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Mais um ano. O mundo está um lugar triste e perigoso. O nosso país também. À minha volta há cada vez mais ódio e egoísmo. Na política, nas redes sociais, na rua. Temo que nos próximos anos nos vamos afundar ainda mais neste caldo de extremismos temperado por trumpes e venturas, que vamos ter ainda mais conflitos sociais e guerras mortíferas, que vamos viver tempos terríveis antes de retormamos, outra vez, o caminho do humanismo. Resta-nos continuar a lutar - cada um à sua maneira - por aquilo que julgamos correcto, pela igualdade, pela liberdade, pelo bem comum, pela solidariedade.
Pessoalmente, 2025 foi um ano bom. Nem me lembro da última vez que disse uma coisa destas. Não aconteceu nada de extraordinário, mas também não aconteceu nada de trágico. Mais importante: chego ao final do ano a sentir-me em paz, como há muito tempo não sentia.
O segredo para ser feliz num mundo assim não é segredo nenhum: é rodearmo-nos de pessoas boas, encontrar/criar uma comunidade de gente que nos acompanhe neste olhar para o lado bom do mundo, sem alimentar a raiva e o ressentimento, que nos estenda a mão e nos acolha no seu colo nos momentos maus, gente com quem podemos conversar sobre tudo, com quem podemos chorar e gargalhar, pensar, dançar, viajar ou apenas estar. Tenho muita sorte por ter algumas pessoas assim na minha vida. Os melhores momentos do ano foram, como sempre, todos aqueles que passei com os meus amigos e a minha família.
Para memória futura:
Não falei de tudo aqui, mas como habitualmente entre o melhor do ano estão os livros, os espectáculos de teatro e dança, os concertos, muitos filmes e muitas séries, algumas exposições. Nestes tempos sombrios é ainda mais importante alimentar o espírito.
Aceitei participar num grupo de escrita. O nosso largo está cheio de mulheres muito diferentes e com ideias diversas. Tem sido um desafio e tanto, e nem sempre consigo corresponder, mas espero que continuemos a escrever juntas.
Sobrevivemos ao apagão.
Fui ao Tremor, em São Miguel. Foi incrível. Vamos voltar.
O António saiu de casa durante sete meses. Esteve a morar noutra cidade, a três horas daqui, trabalhou, cresceu e depois voltou. Está mais responsável, mais decidido, mais autónomo. Está a transformar-se num adulto com a cabeça no lugar e o coração no sítio certo. Às vezes custa-me acreditar. Acho que até sinto um certo orgulho (não quero lançar foguetes antes do tempo, mas estou contente, sim).
O Pedro ainda me dá (e vai continuar a dar) muitas dores de cabeça. Seguimos fortes nesta travessia pela adolescência.
Os meus filhos são o meu barómetro. Se eles estão bem, já é meio caminho andado. E este é o meu texto preferido do ano neste blogue.
Fui à Ucrânia e a Madrid. Há muito tempo que o trabalho não me levava a entrar em aviões e foi bom como sempre é. Sobretudo porque na maior parte dos dias o trabalho não me dá grandes motivos de felicidade. Parece que vamos ter de trabalhar até quase aos 68 anos, não sei como irei aguentar.
De um dia para o outro, o envelhecimento tornou-se real. Nos meus grupos de amigas, fala-se muito sobre menopausa, queixamo-nos dos males dos nossos corpos, trocamos mezinhas e recomendações médicas. Angustiamo-nos com o envelhecimento dos nossos pais, entristecemo-nos com as perdas, cada vez mais comuns.
Mas também há bebés, e a cada bebé renova-se a esperança. Nasceu o Xavier. Em breve nascerá a Emília. Por causa dos filhos das minhas amigas, voltei a bordar em ponto-de-cruz e tem sido muito divertido.
Mergulhei no Mediterrâneo. Foi fantástico (e não só por causa da temperatura da água). Estes últimos anos têm me ensinado a não fazer planos. Desfrutar o presente, aproveitar cada minuto como se fosse o último, é um desafio nem sempre fácil. "Contra todas as evidências em contrário, a alegria" - mais uma vez, ainda, enquanto for bom.
