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Quero falar-vos também dos livros de não-ficção, que são sempre uma parte importante das minhas leituras.

Destes, destaco Lampedusa, o livro da Ana França que é uma grande reportagem sobre a ilha italiana que se tornou a porta de entrada de muitos imigrantes na Europa. Ao longo dos últimos anos, a jornalista do Expresso fez várias viagens a Lampedusa, investigou, entrevistou muitas pessoas e, no final, dá-nos um livro muito bem escrito, que nos mostra o lado mais humano deste drama sem esquecer toda a informação factual. 

Muito interessante também é Líbano: uma biografia, o livro onde a Safaa Dib conta a história da sua família, desde a vida atribulada dos antepassados no Líbano aos horrores da guerra civil que levaram os seus pais a vir morar em Portugal. No entanto, como li este livro logo a seguir ao excelente Lampedusa, não pude evitar constatar que faltou aqui o talento (e talvez um certo distanciamento) para transformar esta incrível saga familiar num livro igualmente incrível, ou, pelo menos, faltou um bom editor que conseguisse limar algumas arestas.

Li ainda três biografias, todas monumentais:

Logo a seguir à morte da Maria Teresa Horta, mergulhei n'A Desobediente, a biografia de autoria de Patrícia Reis, que já tinha cá em casa mas ainda não tinha tido tempo para ler. É uma óptima biografia. A Patrícia não só entrevistou várias vezes a Teresa como se tornou sua amiga, e essa proximidade traz uma outra camada ao relato de uma vida já tão cheia e com tantas coisas para contar. Não sou a maior fã da poesia de Maria Teresa Horta mas foi uma mulher extraordinária, corajosa e curiosa. Era uma pessoa por quem eu já tinha um enorme carinho, do pouco contacto que tivemos, e de quem fiquei a gostar ainda mais.

Li também a biografia que o Joaquim Vieira fez de Francisco Pinto Balsemão. É um trabalho de grande investigação, com imensos testemunhos e pormenores sobre as várias facetas de Balsemão. O biografado odiou este livro e acabou por escrever as suas próprias memórias, como que a querer deixar a sua versão dos factos. Mas o livro de memórias - que também li assim em diagonal, por motivos profissionais, é uma grande seca, há que dizê-lo.

E, finalmente, comprei na Feira do Livro, com desconto, Integrado e Marginal, biografia de José Cardoso Pires escrita por Bruno Vieira do Amaral. Não sabia muito sobre o escritor, de quem li alguns (poucos) livros e recordo sobretudo o De Profundis Valsa Lenta, que adorei. Achei que a celebração do seu centenário seria uma bela oportunidade para ficar um bocadinho menos ignorante. Foi uma excelente leitura. Tal como a biografia da Maria Teresa Horta, este é um livro que se lê como se fosse romance - como se fosse um bom romance - e isto é um grande elogio.

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Fica a faltar falar de uns dois ou três livros, tentarei fazê-lo em breve. Não sou, como já se sabia, uma leitora voraz, e os booktookers que devem estar neste momento a ler o seu 50º livro do ano ficarão, seguramente, a rir-se de mim; mas, apesar de tudo, estou muito contente. 

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publicado às 13:16

Perguntaram-me outro dia, num jantar com pessoas que gostam de livros, que livro mais tinha gostado de ler recentemente. Respondi de imediato, sem hesitar, que tinham sido todos os livros da Leila Slimani. A Leila, que foi a minha autora preferida de 2024, continuou a acompanhar-me este ano. Além de ter terminado a trilogia, li finalmente No Jardim do Ogre, que é um livro já de 2013 - talvez se note, um pouco, que é um livro escrito antes dos outros [escrito quando a autora era mais nova, talvez seja mais correcto dizer assim], mas é também muito bom e muito surpreendente. 

Nessa noite, vim para casa a pensar no que tenho lido. Tem sido um ano atípico, sinto que tenho lido menos do que habitualmente, menos do que desejaria, e nem sequer tenho vindo aqui falar sobre os livros, o que se calhar também contribui para esta sensação. Mas será verdade? Pus-me então a fazer mentalmente uma lista.

