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Sorry, baby é um daqueles filmes onde, à superfície, parece que nada acontece. É só a vida pacata de uma jovem professora numa terrinha perdida da América, com o seu gato, um vizinho esquisito mas simpático, a amiga que entretanto mudou de cidade e casou mas continua a voltar para visitá-la. Mas, depois, Sorry, baby é muito mais do que isso. É um filme sobre uma violação. Sobre como ainda é difícil explicar aos outros o que se passou. Sobre a incompreensão. Sobre o desconforto das instituições que fingem que não vêem. É como se a agressão continuasse, mas de outra forma, uma e outra vez. É por isso que este é um filme sobre como lidar com o trauma. Sobre seguir em frente, ainda que doa. Ou entao fingir que se segue em frente quando, na verdade, não se consegue sair daquele lugar. Sobre as feridas que não saram. Sobre a amizade e como é importante ter quem nos vê como realmente somos e nos ouve e nos acolhe. Sobre isto de ser mulher. Sobre como continuamos a falhar às mulheres. Tudo isto contado sem pressas, com os diálogos reduzidos ao essencial e com a calma transmitida pela música original de Lia Ouyang Rusli.

A actriz Eva Victor, de 31 anos, estreia-se como argumentista e realizadora neste filme baseado na sua própria experiêcia e em que também é protagonista. E que boa estreia esta. 

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publicado às 22:24

Não é fácil meter a vida toda de uma pessoa qualquer num filme, quanto mais a vida de um artista. É por isso que muitos dos biopics acabam por ser filmes falhados, ficando-se quase só pela caricatura. Os melhores são aqueles que se focam num momento específico, num dilema, numa obra - como vimos no excelente filme sobre o Bob Dylan, de James Mangold. Não é só isso que faz um bom biopic, mas é já um começo de conversa. E é um bom começo de conversa para este Springsteen: Deliver me from nowhere, realizado pelo pouco conhecido Scott Cooper e protagonizado pelo mega-conhecido Jeremy Allen White (o actor de The Bear).

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Em vez de tentar abarcar toda a enorme carreira do The Boss, o filme fica-se pelos anos de 1981-82 quando Bruce Springsteen, depois de terminada a digressão The River Tour, se sente exausto e assoberbado pelo sucesso e decide regressar à sua terra, New Jersey, para compor aquele que viria a ser o seu álbum mais intimista, Nebraska. Sabemos entretanto, porque o músico o contou na sua autobiografia, que naquele período Bruce viveu momentos complicados de depressão, um problema com o qual tem lutado ao longo da vida. 

Li por aí que muita gente ficou desiludida com este filme. Eu gostei bastante. Em parte, talvez porque gosto do Bruce Springsteen e porque tenho vindo a aprender a gostar mais das suas músicas. Mas também porque me parece um filme bem feito, que conta bem a história que quer contar, com boas interpretações - embora não dê para ficar muito impressionada com o Jeremy Allen White porque afinal aquilo é mais ou menos uma versão do Carmy Berzatto, não é? 

Não é um filme que vá ficar para a história do cinema, está bem, mas é um bom filme. E pôs-me a ouvir o Nebraska. Só por isso já valeu a pena.

publicado às 10:52

A vida do realizador iraniano Jafar Panahi volta hoje ao banco dos réus, com a apreciação do recurso contra a sentença de um ano de prisão e dois anos de proibição de viajar, bem como a proibiçao de participar em grupos ou organizações políticas, que lhe foi aplicada a 1 de dezembro pelo Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerão por actividades de propaganda contra o regime - julgado à revelia, uma vez que Panahi se encontrava no estrangeiro. Mostafa Nili, que é também advogado da activista Narges Mohammad, Prémio Nobel da Paz, representa o cineasta. 

Jafar Panahi, actualmente com 65 anos, continua a viver e a trabalhar no Irão embora passe grande parte do seu tempo em França. Já tinha sido proibido de fazer filmes, no entanto, continuou a fazê-los, clandestinamente, e sempre, cada vez mais, políticos. Depois de Três Rostos e do incrível Ursos não há, no início de 2025 ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes com o filme Foi só um Acidente, mais uma vez realizado sem autorizações oficiais, sem apresentar o argumento à censura iraniana, sem o uso do hijab obrigatório para as actrizes.

