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Não é fácil meter a vida toda de uma pessoa qualquer num filme, quanto mais a vida de um artista. É por isso que muitos dos biopics acabam por ser filmes falhados, ficando-se quase só pela caricatura. Os melhores são aqueles que se focam num momento específico, num dilema, numa obra - como vimos no excelente filme sobre o Bob Dylan, de James Mangold. Não é só isso que faz um bom biopic, mas é já um começo de conversa. E é um bom começo de conversa para este Springsteen: Deliver me from nowhere, realizado pelo pouco conhecido Scott Cooper e protagonizado pelo mega-conhecido Jeremy Allen White (o actor de The Bear).

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Em vez de tentar abarcar toda a enorme carreira do The Boss, o filme fica-se pelos anos de 1981-82 quando Bruce Springsteen, depois de terminada a digressão The River Tour, se sente exausto e assoberbado pelo sucesso e decide regressar à sua terra, New Jersey, para compor aquele que viria a ser o seu álbum mais intimista, Nebraska. Sabemos entretanto, porque o músico o contou na sua autobiografia, que naquele período Bruce viveu momentos complicados de depressão, um problema com o qual tem lutado ao longo da vida. 

Li por aí que muita gente ficou desiludida com este filme. Eu gostei bastante. Em parte, talvez porque gosto do Bruce Springsteen e porque tenho vindo a aprender a gostar mais das suas músicas. Mas também porque me parece um filme bem feito, que conta bem a história que quer contar, com boas interpretações - embora não dê para ficar muito impressionada com o Jeremy Allen White porque afinal aquilo é mais ou menos uma versão do Carmy Berzatto, não é? 

Não é um filme que vá ficar para a história do cinema, está bem, mas é um bom filme. E pôs-me a ouvir o Nebraska. Só por isso já valeu a pena.

publicado às 10:52

Queria escrever sobre fúrias, porque tinha falhado a última sexta-feira no largo e achei que ainda vinha a tempo de destilar aqui um pouco das muitas fúrias que me têm acometido por estes dias. São tantas que a dificuldade seria escolher a qual me deveria dedicar. Mas, depois, na segunda-feira fui ver o concerto de Bonnie "Prince" Billy, no Teatro São Luiz. Preciso sempre de uma grande dose de boa vontade para sair de casa depois de um dia de trabalho, mas como o concerto foi logo às 20:00 (um grande bem-haja para quem teve esta ideia) lá me animei. E ainda bem que não sucumbi à preguiça, pois foi uma belo serão.

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Sempre com um boné na cabeça, como que a esconder a careca, um boné que, diga-se, parece destoar do resto da indumentária indie-folk mas entretanto já se tornou uma imagem de marca sua, Bonnie falou pouco com a plateia (mas o suficiente para criticar o estado da política americana), entregando-se por completo à guitarra e às canções que trazia para cantar. Os músicos eram todos excelentes. Fui pesquisar para poder dizer os seus nomes: Eamn O’Leary (bouzouki), Jacob Duncan (flauta e saxofone) e Thomas Deakin (guitarra barítono, clarinete, corneta) e, juntando-se um pouco mais tarde, Nuala Kennedy (flauta e voz). Não conhecia todas as músicas mas isso não fez diferença nenhuma. Durante mais de uma hora e meia, esqueci todas as fúrias e estive completamente imersa naquela músicas que pareciam vindas de um outro tempo para nos fazer olhar com olhos-de-ver para o mundo que nos rodeia e para as coisas que realmente importam. 

Numa entrevista publicada no Expresso no fim-de-semana anterior, ele tinha dito isso mesmo: "Penso que a forma como nos tratamos uns aos outros, mesmo em microinterações, é impossível registar o impacto disso, mas penso que é o mais importante. A música tem o seu valor, como tudo aquilo que valorizamos, respeitamos e que fazemos com uma certa intenção. Mas as as coisas que nos mantêm vivos e coexistem connosco é que permitirão à minha filha encontrar bolsas de felicidade no futuro."

