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A Gata Christie


Terça-feira, 15.05.18

Comprimidos

Estive a ver o documentário Take your pills: receita para a perfeição, de Alison Klayman, sobre o uso e abuso de Adderall e outras anfetaminas, uma realidade que me tinha passado completamente ao lado. Já tinha ouvido falar do excesso de medicação de Ritalina para o défice de atenção mas isto vai muito além. Aparentemente, há miúdos nas universidades e adultos com profissões variadas que tomam Adderall para se conseguirem focar melhor, melhorarem o seu desempenho e trabalharem durante mais horas seguidas. É muito impressionante. E depois há também aqueles que têm verdadeiros problemas de atenção e precisam de Adderall apenas para funcionarem normalmente (e podemos questionar o que é isto de ser normal e se é assim tão necessário sê-lo). 

 

São coisas que me põem a pensar. Eu, que sou aquela pessoa que nunca tomou um comprimido para dormir, um calmante, um anti-depressivo, que nunca experimentou qualquer tipo de droga nem sequer alguma vez deu uma passa num charro (podem rir-se à vontade que eu não me importo), e que a única substância que toma, de vez em quando, é um copo de vinho ao jantar ou um gin tónico numa noite com amigos, eu fico fascinada a tentar perceber estes fenómenos. Há uma das raparigas no filme que diz que como o Adderall não é uma droga recreativa, é algo que as ajuda a trabalhar, as pessoas tendem a achar que não há nada de errado em tomar aqueles comprimidos. E se pensarmos bem nisto é verdadeiramente assustador: estas pessoas drogam-se não para serem mais felizes ou para fugirem dos problemas da sua vidinha, como acontecia antes, mas, pelo contrário, para poderem trabalhar mais, para serem mais competitivos e ganharem mais dinheiro. E isto diz muito sobre os tempos em que vivemos.

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por Gata às 16:15

Quinta-feira, 03.05.18

Bonecos

No sábado, fomos a uma sessão do festival Indie Junior: dois filmes mudos (um filme russo e outro de Buster Keaton) acompanhados por duas baterias. Preparei-me para o pior. Expliquei-lhes que eram filmes do início do cinema, a preto e branco e sem falas. E para os animar garanti-lhes que não demoraria uma hora sequer. Eles suspiraram daquele jeito como quem diz "as coisas que temos que aturar a esta mãe", mas não protestaram nem amuaram, portaram-se bem, estiveram atentos, riram-se e, no final, até disseram que tinha sido fixe e comentaram (e imitaram) as partes mais engraçadas. 

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Na segunda-feira, o Pedro foi com a escola a uma outra sessão do Indie Junior. Ao fim do dia queixou-se: "Eram filmes infantis, mãe, não teve graça nenhuma."

O puto ainda não tem 10 anos mas já não gosta de ver bonecos. 

Confirma-se: os segundos crescem muito mais depressa.

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por Gata às 21:24

Quarta-feira, 28.02.18

E o Óscar vai para...

oscares.jpg 

Tenho o Get Out / Foge, gravado na box mas ainda não tive coragem para vê-lo. Toda a gente me diz que é óptimo mas a mim as palavras thriller e terror tiram-me o entusiasmo. Duvido que o veja até domingo. Pelo que, para já, se tivesse que ordenar os nomeados para o Óscar de melhor filme, a coisa ficaria assim:

1. Call Me By Your Name/ Chama-me pelo teu nome, de Luca Guadagnino. Adorei. Simplesmente. E acho que ainda vamos ouvir falar muito deste Timothée Chalamet.

2. Phantom Thread/ A Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson (que é um dos meus realizadores preferidos). Gostei mesmo muito. É um daqueles filmes difíceis de explicar, cheio de subtilezas, mas que ficam connosco durante muito tempo.

3. Lady Bird, de Greta Gerwig. Acho que quero vê-lo de novo quando estrear nos cinemas, que houve pormenores que me escaparam. É um filme que retrata a juventude como poucos.

