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Ah, dançar. Eu adoro dançar. Dançar era “a” minha cena, sabem? Fechar os olhos e dançar, ocupar a pista sem pensar, ignorar os olhos que me olham, mexer o corpo sem regras. Odeio coreografias, sou incapaz de dançar em par, agarrada a alguém, mas dançar, entregar-me à dança e deixar-me ir é qualquer coisa de extraordinário. Dançar desde os tempos da Fonte Velha, a primeira discoteca da minha terra, que abriu tinha eu uns 15 anos ou por aí, das primeiras vezes ia com o meu pai, só para terem ideia, eu era a miúda que tinha o pai fixe que levava a filha e as amigas à discoteca, bebíamos Ginger Ale e dançávamos com o mesmo empenho o “Pump Up the Jam” e os U2. Dançar e saber que os rapazes me olhavam, imitar os movimentos que via nos telediscos do Prince, ir pedir ao DJ para tocar o “Mistify”. Depois, na pista da Pandora, ainda no Alentejo, sem óculos, a ver tudo nublado e a cantar “Sit down next to me”. No Tóquio, na rua que ainda não era cor-de-rosa mas era das prostitutas, onde, já na faculdade, dançávamos Pixies e Cure e Violent Femmes e eu percebi, logo aí, a cantar em coro “Here comes your man”, que aquela era a minha tribo. Nos Três Pastorinhos, a pista cheia de jornalistas como eu estava ainda a começar a ser e foi mesmo o começo de tanta coisa. Ah, dançar. Fui tão feliz a dançar no Plateau. E no Captain Kirk. E no Roterdão. E no Frágil. Foi às seis da manhã, quando me levava a casa depois de horas e horas a dançar no Lux, que ele me perguntou: “Então, também gostas de música brasileira?”, e dois anos depois casámos. Foi no Jamaica, no antigo Jamaica, que afoguei muitas mágoas, depois de me separar, apertados como sardinhas em lata, corpos desconhecidos a roçarem-se, o cheiro a tabaco a entranhar-se nas roupas e no cabelo, os copos de gin a entornarem-se por cima das roupas, os sapatos a colarem ao chão e nós a dançarmos para nos esquecermos de tudo, outra vez. “Last night she said Oh, baby, I feel so down”. É ao Incógnito, àquela pista minúscula, por baixo dos globos espelhados, que volto ainda quando quero dançar, o que acontece cada vez menos - quando foi mesmo a última vez? Ah, dançar, eu adoro dançar, mas há muito que não tenho paciência para sair à noite, para as filas, para os encontrões, para as bebedeiras, para as multidões. Das últimas vezes, mesmo voltando para casa - relativamente - cedo, acordei na manhã seguinte a sentir-me um farrapo, o corpo moído, a cabeça a zumbir. Tenho tantas saudades de dançar. Bora organizar matinés, sem álcool nem multidões, só nós, de olhos fechados, a cantar as letras todas e a dançar, a dançar, a dançar, o que me dizem, miúdas?

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Existe uma tag dançar neste blog. Existe até uma playlist com algumas (só algumas) músicas boas para dançar. E existe esta música, que diz isto tudo que estive para aqui a dizer, mas em bom.
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Atrasei-me uma semana a vir dançar ao largo, mas aqui estou.
Fui num instantinho a Madrid em trabalho. Foram pouco mais de 30 horas na cidade, que tentei rentabilizar ao máximo. Claro que tive de trabalhar: entrevistar a diretora da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporânea durante a tarde, ver o espectáculo Amaramália à noite, ficar no hotel a escrever o texto durante a manhã. Mas todo o resto do tempo foi para aproveitar.
O que fiz:
- Visitei a exposição Leica. Un siglo de fotografía 1925-2025, no Centro Cultural Fernán Gomes, com fotografias de Steve McCurry, Elliot Erwin, Sebastião Salgado, Alberto Korda e muitos outros. Muito fotojornalismo e muita street photography. Gostei bastante. A entrada é livre.
- Fui ao Museu Thyssen-Bornemisza porque queria ver a exposição que junta Picasso e Paul Klee (tenho esta ideia de que as obras de Picasso nunca são de mais na nossa vida), depois acabei por ver também a exposição Warhol, Pollock e outros espaços americanos (é muito desigual, tem coisas muito interessantes e outras nem por isso) e por espreitar as salas da arte moderna e contemporânea.
