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04
Ago21

Simone

Tenho passado os dias entre o trabalho e os Jogos Olímpicos de que, como vocês devem saber, sou grande fã. Sou aquela maluquinha que, mesmo já sabendo os resultados, põe a box para trás para ver o que perdeu durante a madrugada. Gosto particularmente do atletismo e da ginástica. Desde sempre. E foi por isso com grande pena que vi a Simone Biles desistir de quase todas as suas provas. Nem consigo imaginar o que ela deve estar a sentir. Primeiro, não consigo imaginar o que é ter 19 anos e estar a competir nos Jogos Olímpicos e ganhar tantas medalhas, como aconteceu com ela no Rio de Janeiro. A mim, que se me acelera o coração se tiver que falar em público, que ainda hoje me tremem as pernas se sentir que estou a ser avaliada em qualquer situação, acho que nunca seria capaz de competir em coisa nenhuma. Não consigo imaginar como será ser a melhor do mundo e sentir toda a pressão que ela sentiu para repetir os feitos, como aconteceu antes destes jogos. E, finalmente, não consigo imaginar como será treinar durante tanto tempo - praticamente uma vida inteira - e com tanto empenho para, depois, chegar ali, ao momento mais importante, e desistir. Mas uma coisa eu consigo imaginar: o sofrimento enorme que esta decisão lhe deve ter causado. Não é uma decisão que se tome de ânimo leve. Para que um atleta, seja a Simone ou outro qualquer, tome a decisão de desistir de uma prova nos Jogos Olímpicos tem de sentir verdadeiramente que não tem outra opção. Alguém duvida disto? Acho incrível que algumas pessoas venham para aí comentar que ela desistiu porque é fraquinha ou que foi tudo uma estratégia para chamar a atenção ou que ela estava era com medo de falhar. A sério. Fico passada com a falta de noção.

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É tão surpreendente que, chegados aqui, ainda haja tanta gente que desvalorize a saúde mental e que ache sempre que as pessoas estão a exagerar ou são fracas por assumirem que têm problemas. Está na hora de mudar isto. Talvez o facto de Simone (tal como Naomi Osaka há uns tempos) se ter sentido à vontade para desistir seja um sinal de que as coisas já estão a mudar. Talvez.

Tenho falado um pouco sobre saúde mental por aqui

E sobre os Jogos Olímpicos havia tanto a dizer. Estes jogos do Japão estão cheios de histórias e pessoas incríveis. Mas, de todos, este é o meu momento preferido: quando o italiano Gianmarco Tamberi e o atleta do Qatar Mutaz Barshim decidem partilhar a medalha de ouro do salto em altura.

publicado às 15:58

30
Abr21

Blah

 Languish.jpg

Languishing. Aprendi esta palavra há pouco tempo e acho que descreve bem aquilo por que temos passado neste último ano. Não é que se esteja doente, mas também não se pode dizer que se está propriamente saudável. "Feeling blah", diz-se em inglês. Eu costumo dizer que estou "a sentir-me nheca" mas é igual. Está tudo explicado NESTE ARTIGO do The New York Times

"The absence of well-being. You don’t have symptoms of mental illness, but you’re not the picture of mental health either. You’re not functioning at full capacity. Languishing dulls your motivation, disrupts your ability to focus, and triples the odds that you’ll cut back on work."

Portanto, é isto. 

Os dias passam, uns a seguir aos outros, e há uns bons e outros maus, e há uns melhores e outros piores, mas na verdade é tudo muito mais ou menos a mesma coisa, como se não conseguíssemos ver a tal luz no fundo do túnel e apenas nos continuássemos a empurrar pela vida porque é o que temos de fazer e vamos lá ver no que isto vai dar.

Voltamos sempre ao mesmo. É tentar não perder o pé.

