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Andei a evitar Pobres Criaturas, de Yorgos Lanthimos. Há sempre um filme assim, daqueles que toda a gente gosta e que eu, só pelo que vou vendo aqui e ali, já sei que não será o meu pedaço de bolo. Confirmou-se. O ponto de partida até é interessante: o filme pergunta-nos o que é a liberdade, a liberdade plena, e se alguma vez conseguimos ser verdadeiramente livres; e faz-nos ter consciência de como a sociedade nos forma, enforma e deforma de mil maneiras - sobretudo se formos mulheres.

Bella Baxter é uma criança num corpo de mulher. E, no início do filme, é completamente livre. À medida que cresce, que vai aprendendo coisas, descobre o mundo e toma consciência de si e dos outros, a sua liberdade fica diminuída. Mas ela luta contra isso com unhas e dentes. É, segundo algumas opiniões, um modelo feminista. Afinal, estamos todas, nós, mulheres, nessa batalha por conseguirmos sermos quem somos sem ligar ao que nos rodeia e sabemos bem como é um objectivo difícil de alcançar.

A interpretação de Emma Stone é, de facto, bastante boa. 

O momento em que se ouve Carminho a cantar o fado O Quarto é realmente bonito -  e é a primeira vez em que Bella parece sentir alguma emoção.

Dito isto, não tenho paciência. Nem para cientistas dispostos a encontrar a essência do humano (por muito que adore o Willem Dafoe), nem para filosofias da treta sobre homens e mulheres (por muito que um desses homens seja o Mark Ruffalo), nem para cidades e tempos imaginários, nem para mundos visualmente maravilhosos mas absolutamente artificiais, nem sequer para as infindáveis cenas de sexo - vai sempre tudo dar ao sexo, não é? a verdadeira liberdade é a liberdade de fornicar com quem se quer e como se quer? a prostituição - e a submissão ao desejo dos homens - é um caminho para o auto-conhecimento? vamos ignorar o facto de a madame (que diz umas frases tão "profundas" que até foram escolhidas para o trailer) explorar as raparigas que passam dificuldades? E o facto de o filme terminar com uma vingança maldosa de Bella sobre o homem que a tratou mal (à la Barbie) também não me parece lá grande coisa feminista. 

Valham-nos os pastéis de nata, mas com moderação. Nada a ver com etiqueta, é só mesmo para evitar as dores de barriga.

publicado às 12:23

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Interrompo esta série de publicações sobre filmes oscarizáveis para vos falar de Baan, o filme de Leonor Teles. Confesso que não ia com muitas expectativas, mas acabou por ser uma agradável surpresa. A protagonista, Carolina Miragaia [uma revelação], encarna toda a inocência, as incertezas e as angústias mas também as esperanças de uma jovem adulta, em Lisboa, no seu dia-a-dia entre trabalho, casa, amigos, e que, tal como outras pessoas da sua geração, está em busca de um sítio  - e um sítio pode ser uma pessoa ou pode ser só um sentimento - a que possa chamar casa. Também há uma história de amor e uma ligação a Bangkok ("baan" quer dizer casa em tailandês). E não sendo perfeito é muito bonito.

Baan está no cinema. Vão que não se vão arrepender.

Como bónus, saímos do cinema a trautear esta música:

 

Owner of a Lonely Heart, dos Yes (1983)

