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"Estás bem?", uma pergunta tão simples, talvez a pergunta que mais vezes fazemos uns aos outros, "Está tudo bem?". É, na maior parte das vezes, uma pergunta inconsequente, ninguém quer saber realmente se estamos bem, e por isso respondemos de forma mecânica, "Tudo", e seguimos com a conversa sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre as eleições, o que for. Mas o que responderíamos se quiséssemos ser verdadeiramente honestos? Estou bem? Mesmo que não esteja "tudo bem", que nunca está tudo bem, estamos bem? Estou bem, digo a mim mesma. Se reflectir um pouco, se pesar os pratos da balança, se der o devido valor às coisas que me irritam e entristecem (valem assim tanto?), se quiser ser verdadeira, tenho que dizê-lo: estou bem. A vida não é a preto e branco. Os dias muito bons sucedem-se a dias muito maus que se sucedem a dias mais ou menos. No mesmo dia, temos coisas óptimas a acontecerem-nos e coisas que nos deprimem. Não é assim com todas as pessoas? Estou bem.

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Fiquei muito deprimida com os resultados das eleições. Ainda estou deprimida com isto tudo. Há muitas coisas na minha vida de todos os dias que não são perfeitas, no topo delas estão o trabalho e as angústias com os miúdos, claro, mas tudo fica pior porque tenho que ver televisão e acompanhar as notícias relacionadas com a extrema-direita. Ouvir AV a toda a hora, as suas mentiras, os seus joguinhos, aquela retórica populista, a sua extrema falta de educação e falta de respeito por nós todos tem sido um grande foco de tristeza e desesperança. Por outro lado, existe também uma vontade de agir e reagir, partilhada por algumas pessoas à minha volta. Não sabemos ainda como, quando, onde, mas sinto que temos a responsabilidade de fazer alguma coisa.

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Já quase ninguém escreve nos blogues. Eu própria quase não escrevo no blogue. Não temos tempo, não temos paciência, assim como assim ninguém lê, pois não? Somos cada vez mais descartáveis. O Facebook está praticamente morto. O Twitter é um ninho de víboras, pessoas desejosas de dizerem coisas, seja o que for, desejosas de provocar reacções. No Twitter sou apenas observadora, mas o Instagram transformou-se no meu álbum de fotografias e memórias. O Instagram, como bem escreveu a Gabriela (que também se lamenta por escrever cada vez menos, e é uma pena), é aquela "rede social onde os mais novos só deixam 'histórias' efémeras e os mais velhos registos vários para a posteridade. É muito isto que nos diferencia, parece-me. Instagrams que vivem de marcas que permanecem e os outros, que têm zero publicações, mas inúmeras histórias que as 24 horas apagam". Eu sou da permanência ("é urgente permanecer", diz o poema de Eugénio de Andrade). A mim faz-me falta a escrita. Faz-me falta escrever-me. Não me tenho sentido suficientemente livre para fazê-lo, não sei como explicar-vos. Tenho de pensar melhor nisto.

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Emocionei-me muito a ver Um Mini Museu Vivo de Memórias do Portugal Recente, um espectáculo do Teatro do Vestido, que conta um pouco da história Portugal dos anos da ditadura e da democracia. É mesmo preciso não esquecer.

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Os jornalistas fizeram greve. Não serviu para nada, não vamos ser aumentados nem vamos ter melhores condições de trabalho, os despedimentos vão continuar, os órgãos de comunicação continuam com problemas financeiros, e, no entanto, foi importante que nos juntássemos todos, que nos olhássemos, que os outros olhassem para nós, que disséssemos em voz alta que temos mesmo que fazer alguma coisa por nós, para mudar isto, que não podemos continuar a encolher os ombros. Foi um dia muito bonito.

