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A Gata Christie


Domingo, 29.04.18

Tenente

Foram quase quatro meses de contactos. Ele tem tanto trabalho que mal consegue ter tempo para uma conversa. Mas eu sabia que queria fazer esta entrevista. E sabia que ainda ninguém tinha contado esta história - de como um dos grandes estilistas nacionais decide abandonar a moda (as lojas, os desfiles, as colecções, as tendências do mercado) e dedicar-se exclusivamente aos figurinos de espectáculos. Foram quase quatro meses a encontrá-lo em ensaios, então?, esta semana?, na próxima?, quando?. Lá conseguimos. A entrevista a José António Tenente foi publicada ontem e eu fiquei contente e até um pouco orgulhosa. Porque ele é uma pessoa muito fixe (já tinha ficado com essa impressão da primeira vez que o entrevistei, há mais de dez anos). Porque se dedica de corpo e alma àquilo que faz. E porque está feliz, e isso nota-se.

Devíamos todos poder trabalhar naquilo que nos faz feliz (mas nem sempre é possível. deal with it. again).

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Fotografia de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

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por Gata às 19:33

Segunda-feira, 02.04.18

Love everyone (and tell de truth)

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Obra de Dave The Chimp que está no Urban Nation (Berlim).

Dois bons conselhos. Para a vida em geral e para os jornais em particular.

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por Gata às 09:51

Terça-feira, 02.01.18

Do jornalismo que faz falta em 2018

Os jornais portugueses estão a morrer porque não fazem jornalismo. Ou fazem-no pouco. Ou fazem-no mal. Claro que há o problema do negócio e das vendas e da internet. Claro que o papel irá desaparecer, mais cedo ou mais tarde, porque há cada vez menos pessoas a comprar jornais em papel. Mas os jornais podem existir sem papel. Teríamos que pensar seriamente sobre isto mas se houvesse jornalismo como deve ser seria possível. Os jornais estão em crise porque não souberam gerir as mudanças nem adaptar-se e acharam que ia ser tudo como era no início dos anos 90. Os jornais estão como estão porque as empresas estão em falência mas os administradores continuam a achar que é mais importante gastar dinheiro em almoços e carros e outras mordomias de uns quantos do que pagar mais do que 800 euros a jornalistas qualificados. E quando têm que cortar nas despesas não cortam nos cartões de crédito, cortam nos jornalistas. Para que é que eles servem mesmo? Os jornais estão a desaparecer porque, chegadas a uma situação de desespero, as pessoas que mandam nos jornais estão mais preocupadas com os cliques do que com confirmar uma notícia antes de a copiar de algum site, mais ou menos fiável, e esquecem completamente todas as regras básicas do jornalismo e às vezes até as regras básicas do bom senso. Acima de tudo, os jornais estão a morrer porque houve quem se esquecesse que a função dos jornais é fazer jornalismo. Não é fazer umas coisas giras. Não é dar dicas. Não é estar na moda. Não é reproduzir as patacoadas das redes sociais. Para isso tudo já existem outros sites e blogues e contas de instagram. E, vá lá, os jornais até poderiam fazer isso tudo, se fosse bem feito. Mas deveriam sobretudo fazer outras coisas. Deveriam ser outra coisa.  

Isto é o que eu acredito.

E, pelos vistos, é aquilo em que acredita também A.G. Sulzberger, o novo publisher do The New York Times. Este é o seu compromisso. Espero bem que não sejam só palavras ocas:

"Much will change in the years ahead, and I believe those changes will lead to a report that is richer and more vibrant than anything we could have dreamed up in ink and paper. What won’t change: We will continue to give reporters the resources to dig into a single story for months at a time. We will continue to support reporters in every corner of the world as they bear witness to unfolding events, sometimes at great personal risk. We will continue to infuse our journalism with expertise by having lawyers cover law, doctors cover health and veterans cover war. We will continue to search for the most compelling ways to tell stories, from prose to virtual reality to whatever comes next. We will continue to put the fairness and accuracy of everything we publish above all else — and in the inevitable moments we fall short, we will continue to own up to our mistakes, and we’ll strive to do better."

