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Aconteceu no início do mês: no podcast Interesting Times, do The New York Times, Ross Douthat convidou Helen Andrews and Leah Libresco Sargeant, apresentadas como escritoras conservadoras e críticas do feminismo, para debater o papel da mulher nas sociedades liberais. Helen Andrews é a autora do ensaio The Great Feminization, no qual argumenta que o feminismo falhou porque tornou as instituições demasiado feminas, expulsando delas os homens e as virtudes masculinas. Por outro lado, Leah Libresco Sargeant escreveu um livro intitulado The Dignity of Dependence, onde sugere que o feminismo liberal falhou ao obrigar as mulheres a suprimirem a sua natureza e a adaptarem-se a locais de trabalho e sistemas sociais feitos para os homens.

Na abertura, Douthat lançava o tema: "Men and women are different. That is a core premise of conservatism in the age of Trump, that liberalism and feminism have come to grief by pretending that the sexes are the same. But what does that difference really mean? Should the right be trying to roll back the entire feminist era? Or is there a form of conservative feminism that corrects liberalism’s mistakes?" A conversa desenrolou-se nestes termos,  discutindo em 2025 (!!!) a natureza das mulheres e de que forma a entrada da mulher no mercado de trabalho alterou os modos de trabalhar e afectou a sociedade, mas também criticando o feminismo, o movimento #metoo e a denominada cultura woke

Quando foi publicado no site do NYT, o podcast apareceu com este lindo título: "Did Women Ruin the Workplace?". Choveram críticas de todos os cantos do mundo e de (quase) todos os quadrantes políticos. De tal forma que o jornal se viu obrigado a mudar o título para "Did Liberal Feminism Ruin the Workplace?" - mas o mal já estava feito, as redes sociais são implacáveis a fixar tudo aquilo que preferíamos esquecer.

Na verdade, este debate veio só tornar ainda mais visível uma ideia que parece ter estado adormecida durante algumas décadas mas tem vindo novamente a ganhar força em canais de youtube e tiktok conservadores e machistas, espalhando-se como um vírus entre as cabeças tanto de jovens rapazes como de homens-feitos: o lugar natural das mulheres é em casa, a tomar conta da família e do lar, parindo e educando filhos, cozinhando e passando a ferro, e deixando o homem tomar contas das "coisas que realmente importam". Não vou aqui linkar nem sequer citar, mas a quantidade de pequenos e grandes influencers que tenho visto, lido e ouvido nos últimos tempos a dizer isto, por estas ou por outras palavras, de forma mais aberta ou com insinuações pouco subtis, tem-me deixado absolutamente abismada e furibunda. Como é possível que 200 anos depois de as feministas terem saído à rua para lutar pelos direitos das mulheres estejamos novamente a ter este tipo de conversas? 

Portanto, ainda a batalha feminista estava longe de ser vencida, ainda estávamos aqui a tentar desenvencilhar-nos do maldito patriarcado, a apontar as desigualdades salariais e a exigir maior equidade na divisão das tarefas domésticas, a desesperar com os números relativos à violêncida doméstica e a lutar pela criminalização do assédio sexual, quando fomos abalroadas pelas ideias conservadoras (eu diria reaccionárias) que tomaram conta da internet, da sociedade e do discurso político, bramindo contra todas as conquistas tão arduamente conseguidas até aqui. 

De que têm medo estes homens?

De perder os seus privilégios. 

É só isso.

Ainda assim, que estes tristes machos encontrem nas mulheres o bode expiatório perfeito para justificarem os seus fracassos existenciais até me parece compreensível. Mas que mulheres embarquem neste discurso (assim como imigrantes votaram em Trump sem perceber que eram o alvo das duas políticas; ou as classas trabalhadoras votam repetidamente em partidos que não defendem os seus interesses) mostra bem o tanto que ainda está por fazer. E é um bom lembrete para todos nós de que não há direitos adquidiridos, a luta é constante.We_Can_Do_It!_NARA_535413_-_Restoration_2.jpg

Segundo a Wikipédia: We Can Do It! (em português: Somos capazes!) é o título de um cartaz de propaganda criado nos Estados Unidos, em 1943, por J. Howard Miller para a empresa Westinghouse, com o objectivo de levantar o moral dos seus trabalhadores durante o esforço de guerra. O cartaz é baseado na fotografia em preto e branco de uma operária que então trabalhava na Base Aeronaval de Alameda, na Califórnia.

