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Descobri esta semana (eu sei, sou um bocadinho ignorante), por causa de umas pesquisas que andava a fazer, que a palavra assédio é usada em contexto militar. 

Assédio: "acção que consiste em cercar militarmente uma posição inimiga, geralmente durante um período prolongado ou que se calcula dever durar muito. Sinónimo de cerco." (Priberam); "conjunto de operações que visam a conquista de uma posição inimiga" (Infopedia).

Fora do contexto militar, a palavra assédio tem mais ou menos o mesmo significado. É um cerco. Uma tentativa de domínio.

Falemos, então, do assunto do momento: o assédio sexual. Outra vez. As vezes que forem necessárias. E falemos, finalmente, do assédio sexual em Portugal.

Há mulheres que cometem assédio mas, convenhamos, na maioria dos casos o assédio é realizado por homens. Existe aqui uma forte componente cultural - não há nada na genética dos homens que os leve a ser javardos, os homens não sofrem de desejos incontroláveis nem têm ímpetos inatos que os levam a apalpar uma mulher na rua. Mas existe um caldo cultural no qual estes comportamentos têm sido apurados em lume brando ao longo de séculos. E que, como é óbvio, leva algum tempo a destruir. Estamos nesse caminho. Através da educação que damos aos rapazes e às raparigas. Através da legislação. Através dos debates que todos os dias temos no espaço público e que contribuem para mudar a forma como estes assuntos são encarados. Já conseguimos mudar muita coisa mas ainda há muito por mudar. 

E é isso que estamos a tentar a fazer quando falamos publicamente sobre o assunto.

Há diferentes comportamentos masculinos que estão errados e que demonstram uma profunda falta de respeito pelas mulheres. Mas estando todos errados não são todos iguais.

Há as situações de rua (que também podem acontecer no local de trabalho) - os piropos, os encostos no metro ou no elevador, os gajos que não param de olhar para o nosso corpo, o maluco sentado no canto do autocarro a mexer na pila, os colegas que comentam a tua aparência (são elogios, quem é não gosta? lol). É tudo horrível. As mulheres aprendem cedo a proteger-se destas situações. Mudamos para o outro lado do passeio. Baixamos os olhos. Encolhemos os ombros para esconder o decote. Ignoramos as javardices que ouvimos. Mulher séria não tem ouvidos, foi o que nos disseram desde pequeninas. Mas não deveria ser assim. Não deveríamos ter que passar por isto. Nenhuma mulher deveria sujeitar-se a ser tratada desta forma, nem deveria sentir-se insegura ou desconfortável apenas pelo facto de ter um corpo. Muita gente acha que não, mas isto já é assédio.

Existem outras situações de assédio que são já um passo em frente, que é quando os homens tentam interagir com as mulheres e, mesmo quando elas recusam os seus avanços, eles insistem. Isto é comum acontecer na noite, em bares ou discotecas. Mas pode acontecer noutras situações sociais, em festas de amigos ou mesmo entre colegas de trabalho. Há homens que têm muita dificuldade em aceitar um não. Que insistem em chegar-se mais perto, em colocar uma mão no nosso braço, em fazer sorrisos e olhinhos e insinuações mesmo quando já demos a entender que não estamos interessadas. Porque, entendamo-nos: uma coisa é um homem estar interessado numa mulher, demonstrar de alguma forma esse interesse e ser retribuído, ela interage com ele e a coisa evolui como ambos querem - isso é aquele processo de sedução que se quer saudável e divertido; outra coisa é um homem estar interessado numa mulher, ela demonstrar que não está interessada e ele insistir, tomando atitudes cada vez mais intrusivas. Uma coisa não se confunde com a outra, acreditem.

Estas duas situações de assédio são não só bastante comuns como são geralmente desvalorizadas pelos homens que, quando confrontados, raramente admitem que estão a fazer alguma coisa errada. Afinal, são só homens a ser homens, não é? Ora agora, já não se pode dizer nada? 

