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Este post é só para me lembrar que há dias em que isto ainda vai valendo a pena. Isto do jornalismo. Isto de acordar de manhã e ir trabalhar durante oito horas, a maior parte das quais a fazer coisas que claramente dispensava. Isto de viver por turnos e trabalhar aos fins-de-semana e ganhar uma miséria e ter muitas dúvidas que o esforço compense. Mas há dias em que nos cruzamos com pessoas bonitas e temos conversas interessantes e vai que até o resultado nos deixa um bocadinho-muito satisfeitos. Há dias assim. E esses dias devem ser assinalados.

Falei com a poeta Alice Neto de Sousa, por skype, num sábado de chuva algures em fevereiro. Ela estava de pijama, bonita e sincera, tal como é. Depois aconteceram coisas na minha vida e no mundo e a conversa ficou guardada no gravador até haver tempo para lhe dar a devida atenção. AQUI está.

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E também falei com o Pedro Penim, que eu conheço seguramente há mais de vinte anos e agora é director do Teatro Nacional D. Maria II. É uma alegria vê-lo ali, tão entusiasmado e cheio de ideias, tal e qual como também vi o Tiago Rodrigues. Sou uma sortuda, eu sei. A conversa está AQUI.

publicado às 20:58

06
Mar22

Ucrânia

É muito simples, diz o Miguel Esteves Cardoso: "Há dois países em causa: a Rússia e a Ucrânia. A Rússia agrediu a Ucrânia. A Rússia é maior e mais forte do que a Ucrânia. E a Ucrânia está sozinha."

Podemos discutir tudo, os motivos ou a falta deles, a história, o papel dos EUA e da NATO, podemos lembrar outros conflitos, outras batalhas, outras injustiças, podemos chamar a atenção para a propaganda e a retórica que para aí anda em torno de heróis e da coragem de um povo, podemos sempre manter o espírito crítico e estar alertas para a desinformação, mas daí a defender o Putin e a invasão já me parece que vai um passo de gigante. Os ímpetos imperialistas do presidente russo são bastante assustadores.

Não há guerras boas. Nem que seja porque em todas as guerras as principais vítimas são inocentes. Num momento como este, a empatia é talvez um dos sentimentos mais importantes. Lembrem-se: podíamos ser nós. Podíamos ser nós em Donbass, onde a guerra já começou em 2014. Podíamos ser nós em Kiev ou no resto da Ucrânia, a ter medo, a morrer, a lutar, a fugir. Podíamos ser nós na Rússia, a sentir vergonha e impotência perante o poder. Podíamos ser nós, jovens de 20 anos, em qualquer dos lados da fronteira, obrigados a combater. Podíamos ser nós na Polónia, a receber meio milhão de refugiados numa só semana. 

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Foto de Vadim Ghirda (AP)

A propósito:

Lembrei-de da série Why We Hate? - porque odiamos? 

Não sei muito sobre a história da Ucrânia. Aprendi algumas coisas ao ler a biografia de Clarice Lispector, de Benjamin Moser.  Toda a primeira parte, sobre a família, ajuda a perceber o que aconteceu ali no início do século XX. Aqui estão alguns livros sobre a Ucrânia (e mais aqui) que podem ajudar-nos a contextualizar sem serem demasiado complexos.Também podemos ler os livros da jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, alguns estão traduzidos em português, que nunca é tempo perdido.

O Guardian também fez uma lista com 20 filmes que podem ajudar a entender o que se passa na Ucrânia. Infelizmente, não são fáceis de encontrar. Estive a rever o documentário Winter on Fire (na Netflix) sobre a ocupação e os conflitos na Praça Maidan, em 2013. Talvez fosse uma boa altura para as televisões passarem os filmes do Sergei Loznitsa. Fica a ideia. 

E um conselho: procurem fontes de informação fidedigna. O Twitter pode ser muito útil mas é importante verificar a origem das informações. É muito fácil deixarmo-nos levar pelas emoções, pelos likes e pela partilha rápida. Duvidem. Questionem. Procurem. Recuem. Parem para pensar. Este conselho é para todos mas sobretudo para os jornalistas.

publicado às 11:06

Conheci a Valentyna numa daquelas semanas em que só se falava do Rendeiro. As luzes de natal a piscarem, na televisão toda a gente a discutir a fuga do banqueiro e nós sentámo-nos a beber um carioca de limão e ela contou-me como foi difícil decidir deixar o seu país, um dia era professora de biologia na Ucrânia e poucos dias depois era a única mulher loira numa aldeia portuguesa e trabalhava numa fábrica, mas andava maravilhada com as arvores cheias de laranjas mesmo ali à porta de casa. "Comi tantas laranjas que me ficou a doer a barriga", disse, entre gargalhadas. Rimo-nos e emocionámo-nos e no fim despedimo-nos com um abraço apertado e ela deu-me um rebuçado. Há jornalistas que vibram com as notícias em primeira mão, os exclusivos, as cachas, as manchetes. Para mim um dia bom é aquele em que tenho oportunidade de conhecer pessoas boas, de conversar com elas e de ficar a conhecer as suas histórias. Pessoas como a Valentyna, a Zinaída, o Iuri ou a Irma. 

