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Sobre saias e meninos já disse o que tinha a dizer há uns tempos AQUI.

O assessor da deputada, Rafael Esteves Martins, também disse o que tinha a dizer e esteve muito bem AQUI.

Um homem entrou de saias no Parlamento. Registe-se o momento histórico. Houve quem falasse em manobra de marketing. Será. Mas a mim o statement parece-me óbvio: estamos aqui para estraçalhar os estereótipos e os preconceitos e defender a liberdade de cada um ser como é. Que é, na verdade, uma das coisas que as pessoas que votaram no Livre esperam que o partido faça.

O resto são os polemistas do costume que acham que têm de ter opinião sobre a roupa que os outros usam como se isso lhes dissesse respeito. A sério. Cada um veste o que quer. Quando quer. Como quer. Prefiro mil vezes pessoas que estão na assembleia (ou noutro sítio qualquer) a exibir as suas tatuagens e piercings e ténis e chinelos e minissaias e o que mais lhes apetecer mas que trabalhem e sejam honestas do que gente engravatada com botões de punho e camisas vincadas mas que são uns trafulhas e incompetentes.

O "respeito pela instituição" mede-se em trabalho, assiduidade, pontualidade, preparação, empenho, seriedade. Não tem nada a ver com uma saia plissada.

(a foto é do Miguel Silva/ Jornal Sol)

publicado às 09:34

Lembram-se de quando, nas aulas de ginástica, os rapazes iam jogar à bola enquanto as raparigas iam jogar ao mata? Há 40 anos isto acontecia e ninguém estranhava; hoje, nas aulas de ginástica, rapazes e raparigas praticam os mesmos desportos e ninguém admite discriminações.

Até parece que estou ouvir as vozes do costume a dizer que isto é um extremismo, que mal é que tinha, que já não se pode com o politicamente correcto e que passamos a vida a preocupar-nos com coisas de nada quando devíamos estar mas é preocupados com a falta de professores. Mas, olhem, eu acredito que temos espaço nas nossas vidas para nos preocuparmos com muitas coisas diferentes e também acredito que estas mudanças aparentemente pequenas são, na verdade, muito importantes e são ao mesmo tempo motor e consequência das grandes mudanças que queremos ver na nossa sociedade.

Em dezembro de 2016, ou seja, há quase três anos, andei a fazer uma reportagem sobre o futebol feminino em Portugal. Foi uma das reportagens que mais gostei de fazer - porque partiu de um interesse genuíno meu e porque me permitiu conhecer uma realidade que eu até aí desconhecia. Quase todas as raparigas com quem falei foram gozadas em campo, em algum momento, e ouviram muitos piropos e, apesar disso, não desistiram da sua paixão. Já crescidas, treinavam, à noite, depois de cansativas jornadas de trabalho, e sem ganhar qualquer recompensa para além do gozo que aquilo lhes dava. Os jogos das mulheres atraíam pouco público e quase nenhum interesse por parte dos media. Mas as coisas já estavam a mudar. Depois do Braga, aquela foi a primeira época para a equipa do Sporting. Pouco depois, foi a vez do Benfica anunciar que ia criar uma equipa feminina. É bom ver o quanto evoluímos desde então. Sobretudo na formação das jogadoras mais novas e na aceitação da modalidade, que já não é (ou está a deixar de ser) vista como uma extravagância de um grupo de maria-rapazes.

Ontem, jogou-se o primeiro derby oficial, Benfica-Sporting, em futebol feminino. No estádio da Luz, a assistir ao jogo, estiveram 12 812 espectadores.

Porque as coisas não têm que ser como sempre foram.

Ainda há muito por fazer, claro. Mas a igualdade também passa por aqui. 

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Foto de Filipe Amorim/ Global Imagens

publicado às 14:32

11
Ago19

Joacine

Tinha muita curiosidade em conhecer a Joacine Katar Moreira e em saber a sua história. Por isso, fui falar com ela. Há dias em que isto ainda vai valendo a pena.

