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Mais um ano. O mundo está um lugar triste e perigoso. O nosso país também. À minha volta há cada vez mais ódio e egoísmo. Na política, nas redes sociais, na rua. Temo que nos próximos anos nos vamos afundar ainda mais neste caldo de extremismos temperado por trumpes e venturas, que vamos ter ainda mais conflitos sociais e guerras mortíferas, que vamos viver tempos terríveis antes de retormamos, outra vez, o caminho do humanismo. Resta-nos continuar a lutar - cada um à sua maneira - por aquilo que julgamos correcto, pela igualdade, pela liberdade, pelo bem comum, pela solidariedade.

Pessoalmente, 2025 foi um ano bom. Nem me lembro da última vez que disse uma coisa destas. Não aconteceu nada de extraordinário, mas também não aconteceu nada de trágico. Mais importante: chego ao final do ano a sentir-me em paz, como há muito tempo não sentia. 

O segredo para ser feliz num mundo assim não é segredo nenhum: é rodearmo-nos de pessoas boas, encontrar/criar uma comunidade de gente que nos acompanhe neste olhar para o lado bom do mundo, sem alimentar a raiva e o ressentimento, que nos estenda a mão e nos acolha no seu colo nos momentos maus, gente com quem podemos conversar sobre tudo, com quem podemos chorar e gargalhar, pensar, dançar, viajar ou apenas estar. Tenho muita sorte por ter algumas pessoas assim na minha vida. Os melhores momentos do ano foram, como sempre, todos aqueles que passei com os meus amigos e a minha família. 

Para memória futura:

Não falei de tudo aqui, mas como habitualmente entre o melhor do ano estão os livros, os espectáculos de teatro e dança, os concertos, muitos filmes e muitas séries, algumas exposições. Nestes tempos sombrios é ainda mais importante alimentar o espírito.

Aceitei participar num grupo de escrita. O nosso largo está cheio de mulheres muito diferentes e com ideias diversas. Tem sido um desafio e tanto, e nem sempre consigo corresponder, mas espero que continuemos a escrever juntas.

Sobrevivemos ao apagão

Fui ao Tremor, em São Miguel. Foi incrível. Vamos voltar. 

O António saiu de casa durante sete meses. Esteve a morar noutra cidade, a três horas daqui, trabalhou, cresceu e depois voltou. Está mais responsável, mais decidido, mais autónomo. Está a transformar-se num adulto com a cabeça no lugar e o coração no sítio certo. Às vezes custa-me acreditar. Acho que até sinto um certo orgulho (não quero lançar foguetes antes do tempo, mas estou contente, sim).

O Pedro ainda me dá (e vai continuar a dar) muitas dores de cabeça. Seguimos fortes nesta travessia pela adolescência. 

Os meus filhos são o meu barómetro. Se eles estão bem, já é meio caminho andado. E este é o meu texto preferido do ano neste blogue.

Fui à Ucrânia e a Madrid. Há muito tempo que o trabalho não me levava a entrar em aviões e foi bom como sempre é. Sobretudo porque na maior parte dos dias o trabalho não me dá grandes motivos de felicidade. Parece que vamos ter de trabalhar até quase aos 68 anos, não sei como irei aguentar.

De um dia para o outro, o envelhecimento tornou-se real. Nos meus grupos de amigas, fala-se muito sobre menopausa, queixamo-nos dos males dos nossos corpos, trocamos mezinhas e recomendações médicas. Angustiamo-nos com o envelhecimento dos nossos pais, entristecemo-nos com as perdas, cada vez mais comuns.

Mas também há bebés, e a cada bebé renova-se a esperança. Nasceu o Xavier. Em breve nascerá a Emília. Por causa dos filhos das minhas amigas, voltei a bordar em ponto-de-cruz e tem sido muito divertido.

