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São apenas 12 minutos e quanto menos souberem sobre a história melhor. If anything happens I love you é um filme de animação escrito e realizado por Michael Govier and Will McCormack. A mim fez-me chorar. 

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publicado às 10:36

22
Nov20

Sophia, a Loren

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Vi a quarta temporada de The Crown em poucos dias e não achei nada de especial. Nem a Thatcher de Gillian Andersen nem a Diana de Emma Corrin, actrizes demasiado preocupadas em compor bonecos, me cativaram. Nem as tricas dos palácios e dos amantes. Os melhores episódios da série, para mim, são sempre aqueles em que a história acontece - o acidente nas minas, por exemplo, os dilemas do Churchill, o espião russo, a viagem à Lua. E, claro, todos os detalhes da reconstituição histórica, os cenários, as roupas, as músicas, os ambientes, seja uma caçada lamacenta ou um baile de gala, tudo isso é fascinante, mais ainda porque a série é muito bem feita, muito bem filmada e editada. Mas não consigo imaginar com que tretas vão encher mais duas temporadas. Que pena.

Depois, este fim-de-semana confinei com um bolo de chocolate delicioso, as agulhas de tricot a todo o vapor e o novo filme de Sophia Loren, The Life Ahead, realizado pelo filho, Edoardo Ponti. É um filme competente, talvez um pouco lamechas, admito, mas que nos fala de uma realidade actual, de uma Itália porto de abrigo de imigrantes vindos de África, local onde se juntam línguas e religiões diferentes, refugiados de muitas guerras e de muitos tempos. Ibrahima Gueye é o excelente actor que interpreta Momo, um rapaz de 12 anos, vindo do Senegal, que perdeu toda a sua família, e Sophia Loren é Madame Rosa, uma antiga prostituta que ajuda outras prostitutas recebendo os filhos delas em sua casa. Sophia Loren tem 86 anos e continua a olhar-nos com os seus olhos vibrantes, para lá das rugas, das peles caídas, dos movimentos lentos. Tão linda.

Não vou contar pormenores mas vou dizer-vos isto: uma das melhores cenas é aquela em que madame Rosa e a amiga transexual Lola (a atriz Abril Zamora) dançam ao som de Elza Soares. Puro deleite.

publicado às 19:30

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No fim-de-semana, apanhei num TVCine o filme Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, com música de Duke Ellington. James Stewart interpreta um advogado que aceita defender um homem (Ben Gazzara) que cometeu um assassínio: matou o violador da sua mulher (Lee Remick). O filme, de 1959, passa-se em grande parte no tribunal. E se é verdade que tem bastantes pormenores morais que nos fazem sorrir de tão antiquados (pode-se falar de cuecas em tribunal?), não deixa de ser triste perceber que ainda hoje, em 2020, poderíamos ouvir alguns daqueles comentários: afinal a mulher, lindíssima, não terá tido um pouco de culpa da violação uma vez que se veste de forma provocante e sai sozinha à noite?  Ah, pois.

Entretanto, descobri o trailer e vale a pena por si só:

E, já que estamos a falar de tribunais, também vi, na Netflix, The Trial of the Chicago 7, o filme de Aaron Sorkin que recorda o julgamento de sete líderes de protestos juvenis contra a guerra do Vietname que foram acusados de conspiração e de dar início aos motins que ocorreram nas ruas de Chicago durante a Convenção Democrática de 1968. Tem Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Frank Langella, Sacha Baron Cohen,  Michael Keaton e outros. Este é o típico de filme de tribunal, com pouca acção e mesmo essa acontece em flashback. Mas tem muito ritmo, os diálogos são óptimos e faz-nos rir, apesar de a situação não ser propriamente divertida. O juiz parece começar o julgamento com a decisão já tomada e a acusação (leia-se o governo) está disposta a tudo, incluindo cometer algumas ilegalidades, para garantir a condenação destes jovens esquerdalhos e incómodos.