"Sem autorização, teve de filmar Foi só Um Acidente em apenas 25 dias. A rapidez é decisiva para uma equipa não deixar rastos nem assentar arraiais", conta Vasco Câmara, que entrevistou Panahi aquando da sua passagem por Lisboa, em novembro. "Por isso também não havia cópias do argumento, a não ser de um argumento falso. Os técnicos não o tinham, o produtor também não. E os actores só recebiam as suas páginas na véspera. Era uma forma de os proteger a todos: se fossem apanhados e interrogados, não poderiam mentir. Por isso, ainda, a equipa tinha de ser reduzida, não mais de cinco, seis pessoas, para caberem todos em dois carros."

Desta vez, Panahi não interpreta. Mas a sua experiência e as suas memórias estão no centro deste filme.

Jafar Panahi foi detido pela primeira vez em 2010. Esteve três meses preso. Foi libertado, mas com uma pena de seis anos a cumprir em casa e a interdição de filmar durante 20 se ensaiasse gestos que confirmassem a reincidência em "propaganda anti-islâmica". Em regime de prisão domiciliária realizou Isto Não é Um Filme (2011). Proibido de sair do país, não pôde ir a Cannes, em 2018, receber o prémio de melhor argumento atribuído a 3 Rostos.

No verão de 2022 ficou detido quando se deslocou à prisão de Evin, em Teerão, para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad, que haviam denunciado a violência na repressão policial de manifestações populares. Não assistiu por isso à exibição de No Bears/Ursos Não Há em Veneza 2022, onde recebeu o Prémio Especial do Júri.  Esteve sete meses encarcerado, até que entrou em greve de fome: dois dias depois foi libertado sob caução.

É das suas experiências na prisão - e das experiências que outros lhe contaram - que nasce Foi só um Acidente. As detenções políticas, tantas vezes aleatórias, o modo como os presos são tratados, os interrogatórios, a humilhação, a tortura - estas são experiências marcantes, que permanecem com as pessoas mesmo depois de serem libertadas, que determinam a sua vida. Ninguém fica o mesmo depois de ser privado da sua liberdade e de ser torturado. O trauma é real. O medo pode ser paralisante. A ansiedade por tornar-se crónica. O desejo de vingança pode só estar a aguardar uma oportunidade para se concretizar.

No filme, um pequeno acidente de automóvel cria essa oportunidade. E em volta dela junta-se um grupo de pessoas a braços com o passado, a tentar perceber como vão seguir no futuro. Foi só um Acidente é tanto sobre um regime totalitário que oprime os seus cidadãos como sobre o lugar em que as pessoas - no Irão, em todo o lado - se colocam (ou escolhem colocar-se) nesse regime. Sobre como a prisão e a tortura inflingem feridas profundas e nem sempre visíveis no íntimo de cada indivíduo e como superá-las. Sobre a liberdade individual, a liberdade interior, a liberdade de pensamento, aquele reduto que, mesmo nas condições mais adversas, acreditamos que é possível manter. E sobre a importância da comunidade e de sabermos que não estamos sozinhos nesta batalha. Nas ditaduras o trauma é individual e é colectivo. E é isso tudo que nos mostra este filme que é ao mesmo tempo duríssimo e poético e até, por vezes, cómico.