4. The Post, de Steven Spielberg. Tenho uma relação complicada com o Spielberg. Gosto de muitos dos seus filmes mas sinto, quase sempre, que ele tem demasiadas mensagens a passar. Mensagens bonitas, lições de moral, tudo com boa intenção. Mas não sabe onde parar. Há sempre uns  minutos a mais em cada filme. E este não é exceção. Mas apesar disso é um bom filme. Não tão bom quando A Ponte de Espiões, na minha opinião. Mas ainda assim um bom filme, com óptimas interpretações (de Meryl Streep e Tom Hanks). Com uma história que vale muito a pena contar - e que todos os jornalistas e outras pessoas que trabalham em comunicação deveriam conhecer.

5. Three Billboards Outside Ebbing, MissouriTrês Cartazes à Beira da Estrada, de Martin  McDonaghÉ um bom filme mas, curiosamente, à medida que o tempo passa tenho me distanciado dele. Leio agora o que escrevi quando o vi e é curioso porque tudo o que ali está é verdade mas ficou a faltar algo: tive a sensação que aquela cena do incêndio era exagerada, que algo se perdia ali, naquele momento em que a mãe perde o juízo todo e cede à vingança e o polícia parece encontrar a salvação. Não dei muita importância na altura mas, olhando agora, aquelas personagens parecem-me quase caricaturais. É uma pena. Bastava ter havido alguma contenção nessa parte final e o filme seria muito melhor. 

6. Dunkirk, de Christopher Nolan. É um óptimo filme. Muito bonito e muito bem feito. Mas para mim isso não chega.

7. Darkest Hour/ A Hora Mais Negra, de Joe Wright. É muito curioso ver este filme depois de ter visto Dunkirk, porque ambos retratam o mesmo acontecimento: enquanto os soldados britânicos morriam na praia, em Londres Churchill fazia de tudo para tentar salvá-los. A interpretação de Gary Oldman tem tudo para levar um Óscar, incluindo o facto de o actor estar irreconhecível. Mas há demasiada exaltação de Churchill e muita pouca preocupação com a verdade dos factos. Aquela cena do primeiro-ministro no metro é apenas ridícula.

8. The Shape of Water/ A Forma da Água, de Guillermo del Toro (mas também podia ser de Jean-Pierre Jeunet  que fez Delicatessen e O Fabuloso Destino de Amélie). Não consegui acreditar em nada daquilo, nem no monstro, nem na rapariga muda, nem naqueles cientistas que pareciam tirados de uma banda-desenha. Não consegui acreditar naquela voz off que nos conta a história como se fosse uma fábula. Nem naquele amor sem palavras. Lamento. Um aborrecimento.

Além destes, ainda vi mais dois filmes de que gostei muito: The Florida Project, de Sean Baker, que está nomeado para melhor actor (Willem Dafoe), e I, Tonya, de Craig Gillespie, sobre a patinadora Tonya Harding, com Margot Robbie, e Julianne Nicholson (nomeadas para melhores atriz e atriz secundária). Se estivessem nomeados para melhor filme, qualquer um deles estaria ali a meio da tabela.

Da "minha" tabela, claro está.

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por Gata às 22:51

Segunda-feira, 19.02.18

Uma mãe sozinha contra a estatística

Ainda a propósito do filme de Clint Eastwood. Dois dos rapazes da história vivem só com as mães. Quando começam a ter problemas na escola, os professores dizem-lhes que talvez se trate dos efeitos da ausência do pai. Estatisticamente, os filhos de pais sozinhos têm mais problemas na juventude, diz uma professora. O meu deus é maior do que as suas estatísticas, responde uma das mães. Os rapazes têm de facto vários problemas na sua juventude. Mas, no final, a boa formação acaba por se revelar no momento em que põem em risco a própria vida para evitar um massacre.

A verdade, porém, é que a estatística é bastante lixada para as crianças que crescem em famílias monoparentais.