*

A correr atrás do prejuízo para cumprir o tema do largo da semana passada, que era bode expiatório. E lembram-se do dia em que não consegui escrever sobre fúrias? Pois aqui estão elas, ou pelo menos parte das fúrias que me têm assolado nos últimos tempos.

Ah, e vão ler as minhas vizinhas, que vale sempre a pena:

publicado às 08:35

Não deve ser fácil ser o filme brasileiro que vem depois do sucesso de Ainda Estou Aqui.

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não pediu essa comparação e é injusto fazê-la, tenho plena noção disso. E, no entanto, aqui estamos, inevitavelmente. Porque é um filme brasileiro, e são poucos os filmes brasileiros que estreiam nas salas portuguesas. Porque é um filme brasileiro que se estreou em Cannes e tem sido premiado internacionalmente. Porque é o candidato brasileiro aos Óscares. Porque é um filme sobre a ditadura. 

A partir daqui, não há muito mais que una os dois filmes. 

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Wagner Moura (óptimo) interpreta Armando, um engenheiro viúvo que regressa ao Recife em pleno carnaval sob uma falsa identidade, para vir buscar o filho pequeno que vive com os avós maternos e ir com ele para o estrangeiro, fugindo das ameaças de morte. Enquanto espera pelos documentos, mora na casa de dona Sebastiana, uma velhota rija que alberga um grupo de gente em fuga, que não se enquadra nas regras vigentes, incluindo um gato com dois focinhos.

O Agente Secreto é um filme policial cuja acção se passa no Recife, em 1977. Kleber Mendonça Filho é muito bom a dar-nos o ambiente da época e do local. Os polícias corruptos, o carnaval que tudo permite, o suor nos corpos, a opressão da ditadura, a vida nas margens. A música, claro, a música é excelente e certeira. Como mosaico é um filme incrível. Só por isso vale a pena.

O realizador recorre à estética cinematográfica dos anos 70, sobretudo dos filmes de terror muito populares nessa época. Não é só Tubarão, de Spielberg, que é referido de diversas maneiras, causando pesadelos e influenciando o imaginário de todos, até mesmo daqueles que não viram o filme. Kleber Mendonça Filho traz para O Agente Secreto um pouco do gore de Bacurau, o seu filme de 2019, e muito dos Retratos Fantasmas, o seu documentário sobre as antigas salas de cinema do Recife. É como se o realizador juntasse aqui as suas memórias de infância e as duas grandes paixões: o cinema e a sua cidade. Parte da acção passa-se na sala de projecção do Cinema São Luiz, onde é exibido o primeiro King Kong e a plateia grita de medo a ver The Shining, de Kubrick. E parte da acção passa-se nas coloridas ruas do Recife, que com seus comércios diversos e personagens populares é palco de encontros, desfiles de carnaval e até perseguições (uma das melhores sequências do filme, diga-se). 

O Vasco Câmara chama-lhe um filme "sinuoso" e "tortuoso". O Eurico de Barros diz que "cultiva o suspense e o mistério pedindo um esforço de participação ao espectador na decifração do que está a ser contado, em vez de lhe servir a papinha toda feita". É uma análise certeira: O Agente Secreto é um filme exigente na duração (2 horas e 38 minutos) e na forma, com uma estrutura pouco linear e uma miríade de personagens e histórias secundárias, que nem sempre se percebe muito bem porque é que ali estão. Pessoalmente, dispensava o salto temporal para o presente (tal como o dispensava em Ainda Estou Aqui) e irritou-me a elipse precisamente num momento-chave da narrativa. Como assim, Kleber?, vamos ficar sem saber o que se passou?

Resumindo: até que gostei. Mas duvido que haja Óscar para o Brasil este ano.

 

*

Ando a especializar-me em contornar os temas do largo. Não é propositado. Tem sido só mesmo falta de imaginação para mais. Esta semana era "Ainda estou aqui". E eu quis mostrar que, apesar da falta de criatividade, ainda estou aqui.

publicado às 23:19

Queria escrever sobre fúrias, porque tinha falhado a última sexta-feira no largo e achei que ainda vinha a tempo de destilar aqui um pouco das muitas fúrias que me têm acometido por estes dias. São tantas que a dificuldade seria escolher a qual me deveria dedicar. Mas, depois, na segunda-feira fui ver o concerto de Bonnie "Prince" Billy, no Teatro São Luiz. Preciso sempre de uma grande dose de boa vontade para sair de casa depois de um dia de trabalho, mas como o concerto foi logo às 20:00 (um grande bem-haja para quem teve esta ideia) lá me animei. E ainda bem que não sucumbi à preguiça, pois foi uma belo serão.

