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20
Out25

Pulso

A minha mãe usava uma pulseira elástica no pulso direito, o seu único pulso, cansado e desgastado por ser o único há tanto tempo, por ter de fazer sozinho o trabalho de dois. Era uma pulseira castanha que ela apertava com a ajuda dos dentes, como fazia tantas outras coisas, porque arranjara maneira de fazer quase tudo, teimosa como era, determinada a não dar parte de fraca, para que nunca a olhassem como uma aleijada, de tal maneira que cresci a achá-la completa, de tal maneira que quase nos esquecíamos, que quando alguém me perguntava, então a tua mãe?, eu era apanhada de surpresa, porque não a via como alguém com uma falta. Era isso que a deixava feliz. Essa aparente normalidade. Acho que só percebi verdadeiramente a dimensão disto muito mais tarde, já crescida, já com filhos meus, quando lhes pegava ao colo, quando os embalava, quando os alimentava, quando lhes dava banho. A falta de um pulso não é só a falta de um braço, que se compensa pedindo braços emprestados aos que te rodeiam. É uma falta maior. É a falta de tudo o que não podes fazer porque um bebé não é uma toalha que queres dobrar e basta pegar uma das pontas com os dentes para desenrascar. Há faltas que doem mais do que outras e esta deve lhe ter doído de maneiras que nunca saberei porque nunca falámos sobre isto, entretidas que andávamos a fingir que nada nos faltava.

Hoje é o dia da nossa mãe. Aqui está ela, linda, fotografada pelo nosso pai, o único com quem falava sobre tudo, o único que a conhecia totalmente, acho. 

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Achei que esta semana ia falhar no largo, mas hoje acordei com isto para dizer e acho que ainda vou a tempo. Há pulsos mais arrebitados por aqui:

publicado às 11:10

27
Set25

Ponto-de-cruz

Uma coisa incrível que aconteceu este verão foi eu voltar a bordar em ponto de cruz.

Eu digo voltar, mas na verdade nunca bordei grande coisa. Quando éramos pequenas, a minha mãe tentou ensinar-nos. Nas tardes de agosto, colocávamos cadeiras, daquelas baixinhas, no corredor que dava para o quintal, um lugar onde tínhamos luz e não muito calor, e ali nos sentávamos com o quadrilé no colo a tentar não errar os pontos. A minha mãe bordava com extrema perfeição. Acho que na altura não lhe dávamos o devido valor e até achávamos aquilo um bocadinho aborrecido. Eu nunca fui muito boa com agulhas e linhas e tenho muito pouca coisa para mostrar. Já a minha mãe, com uma só mão, mas com a ajuda de um bastidor, bordava toalhas de mesa de jantar, panos de tabuleiro, almofadas, quadros que pareciam pinturas e, depois, para os netos, lençóis, fraldas, babetes, toalhas. Não guardei tudo, mas as toalhas de mesa são autênticas preciosidades que gosto de usar em dias festivos, com um grande orgulho. 

Há muitos, muitos anos que não bordava. Mas, nas férias em Ferreira, animada pelo facto de ter duas amigas grávidas, fui até ao sótão ver o que havia por lá, resgatei revistas e caixas de linhas de todas as cores, e decidi experimentar. É engraçado perceber como há coisas que estão guardadas em nós e que parecem esquecidas mas, ao fim de uns quantos pontos, de uns enganos, desmancha e faz de novo, de repente já conseguia avançar sem medos. Fiquei mesmo feliz. Continuo a odiar rematar as pontas e tenho a certeza que a minha mãe ficaria chocada ao ver os avessos, que eu até acho que não estão nada mal, a sério, estão bastante decentes, mas não completamente perfeitos. 

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Diverti-me bastante durante o processo. Bordar exige uma atenção extrema, não dá para estar a ver televisão ou a conversar enquanto se contam pontos minúsculos, por isso é quase como um exercício de meditação. As horas passavam e eu nem dava por elas, de tal forma absorta estava, sem olhar para o telefone e sem distracções.

