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O Pedro viu o anúncio na televisão e pediu: podemos ir, mãe? Eu nem tinha sugerido nada porque já tínhamos visto os Stomp há seis anos (já seis anos? o tempo passa depressa), mas a verdade é que ele era ainda pequeno e por isso tinha memórias um pouco difusas. Além disso, uma pessoa não se cansa de ver os Stomp, não é? Eu já os vi três vezes e continuo a adorar. Então, em vez de estudar a fotossíntese, como planeado, deixámos um jogador de futebol lesionado em casa a estudar (ou a jogar playstation, nunca o saberemos) e lá fomos os dois. 

Sorrimos durante uma hora e quarenta minutos. Que alegria. Que alegria a dele. Que alegria a minha, com o espectáculo mas também por vê-lo assim feliz.

Ao longo do espectáculo, apercebi-me de outra coisa: os intérpretes, além de extraordinários e também eles felizes por estarem ali, são um grupo diverso, composto por gente de todas as cores, homens e mulheres, altos e baixos, gordos e magros, com muitas tatuagens e penteados divertidos. É bom ver a diversidade no palco. A mensagem que isto transmite aos miúdos é que qualquer um deles poderá um dia também estar no palco (ou onde quiser estar). Não é preciso corresponder a um esteoreótipo qualquer para fazer algo belo e ouvir aplausos. Podemos dizê-lo muitas vezes mas nada como vê-lo para que a lição fique bem sabida.

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Os Stomp estão no Teatro Tivoli, em Lisboa, até 29 de março. Se ainda não os viram, aproveitem que é mesmo fixe.

publicado às 16:40

No outro dia fomos ao cinema ver o 1917. Eu e os meus dois filhos.

É engraçado. Para o António ir ao cinema não é sequer uma hipótese de programa com os amigos. Os amigos servem para jogar à bola ou playstation ou para ficarem horas a fio na conversa, a dizer parvoíces e a deambular por aí. Ir ao cinema? Eles estão habituados a ver os filmes e as séries nos telemóveis (ou, na melhor das hipóteses, no computador), com phones nos ouvidos, sozinhos. É uma experiência completamente diferente da que eu tive, quando ir ao cinema ao sábado à noite era não só a única maneira de ver algum filme como era também a única coisa que havia para fazer com os meus amigos. Já para estes miúdos, ir ao cinema é um desperdício de tempo útil com os amigos (certamente porque ainda não descobriram as maravilhas do "escurinho do cinema") e um desperdício de dinheiro. Uma pessoa argumenta com a qualidade da imagem e do som mas não é fácil. Talvez tenham de crescer mais um pouco.

De maneiras que, por agora, parece que ir ao cinema é um programa com a mãe. Uma coisa de cota. Que seja. Não me parece mal se isto se tornar "a nossa coisa em conjunto". Apesar de cada vez ver mais filmes em casa (é inevitável) eu gosto muito de ir ao cinema. E mal posso esperar pelo momento em que poderei ir com eles ver todos os filmes. Neste momento estamos numa fase complicada. O António já poderia ver tudo mas o Pedro ainda só tem 11 anos -  ele é um valente e não protesta nem mesmo quando numa das nossas noites de cinema em casa vemos o Platoon e ele não percebe grande parte do que se passa. Mas, ainda assim, não convém exagerar. Gostou do 1917, não se queixou nem se aborreceu, mas pediu para da próxima vez irmos ver um filme "de acção". É justo.

Isto tudo é só um pretexto para dizer que o meu filho mais velho fez 16 anos. Ele não gosta de tirar fotografias e mesmo quando me deixa fotografá-lo não me deixa partilhar as fotos. E também não gosta muito que eu escreva sobre ele. Tenho que respeitar. Por isso só posso dizer-vos isto: o meu filho fez 16 anos e tem sido o maior desafio da minha vida. Em bom e em mau. Aliás, isto de ser mãe sozinha de dois rapazes tem sido uma aventura e pêras, uma daquelas coisas que só quem passa por elas é que pode entender. Um dia, quando isto tudo passar, talvez vos conte. 