Que venha 2018 e vamos ver o que é que isto dá. Aqui e do outro lado do Atlântico.

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por Gata às 01:40

Sábado, 25.11.17

Pedro Rolo Duarte

A mim bastava-me ele ter imaginado e editado o DNA  - que li com tanto prazer durante dez anos; onde conheci algumas das pessoas mais importantes na minha carreira e fiz amigos para a vida; onde aprendi, entre outras coisas, que não há impossíveis e que quando um trabalho é bom tem sempre interesse para o leitor e se não for bom não se publica (reescrever, emendar, completar até ficar como deve ser); o DNA onde, ainda miúda, publiquei alguns dos trabalhos que mais me orgulho de ter feito nestes vinte anos (e só isso diz tanto).

A mim bastava-me ele ter imaginado e editado o DNA mas a verdade é que o Pedro Rolo Duarte fez muito mais do que isso, como conto neste artigo e também neste, escritos num dia triste, contendo as lágrimas, porque o trabalho de um jornalista também é isto.

Hoje era o dia para ir dar abraços apertados a algumas pessoas que o conheceram mesmo bem mas o trabalho pôs-me num comboio com destino ao Porto (mais uma vez, ser jornalista também é isto). Vou lendo as palavras da Sónia e pensando em todos os sonhos que tínhamos em 1997 e em como não faz sentido morrer com 53 anos e tanta coisa ainda por fazer e tanta vida por viver.

É uma merda, é o que é. 

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por Gata às 10:18

Sábado, 30.09.17

Setembros

No primeiro dia do meu regresso ao trabalho, fui até à Vila Dias, em Xabregas, um lugar que eu nem sabia que existia. Dias depois, sentei-me na plateia do Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, a ver o Lear, como se fosse a primeira vez que ouvia aquele texto. Na semana passada, andei a explorar o Bairro dos Lóios, também conhecido como "pantera cor-de-rosa", em Chelas, mais um sítio onde nunca tinha ido. Esta semana, andei à volta de gente que gosta de música muito diferente da que eu ouço e conheci algumas pessoas mesmo interessantes, como a Violet, uma mulher cheia de garra e de ideias que me disse que os seus planos para o futuro são "fazer as coisas o mais "eu" possível" - que é aquela coisa do sermos nós sem medos nem constrangimentos que tanto persigo.

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a Vila Dias

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o Bairro dos Lóios

Vivem-se dias incertos na imprensa portuguesa, mas enquanto os meus dias forem assim, cheios de aprendizagens e descobertas, de sítios e pessoas e conversas boas, isto vai valendo a pena.

Entretanto, descobri esta versão que os A-ha fizeram do Take on Me que tanto dancei na minha adolescência (e não só) e que agora ouço, emocionada, em modo slow. E penso como desacelerar uma música pode mudar-lhe o significado. Ou então isto é só da idade. E amanhã já é outubro.

"So needless to say
I'm odds and ends
I'll be stumbling away
Slowly learning that life is OK
Say after me
It's no better to be safe than sorry"

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por Gata às 21:36

Quarta-feira, 20.09.17

De costas

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Não gosto muito de aparecer mas assim de costas não me importo e até me divirto. Fotografada pelo Nuno na Praia das Maçãs (o trabalho completo foi publicado AQUI) e pela Ágata em Ponta Delgada (vejam as lindas fotos delas AQUI).

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por Gata às 10:24

Domingo, 13.08.17

Um motivo para acreditar

Sábado. Saí de casa com notícias sobre a possibilidade de uma guerra nuclear. Vi no facebook do telemóvel imagens da manifestação racista  nos EUA. Olhei para o céu a escurecer com fumo por causa dos incêndios. À noite, quando cheguei ao quarto de hotel, descobri que Bolt se tinha lesionado na sua última corrida. Sábado passei o dia longe de tudo, em Cem Soldos, uma aldeia a poucos quilómetros de Tomar, um sítio que nos faz acreditar. E olhem que isso não é nada fácil nos dias que correm.

