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Fomos ver o Toy Story 4 (em inglês e numa sessão à noite, que cá em casa já somos todos crescidos) e posso dizer-vos que é tão incrivelmente bom que a certa altura até me esqueci que estava a ver um filme de animação e em que, ainda por cima, as personagens são brinquedos. É tão bem feito a tantos níveis - a animação extraordinária, a história que nos prende, as diferentes personagens (com destaque para Forky, o garfo com dúvidas existenciais), as piadas e piscadelas de olho, o modo como retrata a infância e o modo como retrata a maturidade: afinal, os brinquedos somos nós, com as nossas paixões e os nossos dilemas de gente crescida.

Para grande vergonha dos meus filhos, ri às gargalhadas e lacrimejei um bocadinho - nada que se compare ao último Toy Story, mas sou uma chorona, nada a fazer. 

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publicado às 10:08

O documentário Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story, do Scorsese, que está na Netflix, é um objecto fascinante. Podemos vê-lo como um simples documentário e acreditar em tudo o que ali é mostrado - e já é fascinante, só assim, poder ver e ouvir Bob Dylan, Patti Smith, Joan Baez, Alan Ginsberg, Sam Shepard ou Joni Mitchell. Ou então podemos ficar intrigados com o que acabámos de ver e pesquisar um pouco mais para perceber como é que o documentário foi feito e descobrir que há ali uma parte que é pura ficcção - e mais fascinante ainda se torna. E divertido. Mesmo muito divertido.

A Rolling Thunder Revue foi uma digressão liderada por Bob Dylan com quase 20 pessoas em palco que começou em outubro de 1975 em Plymouth e terminou em maio de 1976 em Salk Lake City. Depois de uma digressão em estádios, o músico quis fazer algo diferente: em salas mais pequenas e reunindo um grupo de amigos em concertos que podiam durar três horas, onde havia espaço para a poesia e para a improvisação, para cantarem juntos e a solo, cada um apresentado os seus temas. Dylan aparecia em palco com a cara pintada de branco e um chapéu a tapar-lhe os caracóis e cantava e encantava.

O filme tem alguns momentos especiais - por exemplo, as primeiras cenas, ainda antes da digressão, com Patti Smith, ou quando Dylan e Ginsberg visitam a campa de Jack Kerouac, os ensaios com Joni Mitchell ou o movimento pela libertação do lutador Hurricane, que motivou a canção com o mesmo nome. E um diálogo (será verdadeiro? será ficção?) quase amoroso entre Baez e Dylan: casamos com quem amamos ou com quem pensamos que amamos?  O amor não é, definitivamente, assunto para a cabeça, conclui Dylan. Todas as imagens dos concertos são preciosas e as imagens antigas (até mesmo as que possam ser forjadas) ajudam-nos a fazer o retrato de uma época. Não só pelas personagens que aparecem e por todo o espírito da digressão e dos concertos, mas também por mostrarem aquele momento de transição política (de Nixon para Jimmy Carter), o fim da guerra do Vietname, a crise económica, os jovens e os menos jovens das muitas Américas por onde os músicos andaram.

E o resto? O que é verdade e o que é mentira? Não é por acaso que o documentário começa com imagens do espetáculo de ilusionismo de Georges Méliès. O facto de Bob Dylan ter aceite fazer este filme e ter pactuado com Scorsese na criação de uma ficção como que a gozar com aquela digressão histórica diz muito sobre o Prémio Nobel da Literatura e do quanto ele, mesmo não parecendo, não se leva assim tão a sério.

Podemos questionar se, tendo um material tão rico para trabalhar, valeria a pena inventar uma ficção. Ou até se, num momento em que tanto falamos de fake news, um filme que propositadamente mistura verdade e mentira não poderá ser visto eticamente como uma irresponsabilidade. Mas também podemos ver este filme como uma resposta de Dylan a este mundo de celebridades que vivem numa montra constante (e a recusa de Dylan, acompanhada de uma gargalhada sarcástica, em expor-se totalmente). Ou então apenas como um divertimento.

Seja como for, se me diverte e me faz pensar, para mim nunca é tempo perdido.

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Joan Baez e Bob Dylan

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publicado às 19:13

11
Jun19

Foxtrot

O foxtrot é uma dança em que se vai para a frente, para o lado, para trás, e se acaba exactamente no mesmo lugar onde se começou. Um pouco como a vida, portanto. Este filme de Samuel Maoz não é como o foxtrot. Porque depois da morte de um filho é impossível voltar ao lugar onde estávamos. É um filme muito duro. Que inevitavelmente me mexeu por dentro e me pôs a pensar na estupidez da guerra e no sentido disto tudo. E deu-me a conhecer o excelente actor Lior Ashkenazi.

