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Quando a habitação deixa de ser vista como um lar de alguém e passa a ser vista como "um activo financeiro", as pessoas deixam de ser vistas como pessoas e passam a ser empecilhos, obstáculos a grandes negócios, gente sem nome que é preciso expulsar rapidamente para se poder ganhar mais dinheiro. É isto que está a acontecer actualmente em Lisboa: aquilo que devia ser um direito básico de qualquer pessoa passa a ser um luxo apenas acessível a alguns. E, por arrasto, estraga-se uma cidade.

Não sou muito adepta de discursos radicais, não venho aqui dizer que as casas deveriam ser gratuitas e que toda a gente tem direito a um T3 no Saldanha. Mas há mínimos. E esses mínimos estão a ser ultrapassados em Lisboa, onde o boom turístico, a especulação imobiliária, o crescimento dos mercados do "arrendamento curto" e do luxo, a falta de regulamentação e a muita corrupção estão a pôr em causa a capacidade de muitas pessoas para pagar uma casa. E, reparem, eu já nem estou a dizer para terem uma casa. Não se trata sequer de ser proprietário (ainda que eternamente devedor ao banco). Trata-se apenas de conseguir pagar a renda de uma casa para morar. E já nem estou a falar do direito a permanecer na casa ou no bairro onde sempre moraram, junto das pessoas que conhecem, integrados na sua comunidade. É mesmo só ter um teto, sabem?, uma cozinha, um esquentador, essas coisas básicas.

É disto que fala o filme O que vai acontecer aqui?, do colectivo Left Hand Rotation, que estreou esta semana no DocLisboa mas que está disponível na íntegra online. Este é o trailer:

Eu sei que ao verem este filme algumas pessoas vão achar que esta realidade não é a sua. Às vezes temos dificuldade em sair do nosso lugar de privilégio. Mas é necessário que o façamos. Pois a verdade é que já não estamos só a falar de uma margem da sociedade, estamos a falar de trabalhadores (se preferirem, da classe média). De pessoas que vivem do seu ordenado num país onde o salário mínimo é de 600 euros e o ordenado médio é de 943 euros (brutos). E mesmo que ganhem um pouco mais é complicado. Já viram os preços das casas? 

Se pensam que ficar sem casa é coisa que acontece só aos outros, imaginem o que seria se, um dia, a empresa onde trabalham entrasse em falência e ficassem desempregados aos 40 anos, ou se se divorciassem e tivessem que procurar uma outra casa e pagar a renda (e todas as outras despesas) sozinhos, ou se, de repente, for a vossa a casa a ser vendida para ser transformada num hostel.

Ou até uma situação menos dramática: todos nós conhecemos histórias de pessoas que, nos últimos anos, tiveram de sair da sua casa devido ao súbito aumento da renda. Deixaram o centro da cidade e mudaram-se para as periferias, para os arredores, para a outra banda, para algum sítio onde os preços das casas ainda são acessíveis - até deixarem de ser, porque a lei do mercado funciona assim e quando a procura aumenta os preços também aumentam. E também não sei se já ouviram falar da falta de professores nas escolas da Grande Lisboa - porque é tão caro mudar para aqui que, feitas as contas, os professores preferem ficar onde estão, sem trabalhar e sem receber o seu miserável ordenado.

Isto está tudo ligado. Os velhinhos da Mouraria e os professores que não querem vir para Lisboa são todos vítimas desta mesma situação. Estamos todos a ser expulsos da cidade. E ainda só estou a falar das pessoas, mas não podemos deixar falar das consequências disto para as cidades.

Sobre esse assunto, porque isto não está a acontecer só em Lisboa e porque é mesmo algo que nos devia preocupar, aqui fica mais um trailer de um filme que ainda não estreou em Portugal e ainda não vi mas sobre o qual estou bastante curiosa: Push, de Frederik Gertten.

publicado às 17:53

02
Abr17

O impossível

Se depender da minha habilidade para os negócios e, sobretudo, para me vender (no bom sentido, saber promover e vender o meu trabalho) nunca mas mesmo nunca irei ficar rica.

Isso é mau, obviamente. Eu adoraria ser rica. 

Mas eu adoraria ser rica continuando a ser exactamente assim como sou.

publicado às 23:50

Esta é aquela altura do ano em temos de pagar o IMI e o seguro do carro. Não vamos pensar muito nisso. Esta é aquela altura do ano em que o nosso calendário familiar, que está pendurado na porta do frigorífico, vai já até agosto e à palavrinha mágica: férias. É aquela altura do ano em que olhamos para os dias que aí vêm e vemos muitos testes e muitos trabalhos para entregar, mas também vemos feriados, festas de aniversário, semanas de praia, semanas de campo, torneios de futebol e dias de sol que iremos aproveitar o melhor que soubermos. É aquela altura em que, mesmo sem termos dinheiro para nada, começamos a sonhar com todas as coisas que gostaríamos de fazer e todos os locais que gostaríamos de visitar. Se não for este ano é no próximo. Ou no outro. Isso é certo. Temos um mealheiro que tarda em ficar cheio e temos um objectivo mais ou menos realista a cumprir: uma pequena viagem daqui a dois anos, quando o Pedro terminar o 4º ano, ainda não sabemos muito bem aonde. Eu gostaria que fosse a Londres mas os putos não estão convencidos, parece que preferiam algo com montanhas-russas e assim. Olhar para um calendário e sonhar também é uma maneira de sermos felizes.

