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Quando eu era pequena, Espanha era o Rosal de La Frontera, uma terra que fica do outro lado da fronteira de Vila Verde de Ficalho, a uma hora e meia da minha terra. Nunca lá fui, mas de vez em quando alguém ia a Espanha fazer compras e voltava com embalagens enormes de gel de banho e detergentes para a casa. Isto foi antes da União Europeia, claro, ainda havia fronteiras e ir a Espanha, ainda que fosse só ali ao lado e que não fosse preciso passaporte, era uma aventura. Nesses dias, ficava à espera que o carro da dona Fátinha estacionasse à nossa porta, em pulgas para saber que coisas maravilhosas a minha avó teria comprado. Vinha o porta-bagagens cheio. De lá me trouxeram bonecas várias, tabletes gigantes de chocolates com avelãs, pacotes de rebuçados. Lembro-me particularmente de uns rebuçados muito grandes, de caramelo e pinhão, que quase não cabiam na boca e se pegavam ao dentes, dificílimos de comer. Não se vendiam em mais lado nenhum. Nesses tempos, para mim, ir a Espanha era sinónimo de ir comprar caramelos. Ainda hoje, se penso em caramelos é este o sabor que me vem à boca.
Não garanto que fossem desta marca, mas eram mais ou menos assim:
Porque é sexta-feira, é dia de largo. Eu tenho andado um pouco desleixada, mas esta semana aqui estou, a roer caramelos com estas companheiras:
Os meus colegas mais novos acham que eu sou uma pessoa estranha porque tenho sempre papel e caneta. Quando conversamos e lhes conto que quando comecei a trabalhar não tinha internet, olham-me como se eu fosse um bicho raro. Como é que sabiam o que estava a acontecer?, perguntam-me. Na maior parte das vezes, se não fosse uma coisa mesmo muito importante, não sabíamos. Só mais tarde. Horas mais tarde, dias mais tarde. Mas para nós era normal. Eles não entendem. Tenho que lembrá-los que cresci sem telemóvel. Mais ainda: a minha primeira televisão era a preto e branco e só tinha um canal. E, depois, já era a cores mas só tinha dois canais. Não tinha comando. Tínhamos que levantar-nos do sofá para mudar de canal. Ah ah ah ah ah ah. Sou uma pessoa que venho de um tempo distante, para eles é como se fosse da pré-história. É impossível explicar-lhes como era viver num mundo onde não se podia fazer pausa nem voltar atrás na box para ver o que perdemos. Onde não controlávamos o que víamos, éramos meros receptores. As notícias às 20:00, meia hora depois, a novela brasileira. Os desenhos-animados logo de manhã ou à hora do lanche. A teleculinária antes do almoço. Víamos muita coisa que até não nos interessava assim tanto, mas era o que estava a dar. Ao fim de semana havia os documentários dos animais, o basquetebol da NBA, a fórmula 1. Os programas do Júlio Isidro. O Clube Amigos Disney. Os filmes nas matinés. As séries de ficção científica. E claro que víamos todos os reclames (há quanto tempo não dizia esta palavra?). Naquele tempo, a pasta medicinal Couto andava na boca de toda a gente. Escrevíamos com Bic laranja para escrita fina e Bic Cristal para escrita normal. No natal vinha o coelhinho do chocolate Regina e as Bombokas - “só há uma, é para mim!”. No verão era um Cornetto para mim, um Cornetto para ti, no inverno bebíamos Brasa, a bebida que aquece o coração. Dizíamos bom dia com Mokambo e íamos dormir com o Vitinho. Tenho a cabeça cheia de frases dos anúncios. Posso não me lembrar do que preciso comprar no supermercado, mas, bastam pequenas coisas para, do nada, desatar a cantar, sem me enganar, os jingles da minha infância. Como “É Boca Doce é bom, é bom, é, diz o avô e diz o bebééééé” Ou “Um Bongo, um Bongo, o bom sabor da selva, em cada pacotinho uma festa de oito frutos”. Ou “Aquela máquina!”. Ou “Pa-pa a pa-pa, pa-pa a pa-pa, Cérelac”.