Entretanto, só para constatar que nada disto é realmente novo, criei uma tag "blah" e tentei colocá-la em todos os artigos onde já falei deste assunto, mesmo antes de saber o que era o languishing

Porque a culpa é da pandemia, claro, embora não seja só da pandemia, claro. A pandemia só veio tornar tudo mais intenso. Aprofundar a solidão dos que já estavam sozinhos. Tornar clara a tristeza dos que já se sentiam tristes. Antes, era mais fácil maquilhar a vida com o frenesim do para lá e para cá e estou tão ocupada e falo com tantas pessoas todos os dias e não tenho tempo para nada. E, de repente, só nos temos a nós e à nossa casa e à nossa situação e não há como fugir. Isto e o resto, que não se pode escrever aqui, porque há falhanços que custa admitir para nós mesmos quanto mais para o mundo.

publicado às 10:51

Des'ree, You Gotta Be

 

Liguei o computador às 11.00 da manhã para acompanhar mais uma sessão do clube de leitura Heróides e a Sara recebeu-nos com esta música. Tão bom. É engraçado como, tantas vezes, as músicas que ouvimos por acaso parecem falar para nós. 

Está quase a fazer um ano que a pandemia nos caiu em cima e acho que ainda não temos uma compreensão plena de como isto tudo nos mudou e mudou a nossa vida. Eu a trabalhar em casa. Os miúdos a terem aulas por zoom. Todos longe dos amigos. Um ano inteiro com os contactos sociais reduzidos ao mínimo. Nós três aqui fechados, uns dias a seguir aos outros, com a cabeça enfiada nos computadores, nos telefones, na televisão e na playstation. Tentar manter a sanidade. Tentar encontrar a felicidade nas coisas pequenas. E, no meio disto, um layoff, um despedimento e começar um novo trabalho. É muita coisa para assimilar e não, ainda não é tempo para escrever sobre esta parte (lá chegaremos, prometo).

Entretanto. No último mês, tenho trabalhado praticamente de manhã à noite. Entre o emprego novo -  com tanta coisa para aprender, aquela sensação de me sentir uma estagiária outra vez e de ter de provar a toda a gente (incluindo a mim mesma) que sou capaz -  e os projetos que entretanto aceitei porque eram irresistíveis e eu sou um bocadinho louca, não tenho tido tempo para muito mais. Nem livros, nem filmes, nem passeios, nem nada. A casa está meio caótica, os putos andam em roda livre e as amigas queixam-se da minha ausência nos grupos de whatsapp. Mas está quase. 

Agora que já se vê a luz de março ao fundo do túnel, quero dizer-vos isto: 

"Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers, they may cause you tears
Go ahead release your fears
Stand up and be counted
Don't be ashamed to cry

You gotta be
You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day

Herald what your mother said
Read the books your father read
Try to solve the puzzles in your own sweet time
Some may have more cash than you
Others take a different view
My, oh, my, yea, eh, ee

You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day

Time ask no questions, it goes on without you
Leaving you behind if you can't stand the pace
The world keeps on spinning
Can't stop it, if you tried to
This best part is danger staring you in the face

Remember
Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers, they may cause you tears
Go ahead release your fears
My oh my yea, ye, ee

You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day".

publicado às 15:05

Há dois anos, mais ou menos, numa altura em que me senti mais em baixo, marquei uma consulta numa psiquiatra com a esperança que ela me receitasse um prozac ou coisa parecida. A médica deixou-me falar e gesticular e rir e chorar durante quase uma hora, enquanto lhe fazia um resumo da minha vida, e no final disse-me:

- A Maria João não tem uma depressão. Está sozinha com dois filhos e um deles é adolescente, não tem uma vida fácil. Mas não há comprimidos para isso.

Tive que admitir que tinha razão, claro. Não, eu não estava deprimida. Ainda. Falámos um pouco sobre estratégias para lidar melhor com algumas situações, como a solidão e a adolescência, ela aconselhou-me a voltar à psicoterapia e no final receitou-me paciência, amigos e alguma vigilância.