Por agora fiquem a saber que fomos ao cinema os três ver um filme de adultos. Não foi a Velocidade Furiosa nem o Homem Aranha. Foi um filme de crescidos, escolhido por mim. E isso, parecendo tão pouco, deixa-me muito feliz. São assim, tontas, as mães.

publicado às 16:29

30
Dez19

Best of 2019

Foi, genericamente, um ano mau. Não tão mau quanto 2012. Mas provavelmente pior do que todos os outros. Ou então é porque ainda está tudo muito fresco na minha cabeça. Mas estou em crer que não. Este foi o ano em que me senti mais frustrada no meu trabalho. Este foi o ano em que me senti mais frustrada como mãe. Este foi o ano em que me senti mais sozinha do que nunca e em que a única pessoa que me fez cócegas no coração não se apaixonou por mim, o que também me fez sentir frustrada. O que, vendo bem, é o retrato perfeito da minha vida, toda ela muito mais ou menos. Muito assim-assim. Muito nada de especial. Não quero ser injusta. Sei que tenho uma família que me apoia e me ajuda em tudo. Sei que tenho amigos dos bons. Sei que tenho muita sorte porque não temos doenças graves e este ano não perdi ninguém. Sei que tenho uma casa pela qual pago um preço justo e tenho um emprego que, até ver, me vai dando para pagar as contas. Sei que tenho dois filhos lindos que amo até ao infinito e mais além. Mas no momento em que me sento a fazer um balanço deste ano que passou não consigo sentir-me feliz. Pelo contrário. A única palavra que me ocorre é frustração. E só não faço deste um post de lamentações porque quero acabar o ano como o comecei: a pensar em coisas boas. Vou fixar-me nelas. Vou reviver todos os momentos bons de que me lembrar e fazer deles as minhas passas da meia-noite (as passas que eu nunca como à meia-noite porque só gosto de passas misturadas com comida, se calhar tem sido esse o meu erro). 

Para memória futura, o meu melhor de 2019 há de ser qualquer coisa como isto:

Os dias em que não me zango com eles.

Aquela tarde a beber chá na cama da Aline.

O jardim da Gulbenkian.

Os beijos.

E os abraços.

Fazer bolos.

Um jantar inesperado no indiano com a Sónia C.

A alegria do Pedro no parkour.

Cantar a Valsinha de mãos dadas.

Chegar ao final de mais um ano lectivo.

As férias.

Almoçar com o João Miguel.

O António está mais alto do que eu.

O Panorâmico de Monsanto.

O almoço no terraço da Sónia.

Na esplanada com a Ângela.

Os vários jantares com elas (all aboard ou lá o que é).

Aquela noite com a Paula F. e o Ricardo.

As conversas com a Paula (e tudo o que não precisamos de dizer porque já nos conhecemos tão bem).

O Alentejo. E as minhas pessoas de lá.

Um dia de praia na Arrifana.

Outro na Praia Verde.

Vê-los a dar mergulhos.

O concerto da Mayra Andrade com a Lina.

A minha amiga curou-se de uma doença má.

A serenidade da Cecília.

O almoço de aniversário, marcado em cima da hora, com a Isabel, a Helena e a Rute.

Os meus amigos. Todos eles.

A minha cozinha.

A viagem com a Ana ao Algarve.

Tricotar.

Os filmes, os livros, os espetáculos, as exposições, as músicas. The National, Devendra Banhardt, Dino D'Santiago, CapicuaDulce Maria Cardoso, Francisco José Viegas, Afonso Cruz, Pedro Almodóvar, Tiago Guedes, Jafar Panahi, Grada Kilomba, Mário CruzTiago Rodrigues, Ivo Canelas, Mónica Calle, Miguel Seabra, Giacomo e Madalena. Outros de que agora não me lembro.

Dançar. 

Aqueles momentos em que acredito que vai correr tudo bem.

Nós os três.

Deitar-me de consciência tranquila.

publicado às 09:11

18
Set19

Ilusões

Setembro também é isto: aquele momento em que me delicio por vê-los tão crescidos, cada um à sua maneira, em que ainda não há testes nem muitos trabalhos, em que eles todos os dias têm novidades para contar e parecem entusiasmados e em que ainda acredito (acreditamos todos, acho) que isto tem tudo para correr bem. Pode ser que este ano os putos estejam mais concentrados e eu não tenha que me chatear tanto, penso, porque não?, pode ser...