Por isso, quanto a vocês não sei, mas a mim se me falam em planta, só consigo pensar na margarina. Nunca - nunca! - comi pão com Planta, mas isso não fará de mim menos “lambona”.
Outras plantas que crescem neste largo:
Depois de uma semana de muitas e fortes emoções, passei o fim-de-semana todo em casa, sozinha. Foi tempo para ler, escrever, ver filmes antigos, pensar na vida. Lá fora o vento e a chuva, de vez em quando uns raios de sol. Não adoro estar sozinha, mas sinto que, de vez em quando, também preciso destes momentos de silêncio e de confronto comigo mesma. É tudo uma questão de equilíbrio. No domingo à tarde temperei um frango e deixei-o a ganhar sabor durante horas, antes de o meter no forno por outras tantas horas. Quando os rapazes foram chegando, dos seus fins-de-semana, a cozinha estava quentinha e com aquele cheiro adocicado do assado. O frango ficou delicioso. Macio, húmido, a carne a soltar-se dos ossos. Um frango assado precisa de tempo. Não é possível fazer um bom frango assado no forno com pressa. Aquele frango precisou daquele domingo passado de pijama, das lágrimas que derramei enquanto acabava de ler o Somos o Esquecimento que Seremos, do colombiano Hector Abad Faciolince, da leveza de ver o Peggy Sue Casou-se, do Coppola (um filme de 1986 que não me lembrava de já ter visto, embora tudo aquilo me parecesse familiar), do espanto renovado ao reler passagens do António Lobo Antunes (tem coisas tão boas, caramba), da alegria de encontrar no Filmin A Ama de Cabo Verde, de Marie Amachoukeli, que queria ter visto no cinema mas acabei por deixar passar. Isto tudo até que finalmente nos sentámos os três a comer o frango tenrinho e saboroso e, entre conversas cruzadas e gargalhadas, olhámos para o calendário e fizemos planos para três meses (somos assim ambiciosos). Um jantar de família que não se vai repetir nos próximos dias, pois estarei a trabalhar à noite, e que cada vez acontece menos porque eles já não são crianças e temos todos as nossas vidas, com compromissos e actividades várias, mas talvez seja por isso que estes momentos são tão especiais. Ou então é o contrário, é por termos estes momentos tão bons juntos que, depois, podemos ir às nossas vidas descansados, sem dramas, sabendo que num domingo qualquer vamos encontrar-nos outra vez na cozinha, falar de coisas sem importância e ficar com as mãos sujas da gordura.
"Amigos com quem temos vontade de apanhar aviões", diz a Alda. São amigos preciosos esses. Acho que ganhei mais uma amiga dessas, com quem gosto de calcorrear caminhos e descobrir lugares. Fomos juntas a Nápoles. Foi a minha primeira vez em Itália. E foi tão bom. Em primeiro lugar por causa dela, claro. Com outra pessoa seria outra viagem. Fomos com os sentidos todos bem despertos, queríamos ver com olhos de ver, ouvir o italiano e o napolitano, andar pelas ruas a pé, sentir os cheiros todos, até mesmo o cheiro do peixe frito, provar as comidas verdadeiras. E foi tão bom (já disse, eu sei, mas nunca é demais repetir). Foram apenas quatro dias e deixámos muita coisa por ver, como é óbvio. Haveremos de voltar.
