Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


I

Houve por aí grande "polémica" (polémica entre aspas que isto as polémicas do twitter e dos articulistas dos jornais raramente interessa ou sequer chega à maioria das pessoas, é uma polémica numa bolha) sobre se se deve dizer mulher ou "pessoa que menstrua" ou "pessoa com útero". Os conservadores vão às aranhas e vêm logo com pedras na mão, ai a cultura woke, oh da casa, que é um ultraje. Mas não há motivo para tanto. De onde eu vejo isto é muito simples. As expressões não são sinónimas nem sequer equivalentes. Há alturas em que se deve dizer mulher, há outras alturas em que será mais correcto dizer pessoa que menstrua ou pessoa com útero. A sério. Não andámos aqui durante anos a lutar pela distinção entre sexo e género, a defender que as pessoas não se definem pelos órgãos que têm no corpo, para agora voltarmos tudo atrás.

Há pessoas (poucas, mas há) que menstruam ou que têm útero e que não são mulheres - estamos a falar de homens transgénero que não fizeram a transição ou de pessoas não-binárias.

Há mulheres (muitas, muitas mais do que se imagina) que não menstruam. Desde logo as raparigas, que são crianças ainda, sim, mas são mulheres no género. Depois, as mulheres que devido a algum problema de saúde não menstruam. As que usam métodos contraceptivos que inibem a menstruação. As grávidas. As mulheres trans. As que já estão na menopausa.

Portanto, haverá situações onde é importante saber que estamos perante uma pessoa que menstrua ou que tem útero, ainda que não seja uma mulher. Por exemplo, em contexto clínico essa informação é relevante. Lá porque se chama José e se apresenta como homem, é importante que os médicos entendam o seu corpo como ele é.

E há situações onde a palavra a usar é mulher e pronto. 

Eu sou uma mulher. Sem útero. Sem menstruação. Mas mulher. Era o que faltava permitir que uma cirurgia viesse definir aquilo que sou.

 

II

Quero agradecer a todas as pessoas que enviaram mensagens, que telefonaram, que quiseram saber, que mandaram miminhos, que partilharam comigo a sua história ou a história de mulheres que conhecem. É muito importante saber que não estou sozinha nisto. É muito gratificante perceber que as palavras que escrevo aqui fazem sentido para outras pessoas. E fico muito feliz se contribuí, ainda que de forma ínfima, para que alguma mulher se sinta mais acompanhada ou mais confiante para poder abordar este tema com o seu médico.

Algumas pessoas ficam surpreendidas e perguntam-me como é que consigo falar de coisas tão íntimas, se não tenho vergonha de me expor. O que posso dizer? Não foi sempre assim, mas cada vez me preocupo menos com o que é que as outras pesssoas pensam de mim. Acredito verdadeiramente que é muito importante falarmos abertamente sobre estes e sobre todos os assuntos. Temos mesmo que perder a vergonha que nos impingiram ao longo de séculos de patriarcado. Até porque, se pensarmos bem, não há motivo nenhum para ter vergonha. 

Entretanto, a médica diz que está tudo a correr bem e que posso retomar a minha vidinha normal, ainda que com alguns cuidados. Parece que sempre vou conseguir aproveitar uns dias de praia antes do famigerado regresso às aulas. Só o Bandido vai ter saudades dos dias no sofá.

IMG_5816.jpg

publicado às 11:35

IMG_5779.jpg

Odeio anestesias. Lembrava-me perfeitamente das duas anestesias gerais que levei em criança. Lembrava-me da sensação de vazio que senti ao acordar. A sensação de ter perdido aquelas horas da minha vida. Não, não é como dormir. É como um salto no tempo. Um tempo que é como se não tivesse existido. O mais parecido, imagino eu, com a morte. Odeio anestesias e quando a médica me falou a primeira vez na hipótese da cirurgia foi só isso que me amedrontou, esse medo inexplicável de um sono tão pesado que não permite sonhos nem memórias nem nada, esse salto no vazio absoluto, essa sensação de morte. Fiz-me de forte. O medo era (como quase sempre) irracional, e eu sou uma pessoa bastante racional.