E depois acordamos.

publicado às 23:41

Praia Fluvial da Aldeia Ruiva

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Praia Fluvial do Malhadal

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Um dos desafios das férias dos pobres é tentar visitar lugares novos ou ter alguma experiência diferente gastando pouco dinheiro. Eu tento sempre fazer alguma coisa, aquilo a que chamo o nosso pequeno luxo anual, mesmo que seja algo muito simples. Desta vez, fomos espreitar as praias fluviais na zona de Proença-a-Nova. Reservei dois dias bem no fim das férias, marquei um bungalow no parque de campismo e lá fomos.

Nas malas levámos pouquíssima roupa mas muita comida. Eu sou aquela mãe que anda sempre com comida, sempre fui assim, desde que eles eram pequenos. Não se trata só de poupar dinheiro ou de evitar que eles comam muitas porcarias, é sobretudo uma maneira de não me preocupar quando andamos em viagem. Até porque os putos estão nesta fase em que parece que estão sempre esfomeados. Acredito que outras pessoas achem que dá muito trabalho preparar comidas e levar lancheiras mas para mim é tranquilo. Neste caso, além das sandes e petiscos para a viagem, como íamos ficar num parque de campismo no meio do nada e como não me apetecia andar perdida à noite por estradas cheias de curvas, optámos por cozinhar o jantar no bungalow. Aproveitei que tinha um fogão e para o segundo dia fiz umas deliciosas sandes de ovo mexido. Portanto, sim, levámos muita comida mas resultou muito bem.

Para mim, que sou do sul e da planície, é sempre um pouco esquisito quando me meto por serras e caminhos tortuosos. Para os putos este também é um Portugal a que não estão muito habituados. Por isso estas viagens, por estradas nacionais, são sempre uma aventura. Vamos vendo as tabuletas e comentando a paisagem. Os cheiros, as pessoas, as cores, os sotaques, tudo é diferente. E ficámos muito impressionados com toda a área ardida perto de Vila do Rei (dá um bocadinho de medo mas pronto, se uma pessoa se põe a pensar nessas coisas nunca sai de casa).

Os miúdos lembravam-se do bungalow em que tínhamos ficado perto das Grutas de Mira D'Aire. Em comparação, este bungalow da Aldeia Ruiva ficou claramente a perder porque era mais antigo, não tinha aquele cheiro a novo, e não tinha ar condicionado. Porém, a tragédia maior foi o facto de não haver wifi, o que foi um grande desafio à capacidade deles para ficarem sem fazer nada durante um serão inteiro. Nem sequer podíamos ler ou jogar as à cartas porque, por causa do calor e dos mosquitos, tínhamos as janelas abertas e as luzes apagadas. Conseguem imaginar? O António acabou de ver os episódios de uma série que tinha no telefone e depois andámos a explorar o parque e ficámos às escuras no alpendre a conversar e a cuscar o que se passava nas outras tendas. Os rapazes resignaram-se e acabámos a dar umas boas gargalhadas. Se eu tivesse planeado uma "operação desligar" não teria sido tão eficaz. 

A parte melhor para eles foram, obviamente, os mergulhos nos rios. A zona de banhos é delimitada e as praias são vigiadas, portanto aquilo é bastante seguro. Depois há aquela aventura de ser um rio, de haver peixes, de não se ver o fundo. Acho que é preciso alguma coragem, coisa que eu obviamente não tenho. Já os putos divertiram-se à grande. 

Na viagem de regresso a casa tivemos um furo no pneu e viemos a ouvir o agonizante relato do jogo do sporting. Tirando isso, correu tudo lindamente.

publicado às 20:21

Na primeira vez em que fomos de férias a três eu estava um bocadinho ansiosa. O António tinha 9 anos, o Pedro 5. Eu já estava há mais de um ano sozinha com eles mas nunca tínhamos estado assim, umas três semanas por nossa conta, longe de casa, a inventar programas e a aturar-nos 24 horas por dia. Acabou por correr tudo surpreendentemente bem. Muito melhor do que eu poderia imaginar. De então para cá, já tivemos muitas férias diferentes. Umas vezes juntando-nos com amigos. Outras vezes só nós. Umas vezes indo mais longe, outras ficando mais perto, umas vezes por muito tempo, outras só uns dias. Mas sempre com um lema: no stress. Como o nosso dia-a-dia é geralmente feito de horários e pressões, as férias tornaram-se uma oportunidade única para estarmos sem grandes compromissos e para desfrutarmos ao máximo da companhia uns dos outros com o mínimo de discussões e muita leveza. É mesmo só isso que procuro. E tem sido muito bom. 