E o melhor de tudo foi poder oferecer às minhas amigas algo bonito e que foi feito por mim. Tenho umas ideias para fazer mais umas coisitas para os bebés quando tiver tempo, mas não sei se irei bordar muito mais. De qualquer forma, já valeu a pena.

publicado às 10:50

26
Set25

Alma minha

A primeira vez que andei de avião foi em 1991, quando no final do 11º ano fomos à Alemanha num intercâmbio do liceu. Conseguem imaginar a excitação? Um grupo de miúdos vindos do Alentejo profundo a delirar com os toalhetes para lavar as mãos e as marmitas com lombo de salmão. Só voltei a entrar num avião quando já estava a trabalhar. Sou do tempo em que ainda se podia fumar lá atrás, ao pé das casas-de-banho; em que se servia café e amendoins à borla a bordo; em que ninguém nos tentava impingir raspadinhas. Depois vieram as low cost. Tornou-se quase corriqueiro. Malas de rodinhas a deslizar pelos aeroportos de todo o mundo, embalagens de champô em miniatura, check-in online. Vou de fim-de-semana a Paris como quem vai ao Algarve. Mas há coisas que não mudam: sempre (sempre) que sinto o avião a descolar, a lançar-se com mais ou menos turbulência nos céus, toda eu por dentro me agito e revolto, atacada por uma sensação de insegurança, um e se for desta?, e se for desta que isto corre mal e acaba-se tudo já aqui? Fecho os olhos e respiro. Não faço cenas, não entro em pânico. É só um pensamento que se atravessa à minha frente e ao qual não consigo escapar. E não vale a pena falarem-me das estatísticas e virem dizer-me que tinha mais hipóteses de morrer na A2 do que num avião. Não adianta tentar racionalizar. É o que é. E é assim. Passados esses momentos iniciais, depois de tapar o nariz umas quantas vezes para desentupir os ouvidos, geralmente consigo abstrair-me do facto de estar a dez mil metros de altitude. A não ser que aquilo comece tudo a abanar e se acendam as luzes para pormos os cintos, os assistentes apressados a mandarem-nos recolher as mesinhas. Ladies and gentlemen, this is your captain speaking. Se fosse uma pessoa de fé, este seria o momento para me pôr a encomendar esta alma ao criador. Como não, respiro outra vez profundamente e tento disfarçar. Só descanso novamente quando sinto os solavancos das rodas a baterem na pista. Aliviada, só não me ponho a bater palmas como fiz em 1991 porque entretanto alguém me explicou que isso era um bocadinho foleiro. 

Já passou. 

Pelo menos até à próxima.

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Não fotografei essa primeira viagem de avião. Outros tempos, não havia telemóveis e não nos lembrávamos de fotografar tudo e mais alguma coisa. Mas guardei alguns bons momentos num dos meus queridos álbuns

*

Há outras almas a vaguear pelo largo:

publicado às 18:50

12
Set25

Revolução

Lembro-me da minha avó, vestida com roupa de domingo, colar de pérolas de plástico ao peito, o cabelo arranjado, pronta para ir votar. Ia de cabeça levantada, um orgulho tremendo, uma alegria indisfarçável por poder ir depositar o seu voto na urna.

Lembro-me da minha avó que lia o jornal de uma ponta à outra e lia sempre os meus artigos, fossem sobre o que fossem, a minha avó que tinha apenas a segunda classe, escrevia com erros e apontava as receitas que via na televisão com uma letra quase incompreensível. A minha avó que nos dizia "estudem para não serem como eu", estudem para serem independentes e mandarem na vossa vida. Estudem para não terem que se sujeitar.

Lembro-me da minha avó que me falava da pobreza, da comida que faltava, da casa sem condições, da costura que a mantinha acordada pela madrugada para ganhar uns quantos tostões. Que se lembrava dos rapazes que morreram na guerra colonial e de que como era preciso falar baixinho porque nunca se sabia quem estava a ouvir.

Não, antigamente não era melhor.

Às vezes esquecemo-nos. Damos os nossos direitos por adquiridos. Achamos que já não há por que lutar. Às vezes distraímo-nos. Porque temos sol e praia e subsídio de férias e licença de maternidade e creches e supermercados com muitas marcas e centros comerciais abertos todos os dias e publicamos fotografias bonitas no instagram e vamos mandar bocas para o twitter e achamos que está tudo bem. Distraímo-nos e quando damos por nós foi-se a habitação, a saúde, a educação, a paz, não tarda nada está a ir-se também o pão e todos os outros direitos que julgávamos tão seguros como o da opinião e da expressão. 

A liberdade é frágil.