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Sempre com um boné na cabeça, como que a esconder a careca, um boné que, diga-se, parece destoar do resto da indumentária indie-folk mas entretanto já se tornou uma imagem de marca sua, Bonnie falou pouco com a plateia (mas o suficiente para criticar o estado da política americana), entregando-se por completo à guitarra e às canções que trazia para cantar. Os músicos eram todos excelentes. Fui pesquisar para poder dizer os seus nomes: Eamn O’Leary (bouzouki), Jacob Duncan (flauta e saxofone) e Thomas Deakin (guitarra barítono, clarinete, corneta) e, juntando-se um pouco mais tarde, Nuala Kennedy (flauta e voz). Não conhecia todas as músicas mas isso não fez diferença nenhuma. Durante mais de uma hora e meia, esqueci todas as fúrias e estive completamente imersa naquela músicas que pareciam vindas de um outro tempo para nos fazer olhar com olhos-de-ver para o mundo que nos rodeia e para as coisas que realmente importam. 

Numa entrevista publicada no Expresso no fim-de-semana anterior, ele tinha dito isso mesmo: "Penso que a forma como nos tratamos uns aos outros, mesmo em microinterações, é impossível registar o impacto disso, mas penso que é o mais importante. A música tem o seu valor, como tudo aquilo que valorizamos, respeitamos e que fazemos com uma certa intenção. Mas as as coisas que nos mantêm vivos e coexistem connosco é que permitirão à minha filha encontrar bolsas de felicidade no futuro."

Deixo aqui três canções das que ele cantou e de que gosto particularmente:

Lay and Love (a abertura do concerto)

 

From what I've seen, you're magnificent
You fight evil with all you do
Your every act is spectacular
It makes me lay here and love you

From what I hear, you are generous
You make sunshine and glory too
When you walk in things go luminous
It makes me lay here and love you

From what I know, you're terrified
You have mistrust running through you
Your smile is hiding something hurtful
It makes me lay here and love you

It makes me lay here and love you
I'm filled with violet and red and blue
I have a feeling from what I do
That you might lay there and love me too

*

The Water's Fine

Fifty years ago, or fifty years from now
Gotta lighten your load, gotta put it down
Go to the water, and jump right in
Wash away your troubles, be yourself again
 
We go down to the swimming hole
Where we could both finally bear our souls
Swim all day in the warm sunlight
Lay on our backs and watch the stars at night
 
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got yours and I got mine
Come on in, the water’s fine
 
When happiness seems out of reach
There’s a lot of good times down on the beach
Take off your wig, take off your clothes, honey
Head down to the ocean, get the sand in your toes
 
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got your troubles, I got mine
Come on in, the water’s fine
 
Find yourself a mountain stream
The air is cool and the water’s clean
Ain’t no bars on the telephone
Sometimes it’s best just to really be alone
 
Later on, the sun goes down
The barred owl calls, and your friends come round
Build a fire, scream at a star
Realize how small you are
 
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got yours and I got mine
step on down, the water’s fine

*

Our home (a fechar o concerto)

 

Make our furthest horizon the end of the street
That's how we make it our home
Look in the eyes of the people we meet
That's how we make it our home
We thank the Lord before we break bread
That's how we make it our home
We never forget the names of our dead
That's how we make it our home

Batten the hatches when thе cold wind blows
Save some for tomorrow 'cause you nеver can know
And the hard times are coming to push you down low
You're only as good as the people you know

Harvest the honey and string up the beans
That's how we make it our home
Do it by hand and screw the machines
That's how we make it our home
Pull down the fences and pull up a chair
That's how we make it our home
Nobody's perfect and nobody cares
That's how we make it our home

Stare at the sunset and not at the wall
Winter and spring and summer and fall
Answer the door when your friends come to call
There's not that much to it, no real work at all
 
Leggo my ego and embrace my id
That's how we make it our home
Pocket wolves, pickups, and just the right kid
That's how we make it our home
Well we've got the power and it's all off the grid
That's how we make it our home
That's how we make it our home
*
 