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publicado às 17:19

10
Abr15

Remendos

Tornei-me especialista em colocar joelheiras nas calças dos miúdos. Primeiro, coso o rasgão. Depois, aplico a joelheira com o ferro de engomar. Finalmente, coso a joelheira toda a volta (a experiência diz-me que se não o fizer aquilo acaba por descolar em pouco tempo). Quase todas as calças do mais novo têm joelheiras. Não sei se poupo grande coisa, se me esforçasse acho que hoje em dia encontraria calças bastante baratas para substituir as rasgadas e não teria este trabalho todo. Mas prefiro gastar o meu tempo na costura do que nas lojas. Descobri que costurar, tal como cozinhar, é relaxante. Já ir às compras é um martírio. E, depois, é quase uma questão ideológica. As calças remendadas dos meus filhos revelam muito daquilo que somos cá em casa.

publicado às 11:01

Fomos ao banco depositar a nossa fortuna. Os miúdos tiveram alguma dificuldade em perceber por que raio iamos guardar o nosso dinheiro no banco se depois íamos precisar dele (eu própria, nos dias que correm, também tenho alguma dificuldade em perceber para que servem os bancos, mas enfim). Dei-lhes a única explicação possível: as moedas eram muito pesadas para as levarmos na mala para Paris. Assim, demos as moedas ao banco e, quando precisarmos, vamos buscar notas às caixas multibanco.

Ah, disse o António.

Pois, disse o Pedro.

É que esta história do mealheiro tinha também um objectivo educativo. Por um lado, sabíamos para o que estávamos a poupar e todos nós pusemos lá dinheiro, de boa vontade e até com uma certa alegria, ao longo de dois longos anos. Pode até custar um bocadinho mas vale a pena. Esta foi a lição de poupança número um. E, no final, com esta ida ao banco, queria que eles percebessem o mistério das caixas multibanco que só "dão" o dinheiro que nós lá pomos. "E se nós não tivermos lá dinheiro nosso, os multibancos não dão nada", concluí eu. Esta foi a lição de poupança número dois.

E consegui dizer isto tudo sem me rir.

publicado às 21:09

Não estamos, é pena, mas acho que os miúdos nunca tinham visto tanto dinheiro e ficaram maravilhados. Partimos o mealheiro que temos há dois anos e ficámos bem contentes: conseguimos juntar 275 euros em moedas e ainda encontrámos umas notinhas muito simpáticas que foram oferecidas pelas avós nos aniversários e que nos vão dar imenso jeito para comprar uns croissants e umas baguetes em Paris.

 
Na feira de setembro vamos comprar um mealheiro novo e começar a sonhar com a próxima viagem.

publicado às 16:38

Com o que gastei no hospital da luz e na farmácia bem que poderia, à vontade, ter comprado os livros que tanto queria. Mas não se pode ter tudo, não é? Para já, vamos concentrar-nos em acabar com a tosse.

publicado às 19:25

Também é mais ou menos como o diz o Eduardo Pitta:
 
O cabeleireiro mais obscuro senta os clientes em cadeiras de design italiano. Restaurantes fashion cobram 50 euros por gororobas sem nome.


