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Recebemos as directrizes para mais uma maratona de ensino à distância. Desta vez já é a sério, dizem-nos as directoras de turma. E, como tal, os horários à distância são exactamente iguais aos horários presenciais. Ou seja, os miúdos têm um bloco de cinco horas por dia de aulas no computador e há pelo menos dois dias por semana em que há mais um bloco de uma hora e meia de aulas. Os intervalos são de dez minutos. Isto sem contar com o tempo para fazer trabalhos de casa ou ter explicações, também em videochamada. 

Tem tudo para correr bem, não tem?

Parece que ninguém se lembrou que o nível e tempo de concentração online é muito mais reduzido. E que em casa, sozinhos, em frente ao computador, os miúdos não têm momentos de relaxamento a falar com os amigos, a apanhar ar e a parvejar todos juntos. 

Já para não falar do cansaço extremo que isto vai implicar para os professores.

Qualquer pessoa que já tenha participado em reuniões por zoom sabe que estes horários são de loucos. Menos o ministro da Educação, claro, que continua fechado no seu gabinete e a dizer que está tudo a correr maravilhosamente.

Ah, e também tivemos de comprar mais um computador. Estive até agora à espera dos tais computadores anunciados para todos os alunos mas... nada. Nem de uma escola nem de outra. Ainda estão à espera de computadores para os alunos mais carenciados, portanto quando chegarem à classe média já os putos devem estar à procura de emprego ou assim.

Nem acredito que estamos outra vez a ter esta conversa.

publicado às 11:07

Há dois anos, mais ou menos, numa altura em que me senti mais em baixo, marquei uma consulta numa psiquiatra com a esperança que ela me receitasse um prozac ou coisa parecida. A médica deixou-me falar e gesticular e rir e chorar durante quase uma hora, enquanto lhe fazia um resumo da minha vida, e no final disse-me:

- A Maria João não tem uma depressão. Está sozinha com dois filhos e um deles é adolescente, não tem uma vida fácil. Mas não há comprimidos para isso.

Tive que admitir que tinha razão, claro. Não, eu não estava deprimida. Ainda. Falámos um pouco sobre estratégias para lidar melhor com algumas situações, como a solidão e a adolescência, ela aconselhou-me a voltar à psicoterapia e no final receitou-me paciência, amigos e alguma vigilância.

Não voltei lá, como era suposto. Mas vigilante me encontro. Sabendo que a vida é difícil e que os problemas existem, a grande questão é como é que lidamos com eles. Há dias em que me apetece fugir. Há dias em que me esqueço de tudo. Há dias em que só me apetece chorar. Há dias em que me sinto confiante. Há dias em que acho que estou a falhar em todas as frentes. Na maior parte das vezes, as crises duram um ou dois dias, uma semana no máximo. A vida é uma constante montanha-russa, já o sabemos, e enquanto assim for, enquanto encontrarmos maneiras de nos recompormos e tivermos energia para alavancar a subida, cá estaremos para dar luta.  

A situação agrava-se, naturalmente, quando vivemos um confinamento como este. Não podemos contar com as ajudas que costumamos ter. Para mim, os momentos com a família e com os amigos, um passeio na praia, ir ao cinema ou ao teatro, ler um livro numa esplanada. Isolada e fechada em casa, e ainda por cima sem uma ocupação, todos os problemas parecem mais graves, seja a dificuldade em educar os putos ou a falta de alguém com quem me aninhar o sofá. Enfim. Não me quero estar a queixar, não faz parte do meu feitio, e, sim, já sei, há sempre quem esteja pior. Estou só a dizer que para mim tem sido mais difícil. E que por isso tenho de estar ainda mais vigilante.

Temos todos.

Não tendo melhor para vos dar, aconselho-vos a, não havendo felicidade nas coisas grandes, procurar sempre a felicidade nas coisas pequenas. Inspirem-se, por exemplo, nas "coisas maravilhosas" do Ivo Canelas ou no David Byrne e nas suas "reasons to be cheerful".

E partilho os bons conselhos de quem sabe do assunto, sublinhando este: não tenham medo ou vergonha de pedir ajuda. Às vezes basta conversar com alguém que nos ajude a olhar para os problemas de outra maneira e que nos faça sentir melhor. Outras vezes é mesmo preciso um comprimido. 