Para memória futura:
Ficámos instaladas mesmo no centro, numa ruazinha ao lado da Piazza Dante. Fantástica localização. Meia dúzia de passos e estávamos na Via Toledo, uma avenida comercial. Muito barulho. Muito trânsito. Todos os dias, a toda a hora. Montes de lambretas. Bastante poluição. Atravessar a rua era sempre um acto de bravura, uma vez que os condutores não páram nas passadeiras. É preciso avançar com determinação. Também vimos muitos condutores sem cinto de segurança e muita gente nas lambretas sem capacete - famílias inteiras, incluindo crianças, encavalitadas numa maquineta minúscula a acelerar por aquelas ruas estreitas, apitando para afastar os peões, desviando-se dos obstáculos. Andámos muito a pé, experimentámos o metro e o comboio que foram uma boa surpresa, o funicular e os autocarros. Não fomos ao bairro da Amiga Genial, da Elena Ferrante, mas "encontrámos" muitas personagens dos livros nas ruas.
O azul forte é a cor predominante em Nápoles, a cor do clube de futebol. Por todo o lado, até nos bairros menos populares, encontramos bandeiras e faixas a exaltar o "Napoli campione" e o Maradona, claro, a cara do Maradona para onde quer que nos viremos, nas paredes e nos cartazes, nas montras e nas camisolas. Não tenho muitas memórias do Maradona mas ajudou ter visto A Mão de Deus, do Sorrentino.

Diz quem já lá esteve antes que a cidade está cada vez mais turística. Há de facto muitos grupos de turistas, filas gigantes para comer nas pizzarias mais famosas, mil lojinhas de recordações. Domingo de manhã no centro histórico era quase impossível avançar por entre a multidão - fugimos dali o mais rapidamente possível. A gentrificação está a fazer o seu caminho, é visível. O segredo é procurar outros caminhos. E pedir dicas a pessoas de lá.
Como qualquer outra cidade, Nápoles é uma cidade feita de muitas cidades. Os Quartieri Spagnoli são o bairro mais tradicional, com ruínhas estreitas que sobem e descem, prédios quase em ruínas, mercados de rua, peixe em alguidares, legumes de cores garridas. É também aqui que fica o Mural do Maradona, pintado em 1990 pelo adepto Mario Filardi.
Atravessando para o outro lado da Via Toledo, temos o Centro Histórico. Continuam a ser ruas muito estreitas mas o ambiente é diferente. Todas as paredes e portas estão grafitadas, o que lhes dá um certo ar decadente. Há uma sujidade que faz parte do encanto destes bairros mais antigos. Vale a pena espreitar pelos portões dos pátios, alguns estão muito bem recuperados. A Piazza Bellini é um recanto simpático, a que se segue aquela que me pareceu ser uma zona mais hipster.

Subimos no funicular até lá a cima, ao Vomero, e é como se estivéssos noutra cidade. Quem leu A Vida Mentirosa dos Adultos, da Ferrante, vai reconhecer. É uma zona mais rica, com prédios bons, árvores, silêncio. Outro tipo de lojas, outro tipo de pessoas. E uma vista fantástica sobre toda a região. Seja do Castel Sant'Elmo ou da Villa Floridiana, um pequeno paraíso verde numa cidade que é quase só cimento. Vemos o Vesúvio lá ao fundo - haveremos de lá ir numa próxima vez, assim como às ilhas de Capri, Ischia e Procida.


À medida que descemos as escadinhas (há muitas escadinhas, intermináveis, também podem optar por subir mas é preciso ter fôlego) voltamos ao mundo das ruelas com pouca luz e muita roupa estendida. Passeámos junto ao mar, numa zona com urbanização mais recente - Posillipo e Chiaia - e visitámos o Castel Nuovo.

Além dos dois castelos, só entrámos brevemente no Duomo, a catedral, que é bastante bonita, mas não tínhamos tempo para explorar - também não fomos ao Museu Arqueológico nem aos subterrâneos. Guardámos todo o nosso empenho histórico para a visita a Pompeia. Monumental. Por mais que tenha lido sobre Pompeia, não estava preparada para aquela dimensão. Ficámos lá umas quatro horas e temos a noção de que não vimos tudo, mas tentámos ver as casas principais, os murais mais interessantes e bem conservados. Dá mesmo para imaginar a vida naquela cidade. E compensa bem as dores nos pés ao final do dia causadas pelo pavimento irregular.