É um belo retrato da justiça americana que, quer-me parecer, também não há de estar muito desactualizado (afinal, hoje é aquele "dia histórico" em que Amy Barrett chegou ao Supremo Tribunal para defender a ilegalização do aborto e do casamento homossexual...).

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publicado às 15:45

23
Out20

"Listen"

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É um aperto no coração, aviso já, sobretudo para quem tem filhos. E ainda mais porque, infelizmente, sabemos que histórias como esta, de portugueses a quem a Segurança Social britânica retira os filhos, acontecem realmente. Ali é tudo muito real. Aqueles pais imperfeitos, que amam os filhos e fazem o que lhes parece melhor, enfrentando problemas, claro, cometendo erros, claro, como todos nós, mas sempre a tentar fazer o melhor para a sua família. Aquela casa, aqueles espaços, aquelas roupas, aquelas pessoas, aquelas lágrimas, aqueles diálogos, aqueles silêncios, aquele sofrimento, sim, é tudo muito real. Eu gosto disso.

Listen, o filme premiado em Veneza de Ana Rocha de Sousa, com interpretações de Lúcia Moniz e Ruben Garcia, passa-se no Reino Unido e é falado em português, em inglês e em Língua Gestual mas é um filme português, não tenham dúvidas disso. E, se tiverem, vão vê-lo e tirem as vossas próprias conclusões. 

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publicado às 10:21

07
Out20

Sempre o diabo

Vi, por estes dias, Sempre o Diabo, de Antonio Campos, um filme baseado no livro The Devil All the Time, de Donald Ray Pollock (que dá voz ao narrador), que nos transporta para a América profunda nos anos 1945-1965: sobre os perigos do fanatismo religioso e de como a violência está sempre latente e pode surgir a qualquer momento. 

Como não costumo ver filmes de super-heróis, acho que não conhecia este Tom Holland.

Gostei bastante deste filme. Foi uma boa surpresa.

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publicado às 13:52

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Esta ilustração linda é do André Carrilho e foi publicada no DN do sábado passado (espero que ele não se importe que eu a publique aqui).

Eu sei que não sou velhinha de bengala mas já tantas vezes, ao passear pela rua, olhei para os pares de namorados aos beijos nos bancos de jardim, aquela urgência que só tem quem está perdidamente apaixonado, como se os beijos não pudessem esperar, como se tivéssemos que estar juntos, juntos, pele com pele, o máximo possível, como se nada mais à volta importasse, como se nada mais existisse, e eu, passando, olhando para eles e a pensar para mim: lembras-te como era?

Lembro-me bem.

E agora? Irá acontecer-me outra vez?

A acompanhar aquela ilustração, a Fernanda Câncio escreveu um texto muito bonito sobre isto do amor depois de uma certa idade. Ela escolheu os 60 anos. Ainda me falta um bocadinho, é verdade. Mas não consigo evitar sentir-me um pouco retratada. Um dos seus entrevistados diz, a certa altura: "Para mim o desejo está na paixão, e o amor tem sempre de resultar da paixão. Levei a vida a perceber essa coisa que vinha já de Platão e que só a partir do século XX desaparece - que não há um lado animal e racional, e que as coisas estão misturadas em nós. Que a pessoa amada é real, a pessoa que amamos por coisas tão pequeninas como um cheiro ou uma forma de andar. O que é sentir esse amor - não sei responder muito bem, não. É como se os corpos se equivalessem. É um amor de pequeninas coisas quotidianas, de vontade de anichar, de andar de mão dada, de dormir abraçada". 

Outro diz: "Nos últimos dez anos não tive nenhuma paixão. Tive sexo ocasional, tive enfatuações - que é uma palavra que vem do inglês infatuation [neste caso podendo traduzir-se por arroubo, encantamento], que não existe em português mas faz falta, porque não foram paixões." E acrescenta: "A paixão é uma coisa que ocupa muito espaço e tem um potencial de sofrimento imenso. Não sei se quero passar por isso outra vez."