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publicado às 19:35

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Um filme: 

A violação de Recy Taylor é um documentário de Nancy Buirski que nos conta como, numa noite quente de 1944, em Abeville, Alabama, no Sul dos EUA, uma rapariga negra de 24 anos foi violada por seis rapazes brancos de 14 a 18 anos. E de como ela foi ignorada pelas autoridades e viu a sua vida estragada. Sem que nunca se fizesse justiça. A história é revoltante, como é revoltante a história do racismo e do segregacionismo na América do século XX. É importante sabermos. É importante falarmos disto. O filme está em exibição apenas no Cinema Ideal, em Lisboa, de quinta a domingo, às 17.30.

 

Um espectáculo:

Histórias de LX é um espectáculo com poucas palavras mas que tem muito a dizer. Uma denúncia desta Lisboa gentrificada e turistificada onde, aparentemente, um T2 acessível é aquele que custa o dobro de um salário mínimo. Está lá tudo, dos pedintes às trotinetas passando pelos restaurantes chiques. Porque, como costumo dizer, às vezes é preciso ir ao teatro para depois vermos o mundo com mais clareza. O espectáculo do Teatro Meridional está no São Luiz até dia 16 de junho.

 

Um livro:

Tem sido a minha companhia nas últimas semanas: Becoming, a autobiografia de Michelle Obama, não é um livro denúncia nem tem revelações escandalosas, há ali um tom muito "polite" que é exigido a uma ex-primeira-dama, mas tem o dom de estar escrito com honestidade e sentido humor. A história que ela conta é a de uma rapariga negra de classe média-baixa que cresceu num subúrbio de Chicago e se apaixonou por um rapaz negro com um apelido estranho e sem qualquer fortuna mas que era uma cabeça brilhante, e de como aqueles dois, com a sua determinação, e apesar de todos os percalços, chegaram à Casa Branca. O sonho americano tornado realidade à nossa frente. Não foi exactamente assim? Pode até nem ter sido, já sabemos que cada um conta a história à sua maneira. Mas também não há de ter sido muito diferente. E o livro está recheado de pequenas histórias que, só por si, valem muito a pena. E faz-nos pensar o quanto foi preciso andar para de Recy Taylor chegarmos a Michelle Obama - e, apesar de tudo, quanto ainda nos falta andar.

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publicado às 12:11

Ora aí está uma pergunta tramada. A pergunta atravessa o filme Índice Médio de Felicidade, de Joaquim Leitão, que vi esta semana na RTP1, e ficou a ecoar-me na cabeça tal como já tinha acontecido quando li o livro do David Machado há três anos.

De zero a dez, quão feliz sou eu?

Vamos lá pôr tudo numa balança. Os dias bons e maus nos trabalho. Os dias bons e maus dos meus filhos. A frustração por não ser melhor no trabalho. A frustração por não ser melhor em casa. As discussões com o meu adolescente. A família lá longe. A loucura dos dias. A conta bancária diminuta. As viagens que não vou poder fazer. Os pequenos privilégios que, apesar de tudo, tenho na minha vida. Os livros, os filmes, os concertos, os espectáculos. As pessoas que vou encontrando. Os sonhos que ficam por cumprir. As pequenas coisas boas que me vão acontecendo. Os amigos que estão presentes. Os amigos que estão ausentes. As conversas boas. A solidão cada vez maior. As gargalhadas que vou dando. As lágrimas que tantas vezes guardo. Os bons momentos. Os outros momentos. De zero a dez, quanta felicidade é esta?

Faço contas, penso em números. No livro e no filme, uma das coisas que fica clara é que este índice de felicidade pode mudar rapidamente, com pequenas coisas. Isto é verdade. Às vezes, basta um telefonema, uma notícia, uma pessoa, um momento, basta uma coisa qualquer para fazer com que tudo valha a pena e com que esqueçamos todas as coisas más (ou então, o contrário). Num momento sou a pessoas mais infeliz do mundo e só me apetece fugir, daí a um bocadinho já estou optimista e confiante, a achar que vou dar a volta a isto (ou então, o contrário). 

De zero a dez, quão feliz sou eu? E, mais importante ainda, o que é que eu posso fazer para aumentar esse número? Essa é que a verdadeira questão.

(já agora, o filme não é uma obra prima, mas não é nada mau)

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publicado às 17:29

De vez em quando estou a conversar com alguém ou a ler um livro ou a ver um filme ou o que seja e dou por mim a surpreender-me: uma ideia nova, um conceito estranho, uma descoberta. Como é que eu nunca tinha pensado nisto? Aconteceu-me recentemente ao ler Não serei eu mulher?, de Bell Hooks, e agora mesmo com Memórias da Plantação: Episódios do Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba. E se eu, que me interesso por estes assuntos, do feminismo e do racismo, nunca tinha pensado em algumas das coisas que elas ali escrevem, imaginem todas aquelas pessoas que vivem felizes e contentes a achar que vivemos numa sociedade muito igualitária e justa, onde todos são tratados de forma igual e têm as mesmas oportunidades, aqueles que dizem que o colonialismo português foi suave e que não há racismo em Portugal, entre outras narrativas apaziguadoras. Memórias da Plantação pôs-me a pensar nos nossos pequenos actos e também nas palavras que usamos. As palavras são importantes, isso eu já sabia. As palavras são ideologia e são poder, isso eu também já sabia. Mas nunca tinha pensado verdadeiramente em como as palavras podem ser violentas para muitas pessoas. Não tinha considerado como deve ser a dimensão desta violência.