Concluo que continuo, com algumas boas exceções, a ler muitos mais livros escritos por mulheres do que por homens.

Além da Leila, li dois livros de autoras brasileiras de que gostei bastante: Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum, que é um livro de autoficção, ou seja, onde a autora cria uma narrativa a partir da sua vida; e Se não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, que me prendeu não só pelo inesperado ponto de partida - um homem cai do seu andar e, ao morrer, mata também o homem que ia a sair do prédio; a tragédia aproxima as duas viúvas, vizinhas que até aí não se conheciam e que se tornam amigas - mas também pela escrita algo poética da autora.

Aliás, fiquei tão fascinada com este livro que decidi comprar um outro livro da Mariana Salomão Carrara, É sempre a hora da nossa morte amém. E devo ter falado tanto dela que, nessa mesma altura, me ofereceram o seu livro mais recente, A árvore mais sozinha do mundo. Acontece que nenhum destes livros conseguiu cumprir as expectativas que tinha para eles. O primeiro aborreceu-me imenso, com as suas repetições; ainda me esforcei, avancei umas páginas na esperança que melhorasse, cheguei a meio mas não consegui terminá-lo. Com o outro foi ainda pior: não consegui mesmo envolver-me com a história daquela família de agricultores e penso que a culpa é do facto de a história ser contada por  uma árvore, uma velha carrinha, um espelho e uma capa protectora. Alguém me disse: se insistires, acabas por gostar. Mas, sinceramente, aquelas páginas que li custaram-me tanto que não me apeteceu continuar.

Percebo agora que este ano foi pródigo em leituras falhadas. 

Tentei o muito elogiado A Breve Vida das Flores, da francesa Valéri Perrin, e não consegui de todo. Disseram-me, então, que dela deveria ler o Querida Tia, e eu, obediente, tentei. Achei um pouco melhor, ainda resisti uns quantos capítulos, mas acabou por me desinteressar. Mais uma vez, o ponto de partida da história era muito bom, o que me afastou foi o estilo de escrita da autora. Não vos consigo explicar, sei dizer apenas que é uma escrita que não me agrada, parece-me tudo muito básico e ao mesmo tempo muito forçado.

O melhor exemplo disso são as gravações deixadas pela tia: mas alguém, alguma vez, falaria assim? Aquilo começou a complicar-me muito os nervos. Acertar no tom de uma fala em discurso directo é muito difícil. Imaginar diálogos ou cartas escritas por alguém é um dos grandes desafios da ficção, são poucos os que o conseguem fazer bem.

Essa foi também uma das coisas que me incomodou no romance de estreia da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que, no geral, achei muito fraco e sem qualquer densidade. Se não fosse ter-me comprometido a lê-lo por motivos profissionais não teria passado das primeiras páginas.

Ler um mau livro (um livro de que não estou a gostar) é algo muito penoso para mim. Começo a engonhar, a arranjar desculpas para não ler, passam os dias e eu tenho cada vez menos vontade de lhe pegar. Quando percebo que isso está acontecer, o melhor é desistir e passar para outro.

Felizmente, houve outros livros bons este ano. Irei falar deles já a seguir.

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publicado às 11:10

28
Ago25

Melancolia

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Não li muito neste verão. Tenho lido coisas dispersas e tenho vários livros a meio. Mas esta Melacholia agarrou-me. Quem compra os livros do Francisco José Viegas é o meu pai. Foi ele que há muito tempo me falou do inspector Jaime Ramos e que até aprendeu a fazer o seu arroz de bacalhau. Eu vou lendo os livros emprestados, é já uma tradição. Não sei se os li todos, mas li vários, de cada vez deliciando-me com as palavras difíceis, com as descrições, com as muitas enumerações. Eu, que li muitos policiais na juventude, perco-me agora com estes livros que são exactamente o oposto desses: mais do que encontrar o culpado, aqui o crime é sobretudo um pretexto para olharmos para nós e para os outros, para viajarmos e reflectirmos. Desta vez, à medida que se anuncia uma pandemia e um confinamento, o inspector vai até à Póvoa do Varzim e infiltra-se no meio dos escritores, editores e críticos litrários que se encontram à beira-mar para massajar os egos e participar em mesas de discussão com nomes incompreensíveis. O autor ri-se baixinho de si mesmo e dos seus amigos. Os escritores também morrem e também matam, também têm segredos de família, amores escondidos, fotografias guardadas. Jaime Ramos está mais velho e continua rabugento, a contornar as regras da polícia e a fumar charuto. É afastado do cargo e colocado numa prateleira, enfrenta os seus medos. Resolver o crime - nem que seja só na sua cabeça - é a sua maneira de resistir. Para nós, que estamos a ler, é puro prazer.