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O filme foi fortemente criticado pelas autoridades iranianas, claro. Mas a França apresentou-o como candidato à categoria de Melhor Longa-Metragem Internacional nos Óscares. Foi só um Acidente está também nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme Dramático e Melhor Filme Internacional.

publicado às 14:06

Correndo atrás do prejuízo dos filmes dos quais ainda não falei, começo com Batalha Atrás de Batalha, o extraordinário filme do Paul Thomas Anderson. Eu sou grande fã do senhor PTA e, portanto, fui ver o filme logo quando estreou nos cinemas - o que foi há já muito, muito tempo, entretanto o filme já está disponível na HBO e tudo. Quando entrei no cinema não sabia nada sobre o que estava prestes a assistir, não tinha lido nada, ia apenas levada pelo nome do realizador, e por isso confesso que ao início fiquei bastante surpreendida e até um pouco desorientada com aquela viagem a uma América em convulsão, onde grupos revolucionários armados defendem a "liberdade, igualdade, fraternidade" e tentam fazer justiça pelas suas próprias mãos. Depois do Licorice Pizza não estava nada à espera disto. Mas, assim que me deixei entrar no filme, tudo passou a fazer sentido.

Batalha Atrás de Batalha adapta Vineland, o livro de Thomas Pynchon. A primeira parte apresenta-nos Perfidia Beverly Hills e Bob Ferguson (interpretações de Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio, respectivamente), um casal de fervorosos e apaixonados activistas nas suas actividades revolucionárias filmadas um pouco ao estilo blaxploitation. Mas quando Perfidia é detida, Bob tem de fugir com a filha bebé e passar a viver na clandestinidade.

Avançamos uns anos para encontramos Bob e Willa (interpretada por Chase Infiniti), a filha já uma jovem de 16 anos, com ideias próprias e a tentar escapar à paranoia controladora do pai. A sua vida é colocada de pantanas pelo terrífico coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), o polícia de ideias ultra-conservadoras que tinha prendido Perfidia e que volta agora para resolver alguns assuntos pendentes. 

Não existem referências temporais especifícas, embora seja possível relacionar alguns eventos e algumas personagens com a América de Trump, a ideologia MAGA e as intervenções anti-imigrantes do ICE. O racismo é o grande motor do ódio. Mas, para além da crítica social e política, existem os conflitos e as relações pessoais. Desde logo a relação entre um pai sozinho e a sua filha. Devo dizer que não sou a maior apreciadora de Leonardo Di Caprio e esta interpretação entre o cómico e o dramático, mais a descair para a farsa, apesar de estar a ser muito elogiada, não fez mudar a minha opinião. Ainda assim, há momentos muitos bons e, no fundo, este é também um filme onde (como já vimos tantas vezes em tantos filmes de acção) um pai faz de tudo para salvar a sua filha, mostrando-nos que o amor, o tal do amor incondicional, é muito mais do que uma relação genética.

Na altura, quando tentei falar a alguns amigos sobre o filme que tinha acabado de ver, usei a expressão "tarantinesco". Quem me conhece sabe que eu tenho andado de candeias às avessas com o Tarantino. Portanto, um filme de PTA ser "tarantinesco" podia não ser uma coisa boa. Mas neste caso até é. É "tarantinesco" na forma explícita como mostra a violência, com tiros disparados à queima-roupa e as entranhas de fora, mas sem a banalização moral a que Tarantino nos habituou. Não sei bem como explicar isto, lamento. Mas parece-me que PTA consegue o equilíbrio perfeito nesta mistura entre violência e humor, entre crítica e comédia, entre realidade e ficçao. Fiquei presa ao ecrã e àquelas personagens durante 2 horas e 40 minutos e por toda a insane perseguição final na "River of Hills", uma estrada na Califórnia onde, como na vida, tão depressa seguimos confiantes e sorridentes como logo a seguir podemos enfrentar os nossos inimigos.

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publicado às 13:10

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The New Yorker at 100 é um documentário que está disponível na Netflix sobre a fantástica revista New Yorker, que está a celebrar os seus 100 anos. Para além de ficar a saber a história da revista, para um jornalista é incrível poder espreitar por dentro da New Yorker, conhecer um pouco as pessoas que lá trabalham e perceber como o fazem. É incrível e é ao mesmo tempo um bocadinho triste, diria. Se, por um lado, é muito bom saber que há redacções com um tal grau de exigência e de compromisso - veja-se o modo como verificam os factos, as discussões em cada reunião de fecho de um artigo ou até o debate sobre o livro de estilo da revista; veja-se os temas que elegem, a seriedade com que os abordam, a liberdade com que pensam -, por outro lado, é impossível não ficar um pouco deprimida ao constatar quão longe estamos (eu, nós, na minha empresa, no nosso país) desta realidade. Mesmo nos sítios melhores. Mesmo naqueles sítios que nos servem de farol. [senti mais ou menos o mesmo ao ver um outro documentário, há uns anos, sobre The New York Times]. O debate sobre o jornalismo que fazemos fica para outra ocasião. Em vez de entrar em depressão e me pôr para aqui com lamúrias, decidi aproveitar uma promoção e assinar a New Yorker por um ano. E que prazer tem sido. 