E, por fim, e num patamar ainda mais grave, diria eu, existe o assédio que é realizado por homens que estão numa posição de poder em relação à mulher. Os professores em relação às alunas. Os chefes em relação a subalternas. Os ministros, diretores, presidentes, senhores doutores (e etc.) em relação a qualquer mulher que, por algum motivo, sinta que se não corresponder pode ser prejudicada - no seu emprego, na sua vida. Sou uma sortuda, nunca passei por uma situação destas. Mas sei que, nestes casos, é triste dizê-lo, as mulheres acabam algumas vezes por sujeitar-se a fazerem coisas que não querem fazer. Por medo. Quase sempre por medo de represálias. Ou porque não têm, naquele momento, as ferramentas necessárias para saberem recusar, ou porque são muito novas ou muito frágeis ou porque se sentem encurraladas ou porque sentem que não têm opção, mas sempre por terem medo. Ou, então, recusam delicadamente os avanços e enfrentam sozinhas as consequências. E continuam a sentir medo.

Nada disto é aceitável.

E, sim, é bom ver que também em Portugal as vítimas estão a perder o medo de denunciar estas situações. Bravo, corajosas. 

Mas também seria bom que todos nós tomássemos consciência da quantidade de vezes em que vimos estas coisas acontecer à nossa frente e não fizemos nada. As vezes em que não mandámos calar aquele colega inconveniente. As vezes em que avisámos alguém: "tem cuidado com o fulano" em vez de confrontarmos directamente o fulano. As vezes em que falámos entre nós e o máximo que conseguimos foi insultar o gajo pelas costas e garantir que íamos estar sempre ali para as nossas amigas.

As vezes em que pessoas com poder em empresas e instituições foram complacentes com estas situações, riram-se dos comentários sobre as estagiárias, olharam para o outro lado para não verem, encolheram os ombros e disseram "ele é assim" em vez de tomarem uma posição: admoestando os abusadores, abrindo processos disciplinares e deixando bem claro que tais comportamentos não seriam mais tolerados.

Nem todos os homens são assim, felizmente. Mas, infelizmente, basta que alguns o sejam para causar um enorme sofrimento nas suas vítimas.

A quantidades de testemunhos que li nestas últimas semanas - nas redes sociais e na imprensa - denunciando casos de assédio, e o baixo nível dos comentários, críticas e insultos lançados a essas mulheres mostram bem o quanto ainda nos falta andar.  

Vamos?

publicado às 01:04

É muito cansativo ser mulher no Dia da Mulher. No supermercado, havia ontem uma bancada especial com flores. No Facebook, amigos falavam do quanto as mulheres são especiais porque têm o poder de dar vida e mandavam mensagens desejando um "feliz dia". Na comunicação social, repetiram-se as entrevistas às mulheres de sucesso. A sério. É muito cansativo ser mulher no Dia da Mulher, o que nos mostra o quanto este dia ainda é necessário.

Fixemos isto: em 2021 houve uma mulher, diretora de um jornal, que se deu ao luxo de escrever nas suas redes sociais que "das fracas não rezará a história", como se só as CEO deste mundo fossem "mulheres com M maiúsculo". Infelizmente, não é a única a pensar assim.

Podíamos comentar como é fácil ser forte quando se é herdeira de uma empresa e se tem uma Marilene lá em casa a fazer o jantar para toda a família, mas não vamos entrar por aí, não é? O problema é muito mais grave do que isso. É que esta ideia de mulheres fortes e fracas remete para uma hierarquização das pessoas em função de um determinado conceito de estatuto social. E isso é algo tão inacreditavelmente preconceituoso.

Em nome das "fraquinhas" deste mundo, quero homenagear todas as mulheres - mesmo aquelas anónimas que não terão nunca direito a um rodapé nos livros de história - e dizer-lhes que independentemente de serem criadas ou gestoras de empresas, de serem ricas ou pobres, gordas ou magras, feias ou bonitas, de usarem chinelos ou saltos altos, independentemente do apelido, da cor da pele, da quantidade de pêlos que têm no corpo, independentemente de terem ou não filhos e dos motivos para tal, independentemente de terem nascido em Portugal ou na Índia, de morarem na avenida de Roma ou na Cova da Moura, independentemente das origens e das opções de vida, independentemente de se manifestarem na rua pelos vossos direitos ou de sofrerem em silêncio por todas as violências de que são alvo, vocês, mulheres, todas as mulheres, merecem ter todo o respeito, toda a liberdade e todos os direitos que os homens têm.  E isto é só o começo da conversa.