Há uma semana fui internada. Foi o António que me levou, contando piadas para disfarçar os nervos. Cada um tem a sua maneira de lidar com as situações de tensão e no caso dele é dizer parvoíces e manter aquele ar blasé, de chinelo no pé e sorriso na cara, como se não fosse nada. Tinha explicado aos rapazes todo o procedimento e o que me levou até ele. Faço questão de ser honesta com os miúdos sobre todos os assuntos, tentando ao mesmo tempo poupá-los a preocupações desnecessárias. É um equilíbrio nem sempre fácil de conseguir. Quando fiquei sem emprego ou quando a minha mãe adoeceu, por exemplo, senti que eram temas demasiados importantes para não serem falados, afinal, também faz parte do crescimento perceberem que existem problemas e que temos de lidar com eles da melhor maneira possível. Neste caso, não havia mesmo por que ficarem preocupados. A coisa era bastante simples.

A cirurgia - histerectomia total laparascópica por via vaginal - apresentou-se como a melhor solução para um problema que me atormentava há pelo menos dois anos: uma hemorragia constante e de grandes dimensões que não dava mostras de ceder à medicação. O meu médico anterior, um tipo simpático e de quem não tinha queixas até ao momento, não revelou qualquer empatia pela situação. "É só sangue", disse-me, como se eu me estivesse a queixar sem motivo, explicando-me que são coisas normais nesta idade e que o que tinha a fazer era aguentar até à menopausa. Eu aguentei durante algum tempo mas depois decidi procurar outra médica. Às vezes, a única coisa que queremos dos médicos é que nos ouçam, que valorizem aquilo que dizemos. Se eu digo que não estou bem é porque não estou bem, não é porque sou uma mulher histérica. As mulheres sangram todos os meses durante grande parte da sua vida. Aprendemos a viver com este desconforto. Mas houve um momento em que aquilo começou a perturbar-me realmente. Sangrar dias e dias seguidos, sangrar de maneira incontrolável é viver em permanente estado de alerta, sem saber se vou estar toda suja quando me levantar da cadeira, se vou ter que trocar outra vez os lençóis, se tenho tampões e pensos que cheguem para o dia, se vou ter forças para ir trabalhar, se me vai apetecer sequer sair de casa. O sangue afetou a minha vida e a minha auto-estima, deixou-me insegura, suja, cansada, envergonhada e, no fim de contas, doente, uma vez que fiquei com uma anemia brutal. A nova médica ouviu-me com atenção e mandou-me fazer alguns exames. "Vamos tentar resolver a situação", garantiu-me. E acho que só por isso senti-me logo melhor. Reencaminhou-me para outra médica, mais especialista. O que se concluiu foi que sim, estava na perimenopausa, e as hemorragias abundantes são parte dos sintomas desta fase, e que também tinha vários miomas, um deles, pelo menos, de grandes dimensões, que também provocavam hemorragias. Tudo coisas inofensivas. Perante isto, tinha duas soluções: continuar com a medicação para controlar as perdas (depois de várias experiências, chegámos a um cocktail de comprimidos diários que não resolviam completamente o problema mas tinham-no tornado suportável) até que fosse necessário, o que poderiam ser alguns meses ou alguns anos, ou fazer a cirurgia e acabar com isto de uma vez. Fui eu que optei por esta solução.

Percebi, nestes últimos tempos, que há inúmeras mulheres a passarem pelo mesmo que eu. Mulheres que sangram, que sofrem, que choram, que se encolhem, que dormem de fraldas, que desesperam. Nunca ninguém me tinha falado disto. Falam dos calores e que se engorda, que se envelhece e pronto. As mulheres sempre foram muito boas a esconderem as suas dores. Mas quando eu comecei a desabafar logo houve quem dissesse eu também e ela também e vai-se a ver éramos muitas. Não me serviu de consolo. Não foi uma decisão leviana. Sei que não é consensual, mas não me apetece agora estar a justificar-me. Tive dúvidas, claro. Mas decidi. Pode ser que me arrependa um dia destes. Não há como saber. Não há soluções mágicas, há apenas soluções que, para cada um de nós, naquele momento, nos parecem melhores.