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publicado às 14:43

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Um professor pouco popular (falhado seria uma expressão mais correcta), um jovem complicado e a responsável da cantina são os únicos que permanecem num colégio interno na Nova Inglaterra, EUA, durante as férias de natal e, por isso, são forçados a conviver durante duas semanas. Podia ser um filme de natal, e até é em alguns momentos. Mas é sobretudo um olhar sobre as diferentes solidões e a necessidade que tomos temos de amar e ser amados, mesmo quando insistimos em usar carapaças e fingir que estamos bem sozinhos. É um dos meus filmes preferidos da temporada: The Holdovers - Os Excluídos, de Alexander Payne. É um filme aparentemente tão simples, acontecem poucas coisas, vive muito das personagens - e das excelentes interpretações do grande Paul Giamatti, de Da’Vine Joy Randolph e Dominic Sessa - e de como elas se vão revelando em gestos e diálogos mais melancólicos ou cómicos ou sentimentais. The Holdovers navega sempre ali entre o bitter-sweet, ora puxando à lágrima, ora fazendo-nos rir. A acção passa-se nos anos 70 e todo o filme respira o ambiente, a música e o cinema dos anos 70, o que também é algo de que gostei muito. E no final aprendemos que a vida tem mesmo de seguir em frente, é melhor ganhar coragem, ultrapassar os nossos falhanços e sair de baixo da tal carapaça. Ou como diria o professor Paul Hunham: atravessar o Rubicão.

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publicado às 18:03

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Um homem cai do telhado de casa e morre. Pode ter sido um acidente. Pode ter sido suicídio. Pode ter sido homicídio. Os olhos voltam-se para a mulher que após uma investigação é acusada do crime. 

Este é o ponto de partida de Anatomia de uma Queda, de Justine Triet. O título é claramente inspirado na Anatomia de um Crime, de Preminger. Mas não só. Em ambos, o alegado comportamento imoral da mulher é invocado para demonstrar a sua culpabilidade. Afinal, uma mulher que flirta com outras mulheres e que é capaz de trair o marido não pode ser inocente, pois não?

Em tribunal, acusação e defesa vão dissecar a vida e a relação de Sandra (interpretação de Sandra Hüller) e de Samuel (Samuel Maleski) em busca de motivos e de desculpas. Há um filho, Daniel, quase cego devido a um acidente. Há culpa e ressentimento. Há inveja entre os dois, que são escritores. Egos feridos. Uma acusação de plágio. Há ciúmes. E problemas financeiros. Há discussões. Exposta assim, perante a juiza, a situação de Sandra não é muito bonita. Mas, convenhamos, que casamento sobreviveria a tamanho escrutínio? Se fôssemos dissecar tudo o que dizemos na intimidade, retirando-lhe o contexto e as nuances que fazem as relações entre as pessoas, de certeza que pareceríamos todos suspeitos. De perto, todas as famílias são infelizes, não é? Os casais discutem, isso não quer dizer que se matem. Um casamento pode fazer sentido mesmo quando já não há paixão. E, no entanto, quando se tenta explicar isso num tribunal parece bastante inverosímil. É esse mergulho na intimidade - na deles, mas podia ser na nossa - que torna o filme tão cativante. 

Culpada ou inocente? A dúvida atravessa todo o filme e não sou eu que vos vou dar a resposta.

Caso não tenham reparado, Sandra Hüller, actriz de Zona de Interesse, é a mesma que protagoniza Anatomia de uma Queda. Vi os dois filmes sem me aperceber deste facto, o que diz muito sobre as excelentes interpretações dela - ou sobre a minha cabeça distraída. 

Ainda sobre o meu alheamento: na cena inicial do filme, Sandra está a dar uma entrevista a uma jornalista, na sala de casa, quando o marido põe a tocar uma música, no primeiro andar, num volume exageradamente alto. A música é tão incomodativa que a entrevista tem de ser interrompida. Trata-se de uma versão instrumental do tema "P.I.M.P.", do rapper 50 cent, interpretada pelo grupo funk alemão Bacao Rhythm & Steel Band. Aparentemente é uma canção muito conhecida e com um significado misógino, o que tem a sua importância no filme. Como eu não conheço nada de rap nem de 50 Cent esta mensagem passou-me completamente ao lado - mas acho que não prejudicou o meu entendimento da história.

Outro fait divers interessante: o argumento foi escrito por Justine Triet em parceria com o marido, o também argumentista Arthur Harari, que caíram no erro de dizer que se inspiraram em parte na sua própria vida. Agora todos lhes perguntam se o seu casamento está em crise.