PS - Tenho uma lista de filmes vistos e sobre os quais ainda quero escrever. Não me tem apetecido escrever sobre filmes, não sei muito bem porquê. Mas a lista já vai longa e não tarda nada começa a época de prémios, por isso, prometo que me vou esforçar.

publicado às 21:55

 “This is the beginning of a nightmare, I thought … my worst fear come true. But stay with me … because my story is about happiness being easier to find once we realize we do not have forever to find it."

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Come seem me in the good light é um documentário realizado por Ryan White que acompanha os últimos meses de vida da poeta Andrea Gibson, a quem foi diagnostiscado cancro nos ovários em 2021. Depois de uma cirurgia, vários ciclos de quimioterapia e outros tratamentos experimentais, Gibson morreu em julho de 2025, pouco antes de completar 50 anos. Encontramo-la fragilizada mas sempre a tentar aproveitar o máximo dos dias, apesar das dores, dos tratamentos, dos resultados pouco animadores das análises, da constatação de que as mestátases se tinham, finalmente, espalhado para o abdómen. Em todos estes momentos, Gibson conta com o apoio incondicional da sua companheira, a também poeta Megan Falley, com quem vive numa casa no campo em Longmont, Colorado. E encontra conforto no grupo de amigas, nos seus cães, no telefonema diário para a mãe, nas rolas que vêm cantar na árvore em frente do terraço. Num último espectáculo de spoken word, num teatro esgotado.

Como encarar a morte quando a sabemos ao virar da esquina? Como aceitar o fim sem rancor nem medo? As palavras de Gibson, a sua tranquilidade, o seu discernimento, o amor e a alegria que encontra em todas as pequenas coisas são uma inspiração.

Claro que é impossível falar da morte sem recorrer a clichés e só uma pessoa de coração de pedra conseguirá ver este filme sem chorar. Mas se é para ser lamechas, que seja aqui, que seja assim. 

publicado às 21:45

Não deve ser fácil ser o filme brasileiro que vem depois do sucesso de Ainda Estou Aqui.

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não pediu essa comparação e é injusto fazê-la, tenho plena noção disso. E, no entanto, aqui estamos, inevitavelmente. Porque é um filme brasileiro, e são poucos os filmes brasileiros que estreiam nas salas portuguesas. Porque é um filme brasileiro que se estreou em Cannes e tem sido premiado internacionalmente. Porque é o candidato brasileiro aos Óscares. Porque é um filme sobre a ditadura. 

A partir daqui, não há muito mais que una os dois filmes. 

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Wagner Moura (óptimo) interpreta Armando, um engenheiro viúvo que regressa ao Recife em pleno carnaval sob uma falsa identidade, para vir buscar o filho pequeno que vive com os avós maternos e ir com ele para o estrangeiro, fugindo das ameaças de morte. Enquanto espera pelos documentos, mora na casa de dona Sebastiana, uma velhota rija que alberga um grupo de gente em fuga, que não se enquadra nas regras vigentes, incluindo um gato com dois focinhos.

O Agente Secreto é um filme policial cuja acção se passa no Recife, em 1977. Kleber Mendonça Filho é muito bom a dar-nos o ambiente da época e do local. Os polícias corruptos, o carnaval que tudo permite, o suor nos corpos, a opressão da ditadura, a vida nas margens. A música, claro, a música é excelente e certeira. Como mosaico é um filme incrível. Só por isso vale a pena.