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publicado às 13:26

Depois de O País dos Outros, vieram Vejam Como Dançamos e, por fim, Levarei o Fogo Comigo. Ficou assim completa a trilogia de Leila Slimani. Li o segundo e o terceiro livros de seguida, sofregamente, e ao mesmo tempo desejando não acabar nunca porque sabia que me iria custar deixar aquela família e aquelas personagens, queria saber mais, o que será feito delas?, tiveram filhos? serão felizes? Ler estes livros foi como entrar num mundo diferente, como se pertencesse um pouco a esta família. É tão raro isto acontecer. Conseguir estar completamente lá.

Estes livros são inspirados na vida da autora e na sua família. Leila criou Mia e dar-lhe outro nome permite-lhe libertar-se das amarras da realidade, mas é a realidade que está na origem destes livros. Aquela é a história dos seus avós, dos seus pais, a sua história. Esta trilogia é sobre família e é sobretudo sobre as mulheres, e sobre a ideia que as mulheres têm dos homens. Mas é também sobre identidade, emigração, sentirmo-nos estrangeiros - seja uma europeia em Marrocos, seja uma marroquina na Europa. E é sobre o que levamos quando partimos e aquilo que não podemos, ou não conseguimos ou não queremos, deixar para trás.

AQUI escrevi sobre a escrita da Leila Slimani. 

Não consegui ir à sessão de apresentação, mas podem ler esta entrevista feita pela Anabela Mota Ribeiro nessa ocasião. E para conhecerem um pouco melhor a autora há também outra entrevista feita pela Isabel Lucas.

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Mulheres em Marraquexe, Marrocos, na década de 1970

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publicado às 12:49

11
Abr25

Purgatório

“Essa sensação de o tempo estar a escassear e uma pessoa ser demasiado medricas para fazer explodir a vida que leva.”

No livro De Quatro, Miranda July mostra como uma mulher de 45 anos enfrenta a sua crise de meia-idade (também conhecida como perimenopausa) e decide abanar a sua vida e o seu casamento tradicional para se permitir partir à descoberta daquilo que realmente gosta e quer para si. Antes que seja demasiado tarde. Ou seja, antes de o envelhecimento a desfigurar.

Há muito sexo em De Quatro. Há masturbação, sexo hetero e homossexual, fantasias, brinquedos sexuais, role play. É engraçado pormo-nos na cabeça de outra mulher. Porém, não gostei assim tanto quanto esperava deste livro, que me foi muito recomendado. Em parte acho que isso tem a ver com a escrita da autora, que não faz bem o meu estilo, e também com a tradução (que odiei). Não foi só isso, há também ali coisas naquela mulher que me causam alguma estranheza, tenho que admitir. Mas prefiro falar daquilo que gostei. Sendo um livro escrito por uma mulher sobre mulheres e envelhecimento é claro que há sempre algum momento onde nos reconhecemos. Por exemplo, na eterna questão: conseguiremos, apesar de todas as condicionantes sociais, ser quem realmente somos (ainda que para isso precisemos de ter um quarto-refúgio num motel a vinte minutos de casa, como esta mulher)? Ou na outra pergunta, que todas nos fazemos a determinada altura: como será a paixão (ainda haverá paixão) quando envelhecemos? 

Depois, achei interessante a relação dela com as amigas e as conversas com outras mulheres, como quem percebe que afinal não está sozinha. E gostei de toda a parte mais doméstica, da relação da protagonista com o marido e o filho, a vidinha que temos e que às tantas já nem sabemos se estamos ali porque queremos ou simplesmente porque nos habituámos a viver daquela forma.