Deixo aqui três canções das que ele cantou e de que gosto particularmente:

Lay and Love (a abertura do concerto)

 

From what I've seen, you're magnificent
You fight evil with all you do
Your every act is spectacular
It makes me lay here and love you

From what I hear, you are generous
You make sunshine and glory too
When you walk in things go luminous
It makes me lay here and love you

From what I know, you're terrified
You have mistrust running through you
Your smile is hiding something hurtful
It makes me lay here and love you

It makes me lay here and love you
I'm filled with violet and red and blue
I have a feeling from what I do
That you might lay there and love me too

*

The Water's Fine

Fifty years ago, or fifty years from now
Gotta lighten your load, gotta put it down
Go to the water, and jump right in
Wash away your troubles, be yourself again
 
We go down to the swimming hole
Where we could both finally bear our souls
Swim all day in the warm sunlight
Lay on our backs and watch the stars at night
 
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got yours and I got mine
Come on in, the water’s fine
 
When happiness seems out of reach
There’s a lot of good times down on the beach
Take off your wig, take off your clothes, honey
Head down to the ocean, get the sand in your toes
 
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got your troubles, I got mine
Come on in, the water’s fine
 
Find yourself a mountain stream
The air is cool and the water’s clean
Ain’t no bars on the telephone
Sometimes it’s best just to really be alone
 
Later on, the sun goes down
The barred owl calls, and your friends come round
Build a fire, scream at a star
Realize how small you are
 
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got yours and I got mine
step on down, the water’s fine

*

Our home (a fechar o concerto)

 

Make our furthest horizon the end of the street
That's how we make it our home
Look in the eyes of the people we meet
That's how we make it our home
We thank the Lord before we break bread
That's how we make it our home
We never forget the names of our dead
That's how we make it our home

Batten the hatches when thе cold wind blows
Save some for tomorrow 'cause you nеver can know
And the hard times are coming to push you down low
You're only as good as the people you know

Harvest the honey and string up the beans
That's how we make it our home
Do it by hand and screw the machines
That's how we make it our home
Pull down the fences and pull up a chair
That's how we make it our home
Nobody's perfect and nobody cares
That's how we make it our home

Stare at the sunset and not at the wall
Winter and spring and summer and fall
Answer the door when your friends come to call
There's not that much to it, no real work at all
 
Leggo my ego and embrace my id
That's how we make it our home
Pocket wolves, pickups, and just the right kid
That's how we make it our home
Well we've got the power and it's all off the grid
That's how we make it our home
That's how we make it our home
*
 

Sobre as fúrias - ou sobre outra coisa qualquer - vale sempre a pena ler o que escrevem as minhas companheiras do largo:

publicado às 21:23

Quarta. O concerto do Manel Cruz foi incrível, como já se sabia que iria ser. Não basta as canções serem muito boas, com poemas que nos tocam cá dentro, como ele é um excelente intérprete e ainda um óptimo entertainer que vai contando histórias e fazendo comentários, com uma honestidade e uma verdade desarmantes, sem tiques de estrela. Além disso, o concerto foi precedido de um jantar para matar as saudades de amigos muito queridos, com quem já ando a congeminar aventuras para o próximo ano.

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Sexta. O espectáculo Coro de Amantes, que tenho uma vaga ideia de ter visto na sua versão inicial no Teatro Maria Matos, em 2006, envelheceu e voltou à cena, no Teatro do Bairro Alto, já com rugas e cabelos brancos, ou seja, ainda melhor do que era. O Tónan Quito e a Cláudia Gaiolas interpretam o texto do Tiago Rodrigues, que fala do amor, com as suas venturas e desventuras, e de como o tempo passa a fugir e nunca parece ser suficiente para vivermos todo o amor de todas as maneiras que gostaríamos (e que me deixou com lagriminhas nos olhos).