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Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

publicado às 12:34

De vez em quando estou a conversar com alguém ou a ler um livro ou a ver um filme ou o que seja e dou por mim a surpreender-me: uma ideia nova, um conceito estranho, uma descoberta. Como é que eu nunca tinha pensado nisto? Aconteceu-me recentemente ao ler Não serei eu mulher?, de Bell Hooks, e agora mesmo com Memórias da Plantação: Episódios do Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba. E se eu, que me interesso por estes assuntos, do feminismo e do racismo, nunca tinha pensado em algumas das coisas que elas ali escrevem, imaginem todas aquelas pessoas que vivem felizes e contentes a achar que vivemos numa sociedade muito igualitária e justa, onde todos são tratados de forma igual e têm as mesmas oportunidades, aqueles que dizem que o colonialismo português foi suave e que não há racismo em Portugal, entre outras narrativas apaziguadoras. Memórias da Plantação pôs-me a pensar nos nossos pequenos actos e também nas palavras que usamos. As palavras são importantes, isso eu já sabia. As palavras são ideologia e são poder, isso eu também já sabia. Mas nunca tinha pensado verdadeiramente em como as palavras podem ser violentas para muitas pessoas. Não tinha considerado como deve ser a dimensão desta violência.

Agora que já sei o que posso fazer com este conhecimento? Mudar algumas das minhas atitudes e das minhas palavras, obviamente. E, além disso, tenciono fazer aquilo que sei fazer melhor: não ficar calada. O que me faz ter muitas discussões com as pessoas que estão à minha volta e que insistem em dizer barbaridades, mas, pronto, assim como assim já tenho a fama de ter mau feitio mais vale usá-la para algo importante como fazer com que este mundo seja um bocadinho melhor.

A propósito:

Aproveitem para ir ver Três Rostos, o filme de Jafar Panahi, sobre a condição das mulheres no Irão. Só para nos lembrarmos que, apesar deste país imperfeito que temos, vivemos num local muito privilegiado a todos os níveis.

E votar.  Já foram votar? 

publicado às 13:08

03
Mai19

Pêlos

Tenho calores e frios e tudo ao mesmo tempo sempre que vejo notícias e comentários e polémicas sobre esta coisa dos pêlos. Esta mania que a sociedade tem de determinar como é que deve ser o corpo da mulher. Mais do que isso: como é que deve ser a mulher. E de culpabilizar as mulheres que não correspondem à suposta norma. Isso acontece com o peso, com as formas, com a celulite, com os pêlos, com a roupa, com o cabelo, com o trabalho, com a maternidade, com tudo... Existe uma imagem da mulher que é considerada a certa e depois existem mulheres que são diferentes e, logo, são publicamente criticadas. Porquê? No caso dos pêlos, por exemplo, digam-me lá qual é a justificação para se aceitar que um homem tenha pêlos (nos sovacos, nas pernas, na zona púbica) mas depois numa mulher isso já ser considerado feio e até nojento? 

Mas, claro, isto é a apenas a ponta de um iceberg muito maior que é esta mania (antiga como o mundo mas agora muito mais visível e potencializada pelas redes sociais) de que temos direito a meter o bedelho na vidinha dos outros.

Esta mania de dar a nossa opinião, por tudo e por nada. E de querer impor a nossa opinião sobre a dos outros, criticando e insultando quem se atreve a ser diferente.

Deixem as mulheres (e as pessoas em geral) serem como quiserem ser.origin.jpg

Esta é Annahstasia no anúncio da Nike que tanto chocou algumas pessoas.

Lembrei-me DISTO, que escrevi há mais de dez anos. Tão bom. Tão eu.

publicado às 11:00

06
Mar19

Mulher

Esta coisa de sermos quem somos, sem mas, sem culpas, sem tabus. Esta tem sido a longa caminhada das mulheres ao longo da história. E tem sido também a minha própria caminhada nestes quase 45 anos. As mulheres crescem sob censura. Uma menina não deve. Uma rapariga nunca. Uma senhora jamais. De coisas tão simples como não dizer palavrões a coisas tão complexas como não revelar os seus desejos sexuais (mulher decente não tem cá disso) passando pelas coisas óbvias como não andar sozinha na rua à noite, é longa a lista de coisas que as mulheres não devem fazer porque são mulheres e só por isso estão sujeitas a mil perigos ou apenas porque têm uma reputação a manter (o que é que as pessoas vão pensar?).