Surpreendo-me sempre com o quanto eles cresceram. Quando eles eram pequenos e éramos só nós os três e andávamos sempre juntos, para onde quer que fosse, os três inseparáveis, havia uma amiga que dizia que parecíamos um galheteiro: eu no meio e um pimpolho de cada um dos lados, aos saltos, sempre aos saltos, os meus filhos sempre foram muito mexidos, e os amigos que nos viam ao longe distinguiam-nos logo, lá vêm eles, um galheteiro andante. Agora que eles cresceram mais do que eu, continuamos a ser um galheteiro mas ao contrário, eu de repente pequena no meio deles, mas sempre os três juntos, inseparáveis mesmo quando distantes. Surpreendo-me sempre com o quanto eles cresceram. Ainda ontem lhes trocava as fraldas e contávamos histórias e passávamos horas no jardim com bolas, skates e bicicletas, e agora um já trabalha e o outro vai começar a tirar a carta não tarda. É neles que vejo os anos a passarem. Envelhecer é uma merda (ah, sim, a sabedoria e a experiência, é tudo muito bonito, concordo, mas envelhecer é uma merda), mas vê-los crescer é uma alegria tremenda.
Há uma altura, quando eles são muito pequenos e estão sempre a exigir a nossa atenção, em que parece que estamos enfiadas num buraco cheio de fraldas e papas e trabalhos manuais da escola e festas de aniversário e almôndegas de carne e brinquedos com música e roupa suja e birras e é muito difícil imaginar que algum dia vamos voltar a ver um filme do princípio ao fim ou a ir à casa-de-banho sem sermos interrompidas. E, no entanto, isso vai acontecer. Vai chegar o dia em que vamos de férias sozinhas com os nossos dois filhos e vamos conseguir ler na praia, no mais absoluto descanso. É assim que sabemos que eles cresceram, quando damos por nós a ler mais do que duas páginas seguidas, levantamos os olhos do livro, vemos que os putos estão a brincar lá longe e até podem estar dentro de água, e está tudo bem, não temos que nos levantar, não temos que dar a mão nem pular nas ondas nem molhar a cintura (molhar a cintura é muito difícil para mim), e podemos só fazer um sorriso, acenar-lhes e continuar à sombra.
Ser mãe é uma aventura enorme e são poucas as de nós que estão realmente preparadas para a avalanche de trabalho e sentimentos e exigências e hormonas e mudanças daqueles primeiros tempos que até podem ser anos. Ser mãe de crianças e ser mãe sozinha de crianças foi a coisa mais difícil que fiz na vida (pelo menos até ser mãe de adolescentes). E, no entanto, quando olho para trás, mesmo sabendo do cansaço e das irritações, do sono e das frustrações, mesmo sabendo o quão desafiante foi, também sei que fomos imensamente felizes os três-juntos-como-um-só e não consigo evitar sentir uma certa nostalgia de quando eles eram crianças.
(é verdade que ando um pouco lamechas por estes dias e se calhar estou só a romantizar as memórias, mas provavelmente é mesmo assim que tem de ser, faz parte do processo).
Nós em 2014.
*
Estou a tricotar uma mantinha para o bebé de uma amiga que vai nascer depois do verão. Um bebé, que alegria! Lembro-me tão bem desse entusiasmo. Ainda me emociono com as barrigas que crescem à minha volta e com os bebés que vão chegando, com a alegria que vejo nos olhos dos novos pais. Nos dias que correm, temos poucos motivos para celebrar. Festejemos, pois, as crianças que nascem do (e no) amor e que nos devolvem a esperança num futuro melhor.
*
Porque hoje é o dia delas, o nosso "largo" deveria estar cheio de crianças, para já são estas:
Os filhos crescem e seguem caminhos que nem sempre são aqueles que imaginámos ou desejámos para eles. Seguem os seus caminhos. Sabemos que será assim. Mas aceitá-lo pode não ser assim tão fácil. O crescimento dos filhos é (pode ser) uma viagem por mares revoltos - e eu não tenho espírito de navegante, enjoo facilmente. Ia dizer que o último ano foi muito desafiante, mas, sinceramente, o anterior também já tinha sido, e o outro antes desse, e o outro e o outro, já nem me lembro ao certo quando é que isto começou mas estou em crer que há de ter sido quando o António estava no 8º ano e de repente deixou de ser o meu menino adorável e se transformou num rapaz que eu não conhecia, como assim?, o meu filho não, deve estar enganada, esse não pode ser, e afinal era. Foram (têm sido) anos de zigues e zagues, de dúvidas, de discussões, de encontrões. E pelo meio começou a adolescência do Pedro e mesmo calejada, mesmo já de sobreaviso, a tarefa não se apresenta mais fácil. Lá vem mais uma onda, protejam-se, marinheiros. Os filhos crescem e não trazem manual de instruções. Era assim quando eles eram bebés, continua a ser assim pela vida fora. Apesar de tudo, era mais fácil trocar fraldas do que lidar com a adolescência. Somos as mães que conseguimos ser dentro das nossas circunstâncias. Vamos aprendendo com os erros - nossos e deles. Sentir-nos-emos eternamente culpadas por não termos conseguido ser melhores (e isso nem a terapia nos consegue tirar totalmente). Mas vamos aprendendo. A conversar com eles. A conhecê-los. A reconquistá-los. A aceitá-los, sobretudo isto. Os filhos crescem e seguem caminhos que nem sempre são aqueles que imaginámos ou desejámos para eles. Seguem os seus caminhos. E isso é ao mesmo tempo entusiasmante e assustador. Emocionante e revoltante.