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Paula Rego, Depression Series, Nine (2007)

 

publicado às 20:30

Já estou tão confinada que pouco vai mudar na minha vida com este confinamento. Não tenho estado com amigos, não vou a cafés nem esplanadas, não vou a restaurantes, nem sequer tenho ido ao cinema ou a qualquer outra actividade cultural, e compras só faço mesmo as essenciais. A mim não me viram nas filas para entrar nos shoppings nem antes do natal nem agora nos saldos. Portanto, privilegiada me assumo, irei continuar com a minha vidinha mais ou menos como tem sido. E irei sair de casa apenas quando tal for necessário. O que pode ser para comprar pão ou para fazer uma caminhada higiénica.

Cada vez tenho menos certezas sobre as regras dos confinamentos, o que deve estar aberto e o que deve estar fechado. Olho para a lista de serviços abertos e fechados e tenho dificuldade em perceber algumas coisas, é verdade. Percebo perfeitamente que as pessoas cujas actividades são afectadas por estas restrições se insurjam, que protestem, que estejam desesperadas. Economicamente a situação está cada vez mais complicada. Está a ser horrível para muitas pessoas e não vai melhorar tão cedo. Não sei qual será a solução. E também não sei se o Governo tem feito tudo o que podia ser feito ou se podia fazer melhor.

No entanto, se há algo que me parece absolutamente sensato neste momento é que quem possa fique em casa. Só isso. Se temos a possibilidade de trabalhar em casa, pois façamos isso mesmo, porque há quem não o possa fazer. E mesmo sabendo que o que é essencial para mim não é essencial para outros, era importante que cada um de nós fizesse esse exercício de autoanálise e restringisse os seus contactos ao que considera essencial.

Sou a primeira pessoa a dizer que preciso muito dos outros e que tenho muito medo do que este isolamento está a fazer à nossa saúde mental - por isso temos de encontrar soluções para nos mantermos em contacto e temos de nos ajudar uns aos outros, olhando pelos que estão mais sozinhos ou pelos que são mais frágeis. É horrível não podermos fazer muitas das coisas que nos divertem e que normalmente nos ajudam a levar a vida com alegria? É. É muito horrível. Mas neste momento, até mais do que em março, não há outra maneira de controlar esta pandemia, portanto é isso que temos de fazer. E não, lamento, por muito que eu adore ir ao teatro, essa não é uma actividade essencial. Assim como ir comer a um restaurante não é essencial. Ou ir comprar sofás novos. São coisas que podem esperar um mês. Acho que esse é um bom princípio. Se cada um nós fizer essa pergunta - tenho de ir já ou pode esperar um mês? - talvez isto corra bem.

Ou menos mal, vá.

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publicado às 11:02

Este sábado fui ao teatro às 11.00.

Eu percebo que para as pessoas que já não são muito fãs de teatro este horário é mais difícil. Não dá para fazer aquele programa básico de jantar mais espectáculo mais copo e tornar a ida ao teatro mais atractiva porque significa também estar com um amigo e pôr a conversa em dia. A esta hora, e com o confinamento às 13.00, nem dá para almoçar a seguir, é verdade. Também há aquelas pessoas que têm dificuldade em funcionar de manhã e que acham que isto de acordar cedo (cedo?) ao fim-de-semana para ir ao teatro é capaz de ser uma maluqueira.

Mas, para mim, que gosto de teatro e gosto de manhãs, e que assim como assim raramente arranjo quem me queira acompanhar, é óptimo. E atrapalha-me muito menos a dinâmica familiar, uma vez que as manhãs de sábado cá em casa são geralmente de muita preguiça. 

Fui ver Os Silvas, o novo espectáculo do Teatro Meridional, com um texto original de Mário Botequilha e encenação de Miguel Seabra, que é uma reflexão sobre estes tempos de pandemia e confinamento que vivemos e o modo como isto nos está afectar - nas relações familiares, na relação que temos com o mundo "lá fora", nas nossas perspectivas para o futuro e muito também na sanidade mental da maioria de nós. É como um retrato deste momento, com desinfectante, pantufas e algum humor.

O espectáculo fica em cena até 20 de dezembro. De quarta a sexta às 20.00, sábados e domingos às 11.00.