Esconder. Calar. Aceitar. Obedecer. Tapar o corpo. Sufocar as vontades. Conter os gestos. Silenciar as palavras. Sentir vergonha.  

Evoluímos muito, não há dúvida. Mas ainda há muito por fazer. No mundo inteiro. Aqui mesmo em Portugal, não se deixem enganar. As mulheres que fazem o que querem ainda são seres estranhos. Ainda são motivos de artigos de jornal no dia da mulher - e enquanto for necessário fazer artigos de jornal sobre as mulheres extraordinárias que fazem o que querem é porque ainda há um caminho por andar.

A propósito:

- O filme Period. End of sentence, que ganhou o Óscar para Melhor Curta Metragem de Documentário, mostra uma comunidade na Índia (um país onde apenas 10% das mulheres usam pensos higiénicos, as outras usam "paninhos") onde uma pequena unidade de produção de pensos low cost está a mudar a vida de muitas raparigas. É comovente de muitas maneiras. E não deixa de nos pôr a pensar que enquanto nós, na Europa, nos preocupamos com o ambiente e andamos a tentar substituir os pensos por copos menstruais, ainda há mulheres para quem o simples uso de um penso descartável pode significar um passo gigantesco rumo à emancipação. O filme está disponível na Netflix.

- A música de Mynda Guevara, uma rapper de 22 anos. Conto a história dela e da sua determinação AQUI

- E, já agora, o filme de Raquel Freire onde Mynda Guevara aparece. Chama-se Mulheres do Meu País e é um documentário que nos mostra como várias mulheres são heroínas todos os dias, só pelo simples facto de serem mulheres e de, apesar disso, não quererem deixar de fazer as coisas que têm vontade de fazer. Estudar, pescar, ser bombeira, fazer rap, o que for. O filme tem ante-estreia amanhã, em Lisboa, e depois vai chegar à RTP. 

Embora não ligue nada, acho bem que se assinale o Dia da Mulher, porque ainda é necessário, mas não se esqueçam: somos mulheres todos os dias.

publicado às 17:36

30
Jul18

Nanette

Há um momento, a meio do espetáculo de stand-up comedy Nanette, em que as gargalhadas deixam de se ouvir. Nem um aplauso. Nem sequer um daqueles risos envergonhados. Nada. Só o silêncio na enorme sala da Ópera de Sydney enquanto Hannah Gadsby, de 40 anos, conta como foi crescer na Tasmânia onde 70% das pessoas achavam que a homossexualidade era não só um pecado como deveria ser considerada um crime - como aconteceu até 1997. Conta como disse à mãe que era lésbica mas nunca, até agora, teve coragem de contá-lo à avó porque, apesar de fazer espetáculos onde fala abertamente sobre o assunto, no seu íntimo continua a sentir vergonha. Conta como foi violada por duas vezes e como foi espancada por um homem por ser, como ele lhe chamou, “uma aberração” e “uma paneleira de merda”. Conta como construiu uma carreira “à base do humor autodepreciativo”, humilhando-se voluntariamente em público, e como não quer continuar a fazê-lo. “Vou deixar a comédia”, anuncia, sabendo que é um paradoxo irresolúvel e até risível isso de se anunciar que se vai deixar a comédia a meio de um espetáculo de stand-up comedy.

“Quando saí do armário, a única coisa que sabia fazer era ser invisível e odiar-me. Demorei dez anos a perceber que podia ocupar um espaço no mundo mas, nessa altura, já o tinha transformado em piadas, como se não fosse nada de importante. Agora, preciso de contar a minha história como deve ser”, explica. Contar uma história com princípio, meio e fim; não em forma de piada. Porque “o riso é só o mel que adoça o remédio amargo”. O riso não é a verdadeira cura, percebeu.