Entre outras coisas: 

Statistically, a child in a single-parent household is far more likely to experience violence, commit suicide, continue a cycle of poverty, become drug dependent, commit a crime or perform below his peers in education. (EUA, 2012)

Children from broken homes are almost five times more likely to develop emotional problems than those living with both parents, a report has found. Young people whose mother and father split up are also three times as likely to become aggressive or badly behaved, according to the comprehensive survey carried out by the Office for National Statistics. (UK, 2008)

Children of single-parent households are more commonly involved in delinquent activities than those living in two-parent households. With the parent working one or more jobs to provide for the family, adolescents have more opportunity to be without supervision and to engage in delinquent acts, such as alcohol and drug consumption, violence, truancy and property crime. Research published in the “Journal of Research on Adolescence” by Cynthia Harper found that adolescent males who live in father-absent households are more at risk for delinquency and youth incarceration than those living in father-mother households. (EUA, 2015)

Portanto, para além de todas as dificuldades logísticas e emocionais inerentes ao facto de estar sozinha com os putos e da adolescência que nunca é fácil em nenhuma família, ainda tenho que estar mais super-alerta porque há mais factores de risco nesta equação. E o que é pior é que isto é palpável a cada dia que passa. Ainda no outro dia tive uma conversa parecida com a do filme com uma professora que me perguntou pela existência de uma figura paternal cá em casa. Infelizmente não sou religiosa e não tive como lhe garantir que contava com a ajuda de deus para conseguir dar conta do recado. A única coisa que posso garantir é que farei o meu melhor.

E que darei luta. Sozinha. Contra a estatística. 

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por Gata às 10:59

Domingo, 18.02.18

Heróis acidentais

Clint Eastwood é republicano, conservador e anti-controlo de armas. E isso nota-se nos seus filmes. Se pensarmos em todos os filmes que ele já realizou, é interessante ver quantos é que são sobre guerra e quantos têm gente a dar tiros, em quantos o tema da segurança/insegurança é relevante, quantos falam da inevitabilidade da violência quotidiana. Eu não sou republicana, nem conservadora nem defendo a liberalização do uso de armas. No entanto, posso dizer que gosto muito de muitos filmes de Eastwood. As suas posições políticas, sempre bastante claras nos filmes que realizou, não me impedem de gostar deles - sobretudo naquele período entre 1992 (Imperdoável) e 2008 (Gran Torino). Olho para a lista - estão lá Um Mundo Perfeito, As Pontes de Madison County, Mystic River, Million Dollar Baby - e até mesmo aqueles de que gosto um bocadinho menos são bons filmes. Bem feitos, com boas personagens, com boas histórias. Eastwood conseguiu trazer para a actualidade o melhor do chamado "cinema clássico americano" que é a arte de contar histórias e de encontrar heróis, até mesmo na nossa rua. Além de que foi também - com os filmes que interpretou neste período - um dos realizadores que melhor filmou o envelhecimento, no seu próprio corpo, nas suas rezinguices, nos sonhos perdidos, no confronto com a morte.

É por isso um pouco triste, quase doloroso, ver como os seus últimos filmes têm vindo a perder a capacidade de complexificar e de problematizar todas as questões que atrás referi para se tornarem quase panfletários. Isso já era muito claro em American Sniper (um filme bem feito mas muito, mesmo muito liso do ponto de vista psicológico) e é-o ainda mais em 15:17 Destino Paris, que bem pode ser usado como propaganda para convencer os jovens a irem para as forças armadas. É como se o patriotismo (que sempre esteve presente mas em doses suportáveis) e a procura de um herói americano (aquele que usa a violência para salvar o mundo e usa deus para caucionar essa violência) se tornassem mais importantes do que o próprio filme, enquanto objecto artístico. 

Essa cegueira leva Clint Eastwood a tomar más decisões, como a de colocar os três protagonistas dos eventos reais, ocorridos no verão de 2015 num comboio com destino a Paris, a interpretarem o seu próprio papel. Como actores são péssimos e como statement parece-me falhado -  até porque ter essa informação (de que eles são os verdadeiros protagonistas) muda completamente o modo como vemos o filme, e não deveria ser assim, o filme deveria bastar-se a si mesmo. Se a história fosse suficientemente boa não precisaríamos de mais nada.