Há duas semanas, o António saiu de casa. Andávamos há meses a falar disto e no momento em que acontece não estamos preparados. São tantos sentimentos misturados que fica difícil controlar as lágrimas, não sei se choro de orgulho ou de saudades, de ansiedade ou de alegria, de preocupação ou de tristeza, de mera comoção ao vê-lo pegar nas malas, tão determinado. (e quem nos prepara para a separação dos irmãos, vais te mesmo embora?, quem nos prepara para aqueles olhos brilhantes, puto, podes ir visitar-me quando quiseres, quem nos prepara para aquele abraço a três e depois o vazio?) E mesmo que seja temporário, mesmo que esteja muito perto, que falemos todos os dias, que troquemos mil mensagens, que agora ele tenha vindo passar dois dias connosco e esteja ali no quarto, como sempre esteve, mesmo que esta ainda seja a sua casa e no fundo isto seja mais ou menos o mesmo do que antes só que não tenho que lhe fazer o jantar, de repente, parece que demos muitos passos de uma só vez.
Tem sido uma viagem e tanto. Ainda estamos longe da calmaria, mas já conseguimos manter-nos à tona (na maior parte do tempo).
esta foto parece que foi ontem, mas foi em 2009
E agora o que é que eu faço? Por instantes, os meus filhos crescidos voltaram a ser aquelas crianças que a meio de agosto já estão fartas de se aborrecer pela casa e precisam de ajuda para se entreter. Sem telemóveis, computadores, televisão ou consolas, parecia que não havia nada para fazer. Foram buscar as bicicletas, encheram os pneus, afinaram os travões e foram dar uma volta. Quando se fartaram disso, o mais velho foi namorar e o mais novo decidiu ir arrumar a marquise e até leu umas páginas do livro que tem há meses em cima da secretária.
Já eu, pessoa antiga e analógica, acho que estou quase preparada para o apocalipse. Não tenho rádio a pilhas, é verdade, e essa é uma falha a colmatar urgentemente. Mas tenho fogão a gás. Tenho velas e fósforos e lanternas. Relógios de ponteiros. Livros para ler e tricot para me entreter.
Estava em casa às 11:33. Demorei a perceber o que é que se passava. Ao início pensei que era uma falha de eletricidade no prédio, só quando vi que não tinha dados nem rede móvel é que intui que algo maior estava a acontecer. Ficámos assim, eu e o António, na ignorância durante uma hora até que, por milagre, o whatsapp encheu-se de mensagens. Durou pouco a alegria. Ficámos à espera que o Pedro voltasse da escola com novidades: o metro parado, os autocarros cheios, as pessoas na rua, as filas nos supermercados. Não deu para tomar banho (odeio água fria), mas estávamos juntos e, por isso, estávamos tranquilos. Aproveitei para cozinhar a pescada congelada antes que se estragasse e a única preocupação era como iríamos comprar a comida para o gato, que, inacreditavelmente, se tinha acabado - fomos salvos pelo mais novo da família, o único que não tem multibanco mas tem um mealheiro bem recheado. Se o apagão tivesse durado mais tempo, é claro que surgiriam outras angústias. Assim, foi só desfrutar do privilégio. Não fosse ter que ir trabalhar depois do almoço e também teria ido passear com os rapazes, aproveitar o magnífico dia de primavera e relaxar, longe dos telemóveis e do scroll infinito, sem pensar nas notícias nem nos políticos.
Se há lição a tirar deste dia em que ficámos às escuras - literal e metaforicamente - é perceber o quão dependentes estamos da electricidade e como isso nos deixa tão vulneráveis, como indivíduos e como país. Basta alguém desligar um botão para ficarmos isolados e paralisados.