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Fomos ver o Sérgio Godinho ao Coliseu. Foi tão bom, tão bom. Foi tão bom poder ouvir aquelas canções acompanhada daquelas pessoas (as pessoas são sempre o mais importante). Ouvir outra vez A Garota Não. Gritar pela paz, o pão e a habitação. Cantar o Zeca e o Zé Mário. Ter um "brilhozinho nos olhos" e acreditar que, apesar de tudo, este poderia ser o "primeiro dia do resto da nossa vida".

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Também fui ver a Patti Smith com os Soundwalk Collective ao CBB. Que maravilha. O espectáculo chama-se Correspondences e baseia-se na poesia de Patti Smith, a partir do trabalho de outros artistas, aquela voz incrível num ambiente composto por vídeos e sons, levando-nos numa reflexão sobre o mundo em que vivemos, a destruição da natureza, os desastres nucleares ou questões mais humanas da nossas existência. Foi uma experiência bastante intensa que terminou com um momento de libertação, o público todo de pé a cantar People Have The Power ("The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools").

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Ainda não tinha ido à Casa Fernando Pessoa depois da remodelação. Vale muito a pena. A exposição está muito bonita, com partes mais informativas e outras mais poéticas. Numa das salas há uma montagem de espelhos - porque cada um de nós é muitos, porque cada pessoa é diferente dependendo do ponto de vista. Aí, conseguimos ver-nos de costas. Completamente. Não sei se alguma vez me tinha visto de costas, como se fosse outra pessoa. Foi bastante estranho. Ficámos ali algum tempo. Há algo de quase transcendental nesta experiência.

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"I know not what tomorrow will bring" - foi esta a última frase escrita por Fernando Pessoa. Não sabemos o que o amanhã nos traz. Tenho feito um esforço para tentar viver o presente sem pensar no futuro. No meu futuro, no futuro dos meus filhos, no futuro em geral. Talvez seja por estar a chegar aos 50, não sei. Não é tanto um "seize the day" no sentido de fazer tudo e devorar o mundo como se não houvesse amanhã. Não é isso. É mais um ser feliz agora, por inteiro, sem alimentar expectativas para amanhã, tentando não me angustiar. Se me conhecessem saberiam que é um desafio e tanto. É quase como suspender o pensamento. Não vou dizer que é fácil, mas até agora tem sido possível e tem sido bom. Talvez o amanhã nos traga beijos e passeios de mão dada à beira-mar. Talvez o amanhã me traga uma tarde numa esplanada, sozinha, com um livro. Seja como for, o importante é estar em paz.

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publicado às 20:18

24
Set23

Esclarecimento

Não, não são críticas.

A crítica é um trabalho, sério e exigente. Tenho um respeito enorme pelos críticos - de cinema, de literatura, de arte, de performance, de tudo. Tenho os meus críticos preferidos e também tenho aqueles com quem sei que raramente concordo. Com todos eles aprendo alguma coisa. Sobre as obras, sobre a vida, sobre a escrita. Aprendo a ser melhor espectadora (ou leitora ou o que seja), porque não só com mais informação mas também com mais dúvidas, mais perguntas, mais pontos de vista a acrescentar aos meus. 

Não, não são críticas. O que escrevo aqui são impressões. Lembretes para um dia quando quiser falar de um filme, que a minha cabeça é uma desgraça e eu preciso destes auxiliares de memória para me lembrar do que vi e do que li e do que ouvi e até do que vivi e do que senti. É para isto, essencialmente, que serve este blog. Para coleccionar as minhas memórias. (desculpem, isto dito assim é um bocadinho egoísta, mas é a verdade. se vocês soubessem a quantidade de vezes que venho aqui confirmar datas e acontecimentos e procurar informações para completar conversas sobre tudo e mais alguma coisa.) E depois, também, claro, porque é um blog público, para partilhar estas minhas impressões com quem as quiser aproveitar. Sem qualquer pretensão. Só assim como quem conversa com os amigos sobre os filmes que viu. 

Mas não são críticas. Nada de confusões.