Comer e beber: Tudo óptimo. Não houve um dia que tivéssemos comido mal. Panini (sandes) maravilhosas, pasta (massa), peixe de todas as maneiras e feitios, pizza frita - de que não fiquei particularmente fã, a verdadeira pizza Margherita, gelados. Aperol Spritz (bebe-se mas não é a minha cena) e Limoncello (melhor, mas não dá para beber tanto).
Dicas que nos foram úteis e por isso partilho:
O Spiedo D'oro é um restaurante com comida de todos-os-dias, muita gente a ir buscar para levar para casa. Além da comida, tem a simpatia do Vicenzo, que, assim que descobriu que éramos portuguesas, foi ainda mais simpático.
Para uma experiência mais turística mas ainda assim compensadora, há a Pescheria Azzurra. É daqueles sítios onde se tem de ir com tempo para desfrutar verdadeiramente. Bom para quem, como eu, gosta de ficar a observar as pessoas e as suas dinâmicas. E a comida é bastante boa.
Entre as várias livrarias-bar, gostámos da Libreria Berisio.
Para a pizza fomos à Dal Presidente que, além de ter um verdadeiro mural do Banksy (cuja fotografia, sabe-se lá como, desapareceu do meu telefone), tem muito menos confusão.
A Vineria Indovino (para vinho e panini) e o Zazzu - Gusto Sano Napoletano (para vinho e pratos tradicionais) ficam um ao lado do outro, numa rua pouco movimentada, com esplanada e óptimo ambiente.

O melhor de viajar é sair da nossa conforto e deixarmo-nos ir. Entrar por ruas que não conhecemos. Levantar os olhos do chão e ver uma nesga de mar lá ao fundo. Surpreendermo-nos com os cartazes colados na parede que anunciam funerais e missas de sétimo dia como quem anuncia o circo. Tentar perceber o que dizem as pessoas na ruas e dizer um "grazzie" sem parecer que estamos a tossir. Conversar com desconhecidos que também estão a ver a final do rugby e descobrir que são jornalistas (aconteceu mesmo). Vestir uma camisola do Nápoles e ir ver o jogo de futebol num café. Ficar só a ver a paisagem, sem olhar para o relógio. Ter conversas profundas ao jantar, enquanto bebemos uma garrafa de vinho, e percebermos que queremos voltar - voltar a Nápoles, voltar a Itália, voltar a viajar, voltar a apanhar um avião ou um comboio ou uma boleia ou o que seja. Assim haja orçamento para cumprir os sonhos.
Amassei pão, fiz biscoitos, temperei a carne para o jantar, lavei a louça e ainda me sentei a beber café e a comer os biscoitos ainda mornos, tudo isto enquanto ouvia os dois primeiros episódios do podcast Wiser than me, no qual a atriz Julia Louis-Dreyfus entrevista mulheres alegadamente mais inteligentes do que ela. A primeira foi a atriz Jane Fonda e a segunda a escritora Isabel Allende. A Julia é uma péssima entrevistadora, há que dizê-lo. Mas as entrevistadas são muito boas. A Allende, sobretudo, vale muito a pena. Sabem quando eu dizia que a partir de uma certa idade aprendemos a ser aquilo que realmente somos e dizemos as coisas que realmente pensamos? É isso, mas com a experiência dos 80 anos. Imaginem a liberdade.
(sou tão feliz quando estou de férias, mesmo quando nem tudo corre bem. sou tão feliz que até tenho tempo e paciência para ouvir podcasts, que é uma coisa que raramente acontece)
Tenho muitas dúvidas que vá conseguir fazer pão em casa. Mas esta tarde de sábado bem passada já ninguém me tira. Aprendi muito a ouvir o senhor João, guardador de sementes antigas, e a Ana Raquel, que nos iniciou nos segredos da massa-mãe. Além disso, estive com pessoas boas (umas amigas, outras completamente desconhecidas), desligámos do mundo durante umas horas, metemos as mãos na massa e comemos pão quente feito por nós, o que é todo um orgulho que nem vos conto. Se não fizer mais pão, estarei pelo menos mais atenta ao comprar.