E já agora: não romantizemos o apagão. Se acharam fixe desligar o telefone e ir para o jardim, então desliguem o telefone e vão para o jardim todos os dias. Se gostaram de jogar às cartas e de conversar com os vizinhos, experimentem fazê-lo mais vezes. Não é uma pandemia ou uma falha eléctrica que vai mudar a nossa vida, somos nós mesmos que temos que fazê-lo.
A foto foi tirada já hoje.
Depois de uma semana de muitas e fortes emoções, passei o fim-de-semana todo em casa, sozinha. Foi tempo para ler, escrever, ver filmes antigos, pensar na vida. Lá fora o vento e a chuva, de vez em quando uns raios de sol. Não adoro estar sozinha, mas sinto que, de vez em quando, também preciso destes momentos de silêncio e de confronto comigo mesma. É tudo uma questão de equilíbrio. No domingo à tarde temperei um frango e deixei-o a ganhar sabor durante horas, antes de o meter no forno por outras tantas horas. Quando os rapazes foram chegando, dos seus fins-de-semana, a cozinha estava quentinha e com aquele cheiro adocicado do assado. O frango ficou delicioso. Macio, húmido, a carne a soltar-se dos ossos. Um frango assado precisa de tempo. Não é possível fazer um bom frango assado no forno com pressa. Aquele frango precisou daquele domingo passado de pijama, das lágrimas que derramei enquanto acabava de ler o Somos o Esquecimento que Seremos, do colombiano Hector Abad Faciolince, da leveza de ver o Peggy Sue Casou-se, do Coppola (um filme de 1986 que não me lembrava de já ter visto, embora tudo aquilo me parecesse familiar), do espanto renovado ao reler passagens do António Lobo Antunes (tem coisas tão boas, caramba), da alegria de encontrar no Filmin A Ama de Cabo Verde, de Marie Amachoukeli, que queria ter visto no cinema mas acabei por deixar passar. Isto tudo até que finalmente nos sentámos os três a comer o frango tenrinho e saboroso e, entre conversas cruzadas e gargalhadas, olhámos para o calendário e fizemos planos para três meses (somos assim ambiciosos). Um jantar de família que não se vai repetir nos próximos dias, pois estarei a trabalhar à noite, e que cada vez acontece menos porque eles já não são crianças e temos todos as nossas vidas, com compromissos e actividades várias, mas talvez seja por isso que estes momentos são tão especiais. Ou então é o contrário, é por termos estes momentos tão bons juntos que, depois, podemos ir às nossas vidas descansados, sem dramas, sabendo que num domingo qualquer vamos encontrar-nos outra vez na cozinha, falar de coisas sem importância e ficar com as mãos sujas da gordura.

Odeio anestesias. Lembrava-me perfeitamente das duas anestesias gerais que levei em criança. Lembrava-me da sensação de vazio que senti ao acordar. A sensação de ter perdido aquelas horas da minha vida. Não, não é como dormir. É como um salto no tempo. Um tempo que é como se não tivesse existido. O mais parecido, imagino eu, com a morte. Odeio anestesias e quando a médica me falou a primeira vez na hipótese da cirurgia foi só isso que me amedrontou, esse medo inexplicável de um sono tão pesado que não permite sonhos nem memórias nem nada, esse salto no vazio absoluto, essa sensação de morte. Fiz-me de forte. O medo era (como quase sempre) irracional, e eu sou uma pessoa bastante racional.
Há uma semana fui internada. Foi o António que me levou, contando piadas para disfarçar os nervos. Cada um tem a sua maneira de lidar com as situações de tensão e no caso dele é dizer parvoíces e manter aquele ar blasé, de chinelo no pé e sorriso na cara, como se não fosse nada. Tinha explicado aos rapazes todo o procedimento e o que me levou até ele. Faço questão de ser honesta com os miúdos sobre todos os assuntos, tentando ao mesmo tempo poupá-los a preocupações desnecessárias. É um equilíbrio nem sempre fácil de conseguir. Quando fiquei sem emprego ou quando a minha mãe adoeceu, por exemplo, senti que eram temas demasiados importantes para não serem falados, afinal, também faz parte do crescimento perceberem que existem problemas e que temos de lidar com eles da melhor maneira possível. Neste caso, não havia mesmo por que ficarem preocupados. A coisa era bastante simples.