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publicado às 17:43

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Depois de construírem o campo de concentração de Auschwitz, perto de Cracóvia, na Polónia, em 1941 os alemães expulsaram os habitantes da região e estabeleceram uma área de segurança de cerca de 40 quilómetros quadrados em redor do campo - essa era a "zona de interesse".

O filme Zona de Interesse, de Jonathan Glazer, mostra a vida de Rudolf Höss, o oficial nazi responsável por Auschwitz, que morava com a sua família numa pequena moradia paredes-meias com o campo de concentração. De um lado do muro, mais de um milhão de judeus (e não só) foram mortos, gaseados, baleados, queimados. Do outro lado do muro, vivia uma família feliz. 

O filme centra-se no dia-a-dia da família de Rudolf (o actor Christian Friedel) e Hedwig (Sandra Hüller). As pequenas coisas de todos nós. As refeições, as botas sujas, as brincadeiras das crianças, o bebé que não pára de chorar, os planos para as férias, os aniversários, a horta onde plantam os legumes. A vida decorre normalmente. "Todos os desejos que a minha esposa ou os meus filhos expressavam eram-lhes concedidos", escreveu Rudolf Höss na sua autobiografia. "O jardim da minha esposa era um paraíso de flores." Os filhos do casal brincavam na piscina do quintal ou nadavam no rio. As crianças recebiam amigos e gargalhavam, enquanto no escritório o patriarca Höss discutia os métodos mais eficazes para aumentar a capacidade dos fornos crematórios. 

A câmara de Glazer nunca entra no campo de concentração (nem precisa, todos conhecemos as imagens e elas não saem da nossa cabeça ao longo de todo o filme). Mas Auschwitz está sempre presente. A família apanha sol no jardim e ao longe vê-se o fumo negro que sai das chaminés - permanentemente. Os ruídos que chegam do campo também são constantes mas mais presentes no silêncio da noite: vagões nos carris, cães que ladram, gritos de polícias zangados, tiros disparados, gritos de angústia, o funcionamento dos fornos. Do campo vêm também vestidos, casacos de pele e outras peças de roupa que pertenceram aos prisioneiros. Vêm os pequenos homens que cuidam do jardim, de cabeça baixa. Vêm as cinzas para alimentar a terra. As prisioneiras são boas empregadas e até boas amantes, pelo menos até que alguém se irrite com elas e as condene à morte.

A mãe de Hedwig, que vem de visita e se deslumbra com a casa bonita e a boa vida da filha, acaba por não suportar passar os dias ao lado de uma máquina de extermínio. É a única personagem em que pressentimos algum desconforto com a situação.

Já na sala de cinema o desconforto era óbvio. Penso que é inevitável perguntarmo-nos o que teríamos nós feito se fôssemos alemães naquela altura. Teríamos entrado no sistema, normalizando as mortes, ignorando a violência, olhando para o lado e prosseguido com a nossa vidinha como se não fosse nada connosco? 

Porém, não tenho a certeza se todos os que vêem o filme e saem escandalizados conseguem fazer a transição para o presente e pensar nos muitos horrores - pequenos e grandes - que acontecem à nossa volta e questionar o nosso papel nisto tudo. O conformismo. Também nós, todos os dias, insistimos em não ver a tristeza e as injustiças que ficam do outro lado do muro do nosso privilégio. Olhamos para o lado ao passar pelos sem-abrigo nas ruas de Lisboa. Passamos para o canal seguinte se nos deparamos com imagens de uma guerra, seja em Gaza ou num outro sítio qualquer. Não é connosco, não podemos fazer nada, justificamo-nos. Além disso, não é a mesma coisa, aquilo era o Holocausto, dirão. Mas, no fundo, não é assim tão diferente, pois não? Somos cúmplices. Porque é mais simples. Porque nos facilita a vida. Porque também queremos ter o nosso casaco de peles ou os nossos ténis de marca, mesmo que saibamos que foram fabricados por trabalhadores quase escravos em condições miseráveis.