Ou talvez a verdadeira má decisão tenha sido apenas a de querer fazer um filme com a história destes rapazes que, é verdade, tiveram um acto heróico, mas se calhar têm vidas bastante banais e pouco interessantes do ponto de vista cinematográfico. Toda a sequência das férias, na Europa, é aborrecida. Não acontece nada de verdadeiramente importante para a história, estamos só a fazer tempo para o grande acontecimento (que, ainda por cima, nós já sabemos qual é). E quão ridícula aquela dúvida permanente: vamos a Paris ou não vamos? Ah, o destino, aquilo que tem mesmo de ser, será, blá, blá, blá, todos temos uma missão na vida. Temos mesmo? E a missão daqueles rapazes terminou ali, aos vinte e poucos anos? 

Se querem ler uma crítica de alguém que percebe do assunto e discorda de tudo o que eu disse, leiam AQUI o Eurico de Barros. Não podemos concordar sempre, não é?

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por Gata às 10:12

Sexta-feira, 16.02.18

Nas traseiras do sonho americano

Não está nomeado para melhor filme - apenas para ator secundário, Willem Dafoe - mas é, na minha modesta opinião, melhor do que vários dos nomeados na categorias principais. The Florida Project, de Sean S. Baker, mostra-nos o dia-a-dia de Moone, uma rapariga de seis anos (interpretada por Brooklyn Prince), e da sua mãe (Bria Vinaite), que vivem no Magic Castle, um motel ao lado da Disneyland. Os prédios podem ter cores garridas mas dentro daqueles quartos não há turistas a caminho do mundo encantando do Mickey e da Minnie. Só gente marginalizada pela sociedade, desempregados, imigrantes ilegais. Sobrevivendo de biscates, sempre atrasadas a pagar a renda e sem dinheiro sequer para as melhores refeições, mãe e filha conseguem, apesar de tudo, encontrar momentos de verdadeira felicidade, sobretudo a miúda que passa os dias brincando com os amigos nos recantos do motel e nos arredores, sem qualquer supervisão de adultos, entre partidas inofensivas e conversas que tanto são super infantis como podem ser bastante emotivas.

Filme independente, no melhor sentido da palavra, e bastante realista (quase poderia ser um filme português, e digo-o sabendo que estou a evocar vários estereotipos que se calhar já não fazem sentido mas foi exactamente o que senti ao vê-lo), feito quase só com actores desconhecidos e sem grandes meios (a última cena foi filmada com um telemóvel porque a produção não teve autorização para filmar dentro do parque temático),The Florida Project é um verdadeiro achado para aqueles que (como eu) não têm paciência para as exaltações em torno de The Shape of Water/ A Forma da Água, o filme de Guillermo del Toro que, tudo indica, se prepara para arrebatar os principais prémios da Acadamia de Hollywood.

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por Gata às 15:30

Quinta-feira, 08.02.18

Respirar

1. Fui almoçar ao Mezze, o restaurante de comida do médio Oriente no Mercado de Arroios que abriu em setembro do ano passado e que tem também como missão fomentar a integração de refugiados sírios. Tenho acompanhado o projecto nas redes sociais mas ainda não tinha tido oportunidade de lá ir. Aconselho mesmo. Boa comida, boa onda. Não vos consigo dizer o que comi (e também não tirei fotos) mas era tudo bom e em quantidade mais do que suficiente. Não é propriamente barato (paguei 17 euros) mas vale a pena a experiência. Fiquei com vontade de voltar e experimentar outros pratos.