E, já que estamos a ser sinceros, vamos lá falar de preconceitos e misoginia e machismo e de todas as outras mulheres que desde que o mundo é mundo são alvo de abusos vários. Vamos lá falar de Weinsten, de Bill Clinton, de Picasso. Também questionar o que é isso de fazer um "humor lésbico" e o que é isso de ser artista (toda a história em volta do Van Gogh é deliciosa). Nos momentos em que este ainda é um espetáculo de stand-up comedy, Hannah Gadsby é uma das mais corrosivas e certeiras humoristas que andam por aí e não é por acaso que Nanette se estreou em 2017 e ganhou prémios em vários festivais de humor até, em junho passado, chegar à Netflix e se tornar um verdadeiro fenómeno global. Nanette é também por isso uma lição de alguém que domina perfeitamente a arte da comédia e que decide desconstruí-la ali, à nossa frente. Pôr-nos a rir desbragadamente. E depois calar-nos. 

Na sexta-feira, em Montreal, Hannah Gadsby apresentou Nanette pela última vez. Ou pelo menos é o que ela diz. Se vai deixar a comédia? Isso não é importante. E o mais provável, ela já o admitiu, é que não desista. Mas talvez procure outros caminhos. “Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu”, avisa. Essa é a grande lição deste espetáculo. O que nos faz continuar, o que nos permite sobreviver é a ligação aos outros. Essa é a sua última palavra em palco: connection. Como quem diz: amor.

Este texto é uma adaptação de um texto que publiquei no passado domingo do DN.

Sobre Hannah Gadsby há muito para ler na internet. Aconselho-vos:

Entrevista à Vulture, em janeiro

Um texto da própria Hannah 

Este artigo no The Lily

publicado às 19:12

No último episódio da segunda temporada de Master of None (desculpem estar a falar outra vez desta série, mas é que é simplesmente espectacular), Jeff, um big boss da televisão, é acusado de assédio sexual por várias colegas de trabalho. O episódio foi lançado em maio deste ano, muito antes do escândalo de Harvey Weinstein, e é impressionante encontrar as semelhanças entre a realidade e a ficção.

Esta é só mais uma prova de que este problema não é recente nem é restrito a uns quantos tipos malucos - não, não é. É uma questão cultural. É o resultado de séculos e séculos de dominação de uma cultura machista. Os homens crescem a achar que é normal comentar o corpo das mulheres que passam na rua, que é normal mandar bocas, apalpar mulheres nos transportes públicos, ou esfregarem-se nelas, é normal olhar os decotes das colegas de trabalho, é normal fazer comentários javardos com colegas de trabalho ignorando a presença de mulheres na sala, é normal oferecer boleias às colegas e aproveitar para fazer avanços, é normal insinuar a uma subordinada que se ela se portar bem até pode ter um aumento, é normal impor a sua presença a uma mulher que já disse que não queria nada com ele, é normal não saber quando parar porque lhe parecia que ela estava mesmo a pedi-las.

Uma coisa verdadeiramente assustadora é ver como, quando as mulheres se queixam de assédio, a maioria dos homens não percebe: não percebe como foi inconveniente, não percebe porque é que não pode fazer aquilo, acha que é tudo normal. "Que mal é que tem?" E isso mostra-nos que ainda temos muito por andar.

O caso de Weinstein é impressionante pela sua dimensão - pela quantidade de mulheres envolvidas; por percebermos que era algo que ele fazia sistematicamente; porque exigia a cumplicidade e até a ajuda de várias pessoas que, aparentemente, achavam tudo normal; pela maneira como ele usava o seu poder no meio audiovisual para pressionar as mulheres (miúdas, na sua maioria), ameaçando a sua carreira. O caso de Louis CK é muito diferente mas é igualmente revelador de como alguns homens só pensam em si e no seu prazer e olham para as mulheres apenas como meio para conseguir alguma satisfação.