- Entrei na Caixa Forum para ver a exposição do Matisse porque estava a chover e acabou por ser uma bela surpresa. Só conhecia aquelas obras mais famosas do Matisse e descobri que, afinal, ele teve uma carreira bastante longa e diversificada.
- Andei a passear pelo Barrio das Letras, um sítio bem agradável, com lojas mais alternativas e restaurantezinhos com um ar bastante simpático. Como continuava a chover, aproveitei para fazer uma visita guiada à casa de Lope de Vega. A guia era super divertida e empática e contou imensos pormenores sobre a vida do escritor. A entrada é livre mas é necessária inscrição porque as vagas são limitadas.
(no Barrio de las Letras)
E ainda consegui sentar-me a jantar e a pôr a conversa em dia com a minha querida Milú.
Não tenho a certeza, mas penso que só tinha ido uma ou duas vezes a Madrid, sempre em trabalho e sempre a correr. Lembro-me que fui ao Prado, onde vi obras de Goya e de Hieronymus Bosch, e ao Museu Reyna Sofia, ver a Guernica, pois claro. E pouco mais. Desta vez, quis evitar os museus maiores, até porque já não tenho paciência para passar horas infindas num museu, e consegui passear mais nas ruas, andei de metro, sentei-me a comer com calma. Deu para sentir mais a cidade, mas claro que ainda ficou muito por explorar.
Uma coisa de que gostei: em todos os museus a que fui havia bastantes pessoas (mas não tantas que se tornasse impossível ver as obras), muito diferentes - turistas, crianças das escolas, grupo de idosos com um guia, casais e famílias espanholas - e todas muito interessadas. Na visita à Casa de Lope de Vega, só com espanhóis, as pessoas fizeram imensas perguntas. Nos museus havia gente a tirar selfies, grupos a conversar, o ambiente era descontraído, muito diferente da solenidade que costumamos ver por cá. Sei que às vezes os museus mais conhecidos têm a gente a mais e isso também me incomoda, mas, neste caso apenas senti que os museus estavam vivos e a ser desfrutados pelas pessoas, e isso é muito importante. Um museu demasiado vazio e silencioso é um péssimo sinal.

Foi uma alegria muito grande ver Adilson, o espectáculo musical imaginado e encenado por Dino D'Santiago a partir do texto "Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão e com direcção musical de Martim Sousa Tavares. O espectáculo acompanha um afrodescendente, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Angola mas que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. Adilson passa horas à espera da sua vez em gabinetes e serviços, sofrendo humilhações por parte das autoridades, perdido no labirinto burocrático para provar que existe e que é português. A sua história - que é verdadeira - é a história de muitos dos que aqui moram e é também um pouco da história deste país. (Leiam este texto do Gonçalo Frota que está lá tudo explicado)
Que Adilson seja interpretado por uma rapariga jovem é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste espectáculo um manifesto pela inclusão e um grito contra os regulamentos que insistem em impedir-nos de sermos quem realmente somos. Koffy tem apenas 19 anos e uma voz magnífica.
O espectáculo tem momentos de humor e outros mais sérios, tem momentos mais bem conseguidos e outros que poderiam estar melhor. Já a música é sempre boa, uma mistura de ritmos e de instrumentos, tudo unido pela poesia de Dino D'Santiago.
No final, uma alegria enorme, sim, e um travo amargo na boca: temos ainda tanto por andar neste caminho pela igualdade e pela democracia plena.
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Estive a trabalhar no fim-de-semana, mas ainda assim, e apesar do cansaço acumulado, consegui aproveitar bem o meu tempo. No sábado ao final do dia fui ver Adilson no CCB, integrado no festival Boca. No domingo, saí do trabalho a correr e fui à Culturgest ver Nôt, o espectáculo de Marlene Monteiro Freitas.