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publicado às 13:46

14
Nov20

A mãe

Nunca tinha pensado nela até há dias, quando vi as notícias sobre a sua morte. Conhecia bem as imagens da menina negra que em 1960, desafiando a tradição segregacionista, foi para a escola primária pública em New Orleans, EUA, escoltada por quatro US Marshals que a mantinham longe das ameaças e dos insultos dos brancos. Mas nunca me tinha ocorrido que esta menina de seis anos, Ruby, não tinha de facto ido para a escola sozinha. Foi ela que ficou famosa, sim, por ser a primeira aluna negra naquela escola, mas foi a mãe, obviamente, que a meteu nesta batalha.

Lucille Bridges é o seu nome. 

Nasceu no Mississipi e, tal como a maioria das crianças negras naquele tempo, não chegou a terminar a escola primária. Foi mãe em 1954, o ano do caso Brown vs. Board of Education, no qual o Supremo Tribunal considerou ilegal a segregação nas escolas norte-americanas. O Louisiana foi um dos estados que prolongou a discriminação até à publicação de uma lei federal, em 1960. Mesmo assim, o distrito escolar onde os Bridges moravam exigia que os alunos negros fizessem um exame para determinar se tinham condições para estudar com os colegas brancos. Nesse ano, Ruby foi uma dos 165 alunos que fizeram o exame, foi apenas uma das seis crianças aprovadas e foi a única a decidir frequentar a escola William Frantz Elementary, tradicionalmente uma escola branca.

O pai, Abon, estava reticente, foi a mãe que insistiu que ela deveria ir. "Queria que os meus filhos tivessem melhores oportunidades do que nós, queria que eles fossem para a escola e aprendessem", explicou numa entrevista posterior. Antes daquele primeiro dia de aulas, o diretor da escola disse-lhes, a ela e ao marido, que era melhor rezarem porque as coisas iriam ficar feias. E ficaram.

Naquele dia, Ruby saiu de casa com roupa e sapatos novos, oferecidos por um apoiante dos direitos civis, que a família não teria dinheiro para comprar, acompanhada pela mãe. Enquanto faziam o seu caminho a pé para a escola, uma multidão de brancos furiosos gritava "Two, four, six, eight, we don't want to integrate" e atirava-lhes tomates, ovos e garrafas. A casa da família esteve sob escolta policial durante todo o ano lectivo, várias famílias tiraram os seus filhos daquela escola, apenas uma professora aceitou dar aulas a Ruby - e por isso durante um ano ela teve aulas sozinha. Toda a família sofreu pressões, Abon perdeu o emprego e os pais acabariam por se separar.

Mas também houve muita gente a apoiar a família e, gradualmente, as escolas do Sul acabaram por aceitar o fim da segregação.

Ruby estudou sempre em escolas públicas não segregadas, terminou o liceu e é, desde então, uma activista dos direitos civis. 

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Este momento aconteceu há precisamente 60 anos, a 14 de novembro de 1960. A mãe de Ruby não aparece em muitas das fotografias daquele dia que se tornaram famosas. Mas, como sempre, as mães até podem ficar uns passos para trás e prescindir do protagonismo, mas estão lá.

Lucille morreu no passado dia 10 de novembro, com 86 anos.

publicado às 11:35

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Sobre saias e meninos já disse o que tinha a dizer há uns tempos AQUI.

O assessor da deputada, Rafael Esteves Martins, também disse o que tinha a dizer e esteve muito bem AQUI.

Um homem entrou de saias no Parlamento. Registe-se o momento histórico. Houve quem falasse em manobra de marketing. Será. Mas a mim o statement parece-me óbvio: estamos aqui para estraçalhar os estereótipos e os preconceitos e defender a liberdade de cada um ser como é. Que é, na verdade, uma das coisas que as pessoas que votaram no Livre esperam que o partido faça.

O resto são os polemistas do costume que acham que têm de ter opinião sobre a roupa que os outros usam como se isso lhes dissesse respeito. A sério. Cada um veste o que quer. Quando quer. Como quer. Prefiro mil vezes pessoas que estão na assembleia (ou noutro sítio qualquer) a exibir as suas tatuagens e piercings e ténis e chinelos e minissaias e o que mais lhes apetecer mas que trabalhem e sejam honestas do que gente engravatada com botões de punho e camisas vincadas mas que são uns trafulhas e incompetentes.