Entretanto os putos foram crescendo, o que facilita muito a parte logística mas levanta outro tipo de questões. Este ano, pela primeira vez, temi que as coisas não corressem tão bem. Afinal, o adolescente está numa fase complicada, naquela fase em que tudo é um aborrecimento, sobretudo tudo o que envolva a mãe (seca) e o irmão mais novo (mais seca). Além disso, tinha que se afastar da sua querida playstation e (oh, o horror) passar a maior parte do tempo sem wifi. Respirei fundo e lá fomos. E não digo que foram as melhores férias de sempre nem que não houve ali uns momentos de tensão. Mas foi muito melhor do que eu estava à espera. Sem grandes dramas a assinalar. E houve até momentos em que deu para sentir aquela emoçãozinha por ainda conseguirmos fazer isto de estarmos juntos e sermos felizes os três com coisas simples como jogar às cartas ou ficarmos deitados todos numa cama a conversar ou até só numa ida ao supermercado para comprar o jantar. Foi talvez o ano em que passámos mais tempo sem fazer nada. Foi o ano em que estivemos mais tempo no Alentejo com a família. Foi o ano em que os putos dormiram quase sempre até ao meio-dia. Foi definitivamente o ano em que passámos menos tempo na praia (e em que cheguei ao fim menos bronzeada do que é habitual). E no entanto, parece-me, não poderia ter sido melhor. Era exactamente isto que eu precisava. Até porque, sinceramente, acho que cada vez preciso de menos. Basta-me ficar a olhar para eles a dar mergulhos, felizes. Posso ficar assim durante horas. E eles também.

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(Porque nem tudo é perfeito: o António está na fase "no photos". No ano passado, já tinha sido uma selfie tirada a ferros, este ano não sei sequer se tenho alguma foto decente dele na máquina. Mas tenho esta, que é muito representativa dos meus putos,)

Gosto muito de nós nas férias. Estes são os momentos e os sentimentos que temos de guardar. É a esta felicidade que viremos beber ao longo dos próximos meses quando estivermos cansados e zangados, quando nos odiarmos, quando tudo estiver a correr mal e quando sentirmos vontade fugir.

Só temos que nos lembrar que não tarda nada é verão outra vez. 

publicado às 22:13

05
Ago19

Aquela pergunta

O Pedro já estava deitado, o António estava na casa-de-banho, eu estava a apagar a luz para dormir. De repente, o Pedro entra no meu quarto a chorar e deita-se ao meu lado. O que foi, filhote? Nada, nada. Estás a chorar porquê? Não sei. Não sabes ou não queres dizer? Não quero dizer. E nisto o António aparece e fica a olhar para nós, abraçados na cama, e pergunta: o que foi? Eu também repito: o que foi? E o Pedro lá balbucia: o que é que acontece depois de morrermos? E ficamos uns momentos todos calados. Só o Pedro a chorar. Eu agarro-o com mais força: não sei, filho. O António atira-se para cima de nós e diz, com aquele ar desafiante dos adolescentes: não acontece nada, morremos e pronto. E o Pedro chora ainda mais. E eu só consigo abraçá-lo. Não sabemos, ninguém sabe, mas podemos acreditar que depois de morrermos aqui na Terra vamos viver para outro lado qualquer, há muitas pessoas que acreditam nisso, é possível que seja assim. Ele não parece muito convencido. Tenta não pensar nisso, sim? (não é um conselho muito inteligente, mas foi o melhor que me ocorreu). Deixamo-nos estar ali mais um bocadinho.

O meu filho pequenino.