Não voltei lá, como era suposto. Mas vigilante me encontro. Sabendo que a vida é difícil e que os problemas existem, a grande questão é como é que lidamos com eles. Há dias em que me apetece fugir. Há dias em que me esqueço de tudo. Há dias em que só me apetece chorar. Há dias em que me sinto confiante. Há dias em que acho que estou a falhar em todas as frentes. Na maior parte das vezes, as crises duram um ou dois dias, uma semana no máximo. A vida é uma constante montanha-russa, já o sabemos, e enquanto assim for, enquanto encontrarmos maneiras de nos recompormos e tivermos energia para alavancar a subida, cá estaremos para dar luta.  

A situação agrava-se, naturalmente, quando vivemos um confinamento como este. Não podemos contar com as ajudas que costumamos ter. Para mim, os momentos com a família e com os amigos, um passeio na praia, ir ao cinema ou ao teatro, ler um livro numa esplanada. Isolada e fechada em casa, e ainda por cima sem uma ocupação, todos os problemas parecem mais graves, seja a dificuldade em educar os putos ou a falta de alguém com quem me aninhar o sofá. Enfim. Não me quero estar a queixar, não faz parte do meu feitio, e, sim, já sei, há sempre quem esteja pior. Estou só a dizer que para mim tem sido mais difícil. E que por isso tenho de estar ainda mais vigilante.

Temos todos.

Não tendo melhor para vos dar, aconselho-vos a, não havendo felicidade nas coisas grandes, procurar sempre a felicidade nas coisas pequenas. Inspirem-se, por exemplo, nas "coisas maravilhosas" do Ivo Canelas ou no David Byrne e nas suas "reasons to be cheerful".

E partilho os bons conselhos de quem sabe do assunto, sublinhando este: não tenham medo ou vergonha de pedir ajuda. Às vezes basta conversar com alguém que nos ajude a olhar para os problemas de outra maneira e que nos faça sentir melhor. Outras vezes é mesmo preciso um comprimido. 

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Paula Rego, Depression Series, Nine (2007)

 

publicado às 20:30

Desde o dia em que recebi o telefonema do meu director a informar-me que iria ser despedida até hoje, dia em que levantei nos correios a carta que oficializa o meu despedimento, passaram-se exactamente dois meses. Foram dois meses estranhos. Ainda empregada mas sem trabalho. Quase desempregada mas sem poder procurar activamente uma nova ocupação. Os dias podem ser demasiado longos quando não temos um horário a cumprir. Mas a vida continua a ser demasiado curta. Por outro lado, quem tem filhos e uma casa para cuidar sabe que temos sempre muito com que nos entreter. Na verdade, quase poderíamos fazer só isto. Lavar o chão, passar a roupa, temperar a carne para o jantar. Mas eu não quero. Não quero ficar enredada nas compras e nos almoços. Odeio a sensação de estar a perder tempo. Não me quero deixar ficar. No entanto, para já, ainda não há muito que possa fazer. Não é fácil. 

O meu desafio nestes últimos meses tem passado por três frentes:

Organização. 

O pior que pode acontece quando temos tempo a mais é deixar tudo para amanhã e não fazer nada. É preciso manter algumas rotinas. Fazer sempre a cama, não acumular louça suja. Limpar a casa. Cozinhar refeições. Comer fruta. Beber água. Pagar as contas. Organizar os meus contactos. Mandar mails. Apagar mails. Fazer listas das coisas que tenho que fazer para não me esquecer delas (estou cada vez mais desmemoriada, tenho de fazer listas de tudo). Estabelecer pequenos objectivos. Ter uma agenda para 2021 (e a alegria de ter já alguns dias ocupados).

Cuidar do corpo.

Nunca fui muito boa nisto. Gosto de comer e gosto pouco de me mexer. Mas estou a tentar, juro. Esta semana estou em detox pós-natalício. Aproveito a ausência dos miúdos para fazer refeições diferentes. Obrigo-me a sair de casa. Caminho sempre que possível (quase todos os dias, mesmo com frio e com chuva). E inscrevi-me no "treino das mães" no clube de BTT do Pedro. Domingo de manhã, ao ar livre, com um grupo de mães divertidas e uma PT que puxa por nós e me obriga a mexer partes do corpo que têm estado adormecidas. Não é muito, eu sei, mas é melhor do que nada.