O "respeito pela instituição" mede-se em trabalho, assiduidade, pontualidade, preparação, empenho, seriedade. Não tem nada a ver com uma saia plissada.

(a foto é do Miguel Silva/ Jornal Sol)

publicado às 09:34

Lembram-se de quando, nas aulas de ginástica, os rapazes iam jogar à bola enquanto as raparigas iam jogar ao mata? Há 40 anos isto acontecia e ninguém estranhava; hoje, nas aulas de ginástica, rapazes e raparigas praticam os mesmos desportos e ninguém admite discriminações.

Até parece que estou ouvir as vozes do costume a dizer que isto é um extremismo, que mal é que tinha, que já não se pode com o politicamente correcto e que passamos a vida a preocupar-nos com coisas de nada quando devíamos estar mas é preocupados com a falta de professores. Mas, olhem, eu acredito que temos espaço nas nossas vidas para nos preocuparmos com muitas coisas diferentes e também acredito que estas mudanças aparentemente pequenas são, na verdade, muito importantes e são ao mesmo tempo motor e consequência das grandes mudanças que queremos ver na nossa sociedade.

Em dezembro de 2016, ou seja, há quase três anos, andei a fazer uma reportagem sobre o futebol feminino em Portugal. Foi uma das reportagens que mais gostei de fazer - porque partiu de um interesse genuíno meu e porque me permitiu conhecer uma realidade que eu até aí desconhecia. Quase todas as raparigas com quem falei foram gozadas em campo, em algum momento, e ouviram muitos piropos e, apesar disso, não desistiram da sua paixão. Já crescidas, treinavam, à noite, depois de cansativas jornadas de trabalho, e sem ganhar qualquer recompensa para além do gozo que aquilo lhes dava. Os jogos das mulheres atraíam pouco público e quase nenhum interesse por parte dos media. Mas as coisas já estavam a mudar. Depois do Braga, aquela foi a primeira época para a equipa do Sporting. Pouco depois, foi a vez do Benfica anunciar que ia criar uma equipa feminina. É bom ver o quanto evoluímos desde então. Sobretudo na formação das jogadoras mais novas e na aceitação da modalidade, que já não é (ou está a deixar de ser) vista como uma extravagância de um grupo de maria-rapazes.

Ontem, jogou-se o primeiro derby oficial, Benfica-Sporting, em futebol feminino. No estádio da Luz, a assistir ao jogo, estiveram 12 812 espectadores.

Porque as coisas não têm que ser como sempre foram.

Ainda há muito por fazer, claro. Mas a igualdade também passa por aqui. 

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Foto de Filipe Amorim/ Global Imagens

publicado às 14:32

11
Ago19

Joacine

Tinha muita curiosidade em conhecer a Joacine Katar Moreira e em saber a sua história. Por isso, fui falar com ela. Há dias em que isto ainda vai valendo a pena.

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Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

publicado às 12:34

De vez em quando estou a conversar com alguém ou a ler um livro ou a ver um filme ou o que seja e dou por mim a surpreender-me: uma ideia nova, um conceito estranho, uma descoberta. Como é que eu nunca tinha pensado nisto? Aconteceu-me recentemente ao ler Não serei eu mulher?, de Bell Hooks, e agora mesmo com Memórias da Plantação: Episódios do Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba. E se eu, que me interesso por estes assuntos, do feminismo e do racismo, nunca tinha pensado em algumas das coisas que elas ali escrevem, imaginem todas aquelas pessoas que vivem felizes e contentes a achar que vivemos numa sociedade muito igualitária e justa, onde todos são tratados de forma igual e têm as mesmas oportunidades, aqueles que dizem que o colonialismo português foi suave e que não há racismo em Portugal, entre outras narrativas apaziguadoras. Memórias da Plantação pôs-me a pensar nos nossos pequenos actos e também nas palavras que usamos. As palavras são importantes, isso eu já sabia. As palavras são ideologia e são poder, isso eu também já sabia. Mas nunca tinha pensado verdadeiramente em como as palavras podem ser violentas para muitas pessoas. Não tinha considerado como deve ser a dimensão desta violência.