A cirurgia - histerectomia total laparascópica por via vaginal - apresentou-se como a melhor solução para um problema que me atormentava há pelo menos dois anos: uma hemorragia constante e de grandes dimensões que não dava mostras de ceder à medicação. O meu médico anterior, um tipo simpático e de quem não tinha queixas até ao momento, não revelou qualquer empatia pela situação. "É só sangue", disse-me, como se eu me estivesse a queixar sem motivo, explicando-me que são coisas normais nesta idade e que o que tinha a fazer era aguentar até à menopausa. Eu aguentei durante algum tempo mas depois decidi procurar outra médica. Às vezes, a única coisa que queremos dos médicos é que nos ouçam, que valorizem aquilo que dizemos. Se eu digo que não estou bem é porque não estou bem, não é porque sou uma mulher histérica. As mulheres sangram todos os meses durante grande parte da sua vida. Aprendemos a viver com este desconforto. Mas houve um momento em que aquilo começou a perturbar-me realmente. Sangrar dias e dias seguidos, sangrar de maneira incontrolável é viver em permanente estado de alerta, sem saber se vou estar toda suja quando me levantar da cadeira, se vou ter que trocar outra vez os lençóis, se tenho tampões e pensos que cheguem para o dia, se vou ter forças para ir trabalhar, se me vai apetecer sequer sair de casa. O sangue afetou a minha vida e a minha auto-estima, deixou-me insegura, suja, cansada, envergonhada e, no fim de contas, doente, uma vez que fiquei com uma anemia brutal. A nova médica ouviu-me com atenção e mandou-me fazer alguns exames. "Vamos tentar resolver a situação", garantiu-me. E acho que só por isso senti-me logo melhor. Reencaminhou-me para outra médica, mais especialista. O que se concluiu foi que sim, estava na perimenopausa, e as hemorragias abundantes são parte dos sintomas desta fase, e que também tinha vários miomas, um deles, pelo menos, de grandes dimensões, que também provocavam hemorragias. Tudo coisas inofensivas. Perante isto, tinha duas soluções: continuar com a medicação para controlar as perdas (depois de várias experiências, chegámos a um cocktail de comprimidos diários que não resolviam completamente o problema mas tinham-no tornado suportável) até que fosse necessário, o que poderiam ser alguns meses ou alguns anos, ou fazer a cirurgia e acabar com isto de uma vez. Fui eu que optei por esta solução.
Percebi, nestes últimos tempos, que há inúmeras mulheres a passarem pelo mesmo que eu. Mulheres que sangram, que sofrem, que choram, que se encolhem, que dormem de fraldas, que desesperam. Nunca ninguém me tinha falado disto. Falam dos calores e que se engorda, que se envelhece e pronto. As mulheres sempre foram muito boas a esconderem as suas dores. Mas quando eu comecei a desabafar logo houve quem dissesse eu também e ela também e vai-se a ver éramos muitas. Não me serviu de consolo. Não foi uma decisão leviana. Sei que não é consensual, mas não me apetece agora estar a justificar-me. Tive dúvidas, claro. Mas decidi. Pode ser que me arrependa um dia destes. Não há como saber. Não há soluções mágicas, há apenas soluções que, para cada um de nós, naquele momento, nos parecem melhores.
Eu estava calma. Descobri há já algum tempo que tenho esta capacidade de me manter calma em situações adversas. Não quis tomar nenhum calmante, entrei desperta na sala de operações, falei com toda a gente, e no momento de me darem a anestesia, quando senti aquele fresquinho a entrar-me pelo braço, ainda tive tempo para pensar "que maluqueira, maria joão, o que é que tu estás a fazer?"
Logo a seguir estava a acordar. Outra vez a sensação de vazio. O salto no tempo. A morte ali tão perto. A cabeça tonta, as náuseas, aquela desorientação inicial. Caramba, porque é que me meti nisto? Instintivamente levei a mão à barriga, só para confirmar que tinha tudo corrido como planeado, e fiquei imediatamente mais descansada: nada de pensos nem cicatrizes. "Correu tudo bem?", perguntei a um enfermeiro (tenho um carinho enorme pelos enfermeiros, as pessoas que nos cuidam nos momentos em que estamos mais frágeis). Nas horas seguintes esteve tudo muito nublado.