Ginasticar a mente.

A ordem é para fugir das redes sociais e do facilitismo do scrolldown. Não é fácil mas é necessário. Tenho tentado ser selectiva nos filmes e séries que vejo (e tenho visto muitos). Ir ao teatro. Ler, claro (nem sempre encontro o mood certo mas há que insistir). Escrever (aqui, mas não só). Continuar a aprender. Preciso muito disso. Fiz uma assinatura de um jornal para me manter actualizada. Já fiz um curso online (daqueles com direito a diploma e tudo), estou a acompanhar um seminário online só para ouvir pessoas interessantes e abrir a cabeça, e inscrevi-me num mini-curso mais sério para o início 2021. Ainda não consegui voltar à rotina matinal de me sentar ao computador e ir ver os "meus" sites mas lá chegarei.

E assim vamos. Caminhando no arame, lentamente, tentando manter o equilíbrio e não dar nenhum passo em falso. Não tarda nada chegamos ao outro lado, seja lá isso onde for.

Where is my mind?, Placebo com Franck Black.

publicado às 14:25

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Quando entrei em layoff, despedi a empregada, que vinha cá a casa fazer magia uma vez por semana. Desde então, sou eu (com alguma - pouca - ajuda dos rapazes) que trato de tudo, da roupa para passar à limpeza das casas-de-banho. Entretanto, o layoff acabou mas por causa das coisas que se sabe (e sobretudo das coisas que ainda não se sabe) continuo sem empregada. O layoff acabou e voltei a trabalhar todos os dias, em casa mas também muito na rua e num ritmo por vezes frenético. Os miúdos também estão de volta à escola. O Pedro no horário da manhã, o António no horário da tarde. Almoçam ambos em casa mas não se cruzam. Já há treinos de parkour e de futebol. Estamos naquela fase de ajustar rotinas. De nos custar acordar com o despertador. De experimentar lanches diferentes. De forrar livros e pôr etiquetas em cadernos. De descobrir que é preciso ir comprar calças e camisolas. 

Ai, setembro, setembro, todos os anos a mesma coisa. A vidinha toda a cair-me em cima, outra vez. Mil conversas para tentar enfiar algum juízo na cabeça dos putos. Exausta de discussões e de argumentações e de desilusões e de ter que pensar em tudo, sempre a pensar em tudo, a minha cabeça não pára, é o dentista, é a explicação, são as sapatilhas da ginástica que não servem e o chapéu-de-chuva que desapareceu, acabou-se o leite, é preciso comprar iogurtes, as reuniões de pais, os papéis para assinar, um filho que está na fase em que tomar banho é um martírio e outro que está na fase em que toma dois e três banhos por dia, e se calhar desligavam os telefones para irmos para a mesa e, então, já é tardíssimo, porque é que ainda não estão a dormir?

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Tirando as máscaras, umas descartáveis, outras reutilizáveis (máscaras a toda a hora de molho e penduradas na corda da roupa, mais uma coisa com que me preocupar), e o gel desinfectante que cada um de nós tem na sua mochila para usar quando fôr necessário, cá em casa estamos a tentar viver o mais normalmente possível. Estou farta da covid-19. Só de imaginar que nos podem fechar a todos em casa outra vez começo a sentir suores frios. Estou farta da covid-19 e das regras estúpidas que inventam em todo o lado, seja na escola ou nos correios, quando vamos comprar sapatos e nos obrigam a calçar uma meia de plástico ou quando queremos renovar o cartão de cidadão e o site nos informa que não, que ainda não é possível fazer agendamentos. A covid-19 como justificação para todas as incompetências e todas as burocracias e todos os abusos de autoridade. Estou tão farta que já não leio notícias e não quero saber dos números de mortos e infectados e internados, juro-vos. 

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19 e ainda bem porque se uma pessoa se põe a pensar a sério nisto ainda acaba dando em maluca. 

Também não tenho tido muito tempo para mais nada. 

Mas isso é outra história.