2. Fui ao cinema. Tenho visto muitos filmes no computador, admito, mas esta é sempre uma solução de recurso. Nada se compara a ver um filme no grande ecrã. Gosto mesmo de ir ao cinema, mesmo que seja numa matiné às duas da tarde, numa sala quase vazia, só com meia dúzia de velhotas. Fui ver o Phantom Thread/ Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps. É a história de um estilista muito conceituado, requisitado pela senhoras da alta sociedade, na Londres na década de 1950. E de como a jovem Alma consegue penetrar nesse seu mundo cheio de regras e de rotinas. É um filme muito bonito. Muito bem realizado. Muito bem interpretado. Com uma música obsessiva de Johny Greenwood. Cheio de mistérios e de vestidos lindos. É também um filme sobre aparências. E sobre o amor (parece que andamos sempre a falar do mesmo). E de como o amor nem sempre é como nós achamos que devia ser.

 3. A música de Sufjan Stevens. A música que ele fez para Call Me By Your Name e as outras, algumas que eu já conhecia e outras que não conhecia. Tem sido a minha banda sonora nos últimos dias.

Ainda não fui ver o mar. Mas um dia de folga a meio da semana, com isto tudo e ainda a passear sozinha ao sol pelas ruas de Lisboa, em silêncio, pode ser suficiente para recuperar a energia. Respirar. Para não sufocar.

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por Gata às 11:23

Sexta-feira, 02.02.18

Já tenho um vencedor

É Call Me By Your Name - Chama-me pelo teu nome, de Luca Guadagnino.

Ainda não vi todos os nomeados (faltam-me quatro dos nove nomeados para melhor filme), mas tenho a certeza que não vou encontrar melhor. Call Me By Your Name é uma história de amor. Delicada. Bonita. Feliz. E Triste. É também a história de um verão numa quinta de Itália em 1983, um verão em que um rapaz de 17 anos, Elio (fantástico Timothée Chalamet), descobre o que é o sexo e descobre o que é o amor e se descobre a si mesmo. A sensualidade está em todo o lado. Nos pés descalços. Nos banhos no rio. Naqueles calções curtos que os homens usavam. Nos copos de vinho. Nas árvores de fruta. Na música de Sufjan Stevens. Nas várias línguas que se falam naqueles diálogos. Até, imagine-se, nas roupas e nos penteados tão maravilhosamente tirados dos anos 80.

Filmado com amor, isso nota-se em cada plano, Call Me By Your Name é daqueles filmes que eu gostaria de guardar para mostrar aos meus filhos daqui a um par de anos. Para lhes dizer: sintam. Amem, gozem, riam, chorem. Mas sintam. Porque é isso a vida.

 

Só por curiosidade: Chalamet também entra em Lady Bird. E há mais pontes entre estes dois filmes.

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por Gata às 00:15

Domingo, 14.01.18

"Três cartazes à beira da estrada"

Não há heróis em Três Cartazes à Beira da Estrada/ Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, o filme de Martin  McDonagh que, até agora, é o grande vencedor da temporada de prémios do cinema. Como na vida real, ninguém é completamente bom. Também ninguém é completamente mau, embora neste filme sobressaiam as imperfeições destas pessoas, movidas a ódio, que habitam numa terra pequena da América profunda. Esta é a história de Mildred (Frances McDormand), cuja filha foi raptada e assassinada há sete meses e que, revoltada pelo facto de a polícia não estar a investigar com mais afinco o crime, decide colocar três cartazes à entrada da terra questionando o chefe da polícia. Esta é também a história da vergonha do filho. De um ex-marido ridículo. De um polícia (Woody Harreleson) a morrer de cancro. De um outro polícia (Sam Rockwell) habituado a resolver tudo com pancadaria. De uma velhota a dormitar num sofá. E de um anão à procura de aceitação. À falta de psicanalistas caros, a violência - nas palavras e nos actos - é a maneira que têm de lidar com as tristezas e frustrações do dia-a-dia. Fez-me lembrar Hell or High Water, de David McKenzie, nomeado para os Óscares de 2017. Com a vantagem de ter um final muito anti-Spielberg, ou seja, sem quaisquer lições de moral. 