Sobre as fúrias - ou sobre outra coisa qualquer - vale sempre a pena ler o que escrevem as minhas companheiras do largo:

publicado às 21:23

20
Out25

Pulso

A minha mãe usava uma pulseira elástica no pulso direito, o seu único pulso, cansado e desgastado por ser o único há tanto tempo, por ter de fazer sozinho o trabalho de dois. Era uma pulseira castanha que ela apertava com a ajuda dos dentes, como fazia tantas outras coisas, porque arranjara maneira de fazer quase tudo, teimosa como era, determinada a não dar parte de fraca, para que nunca a olhassem como uma aleijada, de tal maneira que cresci a achá-la completa, de tal maneira que quase nos esquecíamos, que quando alguém me perguntava, então a tua mãe?, eu era apanhada de surpresa, porque não a via como alguém com uma falta. Era isso que a deixava feliz. Essa aparente normalidade. Acho que só percebi verdadeiramente a dimensão disto muito mais tarde, já crescida, já com filhos meus, quando lhes pegava ao colo, quando os embalava, quando os alimentava, quando lhes dava banho. A falta de um pulso não é só a falta de um braço, que se compensa pedindo braços emprestados aos que te rodeiam. É uma falta maior. É a falta de tudo o que não podes fazer porque um bebé não é uma toalha que queres dobrar e basta pegar uma das pontas com os dentes para desenrascar. Há faltas que doem mais do que outras e esta deve lhe ter doído de maneiras que nunca saberei porque nunca falámos sobre isto, entretidas que andávamos a fingir que nada nos faltava.

Hoje é o dia da nossa mãe. Aqui está ela, linda, fotografada pelo nosso pai, o único com quem falava sobre tudo, o único que a conhecia totalmente, acho. 

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Achei que esta semana ia falhar no largo, mas hoje acordei com isto para dizer e acho que ainda vou a tempo. Há pulsos mais arrebitados por aqui:

publicado às 11:10

No outro dia, cheguei a casa, descalcei os sapatos e em vez de os deixar no seu lugar habitual, logo à entrada, guardei-os na despensa da cozinha. Não sei onde tinha a cabeça, provavelmente vinha com fome e a pensar no que ia comer. Foi o meu filho que reparou, muito espantado: o que estão aqui a fazer uns sapatos?

Também me acontece levantar-me do sofá e ir ao quarto e quando chego lá já não me lembro o que ia fazer. Isto é válido também para as "deslocações" virtuais. Abro um site qualquer para procurar não sei o quê, mas segundos depois já não me lembro ao que vinha. Ou se, por algum motivo, interrompo o que estou a fazer, tenho dificuldade em retomar o fio à meada. Bom, se vamos falar de esquecimentos, a lista é grande. Não dispenso a minha agenda em papel onde anoto tudo o que tenho para fazer e há muito que tenho o hábito de fazer listas para tudo e mais alguma coisa - para ir às compras, para ir de viagem, para organizar o trabalho, etc. - mas mesmo assim continuo constantemente a esquecer-me de coisas. 

Às vezes, estou a escrever e, de repente, falta-me uma palavra. Uma palavra simples, banal, daquelas que nem vale um tostão. Fico ali com os dedos pendurados uns segundos, a puxar pela cabeça, e nada. Vazio absoluto. Até que decido perguntar a alguém: como é que se diz...? Ou então saem-me palavras trocadas, isto é mais a falar, quero dizer porta e digo janela, ou quero dizer cavalo e digo sofá, sei lá, digo assim umas palavras disparatadas e os putos que trabalham comigo riem-se de mim e chamam-me velha. E eu rio-me também porque a outra opção seria chorar e eu tento levar isto com alguma leveza.

Diz que é normal. Que sim, é da idade e que daqui só vamos para pior. É a perimenopausa. Uma pessoa até podia tentar disfarçar, mas os sintomas estão cá. Não tenho grandes calores nem alterações de humor (acho, mas a minha opinião é parcial). Mas ando com os sonos trocados e tenho estas falhas, pequenas até ver, mas que me deixam furibunda. Não tenho saudades do sangue, vivo bem sem esse calvário mensal, e por agora também estou a aceitar as rugas e as peles caídas e esses outros sinais do envelhecimento do corpo, mas odeio sentir que estou a perder o controlo da minha cabeça. Tenho medo que não seja só velhice, que seja alguma doença. Lembro-me muito do filme da Julianne Moore, que vi quando isto ainda estava tudo muito longe, mas que me impressionou imenso. Tento não pensar muito nisso, mas, quando penso, imagino que é como se estivéssemos a descer umas escadas, a caminho da cave, e fica cada vez mais escuro, e não há maneira de voltar para trás.