Com máscaras, álcool-gel e distanciamento, seja a que horas for, #aculturaésegura.

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publicado às 13:42

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Quando entrei em layoff, despedi a empregada, que vinha cá a casa fazer magia uma vez por semana. Desde então, sou eu (com alguma - pouca - ajuda dos rapazes) que trato de tudo, da roupa para passar à limpeza das casas-de-banho. Entretanto, o layoff acabou mas por causa das coisas que se sabe (e sobretudo das coisas que ainda não se sabe) continuo sem empregada. O layoff acabou e voltei a trabalhar todos os dias, em casa mas também muito na rua e num ritmo por vezes frenético. Os miúdos também estão de volta à escola. O Pedro no horário da manhã, o António no horário da tarde. Almoçam ambos em casa mas não se cruzam. Já há treinos de parkour e de futebol. Estamos naquela fase de ajustar rotinas. De nos custar acordar com o despertador. De experimentar lanches diferentes. De forrar livros e pôr etiquetas em cadernos. De descobrir que é preciso ir comprar calças e camisolas. 

Ai, setembro, setembro, todos os anos a mesma coisa. A vidinha toda a cair-me em cima, outra vez. Mil conversas para tentar enfiar algum juízo na cabeça dos putos. Exausta de discussões e de argumentações e de desilusões e de ter que pensar em tudo, sempre a pensar em tudo, a minha cabeça não pára, é o dentista, é a explicação, são as sapatilhas da ginástica que não servem e o chapéu-de-chuva que desapareceu, acabou-se o leite, é preciso comprar iogurtes, as reuniões de pais, os papéis para assinar, um filho que está na fase em que tomar banho é um martírio e outro que está na fase em que toma dois e três banhos por dia, e se calhar desligavam os telefones para irmos para a mesa e, então, já é tardíssimo, porque é que ainda não estão a dormir?

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Tirando as máscaras, umas descartáveis, outras reutilizáveis (máscaras a toda a hora de molho e penduradas na corda da roupa, mais uma coisa com que me preocupar), e o gel desinfectante que cada um de nós tem na sua mochila para usar quando fôr necessário, cá em casa estamos a tentar viver o mais normalmente possível. Estou farta da covid-19. Só de imaginar que nos podem fechar a todos em casa outra vez começo a sentir suores frios. Estou farta da covid-19 e das regras estúpidas que inventam em todo o lado, seja na escola ou nos correios, quando vamos comprar sapatos e nos obrigam a calçar uma meia de plástico ou quando queremos renovar o cartão de cidadão e o site nos informa que não, que ainda não é possível fazer agendamentos. A covid-19 como justificação para todas as incompetências e todas as burocracias e todos os abusos de autoridade. Estou tão farta que já não leio notícias e não quero saber dos números de mortos e infectados e internados, juro-vos. 

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19 e ainda bem porque se uma pessoa se põe a pensar a sério nisto ainda acaba dando em maluca. 

Também não tenho tido muito tempo para mais nada. 

Mas isso é outra história.

Wake me up when september ends, dos Green Day
(com beijinhos para a Raquel)

publicado às 09:38

23
Jul20

Onde vais?

Uma das coisas más que aconteceu connosco durante esta pandemia foi a perda de privacidade. Primeiro porque nunca ninguém consegue estar verdadeiramente sozinho em casa. Não é que a nossa casa seja muito pequena, não tenho motivos para me queixar. Mas também não é assim tão grande. Nem temos varandas nem jardins nem nada disso. E portanto vivemos todos aqui entre a sala e os quartos. E, sim, é possível cada um estar na sua divisão e fechar a porta e isolar-se e até ter conversas telefónicas sem ser incomodado mas estamos sempre todos à distância de um grito e quatro passos. Além disso, antes (no antigamente de há quatro meses), todos nós passávamos muito tempo fora de casa e tínhamos cada um a sua vida e a sua existência individual. Agora estamos em casa, sem muitos motivos para sair. Somos como uma unidade e todos sabem sempre o que os outros estão a fazer. Então, quando eu quero sair de casa, como é uma coisa tão rara, há sempre alguém que pergunta: onde vais?, fazer o quê?, com quem?, quando tempo demoras? E não é que eu me importe de dizer aos meus filhos onde vou, nada disso, é só esta constatação de que perdemos a nossa privacidade. E apesar de isso não ser um drama (há coisas muito piores, eu sei) também não é uma coisa boa - nem para mim nem para os miúdos que, sobretudo nesta idade, deveriam ter direito ao seu próprio mundo longe de mim, para se descobrirem e para asneirarem longe do olhar da mãe.