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Esta é a Surma e a foto foi tirada por Carlos Manuel Martins/Bons Sons.

Para saberem mais leiam AQUI e AQUI.

Como escrevi no ano passado: a ver se não se estraga.

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por Gata às 15:18

Sexta-feira, 16.06.17

Nhom Nhom

Descobri há relativamente pouco tempo que cozinhar é uma das melhores terapias do mundo. Passo cada vez mais tempo na cozinha, sou feliz a experimentar receitas e a preparar comidas elaboradas, com tempo (não sou lá muito feliz a ter que fazer todos os dias, à pressa, depois de uma jornada de trabalho, jantares sem graça nem molhos para os meus filhos esquisitinhos, mas adiante). É também por isso que admiro a Joana. Pela alegria que ela tem a cozinhar. Mas, sobretudo, admiro a Joana Barrios pela sua liberdade, pela capacidade de ser exactamente como quer ser, sem ligar a estereotipos, ao que os outros possam dizer, a preconceitos. 

Foi um prazer enorme conhecê-la de perto (e descobrir que é alentejana!). A conversa que tivemos, a propósito do seu livro de receitas, Nhom Nhom, foi publicada no domingo na revista Notícias Magazine e pode agora ser lida AQUI.

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A fotografia é da Diana Quintela/ Global Imagens.

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por Gata às 09:31

Terça-feira, 16.05.17

O maior milagre somos nós que o fazemos todos os dias

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Quando me deitei na minha cama com lençóis lavados na noite de quinta-feira e ouvi a chuva a cair torrencialmente lá fora, pensei nas pessoas que estavam acampadas em Fátima, nas suas tendas frágeis, nos baldes onde tinham que fazer xixi, no banho quente que não iam tomar na manhã seguinte. Quando, terminada a missa de sexta-feira, já a entrar na madrugada de sábado, atravessei o recinto do santuário para ir dormir num quarto de hotel, surpreendi-me com a quantidade de pessoas embrulhadas em sacos-cama, deitadas no chão de pedra, umas encostadas às outras, desafiando o frio e as dores nas costas, preparadas para passar ali a noite.

Porque o fazem?, pergunto-me.

Não sou católica. Não sei bem o que sou mas a acreditar em algo nunca seria em aparições e muito menos em milagres. Faz-me alguma confusão acreditar que um deus ou uma santa se dá ao trabalho de curar as maleitas e os pequenos problemas de algumas pessoas só porque elas acendem umas velas, andam uns metros de joelhos, rezam uns pais-nosso ou umas avés-maria, como quem mete uma cunha (e eu odeio cunhas), e depois esse mesmo deus ignora olimpicamente todos os problemas do mundo e das outras pessoas, incluindo muitas que também rezam, que também são boas pessoas, que também mereciam um milagre. E já nem falo dos negócios em volta das aparições, da exploração da fé de quem ali vai, dos terços, dos santinhos, da água benta. Tudo isso me causa urticária.

Não, Fátima não me toca. A mim o que me toca são as pessoas. Nos últimos dias, falando com os peregrinos que estavam em Fátima, ouvi histórias de quem caminhou centenas de quilómetros durante uma semana e de quem veio de parte longínquas do mundo, vi pés descalços em muito mau estado, encontrei gente que passou dois dias inteiros num banco trôpego num canto do santuário só para rezar com o Papa Francisco. Novos e velhos, homens e mulheres, sozinhos ou em grupo, com bebés, com doenças, com deficiências. Nenhum se queixou. Disseram-me que não era assim tão mau. Ofereceram-me bolinhos de bacalhau e copos de vinho, tem a certeza que não quer, menina? Cantavam, sorriam, aplaudiam, ajudavam-se uns aos outros, davam as mãos. Vi os grupos de peregrinos a chegarem cantando à Capelinha das Aparições, o silêncio que faziam na primeira oração, os abraços emocionados e as lágrimas que poucos continham naquele momento. E depois a alegria nos seus rostos.