Falando com amigos, apercebo-me da quantidade de gente que vive infeliz em casamentos e que não sabe o que fazer. Porque é mesmo muito difícil ficar uma vida inteira com uma pessoa. As pessoas crescem e evoluem e é normal que aos 50 anos já não sejamos exactamente a mesma pessoa que éramos quando nos apaixonámos e fizemos juras de amor aos 20 e tal. Talvez por isso são cada vez mais as pessoas que pura e simplesmente não casam, também as que não querem ter filhos. São cada vez mais as que procuram outras maneiras de viver o amor. Não é à toa que cada vez mais se fala de relações abertas, de poliamor, de casais que querem permanecer juntos, mas que precisam que essa relação seja diferente do que é. E finalmente são cada vez mais as pessoas que dizem chega! e se divorciam.

Infelizmente são, parece-me, também muitas aquelas que se deixam ficar na infelicidade, como se o casamento fosse um buraco do qual não conseguem sair. Por causa dos filhos. Por causa da estabilidade. Por causa das memórias. Por causa do compromisso. Por causa de um sonho por cumprir. Por causa de dinheiro. Por causa dos outros. Por causa do medo. Por medo da solidão e da velhice. Por não terem a certeza que sozinhos ficarão melhor. Cada pessoa tem as suas razões, e são todas válidas. Mas quão triste será viver nesta espécie de beco sem saída?

Não tenho respostas nem conselhos. Só perguntas. E, ainda que não tenha adorado, ler um livro que me deixa tantas perguntas nunca é tempo perdido.

A este propósito:

  • muito interessante o podcast 451 MHz sobre o livro;
  • no outro dia, a Tânia Graça falava um pouco sobre os motivos porque se fica numa relação em que não se é feliz;
  • também apanhei por acaso um artigo na The Atlantic com boas dicas para quem, como eu, tem dificuldades em fazer mudanças na sua vida: To Be Happier, Stop Resisting Change;
  • outra perspectiva engraçada aqui: "Para as mulheres, o melhor sexo pode chegar depois dos 50"
  • Não sabia quem era a Miranda July, tive que ir à procura. Nesta entrevista ela fala um pouco das suas motivações para escrever este livro. All Fours é um dos nomeados para o prémio britânico Women's Prize for Fiction, cujo vencedor será anunciado a 12 de junho; e também já se sabe que o livro vai ser adaptado para uma série de televisão.

Captura de ecrã 2025-04-07 211737.png @Quino

O que é que isto tudo tem a ver com "purgatório", que é o tema desta semana no largo? Ah, essa também é uma boa pergunta. Talvez encontrem respostas mais úteis aqui:

publicado às 08:48

Depois de uma semana de muitas e fortes emoções, passei o fim-de-semana todo em casa, sozinha. Foi tempo para ler, escrever, ver filmes antigos, pensar na vida. Lá fora o vento e a chuva, de vez em quando uns raios de sol. Não adoro estar sozinha, mas sinto que, de vez em quando, também preciso destes momentos de silêncio e de confronto comigo mesma. É tudo uma questão de equilíbrio. No domingo à tarde temperei um frango e deixei-o a ganhar sabor durante horas, antes de o meter no forno por outras tantas horas. Quando os rapazes foram chegando, dos seus fins-de-semana, a cozinha estava quentinha e com aquele cheiro adocicado do assado. O frango ficou delicioso. Macio, húmido, a carne a soltar-se dos ossos. Um frango assado precisa de tempo. Não é possível fazer um bom frango assado no forno com pressa. Aquele frango precisou daquele domingo passado de pijama, das lágrimas que derramei enquanto acabava de ler o Somos o Esquecimento que Seremos, do colombiano Hector Abad Faciolince, da leveza de ver o Peggy Sue Casou-se, do Coppola (um filme de 1986 que não me lembrava de já ter visto, embora tudo aquilo me parecesse familiar), do espanto renovado ao reler passagens do António Lobo Antunes (tem coisas tão boas, caramba), da alegria de encontrar no Filmin A Ama de Cabo Verde, de Marie Amachoukeli, que queria ter visto no cinema mas acabei por deixar passar. Isto tudo até que finalmente nos sentámos os três a comer o frango tenrinho e saboroso e, entre conversas cruzadas e gargalhadas, olhámos para o calendário e fizemos planos para três meses (somos assim ambiciosos). Um jantar de família que não se vai repetir nos próximos dias, pois estarei a trabalhar à noite, e que cada vez acontece menos porque eles já não são crianças e temos todos as nossas vidas, com compromissos e actividades várias, mas talvez seja por isso que estes momentos são tão especiais. Ou então é o contrário, é por termos estes momentos tão bons juntos que, depois, podemos ir às nossas vidas descansados, sem dramas, sabendo que num domingo qualquer vamos encontrar-nos outra vez na cozinha, falar de coisas sem importância e ficar com as mãos sujas da gordura.