Eu estava calma. Descobri há já algum tempo que tenho esta capacidade de me manter calma em situações adversas. Não quis tomar nenhum calmante, entrei desperta na sala de operações, falei com toda a gente, e no momento de me darem a anestesia, quando senti aquele fresquinho a entrar-me pelo braço, ainda tive tempo para pensar "que maluqueira, maria joão, o que é que tu estás a fazer?"

Logo a seguir estava a acordar. Outra vez a sensação de vazio. O salto no tempo. A morte ali tão perto. A cabeça tonta, as náuseas, aquela desorientação inicial. Caramba, porque é que me meti nisto? Instintivamente levei a mão à barriga, só para confirmar que tinha tudo corrido como planeado, e fiquei imediatamente mais descansada: nada de pensos nem cicatrizes. "Correu tudo bem?", perguntei a um enfermeiro (tenho um carinho enorme pelos enfermeiros, as pessoas que nos cuidam nos momentos em que estamos mais frágeis). Nas horas seguintes esteve tudo muito nublado.

Ligaram ao António a avisar que eu já estava no quarto e vinte minutos depois estavam os dois ali a olhar para mim. O António a falar sem parar, o Pedro muito sério, muito calado, muito Pedro, a manter a distância. "É estranho, nunca te tinha visto assim", disse ele. Nunca tinham visto a mãe-fortaleza deitada numa cama, com soro na veia, um saco de xixi pendurado ao lado, a voz arrastada de quem ainda não está no seu perfeito juizo. Estavam apreensivos, isso era óbvio. O que terão pensado durante aquelas horas todas? Será que exigi demais deles desta vez? Será que não deveria ter permitido que viessem ver-me? 

Nessa noite, a médica apareceu para me confirmar que tinha corrido tudo bem e que, a continuar assim, teria alta no dia seguinte. A mim, ali deitada, ainda meia tonta, algaliada, incapaz de me mexer, pareceu-me um bocadinho exagerado, confesso. E, no entanto, o dia amanheceu e tudo estava realmente melhor. 

Sensivelmente 24 horas depois de ter acordado da cirurgia vim para casa pelo meu próprio pé. Apreensiva mas sem dores. Só tomei paracetamol nessa noite porque sentia um certo desconforto e não conseguia encontrar posição para dormir. Mais nada. A médica tinha razão. A medicina, de facto, evoluiu de forma incrível. Sei que existe uma cicatriz, mas é interior, não está à mostra. Sinto que fui "mexida", ainda não estou a cem por cento, mas é uma coisa mínima. Às vezes até me esqueço. E aqui estou. Com ordens para não fazer esforços, não carregar pesos, não me mexer muito. Mas também para me mexer cada vez mais. A cada dia que passa sinto-me melhor. Tenho aproveitado para ver filmes e séries, ler, pensar na vida. Tento não passar o dia a comer (um desafio e tanto). Atribuo-me pequenas tarefas (por exemplo, escrever este texto), faço planos que provavelmente nunca serão concretizados. Entedio-me. Houve ali um momento em que me comecei a enervar porque me apetecia aspirar a casa e lavar o chão, mas não podia, e os meus filhos têm sido uns queridos, lavam a loiça, levam o lixo e estão sempre a perguntar se estou bem, mas foi difícil convencê-los da necessidade de limpar a casa-de-banho. 

Um dia de cada vez. 

Já passou uma semana. Ainda só passou uma semana. Tudo depende do ponto de vista. So far so good. Não quero precipitar-me mas estou confiante e a verdade é que já só penso que ainda quero ir à praia. Espero que a médica me dê alta, espero que o verão se aguente, espero que tudo volte ao seu lugar. Não. Corrijo. Que tudo volte a um lugar melhor. Assim é que é. Muito melhor. 

publicado às 12:10

17
Nov21

Está quase

Não conheço a minha médica de família, que só está na USF há pouco mais de um ano, mas gosto de receber os telefonemas da minha velha conhecida enfermeira Guilhermina a saber como me sinto e também já reconheço a voz da Eunice, a administrativa, que me deseja sempre as melhoras. Tirando a dor de garganta e as aftas, que foram os primeiros sintomas, e, depois, aqueles dois dias de gripe que passei deitada no sofá a dormir e a ver os episódios todos do Glória, acho que até nem estive muito mal. Penso muito como seria se não tivesse levado a vacina. Estou fã dos supermercados online e do cabaz do Orgânico Lisboa que me abastace de tangerinas e romãs e mais uns legumes verdes que nem sempre sei distinguir mas ponho tudo em sopa e fica óptima. Quando é que voltas a jantar connosco?, perguntou-me o meu filho que, afinal, até sente saudades minhas. Está quase. Já estou em contagem decrescente para o fim dos dez dias de isolamento-tortura e só me apetece ir para a rua apanhar sol e vento na cara. Mas, como ainda não posso, ponho os Beatles a tocar e vou adiantando trabalho. "Jojo was a man who thought he was a loner, But he knew it wouldn't last."