Mergulhei no Mediterrâneo. Foi fantástico (e não só por causa da temperatura da água). Estes últimos anos têm me ensinado a não fazer planos. Desfrutar o presente, aproveitar cada minuto como se fosse o último, é um desafio nem sempre fácil. "Contra todas as evidências em contrário, a alegria" - mais uma vez, ainda, enquanto for bom.

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publicado às 18:12

No fim-de-semana, fugi do mundo e fui para o Alentejo. Mas não fui sozinha. No sábado, rumei a Évora para o almoço de 50 anos de um grande amigo e foi mais do que bom reencontrar tantas pessoas que já não via há tanto tempo. O JP estava felicíssimo, a sopa de cação foi uma consolação e o grupo Cantares de Évora foi a sobremesa perfeita. Terminado o almoço, deixei os convivas animados a decidirem onde prosseguiriam os festejos e rumei para a costa, para o Cercal, onde um grupo de amigos-queridos e futuros-amigos me esperava para um fim de semana de poesia e pasmaceira. Caminhámos no campo, desfrutámos do silêncio, comemos e bebemos e partilhámos poemas e palavras e abraços. Foi bom de mais. A lareira aquecia a casa, a paisagem do Alentejo aqueceu-me a alma, os amigos aqueceram-me o coração. E ainda houve quem, antes da despedida, se atrevesse no mar gelado da costa vicentina. No regresso, conduzindo a sentir aquele calorzinho do sol cada vez mais baixo no horizonte, a luz incomparável do outono, vinha a pensar na sorte que tenho por ter na minha vida pessoas que me proporcionam momentos tão incríveis. E assim entramos em dezembro.

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publicado às 19:39

Quarta. O concerto do Manel Cruz foi incrível, como já se sabia que iria ser. Não basta as canções serem muito boas, com poemas que nos tocam cá dentro, como ele é um excelente intérprete e ainda um óptimo entertainer que vai contando histórias e fazendo comentários, com uma honestidade e uma verdade desarmantes, sem tiques de estrela. Além disso, o concerto foi precedido de um jantar para matar as saudades de amigos muito queridos, com quem já ando a congeminar aventuras para o próximo ano.

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Sexta. O espectáculo Coro de Amantes, que tenho uma vaga ideia de ter visto na sua versão inicial no Teatro Maria Matos, em 2006, envelheceu e voltou à cena, no Teatro do Bairro Alto, já com rugas e cabelos brancos, ou seja, ainda melhor do que era. O Tónan Quito e a Cláudia Gaiolas interpretam o texto do Tiago Rodrigues, que fala do amor, com as suas venturas e desventuras, e de como o tempo passa a fugir e nunca parece ser suficiente para vivermos todo o amor de todas as maneiras que gostaríamos (e que me deixou com lagriminhas nos olhos).

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Domingo. Pelo meio, tive uma noite bem boa de conversas, confissões e muitas calorias com a minha Paula. Hoje estava bastante podre mas lá me animei e saí de casa para ir ao CCB ver Só uma gaivota, o novo espectáculo do Miguel Fragata e da Inês Barahona, que é lindo, lindo, lindo. A partir d'A Gaivota de Tchekhov e das memórias do espectáculo de fim de curso do actor e encenador, há 20 anos, este espectáculo é um hino ao teatro e a todos os que algum dia sonharam ser artistas. O Miguel e a Inês são pessoas muitos especiais e isso nota-se nos seus projectos, sempre muito tocantes. Neste caso, quero sublinhar também a beleza da cenografia do Fernando Ribeiro, os figurinos do António José Tenente e a luz do Rui Monteiro. 

549653693_1210458934460858_1211466900324501769_n.jEsta rentrée está a acabar comigo. Entre bilhetes que tinha comprado há meses e de que já não me lembrava e bilhetes de última hora porque achava que poderia não ir e afinal podia, tenho passado muito tempo em salas de espectáculos. E se a felicidade é grande a verdade é que não estou a conseguir encaixar nas 24 horas do dia tudo o que preciso fazer e tudo o que quero fazer. Isto agora vai acalmar, prometo. É tempo de me jogar ao trabalho.

publicado às 21:55

Na sua crónica no El Pais, Rosa Montero escreve esta semana sobre a amizade. É um texto muito bonito e quis logo partilhá-lo com algumas pessoas. Mas para não se perder, fica também aqui. 