Ligaram ao António a avisar que eu já estava no quarto e vinte minutos depois estavam os dois ali a olhar para mim. O António a falar sem parar, o Pedro muito sério, muito calado, muito Pedro, a manter a distância. "É estranho, nunca te tinha visto assim", disse ele. Nunca tinham visto a mãe-fortaleza deitada numa cama, com soro na veia, um saco de xixi pendurado ao lado, a voz arrastada de quem ainda não está no seu perfeito juizo. Estavam apreensivos, isso era óbvio. O que terão pensado durante aquelas horas todas? Será que exigi demais deles desta vez? Será que não deveria ter permitido que viessem ver-me?
Nessa noite, a médica apareceu para me confirmar que tinha corrido tudo bem e que, a continuar assim, teria alta no dia seguinte. A mim, ali deitada, ainda meia tonta, algaliada, incapaz de me mexer, pareceu-me um bocadinho exagerado, confesso. E, no entanto, o dia amanheceu e tudo estava realmente melhor.
Sensivelmente 24 horas depois de ter acordado da cirurgia vim para casa pelo meu próprio pé. Apreensiva mas sem dores. Só tomei paracetamol nessa noite porque sentia um certo desconforto e não conseguia encontrar posição para dormir. Mais nada. A médica tinha razão. A medicina, de facto, evoluiu de forma incrível. Sei que existe uma cicatriz, mas é interior, não está à mostra. Sinto que fui "mexida", ainda não estou a cem por cento, mas é uma coisa mínima. Às vezes até me esqueço. E aqui estou. Com ordens para não fazer esforços, não carregar pesos, não me mexer muito. Mas também para me mexer cada vez mais. A cada dia que passa sinto-me melhor. Tenho aproveitado para ver filmes e séries, ler, pensar na vida. Tento não passar o dia a comer (um desafio e tanto). Atribuo-me pequenas tarefas (por exemplo, escrever este texto), faço planos que provavelmente nunca serão concretizados. Entedio-me. Houve ali um momento em que me comecei a enervar porque me apetecia aspirar a casa e lavar o chão, mas não podia, e os meus filhos têm sido uns queridos, lavam a loiça, levam o lixo e estão sempre a perguntar se estou bem, mas foi difícil convencê-los da necessidade de limpar a casa-de-banho.
Um dia de cada vez.
Já passou uma semana. Ainda só passou uma semana. Tudo depende do ponto de vista. So far so good. Não quero precipitar-me mas estou confiante e a verdade é que já só penso que ainda quero ir à praia. Espero que a médica me dê alta, espero que o verão se aguente, espero que tudo volte ao seu lugar. Não. Corrijo. Que tudo volte a um lugar melhor. Assim é que é. Muito melhor.
Podia falar-vos das minhas mil angústias, do trabalho que me faz infeliz quase todos os dias, dos horários terríveis, do ordenado miserável, da prestação da casa a subir, da frustração, podia dizer-vos das noites que passo sem dormir preocupada com os meus filhos, com o futuro que não consigo prever nem controlar, da culpa permanente, sempre a culpa, das saudades, do cansaço, do quão farta estou de decidir o que vai ser o jantar, de preparar marmitas, de estender a roupa, de mandá-los arrumar os quartos e desligar os telemóveis, das listas de compras, da máquina da louça avariada, das luzes que se fundem, do bolor no tecto da casa-de-banho, das obras que queria fazer, que é preciso fazer, mas é tudo tão difícil, tantos problemas, tantas preocupações e ainda mais as guerras, as alterações climáticas, a pobreza, a maldade das pessoas, podia contar-vos dos dias, semanas, meses em que o meu corpo sangra incontrolavelmente por causa da porcaria da perimenopausa, do meu médico a dizer "é só sangue", com um sorriso de desdém, como se por ser mulher tivesse que aguentar todos os incómodos sem me queixar, dos quilos que ganhei, das rugas, das peles flácidas, da exaustão, da apatia que me invade em dias em que me afundo no sofá e não me apetece nada, falar-vos da solidão que se esconde atrás das gargalhadas.
É tudo verdade. E, no entanto, 2023 não foi só isto.
"Contra todas as evidências em contrário, a alegria".
A alegria dos putos nos dias bons. Só isso já basta.
Aprendi a fazer pão. Fiz pão. Voltarei a fazer pão, isso é certo.
Páscoa na praia de sempre. Os putos com pranchas de surf. E o meu pai comeu pizza pela primeira vez na vida.
Quando a Paula me diz: vou passar aí. E vamos as duas. Seja onde for.
Nós os três a jogarmos snooker numa noite de verão.
Um grupo de whatsapp com amigas pode ser um refúgio, um colo, um escape, um conforto. Sabermos que não estamos sozinhas.
