Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


15
Nov20

Três conselhos

Andava à procura de filmes para ver durante o recolher obrigatório e encontrei, por acaso, The Soul of America, um documentário que estreou no final de outubro (ou seja, antes das eleições) na HBO: pareceu-me interessante, comecei a vê-lo e, a meio, percebo que o protagonista do filme, o jornalista e historiador Jon Meacham, é o mesmo que esteve no centro de uma polémica recente por ter comentado na televisão o discurso da vitória de Joe Biden que ele próprio tinha ajudado a escrever. Não foi bonito, temos de admitir, e a situação acabou por tirar-lhe algum crédito. Confesso também que me enerva um bocado esta onda de documentários personalizados, tão propensos a exaltações de egos e a visões parciais da realidade. Mas, se nos abstrairmos um pouco daquelas cenas nos bastidores das palestras e da imagem que tentam passar do homem como grande paladino da democracia, Meacham diz, de facto, algumas coisas interessantes e o filme é mais uma oportunidade para pensarmos na América e no mundo em que vivemos, mas também no que deve ser o jornalismo e no que é ser cidadão.

Basicamente, no seu livro The Soul of America, publicado em 2018, em grande parte como reacção à eleição de Donald Trump, Jon Meacham atravessa os últimos cem anos da história dos EUA, cheia de desigualdades e de injustiças, da discriminação das mulheres ao segregacionismo, dos campos de concentração para japoneses ao mccarthismo, para nos mostrar como o país já passou por momentos críticos muito semelhantes ("History does not repeat itself, but it rhymes", disse Mark Twain) e como, em cada momento, houve pessoas e atitudes que fizeram a diferença e que levaram a América a dar um passo em frente. Portanto, sim, este é um momento complicado e há muitos problemas para resolver, mas a boa notícia é que podemos aprender com o passado e tentar fazer melhor.

No final, Meacham enumera três características que, na sua opinião, são comuns aos grandes líderes mas que também são úteis para todas as outras pessoas:

- curiosidade: querer sempre saber mais, querer conhecer os outros e ouvi-los, sobretudo aqueles que pensam de maneira diferente de nós;

- humildade: para reconhecer os nossos erros e aprender com eles, às vezes é preciso mudar de ideias para podermos progredir;

- empatia: saber ver o mundo pelos olhos dos outros e perceber que, por vezes, é preciso fazer cedências para atingir um objectivo maior.

Acho que se todos procurássemos mais ser assim o mundo seria, certamente, um lugar melhor. 

publicado às 09:34

"E a vida lá prossegue. Anormal, como sempre. Resta-nos que este momento traga, ao menos, alguma sobriedade, e que a pornografia material de alguns seja refreada. Quem sabe, dessa forma, possamos alcançar, como Robert Wyatt, que se o medo de perder o emprego é real e em nenhum momento pode ser subestimado, também não é menos certo que aquilo que nos faz sentir vivos, a música, a arte, o imaginar, o contemplar o horizonte, ou uma boa conversa, por difícil que seja, também não deverá ser esquecido.

E se não estivermos em condições de nos lembrar, é bom ter alguém ao lado que nos recorde, porque é fácil estar com os outros na estabilidade, o difícil é mantermos-mos próximos dos que numa determinada fase estão alheados, embora esse talvez seja o tempo em que mais precisam de alguém. E para o entender basta recordar as alturas em que por mais que quiséssemos também não conseguíamos vislumbrar a simples comoção de existir."

 

Daquelas coisas que vale mesmo a pena ler: as crónicas de Vítor Belanciano, todos os domingos, no Público

publicado às 12:32

Um dia mais tarde, quando os netos nos perguntarem como foi, mostramos-lhes ESTA reportagem da Cândida Pinto (RTP), intitulada "Os dias da quarentena" e filmada em Lisboa durante o mês de abril. Não tem tudo, claro, mas tem muita coisa e muitas pistas para percebermos o que se está a passar, longe das conferências de imprensa diárias com números de mortos e infetados, longe das curvas das estatísticas sobre doentes ou sobre desemprego ou sobre outra coisa qualquer. Porque todos os números têm sempre rostos. E pessoas. E histórias.

Todas diferentes. 

E, no entanto, todas a falarem disto: da falta que o outro nos faz.

publicado às 09:29

Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o Rei Lear e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de Rua de Sentido Único, que Mónica Calle apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois  espectadores  de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de subir eu mesma ao palco para dançar com gente desconhecida depois de Fica no Singelo, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis. 

Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?

Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. AQUI estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.

image.jpg

publicado às 11:03

image (1).jpg

Nestes dias em que cada vez estou mais desiludida com o jornalismo e cada vez tenho menos alegria no trabalho há, apesar de tudo, de vez em quando, umas coisas que ainda vão valendo a pena. Como aquela tarde em que voltei a estar à conversa com Luís Miguel Cintra. Um prazer enorme ouvi-lo, ainda que seja um pouco angustiante perceber toda a sua tristeza.

Ele fala de uma "sensação de quem esbraceja, mas, por mais que faça, vai-se afogar".  Percebo-o tão bem. Muitos de nós sentem isso mesmo, em várias situações.

E, no entanto, continuamos a esbracejar. 

Leiam AQUI o que escrevi no DN sobre este encontro e sobre o espectáculo Canja de Galinha (com Miúdos) que se estreia esta semana no Museu da Marioneta, em Lisboa.

A fotografia é do Orlando Almeida/ Global Imagens.

publicado às 15:10

11
Ago19

Joacine

Tinha muita curiosidade em conhecer a Joacine Katar Moreira e em saber a sua história. Por isso, fui falar com ela. Há dias em que isto ainda vai valendo a pena.

35377118_GI01082019OrlandoAlmeida_02902_WEB (1).JP

Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

publicado às 12:34

23
Jan19

Malabarismo

Viver é como fazer malabarismo. Vamos ver quantas bolas conseguimos pôr a girar ao mesmo tempo. O trabalho, os miúdos, a casa limpa e arrumada, a família, os amigos, as contas para pagar, o amor, a despensa cheia, a saúde, os livros que queremos ler... Só que, ao contrário do malabarismo, na vida, quantas mais bolas estiverem a girar mais fácil a coisa fica. Mesmo. Até porque, assim, se, por algum motivo, deixarmos cair uma destas bolas, ou seja, se alguma coisa correr mal, teremos sempre outras bolas com que brincar.

Pensei isto no domingo à tarde enquanto via um grupo de rapazes de 14, 16, 18 anos, por aí, a brincar aos circos numa tenda montada no pátio de uma prisão. E também pensei (mais uma vez) como é tão fácil esquecermo-nos da sorte que temos.

image.jpg

A fotografia é do Álvaro Isidoro/ Global Imagens.

E a reportagem que escrevi pode ser lida AQUI.

publicado às 21:32

29
Abr18

Tenente

Foram quase quatro meses de contactos. Ele tem tanto trabalho que mal consegue ter tempo para uma conversa. Mas eu sabia que queria fazer esta entrevista. E sabia que ainda ninguém tinha contado esta história - de como um dos grandes estilistas nacionais decide abandonar a moda (as lojas, os desfiles, as colecções, as tendências do mercado) e dedicar-se exclusivamente aos figurinos de espectáculos. Foram quase quatro meses a encontrá-lo em ensaios, então?, esta semana?, na próxima?, quando?. Lá conseguimos. A entrevista a José António Tenente foi publicada ontem e eu fiquei contente e até um pouco orgulhosa. Porque ele é uma pessoa muito fixe (já tinha ficado com essa impressão da primeira vez que o entrevistei, há mais de dez anos). Porque se dedica de corpo e alma àquilo que faz. E porque está feliz, e isso nota-se.

Devíamos todos poder trabalhar naquilo que nos faz feliz (mas nem sempre é possível. deal with it. again).

image.jpg

Fotografia de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

publicado às 19:33

IMG_9493.JPG

Obra de Dave The Chimp que está no Urban Nation (Berlim).

Dois bons conselhos. Para a vida em geral e para os jornais em particular.

publicado às 09:51

25
Fev18

Mergulhar

Foi trabalho mas foi também uma enorme alegria. Na semana passada, aproveitando aqueles dias de pausa escolar do carnaval, consegui dar uma escapadela até Aljezur para ver o trabalho que a Madalena e o Giacomo estão a fazer por lá. Foi tudo perfeito. As conversas, as comidas, as pessoas. Até aquelas horas passadas a conduzir, sozinha, enquanto o sol baixava sobre o mar, para lá e depois para cá. O texto, publicado ontem no jornal, deixa muito por dizer e sobretudo receio que não consiga transmitir toda a paixão da equipa do Lavrar o Mar, um projeto de programação de artes performativas, fora da época alta e num trabalho de proximidade e interligação com a comunidade. Repito-me e não me importo. Esta é mesmo uma coisa bonita que merece muito ser partilhada.

image.jpg

A foto é de Rui Minderico/ Global Imagens.

publicado às 10:27


Mais sobre mim

foto do autor