 

Amigos

"(...) Y es que yo creo que la base de la sociedad no es la familia, sino los amigos. La familia, ya sea del modelo convencional o de nuevo cuño, es sin duda útil para cuidar de la prole en la infancia y la adolescencia. Pero qué sería de nosotros sin los amigos. En alguno de mis primeros libros, hace mucho tiempo, ya sostuve eso de que mantenemos una rutina equivocada y que, en vez de vivir con los amantes y salir con los amigos, deberíamos vivir con los amigos y salir con los amantes. Bueno, vale, es una broma…, aunque quizá no tanto. Hay algo en la amistad, en esa lenta, tenaz, atenta construcción de la relación con el otro, que me parece que, por lo general, es más básico y auténtico que esas relaciones llenas de expectativas, espejismos y fantasmas que solemos establecer cuando hay un ingrediente pasional por medio. Yo desde luego creo que lo mejor que he sabido hacer, mi mayor éxito en la vida, es ser amiga. Haber logrado construir la delicada y robusta constelación de hombres y mujeres de la que formo parte. Hay que invertir mucho tiempo, y tiempo de calidad, en el desarrollo de una amistad. Esta es otra rutina equivocada en la que muchas personas caen: dedican todos sus esfuerzos al trabajo, a ser reconocidos profesionalmente, a ganar dinero o poder, y descuidan esa otra faceta, modesta y en apariencia inútil, que consiste en ir trenzando tus emociones con las de otros, en ir descubriendo la íntima terra incognita de unos extraños que terminan siendo tu patria y tu vida. Desde lo alto de mi edad me voy a permitir la ridiculez o la soberbia de dar un consejo a la gente más joven: que los afanes y el alboroto de la existencia no te hagan perder las prioridades. No desdeñes el valor de la amistad, no la pospongas por trabajo, por miedo, por pereza. Porque llegará un momento en el que te arrepentirás. Una de las pocas cosas que me consuelan del desconsuelo de envejecer es la maravillosa sensación de cumplir años de amistad con mis amigos. El lujo de ir creciendo juntos, siendo testigos los unos de los otros y alimentando un pasado común.

(...) Creo que la amistad nace de ahí, de esa necesidad esencial de cuidarnos, de abrazarnos, de protegernos. Quiero decir que es una ley biológica y evolutiva, una tendencia innata a querer bien y a ser bien querido. ¿Y en qué consiste eso? Pues en mirar con ojos luminosos al vecino y en dejarte iluminar por él. Pura magia emocional, porque al calor de esa luz florecen nuestros sentimientos más positivos. Un amigo es una persona que te hace ser mejor. En medio de tanto horror como hay en el mundo, consuela recordar que existe esto."

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publicado às 08:42

01
Jun25

Crianças

Há uma altura, quando eles são muito pequenos e estão sempre a exigir a nossa atenção, em que parece que estamos enfiadas num buraco cheio de fraldas e papas e trabalhos manuais da escola e festas de aniversário e almôndegas de carne e brinquedos com música e roupa suja e birras e é muito difícil imaginar que algum dia vamos voltar a ver um filme do princípio ao fim ou a ir à casa-de-banho sem sermos interrompidas. E, no entanto, isso vai acontecer. Vai chegar o dia em que vamos de férias sozinhas com os nossos dois filhos e vamos conseguir ler na praia, no mais absoluto descanso. É assim que sabemos que eles cresceram, quando damos por nós a ler mais do que duas páginas seguidas, levantamos os olhos do livro, vemos que os putos estão a brincar lá longe e até podem estar dentro de água, e está tudo bem, não temos que nos levantar, não temos que dar a mão nem pular nas ondas nem molhar a cintura (molhar a cintura é muito difícil para mim), e podemos só fazer um sorriso, acenar-lhes e continuar à sombra. 