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O crítico gastronómico Anton Ego, do filme Ratatouille

publicado às 22:08

Assim como não abrimos a porta de nossa casa a estranhos, também a partir de hoje este blogue só aceita comentários de autores identificados. Insultem-me mas não sejam cobardes.

De qualquer maneira, continuarei a não publicar comentários ordinários nem ofensivos de alguma forma.

De resto, estão à vontade para discordar, argumentar e criticar.

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publicado às 17:03

Estava a apagar rascunhos. Eu tenho sempre imensos rascunhos aqui no blogue. Ideias que não vão a lado nenhum. Desabafos que entretanto perdem o sentido. Textos que ficam ali em banho-maria, à espera do momento certo para serem publicados. Pode não parecer mas quase tudo o que eu publico neste blogue é bastante pensado. Às vezes passo dias a escrever na minha cabeça antes de finalmente, quando me parece que a ideia já tem alguma consistência, começar a teclar. Outras vezes, quando tenho tempo, abro um rascunho e vou escrevendo, pausando, reescrevendo. A maior parte das vezes em que sou mais instintiva e escrevo e publico com grande rapidez acabo por me arrepender ou por ter de voltar ao post para emendar alguma coisa. Adiante. Estava a apagar rascunhos e encontrei um, de 2014, que se intitulava "moderação" e tinha apenas um link:

"Nas estradas avisam: "Modere a velocidade". Podia haver o mesmo aviso no início dos namoros."

É tão engraçado este carrossel da vida. Ainda ontem falava disto com uma amiga.

publicado às 10:25

Porque escreves?, perguntam-me. Encontrei uma parte da resposta nas palavras do ilustrador António Jorge Gonçalves:

"O desenho é o caminho, mas também uma grande companhia. O desenho e a escrita são formas de nos acompanharmos. Nas nossas solidões, nos nossos tédios. Na nossa incapacidade de nos inscrevermos no mundo, de nos inscrevermos no grupo."

Há dias em que é só isto. Há dias em que é um pouco mais.

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publicado às 09:28

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Da maravilhosa Mari Andrew

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publicado às 21:42

06
Jul17

Dez anos

Há dez anos, os blogs não eram como agora. Pelo menos que me lembre. Ainda não havia gente que vivia disto, nem posts patrocinados nem agências de comunicação a mandar mails que começam com "cara blogger", os bloggers não era convidados para eventos nem recebiam sapatos pelo correio nem tinham férias pagas. Há dez anos, os blogs eram espaços para escrever e para debater ideias, havia ainda muitos blogs colectivos e havia realmente discussões políticas que passavam por aqui. Os que sonhavam ser escritores publicavam em blogs os seus primeiros contos, os que sonhavam ser opinadores estreavam-se nas crónicas, os que sonhavam ser políticos tiravam o maior partido deste fórum público. Havia alguns blogs mais pessoais, que falavam do quotidiano.

Este começou assim. Em julho. O primeiro texto foi publicado no dia 18 mas andou a ser escrito durante semanas se bem me lembro, não era uma coisa qualquer. O que é que eu esperava disto? Não muito, quer-me parecer. Tal como agora. 2007 foi um desses anos em que sentimos a vida a mudar. Apeteceu-me ter um blog para escrever sem regras, sem editores, sem agenda - sempre soube que não tenho grande veia literária, deus me livre de escrever ficção, mas talvez me descobrisse uma cronista de mão cheia. Não aconteceu. Rapidamente o blog se tornou um diário, um espaço de desabafos, de apontamentos sem a mínima importância, outros que só são importantes para mim. O meu sítio.

No início só disse a meia dúzia de amigos para virem ler isto. Depois uns foram dizendo a outros, começaram a aparecer por aqui amigos mais distantes, a família, os conhecidos e até os desconhecidos, de vez em quando há um texto que é mais partilhado e vem muita gente cá espreitar. Nesses dias fico um bocadinho aflita, é como se de repente uma cambada de estranhos me entrasse pelo porta dentro e eu a pensar que não limpei bem a casa e o que é que eles vão ficar a achar de mim. Hoje já não tenho problemas em que saibam que a Gata sou eu mas achei que seria mais divertido continuar a não assinar. Quem ler com atenção facilmente percebe. Quem sabe sabe, quem não sabe paciência. E também não é como se tivesse assim muitos leitores.