publicado às 12:47

21
Mar25

Vizinhos

Falei com a Nofouz uns dias depois dos actos terroristas do Hamas a 7 de outubro de 2023. Alguém deu o contacto a alguém que me perguntou se não estaria interessada em entrevistar uma palestiniana da Cisjordânia. Nem hesitei. Trocámos umas mensagens em inglês e combinámos um dia para falar. Pouco antes da hora, ela desmarcou. Trabalha num hospital em Hebron, a cidade onde mora, e estava com muito trabalho. Tentámos uma segunda vez. Numa pausa do trabalho, Nofouz falou comigo. Tinha na altura 23 anos e estava a terminar o curso de Medicina. Falava um inglês perfeito. De vez em quando calava-se para deixar passar os aviões. Emocionou-se algumas vezes. Mas sabia o que queria dizer. "Neste momento, tenho medo de que todas as pessoas que morreram tenham morrido por nada, que todas as crianças que passam por noites de bombardeamentos estejam a sofrer por coisa nenhuma. As pessoas de Gaza estão a lutar por todos nós. Eles não têm opção a não ser lutar. Eles estão a lutar pelo nosso futuro e eu temo que a situação fique na mesma, que, depois da guerra, nada mude", disse-me. Contei a história de Nofouz o melhor que soube, tentando mostrar as contradições de quem cresceu no meio de uma guerra, a maneira como o ódio vai aumentando contra todos os argumentos, como as pequenas humilhações e injustiças de todos os dias transformam as pessoas. De vez em quando, a ver as notícias, lembro-me dela. Trocamos mensagens esporádicas. No outro dia, celebrámos a vitória do filme No Other Land, que ganhou o Óscar de Melhor Documentário. Foi filmado numas aldeias perto de casa dela. Pareceu-me animada com a perspectiva de um acordo de paz. Falava em viajar.

Esta semana voltaram os bombardeamentos em Gaza. 

Sinto que o conflito israelo-palestino é demasiado complexo para se conseguir estar de um lado só. Tento ler opiniões de um lado e de outro. Tenho visto filmes, procuro informar-me. Andei a pesquisar sobre o movimento sionista e sobre como tantos judeus foram para aquela região quando Israel ainda não existia e os britânicos resistiam aos movimentos independentistas, quer de israelitas quer de palestinianos. Mas, um ano e meio depois, continuo sem ter uma posição definida. As soluções que parecem perfeitas no papel dificilmente resultarão quando postas em prática. Dois estados? Há demasiados subtextos, demasiada história, demasiados golpes e feridas por sarar, demasiado rancor acumulado para que a paz possa ser alcançada por vias diplomáticas. Ninguém quer ceder.

