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14
Ago19

Indo e vindo

Descansar e desligar (os aparelhos mas também a cabeça) são os objectivos principais para os próximos tempos. Duvido que os consiga cumprir completamente, mas não custa tentar. 

Deixo-vos três ideias para estes dias de agosto:

Se estiverem em Lisboa, arrisquem ir ver o espectáculo Mário, que está em cena no Cinema São Jorge. O actor Flávio Gil interpreta este monólogo inspirado na história verdadeira de Valentim de Barros, um bailarino que, no Estado Novo, foi preso e internado como louco, apenas por ser homossexual.

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(a foto é de Pedro Rocha/Global Imagens)

Quem gostou da primeira temporada de The Letdown já tem a segunda temporada disponível na Netflix. Na minha opinião, estes episódios são ainda melhores. Esta não é só uma série sobre a maternidade, é sobre a vida toda das mães, incluindo o trabalho, o marido, os amigos, as idas ao cabeleireiro e os vários pequenos e grandes dramas do dia-a-dia.

E, por fim, voltar a esta canção: Como uma onda, música de Lulu Santos com letra de Nelson Motta. Só para nos lembrarmos que "a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito". Não adianta fugir.

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publicado às 14:28

31
Jul19

Julho a acabar

Sair cedo do trabalho. Fazer o jantar enquanto bebo uma cidra e ouço a bola a bater no terraço e os putos a brincar com os vizinhos. Não pensar.

Voltar a esta música da Nina Simone as vezes que forem necessárias: I got life.

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publicado às 20:37

"Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
 
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
 
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
 
Muita atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés."
 
O Mundo é um Moinho, de Cartola, é uma música infinitamente triste que eu nunca tinha ouvido até ao fim-de-semana passado. A minha amiga queria falar-me do perigo de "de cada amor só herdar cinismo" mas eu fiquei presa na imagem do moinho que tritura os sonhos até reduzi-los a pó. 

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publicado às 16:24

Morreu João Gilberto. E não há muito mais a dizer. 

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Está tudo aqui .

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publicado às 23:22

Um destes dias fui à livraria Ler Devagar e não resisti a comprar um livro: My Sh*t Therapist and other mental health stories, de Michelle Thomas. Nunca tinha ouvido falar desta autora mas folheei o livro e fiquei curiosa.

Nos últimos tempos, várias pessoas à minha volta têm sofrido de depressão, ansiedade, exaustão ou "apenas" tristeza. Nos últimos tempos, percebi que várias pessoas à minha volta estão a fazer psicoterapia ou tomam medicação regularmente ou têm medicação de emergência para fazer face às dificuldades da vida.

Não é fácil falar destes problemas. Às vezes as pessoas dizem aos amigos como se sentem em baixo e ouvem frases como "isso passa", "tens de te animar", "vá, esforça-te um bocadinho". Como se fosse fácil. Como se fosse só querer. Eu também costumava ser uma dessas pessoas com pouca empatia por queixas que na maior parte das vezes não me pareciam ter grande fundamento. Mas tenho vindo a aprender a ser uma amiga melhor. A estar mais mais disponível. A ouvir. Muitas vezes não sei como ajudar, a única coisa que posso fazer é mandar uma mensagem ou telefonar, conversar um bocadinho, convidar essa pessoa para ir ao cinema, levar-lhe um bolo feito por mim e esperar que isso ajude de alguma forma (sei que a mim ajudam-se sempre o carinho e o cuidado dos meus amigos).

Michelle Thomas parte da sua própria experiência para falar das muitas pessoas que hoje em dia são afectadas por várias doenças mentais (muitas pessoas mesmo). Este não é um livro de auto-ajuda, embora só o facto dela falar deste assunto sem tabus já seja uma ajuda. Num tom ligeiro e com algum sentido de humor, ela vai-nos dizendo o que lhe aconteceu, as coisas que fez que a ajudaram e as coisas que fez que não a ajudaram (por exemplo, consultar aquele sh*t therapist que lhe disse que da próxima vez que ela tivesse um ataque de pânico deveria beber uma chávena de chá).

