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10
Mai20

Oito anos

Bernardo Sasseti (1970-2012)
Noite (Alice)

publicado às 13:57

Antes de morrer, e sabendo bem o que a esperava, a médica e cientista Maria de Sousa (1939-2020) escreveu um poema em inglês. O também poeta João Luís Barreto Guimarães fez uma tradução, mas eu prefiro a versão original (porque odeio o pronome vós e todas as suas conjugações verbais, é tão mais bonita a simplicidade do you). Um poema sobre a morte e sobre todas as pequenas-grandes coisas que levamos desta vida (e que deixamos nesta vida). Os risos. Os momentos. As nossas pessoas. Caramba. Tão triste e tão belo.

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publicado às 11:16

30
Dez19

Adeus, Hope

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Hoje despedimo-nos da Hope. Tinha onze anos e estava muito doente. Vamos todos ter saudades dela, em especial o Pedro.

(é o que dá fazer balanços antes do tempo, afinal, perdemos alguém este ano...)

publicado às 19:09

05
Ago19

Aquela pergunta

O Pedro já estava deitado, o António estava na casa-de-banho, eu estava a apagar a luz para dormir. De repente, o Pedro entra no meu quarto a chorar e deita-se ao meu lado. O que foi, filhote? Nada, nada. Estás a chorar porquê? Não sei. Não sabes ou não queres dizer? Não quero dizer. E nisto o António aparece e fica a olhar para nós, abraçados na cama, e pergunta: o que foi? Eu também repito: o que foi? E o Pedro lá balbucia: o que é que acontece depois de morrermos? E ficamos uns momentos todos calados. Só o Pedro a chorar. Eu agarro-o com mais força: não sei, filho. O António atira-se para cima de nós e diz, com aquele ar desafiante dos adolescentes: não acontece nada, morremos e pronto. E o Pedro chora ainda mais. E eu só consigo abraçá-lo. Não sabemos, ninguém sabe, mas podemos acreditar que depois de morrermos aqui na Terra vamos viver para outro lado qualquer, há muitas pessoas que acreditam nisso, é possível que seja assim. Ele não parece muito convencido. Tenta não pensar nisso, sim? (não é um conselho muito inteligente, mas foi o melhor que me ocorreu). Deixamo-nos estar ali mais um bocadinho.

O meu filho pequenino.

Percebo-o tão bem.

publicado às 23:08

Morreu João Gilberto. E não há muito mais a dizer. 

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Está tudo aqui .

publicado às 23:22

No meio de tanta tristeza, tem sido muito bonito ler e ouvir todos os testemunhos sobre o Zé Pedro. A sua alegria, a generosidade, a disponibilidade para os outros, o entusiamo com músicos e projectos novos, a falta de peneiras, a amizade. Não há muitos músicos (não haverá muita gente) de quem se possa dizer o mesmo. Os que os conheceram  menos bem (como eu) guardarão a música. E aquele sorriso de puto reguila.

Volto aqui. Contentores é a primeira canção que me lembro de ouvir dos Xutos. Passaram-se os anos e se ouvir os Contentores agora é certo e sabido que não consigo não cantar. Eu estive neste concerto no estádio do Restelo, em 2009, e por esta altura estava certamente a gritar e a pular no meio de uma multidão em êxtase. "A carga pronta e metida nos contentores, adeus, ò meus amores que me vou, para outro mundo." 

publicado às 09:54

A mim bastava-me ele ter imaginado e editado o DNA  - que li com tanto prazer durante dez anos; onde conheci algumas das pessoas mais importantes na minha carreira e fiz amigos para a vida; onde aprendi, entre outras coisas, que não há impossíveis e que quando um trabalho é bom tem sempre interesse para o leitor e se não for bom não se publica (reescrever, emendar, completar até ficar como deve ser); o DNA onde, ainda miúda, publiquei alguns dos trabalhos que mais me orgulho de ter feito nestes vinte anos (e só isso diz tanto).

A mim bastava-me ele ter imaginado e editado o DNA mas a verdade é que o Pedro Rolo Duarte fez muito mais do que isso, como conto neste artigo e também neste, escritos num dia triste, contendo as lágrimas, porque o trabalho de um jornalista também é isto.

Hoje era o dia para ir dar abraços apertados a algumas pessoas que o conheceram mesmo bem mas o trabalho pôs-me num comboio com destino ao Porto (mais uma vez, ser jornalista também é isto). Vou lendo as palavras da Sónia e pensando em todos os sonhos que tínhamos em 1997 e em como não faz sentido morrer com 53 anos e tanta coisa ainda por fazer e tanta vida por viver.