O realizador recorre à estética cinematográfica dos anos 70, sobretudo dos filmes de terror muito populares nessa época. Não é só Tubarão, de Spielberg, que é referido de diversas maneiras, causando pesadelos e influenciando o imaginário de todos, até mesmo daqueles que não viram o filme. Kleber Mendonça Filho traz para O Agente Secreto um pouco do gore de Bacurau, o seu filme de 2019, e muito dos Retratos Fantasmas, o seu documentário sobre as antigas salas de cinema do Recife. É como se o realizador juntasse aqui as suas memórias de infância e as duas grandes paixões: o cinema e a sua cidade. Parte da acção passa-se na sala de projecção do Cinema São Luiz, onde é exibido o primeiro King Kong e a plateia grita de medo a ver The Shining, de Kubrick. E parte da acção passa-se nas coloridas ruas do Recife, que com seus comércios diversos e personagens populares é palco de encontros, desfiles de carnaval e até perseguições (uma das melhores sequências do filme, diga-se). 

O Vasco Câmara chama-lhe um filme "sinuoso" e "tortuoso". O Eurico de Barros diz que "cultiva o suspense e o mistério pedindo um esforço de participação ao espectador na decifração do que está a ser contado, em vez de lhe servir a papinha toda feita". É uma análise certeira: O Agente Secreto é um filme exigente na duração (2 horas e 38 minutos) e na forma, com uma estrutura pouco linear e uma miríade de personagens e histórias secundárias, que nem sempre se percebe muito bem porque é que ali estão. Pessoalmente, dispensava o salto temporal para o presente (tal como o dispensava em Ainda Estou Aqui) e irritou-me a elipse precisamente num momento-chave da narrativa. Como assim, Kleber?, vamos ficar sem saber o que se passou?

Resumindo: gostei bastante. Mas duvido que haja Óscar para o Brasil este ano.

 

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Ando a especializar-me em contornar os temas do largo. Não é propositado. Tem sido só mesmo falta de imaginação para mais. Esta semana era "Ainda estou aqui". E eu quis mostrar que, apesar da falta de criatividade, ainda estou aqui.

publicado às 23:19

Houve dois momentos da viagem em Lviv em que sentimos a guerra mesmo ali tão perto, e não, não foi quando ouvimos o alerta de ataque aéreo. 

O primeiro aconteceu logo no primeiro dia, na visita ao cemitério onde estão sepultados os militares e outras vítimas da guerra. É muito impactante, antes de mais, porque é um sítio muito colorido, cheio de bandeiras e flores, mas, sobretudo, porque rapidamente percebemos que muitos daqueles rapazes (são sobretudo rapazes) tinham pouco mais de 20 anos. As fotografias mostram-nos sorridentes, confiantes. Tantas vidas que ficaram por viver. Tantos filhos, irmãos, namorados, amigos, pais que se perderam.

O segundo momento foi a visita ao Unbroken Center, um centro de reabilitação que recebe feridos da guerra, vindos de todas as partes da Ucrânia, sobretudo pessoas afectadas por minas, explosões, tiros e que, muitas vezes, tiveram que ser amputadas. O trabalho com estas pessoas, que por cima de tudo isto têm certamente traumas psicológicos, é absolutamente incrível. Um dos terapeutas que nos guiou pelas salas equipadas com aparelhos de última geração disse-nos que por cada paciente que consegue lugar neste hospital há 60 que continuam em lista de espera. Aqueles que ali estão, que deslizam pelos corredores em cadeiras de rodas, a quem falta uma ou ambas as pernas, braços, bocados da cara ou tronco, aqueles são, afinal, privilegiados.

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What they found - O que encontraram é um documentário realizado por Sam Mendes a partir de imagens filmadas em 35 mm e sem som pelo sargento Mike Lewis e pelo sargento Bill Lawrie, da Unidade de Cinema e Fotografia do Exército Britânico, antes e durante a libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945, a que se juntaram partes do áudio de entrevistas realizadas em 1980 aos dois operadores de câmara. 