A primeira coisa que Michelle Thomas faz questão de esclarecer é que a doença mental é uma doença como as outras. E é como tal que deve ser encarada. Se uma pessoa partir uma perna não tem vergonha de dizer aos amigos que partiu a perna e não lhe passa pela cabeça continuar a sua vida como se nada fosse, sem ir ao médico nem tratar devidamente a perna partida. Com a doença mental é exactamente a mesma coisa. Não há que ter vergonha de admitir que se está doente e temos que tratar a doença como deve ser.

Só que a nossa cabeça é um bocadinho mais complexa do que um osso. Não só uma doença mental é mais difícil de diagnosticar (ah, isto é só cansaço, dizemos, enquanto deixamos arrastar a situação) como qualquer problema no funcionamento do cérebro afecta todo o nosso corpo - física, mental e emocionalmente. A doença mental altera a maneira como as pessoas pensam, sentem e se comportam.

*

Sim, a doença mental é uma doença de verdade e uma depressão (ou uma crise de ansiedade ou um ataque de pânico) pode acontecer até mesmo à pessoa que está apaixonada e feliz e passa férias em ilhas paradisíacas.

Mas, tal como há cuidados que devemos ter com o nosso corpo e sabemos que se comermos imensos fritos e não fizermos exercício físico teremos mais hipóteses de ter uma doença cardíaca, também há coisas que fazemos ou que nos acontecem que podem influenciar a nossa saúde mental. Coisas como insistir em ter um trabalho que odiamos. Ou ter relações com pessoas tóxicas. Ou trabalhar 12 horas por dia. Ou dormir cinco horas por noite e achar que é mais do que suficiente. Ou outras coisas. Se não estivermos bem física ou emocionalmente é mais provável que a nossa mente também adoeça.

E há coisas que podemos fazer que ajudam. Neste livro, Michelle Thomas diz quais as coisas que a ajudam e que, curiosamente, não são assim tão diferentes das minhas.

Fazer terapia. Deveríamos poder fazer terapia como quem vai ao dentista ou ao ginecologista, sem estarmos doentes (digo poder porque a terapia é muito cara). Que bom seria ter alguém que nos ouvisse, que nos ajudasse a pensarmo-nos (e a conhecermo-nos o melhor possível), que nos ajudasse a ter instrumentos para vivermos melhor a nossa vidinha (por exemplo, trabalhar a nossa auto-estima e os sentimentos de culpa) e que nos desse a mão se nos visse a afundar, sem que tivéssemos sequer que pedir.

Ter relações afectivas. A família e os amigos (e um amor, se o houver) são a minha salvação sempre. Sentir que não estamos sós, que há pessoas que gostam de nós e que se preocupam connosco faz-nos sempre bem. Por outro lado, sentir que somos úteis aos outros, cuidar de e fazer alguém feliz é também uma enorme satisfação. A vida é melhor quando a podemos partilhar com pessoas de quem gostamos. Claro que é importante aprendermos a estar sozinhos e não podemos fazer com que a nossa felicidade dependa dos outros, mas também é importante que não nos sintamos sós - a solidão é um dos sentimentos mais esmagadores que tenho experimentado.

Fazer coisas que nos dão prazer. As minhas - além de estar com as pessoas de quem gosto - são: ler, escrever (este blogue é parte da minha terapia), ir ao cinema, ver um espectáculo, cozinhar, passear, esplanadar, dançar. É importante termos coisas que gostamos de fazer, que não dependem dos outros e que nos fazem sentir bem. Como me disseram uma vez, quantas mais coisas nós gostarmos de fazer mais possibilidades temos de sermos felizes.

Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Mesmo quando tudo parece correr mal, todos os dias há coisas boas na nossa vida. Talvez se lhes dermos o devido valor, isso nos ajude a enfrentar as coisas más.