Diz que vem aí a quinta vaga. Cuidem-se!

I've got a feeling, Beatles

publicado às 10:10

Há dois anos, mais ou menos, numa altura em que me senti mais em baixo, marquei uma consulta numa psiquiatra com a esperança que ela me receitasse um prozac ou coisa parecida. A médica deixou-me falar e gesticular e rir e chorar durante quase uma hora, enquanto lhe fazia um resumo da minha vida, e no final disse-me:

- A Maria João não tem uma depressão. Está sozinha com dois filhos e um deles é adolescente, não tem uma vida fácil. Mas não há comprimidos para isso.

Tive que admitir que tinha razão, claro. Não, eu não estava deprimida. Ainda. Falámos um pouco sobre estratégias para lidar melhor com algumas situações, como a solidão e a adolescência, ela aconselhou-me a voltar à psicoterapia e no final receitou-me paciência, amigos e alguma vigilância.

Não voltei lá, como era suposto. Mas vigilante me encontro. Sabendo que a vida é difícil e que os problemas existem, a grande questão é como é que lidamos com eles. Há dias em que me apetece fugir. Há dias em que me esqueço de tudo. Há dias em que só me apetece chorar. Há dias em que me sinto confiante. Há dias em que acho que estou a falhar em todas as frentes. Na maior parte das vezes, as crises duram um ou dois dias, uma semana no máximo. A vida é uma constante montanha-russa, já o sabemos, e enquanto assim for, enquanto encontrarmos maneiras de nos recompormos e tivermos energia para alavancar a subida, cá estaremos para dar luta.  

A situação agrava-se, naturalmente, quando vivemos um confinamento como este. Não podemos contar com as ajudas que costumamos ter. Para mim, os momentos com a família e com os amigos, um passeio na praia, ir ao cinema ou ao teatro, ler um livro numa esplanada. Isolada e fechada em casa, e ainda por cima sem uma ocupação, todos os problemas parecem mais graves, seja a dificuldade em educar os putos ou a falta de alguém com quem me aninhar o sofá. Enfim. Não me quero estar a queixar, não faz parte do meu feitio, e, sim, já sei, há sempre quem esteja pior. Estou só a dizer que para mim tem sido mais difícil. E que por isso tenho de estar ainda mais vigilante.

Temos todos.

Não tendo melhor para vos dar, aconselho-vos a, não havendo felicidade nas coisas grandes, procurar sempre a felicidade nas coisas pequenas. Inspirem-se, por exemplo, nas "coisas maravilhosas" do Ivo Canelas ou no David Byrne e nas suas "reasons to be cheerful".

E partilho os bons conselhos de quem sabe do assunto, sublinhando este: não tenham medo ou vergonha de pedir ajuda. Às vezes basta conversar com alguém que nos ajude a olhar para os problemas de outra maneira e que nos faça sentir melhor. Outras vezes é mesmo preciso um comprimido. 

Paula-Rego-Depression-Series-Nine-2007-pastel-on-p

Paula Rego, Depression Series, Nine (2007)

 

publicado às 20:30

Um destes dias fui à livraria Ler Devagar e não resisti a comprar um livro: My Sh*t Therapist and other mental health stories, de Michelle Thomas. Nunca tinha ouvido falar desta autora mas folheei o livro e fiquei curiosa.

Nos últimos tempos, várias pessoas à minha volta têm sofrido de depressão, ansiedade, exaustão ou "apenas" tristeza. Nos últimos tempos, percebi que várias pessoas à minha volta estão a fazer psicoterapia ou tomam medicação regularmente ou têm medicação de emergência para fazer face às dificuldades da vida.