Às vezes, não temos que compreender tudo. Não foi Fátima, foram as pessoas que fui encontrando que me deram uma lição de resiliência e de esperança. Que me disseram: somos apenas um grão de areia. E me lembraram que, apesar de sermos assim pequeninos, somos capazes de muito. Basta querer (ou talvez baste apenas crer).

Este texto foi publicado no DN na segunda-feira, depois de ter passado três dias em Fátima a acompanhar a viagem do Papa Francisco. A fotografia foi tirada às 7 da manhã do dia 13 de maio (mas não é por isso que estou com aquela cara de poucos amigos, é mesmo porque me sinto sempre muito ridícula a tirar selfies).

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por Gata às 21:03

Terça-feira, 28.03.17

Isto anda tudo ligado

Às vezes faço uns comentários ou escrevo uns posts no facebook a chamar a atenção para títulos ou ângulos de notícias que alimentam os estereotipos de género e a discriminação. Parecem coisas sem importância mas faço questão de as denunciar porque me parece que revelam muito sobre a mentalidade que está instalada em nós, de tal forma que muitas vezes nem nos apercebemos como estamos a ser preconceituosos ou discriminatórios. Por exemplo, quando fazemos artigos em que ouvimos especialistas e são todos homens (vejam aqui uma bela selecção). Ou artigos em que as mulheres são assunto devido ao seu corpo ou ao modo como se vestem (este foi um dos que me irritou recentemente, mas experimentem fazer uma pesquisa no site de um jornal qualquer com a palavra "ousada" e terão uma ideia do que estou a falar). Ou quando tratamos uma mulher com aquele tom condescendente (como por exemplo aqui) ou como se fosse uma aventureira por fazer ou querer fazer as "coisas dos homens" (whatever that means). Ou outras coisas assim.

Pergunto-me sempre se alguém parou para pensar naquilo que escreveu ou naquela foto que escolheu ou naquele título que até está na primeira página. Porque o que falta é só isso. Parar e pensar um pouco. Para que o pré-conceito apareça como evidência (e, em certa medida, muito disto que eu estou a falar deve-se à cada vez maior falta de discussão de ideias e de verdadeira edição nos jornais que fazemos, mas isso é outro assunto, de que talvez fale um dia).

Imagino que alguns achem que estou a dar demasiada importância a estas coisas. Minudências, dizem-me. Que não é por escolhermos uma fotografia da Scarlett Johansson para a primeira página apenas porque ela é gira e tem aquela voz que vem daí grande mal ao mundo. Mas eu acho que faz muito mal. Na verdade sinto que ainda não damos atenção suficiente a estas coisas pequenas mas muito reveladoras. Temos um longo caminho por percorrer. E, o que é pior, para além da discriminação escondida ou inconsciente ainda temos que lidar com a discriminação às claras.

Duas provas disto que estou a dizer:

Ontem, li este artigo, que é sobre a princesa Diana e o príncipe Carlos mas é também sobre aquela estranheza que quase todos já sentimos quando, num casal, um homem é mais baixo do que a mulher, e que não tem qualquer razão de ser a não ser o preconceito. Mesmo. Só temos que tomar consciência disso. Esta tarefa de combatermos os nosso próprios preconceitos é a primeira batalha que temos de travar.

E veja-se o que aconteceu hoje, na capa do Daily Mail. Mais um dia normal num tabloide, afinal, os tabloides (e as revistas sociais) são verdadeiros antros de estereotipização do género, de forma completamente consciente e assumida:

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Só para terminar com uns sinais de esperança. Esta BD reflete muito bem aquilo que penso sobre a educação dos rapazes. Este vídeo, embora com um foco diferente, também é muito inspirador:

Pode parecer que não, que as pernas das inglesas na capa do jornal não têm nada a ver com a cultura machista nas relações amorosas, mas se olharmos com atenção isto está mesmo tudo ligado. 

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por Gata às 21:48



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