É muito fácil andar sempre ver as coisas que eu sei à partida que vou gostar e ficar confortável no meu lugar. Mas também preciso de me desafiar e de ver coisas que não me são óbvias. Não posso dizer que tenha adorado este Nôt. Achei os intérpretes todos incríveis e gostei mesmo de alguns pormenores da coreografia, há coisas que resultam muito bem. Gostei muito de alguns momentos. Mas na maior parte do tempo senti-me bastante perdida. Este texto, que só li depois, já em casa, ajudou-me um pouco. Acho que ainda estou a processar.
E não desisto. Da próxima vez, lá estarei.
Há 25 anos, quando estreou no Citemor o solo Os Olhos de Gulay Cabbar, Olga Roriz falava-me do envelhecimento, de como o seu corpo de bailarina estava a mudar e de que maneira isso tinha consequências na sua criação. Lembro-me dessa conversa, já tarde na noite, depois de um ensaio, num casarão em ruínas em Montemor-o-Velho. Há 25 anos, Olga Roriz era mais nova do que eu sou hoje. Há umas semanas fui vê-la em O Salvado. Outra vez sozinha em palco, ali está aquele corpo de quase 70 anos, aquela mulher inteira, que ainda dança embora já não dance como antes, exprimindo as suas preocupações, os seus devaneios, os seus pensamentos, as suas dores. O seu fantástico sentido de humor e de auto-humor. [leiam o texto da Cláudia Galhós que vale bem a pena]
Saí desse espectáculo a pensar como o tempo passa por nós e como o nosso corpo tem tantas histórias para contar, as rugas das gargalhadas, as estrias das gravidezes, as cicatrizes das operações, as marcas do sol, os quilos que ganhámos em jantares felizes e os quilos que ganhámos com os chocolates que comemos para curar as tristezas, os músculos conseguidos com sofrimento no ginásio e os músculos doloridos de carregar os bebés e as compras, os arranhões de todas as quedas que demos, até mesmo as invisíveis, está tudo ali, trazemos a nossa história connosco e não dá para fugir disto que somos, mesmo que façamos dietas e lipoaspirações, que nos mascaremos de outros, que tentemos esquecer.
Não dá para mudar o que foi, mas estamos sempre a tempo para mudar o que vai ser. Ou pelo menos, quero acreditar nisso.

Outras coisas de julho:
Andava há meses a segui-las no instagram mas só agora consegui, finalmente, ir a uma roda de samba do Coletivo Gira. São mulheres, são brasileiras, são feministas, são queer. Os eventos transbordam de alegria e empoderamento. Não sei sambar, mas adorei e quero voltar.

A exposição de Paula Rego e Adriana Varejão, no CAM - Centro de Arte Moderna, é muito boa. Não conhecia o trabalho desta artista brasileira mas gostei muito. É, tal como Paula Rego, uma artista que fala muito das mulheres, de forma violenta e íntima, de uma forma mais crua e mais explícita ainda do que Paula Rego. Mais em carne viva. E junta a isto uma reflexão muito interessante sobre colonialismo. Ver as obras destas duas artistas juntas faz todo o sentido. Fiz uma visita guiada e acabou por ser uma boa opção porque me levou a prestar atenção em pormenores e interpretações que de outra forma talvez me tivessem passado despercebidos.
O mês terminou com Partes Sensíveis, um espectáulo de dança de David Marques e Nuno Pinheiro. Foi uma boa surpresa. Um espectáculo sobre a intimidade, sobre as pequenas e grandes coisas que partilhamos quando partilhamos uma casa, sobre a descoberta do outro - quando moramos com alguém é quase como se víssemos o outro através de uma lupa, descobrindo coisas que não conhecíamos, as suas características aumentadas. Estava muito muito muito calor na sala da ZDB em Marvila, mas sobrevivemos.
Julho teve isto tudo e ainda teve uns dias de férias com momentos de cumplicidade com os miúdos, teve dias de praia e encontros bons com alguns amigos, e teve um dia muito especial em que voltei à Colónia, mas, desta vez, levei o meu pai, a minha irmã e o meu cunhado e foi tudo muito bom. Julho também teve dias de grande solidão, desalento e muitas dúvidas. Continuo à procura do equilíbrio. Não tem sido fácil. A arte ajuda, as minhas pessoas ajudam, mas não tem sido fácil. A luta continua.