Não é fácil falar destes problemas. Às vezes as pessoas dizem aos amigos como se sentem em baixo e ouvem frases como "isso passa", "tens de te animar", "vá, esforça-te um bocadinho". Como se fosse fácil. Como se fosse só querer. Eu também costumava ser uma dessas pessoas com pouca empatia por queixas que na maior parte das vezes não me pareciam ter grande fundamento. Mas tenho vindo a aprender a ser uma amiga melhor. A estar mais mais disponível. A ouvir. Muitas vezes não sei como ajudar, a única coisa que posso fazer é mandar uma mensagem ou telefonar, conversar um bocadinho, convidar essa pessoa para ir ao cinema, levar-lhe um bolo feito por mim e esperar que isso ajude de alguma forma (sei que a mim ajudam-se sempre o carinho e o cuidado dos meus amigos).

Michelle Thomas parte da sua própria experiência para falar das muitas pessoas que hoje em dia são afectadas por várias doenças mentais (muitas pessoas mesmo). Este não é um livro de auto-ajuda, embora só o facto dela falar deste assunto sem tabus já seja uma ajuda. Num tom ligeiro e com algum sentido de humor, ela vai-nos dizendo o que lhe aconteceu, as coisas que fez que a ajudaram e as coisas que fez que não a ajudaram (por exemplo, consultar aquele sh*t therapist que lhe disse que da próxima vez que ela tivesse um ataque de pânico deveria beber uma chávena de chá).

A primeira coisa que Michelle Thomas faz questão de esclarecer é que a doença mental é uma doença como as outras. E é como tal que deve ser encarada. Se uma pessoa partir uma perna não tem vergonha de dizer aos amigos que partiu a perna e não lhe passa pela cabeça continuar a sua vida como se nada fosse, sem ir ao médico nem tratar devidamente a perna partida. Com a doença mental é exactamente a mesma coisa. Não há que ter vergonha de admitir que se está doente e temos que tratar a doença como deve ser.

Só que a nossa cabeça é um bocadinho mais complexa do que um osso. Não só uma doença mental é mais difícil de diagnosticar (ah, isto é só cansaço, dizemos, enquanto deixamos arrastar a situação) como qualquer problema no funcionamento do cérebro afecta todo o nosso corpo - física, mental e emocionalmente. A doença mental altera a maneira como as pessoas pensam, sentem e se comportam.

*

Sim, a doença mental é uma doença de verdade e uma depressão (ou uma crise de ansiedade ou um ataque de pânico) pode acontecer até mesmo à pessoa que está apaixonada e feliz e passa férias em ilhas paradisíacas.

Mas, tal como há cuidados que devemos ter com o nosso corpo e sabemos que se comermos imensos fritos e não fizermos exercício físico teremos mais hipóteses de ter uma doença cardíaca, também há coisas que fazemos ou que nos acontecem que podem influenciar a nossa saúde mental. Coisas como insistir em ter um trabalho que odiamos. Ou ter relações com pessoas tóxicas. Ou trabalhar 12 horas por dia. Ou dormir cinco horas por noite e achar que é mais do que suficiente. Ou outras coisas. Se não estivermos bem física ou emocionalmente é mais provável que a nossa mente também adoeça.

E há coisas que podemos fazer que ajudam. Neste livro, Michelle Thomas diz quais as coisas que a ajudam e que, curiosamente, não são assim tão diferentes das minhas.

Fazer terapia. Deveríamos poder fazer terapia como quem vai ao dentista ou ao ginecologista, sem estarmos doentes (digo poder porque a terapia é muito cara). Que bom seria ter alguém que nos ouvisse, que nos ajudasse a pensarmo-nos (e a conhecermo-nos o melhor possível), que nos ajudasse a ter instrumentos para vivermos melhor a nossa vidinha (por exemplo, trabalhar a nossa auto-estima e os sentimentos de culpa) e que nos desse a mão se nos visse a afundar, sem que tivéssemos sequer que pedir.