Agora que já sei o que posso fazer com este conhecimento? Mudar algumas das minhas atitudes e das minhas palavras, obviamente. E, além disso, tenciono fazer aquilo que sei fazer melhor: não ficar calada. O que me faz ter muitas discussões com as pessoas que estão à minha volta e que insistem em dizer barbaridades, mas, pronto, assim como assim já tenho a fama de ter mau feitio mais vale usá-la para algo importante como fazer com que este mundo seja um bocadinho melhor.

A propósito:

Aproveitem para ir ver Três Rostos, o filme de Jafar Panahi, sobre a condição das mulheres no Irão. Só para nos lembrarmos que, apesar deste país imperfeito que temos, vivemos num local muito privilegiado a todos os níveis.

E votar.  Já foram votar? 

publicado às 13:08

03
Mai19

Pêlos

Tenho calores e frios e tudo ao mesmo tempo sempre que vejo notícias e comentários e polémicas sobre esta coisa dos pêlos. Esta mania que a sociedade tem de determinar como é que deve ser o corpo da mulher. Mais do que isso: como é que deve ser a mulher. E de culpabilizar as mulheres que não correspondem à suposta norma. Isso acontece com o peso, com as formas, com a celulite, com os pêlos, com a roupa, com o cabelo, com o trabalho, com a maternidade, com tudo... Existe uma imagem da mulher que é considerada a certa e depois existem mulheres que são diferentes e, logo, são publicamente criticadas. Porquê? No caso dos pêlos, por exemplo, digam-me lá qual é a justificação para se aceitar que um homem tenha pêlos (nos sovacos, nas pernas, na zona púbica) mas depois numa mulher isso já ser considerado feio e até nojento? 

Mas, claro, isto é a apenas a ponta de um iceberg muito maior que é esta mania (antiga como o mundo mas agora muito mais visível e potencializada pelas redes sociais) de que temos direito a meter o bedelho na vidinha dos outros.

Esta mania de dar a nossa opinião, por tudo e por nada. E de querer impor a nossa opinião sobre a dos outros, criticando e insultando quem se atreve a ser diferente.

Deixem as mulheres (e as pessoas em geral) serem como quiserem ser.origin.jpg

Esta é Annahstasia no anúncio da Nike que tanto chocou algumas pessoas.

Lembrei-me DISTO, que escrevi há mais de dez anos. Tão bom. Tão eu.

publicado às 11:00

06
Mar19

Mulher

Esta coisa de sermos quem somos, sem mas, sem culpas, sem tabus. Esta tem sido a longa caminhada das mulheres ao longo da história. E tem sido também a minha própria caminhada nestes quase 45 anos. As mulheres crescem sob censura. Uma menina não deve. Uma rapariga nunca. Uma senhora jamais. De coisas tão simples como não dizer palavrões a coisas tão complexas como não revelar os seus desejos sexuais (mulher decente não tem cá disso) passando por não andar sozinha na rua à noite, é longa a lista de coisas que as mulheres não devem fazer porque são mulheres e só por isso estão sujeitas a mil perigos ou apenas porque têm uma reputação a manter (o que é que as pessoas vão pensar?).

Esconder. Calar. Aceitar. Obedecer. Tapar o corpo. Sufocar as vontades. Conter os gestos. Silenciar as palavras. Sentir vergonha.  

Evoluímos muito, não há dúvida. Mas ainda há muito por fazer. No mundo inteiro. Aqui mesmo em Portugal, não se deixem enganar. As mulheres que fazem o que querem ainda são seres estranhos. Ainda são motivos de artigos de jornal no dia da mulher - e enquanto for necessário fazer artigos de jornal sobre as mulheres extraordinárias que fazem o que querem é porque ainda há um caminho por andar.

A propósito:

- O filme Period. End of sentence, que ganhou o Óscar para Melhor Curta Metragem de Documentário, mostra uma comunidade na Índia (um país onde apenas 10% das mulheres usam pensos higiénicos, as outras usam "paninhos") onde uma pequena unidade de produção de pensos low cost está a mudar a vida de muitas raparigas. É comovente de muitas maneiras. E não deixa de nos pôr a pensar que enquanto nós, na Europa, nos preocupamos com o ambiente e andamos a tentar substituir os pensos por copos menstruais, ainda há mulheres para quem o simples uso de um penso descartável pode significar um passo gigantesco rumo à emancipação. O filme está disponível na Netflix.