Ser mãe é uma aventura enorme e são poucas as de nós que estão realmente preparadas para a avalanche de trabalho e sentimentos e exigências e hormonas e mudanças daqueles primeiros tempos que até podem ser anos. Ser mãe de crianças e ser mãe sozinha de crianças foi a coisa mais difícil que fiz na vida (pelo menos até ser mãe de adolescentes). E, no entanto, quando olho para trás, mesmo sabendo do cansaço e das irritações, do sono e das frustrações, mesmo sabendo o quão desafiante foi, também sei que fomos imensamente felizes os três-juntos-como-um-só e não consigo evitar sentir uma certa nostalgia de quando eles eram crianças.

(é verdade que ando um pouco lamechas por estes dias e se calhar estou só a romantizar as memórias, mas provavelmente é mesmo assim que tem de ser, faz parte do processo).

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Nós em 2014.

*

Estou a tricotar uma mantinha para o bebé de uma amiga que vai nascer depois do verão. Um bebé, que alegria! Lembro-me tão bem desse entusiasmo. Ainda me emociono com as barrigas que crescem à minha volta e com os bebés que vão chegando, com a alegria que vejo nos olhos dos novos pais. Nos dias que correm, temos poucos motivos para celebrar. Festejemos, pois, as crianças que nascem do (e no) amor e que nos devolvem a esperança num futuro melhor.

*

Porque hoje é o dia delas, o nosso "largo" deveria estar cheio de crianças, para já são estas:

publicado às 08:27

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Há dez anos, desde a primeira viagem a São Miguel e a primeira vez que ouvi falar do Tremor, que andava com vontade de lá ir. Mas era sempre tudo tão complicado, os miúdos e as férias da páscoa e o dinheiro e os bilhetes e ir com quem?, nunca conseguia, ficava só a ver as fotografias no instagram e a ouvir os relatos de quem lá ia e a achar que devia ser mesmo fixe. Até este ano. No aniversário dos 50, um grupo de amigos ofereceu-me a viagem de avião. Que alegria! Começámos por ser duas e acabámos a ser seis. E foi incrível. Cinco dias inteiros de felicidade, ora com chuva ora com sol, mas quem quer saber do tempo quando se está mergulhada na água quentinha da Poça da Dona Beija e rodeada de pessoas queridas? Tirando os telefonemas e as mensagens (sem stress) para os rapazes, consegui fugir completamente da rotina, das notícias, das preocupações, e entregar-me por completo a esta experiência. Porque o Tremor é, de facto, uma experiência. É um festival com um ambiente muito cool, relaxado, com poucas pessoas, que vamos encontrando uma e outra vez ao longo da semana, casais que trazem os filhos, grupos de amigos, gente da terra, todos juntos e todos a sorrir.

Também é preciso estar atento e disponível para desfrutar completamente - dos concertos, da beleza da ilha, da comunidade. O programa é muito extenso e não conseguimos ir a tudo (até porque a idade já pesa e esta pessoa não aguenta noitadas), mas tudo o que fizemos foi bom, de uma maneira ou de outra. Destaques:

Comer: bolo lêvedo e massa sovada nos nossos pequenos-almoços com vista para a marina, os chicharros com feijão no Mané Cigano, as bifanas de atum e o bolo de ananás da Tasca, o cozido e a carne no ponto do Tony's, as bifanas do Clipper, o peixe (e, diz quem comeu, também as iscas) do Nacional, cerveja e tremoços nas escadas da igreja da Lagoinha, o queijo com pimenta da terra em todo o lado, sempre que possível.

Tremor na Estufa: concertos surpresa em formato pop-up, em lugares inesperados. Vimos os divertidos The Zenmenn no Pinhal da Paz, estivemos nas Furnas com os Why The Eye e ainda ouvimos os Comfort no Museu do Tabaco da Maia (e o museu também é bastante interessante).