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por Gata às 09:43

Quinta-feira, 11.01.18

"Lady Bird": a adolescência é um lugar estranho

A atriz Greta Gerwing - que podem ter visto em, por exemplo, Frances Ha, de Noam Baumbach e de que ela foi co-argumentista (2012), ou Mulheres do Século XX, de Mike Mills (2016) - tem 34 anos e estreou-se como realizadora com o filme Lady Bird, que tem recebido inúmeros elogios da crítica e acabou de ganhar o Globo de Ouro para melhor filme musical ou de comédia. Ando há uns dois meses a ler sobre Lady Bird e isso nem sempre é bom porque quando criamos uma expectativa muito grande sobre o que quer que seja a probabilidade de nos desiludirmos é muito maior. Mas não aconteceu.

Lady Bird conta a história de uma miúda de 17 para 18 anos (interpretada por Saoirse Ronan), naquele momento em que termina o liceu e sonha com a faculdade (e com a liberdade, com a maioridade, com isso tudo). A ação passa-se nos EUA em 2002 e, embora não seja assumidamente autobiográfica, a história é claramente inspirada na vida da autora que, tal como Lady Bird, cresceu em Sacramento, estudou numa escola católica e gostava de teatro musical. No filme, a família passa por dificuldades financeiras mas, apesar disso, ela está decidida a sair de Sacramento e a ir estudar para Nova Iorque.

Talvez seja preciso ter crescido numa terra pequena (e num tempo em que a internet e os telemóveis ainda não eram tão banais como hoje) para se perceber exactamente essa ânsia de sair dali e de ganhar asas. Eu lembro-me bem. A partir de uma determinada altura, no liceu, já nem me preocupava muito se os meus pais não me deixavam fazer o que eu queria. Passei todo o 12º ano em contagem decrescente. Eu não fui infeliz na minha adolescência, não tenho memórias traumáticas nem nada disso. Fui até bastante feliz. Tinha bons amigos, divertíamo-nos imenso todos juntos, íamos ao cinema e passávamos longas tardes em casa uns dos outros a conversar sobre tudo e nada. Mas houve uma altura em que eu percebi que aquilo não me chegava. Não me faltava nada. Apenas a liberdade para ser quem eu era realmente. Mas em vez de me revoltar ou de me meter em aventuras adolescentes, que têm tudo para correr mal, optei por fazer uma coisa muito inteligente: esperar. Vir estudar para Lisboa deu-me a autonomia para ser quem eu queria ser. E que não era, na verdade, muito diferente daquilo que tinha sido até aí. Não desatei a fazer maluqueiras nem a apanhar bebedeiras. Simplesmente, podia tomar as decisões pela minha cabeça em vez de pensar "no que é que os outros vão dizer". E isso faz toda a diferença.

A Lady Bird é um bocadinho mais aventureira do que eu era. Mas ela está a passar precisamente por esse período de descoberta de si mesma. E o modo como o filme nos conta isso é muito ternurento, é como uma viagem à nossa adolescência.

Por outro lado, há a mãe (interpretada por Laurie Metcalf). Como eu também já sou mãe e como os meus filhos estão cada vez mais crescidos, é quase impossível não me rever nas preocupações daquela mãe. Tenho esperança de conseguir comunicar melhor com os meus filhos mesmo quando eles tiverem fases mais complicadas e sei que, aconteça o que acontecer, hei de ser sempre uma lamechas incorrigível e hei de agarrá-los e enchê-los de beijos e dar-lhes colo sempre que eles precisem. Mas há ali um lado de querer prepará-los para a vida e de nos preocuparmos com o futuro dos nossos bebés que acho que é universal. É também isso o amor. Mesmo que nem sempre as mães o consigam demonstrar da maneira que os filhos gostariam.

Lady Bird é um filme sem artificios mas com muitos detalhes - óptimas interpretações, personagens complexas, até mesmo as secundárias, música bem escolhida, cenários, figurinos -  que nos transporta para as aulas do liceu e nos faz lembrar as emoções das primeiras paixões, dos primeiros beijos, dos primeiros corações partidos. Eu não sei se isso é grande cinema ou se este filme vai ficar para a história, mas a mim fez-me muito feliz.

Lady Bird estreia em Portugal a 15 de março.

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por Gata às 14:54



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