Ter relações afectivas. A família e os amigos (e um amor, se o houver) são a minha salvação sempre. Sentir que não estamos sós, que há pessoas que gostam de nós e que se preocupam connosco faz-nos sempre bem. Por outro lado, sentir que somos úteis aos outros, cuidar de e fazer alguém feliz é também uma enorme satisfação. A vida é melhor quando a podemos partilhar com pessoas de quem gostamos. Claro que é importante aprendermos a estar sozinhos e não podemos fazer com que a nossa felicidade dependa dos outros, mas também é importante que não nos sintamos sós - a solidão é um dos sentimentos mais esmagadores que tenho experimentado.

Fazer coisas que nos dão prazer. As minhas - além de estar com as pessoas de quem gosto - são: ler, escrever (este blogue é parte da minha terapia), ir ao cinema, ver um espectáculo, cozinhar, passear, esplanadar, dançar. É importante termos coisas que gostamos de fazer, que não dependem dos outros e que nos fazem sentir bem. Como me disseram uma vez, quantas mais coisas nós gostarmos de fazer mais possibilidades temos de sermos felizes.

Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Mesmo quando tudo parece correr mal, todos os dias há coisas boas na nossa vida. Talvez se lhes dermos o devido valor, isso nos ajude a enfrentar as coisas más.

*

Eu nunca tive uma depressão nem qualquer outra doença mental mas sei que a qualquer momento posso ter um breakdown, que não sendo a mesma coisa pode ter efeitos devastadores. Isto é tudo muito frágil e a vida é complicada, é fácil sentirmo-nos assoberbados. Sei que tenho as minhas fases más. Conheço os meus sintomas. Há momentos em que nada parece fazer sentido e em que me sinto a afundar, como se não conseguisse manter-me à tona. Mas, de alguma forma, lá encontro forças para dar mais umas braçadas e, felizmente, até agora, tenho tido o discernimento para tomar as medidas necessárias sempre que me senti a perder o pé. Mas mantenho-me atenta. 

Cada cabeça é uma cabeça, por isso as respostas não são iguais para todos. Mas, por outro lado, as cabeças são todas muito mais parecidas do que imaginamos. Não estamos sozinhos nisto. Portanto, como insiste a Michelle Thomas, estejam atentos aos sinais e não tenham medo de pedir ajuda. 

A Little Help From My Friends, The Beatles

publicado às 17:11

15
Mai18

Comprimidos

Estive a ver o documentário Take your pills: receita para a perfeição, de Alison Klayman, sobre o uso e abuso de Adderall e outras anfetaminas, uma realidade que me tinha passado completamente ao lado. Já tinha ouvido falar do excesso de medicação de Ritalina para o défice de atenção mas isto vai muito além. Aparentemente, há miúdos nas universidades e adultos com profissões variadas que tomam Adderall para se conseguirem focar melhor, melhorarem o seu desempenho e trabalharem durante mais horas seguidas. É muito impressionante. E depois há também aqueles que têm verdadeiros problemas de atenção e precisam de Adderall apenas para funcionarem normalmente (e podemos questionar o que é isto de ser normal e se é assim tão necessário sê-lo). 

 

São coisas que me põem a pensar. Eu, que sou aquela pessoa que nunca tomou um comprimido para dormir, um calmante, um anti-depressivo, que nunca experimentou qualquer tipo de droga nem sequer alguma vez deu uma passa num charro (podem rir-se à vontade que eu não me importo), e que a única substância que toma, de vez em quando, é um copo de vinho ao jantar ou um gin tónico numa noite com amigos, eu fico fascinada a tentar perceber estes fenómenos. Há uma das raparigas no filme que diz que como o Adderall não é uma droga recreativa, é algo que as ajuda a trabalhar, as pessoas tendem a achar que não há nada de errado em tomar aqueles comprimidos. E se pensarmos bem nisto é verdadeiramente assustador: estas pessoas drogam-se não para serem mais felizes ou para fugirem dos problemas da sua vidinha, como acontecia antes, mas, pelo contrário, para poderem trabalhar mais, para serem mais competitivos e ganharem mais dinheiro. E isto diz muito sobre os tempos em que vivemos.