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Tremor Todo-o-Terreno: pequena caminhada na Ferraria, mini-concerto do saxofonista Julius Gabriel junto ao mar e, a terminar, banho na piscina de água quente e salgada.

As salas: só conhecia o Teatro Micaelense, fiquei a conhecer o Coliseu Micaelense, o Ateneu Comercial, a Igreja do Colégio e o espaço das Portas do Mar, onde acabavam as noites (e que, por coincidência, ficava a apenas três minutos de casa, o que deu imenso jeito).

A música: a grande descoberta para mim foi Fidju Kitxora, um projecto muito incrível que junta as sonoridades de Cabo Verde e a electrónica e pôs toda a gente a dançar. Joseph Keckler, de que nunca tinha ouvido falar, foi uma óptima surpresa. O concerto de Norberto Lobo e Six Organs of Admittance foi muito, muito bom. Os 800 Gondomar, não sendo de todo o meu género musical, acabaram por ter a energia certa para aquele fim de tarde do Mercado da Ribeira Grande. 

Mais do que música: foram muito especiais os momentos musicais que envolveram as pessoas de São Miguel e onde se percebe o impacto que um evento destes, quando é bem feito, pode ter, sobretudo nos jovens. O projecto Filhos do Vento pôs um grupo de rappers locais a trabalhar com o Xullaji e só de ver a alegria deles em palco a debitar as suas rimas já valeu a pena (ficámos de olho no Maçarico). O saxofonista Guillaume Perret esteve apenas cinco dias com a Escola de Música de Rabo de Peixe e o resultado foi extraordinário (foi mesmo). E o músico Romeu Bairos, além do seu disco, Romê das Furnas, trouxe para o palco músicos das Festas do Divino Espírito Santo e ainda contou com a participação inesperada do grande Zeca Medeiros. Gritou-se 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais, e estou em crer que me caiu uma lagrimita emocionada, não sei se pela música, se pela felicidade de estar ali e pela sorte, a imensa sorte que tenho, de ter estas oportunidades e estas pessoas na minha vida.

Sim, porque nada disto seria possível nem seria assim tão bom sem a energia e a alegria e as conversas e as piadas e a presença e a amizade e os abraços de Alda, Ana, Jô, Nuno e João. A dançar na fila da frente dos concertos ou para enfrentar caminhos íngremes no meio do nevoeiro, não consigo imaginar melhores companheiros de viagem. Tremor é amor, diz o lema do festival. E eu confirmo.  

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publicado às 13:09

O mês mais curto foi cheio de coisas boas.

A começar pelos concertos de Ana Lua Caiano e Amélia Muge e de Samuel Úria e Manel Cruz. Foram ambos muito bons. E também uma oportunidade para estar com alguns amigos queridos. Geralmente evito ter programas em dias de semana porque sei que estarei cansada e não me vai apetecer e depois vou ficar ainda mais cansada. Mas foi tudo tão bom nestas duas noites que valeu muito a pena.

Fui moderar um painel numa conferência na Gulbenkian. Deus sabe o que me custa expor-me assim, as noites que passo sem dormir, os nervos que me atacam o corpo. Ainda assim, fiquei mesmo feliz quando recebi o convite e achei o tema tão interessante, tão a minha cara, que é claro que não podia dizer que não [o que é o pior que pode acontecer?, não é?]. Olhando para trás, odeio ver-me e ouvir-me, encontro mil erros, mil coisas que podiam ter sido melhores. Mas tive muita sorte com o meu painel, eram pessoas realmente interessantes e com quem gostei muito de conversar. 