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Domingo. Pelo meio, tive uma noite bem boa de conversas, confissões e muitas calorias com a minha Paula. Hoje estava bastante podre mas lá me animei e saí de casa para ir ao CCB ver Só uma gaivota, o novo espectáculo do Miguel Fragata e da Inês Barahona, que é lindo, lindo, lindo. A partir d'A Gaivota de Tchekhov e das memórias do espectáculo de fim de curso do actor e encenador, há 20 anos, este espectáculo é um hino ao teatro e a todos os que algum dia sonharam ser artistas. O Miguel e a Inês são pessoas muitos especiais e isso nota-se nos seus projectos, sempre muito tocantes. Neste caso, quero sublinhar também a beleza da cenografia do Fernando Ribeiro, os figurinos do António José Tenente e a luz do Rui Monteiro. 

549653693_1210458934460858_1211466900324501769_n.jEsta rentrée está a acabar comigo. Entre bilhetes que tinha comprado há meses e de que já não me lembrava e bilhetes de última hora porque achava que poderia não ir e afinal podia, tenho passado muito tempo em salas de espectáculos. E se a felicidade é grande a verdade é que não estou a conseguir encaixar nas 24 horas do dia tudo o que preciso fazer e tudo o que quero fazer. Isto agora vai acalmar, prometo. É tempo de me jogar ao trabalho.

publicado às 21:55

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Foi uma alegria muito grande ver Adilson, o espectáculo musical imaginado e encenado por Dino D'Santiago a partir do texto "Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão e com direcção musical de Martim Sousa Tavares. O espectáculo acompanha um afrodescendente, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Angola mas que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. Adilson passa horas à espera da sua vez em gabinetes e serviços, sofrendo humilhações por parte das autoridades, perdido no labirinto burocrático para provar que existe e que é português. A sua história - que é verdadeira - é a história de muitos dos que aqui moram e é também um pouco da história deste país. (Leiam este texto do Gonçalo Frota que está lá tudo explicado)

Que Adilson seja interpretado por uma rapariga jovem é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste espectáculo um manifesto pela inclusão e um grito contra os regulamentos que insistem em impedir-nos de sermos quem realmente somos. Koffy tem apenas 19 anos e uma voz magnífica.

O espectáculo tem momentos de humor e outros mais sérios, tem momentos mais bem conseguidos e outros que poderiam estar melhor. Já a música é sempre boa, uma mistura de ritmos e de instrumentos, tudo unido pela poesia de Dino D'Santiago. 

No final, uma alegria enorme, sim, e um travo amargo na boca: temos ainda tanto por andar neste caminho pela igualdade e pela democracia plena. 

 

"Nas curvas do bairro
Aqui toda a gente senteTerra não é só lugar onde se nasceuÉ também o chão que trazemos na mente
Aqui toda gente é parenteMesmo quando se nasceu d'outro ventreChamamos mãe ao mesmo continente"

Esquinas, de Dino D'Santiago e Slow J
 

*

Estive a trabalhar no fim-de-semana, mas ainda assim, e apesar do cansaço acumulado, consegui aproveitar bem o meu tempo. No sábado ao final do dia fui ver Adilson no CCB, integrado no festival Boca. No domingo, saí do trabalho a correr e fui à Culturgest ver Nôt, o espectáculo de Marlene Monteiro Freitas. 

É muito fácil andar sempre ver as coisas que eu sei à partida que vou gostar e ficar confortável no meu lugar. Mas também preciso de me desafiar e de ver coisas que não me são óbvias. Não posso dizer que tenha adorado este Nôt. Achei os intérpretes todos incríveis e gostei mesmo de alguns pormenores da coreografia, há coisas que resultam muito bem. Gostei muito de alguns momentos. Mas na maior parte do tempo senti-me bastante perdida. Este texto, que só li depois, já em casa, ajudou-me um pouco. Acho que ainda estou a processar.