Não acompanhei assim com tanta atenção todos os outros casos que foram sendo denunciados e ouvi vários comentários sobre o facto de haver aqui histórias muito diferentes e também diferentes níveis de assédio e de abuso sexual e até poder haver casos em que uma pessoa fique a pensar que se calhar já estamos a exagerar nisto e que juntar no mesmo saco do assédio tanta coisa só vai contribuir para desvalorizar as denúncias realmente graves. Mas a verdade é que estamos sempre a falar do mesmo: de abuso de poder. 

When men use sex to push women into inferior, undervalued, and invisible roles, that isn’t sex; that’s punishment. We must reject the idea that harassment is measured by how sexually violated the victim feels (or how she is told she is supposed to feel). Our conflict is not over sex, or with men in particular or in general, but over power.

Sinceramente, devo dizer que acho maravilhoso que finalmente tenhamos chegado a esta fase de evolução em que as mulheres não têm medo de falar e recusam-se a continuar caladas.

Durante muito tempo, as mulheres sentiam vergonha de dizerem que tinham passado por experiências destas. Como se fosse culpa sua. Eu era miúda quando vi Os Acusados, com a Jodie Foster (1988), e lembro-me perfeitamente de pensar: como assim, dizem que a culpa é dela?, e sentir profundamente a injustiça da situação. Mas é assim que as mulheres crescem. Aprendem a não andar sozinhas na rua à noite porque sentem medo, e só isso já seria um mau sintoma, mas se acontecer alguma coisa a culpa é delas, claro, porque se puseram a jeito. Aprendem a fingir que não é nada quando o marido lhes bate ou as maltrata, porque ele é o marido e elas têm que aceitá-lo como ele é. E acima de tudo aprendem a ficar caladas, para que ninguém saiba, porque, primeiro, ninguém acreditaria nelas, e, segundo, é uma vergonha.

Portanto, sim, é óptimo que finalmente as mulheres deixem de ter vergonha. E acusem. E digam às outras mulheres que não há motivo para ter vergonha. Que têm a razão do seu lado.  

Sim, é importante que as mulheres tenham educação, porque quantas mais ferramentas tiverem melhor se defenderão de todas as formas de pressão e porque saberão exactamente qual é o seu valor, quais são os seus direitos, como devem agir nestas situações.

Sim, é importante que as mulheres tenham autonomia financeira, porque ser independente é o primeiro passo para não se deixar espezinhar. Porque terão opções.

Sim, é importante acusar os homens que abusam do seu poder e da sua posição. Mas é preciso que se perceba que não se trata de uns quantos prevertidos e que nem tudo se resolve mandando-os fazer terapia durante dois meses numa clínica. Esta é uma questão de educação e de cultura (aqui ficam umas dicas, só para começar a mudar algumas atitudes). Que diz respeito a todos nós. E que está muito longe de estar solucionada. 

Para já: "Women are speaking up and they're being believed." E isso faz toda a diferença 

Nestes últimos meses li alguns artigos excelentes sobre este assunto. Alguns que relacionavam esta onda de denúncias com a crise económica e nos media e com a situação política dos EUA e a presidência de Trump. Outros que nos punham a pensar sobre os castigos a aplicar nestes casos. Ou mostravam como toda a gente pactuou com situações destas, talvez até nós mesmos. Ou perguntavam como devemos lidar com a obra dos artistas que são acusados de assédio (um tema fascinante, hei de escrever sobre isto um destes dias). Gostava de pôr aqui os links para alguns desses artigos mas, entretanto, como demorei a escrever este post, fui-lhes perdendo o rasto.

Fica este, que explica porque a revista Time elegeu como personalidade do ano as mulheres que quebraram o silêncio. Com a certeza, porém, de que a procissão ainda vai no adro. O ano está a terminar mas há muito ainda por dizer sobre o assunto.

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publicado às 22:36

Afinal, parece que ainda havia coisas por dizer sobre os livros de actividades da Porto Editora. 