É por isso que temos de permanecer atentos e interventivos. A revolução fazêmo-la nós, todos os dias. Não são precisos tanques nem metralhadoras. As armas são a nossa consciência, as nossas palavras e os nossos actos. Basta de sermos amorfos. Lembram-se do que aconteceu à nêspera

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No largo acompanham-me neste processo revolucionário em curso:

publicado às 19:26

20
Jun25

Caramelo

Quando eu era pequena, Espanha era o Rosal de La Frontera, uma terra que fica do outro lado da fronteira de Vila Verde de Ficalho, a uma hora e meia da minha terra. Nunca lá fui, mas de vez em quando alguém ia a Espanha fazer compras e voltava com embalagens enormes de gel de banho e detergentes para a casa. Isto foi antes da União Europeia, claro, ainda havia fronteiras e ir a Espanha, ainda que fosse só ali ao lado e que não fosse preciso passaporte, era uma aventura. Nesses dias, ficava à espera que o carro da dona Fátinha estacionasse à nossa porta, em pulgas para saber que coisas maravilhosas a minha avó teria comprado. Vinha o porta-bagagens cheio. De lá me trouxeram bonecas várias, tabletes gigantes de chocolates com avelãs, pacotes de rebuçados. Lembro-me particularmente de uns rebuçados muito grandes, de caramelo e pinhão, que quase não cabiam na boca e se pegavam ao dentes, dificílimos de comer. Não se vendiam em mais lado nenhum. Nesses tempos, para mim, ir a Espanha era sinónimo de ir comprar caramelos. Ainda hoje, se penso em caramelos é este o sabor que me vem à boca.

Não garanto que fossem desta marca, mas eram mais ou menos assim:

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Porque é sexta-feira, é dia de largo. Eu tenho andado um pouco desleixada, mas esta semana aqui estou, a roer caramelos com estas companheiras:

publicado às 09:32

08
Jun25

(sem) Terra

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1
Fugi da minha terra assim que pude. Fugi sem olhar para trás. Estava a sufocar ali. Lembro-me que a partir de determinada altura deixei sequer de tentar discutir com os meus pais, limitava-me a contar os dias que faltavam para sair dali, para poder fazer o que me apetecesse, sem me sentir olhada e controlada por toda a gente, sem os dedos apontadores, sem recriminações moralistas. Fugi da minha terra no Alentejo para deixar de ser a filha do senhor professor e poder ser, finalmente, eu. Mesmo que, vai-se a ver, afinal eu não fosse muito diferente em Lisboa do que era ali. Mas isso era irrelevante. A verdadeira mudança aconteceu dentro de mim, na liberdade que tinha para escolher e para ser o que eu quisesse.

2
Não gosto assim tanto da minha terra, não a acho particularmente bonita, não deixei lá grandes amigos, não sinto saudades de nada. Não tenho vontade de voltar para lá. Gostaria muito de ter uma casa no campo, mas não ali. Durante a faculdade, quando os meus colegas iam passar o fim-de-semana à terra, eu dizia que ia a casa. Não gostava da minha terra, mas gostava da minha casa. Depois, quando os miúdos eram pequenos e passávamos grandes temporadas no Alentejo, foi como se fizesse as tréguas com aquela terra. Mas foi sol de pouca dura. Na verdade, não era a terra, era outra vez a casa. A casa dos avós. A casa da tia. Ainda hoje, quando lá vou, ando pouco nas ruas, só fico nestas casas que, não o sendo, são também a minha casa.

3
Não gosto assim tanto de Lisboa, não a acho particularmente bonita, nem limpa, nem agradável. Pelo contrário, cada vez gosto menos. Sinto-me desconfortável na maior parte dos sítios. Há demasiadas pessoas, demasiado trânsito, demasiado lixo, demasiada degradação. De Lisboa gosto sobretudo das pessoas e das oportunidades. As pessoas que me aquecem a alma. As oportunidades para trabalhar e para fazer coisas que gosto de fazer. Moro em Lisboa há mais anos do que aqueles que morei na minha terra, nunca morei noutro sítio, nem sequer temporariamente. E no entanto não adoro morar em Lisboa. Tenho aqui a minha casa, mas Lisboa não é a minha terra.

4
Há pessoas que me perguntam de onde sou mas o que querem saber é onde moro. Ainda assim, não consigo evitá-lo, respondo sempre que sou do Alentejo. Aconteça o que acontecer, é dali que sou. Sou daquela paisagem, daquele sotaque, daquelas vilas brancas, daquela determinada maneira de ser e de viver, que é tão diferente do Norte. Sinto-me em casa no cante alentejano, nas açordas e nas migas, no calor abrasador, na frestas das janelas abertas para deixar entrar o fresco do fim do dia. Sinto-me em casa naquelas terras áridas, nas ruas vazias, no silêncio, naquele sentimento de abandono. 