Falei com eles para mais uma edição do Projeto Invisível, a revista sonora da Culturgest. E foi mais uma vez incrível.

Ouçam AQUI a conversa "For Real" feita a propósito do espectáculo Amores de Leste, dos Hotel Europa.

Se quiserem, também podem ouvir o número anterior da revista.

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publicado às 19:37

Nas últimas duas semanas, por uma daquelas coincidências de agenda que não conseguimos controlar, fui atropelada por um camião de trabalho que me obrigou a dormir algumas noites fora de casa, noutras a chegar à cama muito tarde, a fazer muitos quilómetros para baixo e para cima, a deixar um pouco os miúdos por sua conta e a fechar os olhos ao caos que se instalava aqui em casa. Nada disto foi fácil, por diferentes motivos. Mas, apesar do cansaço, das dores nas costas e nos joelhos, da ansiedade, da tensão permanente nos ombros, do sono (muito sono) e da culpa (a culpa, sempre), há também aqui uma grande alegria. Porque nestas duas semanas tive oportunidade de fazer algumas das coisas de que mais gosto. Por um lado, a pretexto da campanha eleitoral, pude sair da redacção e andar por aí, descobrindo o país e falando com pessoas. Por outro lado, tive um convite maravilhoso da Patrícia Portela, diretora do Teatro Viriato, em Viseu, para moderar algumas conversas com artistas no NANT - Encontro de Dança Contemporânea. O único problema foi calhar acontecer tudo ao mesmo tempo.

Esta noite dormi pouco mais de três horas e estou podre como não me sentia há muito tempo, jogada no sofá praticamente sem me mexer. Mas, apesar de tudo, é bom quando, de vez em quando, o trabalho não é só um trabalho, é também algo que nos faz sentirmos vivos, que nos desafia e nos leva a arriscar por terrenos desconhecidos, quando nos permite ultrapassar medos (e se me espalho ao comprido e só digo parvoíces em frente daquelas pessoas todas?), quando chegamos ao fim e, mesmo quando temos capacidade de auto-crítica para percebemos onde errámos e onde poderíamos ter feito melhor, sentimos que o balanço até é positivo (e, que alívio, afinal, não nos espalhámos ao comprido). E no meio disto, reencontrei algumas pessoas de que gosto muito e conheci pessoas novas, muito fixes, que quero manter por perto.

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Na foto, na conversa com a fantástica Piny. Acho que aquele sorriso diz tudo. Não fui feita para o palco, isso é certo, mas talvez possa aprender a gostar disto em doses moderadas.

publicado às 19:11

22
Nov21

Breaking news

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Daqui a pouco estreia a CNN Portugal. Televisão e site.

Que alegria poder fazer parte desta aventura.

publicado às 07:56

Há um ano fui despedida.

Há um ano, houve um despedimento colectivo na Global Media. Em mais uma das suas reformulações, o Diário de Notícias decidiu extinguir a secção de Cultura e despedir os jornalistas que ainda lá restavam. Foi o terceiro despedimento colectivo a que assisti nos mais de vinte anos que ali passei - o primeiro em 2009 e o segundo em 2014 - por isso já sabia bem como estas coisas eram, já sabia das justificações atabalhoadas que nos dão, da hipocrisia dos directores que fingem que não é nada com eles, das injustiças que são cometidas nestes processos e da habitual falta de consideração da casa por quem ali trabalha. Não fiquei surpreendida nem magoada nem nada. Recebi o telefonema do director quando estava a meio de um trabalho. Terminei as entrevistas que estava a fazer, depois decidi andar a pé até casa e pelo caminho liguei para um advogado amigo e para os meus pais e fui fazer o jantar. Em momentos de crise, sou a pessoa mais racional do mundo. Avalio a situação, percebo quais são os próximos passos a dar e sigo. É sorrir e acenar, como diziam os pinguins.