Quem somos nós sem o nosso pensamento? 

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Não sei se há mais gente a caminho do apolicapse no largo, mas vão lá lê-las sobre o que fôr que será sempre bom:

publicado às 18:31

26
Set25

Alma minha

A primeira vez que andei de avião foi em 1991, quando no final do 11º ano fomos à Alemanha num intercâmbio do liceu. Conseguem imaginar a excitação? Um grupo de miúdos vindos do Alentejo profundo a delirar com os toalhetes para lavar as mãos e as marmitas com lombo de salmão. Só voltei a entrar num avião quando já estava a trabalhar. Sou do tempo em que ainda se podia fumar lá atrás, ao pé das casas-de-banho; em que se servia café e amendoins à borla a bordo; em que ninguém nos tentava impingir raspadinhas. Depois vieram as low cost. Tornou-se quase corriqueiro. Malas de rodinhas a deslizar pelos aeroportos de todo o mundo, embalagens de champô em miniatura, check-in online. Vou de fim-de-semana a Paris como quem vai ao Algarve. Mas há coisas que não mudam: sempre (sempre) que sinto o avião a descolar, a lançar-se com mais ou menos turbulência nos céus, toda eu por dentro me agito e revolto, atacada por uma sensação de insegurança, um e se for desta?, e se for desta que isto corre mal e acaba-se tudo já aqui? Fecho os olhos e respiro. Não faço cenas, não entro em pânico. É só um pensamento que se atravessa à minha frente e ao qual não consigo escapar. E não vale a pena falarem-me das estatísticas e virem dizer-me que tinha mais hipóteses de morrer na A2 do que num avião. Não adianta tentar racionalizar. É o que é. E é assim. Passados esses momentos iniciais, depois de tapar o nariz umas quantas vezes para desentupir os ouvidos, geralmente consigo abstrair-me do facto de estar a dez mil metros de altitude. A não ser que aquilo comece tudo a abanar e se acendam as luzes para pormos os cintos, os assistentes apressados a mandarem-nos recolher as mesinhas. Ladies and gentlemen, this is your captain speaking. Se fosse uma pessoa de fé, este seria o momento para me pôr a encomendar esta alma ao criador. Como não, respiro outra vez profundamente e tento disfarçar. Só descanso novamente quando sinto os solavancos das rodas a baterem na pista. Aliviada, só não me ponho a bater palmas como fiz em 1991 porque entretanto alguém me explicou que isso era um bocadinho foleiro. 

Já passou. 

Pelo menos até à próxima.

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Não fotografei essa primeira viagem de avião. Outros tempos, não havia telemóveis e não nos lembrávamos de fotografar tudo e mais alguma coisa. Mas guardei alguns bons momentos num dos meus queridos álbuns

*

Há outras almas a vaguear pelo largo:

publicado às 18:50

12
Set25

Revolução

Lembro-me da minha avó, vestida com roupa de domingo, colar de pérolas de plástico ao peito, o cabelo arranjado, pronta para ir votar. Ia de cabeça levantada, um orgulho tremendo, uma alegria indisfarçável por poder ir depositar o seu voto na urna.

Lembro-me da minha avó que lia o jornal de uma ponta à outra e lia sempre os meus artigos, fossem sobre o que fossem, a minha avó que tinha apenas a segunda classe, escrevia com erros e apontava as receitas que via na televisão com uma letra quase incompreensível. A minha avó que nos dizia "estudem para não serem como eu", estudem para serem independentes e mandarem na vossa vida. Estudem para não terem que se sujeitar.

Lembro-me da minha avó que me falava da pobreza, da comida que faltava, da casa sem condições, da costura que a mantinha acordada pela madrugada para ganhar uns quantos tostões. Que se lembrava dos rapazes que morreram na guerra colonial e de que como era preciso falar baixinho porque nunca se sabia quem estava a ouvir.

Não, antigamente não era melhor.