E não desisto. Da próxima vez, lá estarei. 

publicado às 12:28

24
Jul25

Elis & Tom

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Elis & Tom: só tinha de ser com você é uma daquelas pérolas que uma pessoa vê e apetece-lhe que não acabe nunca. Não consegui ir vê-lo ao cinema, mas vi-o agora no Filmin e estou deliciada. Aquele vídeo de Elis Regina e Tom Jobim a cantarem as Águas de Março já era um dos meus preferidos, por toda a cumplicidade que se sente entre eles, o Tom a dançar e a sorrir, a Elis mais solta do que era habitual, há ali um amor que quase conseguimos sentir na nossa pele. A canção já era incrível, mas depois de saber a história daquele encontro, tudo faz ainda mais sentido.

 

Já agora:

Ando numa fase muito light no que toca a escolhas cinematográficas (para desgraças já basta o mundo, não é?), de qualquer forma tenho visto algumas coisas bem interessantes no Filmin. Por exemplo: O Paraíso Queima, de Mika Gustafson, e O Amor Segundo Dalva, de  Emmanuelle Nicot - dois filmes sobre crianças vítimas de famílias disfuncionais, obrigadas a crescer cedo demais. Não tenho tempo para aprofundar, mas queria só deixar aqui a referência para não me esquecer deles. 

publicado às 22:49

10
Jun25

Up and down

Março, abril e maio foram meses bons, de muitas emoções e muita agitação. Mas não se pode estar sempre lá em cima. Depois daquelas duas semanas de campanha que me deixaram exausta e do trambolhão emocional da noite eleitoral, entrei numa espécie de ressaca de onde está a ser difícil sair. Não me apetece ver ninguém nem fazer nada. Portanto, tenho me deixado estar, simplesmente. Andei entretida com o ténis de Roland Garros (e que bela entretenga foi) e tenho visto filmes antigos, mas não muito antigos, dos 80s, 90s e 00s, uns não muito bons, outros um pouco melhores, filmes que não me chateiam muito a cabeça ou que me fazem chorar como uma madalena arrependida, só para passar o tempo. Pelo meio, também tive uma gripe que me mandou a baixo. Mais uns contratempos de trabalho. E esta semana estou a trabalhar à noite. Resultado: ando cansada, não tenho feito exercício e tenho comido muitas porcarias, sinto-me a engordar todos os dias um bocadinho e isso também não é muito animador. Isto tudo junto e mais as preocupações com os putos e a vidinha e a idade e as frustrações (e o mundo, o mundo está bastante deprimento também)  é uma bela mistura. É como uma bola de neve. A parte boa é que já começo a estar farta de estar nesta fase. Não tarda nada passou um mês, já é tempo de reagir. 

Tenho escrito sobre estas fases blah, e isso ajuda-me a perceber que isto acontece e que depois melhora, a aceitar esta montanha-russa mas, por outro lado, assumir que também está nas minhas mãos fazer algo para mudar. É uma batalha constante e temos de estar mesmo muito atentos para não nos deixarmos cair num poço sem fundo.

*

Coisas que ajudam: há discos novos dos Arcade Fire, dos Pulp e da Garota Não. Ainda estou a descobrir. 

 

"Without love, you're just making a fool of yourself", in "Got to Have Love", Pulp

publicado às 11:42

25
Mai25

Teimosia

Aconteceu já quase no fim do concerto. A Aldina estava a dizer o quanto se sentia feliz por estar ali e, de repente, emociona-se a falar da democracia e não tarda muito está a falar da tristeza provocada pelo resultado das últimas eleições. Não foi algo planeado, mas as palavras saíram-lhe, atabalhoadas, pedindo desculpa. A grande Aldina Duarte. É também por isso que gosto dela. Porque é sincera, porque se mostra, tal como é, porque se permite deixar levar pelas emoções. E no fim disse-se aliviada por ter desabafado. "Estou há uma semana sem conseguir falar disto, nem com os meus amigos", explicou.