Em 2002, tive oportunidade de visitar os dois campos de concentração de Auschwitz. Toda a gente deveria poder ir lá. Contar as chaminés. Percorrer os passos dos prisioneiros. Entrar nas antecâmaras dos fornos. Pressentir o horror. Parar em frente dos montes de malas, de sapatos, de tranças de cabelo, de óculos deixados pelos prisioneiros. Enfrentar os seus rostos. Reflectir nisto tudo, no que somos, no que andamos aqui a fazer.

Sobre o filme, que é bastante mais complexo do que isto que eu aqui escrevi, há vários textos e críticas boas e más, como convém aos objectos que não são lineares.

Aconselho:

O texto “Peço ao meu marido para espalhar as tuas cinzas no rio!” – a História e A Zona de Interesse de Irene Flunser Pimentel; 

O texto de Jorge Mourinha, que falou com o realizador Jonathan Glazer.

A crítica de Bernardo Vaz de Castro no À Pala de Walsh

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Rudolf e Hedwig Höss e os seus cinco filhos

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publicado às 12:45

Lost in Translation, de Sofia Coppola, com Bill Murray e Scarlett Johansson

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publicado às 12:24

09
Fev24

What if?

De cada vez que vejo As Pontes de Madison County, com o Clint Eastwood e a Meryl Streep, é inevitável colocar a pergunta: o que faria eu? ficava ou partia? abria a porta do carro ou não?

Não me lembro, mas imagino que da primeira vez que o vi, numa girls night na Ericeira, quando estávamos ainda na faculdade, por entre as lágrimas que me caíam pela cara, tenha pensado que ela estava a ser burra e que devia mais era seguir o seu coração e correr atrás daquela paixão.

Entretanto, a vida dá muitas voltas, não é? Hoje, percebo perfeitamente quem não arrisca a sua vidinha - ainda que com muita rotina e com poucos arrebatamentos - por causa de uma paixão que até pode ser espectacular mas que, sobretudo, é fugaz e incerta. Não me interpretem mal. Sou toda a favor de acabarmos com relações que nos fazem mal. E de corrermos atrás dos nossos sonhos. Mas também é preciso ter consciência que, às vezes, essas coisas que acontecem e que são maravilhosas só são assim tão boas porque são finitas. É o seu super-poder. Não estou a dizer para serem infelizes e para aguentarem uma pessoa que vos trata mal, não é nada disso. Mas ficar numa relação confiável e confortável, sobretudo quando se tem filhos, pode mesmo ser, em alguns casos, a melhor opção. 

Vem esta lenga-lenga toda a propósito do filme Vidas Passadas, de Celine Song. 

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A história começa em Seul, com um rapaz e uma rapariga que são os melhores amigos. Entretanto, a família de Nora decide emigrar e eles nunca mais falam. Um dia, muito mais tarde, já jovens adultos, graças ao facebook, voltam a conversar. Muitas mensagens, muitas conversas telefónicas. Cresce neles uma enorme vontade de se encontrarem. Inevitavelmente, começam a fantasiar uma relação que não é real. E, por isso mesmo, percebem que é melhor interrompê-la. Novo salto no tempo. Anos mais tarde, Hae Sung, que nunca conseguiu ser verdadeiramente feliz porque viveu sempre preso a um sonho por concretizar, vai visitar Nora a Nova Iorque. Ela é casada, está bem, mas aceita encontrar-se com o seu antigo amigo. E aquele encontro, dois ou três dias apenas, acaba por trazer muitas inseguranças e muitas perguntas. E se se tivessem encontrado mais cedo? E se tivessem ficado juntos? E se ficarem juntos agora? Seria possível?

Existem depois outras questões - sobre emigração e sobre identidade. Sobretudo no caso de Nora, que se pergunta quanto dela é sul-coreana, quanto será já americana, e qual a importância disso. Mas no essencial este é um filme sobre o amor, sobre desejos por cumprir, sobre as relações que idealizamos e as relações que vivemos, e sobre as escolhas que fazemos, em cada momento, e que acabam por ser determinantes. E é muito bonito.