Acabei de ler O Coração Pensante, do escritor israelita David Grossman, que é muito crítico em relação a Netanyahu. A certa altura, diz: "Para quem vive em países onde a ideia de 'lar' é algo óbvio, devo explicar que para mim, para a minha consciência israelita, a palavra 'lar' cria um sentimento de segurança, protecção e pertença. Lar é um lugar onde posso existir em paz. Em que as fronteiras são reconhecidas por todos, e em particular pelos vizinhos. Mas tudo isto está envolto em nostalgia, em anseio de algo que, para mim ainda não se realizou totalmente. Por enquanto, sinto que a casa israelita é mais uma fortaleza do que um lar. Não há nela segurança nem paz, e os meus vizinhos acalentam muitas dúvidas e exigências sobre os meus quartos e paredes-fronteiras e, por vezes, sobre a sua própria existência. (...) Surge ainda um outro pensamento, o pensamento sobre os dois povos torturados: o israelita e o palestino, nos quais o trauma do refugiado é tão primário e fundamental, e apesar disso nenhum deles tem a mais leve compreensão pela tragédia do outro povo, para não falar compaixão."

Vizinhos. A maioria das guerras começa assim, entre pessoas que vivem lado a lado. De um lado ou de outro da fronteira. De um lado ou de outro da rua. Às vezes nem isso. Russos e ucranianos. Vietnamitas do norte e do sul. Sérvios e bósnios. Grupos étnicos diferentes no Ruanda. Facções opostas na Síria. Lembro-me de ver testemunhos de judeus que viviam na Alemanha antes da guerra, perfeitamente integrados, felizes, e de como, quase de um dia para o outro, passaram a ser mal tratados por aqueles com quem antes conviviam amigavelmente. Os vizinhos em quem confiavam tornaram-se seus inimigos. 

Está sempre a acontecer, e o que é mais incrível é que parece que não aprendemos nada.

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Crianças esperam a comida fornecida por uma organização humanitária em Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza (AP Photo/Abdel Kareem Hana)

Neste largo, a vizinhança é boa e escrevemos sem conflitos:

publicado às 10:10

Um livro

É engraçado quando vamos lendo livros de um autor e vamos percebendo qual é o seu universo, os temas de que gosta, o espaço onde se movimentam as suas personagens. No seu mais recente livro, Toda a Gente Tem um Plano, Bruno Vieira do Amaral continua a sua investida pelos bairros mais pobres da margem Sul para nos mostrar aqueles que tantas vezes parecem invisíveis. Continua, por exemplo, entre gente que veio de África (ou do Brasil) e gente que procura conforto em deus. Gosto muito da maneira como o autor construiu esta história, evitando a linearidade, fazendo-nos ir lá atrás no tempo, uma vez e outra vez, para conhecermos melhor este Calita e as curvas da sua vida. Também gosto muito do cuidado que põe na criação das personagens e dos contextos, quase como se nos transportasse para aqueles locais, como se aquelas pessoas fossem de carne e osso e nos pudéssemos ter cruzado com elas em algum momento. Gosto de me apegar às personagens, de compreender as suas fraquezas, de ficar a torcer por elas. De sofrer com elas quando elas sofrem.

Um filme

Já o vi há algum tempo, mas, depois, com o barulho dos Óscares e a crise política que nos caiu em cima, acabei por não ter tempo de vir aqui escrever sobre O Atentado de 5 de Setembro. O filme acompanha o atentado terrorista ocorrido nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, mas do ponto de vista dos jornalistas do canal americano CBS, que estavam na torre do satélite, a uma centenas de metros da aldeia olímpica. Admito que será um filme que talvez toque mais os jornalistas. E ainda mais os jornalistas que estejam ligados à televisão. Afinal, aquela foi não só a primeira vez que os jogos olimpicos foram transmitidos em directo, mas também a primeira vez que um atentado terrorista foi transmitido em directo pela televisão - com todas as questões que isso levanta. Mas acho que pode ser interessante para toda a gente. Posso dizer-vos que, mesmo sabendo como aquilo ia acabar, o filme conseguiu envolver-me completamente e até deixar-me nervosa.