publicado às 12:06

De vez em quando lá vem a frase. Quando vieste para o jornalismo já sabias que era assim, se querias ter uma vida normal devias ter escolhido outra profissão. A frase aparece normalmente às seis da tarde quando me vêm dar mais trabalho e eu digo que estou mesmo de saída. Ou quando são sete e eu já estou que nem posso e respondo mal a toda a gente. Quando quiseste ser jornalista já sabias.
Já sabia?
Por acaso não, não sabia. Lembro-me que foi em 1989 e o muro tinha acabado de cair e eu olhei para a televisão e pensei isto é que devia ser mesmo fixe, estar ali, onde as coisas acontecem. Não me ocorreu que aquilo eram horas de jantar e que para estar ali, onde as coisas acontecem, não ia estar em casa a comer sopinha. Mas talvez fosse porque ainda só tinha 14 anos e também jurava a pés juntos que nunca me apanhariam de aliança e tinha a certeza absoluta que ia ser podre de rica. Eu via os sinais do tempo na televisão e lia a grande reportagem e a revista do expresso e o independente e o público - estava eu no 11º ano quando saiu o público e foi um acontecimento, comprava todos os dias e, quando gostava mesmo de uma reportagem, recortava-a e guardava-a num dossier, as minas em áfrica, o orfanato na roménia, a perestroika, a guerra do iraque (a primeira), as chuvas na índia. E eu a sonhar em estar ali, onde as coisas acontecem. Tanta profissão bonita. Podia ter sido secretária, cabeleireira, funcionária da biblioteca, contabilista, professora, engenheira, advogada. E fui logo escolher esta. Não, não sabia. Malditos sejam o miguel sousa tavares e o miguel esteves cardoso, o barata feyo e o carlos fino, o pedro rosa mendes e o luís pedro nunes, o paulo moura e o vicente jorge silva, o adelino gomes e o josé pedro castanheira e todos os outros que me fizeram pensar que ser jornalista é que era. Todos homens. Eu devia ter percebido que havia algo errado.
Mas não sabia. Nem mesmo quando entrei para a faculdade e comecei a pensar mais a serio nisto tudo. Ninguém me disse que eu ia ter que trabalhar fim-de-semana sim, fim-de-semana não. Nunca imaginei que o trabalho só começasse verdadeiramente lá para as quatro. Não me ocorreu que as creches fecham às sete da tarde. Nem mesmo, vejam só a minha ingenuidade, nem mesmo quando comecei a trabalhar e percebi que toda a gente entrava depois do almoço e só saía às tantas da noite. Eu tinha 22 anos e tinha muito tempo. Eu também podia trabalhar até às quinhentas e nem precisava de folgar, para quê?, eu era nova e estava cheia de pica. Nem parei para pensar como é que eles fariam para estar com os filhos. Posso até ter dedicado uns minutos ao assunto, vá, para concluir que o melhor era ter uma empregada, de preferência interna, o que iria ser fácil porque eu ia ser muita boa e ganhar pipas de massa. Claro.
Pois é, a verdade é que eu não sabia. Burrice minha, é óbvio. Ninguém tem culpa. Mas, se eu soubesse, se eu soubesse alguma vez me teria metido nesta vida?
Há dias em que só me apetece mandar isto tudo pro espaço, é o que vos digo. E é porque sou uma rapariga bem educada.

publicado às 21:29

05
Ago08

Realidade

Todas as semanas tiro roupa da gaveta. O bebé cresce tanto - tem dois meses e meio e a roupa de seis meses já não lhe fica nada grande - que, todas as semanas, há roupa que deixa de servir. Vou guardando bodies, calções, blusinhas num saco e depois noutro e agora já tenho um terceiro saco cheio de roupinhas que já foram dos meus dois filhos e a seguir... vão ser de quem? Vou esperar mais uns tempos, pode ser que alguma das minhas amigas engravide por estes dias (ouviram? hein? alguém?), gostava de oferecer a alguém especial os lençóis que a minha mãe bordou num ponto-de-cruz perfeito, o fatinho de marinheiro oferta da minha madrinha, os bodies tão pequeninos que só foram usados meia dúzia de vezes. Mas se não houver ninguém pego nos sacos e levo-os a alguma instituição. Não adianta ficar com eles por aqui. Não haverá mais bebés nesta casa. A decisão está tomada há imenso tempo. Não que eu não quisesse outro bebé (só mais um ou uma...) mas porque, vistas bem as coisas, não pode ser, não há condições, não há, infelizmente, dinheiro. Eu já conheço os argumentos. Que o mais importante é haver amor. Que os nossos avós e os nossos pais sobreviveram com muito menos do que nós temos hoje em dia. Que quando se quer mesmo uma coisa arranjamos maneira de a conseguir. Pois eu não consigo. Já dei voltas à cabeça, já fiz todas as contas, já considerei todas as hipóteses. Assim como estamos já vai ser suficientemente complicado, com mais uma criança nem consigo imaginar. Além de que, para não darmos todos em loucos, se tivéssemos mais um filho o ideal seria ter uma casa um bocadinho maior (um quintal, isso é que era) e, claro, ter uma empregada. Ah, e já agora, dava jeito ter uma vida menos stressante. Ter uns horários decentes. Ter os avós sempre por perto. Essas coisas. Nada disso vai acontecer. Não haverá euromilhões, nem aumentos salariais. Daqui a uns tempos volto ao trabalho. E não haverá avós nem tios nem primos por perto que nos salvem, pelo contrário, parece que a família vai estar cada vez mais longe e que vamos estar cada vez mais só nós - só nós os quatro e havemos de nos aguentar, terá que ser. Por isso, mais vale ir dobrando a roupa, enchendo o saco, pensando bem a quem vou oferecer fraldinhas e toalhas com capuz, casaquinhos de lã e botinhas minúsculas (alguém? hum?).

publicado às 10:03


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