Mas eu ainda acho que quero passar por isso outra vez.

Gostava muito, confesso, gostava muito de encontrar alguém com quem envelhecer. Tranquilamente. Mas feliz e acompanhada.

Quando José Saramago conheceu Pilar, ela tinha 36 anos, ele 64. Ao ver o filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, e vendo-os tão apaixonados, fiquei animada: é possível, ainda há esperança. 

Admito que à medida que o tempo passa essa esperança vai perdendo fôlego. Parece cada vez mais difícil voltar a apaixonar-me e ainda mais difícil que, apaixonando-me, consiga ter uma relação feliz com alguém (porque uma coisa não leva necessariamente à outra, infelizmente). 

Ainda não desisti. Não é que ande por aí à procura, não é isso que me move, mas não desisti. E sempre que vejo uma hipótese - por muito vaga que seja - não consigo virar-lhe as costas. É assim que sou. Hei de acreditar e tentar e entregar-me e aproveitar todos os momentos bons que houver para aproveitar e depois desiludir-me, espalhar-me ao comprido e sofrer. E hei de repetir tudo de novo se acreditar que vale a pena. E acredito algumas vezes. Sim, o potencial de sofrimento é enorme. Mas...e se? 

Em Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino, o pai diz a Elio que a vida é para ser sentida, que de outra maneira não faz sentido: "Os nossos corações e os nossos corpos são-nos dados só uma vez. E antes que dês conta disso, o teu coração está gasto. Quanto ao teu corpo, chega um dia em que ninguém olha para ele, quanto mais chegar-lhe perto".

Quanto ao corpo, é o que é. Mas haverá alguma maneira de evitar que o nosso coração fique gasto?

Mistery of Love, de Sufjan Stevens

 

(uma coincidência de que só me apercebi agora: hoje é 6 de outubro.)

publicado às 11:05

A liberdade é uma luta constante é o título do livro da Angela Davis que ando a ler agora. São entrevistas e pequenos ensaios sobre o feminismo, a democracia, as desigualdades e como combatê-las. Nada de muito profundo, mas bom para nos lembrarmos do muito que ainda nos falta lutar. Às vezes, estamos tão entretidos nas nossas vidinhas que nos esquecemos.

Nem de propósito:

Esta semana tive o privilégio de conversar com uma pessoa muito bonita: a Teresa Coutinho, que é uma mulher corajosa e talentosa.

E, no fim-de-semana, por entre a limpeza da casa (desta vez, incluiu janelas e frigorífico), duas pilhas de roupa para passar (ainda não acabei) e uma incursão ao supermercado, consegui ver o documentário Women, de Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova, que passou na RTP2 (foi na quinta-feira, ainda o apanham na box), com testemunhos de mulheres do mundo inteiro sobre o que é isto de ser mulher. Muito bonito às vezes, muito triste noutras.

E, para além disto tudo, deu para estar com algumas das minhas amigas. Sim, sim, temos que aprender a estar sozinhos e blá blá blá mas nada se compara à felicidade de estar com aqueles de quem gostamos.

E rir.

Rir da vida para que a vida não se fique a rir de nós. 

publicado às 16:46

Várias pessoas têm comentado a nossa "peculiar" (chamemos-lhe assim) selecção cinematográfica durante a quarentena. Na verdade, embora não pareça, isto tudo nasce de um daqueles típicos sentimentos de culpa de mãe. Como os putos passam o dia inteiro entregues à playstation e ao telemóvel, eu instituí uma regra que é: depois de jantar não há jogos para ninguém e vemos televisão juntos - o que, não sendo bom (eu sei, eu sei), sempre dá para variar um bocadinho. Esta regra é sobretudo para o Pedro, que é mais novo, e por isso é ele que escolhe os filmes, de entre os que estão disponíveis nos muitos canais que temos. É por isso que um dia sai um filme de animação e noutro uma xaropada de tiros. O António fica ali no sofá a ver cenas no telemóvel e se o filme lhe interessar acaba por se juntar a nós. E eu, que bem preferia estar a ver alguma coisa melhor, lá tenho que gramar o Robocob e o Segurança do Shopping, sem pegar no telefone (é a regra, só nos intervalos) e fazendo comentários e tal que é para fazer disto uma "actividade em família". Isto, se não adormecer pelo meio, claro.