Uma série

Adolescência é mesmo imperdível. O nome diz tudo: é uma minissérie sobre a adolescência, nos seus muitos aspectos. A pressão a que os jovens estão sujeitos, por parte dos outros jovens, agravada pelas redes sociais. A influência que alguns gurus e ideologias podem ter sobre os jovens. A relação com os pais. A escola. O desespero dos professores. A falta de perspectivas. A falta de empatia. A linguagem. Os telemóveis sempre na mão. As portas dos quartos fechadas. A impotência dos pais. A culpa. Está lá tudo, mas ao mesmo tempo é uma série muito diferente de todas as outras séries que já vimos sobre adolescentes. São quatro episódios muito bem feitos, muito bem realizados, muito bem interpretados. O primeiro episódio tem imensa tensão. O episódio da escola é bastante perturbador. O último é o mais tocante (pelo menos, para mim). Fez-me pensar tanto. Não quero estar a contar muito. Está na Netflix. Vejam que não se vão arrepender.

publicado às 20:12

O mês mais curto foi cheio de coisas boas.

A começar pelos concertos de Ana Lua Caiano e Amélia Muge e de Samuel Úria e Manel Cruz. Foram ambos muito bons. E também uma oportunidade para estar com alguns amigos queridos. Geralmente evito ter programas em dias de semana porque sei que estarei cansada e não me vai apetecer e depois vou ficar ainda mais cansada. Mas foi tudo tão bom nestas duas noites que valeu muito a pena.

Fui moderar um painel numa conferência na Gulbenkian. Deus sabe o que me custa expor-me assim, as noites que passo sem dormir, os nervos que me atacam o corpo. Ainda assim, fiquei mesmo feliz quando recebi o convite e achei o tema tão interessante, tão a minha cara, que é claro que não podia dizer que não [o que é o pior que pode acontecer?, não é?]. Olhando para trás, odeio ver-me e ouvir-me, encontro mil erros, mil coisas que podiam ter sido melhores. Mas tive muita sorte com o meu painel, eram pessoas realmente interessantes e com quem gostei muito de conversar. 

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Foi o aniversário da Helena, que é uma das minhas pessoas preferidas. E foi um dia mesmo bom porque estive com as minhas amigas mais antigas e com quem não tenho tido muita oportunidade de estar, por motivo nenhum especial, apenas porque andamos desencontradas. Foi como se estivéssemos de volta à faculdade, com as conversas a sobreporem-se e a cumplicidade e a honestidade e a amizade de sempre. Gosto mesmo destas miúdas que me entendem bem, mesmo quando falamos pouco. Esse dia; a tarde em que, do nada, combinei com a Isabel irmos ouvir a escritora, Elizabeth Strout à Livraria Bucholz; a caminhada de duas horas pelos caminhos de Monsanto, que me deixou de corpo cansado mas de coração cheio. Foram todos momentos especiais. Não me canso de o dizer: os amigos verdadeiros são o meu oxigénio.

O espectáculo do Tiago Rodrigues, No Yogurt for the Dead, é simplesmente incrível. O texto é muito bom, com um tema muito duro mas ao mesmo tempo com um sentido de humor apurado, a fazer-nos rir e chorar quase ao mesmo tempo. As barbas, a música, a atriz que fala neerlandês, o humor, a montanha - as soluções que ele encontrou para nos falar da morte do pai, ao mesmo tempo emocionando-nos mas criando uma distância segura, são perfeitas. E que dizer daquelas duas actrizes, a Beatriz Brás e a Manuela Azevedo. Sim, a Manuela, dos Clã. Já a tinha visto noutras peças, mas aqui ela excede-se e, além de cantar como sabemos que canta, é uma actriz de corpo inteiro.

 Quem viu o espectáculo sabe como ele fala a todos os que já perderam alguém. É impossível não nos relacionarmos, não nos revermos em alguma das cenas. Ainda por cima, no natal tinha oferecido bilhetes à minha irmã e ao meu cunhado. Já estava contente por termos um programa juntos. Só depois reparei que o espectáculo era no mesmo dia do aniversário da morte da nossa mãe. Acabou por ser ainda mais especial.

Os problemas não se resolveram mas, este mês, parece que estiveram mais suportáveis. Os putos mais orientados. O trabalho menos odioso. Um bocadinho menos, vá. Ou então era eu que estava tão entretida a fazer planos para março que já não me chateei muito. Também há isso. 

publicado às 14:12

publicado às 14:05


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