Se calhar não tem nada a ver com As Pontes de Madison County, mas na minha cabeça, ao dia de hoje, é isto que me ocorre. Porque os filmes também são as circunstâncias em que os vemos.

publicado às 14:55

MV5BN2YwNGU4NjktMTU3Zi00ODc2LWJiMTktZmY0NzM4OTE1YTUma das coisas intrigantes em Folhas Caídas, de Aki Kaurismäki, é que se não fossem as notícias que se ouvem na rádio sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia poderíamos muito bem julgar que a acção se passa nos anos 90. Quer pelas roupas e penteados de Hansa (Alma Pöysti), Holappa (Jussi Vatanen) e das outras personagens, quer por tudo o resto - incluindo as músicas que se ouvem e os tons retro da imagem. Os telemóveis não são smartphones, os filmes que passam no cinema não são actuais, o bar de karaoke parece ter parado num tempo lá muito atrás, a vida de uma maneira geral parece estar imune a todas as correrias que marcam os nossos dias. Há uma contenção, que passa também pelos diálogos e pela interpretação. Nesta Helsínquia, onde há empregos precários e desemprego, alcoolismo, dificuldades financeiras, quartos alugados e muita solidão, um homem e uma mulher encontram-se e apaixonam-se quase sem falarem um com o outro. Os silêncios, no entanto, são atravessado por uma enorme ternura. O amor é improvável mas não deixa de ser amor. E isto é tudo muito bonito e comovente.

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publicado às 19:38

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Um homem vive sozinho numa pequena habitação em Tóquio, no Japão. Vive com pouco, mas não lhe chamaríamos pobre, antes ascético. Repete todos os dias os mesmos gestos. Faz a cama, lava os dentes, rega as plantas, tira um café da máquina à porta de casa, põe uma cassete a tocar no carro a caminho do trabalho, limpa meticulosamente as casas-de-banho públicas da cidade, pára para almoçar uma sandes no jardim enquanto observa as árvores, lê antes de adormecer, ao fim-de-semana sai de bicicleta, lava a roupa, come num e noutro pequenos restaurantes, sempre os mesmos, toma banho no balneário público, compra um livro para ler durante a semana. Fala pouco. Parece tranquilo. Até que a sua vida é interrompida pela visita-surpresa da sobrinha, uma jovem, que vai dormir na sua cama, acompanhá-lo ao trabalho, interromper-lhe os pensamentos, obrigá-lo a conversar e a desviar-se dos seus caminhos. 

Ouvi e li muitas críticas a Dias Perfeitos, de Wim Wenders, que apontavam o dedo, por exemplo, à forma higienizada/estetizada/ pouco realista como é mostrada a vida de alguém que limpa sanitários públicos. Também houve quem criticasse o olhar - naturalmente - ocidentalizado sobre a cultura e os costumes do Japão. Um olhar que nos mostra o exótico num modo de vida que, provavelmente, já só representa uma pequena parte da população do país. 

Entendo essas críticas. Ainda assim, gostei muito deste filme. É de uma enorme beleza (até os sanitários são bonitos), como se Wenders nos quisesse dizer isso mesmo, que há beleza em todo o lado, basta saber encontrá-la. Hirayama, interpretado pelo ator Koji Yakusho, encontra a felicidade nas coisas pequenas e isso dá-lhe uma enorme serenidade. Mesmo quando se irrita com o colega de trabalho ou quando lhe pressentimos a impaciência com a sobrinha. Os os ciúmes (não vou contar tudo, não é?). Não sabemos tudo sobre a sua história, mas algumas coisas podemos adivinhar. É um homem que escolheu a vida que tem e que encontrou a sua paz, sem precisar de grandes riquezas ou sequer de muitas pessoas, que quer ser deixado no seu canto (e por isso lembrei-me de outro filme). Que não se apoquenta com o futuro. Fica o seu bom conselho: "A próxima vez será a próxima vez, agora é agora".