Antes de mais, convém dizer (mais uma vez) que eu acho essa coisa de fazer livros para meninos e livros para meninas uma parvoíce. Não me parece que haja qualquer justificação para isso, em qualquer idade mas muito menos tratando-se de crianças abaixo dos 6 anos (existe neste blog uma tag igualdade, está lá tudo o que penso sobre o assunto). Mas, bom, lá porque eu acho esses livros uma tolice não quer dizer que devam ser proibidos. Se fossem proibir todos os livros que eu acho parvos, desadequados ou até nocivos para as pessoas iria sobrar pouca coisa nas prateleiras. Enfim. Publique-se. Não sendo nada de ilegal, sou sempre pela liberdade.

Também convém dizer que os livros em causa nunca foram proibidos. Houve um parecer da Comissão para a Igualdade de Género que os desaconselhava. E uma houve recomendação (a meu ver excessiva e demasiado casuística) do Governo para a sua retirada do mercado.

Posto isto, a Porto Editora retirou os livros de mercado e agora, um mês depois, volta a pô-los à venda, ao mesmo tempo que emite um comunicado que remete para o relatório do conselho editorial, no qual se desdobra em justificações patéticas. E até infantis. Querem ver?

1) começa por dizer que estes livros respondem "a uma necessidade do mercado, já então muito preenchido com diferentes produtos para rapazes/meninos e raparigas/meninas", a que se segue uma lista de títulos de outras editoras que também fazem a distinção de género. Um pouco como as crianças fazem quando são apanhadas em falta e, para se desculparem, dizem: "mas ele também fez". Farto-me de dizer aos meus filhos: os erros dos outros não desculpam nem justificam os nossos erros. Lá porquem os outros mentem ou roubam ou lá o que seja, não vamos nós fazer o mesmo, não é? 

2) mais adiante, lê-se: "A compra destes produtos é livre: os blocos dos rapazes estão também disponíveis para serem comprados pelas meninas e vice-versa. A igualdade de oportunidades não está comprometida porque todos podem ter acesso à obra que entenderem." A sério? Um menino pode mesmo comprar um livro para menina? E pode comprar uma boneca no corredor dos brinquedos das meninas? E não vai preso por isso? Respiremos fundo. É óbvio que a compra é livre. Não é isso que está em causa. Nem vou aprofundar esta questão (vão lá à tal tag, pode ser que ajude). Quem não percebe isto não percebe nada do que é que estamos a falar. E os senhores da Porto Editora sabem perfeitamente do que é que estamos a falar, só que não lhes dá jeito.

3) diz ainda a editora: "parece-nos muito exagerado considerar que a realização deste tipo de blocos de atividades de alguma forma condicione, no futuro, as opções pessoais e profissionais das crianças." Respiremos fundo, outra vez. Primeiro, não é a realização das actividades, é o discurso sobre as mesmas. Brincar com bonecas não condiciona o futuro de ninguém. Dizer que brincar com bonecas é coisa de meninas sim (mas não é dizê-lo uma vez, é que isto seja dito por toda a gente, de muitas maneiras, ao longo do crescimento das crianças). E, segundo, é mesmo preciso explicar que nada, nenhuma actividade, nenhuma conversa, nenhum livro, nada, visto isoladamente pode ser responsável por condicionar o futuro de uma pessoa? A educação, a socialização, a vida e as próprias pessoas são demasiado complexas para se poder identificar uma causa e um efeito desta forma simplista. E é claro que os vários especialistas altamente qualificados que trabalham na Porto Editora sabem isto. Este é um argumento verdadeiramente populista.

O que eu concluo disto tudo? A Porto Editora retirou os livros do mercado por sua vontade. No calor dos acontecimentos. Amendrontada pelos comentários nas redes sociais. Para tentar acabar com a polémica o mais rapidamente possível. Entretanto, outras vozes se levantaram e a editora percebeu que, se calhar, poderia capitalizar a polémica. E que, havendo quem apoiasse a editora, talvez a decisão inicial tenha sido precipitada. Isto não tem nada a ver com os livros. Nem com discutir o que está certo e o que está errado. Tem a ver com uma empresa que tem um negócio. É perfeitamente legítimo. Mas depois dispensamos todo o discurso pseudo-pedagógico, ok? Vendam lá os livros, aguentem as críticas (a crítica, tal como a venda, também é livre) mas por favor não digam mais parvoíces.

publicado às 21:54

1. Não, não tenho nada contra raparigas que se vestem de princesas. Não acho que se deva proibir os rapazes de brincar com carrinhos. Não me parece mal que as meninas tenham bonecos. Não quero obrigar os meninos as vestirem saias. Não temos que andar todos vestidos de amarelo e só brincar com legos.