Wake me up when september ends, dos Green Day
(com beijinhos para a Raquel)

publicado às 09:38

Leio por aí vários posts e comentários de pessoas que encontram alguma satisfação nisto tudo por, finalmente, terem tempo para estar com a família ou (o que é ainda mais triste) estarem agora a descobrir como é bom passarem tempo juntos. Tenho uma certa pena dessas pessoas que precisaram de uma pandemia para percerceber isso (mas, bom, mais vale tarde do que nunca).

Eu não tenho tido esse tipo de revelações porque há muito tempo que sei exactamente quais são as minhas prioridades e que dou valor às minhas pessoas (os meus filhos, a minha família, os meus amigos) - talvez por isso agora me façam tanta falta aqueles que tenho que manter à distância. Eu gosto muito de estar com os meus filhos e não imagino sequer como seria ter de passar por isto sozinha. Mas, sinceramente, gostaria mais de estar com eles de férias, a passear por aí, mesmo que não fosse muito longe, do que assim.

É que, como continuo a trabalhar (e muito) e como tenho de fazer todas as tarefas da casa, incluindo perder horas nas filas sempre que é preciso comprar um iogurte, não me sobra assim muito tempo nem muita energia (nem muita cabeça) para jogar às cartas ou para fazer trabalhos manuais ou até para ver séries na Netflix ou ler livros. Além disso, não sei se já vos disse que tenho dois adolescentes cheios de energia (e de hormonas) que há várias semanas não saem de casa, não praticam os seus desportos nem estão com os amigos. Portanto, estamos aqui os três enfiados e, sim, gostamos muito uns dos outros e damos muitos abraços e beijinhos, mas isto não é propriamente o paraíso familiar.

Fazemos o nosso melhor. 

O nosso melhor, às vezes, é gritarmos e batermos com as portas e dizermos que estamos fartos.

O meu melhor, às vezes, é esperar que eles adormeçam, fechar-me no quarto escuro e chorar um bocadinho de desespero por não saber muito bem o que ando aqui a fazer e que raio de pessoas vamos ser quando isto tudo acabar, se os putos alguma vez vão recuperar destas semanas passadas a jogar playstation e a ver vídeos estúpidos no youtube, se voltaremos a abraçar as pessoas de que gostamos, se continuarei a ter um emprego, se conseguiremos dar a volta ao vírus e à crise que virá.

Depois passa.

Uma das coisas que me fez bem na semana que passou foi ouvir o disco novo do Dino D'Santiago. Fez-me ter vontade de dançar.

E dançar é bom.

publicado às 09:52

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Nestes dias em que cada vez estou mais desiludida com o jornalismo e cada vez tenho menos alegria no trabalho há, apesar de tudo, de vez em quando, umas coisas que ainda vão valendo a pena. Como aquela tarde em que voltei a estar à conversa com Luís Miguel Cintra. Um prazer enorme ouvi-lo, ainda que seja um pouco angustiante perceber toda a sua tristeza.

Ele fala de uma "sensação de quem esbraceja, mas, por mais que faça, vai-se afogar".  Percebo-o tão bem. Muitos de nós sentem isso mesmo, em várias situações.

E, no entanto, continuamos a esbracejar. 

Leiam AQUI o que escrevi no DN sobre este encontro e sobre o espectáculo Canja de Galinha (com Miúdos) que se estreia esta semana no Museu da Marioneta, em Lisboa.

A fotografia é do Orlando Almeida/ Global Imagens.

publicado às 15:10

04
Set19

Regresso

Ao segundo dia de trabalho, a tendinite voltou a dar um ar da sua graça. A minha agenda parece um jogo de tetris, mas na fase final, em que já estamos desesperados sem saber onde encaixar as peças. Ontem almocei em frente do computador e, só ao fim do dia, com a cabeça a latejar, me apercebi que tinha passado nove horas ali enfiada, sem sequer sair para apanhar ar. Hoje saí de casa antes do sol nascer para mais um turno na fábrica. E, cereja no topo do bolo, irei trabalhar no fim-de-semana.