São pequenas coisas que se vão alterando na nossa vida por causa do vírus. Não são só as máscaras e o gel. São estas coisas, quase invisíveis, mas que, estou certa, nos estão a mudar e moldar por dentro de maneiras que talvez só mais tarde iremos compreender completamente.

publicado às 20:43

Tínhamos o covid-19, tínhamos restrições financeiras e tínhamos um adolescente em plena fase tudo-o-que-for-com-a-família-é-um-aborrecimento.

Mas, por outro lado, tínhamos uma semana de férias em julho que, com a ajuda do layoff e das folgas devidas por trabalho no fim-de-semana anterior, se transformaram em 12 dias de descanso.

Pesando prós e contras, decidi que desta vez não iríamos ao Algarve e ficaríamos por casa. Em agosto logo se vê.

Para mim, só o facto de não ter horários, nem trabalhos da escola, nem nenhuma obrigação já é um descanso enorme. Eliminamos os principais focos de stress da nossa vida e tudo fica mais fácil. Mesmo. Aproveitei, então, para tratar de algumas burocracias que estavam pendentes e para fazer umas arrumações em casa (e muito ainda ficou por fazer). Os putos aproveitaram para dormir até mais tarde e jogar muita playstation. E depois tentámos, apesar do calor abrasador, sair de casa, apanhar sol e estar com alguns amigos. O António só se juntou a nós por um dia (tanto que havia a dizer sobre isto...) mas eu e o Pedro fomos várias vezes à praia na Costa da Caparica ou em Carcavelos, ao final do dia (depois das 17.00, às vezes depois das 18.00), só os dois ou com amigos, até ao pôr-do-sol, e por três vezes até conseguimos jantar na praia, ainda com areia nos pés e muitas gargalhadas à mistura. O Pedro está numa fase óptima (é aproveitar que isto vai passar, já se percebeu) e entre a prancha de bodyboard, os óculos de mergulho e a prancha de skimboarding, entretém-se na boa durante umas três horas.

Pelo meio, deixei o adolescente ir passar uns dias ao campo com os amigos, à sua vontade, e cometi duas extravagâncias:

Fomos os três por duas noites a um turismo rural perto de Santarém. Marquei isto há já algum tempo, aproveitando uma promoção, e ficou francamente acessível. Não era nada luxuoso mas tinha uma piscina e internet (foram as duas exigências dos miúdos), uma cozinha para preparar as refeições, muito silêncio e ar puro - tudo o que eu precisava para desintoxicar destes últimos meses fechada em casa.

E, neste último fim-de-semana, quando os miúdos estavam com o pai, fui passar uma noite a Tróia com um grupo de amigas. Éramos seis, todas a deixar maridos e/ou filhos, para conseguirmos pôr a conversa em dia, espairecer a cabeça e desfrutarmos deste tempo juntas, depois de tanto afastamento. Fomos no sábado logo de manhã, aproveitámos a piscina e a praia e voltámos a casa no domingo já à noite, todas bastante queimadas e muito felizes. Não me lembro da última vez que tinha feito uma coisa deste género mas já combinámos que havemos de fazer isto mais vezes. Porque foi mesmo muito bom.

Resumindo e concluindo: esta espécie de férias acabou por correr muito bem, muito melhor do que eu estava à espera, dentro do contexto. Descansei verdadeiramente a cabeça, estive com os miúdos sem zangas nem stresses, estive com alguns amigos de quem ainda estou a matar saudades e acabámos por nos divertirmos todos, eu e os putos, cada um à sua maneira.

Posso repeti-lo todos os anos e todos os anos será verdade: somos sempre mais felizes nas férias. Mesmo com uma pandemia e um baixo orçamento.

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publicado às 07:47

Estamos a dias do fim das aulas. Finalmente. Os miúdos estão oficialmente fartos da escola e esta semana já está a ser muito difícil convencê-los a trabalhar. Mas, respiremos, está quase.