- A música de Mynda Guevara, uma rapper de 22 anos. Conto a história dela e da sua determinação AQUI

- E, já agora, o filme de Raquel Freire onde Mynda Guevara aparece. Chama-se Mulheres do Meu País e é um documentário que nos mostra como várias mulheres são heroínas todos os dias, só pelo simples facto de serem mulheres e de, apesar disso, não quererem deixar de fazer as coisas que têm vontade de fazer. Estudar, pescar, ser bombeira, fazer rap, o que for. O filme tem ante-estreia amanhã, em Lisboa, e depois vai chegar à RTP. 

Embora não ligue nada, acho bem que se assinale o Dia da Mulher, porque ainda é necessário, mas não se esqueçam: somos mulheres todos os dias.

publicado às 17:36

30
Jul18

Nanette

Há um momento, a meio do espetáculo de stand-up comedy Nanette, em que as gargalhadas deixam de se ouvir. Nem um aplauso. Nem sequer um daqueles risos envergonhados. Nada. Só o silêncio na enorme sala da Ópera de Sydney enquanto Hannah Gadsby, de 40 anos, conta como foi crescer na Tasmânia onde 70% das pessoas achavam que a homossexualidade era não só um pecado como deveria ser considerada um crime - como aconteceu até 1997. Conta como disse à mãe que era lésbica mas nunca, até agora, teve coragem de contá-lo à avó porque, apesar de fazer espetáculos onde fala abertamente sobre o assunto, no seu íntimo continua a sentir vergonha. Conta como foi violada por duas vezes e como foi espancada por um homem por ser, como ele lhe chamou, “uma aberração” e “uma paneleira de merda”. Conta como construiu uma carreira “à base do humor autodepreciativo”, humilhando-se voluntariamente em público, e como não quer continuar a fazê-lo. “Vou deixar a comédia”, anuncia, sabendo que é um paradoxo irresolúvel e até risível isso de se anunciar que se vai deixar a comédia a meio de um espetáculo de stand-up comedy.

“Quando saí do armário, a única coisa que sabia fazer era ser invisível e odiar-me. Demorei dez anos a perceber que podia ocupar um espaço no mundo mas, nessa altura, já o tinha transformado em piadas, como se não fosse nada de importante. Agora, preciso de contar a minha história como deve ser”, explica. Contar uma história com princípio, meio e fim; não em forma de piada. Porque “o riso é só o mel que adoça o remédio amargo”. O riso não é a verdadeira cura, percebeu.

E, já que estamos a ser sinceros, vamos lá falar de preconceitos e misoginia e machismo e de todas as outras mulheres que desde que o mundo é mundo são alvo de abusos vários. Vamos lá falar de Weinsten, de Bill Clinton, de Picasso. Também questionar o que é isso de fazer um "humor lésbico" e o que é isso de ser artista (toda a história em volta do Van Gogh é deliciosa). Nos momentos em que este ainda é um espetáculo de stand-up comedy, Hannah Gadsby é uma das mais corrosivas e certeiras humoristas que andam por aí e não é por acaso que Nanette se estreou em 2017 e ganhou prémios em vários festivais de humor até, em junho passado, chegar à Netflix e se tornar um verdadeiro fenómeno global. Nanette é também por isso uma lição de alguém que domina perfeitamente a arte da comédia e que decide desconstruí-la ali, à nossa frente. Pôr-nos a rir desbragadamente. E depois calar-nos. 

Na sexta-feira, em Montreal, Hannah Gadsby apresentou Nanette pela última vez. Ou pelo menos é o que ela diz. Se vai deixar a comédia? Isso não é importante. E o mais provável, ela já o admitiu, é que não desista. Mas talvez procure outros caminhos. “Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu”, avisa. Essa é a grande lição deste espetáculo. O que nos faz continuar, o que nos permite sobreviver é a ligação aos outros. Essa é a sua última palavra em palco: connection. Como quem diz: amor.

Este texto é uma adaptação de um texto que publiquei no passado domingo do DN.

Sobre Hannah Gadsby há muito para ler na internet. Aconselho-vos:

Entrevista à Vulture, em janeiro

Um texto da própria Hannah 

Este artigo no The Lily

publicado às 19:12


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