Às vezes esquecemo-nos. Damos os nossos direitos por adquiridos. Achamos que já não há por que lutar. Às vezes distraímo-nos. Porque temos sol e praia e subsídio de férias e licença de maternidade e creches e supermercados com muitas marcas e centros comerciais abertos todos os dias e publicamos fotografias bonitas no instagram e vamos mandar bocas para o twitter e achamos que está tudo bem. Distraímo-nos e quando damos por nós foi-se a habitação, a saúde, a educação, a paz, não tarda nada está a ir-se também o pão e todos os outros direitos que julgávamos tão seguros como o da opinião e da expressão. 

A liberdade é frágil.

É por isso que temos de permanecer atentos e interventivos. A revolução fazêmo-la nós, todos os dias. Não são precisos tanques nem metralhadoras. As armas são a nossa consciência, as nossas palavras e os nossos actos. Basta de sermos amorfos. Lembram-se do que aconteceu à nêspera

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No largo acompanham-me neste processo revolucionário em curso:

publicado às 19:26

08
Ago25

Nenhures

O mundo está um lugar perigoso. E triste. Todos os dias leio notícias que me enervam ou comentários que me irritam, todos os dias me desiludo um pouco mais com os donos disto tudo, com os políticos que elegemos, com as pessoas em geral. Quem são estas pessoas racistas, machistas, egoístas, mercantilistas, fascistas, que, de repente, decidiram sair do seu buraco e desatar a gritar alarvidades? Quem são estas pessoas que odeiam as mulheres, que querem os trabalhadores escravizados, que defendem os ricos e espezinham os pobres, que apoiam ditadores, que apelam à violência, que não se comovem com a fome e a guerra e as injustiças do mundo? Quem são estas pessoas moralistas que têm gosto em achincalhar desconhecidos na internet, que perdem tempo a insultar toda a gente, que participam em espancamentos na via pública, que querem calar humoristas, controlar os corpos das mulheres, eliminar o sexo da educação escolar, quem sabe até eliminar todo e qualquer sexo (toda e qualquer pessoa) que não siga os padrões delineados pelos machos-alfa? São tantas as atrocidades à nossa volta que fica difícil comentar. Começar por onde? 

O mundo está um lugar perigoso. E triste. Sei que não podemos baixar os braços, que nos cabe a nós, todos, enquanto comunidade, fazer deste um lugar melhor. Mas há dias em que é muito difícil. Há dias em que só me apetece fugir. Ir para um sítio qualquer, não interessa muito bem qual, no meio de nenhures, onde pudesse estar desligada de toda a tecnologia - o que implicaria, obviamente, não ter o trabalho que tenho hoje - e só estivesse rodeada de pessoas boas, amigas, solidárias, empáticas. Sem ódio nem violência. Com espaço para existirmos todos, com as nossas diferenças, em liberdade. Um lugar para dar abraços. 

Infelizmente, esse lugar não existe.

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Tenho andado pouco pelo largo, mas vou esforçar-me para ser mais assídua. Até porque este largo que criámos juntas é um desses lugares bons, onde vale a pena estar, e que me faz ter alguma esperança em dias melhores. Comigo estão:

publicado às 11:10

15
Jul25

Terapia

O primeiro post que aqui publiquei sobre terapia data de julho de 2008. Chama-se mesmo "Terapia" e é sobre passar a ferro. Nessa altura, eu tinha acabado de ter o meu segundo filho, a minha vida estava uma confusão e eu não tinha empregada nem tinha um minuto só para mim, mas estava muito feliz. Os momentos em que passava a ferro eram muito provavelmente dos poucos que tinha para me pensar um pouco.

Depois há outro post, com esse mesmo título, e que fala das coisas que me faziam bem em 2014: "Dançar. Sentir o sol. Os amigos. Dar abraços. Cozinhar." Que são as mesmas ainda em 2015. Nesta fase, já me tinha separado e estava sozinha com os miúdos pequenos. Foi também nesta altura que fui pela primeira a uma psiquiatra, durante algum tempo. Falei disso aqui, e fiz mais algumas breves referências, mas sem em entrar em muitos pormenores. A experiência não tinha corrido muito bem e ainda não tinha recursos para falar disso.