Desde o início, fui muito crítica deste sistema de telescola. Por vários motivos. Desde as questões práticas (ter computadores, internet e espaço de trabalho para todos) até às questões familiares (isto só é possível com pais que tornam o ensino viável) e, sobretudo, porque me parece que este sistema pode até funcionar com alguns bons alunos (que os há e devem ser incentivados) mas é insuficiente para todos os outros e aprofunda ainda mais a já grande desigualdade social que existe nas escolas.

Está tudo explicado NESTE post e ainda NESTE, NESTE e mais NESTE.

Ainda assim, acho importante voltar ao assunto, em jeito de balanço. 

Para mim, o grande erro foi cometido logo no início. Aquela ânsia de continuar, de não dar descanso aos preguiçosos dos professores e aos ainda mais preguiçosos alunos, de continuar as aulas e os programas como se tudo estivesse dentro da normalidade. Não houve sequer um momento para parar e pensar nas circunstâncias especiais em que estávamos (estamos) todos. Dos efeitos que uma pandemia e que um confinamento prolongado poderiam ter nas nossas vidas. Nada disso. O mundo pode parar mas a escola continua, dê lá por onde der. Distribuam-se computadores e ensine-se os professores a usar o zoom e siga. Como se fosse assim fácil. 

Portanto, isso é o que deveria ter sido feito naquelas duas semanas no fim do segundo período. Parar. Pensar. Estabelecer prioridades. Equacionar soluções. Dar orientações às escolas e aos professores.

Do meu ponto de vista, o Ministério da Educação preocupa-se excessivamente (não é de agora, é de sempre) com aquilo que não deveria ser uma prioridade: cumprir programas e fazer avaliações. E preocupa-se de menos com a educação entendida de uma maneira abrangente: na formação de pessoas que estão a crescer, no seu enriquecimento intelectual e emocional. A escola não deveria ser um sítio onde se empinam calhamaços e conceitos que se despejam em exames para obter graus académicos. A escola deveria ser um lugar de aprendizagem, de crescimento. Sobretudo para aqueles que têm na escola a sua única (ou principal) forma de aprender e de cumprirem os seus sonhos. 

Posto isto, a primeira coisa que deveria ter sido feita era suspender os programas e as metas curriculares. Já que estão sempre a dar tudo a correr, olha que bom momento para parar, para consolidar as matérias já dadas, explicar outra vez, com calma, aquilo que se deu à pressa em janeiro. Retirar aos professores esse fardo - dando-lhes a autonomia para, se quisessem, se vissem que tinham condições e que os alunos respondiam positivamente, poderem de facto dar matérias novas. Mas nunca fazendo disso uma obrigatoriedade. 

E depois dar indicações aos professores para serem, naquele primeiro momento, mais do que tudo, facilitadores, comunicadores, companheiros em vez de serem professores de matemática ou de química. Sinceramente. Em cada nível de ensino deveria ter havido essa preocupação. Antes de mais, de perceber como estão os miúdos - como estavam eles a viver esta situação e o que poderia ser feito para ajudá-los. São crianças e adolescentes e jovens fechados em casa, privados das suas rotinas, dos seus amigos, das suas brincadeiras e dos seus desportos. Como é que os professores, atrás de uma câmara, poderiam ajudar? (e ajudar também as suas famílias - porque os miúdos estão em casa com irmãos, com pais, com outros familiares e todos eles estão a viver os seus próprios dramas, todos juntos, ou não).

A seguir: ter plena noção de que dar aulas à distância não é como dar aulas presenciais e, portanto, não insistir em querer fazer tudo igual. As aulas não podem ser dadas da mesma maneira, os trabalhos não podem ser os mesmos, têm de ser outros. Sozinhos em casa, sem a supervisão do professor, sem colegas, sem horários, os miúdos não podem sentar-se a ler manuais e a responder a fichas. Não resulta, ok? Talvez precisem de ver filmes, de fazer desenhos, de fazer trabalhos de pesquisa, de fazer jogos, não sei, os especialistas em pedagogia que se pronunciem, mas sei que não se pode tentar reproduzir o método de trabalho da sala de aula em casa. 