O que eu defendo é exactamente o oposto, percebem? Que não haja proibições, nem obrigações, nem letreiros que digam para menino e para menina, nem secções todas de azul e outras todas de cor-de-rosa, nem gente a dizer "isso não é para ti". O que eu defendo é a liberdade para cada criança (e depois cada jovem e cada adulto) poder escolher o que quer para si, sem se preocupar com os rótulos. Terminar com essa divisão que é completamente artificial de que há coisas para rapazes e coisas para raparigas, coisas para homens e coisas para mulheres. Não há. Não são as coisas que têm género, são as pessoas. Há coisas para pessoas e as pessoas são todas diferentes por isso vamos deixá-las escolher o que querem. E até podem querer coisas diferentes em momentos diferentes, por isso em vez de compartimentar vamos dar-lhes diversidade e permitir-lhes experimentar de tudo. 

Só para defender esta liberdade individual já valeria a pena debater este assunto. Mas há mais.

2. Esta divisão, aparentemente inócua, entre meninas e meninos, entre o cor-de-rosa e o azul, entre as bonecas e os carrinhos, entre as princesas e os heróis de acção, é uma das faces de uma educação baseada em estereótipos de género. Estamos a dizer-lhes: as meninas são delicadas, cuidam da casa e dos bebés, preocupam-se com vestidos e sapatos, os rapazes são fortes, aventureiros, ganham dinheiro e fazem o mundo girar. Na prática, nós sabemos, é cada vez menos assim. Felizmente, as últimas décadas têm sido de grandes mudanças. Para as raparigas que estão a ganhar cada vez mais mundo e mais liberdade. Para os homens que descobriram que ser pai é mais do que trazer um ordenado ao final do mês. Mas tem sido uma luta, uma luta árdua. E que ainda não acabou. Há um longo caminho por andar - as diferenças salariais e as estatísticas da representatividade em lugares de topo são o lado visível de uma discriminação que ainda se sente, e muito, na nossa sociedade. Há mais estatísticas por aí - do tempo que homens e mulheres ocupam com tarefas domésticas, das licenças de parentalidade, dos homens e mulheres que optam por trabalhar em casa para dar assistência à família, da quantidade de homens e mulheres em determinadas profissões. E depois há tudo o resto (toda a pressão social, as expectativas familiares, os comentários maldosos que se ouvem na rua, os títulos do jornais, aquela sensação de inadequação porque não correspondemos às expectativas, tudo isso) que escapa à estatística. O preço a pagar por esta igualdade-que-ainda-não-o-é ainda é muito alto, para mulheres e para homens. Sim, ainda há muito por fazer. Além de que o país não é só Lisboa, tal como o mundo não é só a Europa e a América.

E podemos começar por coisas tão simples como esta: não dizer a um rapaz que não pode pintar as unhas porque isso é coisa de meninas (o que é que isto tem a ver com aquilo? tudo).

 

 

Muito foi dito e escrito sobre este assunto nos últimos tempos, fiquei na dúvida se valeria a pena vir aqui dizer, mais uma vez, aquilo que penso. Mas, sabem, de cada vez que ouço alguém a dizer "tu também brincaste com bonecas e agora és uma mulher determinada e com cabeça" sinto que essa pessoa nem sequer se deu ao trabalho de tentar perceber o que estamos a dizer. E isso, ao mesmo tempo que me entristece e quase me leva a desistir, obriga-me a voltar ao assunto. As vezes que forem necessárias.

publicado às 15:28


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