Agora que já sei o que posso fazer com este conhecimento? Mudar algumas das minhas atitudes e das minhas palavras, obviamente. E, além disso, tenciono fazer aquilo que sei fazer melhor: não ficar calada. O que me faz ter muitas discussões com as pessoas que estão à minha volta e que insistem em dizer barbaridades, mas, pronto, assim como assim já tenho a fama de ter mau feitio mais vale usá-la para algo importante como fazer com que este mundo seja um bocadinho melhor.

A propósito:

Aproveitem para ir ver Três Rostos, o filme de Jafar Panahi, sobre a condição das mulheres no Irão. Só para nos lembrarmos que, apesar deste país imperfeito que temos, vivemos num local muito privilegiado a todos os níveis.

E votar.  Já foram votar? 

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publicado às 13:08

 

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O novo disco dos The National, I am Easy to Find, vem acompanhado de um filme de 26 minutos que o realizador Mike Mills* fez com a Alicia Vikander, e que é uma espécie de enorme e belo videoclipe que nos põe a pensar nos caminhos por onde a vida nos leva, daquilo que somos, passando por aquilo que sonhamos até chegarmos àquilo em que nos tornamos.

Eu vi primeiro o filme e agora estou a trabalhar e a ouvir o disco, sem conseguir dar-lhe a atenção necessária mas a achar tudo muito bonito. 

 

(* que fez, por exemplo, Mulheres do Século XX - e o tanto que eu tinha a dizer sobre este post que escrevi há dois anos e parece que foi há uma década e agora já penso de maneira tão diferente, mas fica para outra ocasião)

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publicado às 10:59

"You can’t have a couple not talking to each other for 24 hours then expect to have good sex. It doesn’t work. Part of a good relationship is a good conversation. “How was your day today?” “Do you have any issues?” “Did you call your mother-in-law?”"

A dra. Ruth concorda comigo. Conversar. É tão importante conversar. E só depois, então, o resto.

Nesta entrevista no The New York Times, descobri que estreou esta semana nos EUA o documentário Ask dr. Ruth, sobre esta pequena-grande mulher que é a terapeuta sexual Ruth Westhmeier:

E também descobri esta canção que, concorde-se ou não com a mensagem, é bem divertida. Chama-se I'm gonna wash that man right outa my hair e fazia parte do musical South Pacific, aqui na versão do filme de 1958:

"If the man don't understand you
If you fly on separate beams
Waste no time, make a change
Ride that man right off your range
Rub him out of the roll call
And drum him out of your dreams"

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publicado às 16:36

30
Abr19

Ok

"I'm just a fucked up girl looking for my own peace of mind"

 

Jim Carrey e Kate Winslet em Eternal Sunshine of the Spotless Mind

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publicado às 17:46

1. Roma

2. BlacKkKlansman

3. Vice

4. The Favourite

5. Green Book

6. A Star is Born

7. Bohemian Rhapsody

8. Black Panther

Com um sprint final, esta tarde e em modo ilegal (mas foi o único), este ano consegui ver os oito filmes nomeados na categoria principal. Não tenho qualquer dúvida de que Roma é o meu filme preferido e que Black Panther foi, como é óbvio, aquele de que menos gostei (ou não fosse eu uma pessoa pouco dada a fantasias e super-heróis). Ali pelo meio, a ordem não é rígida. O Bohemian Rhapsody não me tocou e olhem que eu até gosto de biopics. Fiquei agradavelmente surpreendida com A Star Is Born, com a realização do Bradley Cooper e com a interpretação da Lady Gaga, mas a historiazinha é tão cheia de clichés e aquele final é tão lamechas que não se aguenta. O Green Book tem duas óptimas interpretações (Viggo Mortensen e Mahershala Ali) e até saí do cinema feliz mas à medida que me fui distanciando da história senti que era apenas um filmezinho agradável. Gostei muito do The Favourite e elas são as três excelentes (Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz) - se o tivesse visto noutro dia e noutras circunstâncias talvez tivesse ficado rendida, hoje tive dificuldade em relacionar-me com as personagens que me pareceram demasiado caricaturais. O Vice foi uma surpresa, não estava nada à espera que fosse tão divertido. E, sim, é muito engajado e temos que dar o desconto. Mas eu gosto muito daquela aliança entre filme-denúncia e paródia de si mesmo - que é algo que o Spike Lee também tem. BlacKkKlansman é um grande filme. Mas não tão grande quanto Roma. Acho mesmo que Roma é um daqueles filmes que vai ficar para a história do cinema. Pelo menos, na minha história do cinema vai.

E agora vamos dormir que já são horas e eu já não tenho (na verdade, nunca tive) idade para ficar acordada até de madrugada só para saber quem leva estatuetas para casa.

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Só para terminar, uma fala de A Favorita que me ficou na cabeça:

"I don't lie. That's love."

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publicado às 23:03


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