Percebi-a tão bem. Eu também estou há uma semana sem conseguir falar disto. Tenho estado em casa a descansar de tudo o que trabalhei durante a campanha eleitoral. O meu corpo estava exausto e têm sido dias para recuperar, para dormir e voltar ao yoga e ao pilates. Mas têm sido também dias de reclusão, de falar com poucas pessoas. Para limpar a cabeça, para tentar fazer as pazes com o mundo e para pensar o que podemos fazer daqui para a frente. Ainda há um ano estava a falar disto. A luta continua, sempre. Pela democracia. Pela comunidade. Pelo bem. É muito difícil compreender, como disse a Aldina ontem, que tanta gente vote em quem apela ao lado pior da humanidade, quem defende o ódio, a discriminação, o individualismo. Mas é a realidade que temos. E a melhor maneira de combater o ódio é mostrar como é bom o amor. Como somos mais felizes juntos, com os outros, com os que são diferentes, de mãos dadas, uns puxando os outros. Não é uma tarefa fácil, mas é a tarefa que temos pela frente.

O concerto da Aldina Duarte foi incrível, como sempre. 

Mas a música que vos quero deixar aqui é outra, roubada descaradamente à Helena, porque me parece que diz exactamente aquilo que quero dizer, com o balanço do samba e as vozes de Jonathan Silva e Ceumar Coelho. Uma música para nos inspirar a continuar, teimosamente, do lado da democracia e dos valores humanos. Uma semana depois, mas nunca tarde demais.

 

"Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA

Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA

Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA

Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA

Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania

Pegue o tambor e o ganza
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA"

publicado às 11:48

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Há dez anos, desde a primeira viagem a São Miguel e a primeira vez que ouvi falar do Tremor, que andava com vontade de lá ir. Mas era sempre tudo tão complicado, os miúdos e as férias da páscoa e o dinheiro e os bilhetes e ir com quem?, nunca conseguia, ficava só a ver as fotografias no instagram e a ouvir os relatos de quem lá ia e a achar que devia ser mesmo fixe. Até este ano. No aniversário dos 50, um grupo de amigos ofereceu-me a viagem de avião. Que alegria! Começámos por ser duas e acabámos a ser seis. E foi incrível. Cinco dias inteiros de felicidade, ora com chuva ora com sol, mas quem quer saber do tempo quando se está mergulhada na água quentinha da Poça da Dona Beija e rodeada de pessoas queridas? Tirando os telefonemas e as mensagens (sem stress) para os rapazes, consegui fugir completamente da rotina, das notícias, das preocupações, e entregar-me por completo a esta experiência. Porque o Tremor é, de facto, uma experiência. É um festival com um ambiente muito cool, relaxado, com poucas pessoas, que vamos encontrando uma e outra vez ao longo da semana, casais que trazem os filhos, grupos de amigos, gente da terra, todos juntos e todos a sorrir.

Também é preciso estar atento e disponível para desfrutar completamente - dos concertos, da beleza da ilha, da comunidade. O programa é muito extenso e não conseguimos ir a tudo (até porque a idade já pesa e esta pessoa não aguenta noitadas), mas tudo o que fizemos foi bom, de uma maneira ou de outra. Destaques:

Comer: bolo lêvedo e massa sovada nos nossos pequenos-almoços com vista para a marina, os chicharros com feijão no Mané Cigano, as bifanas de atum e o bolo de ananás da Tasca, o cozido e a carne no ponto do Tony's, as bifanas do Clipper, o peixe (e, diz quem comeu, também as iscas) do Nacional, cerveja e tremoços nas escadas da igreja da Lagoinha, o queijo com pimenta da terra em todo o lado, sempre que possível.

Tremor na Estufa: concertos surpresa em formato pop-up, em lugares inesperados. Vimos os divertidos The Zenmenn no Pinhal da Paz, estivemos nas Furnas com os Why The Eye e ainda ouvimos os Comfort no Museu do Tabaco da Maia (e o museu também é bastante interessante).