Claro que eu podia escolher uns filmes melhores mas... não me apetece. A vida já está tão complicada como está. Quando aterro no sofá só quero mesmo não pensar em nada.

Agora a sério, os filmes têm sido péssimos mas até têm sido uns serões bem fixes.

publicado às 09:59

(Spoiler alert: se não viram o Jojo Rabbit não vejam este post. E vão ver o filme que vale muito a pena)

 

 

O que vais fazer quando isto terminar e puderes, finalmente, sair de casa?
Tanta coisa. Mas seguramente isto: dançar.

publicado às 09:34

No outro dia fomos ao cinema ver o 1917. Eu e os meus dois filhos.

É engraçado. Para o António ir ao cinema não é sequer uma hipótese de programa com os amigos. Os amigos servem para jogar à bola ou playstation ou para ficarem horas a fio na conversa, a dizer parvoíces e a deambular por aí. Ir ao cinema? Eles estão habituados a ver os filmes e as séries nos telemóveis (ou, na melhor das hipóteses, no computador), com phones nos ouvidos, sozinhos. É uma experiência completamente diferente da que eu tive, quando ir ao cinema ao sábado à noite era não só a única maneira de ver algum filme como era também a única coisa que havia para fazer com os meus amigos. Já para estes miúdos, ir ao cinema é um desperdício de tempo útil com os amigos (certamente porque ainda não descobriram as maravilhas do "escurinho do cinema") e um desperdício de dinheiro. Uma pessoa argumenta com a qualidade da imagem e do som mas não é fácil. Talvez tenham de crescer mais um pouco.

De maneiras que, por agora, parece que ir ao cinema é um programa com a mãe. Uma coisa de cota. Que seja. Não me parece mal se isto se tornar "a nossa coisa em conjunto". Apesar de cada vez ver mais filmes em casa (é inevitável) eu gosto muito de ir ao cinema. E mal posso esperar pelo momento em que poderei ir com eles ver todos os filmes. Neste momento estamos numa fase complicada. O António já poderia ver tudo mas o Pedro ainda só tem 11 anos -  ele é um valente e não protesta nem mesmo quando numa das nossas noites de cinema em casa vemos o Platoon e ele não percebe grande parte do que se passa. Mas, ainda assim, não convém exagerar. Gostou do 1917, não se queixou nem se aborreceu, mas pediu para da próxima vez irmos ver um filme "de acção". É justo.

Isto tudo é só um pretexto para dizer que o meu filho mais velho fez 16 anos. Ele não gosta de tirar fotografias e mesmo quando me deixa fotografá-lo não me deixa partilhar as fotos. E também não gosta muito que eu escreva sobre ele. Tenho que respeitar. Por isso só posso dizer-vos isto: o meu filho fez 16 anos e tem sido o maior desafio da minha vida. Em bom e em mau. Aliás, isto de ser mãe sozinha de dois rapazes tem sido uma aventura e pêras, uma daquelas coisas que só quem passa por elas é que pode entender. Um dia, quando isto tudo passar, talvez vos conte. 

Por agora fiquem a saber que fomos ao cinema os três ver um filme de adultos. Não foi a Velocidade Furiosa nem o Homem Aranha. Foi um filme de crescidos, escolhido por mim. E isso, parecendo tão pouco, deixa-me muito feliz. São assim, tontas, as mães.

publicado às 16:29


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