Percebo-o tão bem.

publicado às 23:08

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Eles crescem e fica tudo mais fácil? Nem tudo. Tirá-los de casa, por exemplo, é muito mais difícil. Há uns tempos, bastava-me dizer vamos ali ao parque jogar à bola e assim, com umas horas passadas no parque das nações ou no jardim das conchas, resolvíamos a tarde de sábado e éramos todos felizes. Agora, o Pedro ainda alinharia na boa num programa desses mas para isso precisava do irmão porque ir ao parque sozinho com a mãe não é lá muito divertido. E o irmão... o irmão tem 15 anos e já não acha muita piada a ir ao parque com o mano mais novo. Portanto, este é um dos meus novos desafios: encontrar programas que agradem aos dois. Sobretudo: encontrar programas que agradem a um adolescente e que o tirem de casa sem ser obrigado (eu obrigo, de vez em quando, sei que não é a melhor maneira e que as mães perfeitas arranjam sempre uma maneira melhor mas eu não sou uma mãe perfeita e por vezes tem mesmo que ser). 

Um truque: convidar amigos deles. 

Melhor ainda: combinar com amigos deles cujas mães são minhas amigas. Ou com amigas minhas cujos filhos têm idades parecidas aos meus.

Às vezes conseguimos. E até conseguimos ficar na praia até ser noite. Mas é só às vezes.

publicado às 11:42

21
Jul19

Privilégios

O vídeo aparece de vez em quando partilhado nas redes sociais. A primeira vez que o vi (há uns dois anos?) doeu-me a alma mas ainda estava na fase do não querer acreditar que isto ia ser mesmo assim. Da última vez que o vi (na semana passada) já não consegui evitar emocionar-me. A "corrida do privilégio" começa com todos os jovens alinhados mas, antes de ser dada a partida, o juiz faz algumas perguntas a que cada um deve responder. Se a resposta for positiva, dão dois passos em frente. Se a resposta for negativa, ficam no mesmo lugar. São perguntas sobre privilégios (do tipo: se estudaram em escolas privadas, se estão sempre seguros sobre a próxima refeição, etc.). No final, há uns que estão mais à frente, outros que ficaram lá para trás. E esta corrida - que é a vida - ainda nem começou. Há um grupo de jovens que ainda nem teve que fazer nada e já está em vantagem. É isso o privilégio. Isto já seria coisa para mexer com o meu coração de esquerda mas o que me doeu mais foi que as perguntas começam assim:

Dêem dois passos em frente se...

1) os vossos pais ainda são casados

2) cresceram com uma figura paterna em casa

Portanto, à segunda pergunta os meus filhos já ficaram bem para trás.

(momento para engolir em seco e ter aquele sentimento de culpa)

(seguido de momento para acordar para a vida e dizer culpa de quê? quem tem de sentir culpa não és tu, tu estás aqui todos os dias)

(seguido de momento para arregaçar as mangas e continuar em frente)

Cá em casa corremos atrás do prejuízo. Permanentemente. Já há uns tempos que tenho plena consciência disso. Não é fácil. As coisas nem sempre são como eu gostaria. Às vezes temos assim uns tropeções e uns trambolhões. Mas damos o nosso melhor. E não desistimos nunca.

publicado às 22:11

Todos os anos, chego a esta altura do ano com aquela sensação de que não sei se irei aguentar mais um ano disto. Que atingi o limite das minhas forças. Todos os anos é mais difícil. Todos os anos há problemas novos. E discussões. E dores de cabeça. Todos os anos me sinto a pior mãe do mundo ao longo de nove longos meses. Todos os anos suspiro de alívio quando, finalmente, isto acaba - e acaba cada vez mais tarde. Desta vez só acabou esta semana com a publicação das notas dos exames do 9º ano e a confirmação de que o rapaz lá conseguiu ser "aprovado", porque ele quando se esforça até consegue, o problema é que na maior parte do tempo não lhe apetece esforçar-se muito. Portanto, prova superada. 

Para o ano logo se vê.

Até lá, respiramos.

A vida não fica perfeita só porque já não temos que pensar na escola mas fica mais leve, com menos obrigações, com menos stress, com menos motivos para nos zangarmos. É aproveitar. É aproveitar mesmo, o máximo possível, ainda que este ano a cabeça continue cheia de milhentas outras preocupações e a respiração se faça com dificuldade. Não temos muitos motivos para sorrir nos dias que correm, mas temos este: os rapazes estão de férias. 

publicado às 19:59


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