E ainda: não teria feito mal nenhum esquecer as matérias que estão nos currículos e falar com os miúdos do que realmente interessa que é isto que estamos a viver. Desde explicar-lhes o que é um vírus e porque é que estamos em casa, até discutir com eles os efeitos do fechamento económico e do isolamento, sei lá, dependendo da idade e da disciplina, este é um assunto que dá pano para mangas. Pô-los a pensar no mundo em que vivemos. (E talvez, quem sabe, isso ajudasse a que hoje não houvesse tantos miúdos na rua, sem qualquer sentido de responsabilidade)

Assim como foi sinto que foi um enorme desperdício. Que se aprendeu pouco. Muito pouco. Fosse da matéria ou de outra coisa qualquer. 

Os erros foram cometidos. Resta-nos tirar as devidas lições e esperar que durante este tempo - em que alunos, professores e pais se esfalfaram para fazer cumprir os planos mirabolantes dos senhores sentados no Ministério da Educação - esse senhores tenham aproveitado para pensar como vai ser em setembro (eu sou uma eterna optimista).

Estamos em junho. Os miúdos estão em casa há mais de três meses (em muitos casos, famílias inteiras estão em casa desde essa altura). Faltam ainda mais três meses de férias (dos alunos, não dos pais) em que, pelo que se vê, deveremos continuar todos em casa. Miúdos entregues a televisões, computadores, tablets, telemóveis e playstations, praticamente 24 horas por dia. Sem poderem ir passar umas semanas com os avós ou sequer brincar com os amigos. Não sabemos que efeito isto vai ter nos miúdos e nas famílias (em todos nós). Mas sabemos que temos de agir rapidamente para que não seja ainda mais catastrófico.

publicado às 11:05

Ao 100º dia os miúdos foram passar o fim-de-semana com o pai. E eu adoro-os do fundo do meu coração mas estava mesmo a precisar disto. De não pensar neles, de não me preocupar com a escola, de não ter que fazer o jantar, de não ouvir as parvoíces que eles dizem o dia inteiro enquanto jogam playstation, estava a precisar de não pensar em absolutamente nada. E assim foi. Nestas 34 horas fui só eu. Uma amiga ao jantar de sábado, outra amiga ao almoço de domingo, muita conversa para pôr em dia, uma peça de teatro pelo meio e uma casa em silêncio. Vai acabar não tarda (e também é por isso, por ser assim só por um bocadinho, que é tão bom, como é óbvio).

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By Heart, outra vez. E aquela sensação de voltar a casa. Como escrevi há pouco mais de um ano: "A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo."

publicado às 19:12

15
Jun20

Desconfinando

Houve um momento, já quase no fim do almoço, em que, não sei bem como nem porquê, pusemo-nos a cantar os Vampiros do Zeca Afonso. E eu dei por mim a pensar nas saudades que tinha da minha família. Caramba. Encontrámo-nos, finalmente, no feriado do corpo de deus, depois de quase seis meses de distância - o que é imenso, até para mim que estou habituada a estar longe por dois ou três meses  - e demos abraços e beijos, com moderação mas demos, porque não podíamos não o fazer. Temos estado a desconfinar, lentamente mas a desconfinar. O Pedro voltou aos treinos de parkour e continua a brincar com os vizinhos no terraço - é engraçado ver como a quarentena uniu os miúdos destes prédios, uns que já se conheciam, outros que nunca sequer tinham aparecido à janela, e agora são todos amigos. O António tem saído pelo menos uma vez por semana para estar com os amigos, jogar à bola e cirandar por aí, e até foram um dia à praia. Com mil recomendações e máscara e gel para as mãos, mas a tentar recuperar a sua adolescência interrompida. E eu também. Apesar de ainda em teletrabalho tenho feito cada vez mais trabalhos na rua e tentado estar com algumas pessoas que são importantes para mim. Ainda faltam algumas. E têm sido encontros muito breves e sempre ao ar livre. Mas, apesar de todas as mensagens e telefonemas e videochamadas, e mesmo, na maior parte dos casos, sem beijos e abraços, não há nada melhor do que estar com as nossas pessoas. Só estar. Sentirmo-nos acompanhados. E depois as conversas, os olhares, as gargalhadas, os momentos partilhados. As canções que cantamos juntos. 

publicado às 10:03


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