O primeiro post onde reflicto um pouco mais a sério sobre saúde mental é de junho de 2019. Aí, são já claras as duas interpretações que dou à palavra terapia: por um lado, o acompanhamento médico para um maior autoconhecimento e compreensão de nós mesmos, por outro, as coisas boas que temos na vida, que nos fazem felizes, que nos ajudam a levar isto. "As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar", dizia por essa altura.

A série "A felicidade nas coisas pequenas" surgiu precisamente da necessidade de lembrar a mim mesma que eu tinha (e tenho) muitos motivos para estar feliz. Mesmo quando não estou apaixonada ou mesmo quando odeio o trabalho ou os putos me fazem duvidar de tudo ou sinto que sou uma falhada, mesmo assim, há coisas boas. "A felicidade nas coisas pequenas" é também uma espécie de terapia.

A pandemia (a pandemia e o seu isolamento, a adolescência dos meus filhos, um despedimento, a doença e a morte da minha mãe, aconteceu tudo ao mesmo tempo e é a isto tudo que me refiro quando me refiro à pandemia) levou-me de volta ao consultório de um psiquiatra. Ainda tentei não perder o pé. Mas acabei por ir e foi mesmo o melhor que fiz. Não foi perfeito, nunca me consegui entregar completamente e houve temas que ficaram por abordar. Mas foi muito útil. Ajudou-me a ultrapassar algumas das minhas inseguranças e a preparar-me para uma nova fase da vida. Falei disso aqui, aqui e aqui (naquele que foi o primeiro post do largo).

Neste processo aprendi, de certa forma, a viver com os meus "altos e baixos". Criei a tag blah onde falo sobre isto porque, entretanto, também percebi que escrever sobre o que sinto, manter registos que me ajudem a entender as fases por que estou a passar e tentar organizar um discurso sobre os meus medos e tristezas, é também uma parte importante deste caminho terapêutico.

Neste momento, em que não tenho psicólogo (embora às vezes sinta que teria tanto a ganhar se conseguisse de facto dedicar-me a fazer terapia), continuo a procurar as minhas terapias quotidianas. Não tenho passado a ferro, mas continuo a achar que os momentos em que estou sozinha a fazer algum tipo de trabalho manual ou corporal (como cozinhar, tricotar, caminhar) são perfeitos para organizar as ideias. Continuo a precisar das minhas pessoas, dos abraços, das conversas, dos amigos que são casa. E a ser extremamente feliz nos momentos em que estou em paz com os meus filhos. As férias são a minha salvação periódica, embora tenha também (poucos) momentos de grande felicidade a trabalhar. Nunca mais dancei, mas tenho o yoga e o pilates. Preciso, como sempre precisei mas só há pouco tempo tive essa consciência, de desafios intelectuais. Preciso de filmes, livros, espectáculos, arte. E preciso de escrever, como parece ficar claro nisto tudo.

Esta semana, no nosso largo, deveríamos escrever sobre terapia e eu achei que ia ser fácil e depois afinal não foi porque tenho a sensação que já disse tudo o que tinha a dizer sobre o tema. Ou melhor, tenho a sensação que estou sempre a falar sobre isto. Que este blog, estes textos que vou para aqui deixando, sejam sobre que tema fôr, fazem todos eles parte desta tentativa de fazer/criar sentido. Umas vezes quase consigo. Outras vezes fico frustrada. Mas sei que é tudo muito mais difícil se não tentar. Nada disto é novo, há vários psicólogos que aconselham os seus pacientes a manterem um diário ou a escreverem regularmente sobre o que sentem e o que vivem. Geralmente esses diários são privados. Este meu diário é público. Não sei se é defeito profissional ou se é só exibicionismo.

Talvez precise de fazer terapia para tentar entender esta terapia.

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Também estão em terapia:

publicado às 20:14

04
Jul25

Salvação

Felizmente, de vez em quando, podemos pôr a vida em pausa. Ter esse privilégio, poder sair de casa e da rotina, desligar o telefone (mais ou menos), não ver notícias, ignorar o mundo, cumprir só o minímo das obrigações. Não é preciso ir longe, não é preciso ter luxos. Só é preciso ter paz. Estes dias, mesmo com a amigdalite do Pedro, mesmo com o António a trabalhar, mesmo com a roupa para lavar e o almoço para fazer, são a minha salvação. Estes dias, e todos os outros dias de férias, são o que me permite continuar.

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Estou meia desligada esta semana. Mas no largo estamos à procura da salvação:

publicado às 10:56


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