Os poemas que nunca teria descoberto sozinha e as pessoas que dizem esses poemas naqueles encontros que juntam comida e bebida e tantas partilhas.
Os amigos. Os amigos de sempre, os amigos recentes, os amigos que vêm e que vão. Os que estão sempre aqui. Os que raramente vejo. Os que me levam para copos, jantares, programas, e me obrigam a sair de mim. Aqueles com quem converso e me fazem mergulhar no mais fundo de mim. Os que telefonam e os que mandam muitas mensagens. Os que quase não dizem nada. São todos importantes, à sua maneira.
As vezes em que consegui vencer a preguiça. Ir a uma aula de yoga ou de pilates. Caminhar. Pedalar. Passear. Ir. Não me deixar ficar. Partir a telha.
Os livros (Annie Ernaux, Fernanda Melchor, Anabela Mota Ribeiro, Alia Trabuco Zerán, Catarina Gomes, Susana Moreira Marques, Ruy Castro, Douglas Stuart, Nathan Thrall, outros que agora não me lembro porque não conto os livros que leio); os filmes (tantos, não consigo enumerá-los); os espectáculos (menos do que gostaria, mas ainda assim); os concertos (Chico e Caetano no mesmo ano é como ganhar o totoloto, não é? Mas também Blur, Arcade Fire, Dino D'Santiago, Ana Lua Caiano). As artes todas. Janelas abertas para o mundo. Oxigénio para mim.
A Garota Não. À parte porque é especial. Vi-a três vezes e foi sempre maravilhosa. "A vida fica difícil, o tempo passa tipo míssil, derramado em suor."
Os dias em que o trabalho vale a pena. Poucos mas bons.
Os putos a pintarem as paredes do quarto, com a música em altos gritos.
A viagem a Nápoles. E a Alda.
Os miúdos fizeram-me um "bolo da caneca" e foram acordar-me à meia-noite para me cantarem os parabéns.
Um ano sem aplicações de encontros. Muita tranquilidade.
O António a chegar a casa às quatro da manhã, vai ao meu quarto - "Mãe, já cheguei" - deita-se ao meu lado e conta-me como foi a noite.
O meu pai, de braço dado comigo, a reaprender a andar com a sua anca nova.
Tricotei um cachecol enorme e lindo.
Eu e o Pedro a andarmos de bicicleta junto ao Tejo.
Pôr música a tocar e passar horas a cozinhar. Não por obrigação, mas por prazer.
O Natal. Apesar de tudo. E o privilégio de participar numa festa diferente.
A casa da minha irmã, sinónimo de família, de Alentejo, o sítio onde voltamos sempre.
A surpresa de encontrar alguém com quem me apetece estar. Aceitar a impossibilidade. Sentir que me poderia apaixonar. Ficar feliz só com a possibilidade.
Ter uma agenda para 2024. Fazer planos.
O verso de Manuel Gusmão que está no título desde post é bem conhecido, mas foi só quando o re-ouvi no espectáculo Bravo 2023!, dos Praga, que percebi que era a frase ideal para descrever este ano (ou esta vida). Contra todas as evidências em contrário, a alegria surge nos momentos mais inesperados. A tal da felicidade nas coisas pequenas, que é o combustível que nos faz continuar todos os dias e não nos deixa desesperar. Que nos salva.
(nesta foto, a minha maior alegria, o meu maior medo, o meu tudo, para o bem e para o mal)
A nossa casa está a precisar de uma intervenção. Andamos há anos a adiar. Porque uma pandemia, porque a inflacção, porque aquela empresa de obras afinal não é tão boa como parecia. Agora, finalmente, parece que já encontrámos uma pessoa de confiança que nos pôs em lista de espera. Uma questão de meses. Mas o destino, caprichoso, decidiu fazer das suas. A cama do António partiu-se. Ao fim de mais de 15 anos, aquele beliche fantástico, com armário e gavetas, o beliche mais fixe que havia no mercado e ainda por cima ideal para o espaço que tínhamos, o beliche comprado numa loja em Almada depois de grande pesquisa (a loja chamava-se Just4Kids e acho que já não existe, o beliche era mais ou menos assim, mas tinha mais umas gavetas pequenas), e que já tinha começado a mostrar sinais de cansaço, partiu-se. A substituição era urgente, não podia esperar meses. Decidimos, portanto, antecipar a remodelação do quarto. O que implicou retirar todos os (muitos) livros infantis que ainda lá estavam e as duas gavetas cheias de brinquedos que tinham resistido à última arrumação. O que implicou limpar primeiro a marquise, para lá acomodar uma estante. O que implicou arrumar uma parte do grande armário de parede, para lá guardar algumas das coisas que queria guardar. E já agora a despensa. E os armários da cozinha. E as pastas dos papéis. E as gavetas da roupa. Foram dias nisto. Separar o que era para manter, o que era para dar, o que era para o lixo. É impressionante a quantidade de lixo que guardamos. Coisas que não servem para nada, que achamos que poderão servir mas na verdade são inúteis. Perdi a conta aos sacos de lixo que enchemos, às viagens que fizemos até aos contentores. Os miúdos colaboraram. E no momento de pintar o quarto foram eles que meteram mãos à obra. Não ficou perfeito, mas ficou feito. Também é verdade que esta gente se farta depressa, pinta uma parede e depois acha que já está, que não é preciso limpar o chão nem a janela, arrumar tudo. Enfim. Andei entretida, foram umas férias um pouco diferentes.