É uma merda, é o que é. 

publicado às 10:18

18
Mai17

Black Hole Sun

Eu não sou do grunge. No tempo em que toda a gente ouvia a música de Seattle eu ouvia os Beatles e o Elvis Preley e os Beach Boys e mesmo quando comecei a ouvir outras músicas, mais do meu tempo, do Chico Buarque aos Pixies, do Tom Waits aos The Cure, do Nick Cave aos Depeche Mode, do Prince ao Caetano Veloso, nunca parei muito naquele rock mais pesado. Eu do grunge gostava das coisas mais calminhas, das baladas, dos unplugged, dos cabelos compridos (ah, dos cabelos compridos eu até gostava, e o Cornell e o Eddie Veder eram uns belos rapazes, pois eram) e das camisas de xadrez. Até posso admitir que gostava de umas quantas músicas dos Nirvana ou dos Soundgarden ou dos Pearl Jam, mas de uma maneira geral não, eu não sou do grunge, tal como não sou do metal nem do punk nem do rock. Dito isto, queria ter tantas notas de 20 euros quantas as vezes que ouvi e cantei nestes mais de vinte anos este Black Hole Sun.

Não faço ideia do que se passou na vida e na cabeça do Chris Cornell para, aos 52 anos, se enforcar na casa de banho de um hotel em Detroit, a meio de uma digressão, mas tenho imensa pena que alguém termine a sua vida assim e não consiga encontrar forças para continuar. Imagino que seja necessário uma pessoa estar mesmo a sentir-se num poço sem fundo.

publicado às 23:34

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Estávamos na praia, no sábado à tarde, quando soube da morte de Mário Soares. Tentei explicar aos meus putos quem tinha sido este homem. A mãe fez a campanha dele quando se candidatou a presidente da república, disse-lhes. O que é fazer campanha?, perguntou o António. Ups. Isto está pior do que eu pensava. Senti-me a pior mãe do mundo. Em que momento é que nos afastámos assim da política? Em que momento é que a política passou a ser uma coisa "deles" em vez de ser coisa nossa? Pensar um pouco nisso. Tentar mudar isso. Este será o meu tributo a Mário Soares. 

publicado às 23:34

Em julho de 2015, Arthur, um dos filhos de Nick Cave, morreu ao cair de um penhasco em Brighton. Tinha 15 anos. O músico estava nessa altura a meio do processo de criação de mais um disco, Skeleton Tree. As canções compostas antes só ficaram concluídas depois. Na fase final de produção, Nick Cave permitiu que uma equipa de filmagem dirigida por Andrew Dominik acompanhasse a gravação. O resultado é um filme extraordinário, One More Time With Feeling, onde o músico se mostra como nunca na sua fragilidade e no seu sofrimento, de forma desarmante, a tentar dar algum sentido à sua música, às suas palavras, à sua vida. É isso que vemos naquele ecrã, quase sempre a preto e branco, um pai a fazer o luto do seu filho da melhor maneira que sabe: a pôr mão no ombro do filho que lhe resta, Earl (eram gémeos), a sorrir para a mulher, Susan, a entregar-se ao trabalho e a criar mais um disco com os companheiros de sempre, os Bad Seeds, e pelo meio a tentar construir frases sabendo à partida que tudo o que disser sobre o assunto é bullshit e só pode ser bullshit. Não há narrativa possível.

 

Mas não é só bullshit, claro. Reconhecemos aquela culpa, o desespero, as perguntas por responder, a descrença, o sofrimento. A música que ganha novos sentidos. As imagens desfocadas. Será da câmara ou serão as nossas lágrimas? A dor que é dele e que é de todos nós. A mais temível de todas as dores.

 

Há um momento em que Cave fala de como o tempo é elástico. Houve aquele acontecimento traumatizante, onde o tempo parou, e depois a vida continuou e todos eles, mal ou bem, continuaram a viver. E é como se estivessem a esticar o elástico. Mais cedo ou mais tarde, são forçados a voltar ao ponto de partida. Àquele momento terrível. Por mais que façam, não podem apagar aquele acontecimento. As pessoas dizem-lhe "ele continua a viver no nosso coração" e Cave diz que sim, ele continua no seu coração, mas "já não vive". Essa é a dura verdade. "Isto aconteceu-nos a nós, mas aconteceu-lhe também a ele." Há uma vida que foi interrompida. Que ficou por viver.

 

Um trauma destes muda-nos de maneira profunda. Tornamo-nos outros, diz ele, que não se reconhece no espelho, que não consegue prever as suas próprias reacções nem os seus sentimentos. Não sabe muito bem quem é agora. O novo Nick Cave deixa que o filmem a mudar de camisa, com a voz embargada, a dar a mão à mulher por baixo da mesa, a dizer que não tem a certeza se quer ser filmado. "O que é que eu estou a fazer?"

 

Ele é outro. Assim como Susan e Earl também serão outros. E, no entanto, ali estão eles: "Decidimos ser felizes. É o nosso desafio." 

 

Mesmo que, no final, só reste um vazio.

E, nós, depois disto, dizendo umas piadas para tornar mais suportável o momento em que nos encaramos todos à medida que as luzes se acendem, saímos do cinema, enfrentamos o frio, corremos para abraçar os nossos. E ouvimos as músicas de Skeleton Tree como se fosse a primeira vez. One more time with feeling.

publicado às 15:56


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