Death's Echo, de W.H. Auden
“(...) “O life’s too short for friends who share,”
Travellers think in their hearts,
“The city’s common bed, the air,
The mountain bivouac and the bathing beach,
Where incidents draw every day from each
Memorable gesture and witty speech.”
So travellers think in their hearts,
Till malice or circumstance parts
Them from their constant humour:
And slyly Death’s coercive rumour
In that moment starts:
A friend is the old old tale of Narcissus,
Not to be born is the best for man;
An active partner in something disgraceful,
Change your partner, dance while you can.
“O stretch your hands across the sea,”
The impassioned lover cries,
“Stretch them towards your harm and me.
Our grass is green, and sensual our brief bed,
The stream sings at its foot, and at its head
The mild and vegetarian beasts are fed.”
So the impassioned lover cries
Till the storm of pleasure dies:
From the bedpost and the rocks
Death’s enticing echo mocks,
And his voice replies:
The greater the love, the more false to its object,
Not to be born is the best for man;
After the kiss comes the impulse to throttle,
Break the embraces, dance while you can.
“I see the guilty world forgiven,”
Dreamer and drunkard sing,
“The ladders let down out of heaven,
The laurel springing from the martyr’s blood,
The children skipping where the weeper stood,
The lovers natural and the beasts all good.”
So dreamer and drunkard sing
Till day their sobriety bring:
Parrotwise with Death’s reply
From whelping fear and nesting lie,
Woods and their echoes ring:
The desires of the heart are as crooked as corkscrews,
Not to be born is the best for man;
The second-best is a formal order,
The dance’s pattern; dance while you can.
Dance, dance, for the figure is easy,
The tune is catching and will not stop;
Dance till the stars come down from the rafters;
Dance, dance, dance till you drop."
Um poema que descobri graças ao filme Império da Luz, de Sam Mendes, com a grande Olivia Colman. Um filme sobre a solidão. Sobre a solidão de uma mulher. Sobre a solidão de uma mulher que já não é muito nova. Sim, é também um filme sobre mim. Sobre as pequenas estratégias que encontramos para lidar com isto. Sobre a importância de termos quem nos veja como realmente somos. E sobre dançar, enquanto podemos, mesmo que seja em casa, sem sapatos, sem par.

Fui ver Um Corpo que Dança - Ballet Gulbenkian 1965-2005, o filme de Marco Martins, e saí de lá feliz por ter assistido ao documentário e triste por tudo o que ele me pôs a pensar. Mais do que uma história do Ballet Gulbenkian, conta-se um bocadinho da história de Portugal, com maravilhosa recolha de imagens de arquivo e muitas entrevistas (em off). Porque a história do Ballet Gulbenkian é inseparável da história da Fundação, é inseparável da ditadura que silenciou os portugueses durante 48 anos e da guerra que matava jovens no Ultramar e da pobreza e do analfabetismo dominantes, e é também inseparável da Revolução de Abril, da vontade de acabar com as elites e a "cultura burguesa", da história de um país que se abriu ao mundo e se modernizou, e é, por fim, inseparável das histórias e das ideias e dos corpos de todos aqueles que passaram pela companhia. A história do Ballet Gulbenkian é feita de uma tensão permanente entre o poder (que é sempre restritivo) e o corpo (que é, na sua essência, livre). E isso é visível também no modo abrupto como a companhia terminou.
O documentário, feito "a convite" (foi assim que vi escrito) da Fundação Calouste Gulbenkian, tem uma mensagem, isso é claro em todos os detalhes (incluindo a banda sonora e a montagem, ambas bastante marcadas no filme), mas peca talvez, em alguns momentos, pelo excesso de informação: num só plano podemos ter imagens da época, uma música em fundo que não tem nada ver, alguém a falar em off e legendas informativas para ler.
Ainda assim, é tudo muito bonito. E fez-me pensar. E trouxe-me tantas memórias.