Houve uma altura, há muito tempo, em que gostava de setembro. Da sensação de recomeço, depois das férias. Do cheiro dos livros novos, dos cadernos em branco, daquela incógnita antes de conhecer os professores e os colegas e as matérias que iria estudar, de regressar às rotinas e do conforto de vestir um casaco nas noites que ficavam mais frescas. Depois comecei a trabalhar. E setembro não só perdeu o seu encanto como passou a ter o sabor de uma falsa partida: aquele novo começo que na verdade não é mais do que um regresso ao rame-rame do costume (e temos que nos dar por contentes, ao menos há um rame-rame a que voltar, não é?).

Sei que envelheço por causa da pele enrugada nas mãos e das manchas na cara ("tens pano", anunciou-me a minha mãe outro dia, e eu fui olhar-me no espelho com atenção para ver este nevoeiro que me cobre a pele), dos quilos que se acumulam nas ancas e da ferrugem nas articulações. Também sei que envelheço por causa disto: cada vez morrem mais pessoas à minha volta, não tenho paciência para me chatear com merdices e não gosto de setembro. 

E ainda nem começaram as aulas.

publicado às 09:59

Um destes dias fui à livraria Ler Devagar e não resisti a comprar um livro: My Sh*t Therapist and other mental health stories, de Michelle Thomas. Nunca tinha ouvido falar desta autora mas folheei o livro e fiquei curiosa.

Nos últimos tempos, várias pessoas à minha volta têm sofrido de depressão, ansiedade, exaustão ou "apenas" tristeza. Nos últimos tempos, percebi que várias pessoas à minha volta estão a fazer psicoterapia ou tomam medicação regularmente ou têm medicação de emergência para fazer face às dificuldades da vida.

Não é fácil falar destes problemas. Às vezes as pessoas dizem aos amigos como se sentem em baixo e ouvem frases como "isso passa", "tens de te animar", "vá, esforça-te um bocadinho". Como se fosse fácil. Como se fosse só querer. Eu também costumava ser uma dessas pessoas com pouca empatia por queixas que na maior parte das vezes não me pareciam ter grande fundamento. Mas tenho vindo a aprender a ser uma amiga melhor. A estar mais mais disponível. A ouvir. Muitas vezes não sei como ajudar, a única coisa que posso fazer é mandar uma mensagem ou telefonar, conversar um bocadinho, convidar essa pessoa para ir ao cinema, levar-lhe um bolo feito por mim e esperar que isso ajude de alguma forma (sei que a mim ajudam-se sempre o carinho e o cuidado dos meus amigos).

Michelle Thomas parte da sua própria experiência para falar das muitas pessoas que hoje em dia são afectadas por várias doenças mentais (muitas pessoas mesmo). Este não é um livro de auto-ajuda, embora só o facto dela falar deste assunto sem tabus já seja uma ajuda. Num tom ligeiro e com algum sentido de humor, ela vai-nos dizendo o que lhe aconteceu, as coisas que fez que a ajudaram e as coisas que fez que não a ajudaram (por exemplo, consultar aquele sh*t therapist que lhe disse que da próxima vez que ela tivesse um ataque de pânico deveria beber uma chávena de chá).

A primeira coisa que Michelle Thomas faz questão de esclarecer é que a doença mental é uma doença como as outras. E é como tal que deve ser encarada. Se uma pessoa partir uma perna não tem vergonha de dizer aos amigos que partiu a perna e não lhe passa pela cabeça continuar a sua vida como se nada fosse, sem ir ao médico nem tratar devidamente a perna partida. Com a doença mental é exactamente a mesma coisa. Não há que ter vergonha de admitir que se está doente e temos que tratar a doença como deve ser.

Só que a nossa cabeça é um bocadinho mais complexa do que um osso. Não só uma doença mental é mais difícil de diagnosticar (ah, isto é só cansaço, dizemos, enquanto deixamos arrastar a situação) como qualquer problema no funcionamento do cérebro afecta todo o nosso corpo - física, mental e emocionalmente. A doença mental altera a maneira como as pessoas pensam, sentem e se comportam.