5
Acontece-me frequentemente. Se o meu pai não atender o telefomóvel, procuro na lista onde diz "casa" e ligo. Só me apercebo do erro quando ouço a voz de algum dos meus filhos do outro lado. Claro que a "casa" da lista telefónica é a minha casa, em Lisboa, e não a casa dos meus pais, no Alentejo, cujo número está devidamente guardado como "casa pais". Mas, algures no meu subconsciente, a minha casa continua a ser ali, na casa dos meus pais, ainda que, na verdade (e isto é o mais impressionante), eu nunca tenha vivido "naquela" que é agora a casa do meu pai, mas noutra, na mesma rua. Esta minha casa-terra não existe. É um lugar puramente afectivo. 

*

Esta semana, no largo, a proposta era escrever sobre "terra". É um conceito estranho para mim. Ainda assim, dei o meu melhor. Na foto lá em cima sou eu. A foto foi tirada pelo meu pai, claro.

Encontram outras "terras" por aqui:

publicado às 10:54

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São mulheres com um sotaque (lindo) do Alentejo. Vejo ali traços das minhas avós e bocados das suas vidas, e só isso já seria suficiente para me comover. São mulheres que nos contam como era a sua vida antes do 25 e Abril de 1974. Umas nunca foram à escola, outras estudaram até à terceira ou quarta classe, começaram a trabalhar com 11, 12, 15 anos, no campo - na apanha da azeitona, na monda, na ceifa - ou então a servir em casa de alguém. Eram crianças ainda e já tomavam conta dos irmãos mais pequenos ou dos filhos das senhoras, faziam a lida da casa, cozinhavam para a família. Casaram virgens e sem saber nada sobre sexo. Serviram os maridos como serviram os patrões: com respeito e obediência. Foram criadas em suas próprias casas, sem pagamento nem reconhecimento. Poucas vezes se questionaram se eram felizes, se poderia ser diferente, se mereciam melhor. Resignaram-se. 

Os vídeos do projecto Antigamente é que era bom estão na página de instagram aifi.lhas e são ao mesmo tempo tristes e belos, mas são, sobretudo, um alerta para que não esqueçamos como era e para não acreditarmos em teorias revisionistas. Muita coisa mudou nestes 51 anos e muita coisa mudou para melhor. Sobretudo para as mulheres.

[Existe um outro projecto muito bonito, o podcast Memória Futura, da Laura Falésia, em que ela entrevista mulheres mais velhas, cada uma com uma história incrível. Fica a dica.]

*

Hoje é dia do trabalhador. E da trabalhadora. A foto lá em cima foi tirada DAQUI. Aproveito para aconselhar que procurem as fotografias que a Maria Lamas tirou às mulheres do nosso país e para lembrar o que escrevi num dia particularmente irritada.  

*

Queria aproveitar também para falar do meu trabalho, mas, precisamente, estes têm sido dias muito exigentes, e não estou a conseguir escrever o que gostaria de escrever. Mas fica prometido. Ser feliz no trabalho que escolhemos (ainda que não sejamos felizes todos os dias nem todas as semanas, ainda que por vezes duvidemos de tudo, ainda que muitos dias sintamos que não vale a pena e só nos apeteça desistir) é um privilégio enorme. 

*

A propósito, já viram o On Falling?

*

No nosso largo só se trabalha por gosto:

publicado às 19:23

04
Abr25

Planta

Os meus colegas mais novos acham que eu sou uma pessoa estranha porque tenho sempre papel e caneta. Quando conversamos e lhes conto que quando comecei a trabalhar não tinha internet, olham-me como se eu fosse um bicho raro. Como é que sabiam o que estava a acontecer?, perguntam-me. Na maior parte das vezes, se não fosse uma coisa mesmo muito importante, não sabíamos. Só mais tarde. Horas mais tarde, dias mais tarde. Mas para nós era normal. Eles não entendem. Tenho que lembrá-los que cresci sem telemóvel. Mais ainda: a minha primeira televisão era a preto e branco e só tinha um canal. E, depois, já era a cores mas só tinha dois canais. Não tinha comando. Tínhamos que levantar-nos do sofá para mudar de canal. Ah ah ah ah ah ah. Sou uma pessoa que venho de um tempo distante, para eles é como se fosse da pré-história. É impossível explicar-lhes como era viver num mundo onde não se podia fazer pausa nem voltar atrás na box para ver o que perdemos. Onde não controlávamos o que víamos, éramos meros receptores. As notícias às 20:00, meia hora depois, a novela brasileira. Os desenhos-animados logo de manhã ou à hora do lanche. A teleculinária antes do almoço. Víamos muita coisa que até não nos interessava assim tanto, mas era o que estava a dar. Ao fim de semana havia os documentários dos animais, o basquetebol da NBA, a fórmula 1. Os programas do Júlio Isidro. O Clube Amigos Disney. Os filmes nas matinés. As séries de ficção científica. E claro que víamos todos os reclames (há quanto tempo não dizia esta palavra?). Naquele tempo, a pasta medicinal Couto andava na boca de toda a gente. Escrevíamos com Bic laranja para escrita fina e Bic Cristal para escrita normal. No natal vinha o coelhinho do chocolate Regina e as Bombokas - “só há uma, é para mim!”. No verão era um Cornetto para mim, um Cornetto para ti, no inverno bebíamos Brasa, a bebida que aquece o coração. Dizíamos bom dia com Mokambo e íamos dormir com o Vitinho. Tenho a cabeça cheia de frases dos anúncios. Posso não me lembrar do que preciso comprar no supermercado, mas, bastam pequenas coisas para, do nada, desatar a cantar, sem me enganar, os jingles da minha infância. Como “É Boca Doce é bom, é bom, é, diz o avô e diz o bebééééé” Ou “Um Bongo, um Bongo, o bom sabor da selva, em cada pacotinho uma festa de oito frutos”. Ou “Aquela máquina!”. Ou “Pa-pa a pa-pa, pa-pa a pa-pa, Cérelac”.

Por isso, quanto a vocês não sei, mas a mim se me falam em planta, só consigo pensar na margarina. Nunca - nunca! - comi pão com Planta, mas isso não fará de mim menos “lambona”.

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Outras plantas que crescem neste largo:

publicado às 10:19

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Quando olho para trás e procuro os momentos-chaves, os momentos transformadores na minha vida, penso sempre na vinda para Lisboa e para a faculdade, depois a entrada no jornalismo, depois os filhos, depois o divórcio e, finalmente, a pandemia. Há cinco anos ficámos em casa. Soube logo que ia ser uma experiência marcante, mas não poderia imaginar quanto. Aconteceu tanta coisa. Andámos dois anos às voltas com as máscaras e o álcool-gel. Foi há tão pouco tempo e, no entanto, parece que foi noutra vida.

publicado às 15:51

28
Fev25

Carimbo

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A primeira foi uma borboleta. Já sei que é uma piroseira, mas eu sou um bocadinho pirosa, por isso não me aborreçam. Hoje faria diferente, faria uma borboleta à mesma, mas de outra maneira, mais pequena, mais esvoaçante. Mas hoje sou outra pessoa e aquela borboleta, desenhada sem grande graça, é daquela pessoa que se sentiu a afundar num dia de maio e teve que se reinventar com o que tinha à mão. As pessoas complicam muito esta coisa das tatuagens. Porque “fica para a vida toda, tens de pensar bem”, disseram-me. Ora, ora. Os amores também eram para a vida toda e depois afinal não foram, mas mesmo quando terminam deixam-nos sempre marcas. É isso viver. Acumular marcas no corpo, quer sejam visíveis ou não. Rugas, cicatrizes, sinais, tatuagens, culpas, amores, desilusões, memórias, felicidades. Faz tudo parte. Não dá nunca para apagar aquilo que vivemos, por muito que queiramos, por mais que se lave e se esfregue o corpo com força e com raiva como a Fernanda Torres no filme Ainda Estou Aqui. O meu corpo conta a minha história. Cada carimbo que faço na pele é um capítulo dessa história. A borboleta do divórcio. Os corações que são os meus filhos (ai, que pirosa, outra vez). A liberdade dos 50 (meus e da Revolução), porque ser livre, ser verdadeiramente livre, é das coisas mais preciosas e mais difíceis, e é aquilo que procuro todos dias (falhando sempre, mas cada vez melhor, como dizia o Beckett). Quero fazer mais uma. Já decidi o que será, mas ainda não quando será. A seu tempo. Com alegria.

Quando for velha e enrugada, por entre as peles flácidas e as estrias, as minhas tatuagens dirão de mim tudo o que há para dizer, mesmo que eu já não o consiga lembrar.

Tatuagem, Chico Buarque

*

As minhas companheiras do largo também hão de andar a carimbar por aí:

publicado às 09:54


Mais sobre mim

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