A decadência do jornal era óbvia há muito tempo (e continua) e também há muito tempo que eu me sentia insatisfeita ali. Consegui sempre, e isso tenho que reconhecer, encontrar momentos de felicidade no meu trabalho, porque eu sou geralmente feliz quando saio da redacção para falar com pessoas e contar as suas histórias. Mas a verdade é que essas ocasiões eram cada vez mais rarasNos últimos anos sentia-me a sufocar. A mirrar. Varias vezes pensei em sair. Tive esta conversa com alguns amigos, todos me aconselharam a ir embora, a "mudar enquanto é tempo". Mas faltava-me a coragem. Acomodei-me. Porque é do meu feitio, por medo da mudança, mas também por ter noção das dificuldades desse passo, sobretudo quando se é divorciada e com dois filhos, deixei-me ficar. 

Apesar disto tudo, não posso dizer que seja fácil ser despedida. Não é.

É, antes de mais, uma machadada no nosso ego. É impossível não sentir uma certa humilhação ao sabermos que somos dispensáveis. Descartáveis. Uma coisa é nós querermos sair, outra coisa é não nos quererem. Não vale a pena dourar a pílula: esta parte é mesmo difícil de engolir. 

E é também uma machadada na nossa estabilidade. A estabilidade financeira, sim, e a estabilidade da vida em geral. Porque toda a nossa vida é organizada em função do trabalho, daquelas tarefas, daquelas rotinas. Sobretudo quando se trabalha muito tempo no mesmo sítio. A nossa identidade parece irremediavelmente ligada àquela frase com que nos apresentamos há mais de vinte anos: "Maria João Caetano, do Diário de Notícias". E, de repente, fica um vazio. É um pouco assustador, admito.

Felizmente, não tive muito tempo para me apoquentar. Ainda nem tinha assinado os papéis da rescisão e já tinha novos trabalhos no horizonte.

Passou um ano. 

Correu tudo bem.

É verdade o que dizem, quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. E eu tenho espreitado por várias janelas, algumas delas com vistas bem bonitas.

Tenho um emprego bom e, para além disso, tenho feito alguns trabalhos que me dão muito prazer (por exemplo AQUI ou AQUI ou AQUI). Também faço coisas de que não gosto tanto, mas isso é a vida. Tenho encontrado pessoas que me desafiam e estimulam a ser melhor. Continuo a aprender coisas novas. Continuo a gostar de ser jornalista.

A verdade é que profissionalmente estou bastante mais feliz do que estava há um ano, e isso é uma surpresa para mim, confesso.

So far so good.

A parte boa de ir ao tapete é aprender a cair. E depois levantamo-nos, sacudimos o pó e estamos prontos para outra.

publicado às 08:22

22
Set21

Love: For real

"Love" é o espectáculo de Alexander Zeldin que vai estar esta semana (quinta e sexta-feira) na Culturgest. Um espectáculo que parte de situações reais de pessoas que, por algum motivo, vivem num abrigo, sendo forçadas a partilhar o seu espaço e a sua intimidade com outras pessoas que mal conhecem. Pessoas que não têm uma casa ou que tiveram de sair da sua casa ou que estão à procura de uma casa.

A propósito de "Love", fui falar com o Marco, o José e a Sumaj, três pessoas que já moraram na rua, já moraram em abrigos e agora têm um casa. 

A reportagem "For real - O real à procura do teatro" faz parte do primeiro número do "Projecto Invisível", a nova revista sonora da Culturgest, uma maneira diferente de explorar a programação e de viajar com ela e a partir dela.

Fiquei mesmo contente por poder fazer parte deste projecto e por fazer uma coisa de que gosto tanto, que é descobrir pessoas, conversar com elas e arranjar uma maneira (desta vez uma maneira não-escrita) de contar as suas histórias. 

Espero que ouçam e que gostem. Eu acho que está mesmo bonito.