O filme, que está disponível no Filmin, tem apenas 36 minutos. Começa com a história dos dois homens, depois a chegada ao campo de concentração, o relato do que viram, o tratamento dado aos sobreviventes, as valas comuns onde foram depositados milhares de corpos. Lewis e Lawrie contam como se sentiram. E se as suas palavras são perturbadoras, o silêncio que se instala é-o ainda mais. As últimas imagens são poderosíssimas. Já vi vários documentários sobre o Holocausto e provavelmente até já tinha visto algumas destas imagens, no entanto fico sempre em choque. Não há maneira de me habituar a isto. Só me apetece chorar. Por todas as vítimas, por nós todos, por esta humanidade que parece não aprender nada com os seus erros.

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Antes de terminar as férias consegui dar um saltinho a Almada para ir ver a exposição Venham mais cinco, com 200 fotografias de fotógrafos estrangeiros que estiveram em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril ou nos meses seguintes, a testemunhar o processo revolucionário. Mais uma vez: emociono-me sempre com as imagens da nossa Revolução, e aqui é uma emoção boa, comovo-me com a alegria dos militares nas ruas de Lisboa e das pessoas que os rodeavavam, as crianças curiosas, os jovens entusiasmados com o fim da ditadura, as senhoras que distribuíram café; comovo-me com a esperança que se vê nos olhos de toda a gente, a desfilar pelas ruas com cartazes, a reivindicar os seus direitos, à saída das prisões, nas reuniões sindicais, nas filas para votar pela primeira vez em democracia. As trabalhadoras do campo a entrarem na casa dos senhores e a tocarem ao de leve nas colchas das camas. Tanta ingenuidade. 

Sim, já vimos muitas imagens como aquelas, é verdade, mas vão ver estas também, que nunca são de mais, e parece-me que, nos dias que correm, estamos todos a precisar de uma boa dose de esperança e optimismo e de nos lembrarmos que todos juntos somos mais fortes e podemos mesmo mudar o curso dos acontecimentos.

A exposição está aberta até 23 de novembro, de quinta a domingo e a entrada é gratuita.

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Ocupação da herdade do Sol Posto, no Couço, Ribatejo, no dia 31 de Agosto de 1975, por Fausto Giaccone 

publicado às 21:32

24
Jul25

Elis & Tom

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Elis & Tom: só tinha de ser com você é uma daquelas pérolas que uma pessoa vê e apetece-lhe que não acabe nunca. Não consegui ir vê-lo ao cinema, mas vi-o agora no Filmin e estou deliciada. Aquele vídeo de Elis Regina e Tom Jobim a cantarem as Águas de Março já era um dos meus preferidos, por toda a cumplicidade que se sente entre eles, o Tom a dançar e a sorrir, a Elis mais solta do que era habitual, há ali um amor que quase conseguimos sentir na nossa pele. A canção já era incrível, mas depois de saber a história daquele encontro, tudo faz ainda mais sentido.

 

Já agora:

Ando numa fase muito light no que toca a escolhas cinematográficas (para desgraças já basta o mundo, não é?), de qualquer forma tenho visto algumas coisas bem interessantes no Filmin. Por exemplo: O Paraíso Queima, de Mika Gustafson, e O Amor Segundo Dalva, de  Emmanuelle Nicot - dois filmes sobre crianças vítimas de famílias disfuncionais, obrigadas a crescer cedo demais. Não tenho tempo para aprofundar, mas queria só deixar aqui a referência para não me esquecer deles. 

publicado às 22:49

1024 (1).jpgAlguém na CNN Portugal achou que seria boa ideia ter uma rubrica de verão onde as pessoas confessassem os seus guilty pleasures, e eu lembrei-me logo de umas três ou quatro coisas de que poderia falar. Escolhi as comédias românticas (e sei que não estou sozinha nisto). Não é bem o tipo de texto que costumo escrever no meu trabalho, mas que facilmente poderia ter escrito aqui no blog, por isso AQUI fica. Com um bocadinho de culpa, mas não muita.

publicado às 20:04


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