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Tremor Todo-o-Terreno: pequena caminhada na Ferraria, mini-concerto do saxofonista Julius Gabriel junto ao mar e, a terminar, banho na piscina de água quente e salgada.

As salas: só conhecia o Teatro Micaelense, fiquei a conhecer o Coliseu Micaelense, o Ateneu Comercial, a Igreja do Colégio e o espaço das Portas do Mar, onde acabavam as noites (e que, por coincidência, ficava a apenas três minutos de casa, o que deu imenso jeito).

A música: a grande descoberta para mim foi Fidju Kitxora, um projecto muito incrível que junta as sonoridades de Cabo Verde e a electrónica e pôs toda a gente a dançar. Joseph Keckler, de que nunca tinha ouvido falar, foi uma óptima surpresa. O concerto de Norberto Lobo e Six Organs of Admittance foi muito, muito bom. Os 800 Gondomar, não sendo de todo o meu género musical, acabaram por ter a energia certa para aquele fim de tarde do Mercado da Ribeira Grande. 

Mais do que música: foram muito especiais os momentos musicais que envolveram as pessoas de São Miguel e onde se percebe o impacto que um evento destes, quando é bem feito, pode ter, sobretudo nos jovens. O projecto Filhos do Vento pôs um grupo de rappers locais a trabalhar com o Xullaji e só de ver a alegria deles em palco a debitar as suas rimas já valeu a pena (ficámos de olho no Maçarico). O saxofonista Guillaume Perret esteve apenas cinco dias com a Escola de Música de Rabo de Peixe e o resultado foi extraordinário (foi mesmo). E o músico Romeu Bairos, além do seu disco, Romê das Furnas, trouxe para o palco músicos das Festas do Divino Espírito Santo e ainda contou com a participação inesperada do grande Zeca Medeiros. Gritou-se 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais, e estou em crer que me caiu uma lagrimita emocionada, não sei se pela música, se pela felicidade de estar ali e pela sorte, a imensa sorte que tenho, de ter estas oportunidades e estas pessoas na minha vida.

Sim, porque nada disto seria possível nem seria assim tão bom sem a energia e a alegria e as conversas e as piadas e a presença e a amizade e os abraços de Alda, Ana, Jô, Nuno e João. A dançar na fila da frente dos concertos ou para enfrentar caminhos íngremes no meio do nevoeiro, não consigo imaginar melhores companheiros de viagem. Tremor é amor, diz o lema do festival. E eu confirmo.  

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publicado às 13:09

 

Dead Combo, Lisboa Mulata

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publicado às 13:44

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Gostei muito de To the End, o documentário sobre os Blur que está no Filmin. Para mim, que ouvia os Blur no início dos anos 90, sobretudo o Modern Life is Rubbish e depois o Parklife e The Great Escape, foi uma viagem e tanto. Continuei a ouvi-los e, mesmo não lhes dando a mesma atenção, nunca me desiludiram. Só os vi duas vezes em concerto e foram ambas incríveis. Em 2015 no Super Bock Super Rock no Parque das Nações e depois em 2023 no Festival Kalorama no Parque da Bela Vista. O filme centra-se nesta última fase da carreira e no concerto de consagração em Wembley, mas vai recuperando algumas imagens antigas, para contar a história, para mostrar como foi e como é. Eles estão mais velhos, claro, com rugas, com barriga, a voz do Damon já não é tão limpa, às vezes estão cansados, já lhes custa ficarem acordados até às tantas, mas no essencial estão na mesma. Continuam a ser um grupo de miúdos que se junta para tocar e que tem prazer nisso. Vê-los agora, a falar dos filhos, das casas no campo, das dores nos corpos, é incrível. Envelhecemos todos, obviamente. Envelhecemos juntos. E isso é bastante comovente. 

publicado às 18:05


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