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publicado às 19:57

"Os primeiros sintomas costumam afligir a indústria inteira, o que cria a falsa segurança de um inexorável (e colectivo) "processo" de transformação. A primeira coisa que desaparece é aquilo que custa mais (em tempo ou em dinheiro): investigações longas, reportagens no estrangeiro, despesas de viagem, etc. Depois, todos os atalhos se vão tornando mais curtos. Copy desks desaparecem. As redacções começam a encolher por ordem cronológica: veteranos aceitam rescisões amigáveis e as suas funções são redistribuídas pelas várias castas temporárias - estagiários, colaboradores, freelancers. Reuniões estratégicas começam a ser mais frequentes. A ordem das secções é reconfigurada como um baralho de cartas. Reinvenções são anunciadas. Suplementos são rebaptizados. Mudanças de tom são sugeridas: o jornal deve tornar-se mais ligeiro, mais profundo, mais especializado, mais generalista, mais local, mais global. Como um paciente terminal, o jornal começa a ser mais vulnerável a charlatães e curas milagrosas. Várias estratégias são adoptadas, na esperança de que alguma pegue (paywalls, doações voluntárias, fundações, parcerias) Quando a calamidade seguinte acontece (uma crise financeira, uma pandemia) um ou outro lay-off costuma preceder o inevitável despedimento colectivo, noticiado provavelmente não em números mas em fracções ("um quarto dos funcionários", "um terço da redacção"). Não é suficiente. As "dificuldades de tesouraria" tornam-se crónicas. As pressões produtivas aumentam em proporção inversa à disponibilidade de recursos: perto do fim, é esperado que uma dúzia de pessoas consigam fazer melhor um trabalho que antes era feito por meia centena. São precisos mais cortes. E aquilo que acontece muito devagar pode continuar a acontecer muito devagar durante muito, muito tempo."

É isto e mais, escrito de forma lúcida e exacta pelo Rogério Casanova.

publicado às 18:47

15
Nov20

Três conselhos

Andava à procura de filmes para ver durante o recolher obrigatório e encontrei, por acaso, The Soul of America, um documentário que estreou no final de outubro (ou seja, antes das eleições) na HBO: pareceu-me interessante, comecei a vê-lo e, a meio, percebo que o protagonista do filme, o jornalista e historiador Jon Meacham, é o mesmo que esteve no centro de uma polémica recente por ter comentado na televisão o discurso da vitória de Joe Biden que ele próprio tinha ajudado a escrever. Não foi bonito, temos de admitir, e a situação acabou por tirar-lhe algum crédito. Confesso também que me enerva um bocado esta onda de documentários personalizados, tão propensos a exaltações de egos e a visões parciais da realidade. Mas, se nos abstrairmos um pouco daquelas cenas nos bastidores das palestras e da imagem que tentam passar do homem como grande paladino da democracia, Meacham diz, de facto, algumas coisas interessantes e o filme é mais uma oportunidade para pensarmos na América e no mundo em que vivemos, mas também no que deve ser o jornalismo e no que é ser cidadão.

Basicamente, no seu livro The Soul of America, publicado em 2018, em grande parte como reacção à eleição de Donald Trump, Jon Meacham atravessa os últimos cem anos da história dos EUA, cheia de desigualdades e de injustiças, da discriminação das mulheres ao segregacionismo, dos campos de concentração para japoneses ao mccarthismo, para nos mostrar como o país já passou por momentos críticos muito semelhantes ("History does not repeat itself, but it rhymes", disse Mark Twain) e como, em cada momento, houve pessoas e atitudes que fizeram a diferença e que levaram a América a dar um passo em frente. Portanto, sim, este é um momento complicado e há muitos problemas para resolver, mas a boa notícia é que podemos aprender com o passado e tentar fazer melhor.

No final, Meacham enumera três características que, na sua opinião, são comuns aos grandes líderes mas que também são úteis para todas as outras pessoas:

- curiosidade: querer sempre saber mais, querer conhecer os outros e ouvi-los, sobretudo aqueles que pensam de maneira diferente de nós;

- humildade: para reconhecer os nossos erros e aprender com eles, às vezes é preciso mudar de ideias para podermos progredir;

- empatia: saber ver o mundo pelos olhos dos outros e perceber que, por vezes, é preciso fazer cedências para atingir um objectivo maior.

Acho que se todos procurássemos mais ser assim o mundo seria, certamente, um lugar melhor. 

publicado às 09:34

"E a vida lá prossegue. Anormal, como sempre. Resta-nos que este momento traga, ao menos, alguma sobriedade, e que a pornografia material de alguns seja refreada. Quem sabe, dessa forma, possamos alcançar, como Robert Wyatt, que se o medo de perder o emprego é real e em nenhum momento pode ser subestimado, também não é menos certo que aquilo que nos faz sentir vivos, a música, a arte, o imaginar, o contemplar o horizonte, ou uma boa conversa, por difícil que seja, também não deverá ser esquecido.

E se não estivermos em condições de nos lembrar, é bom ter alguém ao lado que nos recorde, porque é fácil estar com os outros na estabilidade, o difícil é mantermos-mos próximos dos que numa determinada fase estão alheados, embora esse talvez seja o tempo em que mais precisam de alguém. E para o entender basta recordar as alturas em que por mais que quiséssemos também não conseguíamos vislumbrar a simples comoção de existir."

 

Daquelas coisas que vale mesmo a pena ler: as crónicas de Vítor Belanciano, todos os domingos, no Público

publicado às 12:32


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