*

Sim, a doença mental é uma doença de verdade e uma depressão (ou uma crise de ansiedade ou um ataque de pânico) pode acontecer até mesmo à pessoa que está apaixonada e feliz e passa férias em ilhas paradisíacas.

Mas, tal como há cuidados que devemos ter com o nosso corpo e sabemos que se comermos imensos fritos e não fizermos exercício físico teremos mais hipóteses de ter uma doença cardíaca, também há coisas que fazemos ou que nos acontecem que podem influenciar a nossa saúde mental. Coisas como insistir em ter um trabalho que odiamos. Ou ter relações com pessoas tóxicas. Ou trabalhar 12 horas por dia. Ou dormir cinco horas por noite e achar que é mais do que suficiente. Ou outras coisas. Se não estivermos bem física ou emocionalmente é mais provável que a nossa mente também adoeça.

E há coisas que podemos fazer que ajudam. Neste livro, Michelle Thomas diz quais as coisas que a ajudam e que, curiosamente, não são assim tão diferentes das minhas.

Fazer terapia. Deveríamos poder fazer terapia como quem vai ao dentista ou ao ginecologista, sem estarmos doentes (digo poder porque a terapia é muito cara). Que bom seria ter alguém que nos ouvisse, que nos ajudasse a pensarmo-nos (e a conhecermo-nos o melhor possível), que nos ajudasse a ter instrumentos para vivermos melhor a nossa vidinha (por exemplo, trabalhar a nossa auto-estima e os sentimentos de culpa) e que nos desse a mão se nos visse a afundar, sem que tivéssemos sequer que pedir.

Ter relações afectivas. A família e os amigos (e um amor, se o houver) são a minha salvação sempre. Sentir que não estamos sós, que há pessoas que gostam de nós e que se preocupam connosco faz-nos sempre bem. Por outro lado, sentir que somos úteis aos outros, cuidar de e fazer alguém feliz é também uma enorme satisfação. A vida é melhor quando a podemos partilhar com pessoas de quem gostamos. Claro que é importante aprendermos a estar sozinhos e não podemos fazer com que a nossa felicidade dependa dos outros, mas também é importante que não nos sintamos sós - a solidão é um dos sentimentos mais esmagadores que tenho experimentado.

Fazer coisas que nos dão prazer. As minhas - além de estar com as pessoas de quem gosto - são: ler, escrever (este blogue é parte da minha terapia), ir ao cinema, ver um espectáculo, cozinhar, passear, esplanadar, dançar. É importante termos coisas que gostamos de fazer, que não dependem dos outros e que nos fazem sentir bem. Como me disseram uma vez, quantas mais coisas nós gostarmos de fazer mais possibilidades temos de sermos felizes.

Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Mesmo quando tudo parece correr mal, todos os dias há coisas boas na nossa vida. Talvez se lhes dermos o devido valor, isso nos ajude a enfrentar as coisas más.

*

Eu nunca tive uma depressão nem qualquer outra doença mental mas sei que a qualquer momento posso ter um breakdown, que não sendo a mesma coisa pode ter efeitos devastadores. Isto é tudo muito frágil e a vida é complicada, é fácil sentirmo-nos assoberbados. Sei que tenho as minhas fases más. Conheço os meus sintomas. Há momentos em que nada parece fazer sentido e em que me sinto a afundar, como se não conseguisse manter-me à tona. Mas, de alguma forma, lá encontro forças para dar mais umas braçadas e, felizmente, até agora, tenho tido o discernimento para tomar as medidas necessárias sempre que me senti a perder o pé. Mas mantenho-me atenta. 

Cada cabeça é uma cabeça, por isso as respostas não são iguais para todos. Mas, por outro lado, as cabeças são todas muito mais parecidas do que imaginamos. Não estamos sozinhos nisto. Portanto, como insiste a Michelle Thomas, estejam atentos aos sinais e não tenham medo de pedir ajuda. 

A Little Help From My Friends, The Beatles

publicado às 17:11


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