os que fazem like, os que mandam corações, os que se preocupam, os que perdoam as minhas tantas falhas, os que me aturam, os que me amam, os que eu amo, os que se lembram, os que me conhecem o suficiente para ler nas minhas entrelinhas, os que não dizem nada mas não faz mal porque nos entendemos assim mesmo e porque, algo que não sei explicar, os amigos verdadeiros gostam-se até nos silêncios e nas ausências. Os que vou ter prazer em reencontrar e abraçar. E apertar com muita força para que não voltem a ficar distantes. Aqueles com quem me vou sentar a conversar conversas inacabáveis. Os que irão dançar comigo. Aqueles com quem quero sentar-me a ver o mar.

Nunca poderei agradecer suficientemente aos meus amigos, todos eles, os antigos e os mais recentes, por, cada um à sua maneira, me salvarem, muitas vezes sem sequer saberem. 

E ainda: aproveitar o vírus para descartar da minha vida, sem sentimentos de culpa, as poucas pessoas a que, por engano, chamava amigos, mas que estão longe de o ser. 

All My Friends, LCD Soundsystem

("If I could see all my friends tonight")

publicado às 16:31

A amizade é também uma forma de amor. É até, se excluirmos o amor que temos pelos nossos (pais, filhos, irmãos), a forma de amor mais especial. Porque não existe qualquer outro tipo de amor se não houver, na base de tudo, a amizade. Aquele gostar das pequenas coisas. A partilha do bom e do mau. O silêncio quando necessário. O respeito pela individualidade do outro. A amizade é um amor sem arrebatamentos. Mais tranquilo. Mais perene. Às vezes invisível. Mas incondicional. Tenho a felicidade de ter alguns desses amigos verdadeiros. Este post é para eles, que me salvam tantas vezes, de maneiras que nem sempre sei explicar. Feliz dia do amor. E um imenso obrigado.

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Imagens do livro I Like You, de Sandol Stoddard e Jacqueline Chwast, publicado em 1965 e bem lembrado hoje pelas Senhoras da Nossa Idade.

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publicado às 11:50

30
Dez19

Best of 2019

Foi, genericamente, um ano mau. Não tão mau quanto 2012. Mas provavelmente pior do que todos os outros. Ou então é porque ainda está tudo muito fresco na minha cabeça. Mas estou em crer que não. Este foi o ano em que me senti mais frustrada no meu trabalho. Este foi o ano em que me senti mais frustrada como mãe. Este foi o ano em que me senti mais sozinha do que nunca e em que a única pessoa que me fez cócegas no coração não se apaixonou por mim, o que também me fez sentir frustrada. O que, vendo bem, é o retrato perfeito da minha vida, toda ela muito mais ou menos. Muito assim-assim. Muito nada de especial. Não quero ser injusta. Sei que tenho uma família que me apoia e me ajuda em tudo. Sei que tenho amigos dos bons. Sei que tenho muita sorte porque não temos doenças graves e este ano não perdi ninguém. Sei que tenho uma casa pela qual pago um preço justo e tenho um emprego que, até ver, me vai dando para pagar as contas. Sei que tenho dois filhos lindos que amo até ao infinito e mais além. Mas no momento em que me sento a fazer um balanço deste ano que passou não consigo sentir-me feliz. Pelo contrário. A única palavra que me ocorre é frustração. E só não faço deste um post de lamentações porque quero acabar o ano como o comecei: a pensar em coisas boas. Vou fixar-me nelas. Vou reviver todos os momentos bons de que me lembrar e fazer deles as minhas passas da meia-noite (as passas que eu nunca como à meia-noite porque só gosto de passas misturadas com comida, se calhar tem sido esse o meu erro). 

Para memória futura, o meu melhor de 2019 há de ser qualquer coisa como isto:

Os dias em que não me zango com eles.

Aquela tarde a beber chá na cama da Aline.

O jardim da Gulbenkian.

Os beijos.

E os abraços.

Fazer bolos.

Um jantar inesperado no indiano com a Sónia C.

A alegria do Pedro no parkour.

Cantar a Valsinha de mãos dadas.

Chegar ao final de mais um ano lectivo.

As férias.

Almoçar com o João Miguel.

O António está mais alto do que eu.

O Panorâmico de Monsanto.

O almoço no terraço da Sónia.

Na esplanada com a Ângela.

Os vários jantares com elas (all aboard ou lá o que é).

Aquela noite com a Paula F. e o Ricardo.

As conversas com a Paula (e tudo o que não precisamos de dizer porque já nos conhecemos tão bem).

O Alentejo. E as minhas pessoas de lá.

Um dia de praia na Arrifana.

Outro na Praia Verde.

Vê-los a dar mergulhos.

O concerto da Mayra Andrade com a Lina.

A minha amiga curou-se de uma doença má.

A serenidade da Cecília.

O almoço de aniversário, marcado em cima da hora, com a Isabel, a Helena e a Rute.

Os meus amigos. Todos eles.

A minha cozinha.

A viagem com a Ana ao Algarve.

Tricotar.

Os filmes, os livros, os espetáculos, as exposições, as músicas. The National, Devendra Banhardt, Dino D'Santiago, CapicuaDulce Maria Cardoso, Francisco José Viegas, Afonso Cruz, Pedro Almodóvar, Tiago Guedes, Jafar Panahi, Grada Kilomba, Mário CruzTiago Rodrigues, Ivo Canelas, Mónica Calle, Miguel Seabra, Giacomo e Madalena. Outros de que agora não me lembro.

Dançar. 

Aqueles momentos em que acredito que vai correr tudo bem.

Nós os três.

Deitar-me de consciência tranquila.

publicado às 09:11

As alterações climáticas, o plástico, a carne de vaca e a Greta Thunberg, o Valete, a violência doméstica, o poder da música e a liberdade artística, os homens e as mulheres, as casas de banho mistas e os brinquedos para meninos e para meninas (ainda? sim, ainda), a campanha, as eleições, uma candidata gaga, ser de esquerda ou direita, o Tarantino e o Almodóvar, os putos, a escola, os horários, os trabalhos de casa, os testes (a rotina toda de volta), os homens, ai, os homens, o sexo (qual sexo?), envelhecer, adoecer, os medos, dizer a palavra cancro muitas vezes, celebrar a vida, sempre, as notícias, as notícias falsas, os cliques, o jornalismo em decadência, os jornais em agonia (e tanto que havia a dizer sobre isto), as mudanças que desejamos, as mudanças a que a vida nos obriga, as pessoas de que gostamos e as pessoas de que não gostamos. Gargalhadas. Muitas. E abraços.

Nunca subestimem o poder terapêutico das boas conversas e das boas amizades. 

E ainda isto, por causa de angústias várias:

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publicado às 14:25


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