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Foi o aniversário da Helena, que é uma das minhas pessoas preferidas. E foi um dia mesmo bom porque estive com as minhas amigas mais antigas e com quem não tenho tido muita oportunidade de estar, por motivo nenhum especial, apenas porque andamos desencontradas. Foi como se estivéssemos de volta à faculdade, com as conversas a sobreporem-se e a cumplicidade e a honestidade e a amizade de sempre. Gosto mesmo destas miúdas que me entendem bem, mesmo quando falamos pouco. Esse dia; a tarde em que, do nada, combinei com a Isabel irmos ouvir a escritora, Elizabeth Strout à Livraria Bucholz; a caminhada de duas horas pelos caminhos de Monsanto, que me deixou de corpo cansado mas de coração cheio. Foram todos momentos especiais. Não me canso de o dizer: os amigos verdadeiros são o meu oxigénio.

O espectáculo do Tiago Rodrigues, No Yogurt for the Dead, é simplesmente incrível. O texto é muito bom, com um tema muito duro mas ao mesmo tempo com um sentido de humor apurado, a fazer-nos rir e chorar quase ao mesmo tempo. As barbas, a música, a atriz que fala neerlandês, o humor, a montanha - as soluções que ele encontrou para nos falar da morte do pai, ao mesmo tempo emocionando-nos mas criando uma distância segura, são perfeitas. E que dizer daquelas duas actrizes, a Beatriz Brás e a Manuela Azevedo. Sim, a Manuela, dos Clã. Já a tinha visto noutras peças, mas aqui ela excede-se e, além de cantar como sabemos que canta, é uma actriz de corpo inteiro.

 Quem viu o espectáculo sabe como ele fala a todos os que já perderam alguém. É impossível não nos relacionarmos, não nos revermos em alguma das cenas. Ainda por cima, no natal tinha oferecido bilhetes à minha irmã e ao meu cunhado. Já estava contente por termos um programa juntos. Só depois reparei que o espectáculo era no mesmo dia do aniversário da morte da nossa mãe. Acabou por ser ainda mais especial.

Os problemas não se resolveram mas, este mês, parece que estiveram mais suportáveis. Os putos mais orientados. O trabalho menos odioso. Um bocadinho menos, vá. Ou então era eu que estava tão entretida a fazer planos para março que já não me chateei muito. Também há isso. 

publicado às 14:12

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Esta manhã desmarquei uma aula de body attack para ficar em casa a costurar um pano da loiça. Este ano ainda não tinha desmarcado nenhuma aula de domingo e estava muito orgulhosa de mim. Agora, sinto uma certa culpa, confesso. Estou a tentar dizer a mim mesma que não é o fim do mundo. E que querer passar um fim-de-semana inteiro em casa, a ver filmes de enfiada e a costurar um pano que provavelmente não vai servir para nada, também pode ser uma opção válida porque pode ser precisamente isso que o nosso corpo e a nossa cabeça precisam.

Levamos como podemos, não é?

Voltemos atrás. Ter um diário também serve para nos conhecermos melhor e para percebermos os nossos altos e baixos. Para mim, janeiro é geralmente um baixo. Este janeiro foi particularmente baixo. Meteu horários de merda e um cansaço descomunal, muitas frustrações no trabalho, uma formação que foi fixe mas que me tirou horas que costumam ser preciosas para fazer outras coisas e, de uma maneira geral, a sensação de que estive sempre a correr atrás do prejuízo. Falhei o aniversário de duas amigas porque não me senti com energia para fazer o que quer que fosse depois de um dia de trabalho. Fechei-me em casa (e em mim) mais do que o costume.

Ainda assim, e como sempre, aconteceram coisas boas.

Voltámos a ler poesia juntos.

Desci a Almirante Reis a dizer "não nos encostem à parede" e foi uma tarde de encontros com pessoas bonitas e de acreditar que é possível fazermos uma sociedade melhor, e no fim acabámos a jantar em casa da Nádia, com amigos que trazem outros amigos, num daqueles momentos especiais que acontecem quando menos se espera.

Mantive o meu compromisso de fazer exercício pelo menos duas vezes por semana (às vezes três), incluindo uma sessão de pilates no reformer e uma aula de body attack que acaba comigo.

A tal formação foi muito interessante e ainda que, na prática, não me vá servir para nada, já serviu para eu me sentir menos estagnada e para bater umas bolas sobre temas de que gosto.