O avental lindo foi bordado pela minha mãe.
As gargalhadas que se imaginam sonoras são minhas, claro.


Dar abraços a uma amiga, conversar, rir, falar de coisas sérias e outras nem por isso, comer bolo de morangos com chantilly sem pensar em calorias, ir ver o filme A Pior Pessoa do Mundo e ficar a pensar na vida e nisto das relações, das pessoas que encontramos por aí e o que elas significam para nós.
Este é o meu tipo preferido de gala.
As mulheres passam muito tempo a falar sobre o seu corpo, sobre os defeitos do seu corpo, sobre o que têm de fazer para melhorar o seu corpo. Reparei nisso em todos os meus grupos de amigas, não é uma coisa que afecte mais umas do que outras, é geral. Gordura, peso a mais, celulite, rugas, peles flácidas, pêlos, de tudo isto as mulheres se queixam. Olham-se ao espelho e vêem mil falhas. Eu é as ancas, eu o rabo, eu as pernas, eu a barriga, as mamas que são pequenas ou que são grandes demais. Até mesmo as que têm tudo no sítio insistem em encontrar imperfeições. As mulheres planeiam dietas e exercício físico, discutem métodos, trocam experiências, menus e receitas, beber muita água, fazer jejum intermitente, eliminar os hidratos, contar as calorias, correr quilómetros, ir ao ginásio, contratar um PT. As mais determinadas ponderam consultas com médicos diversos, comprimidos milagrosos, intervenções cirúrgicas. É uma tarefa sempre em progresso. Marca-se um jantar e em algum momento o assunto aparece. Há sempre alguém que não vai pedir sobremesa, que não pode comer pão ou batatas fritas ou arroz, ou que avisa que vai comer mas só porque é um dia excepcional, o meu dia da asneira. Há sempre alguém a precisar de se controlar, de fechar a boca, para, definitivamente, emagrecer. É esse o objetivo. Emagrecer. As mulheres querem-se magras.
Não estou a criticar as outras mulheres, atenção. Eu não sou excepção. Eu também sou em parte assim. Eu também queria ser magra. Eu também odeio os mil defeitos do meu corpo. E há momentos em que odeio todo o meu corpo. Eu também morro de vergonha ao ir à praia, sinto-me meia desconchavada ao vestir um biquíni, odeio comprar roupa porque concluo sempre que nada me serve e tudo me fica mal e, como é óbvio, morro de medo que os homens não gostem de mim por me acharem feia e gorda. Essa sou eu no meu dia-a-dia, com a auto-estima bem lá em baixo.
A única diferença é que eu combato esta vergonha do corpo de uma maneira muito peculiar (reparem na palavra, eu não digo que é a maneira certa, é só a maneira que eu arranjei para lidar com isto e tentar sofrer o mínimo possível). Nunca fiz uma dieta nem nunca tive um plano de exercício destinado a melhorar o meu corpo. A batalha acontece toda dentro da minha cabeça. É uma batalha enorme entre todos os meus traumas de mulher, todos os ideais de beleza que me foram inculcados e todos os estereotipos que se entranharam em mim desde que nasci e dos quais, por muito que queira, não consigo fugir, e aquela certeza, que fui adquirindo, conscientemente, deliberadamente, de que um corpo é só um corpo, que este corpo, que é meu e do qual não me posso livrar, que é na verdade aquilo que tenho de mais irredutível, não pode, apesar disso, ser o que me define. Que eu sou muito mais do que um corpo. Que qualquer mulher é muito mais do que um corpo.
É uma batalha, digamos assim, entre sentimentos e razão. Racionalmente, eu estou-me nas tintas para o corpo e sei que não é isso que importa, mas no fundo, lá bem no fundo, sou uma fútil como todas as outras.