Viajei. Mas o importante não foi a viagem em si nem os passeios que demos por Bruxelas. O importante foi, primeiro, poder partilhar esta experiência com o Pedro e passarmos tempo os dois e voltarmos a andar de avião e tentar explicar-lhe que é bom sair de casa e descobrir o mundo (e também irritar-me um bocadinho com ele, que está naquela fase aborrescente mas, pronto, faz parte). E, depois, visitar a minha amiga Aline e a sua família. Já não nos víamos há quase um ano e foi bom demais voltarmos a partilhar as nossas alegrias e as nossas angústias e comer os seus cozinhados e desfrutar da sua alegria e da sua energia. E depois da viagem ainda deu para ir ao Alentejo e para passear por Lisboa, para ir ao MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia ver as "Interferências" e a fantástica instalação do Vhils (por favor, não percam), para ver as maravilhosas "Bacantes" da Marlene Monteiro Freitas, para dar um passeio na praia, para ir dançar no Incógnito (as saudades que eu tinha disto), para fazer isto tudo ao mesmo tempo que estava com amigos bons e conversávamos e ríamos e chorávamos juntos. Porque o mais importante são sempre as pessoas que estão connosco neste caminho e os abraços todos que damos.
Foram 10 dias bons, depois de muitos dias difíceis, ou melhor, no meio de muitos dias difíceis. Não tem sido fácil, por vários motivos, muito diversos, muito meus. Mas, como diz, a canção:
"Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar
Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar"


Dançar. Amigos. Conversas. Dançar. Rir. Cumplicidades. Dançar. Não pensar. Só ser.
The Cure, Close to Me
Nas últimas duas semanas, por uma daquelas coincidências de agenda que não conseguimos controlar, fui atropelada por um camião de trabalho que me obrigou a dormir algumas noites fora de casa, noutras a chegar à cama muito tarde, a fazer muitos quilómetros para baixo e para cima, a deixar um pouco os miúdos por sua conta e a fechar os olhos ao caos que se instalava aqui em casa. Nada disto foi fácil, por diferentes motivos. Mas, apesar do cansaço, das dores nas costas e nos joelhos, da ansiedade, da tensão permanente nos ombros, do sono (muito sono) e da culpa (a culpa, sempre), há também aqui uma grande alegria. Porque nestas duas semanas tive oportunidade de fazer algumas das coisas de que mais gosto. Por um lado, a pretexto da campanha eleitoral, pude sair da redacção e andar por aí, descobrindo o país e falando com pessoas. Por outro lado, tive um convite maravilhoso da Patrícia Portela, diretora do Teatro Viriato, em Viseu, para moderar algumas conversas com artistas no NANT - Encontro de Dança Contemporânea. O único problema foi calhar acontecer tudo ao mesmo tempo.
Esta noite dormi pouco mais de três horas e estou podre como não me sentia há muito tempo, jogada no sofá praticamente sem me mexer. Mas, apesar de tudo, é bom quando, de vez em quando, o trabalho não é só um trabalho, é também algo que nos faz sentirmos vivos, que nos desafia e nos leva a arriscar por terrenos desconhecidos, quando nos permite ultrapassar medos (e se me espalho ao comprido e só digo parvoíces em frente daquelas pessoas todas?), quando chegamos ao fim e, mesmo quando temos capacidade de auto-crítica para percebemos onde errámos e onde poderíamos ter feito melhor, sentimos que o balanço até é positivo (e, que alívio, afinal, não nos espalhámos ao comprido). E no meio disto, reencontrei algumas pessoas de que gosto muito e conheci pessoas novas, muito fixes, que quero manter por perto.

Na foto, na conversa com a fantástica Piny. Acho que aquele sorriso diz tudo. Não fui feita para o palco, isso é certo, mas talvez possa aprender a gostar disto em doses moderadas.
Ver Anne Teresa de Keersmaeker a dançar com 61 anos é uma pequena maravilha. Saio dos seus espectáculos sempre com uma alegria profunda e uma crença enorme no mundo. Contra todos os puristas e perfeccionistas, que acham que a dança deve ser avaliada pelo seu virtuosismo, cheia de movimentos muito bem executados e sincronizados, os últimos espectáculos de Anne Teresa parecem ter sempre um certo grau de imperfeição. E de humanidade.
Ontem fui à Gulbenkian ver e ouvir as suites de violoncelo de Bach, dançadas pelos bailarinos da companhia Rosas e interpretadas pelo músico Jean-Guihen Queyras (tão boa a música, tão bom o músico). Uma hora e meia de puro deleite. Esqueci-me de tudo e sorri o tempo todo por baixo da máscara.