No dia em que os senhores vieram para desmontar o beliche, os miúdos ficaram um bocadinho nostálgicos. Mas, depois, fomos ao ikea, eles escolheram móveis, tapetes, almofadas. Montaram tudo com a dedicação de quem está a fazer algo que quer muito, algo pela primeira vez ao seu gosto. Um quarto ficou pronto, o outro ainda está a meio, mas já é outra coisa, em vez de um quarto de crianças e um escritório temos agora dois quartos de gente crescida, de rapazes que já não brincam com legos mas que passam horas estendidos nas camas grandes a falar ao telefone. Eles estão felizes por ter espaços só seus. Trazem amigos, fecham as portas, ouvem música, dizem parvoíces, namoram, fazem o que lhes apetece. A dinâmica da casa mudou completamente, nem consigo explicar bem. Mudámos um quarto e, de repente, é como se nos tivéssemos despedido definitivamente dos últimos resquícios da infância.
É setembro. Está calor e depois chove, o pai fez anos, esta semana é a feira da minha terra, não tarda começa o novo ano lectivo, os putos precisam de sapatos novos. Eles crescem. É a vida a acontecer, tal e qual como se espera que aconteça.
"Sabermos que não temos mão na maior parte das coisas que acontecem é fundamental para o afrouxar da ansiedade." A frase é de Cláudia Lucas Chéu que, numa pequena crónica, resume muito daquilo que sinto. "Ainda hoje sofro bastante de um sentimento de querer controlar tudo, embora saiba agora o quão inútil e estúpido é este sentimento. Sei que não tenho mão em quase nada. As coisas acontecem e o que é preciso é saber lidar com elas ou não lidar de todo — por vezes fugir também é uma opção." A crónica intitula-se "Controlar o ingovernável" e é ilustrada por uma imagem do filme Lady Bird, de Greta Gerwig - uma cena que mostra a difícil relação entre filha e mãe.

Viver é, todos os dias, tentar "controlar o ingovernável". É muito isto que sinto na vida em geral e na relação com os meus filhos em particular. Vê-los crescer tem tanto de fascinante como de assustador. O amor mistura-se com o medo. As desilusões (podia fingir que não existem mas, sim, existem, no meu caso, muitas desilusões e frustrações e sentimentos de falhanço e até vergonha e todos esses sentimentos que estamos proibidos de dizer em voz alta mas que nem por isso deixam de ser reais) misturam-se com o orgulho. A vontade de lhes orientar os passos e garantir que tudo lhes corre bem e, ao mesmo tempo, sabermos que temos de deixá-los falhar e errar e descobrirem o seu próprio caminho.
Não podemos controlar tudo. Nem na nossa vida nem na vida dos filhos nem no mundo que nos rodeia. Aceitar isto não significa desistir dos nossos objectivos e dos nossos sonhos, não quer dizer que nos vamos sujeitar ao que acontece sem dar luta, que vamos deixar de fazer aquilo que achamos certo e que devemos e queremos fazer. Significa apenas (tentar) deixar de sofrer tanto, de nos angustiarmos e martirizarmos de culpa sempre que sentimos que as coisas fogem do nosso controlo. Aceitar as falhas e tentar aprender com os erros sem nos sentirmos a fracassar irremediavelmente.
Não é fácil, pois que não é. E eu só às vezes é que o consigo. Mas, ainda assim, continuo a tentar.