Portanto, se estiver vestida, se estiver feliz, se estiver bem com a minha vida, consigo ser super-racional. Sinto-me invencível, quero lá saber de como é que deveria ser o meu corpo. Mas quando estou mais exposta, quando algo corre mal, nos momentos em que me sinto mais frágil por algum motivo, é como se o meu corpo passasse a pesar mais vinte quilos, sinto-me miserável, não tenho dúvidas de que sou uma baleia e de que nunca ninguém (leia-se, um homem) vai alguma vez gostar de mim.
É que, depois, ainda há isto, temos de reconhecê-lo, somos todas mulheres modernas e emancipadas e preocupamo-nos com o nosso corpo não por causa dos outros mas porque queremos ser saudáveis e sentirmo-nos bonitas para nós (se eu não gostar de mim, quem gostará?, não era assim o anúncio?), mas a verdade é que é muito mais fácil gostar de nós próprias quando há alguém que também gosta e nos mima e nos diz que somos maravilhosas. A minha luta, muito pessoal, também passa por aqui.
Como vêem, não é fácil estar dentro da minha cabeça. Está cheia de contradições e de coisas de que não gosto mas que não consigo evitar. Acho que já tinha explicado mais ou menos isto antes. Este também é um trabalho em constante progresso. Acredito muito que ter consciência das nossas falhas é um passo importante para melhorarmos.
Por isso, hoje, só porque sim, avanço mais um pouco nesta auto-terapia, dizendo: este é o meu corpo.

A foto foi tirada pela Filipa num dia feliz. Encolhida, claro, para esconder as banhas. Mesmo assim, jurei que nunca a mostraria a ninguém. Mas agora achei que era ideal para acompanhar este texto, em jeito de perde a vergonha e assume os teus podres e os teus quilos, só possível graças às conversas recentes com a Ângela e com o Tiago que, cada um ao seu jeito, me fizeram perceber o quanto ainda tenho por andar neste processo de auto-aceitação e auto-estima.
Isto sou eu a aprender a ser feliz no meu corpo.
E a rir, pelo caminho.
(oxalá não tropece e me espatife toda)
Domingo às oito da manhã estava na cozinha a fazer massa com atum, antes de ir trabalhar. À hora do almoço liguei ao António, que estava sozinho em casa. "Está óptima, mãe, mesmo boa", disse-me, com a boca cheia, enquanto tirava garfadas de massa directamente do tacho, sem sequer a aquecer. Senti-me feliz. Acho que foi o melhor momento do meu dia da mãe.
Cozinhar para os outros, ainda que seja cozinhar uma coisa banal como massa com atum, é um ato de amor tão importante como dar braços.
Fui comer sardinhas com duas amigas do trabalho. Estávamos a terminar o dia e de repente estás livre? eu também, que coisa rara, bora. Fomos. Esta espontaneidade. É uma das coisas de que tenho saudades da minha vida pré-filhos. Não que eu tivesse uma vida assim tão preenchida e fizesse assim tantas coisas, mas poderia fazê-las, se quisesse, e isso faz toda a diferença na minha cabeça. Agora há sempre que ter atenção aos horários, os horários da escola, do futebol, de estudar, de dormir, de acordar. Os horários e as vontades deles. Se quero fazer alguma coisa fora da rotina tenho que tomar tantas diligências que acabo por desistir.
Fui comer sardinhas a Alfama com duas amigas, só isso, uma coisa tranquila, beber sangria, conversar, comer pimentos assados, ficar com as mãos a cheirar mal, rir com gosto. Nem era meia-noite quando apanhámos o metro de volta para casa. E foi tão bom como se tivesse ido desbundar para uma praia paradísiaca longe daqui.
E isso lembra-me que já falta pouco para os putos estarem de férias e para entrarmos nos melhores três meses do ano. São só mais duas semanas. E estamos em contagem decrescente.