Houve alturas em que, vendo outros blogs a ganharem notoriedade, pensei que poderia esforçar-me para também ser uma blogger como deve ser, mas logo percebi que não tenho feitio para tal. Que não me iria dar prazer e, sinceramente, para fazer coisas de que não gosto já tenho o resto da vida. Só escrevo quando me apetece e sobre o que me apetece. Quando isto for um esforço, será algo completamente diferente.

E por aqui estou há dez anos. Confortavelmente. No meu cantinho. Mesmo que ninguém leia, mesmo que ninguém goste, este sítio tornou-se uma parte da minha vida. Não só porque gosto realmente de escrever aqui - pode não parecer, mas perco mesmo muito tempo a pensar no que vou escrever e na maneira como quero escrever, a escolher as fotos, os links, as frases, posso passar horas nisto até acertar no post tal como o quero publicar (e passo horas a fazer posts que depois acabam por não ser publicados) - mas também porque também gosto muito de vir aqui ler os posts mais antigos. Eu sei que isto é capaz de ser um pouco narcísico, mas este blog é como os meus álbuns de fotografias, uma maneira de eu fixar momentos, pensamentos, sensações, de não me esquecer de algumas coisas e de me organizar por dentro. Escrevo sobre a minha vida, os meus filhos, os livros que leio, os filmes que vejo, aquilo que me preocupa, as coisas boas da vida, algumas coisas menos boas. Escrever para os outros é muito diferente de escrever num caderno, ajuda-me a elaborar melhor as minhas ideias, obriga-me a fundamentar opiniões, a focar-me naquilo que interessa. Também por isso é tão importante escolher bem o que publico. Olhando para trás, há textos que eu hoje escreveria de maneira diferente mas são poucos aqueles que me arrependo de ter escrito ou que sinto como desnecessários. Dentro da futilidade que é ter um diário público, tento encontrar aqui o equilíbrio (o meu equilíbrio) entre o que guardo e o que mostro.

Assim vamos. Enquanto valer a pena.

publicado às 09:34

18
Nov16

Do voyeurismo

Sempre que há um post mais partilhado e que há pessoas novas a virem ler este blogue é certo e sabido que a busca mais popular por aqui é com a tag "divórcio". Ninguém se interessa pelo que tenho a dizer sobre política nem quer saber das minhas considerações sobre teatro, nem sequer o facto de falar dos meus filhos é assim tão apelativo. Não há nada mais interessante do que o sofrimento dos outros. Tal e qual como quando abrandam na estrada para ver um acidente, as pessoas chegam aqui e vão à procura de sangue. Ou de pormenores sórdidos. Ou de lamúrias. Ou de ódio.

Imagino que fiquem bastante desiludidas.

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publicado às 10:52

Às vezes perguntam-me (às vezes também me pergunto) porque tenho um blogue. Podia dizer que escrevo porque gosto de escrever, e é verdade. Mas também escrevo porque gosto de reler. Gosto muito de ir ler o que aqui está há meses e há anos, da mesma forma que gosto de folhear os meus álbuns de fotografias. Gosto de me lembrar como foi, o que fizemos, o que sentimos, de perceber como chegámos até aqui.

E depois há histórias como esta  que dão algum sentido a isto.

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publicado às 16:21

05
Fev15

Pão e circo

Andas a entreter-nos com filmes, músicas e essas cenas só para não falares da tua vida, queixa-se uma amiga que costuma ler o blogue. É verdade. Fui apanhada. Não me tem apetecido muito falar da minha vida. Mas isso não é necessariamente mau. Fiquem descansadas, pessoas que passam por aqui. A vida vive-se.

publicado às 00:06


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