*

Eu nunca tive uma depressão nem qualquer outra doença mental mas sei que a qualquer momento posso ter um breakdown, que não sendo a mesma coisa pode ter efeitos devastadores. Isto é tudo muito frágil e a vida é complicada, é fácil sentirmo-nos assoberbados. Sei que tenho as minhas fases más. Conheço os meus sintomas. Há momentos em que nada parece fazer sentido e em que me sinto a afundar, como se não conseguisse manter-me à tona. Mas, de alguma forma, lá encontro forças para dar mais umas braçadas e, felizmente, até agora, tenho tido o discernimento para tomar as medidas necessárias sempre que me senti a perder o pé. Mas mantenho-me atenta. 

Cada cabeça é uma cabeça, por isso as respostas não são iguais para todos. Mas, por outro lado, as cabeças são todas muito mais parecidas do que imaginamos. Não estamos sozinhos nisto. Portanto, como insiste a Michelle Thomas, estejam atentos aos sinais e não tenham medo de pedir ajuda. 

A Little Help From My Friends, The Beatles

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publicado às 17:11

O documentário Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story, do Scorsese, que está na Netflix, é um objecto fascinante. Podemos vê-lo como um simples documentário e acreditar em tudo o que ali é mostrado - e já é fascinante, só assim, poder ver e ouvir Bob Dylan, Patti Smith, Joan Baez, Alan Ginsberg, Sam Shepard ou Joni Mitchell. Ou então podemos ficar intrigados com o que acabámos de ver e pesquisar um pouco mais para perceber como é que o documentário foi feito e descobrir que há ali uma parte que é pura ficcção - e mais fascinante ainda se torna. E divertido. Mesmo muito divertido.

A Rolling Thunder Revue foi uma digressão liderada por Bob Dylan com quase 20 pessoas em palco que começou em outubro de 1975 em Plymouth e terminou em maio de 1976 em Salk Lake City. Depois de uma digressão em estádios, o músico quis fazer algo diferente: em salas mais pequenas e reunindo um grupo de amigos em concertos que podiam durar três horas, onde havia espaço para a poesia e para a improvisação, para cantarem juntos e a solo, cada um apresentado os seus temas. Dylan aparecia em palco com a cara pintada de branco e um chapéu a tapar-lhe os caracóis e cantava e encantava.

O filme tem alguns momentos especiais - por exemplo, as primeiras cenas, ainda antes da digressão, com Patti Smith, ou quando Dylan e Ginsberg visitam a campa de Jack Kerouac, os ensaios com Joni Mitchell ou o movimento pela libertação do lutador Hurricane, que motivou a canção com o mesmo nome. E um diálogo (será verdadeiro? será ficção?) quase amoroso entre Baez e Dylan: casamos com quem amamos ou com quem pensamos que amamos?  O amor não é, definitivamente, assunto para a cabeça, conclui Dylan. Todas as imagens dos concertos são preciosas e as imagens antigas (até mesmo as que possam ser forjadas) ajudam-nos a fazer o retrato de uma época. Não só pelas personagens que aparecem e por todo o espírito da digressão e dos concertos, mas também por mostrarem aquele momento de transição política (de Nixon para Jimmy Carter), o fim da guerra do Vietname, a crise económica, os jovens e os menos jovens das muitas Américas por onde os músicos andaram.

E o resto? O que é verdade e o que é mentira? Não é por acaso que o documentário começa com imagens do espetáculo de ilusionismo de Georges Méliès. O facto de Bob Dylan ter aceite fazer este filme e ter pactuado com Scorsese na criação de uma ficção como que a gozar com aquela digressão histórica diz muito sobre o Prémio Nobel da Literatura e do quanto ele, mesmo não parecendo, não se leva assim tão a sério.

Podemos questionar se, tendo um material tão rico para trabalhar, valeria a pena inventar uma ficção. Ou até se, num momento em que tanto falamos de fake news, um filme que propositadamente mistura verdade e mentira não poderá ser visto eticamente como uma irresponsabilidade. Mas também podemos ver este filme como uma resposta de Dylan a este mundo de celebridades que vivem numa montra constante (e a recusa de Dylan, acompanhada de uma gargalhada sarcástica, em expor-se totalmente). Ou então apenas como um divertimento.

