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“Vais escrever sobre mim?”, perguntaste pouco depois de nos conhecermos, quando descobriste o blogue. Expliquei-te que nunca escrevo sobre determinados assuntos, pelo menos não abertamente. Os meus aires e desaires amorosos ficam reservados ao grupo de amigos que não sabe da minha vida por aqui.
“Um dia vais escrever sobre mim, vais ver”, disseste, confiante, como tu és. Como quem diz: um dia vou ser tão importante para ti que não vais ter como não o fazer. Ri-me. “Duvido", respondi. E cá dentro pensava: não vai acontecer.
*
O nosso encontro foi como um filme. Soubemos logo que nos íamos apaixonar perdidamente, ao mesmo tempo que soubemos que seria uma paixão sem futuro. Arriscámos vivê-la, ainda assim. Cada dia, uma vitória.
*
Se eu achasse que todas as coisas acontecem por um motivo diria que nos encontrámos porque precisávamos de voltar a acreditar.
Tu precisavas de voltar a acreditar nas pessoas. Acreditar que nem todos são traidores, prontos a apunhalar-te pelas costas. Que há pessoas que apenas querem viver e sorrir e ser felizes com os outros. Que há pessoas que podem ser portos-de-abrigo.
Eu precisava de voltar a acreditar que, algures, por aí, ainda há pessoas que me fazem perder o chão. Já começava a duvidar. A última vez que me tinha sentido assim já tinha sido há tanto tempo. (E é tão bom perder o controlo da situação, de vez em quando.)
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A paixão torna-nos vulneráveis. A primeira vez que me fizeste chorar odiei-me por ter permitido que te tornasses assim tão importante.
Mas será possível ser de outra forma?
É melhor sentir e sofrer do que não sentir nada.
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Este post foi sobre ti. E este ("eu sou o do beijos, não sou?", adivinhaste). E este também. E ainda este. E mais este. E finalmente este.
E então? Porque há de ser tudo velado? Porque não hei de escrever mesmo sobre ti? Medo do quê? Vergonha de quê? Quero lá saber o que as pessoas vão pensar.
Tinhas razão.
Este post é sobre ti, Pedro.
Para que nunca nos esqueçamos que nos encontrámos. Que foi muito bom. Que foi importante. Aconteça o que acontecer. Isto já ninguém nos tira.
E também para poder pôr aqui esta música, que é tão bonita:
Pulp, Something changed
"Life could have been different but then Something changed"
O que eu aprendi nestes últimos anos:
Que não é fácil conhecer pessoas novas.
Que não há assim tantos homens interessantes.
Que não é fácil começar uma relação quando se é mãe a tempo inteiro.
Que às vezes há pessoas que parecem as certas e têm tudo a ver e cumprem todos os requisitos mas... falta aquela coisa básica que é a química.
Que às vezes há pessoas que não têm nada a ver e está na cara que não vai dar certo mas... porra, que vontade de lhe dar beijos.
Que às vezes há pessoas que surgem na nossa vida na hora errada. Pode mesmo ser uma questão de timing.
Que sexo é bom mas não é indispensável.
Que um homem faz mesmo falta é para dar atenção e miminhos e essas lamechices todas.
Que não é fácil ser feliz sozinha. É muito difícil até.
Mas que não estou disposta a aceitar qualquer coisa só para ter companhia. Nem estou disposta a abdicar da minha liberdade nem dos meus princípios nem de outras pequenas e grandes coisas que fui conquistando.
Que não vale a pena procurar.
Que o que tiver que ser será.
E se não acontecer nada, paciência. Vamos ter que aprender a viver com isso.
"If you aren’t able to honestly, openly, constantly communicate with your partner, then nothing else matters. Your actions don’t matter, the sex you have doesn’t matter, the power struggles and the financial strains and the problems with this, that or the other thing don’t matter."
Diz a cantora e activista Amanda Palmer, entre outras coisas fixes, no The Guardian.
E já agora fiquem-se com esta dela, The Messy Inside:
As Pontes de Madison County, de Clint Eastwood. Lembro-me de quando o vi pela primeira vez. Já o vi tantas vezes depois disso. Voltei a encontrá-lo agora mesmo na televisão. E parece-me cada vez melhor.
Um sofá, uma manta, um adolescente a ver o havai - força especial, o mano a desenhar castelos com canetas de feltro, as nossas mãos dadas, nós todos encostados uns nos outros, não ter horas para dormir e eu a pensar que me apetecia guardar este momento e lembrar-me dele nos outros momentos (tantos nos últimos dias) em que tudo parece correr mal. Tentar convencer-me de que mesmo que tudo o resto corra mal se conseguirmos chegar ao fim do dia todos juntos e abraçados é porque alguma coisa está a correr bem.
O amor está nas pequenas coisas, diz a ilustradora coreana Puuung. Já sabíamos.
“The point is,” she continued, “each of us is responsible for our own desire. For being shut down or being turned on. I have asked people in twenty-two countries the same questions, ‘What draws you to your partner?’ And the answers are universal. First, when he’s away, when she comes back, when we are separate and reunite. Second, when I see the other at work, on the stage, surfing, singing; when I see my partner doing something he’s passionate about. And third, when he makes me laugh, when he surprises me, when she dresses differently, when she introduces an element of the unknown.”
Verdades universais, relatadas pela Joanna Godard.
Beijos inesperados. Terminar o dia de trabalho num estúdio frio às portas de Lisboa, a ouvir a Gisela João cantar o Hallelujah, do Leonard Cohen. Os miúdos felizes a fazerem a árvore de natal enquanto cantamos o Last Christmas. A nossa árvore é pequenina e tem bolas e fitas douradas e chocolates e no presépio temos um anjo sem uma mão, que se partiu há já uns anos. Encomendar uma pizza. Pantufas. Um serão a tricotar. Acreditar que vai correr tudo bem. É sexta-feira, porque não?
"How we need another soul to cling to, another body to keep us warm. To rest and trust; to give your soul in confidence: I need this, I need someone to pour myself into."
Sylvia Plath