Fui ver o concerto do Sérgio Godinho e da Márcia.

Estive com a Paula e com a Alda. Ter amigos com quem posso conversar sobre tudo, sem julgamentos, com empatia, é mesmo das coisas mais importantes.

Juntei-me a um grupo de pessoas que não conheço num desafio de escrita que ainda agora começou mas que, espero, me traga muitas alegrias.

Passei uma tarde num workshop na Retrosaria a recordar como funciona a máquina de costura. A máquina que eu pedi de prenda à minha mãe num natal há muito tempo e com a qual costurei então, improvisando e aldrabando, fatos de bruxo, capas de diabo e outras vestiotas mal enjorcadas para festas de natal e de fim de ano, carnaval e halloween, mas que, entretanto, ficou guardada na caixa e já estava a ganhar bolor. Não me parece que vá conseguir costurar grande coisa, assim como não sei tricotar nada de jeito. Mas gosto disto. Das horas que passo com as mãos entretidas, longe de aparelhos electrónicos, apenas concentrada nos fios e nos pontos. Engano-me, desmancho, volto atrás, faço de novo. Costurar a direito, como viver a direito, é mais difícil do que parece. O resultado é sofrível, é o processo que vale a pena. 

Levamos como podemos. Este fim-de-semana foi para parar e recuperar. E sem dar por ela já estamos em fevereiro.

publicado às 18:22

Este ano não me apetecia muito fazer balanços, mas, por outro lado, sei que me vai fazer bem este momento de reflexão, portanto, vamos a isso. Há dois aspectos da minha vida - o trabalho e os filhos - que continuam a ser motivo de enorme frustração. Não vou aprofundar este tema. É o que é, um dia voltarei à terapia e terei muito que contar, por agora é lidar o melhor possível com a situação. Aprendi as minhas lições. Para não cair em depressão, optei por contrabalançar as tristezas enchendo os dias com muitas outras coisas muito boas. E, aqui e ali, a felicidade acontece. Foi assim que se passou mais um ano:

A democracia fez 50 anos e eu também.

Tatuei a liberdade e os meus dois amores. 

Tirei o útero e isso melhorou muito a minha vida.

Fui mais vezes ao teatro e vi espectáculos maravilhosos (ainda assim, não vi todos os que desejaria), li livros que me encheram as medidas, vi muitos bons filmes, alguns bons concertos (A Garota Não - outra vez -, mas também Patti Smith, Sérgio Godinho, Luísa Amaro, Ana Lua Caiano, Expresso Transatlântico, Cara de Espelho, Samuel Úria, Nick Cave, Rodrigo Amarante, Dora Morelenbaum), poucas exposições (recordo duas idas ao MAAT, para ver a Joana Vasconcelos e a instalação de Ernesto Neto, o novo CAM, as fotografias de  Luís Pavão, Eduardo Gageiro, Maria Lamas, Júlia Ventura e Sebastião Salgado, as enormes mostras de João Abel Manta e Pedro Cabrita Reis). 

Aceitei desafios que me fizeram tremer a voz - e isso foi bom.

Continuo no caminho (tortuoso) para me mexer mais e comer melhor.

Fui muito feliz com os meus amigos. Estou cada vez melhor nisto de estar sozinha, mas os melhores momentos, aqueles que quero recordar e repetir, foram todos, mas todos, vividos acompanhada.

"Contra todas as evidências em contrário, a alegria". Trouxe o verso de Manuel Gusmão  de 2023 e ele acompanhou-me ao longo de 2024. Ainda não sei muito bem o que fazer com esta alegria inesperada. Espero levá-la para o ano que aí vem. Juntamente com este sorriso.