publicado às 16:15

O meu primeiro médico de família, em Lisboa, era um daqueles médicos mais antigos, super experientes. Foi ele que me passou as receitas das análises, todos os meses, nas duas gravidezes. Aproveitava que tinha ali uma pessoa saudável e bem disposta à sua frente para desanuviar das consultas dos velhinhos, dizia, e ficávamos imenso tempo a conversar sobre política e saúde e jornalismo. Quando ele se reformou, fiquei sem médico de família. Fiz um requerimento e passei para a unidade de saúde familiar mais próxima. Eu adoro a minha USF. Fomos sempre atendidos com toda a atenção lá, quer pelas administrativas quer pelas enfermeiras, nada daquele ambiente caótico do centro de saúde onde as pessoas se degladiavam por uma senha às oito da manhã. Mas com a médica de família nunca tive grande empatia, sempre muito enjoadinha, quase nem olhava para mim. Um dia, apareci lá com uma tosse cavernosa que se arrastava há que tempos. Disse-me que era uma faringite. Uma semana depois voltei para lhe pedir uma baixa, com o diagnóstico de pneumonia confirmado num hospital particular. Comecei a ser seguida por um pneumologista no privado e não fiquei com grande vontade de lá voltar. Continuámos a ir à USF fazer as vacinas, trocar pensos nas cicatrizes das crianças e essas coisas, e apercebi-me que a minha doutora estava de baixa. Passaram-se meses, anos talvez. Até que, finalmente, tenho uma nova médica de família. Fui convocada para uma consulta, caso contrário perdia direito à médica. Lá fui. E adorei. Fiquei mesmo contente. Tive direito a exame ginecológico, pedido de análises de rotina, referenciação para uma consulta de alergologia, conversa sobre tudo e mais alguma coisa, um mail para escrever sempre que precise, e uma convocatória para voltar daqui a três meses com a família completa. 

A parte pior foi, dois dias antes do natal, ser intimada a perder peso. Pela minha saúde e pela minha felicidade, diz ela. Eu concordo, mas isto vai custar-me horrores. Segunda-feira começo a pensar nisso, ok?

publicado às 13:06

21
Jun15

A feijões

IMG_1238.JPG

E se só tivermos feijões enlatados jogamos a bonecos, que é quase a mesma coisa. Hoje, além da memória também houve bingo. E em vez de gelados fizemos crepes. Mas de resto foi mais ou menos igual. Na televisão houve atletismo e futebol. Fiz uma arrumação "daquelas" no quarto dos miúdos. E o momento alto do dia foi quando fizemos a mala para a primeira semana de campo do Pedro. Uma emoção. Ao jantar alguém comentou "este fim-de-semana foi muito longo". Foi mesmo. Para compensar, palpita-me que a próxima semana vai passar a correr.

publicado às 21:28

IMG_1232.JPG

Memória, uno, peixinho, playstation, tablet, desenhos animados, corridas de motos e basquetebol (nos canais de desporto), pinturas com aguarela, limonada, gelados caseiros e conversas parvas (muitas). E calor. Amanhã há mais.

publicado às 22:28

19
Jun15

Outra vez

Outra vez?, perguntam-me. Sim, outra vez. Mas... como? O António caiu no recreio e teve de levar cinco pontos no joelho. Outra vez. Outra vez o choro, outra vez no hospital a dar-lhe mão, outra vez as muletas, outra vez os banhos checos, outra vez as visitas ao centro de saúde para mudar o penso dia-sim, dia-não. Outra vez?, perguntam-me. Mas os teus filhos não páram? Não, aparentemente não. Não sei como fazê-los parar. Eles são assim. Sempre a correr, a saltar, a experimentar, a lutar, a desafiar. Caem, magoam-se, levantam-se. Têm as pernas cheias de nódoas negras, arranhões e feridas várias. E têm azar, também. Cada um deles já foi cosido duas vezes (o António duas vezes na mesma perna; o Pedro na perna e na cabeça). Cicatrizes para a vida. Ah, desta é que ele vai aprender, vais ver, dizem-me os mais optimistas. Mas os meus filhos não aprendem. Não sei como ensiná-los. Voltam a correr, a saltar, a cair, a aleijar-se. Repito para mim que até agora não aconteceu nada de realmente grave, repito para mim que eles são crianças, que é bom que se mexam, que estas coisas acontecem. Então porque me sinto culpada sempre que alguém faz aquela cara e me pergunta: outra vez?

publicado às 15:31


Mais sobre mim

foto do autor