Seja como for, se me diverte e me faz pensar, para mim nunca é tempo perdido.

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Joan Baez e Bob Dylan

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publicado às 19:13

My favourite things por You Sun Nah.

 

Podia queixar-me do trabalho e dos meus chefes, podia queixar-me dos meus filhos, das contas para pagar, da falta de tempo, da falta de paciência, da falta de perspectivas. Teria bons motivos para me lamentar, não duvidem. Mas hoje não me apetece. Hoje apetece-me fingir que está tudo bem e continuar a empurrar a vida com a barriga como se não fosse nada. Ouvir esta música. E o que tiver de ser, será.

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publicado às 16:07

 

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O novo disco dos The National, I am Easy to Find, vem acompanhado de um filme de 26 minutos que o realizador Mike Mills* fez com a Alicia Vikander, e que é uma espécie de enorme e belo videoclipe que nos põe a pensar nos caminhos por onde a vida nos leva, daquilo que somos, passando por aquilo que sonhamos até chegarmos àquilo em que nos tornamos.

Eu vi primeiro o filme e agora estou a trabalhar e a ouvir o disco, sem conseguir dar-lhe a atenção necessária mas a achar tudo muito bonito. 

 

(* que fez, por exemplo, Mulheres do Século XX - e o tanto que eu tinha a dizer sobre este post que escrevi há dois anos e parece que foi há uma década e agora já penso de maneira tão diferente, mas fica para outra ocasião)

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publicado às 10:59

Já há muito tempo que não venho aqui partilhar coisas bonitas, o que é uma injustiça porque até quando tudo parece correr mal na nossa vida há coisas bonitas a acontecerem.

Por exemplo, ainda vão a tempo de ir ver o espectáculo Xtròrdinário do Teatro Praga para os 125 anos do Teatro São Luiz. Se gostaram da Tropa Fandanga vão gostar ainda mais deste "musicól" que é muito divertido e "não binário". E tem os Fado Bicha, que são maravilhosos.

Já estreou na Netflix a terceira temporada da série Easy e continua a ser muito a vida como ela é, histórias de pessoas comuns com desejos comuns e problemas comuns. Sem batalhas sangrentas. Tal e qual como que gosto.

A Lena D'Água tem um disco novo, que se chama Desalmadamente. Eu ainda não o ouvi todo mas gostei muito daquilo que ouvi. Espero mesmo que lhe corra bem este come back. Esta é a Grande Festa e faz-nos abanar o corpinho com leveza:

E, já agora, o Manel Cruz também tem Vida Nova, que é como quem diz um novo álbum. E esta canção, O Navio Dela, é qualquer coisa. Prestem atenção à letra.

"A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela"

As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar. Mas há meses (anos?) que ando sem paciência para discotecas e noitadas. Tenho de encontrar um sítio com bom ambiente para dançar antes, muito antes, da meia-noite. Alguma sugestão?

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publicado às 08:29

"You can’t have a couple not talking to each other for 24 hours then expect to have good sex. It doesn’t work. Part of a good relationship is a good conversation. “How was your day today?” “Do you have any issues?” “Did you call your mother-in-law?”"

A dra. Ruth concorda comigo. Conversar. É tão importante conversar. E só depois, então, o resto.

Nesta entrevista no The New York Times, descobri que estreou esta semana nos EUA o documentário Ask dr. Ruth, sobre esta pequena-grande mulher que é a terapeuta sexual Ruth Westhmeier:

E também descobri esta canção que, concorde-se ou não com a mensagem, é bem divertida. Chama-se I'm gonna wash that man right outa my hair e fazia parte do musical South Pacific, aqui na versão do filme de 1958:

"If the man don't understand you
If you fly on separate beams
Waste no time, make a change
Ride that man right off your range
Rub him out of the roll call
And drum him out of your dreams"

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publicado às 16:36


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