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publicado às 16:53

Já passou algum tempo mas não queria deixar de vir aqui escrever porque quero mesmo guardar comigo esse momento maravilhoso que foi o espectáculo A Colónia, de Marco Martins. Antes de ir eu já sabia que ia gostar. Primeiro, por ter a ver com o Estado Novo e os presos políticos, e depois porque gosto muito de teatro documental e tenho esta panca com tudo o que tenha a ver com a memória e a fixação das memórias. Ainda assim, nada me preparou para esta avalanche.

A ideia surgiu de uma reportagem de Joana Pereira Bastos, publicada no Expresso, sobre a colónia de férias para filhos de presos políticos, que aconteceu em 1972, nas Caldas da Rainha e que, durante duas semanas,  juntou 18 crianças entre os 3 e os 14 anos. Mas o que se conta em palco vai muito além disso. Partindo dos testemunhos de duas dessas crianças, hoje crescidas, a Manuela e a Rita, e com a ajuda de Conceição Matos e Domingos Abrantes, começa-se por recordar o sistema opressivo em que se vivia, contar como era a vida dos opositores ao regime, a clandestinidade, a prisão e a tortura pela Pide. Só depois é que se passa para a colónia, juntando os testemunhos da monitora e de mais três dessas crianças. Como era para uma criança viver na clandestinidade, sem saber o seu verdadeiro nome e sem brincar com outras crianças? Como foi ver o pai a ser preso ou visitar o pai na prisão? 

Não se limitando a ter estas pessoas todas em palco a contar as suas histórias, o que já seria brutal, Marco Martins criou um espectáulo cheio de camadas e de uma grande beleza, com os extraordinários actores João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça e Rodrigo Tomás (e aquele achado inicial - viver em clandestinidade era, também, representar, interpretar diversas personagens), a que se juntaram um grupo de jovens actores e ainda B. Fachada e um pequeno coro infantil. E aquilo que era a história de um grupo de crianças passa a ser a história de um povo, a nossa história, a história das crianças e dos jovens de hoje, que se perguntam afinal o que é isso de ser livre.

Posso dizer-vos que chorei muito e embora isso não queira dizer nada sobre a qualidade da obra quer dizer muito sobre o quanto me tocou e me abalou. É muito importante que estas histórias sejam contadas uma e outra vez, que não sejam esquecidas. Fascismo nunca mais, gritou-se no momento dos aplausos. Fascismo nunca mais. Fascismo nunca mais.

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Ainda deste último mês temos a assinalar:

A Reunião, um espectáculo bonito e igualmente importante do Teatro Meridional. Confesso que não sou a maior fã de commedia dell'arte e nessa noite estava um pouco cansada e talvez não tenha apreciado devidamente a peça, mas o texto do Mário Botequilha é muito bom.

Um grande concerto dos Expresso Transatlântico no MusicBox. São todos óptimos, mas o Gaspar Varela tem, de facto, uma energia especial.

Um workshop com a Ana "apetite pela vida" sobre comida saudável, sem açúcares nem processados nem proteína animal. Vim de barriga cheia e com muitas dicas para melhorar as receitas cá de casa.

A figura do ano para mim é, sem dúvida, Gisèle Pelicot. No meio de todo o horror, esta mulher dá-nos alguma esperança. Este caso mexeu muito comigo e penso que não exagero quando digo que através da sua análise podemos perceber um pouco do tanto que precisamos mudar enquanto sociedade. 

(temos outras coisas a assinalar, boas e más, mas vou tentar escrever sobre elas com calma)

Ainda nem é natal e já estou empaturrada. De comida, sim, mas sobretudo de amor. Dezembro tem esta magia, fazemos um esforço para encaixar na agenda encontros com os amigos (não todos, mas quase). Só nesta última semana contaram-se um almoço e três jantares, deitando por terra o esforço dos últimos meses para comer menos e para comer melhor. Sim, eu sei, eu sei, se eu tivesse realmente força de vontade conseguiria, mas não tenho, portanto isto anda assim mais ou menos ao sabor do vento e das flutações da minha vida e da minha cabeça, mas não nos martirizemos, em janeiro retomamos o caminho.

publicado às 11:34


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