Já vi este filme há algum tempo e agora, quando fui à procura do trailer, fiquei com vontade de vê-lo de novo. E a banda sonora também é escolhida a dedo.

[não tenho tido tempo para vir aqui contar, mas tenho visto tantos filmes bons, tantos, vou esforçar-me por escrever sobre eles nas próximas semanas]

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publicado às 21:16

Chorei copiosamente a ver o documentário 20 Dias em Mariupol, do jornalista Mstyslav Chernov, que retrata a saga da equipa de jornalistas da AP, os únicos jornalistas que ficaram na cidade de Mariupol nos primeiros dias da invasão russa e que se esforçaram para contar ao mundo o que ali se passava. Chorei pelas crianças que morreram, pelos pais em sofrimento, por todas as pessoas com medo. Pelos jornalistas que correram risco de vida. Pelos militares que salvaram os jornalistas porque perceberam a importância do que eles estavam a fazer. "Filmem isto, mostrem ao mundo o que nós estamos a passar", diziam-lhes os médicos. E se não fossem eles, se não fosse a sua coragem, como saberíamos?

 

Não chorei mas foi por pouco a ler Um Dia na Vida de Abed Salam, o angustiante livro de Nathan Thrall , jornalista norte-americano a viver há 12 anos em Jerusalém. O livro conta a história verdadeira de um acidente com um autocarro que, num dia de muita chuva, transportava crianças de uma escola palestiniana para um parque de diversões. Thrall ouviu as muitas versões daquela história. E foi ainda mais longe e quis saber as histórias das pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram ligadas a esse acidente. O pai que perdeu um filho, o condutor do autocarro, a professora que ia com as crianças, a médica que salvou vidas, o bombeiro que apagou o fogo, a enfermeira que não chegou a horas, o urbanista que planeou aquela estrada, o militar que a vigiava. Quase sem darmos por isso a história daquele acidente transforma-se na história da Palestina. 

Desde 7 de outubro, são pelo menos 79 os jornalistas e profissionais de órgãos de comunicação social, a maioria dos quais palestinianos, mortos na guerra entre Israel e o Hamas. Quem irá contar as histórias daquelas pessoas quando não houver mais jornalistas na Faixa de Gaza?

Vejo nas redes sociais muitos comentários de pessoas que desprezam os jornalistas e que dizem que o seu trabalho não serve para nada. Eu também sou muito crítica em relação ao jornalismo que fazemos. Sim, é verdade, há muito mau jornalismo por aí. Por isso é cada vez mais importante preservarmos o bom jornalismo. Fazermos escolhas acertadas. Reflectirmos todos sobre o que andamos aqui a fazer.  Fazermos o nosso trabalho o melhor possível. Porque, não tenhamos ilusões, o mundo será um lugar muito pior e muito mais escuro se (quando) não houver jornalistas. Quando estivermos exclusivamente à mercê de informações enviesadas, não verificadas, falsas, divulgadas sabe-se lá por quem e a servir sabe-se lá que interesses.

Esta semana realiza-se o 5º Congresso dos Jornalistas. Tenho vários mixed feelings sobre o que se passa nos media, não tenho qualquer espírito de classe e há muito tempo que não visto camisolas. Mas paguei a minha inscrição, talvez me apeteça passar por lá. E, por fim, peguei nas minhas dúvidas, fui perguntar a outros jornalistas o que é que eles achavam disto tudo e escrevi um artigo. É a minha singela participação para o debate.

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O jornalista da Al Jazeera Wael Dahdouh chora a morte do seu filho Hamza, que também trabalhava para a Al Jazeera e que foi morto num ataque aéreo israelita em Rafah, Faixa de Gaza, domingo, 7 de janeiro de 2024. Dahdouh já tinha perdido a sua esposa, outros dois filhos e um neto nesta guerra e ele próprio quase foi morto. (Foto AP/Hatem Ali)

publicado às 22:36


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