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Aquilo que vemos depende muito mais do que somos do que do que está efectivamente à nossa frente. Em Mare of Easttown, a fabulosa série da HBO protagonizada por Kate Winslet, eu vi mães, mulheres mas sobretudo mulheres-mães. A começar por Mare, a mãe que não conseguiu salvar o seu filho; passando por Helen, que é uma avó a recuperar o tempo perdido; por Carrie, a mãe que não o consegue ser; por Lori, a mãe que quer proteger o seu filho; até mesmo por Dawn, a mãe que procura desesperadamente a sua filha. E todas elas corroídas pelo sentimento de culpa, aquele sentimento de culpa que todas as mães conhecem tão bem, como se fosse sempre nossa responsabilidade, como se estivesse sempre ao nosso alcance garantir a felicidade dos nossos filhos, como se os erros deles fossem sempre, e antes de mais, erros nossos.

Depois há o resto. Mare of Easttown tem muitas camadas. Esta é também uma história sobre homens - e sobre pais. Sobre filhos e irmãos e os laços de solidariedade que existem nas famílias. Sobre jovens à procura de um caminho. Sobre a amizade. Sobre o certo e o errado. Sobre admitirmos os nossos erros. Sobre julgar os outros. Sobre aquilo que não controlamos. Mas, para mim, é sobretudo isto. Mães. Isto e uma mulher de quarenta e tal anos, sozinha, triste, cheia de falhas mas essencialmente comprometida com uma ideia de bem. 

Devorei os sete episódios de Mare of Easttown num dia de folga, o último dia de folga antes de mais uma empreitada de trabalho. Gostava de ter tempo para, daqui a uns tempos, voltar a vê-la, reparar nos pormenores, ver o que desta vez me passou ao lado. Sim, gostei assim tanto.

PS - E, já agora, aquele era mesmo o Guy Pearce com 53 anos? 

publicado às 08:08

Descobri esta semana (eu sei, sou um bocadinho ignorante), por causa de umas pesquisas que andava a fazer, que a palavra assédio é usada em contexto militar. 

Assédio: "acção que consiste em cercar militarmente uma posição inimiga, geralmente durante um período prolongado ou que se calcula dever durar muito. Sinónimo de cerco." (Priberam); "conjunto de operações que visam a conquista de uma posição inimiga" (Infopedia).

Fora do contexto militar, a palavra assédio tem mais ou menos o mesmo significado. É um cerco. Uma tentativa de domínio.

Falemos, então, do assunto do momento: o assédio sexual. Outra vez. As vezes que forem necessárias. E falemos, finalmente, do assédio sexual em Portugal.

Há mulheres que cometem assédio mas, convenhamos, na maioria dos casos o assédio é realizado por homens. Existe aqui uma forte componente cultural - não há nada na genética dos homens que os leve a ser javardos, os homens não sofrem de desejos incontroláveis nem têm ímpetos inatos que os levam a apalpar uma mulher na rua. Mas existe um caldo cultural no qual estes comportamentos têm sido apurados em lume brando ao longo de séculos. E que, como é óbvio, leva algum tempo a destruir. Estamos nesse caminho. Através da educação que damos aos rapazes e às raparigas. Através da legislação. Através dos debates que todos os dias temos no espaço público e que contribuem para mudar a forma como estes assuntos são encarados. Já conseguimos mudar muita coisa mas ainda há muito por mudar. 

E é isso que estamos a tentar a fazer quando falamos publicamente sobre o assunto.

Há diferentes comportamentos masculinos que estão errados e que demonstram uma profunda falta de respeito pelas mulheres. Mas estando todos errados não são todos iguais.

Há as situações de rua (que também podem acontecer no local de trabalho) - os piropos, os encostos no metro ou no elevador, os gajos que não param de olhar para o nosso corpo, o maluco sentado no canto do autocarro a mexer na pila, os colegas que comentam a tua aparência (são elogios, quem é não gosta? lol). É tudo horrível. As mulheres aprendem cedo a proteger-se destas situações. Mudamos para o outro lado do passeio. Baixamos os olhos. Encolhemos os ombros para esconder o decote. Ignoramos as javardices que ouvimos. Mulher séria não tem ouvidos, foi o que nos disseram desde pequeninas. Mas não deveria ser assim. Não deveríamos ter que passar por isto. Nenhuma mulher deveria sujeitar-se a ser tratada desta forma, nem deveria sentir-se desconfortável ou insegura apenas pelo facto de ter um corpo. Muita gente acha que não, mas isto já é assédio.

Existem outras situações de assédio que são já um passo em frente, que é quando os homens tentam interagir com as mulheres e, mesmo quando elas recusam os seus avanços, eles insistem. Isto é comum acontecer na noite, em bares ou discotecas. Mas pode acontecer noutras situações sociais, em festas de amigos ou mesmo entre colegas de trabalho. Há homens que têm muita dificuldade em aceitar um não. Que insistem em chegar-se mais perto, em colocar uma mão no nosso braço, em fazer sorrisos e olhinhos e insinuações mesmo quando já demos a entender que não estamos interessadas. Porque, entendamo-nos: uma coisa é um homem estar interessado numa mulher, demonstrar de alguma forma esse interesse e ser retribuído, ela interage com ele e a coisa evolui como ambos querem - isso é aquele processo de sedução que se quer saudável e divertido; outra coisa é um homem estar interessado numa mulher, ela demonstrar que não está interessada e ele insistir, tomando atitudes cada vez mais intrusivas. Uma coisa não se confunde com a outra, acreditem.

Estas duas situações de assédio são não só bastante comuns como são geralmente desvalorizadas pelos homens que, quando confrontados, raramente admitem que estão a fazer alguma coisa errada. Afinal, são só homens a ser homens, não é? Ora agora, já não se pode dizer nada? 

E, por fim, e num patamar ainda mais grave, diria eu, existe o assédio que é realizado por homens que estão numa posição de poder em relação à mulher. Os professores em relação às alunas. Os chefes em relação a subalternas. Os ministros, diretores, presidentes, senhores doutores (e etc.) em relação a qualquer mulher que, por algum motivo, sinta que se não corresponder pode ser prejudicada - no seu emprego, na sua vida. Sou uma sortuda, nunca passei por uma situação destas. Mas sei que, nestes casos, é triste dizê-lo, as mulheres acabam algumas vezes por sujeitar-se a fazerem coisas que não querem fazer. Por medo. Quase sempre por medo de represálias. Ou porque não têm, naquele momento, as ferramentas necessárias para saberem recusar, ou porque são muito novas ou muito frágeis ou porque se sentem encurraladas ou porque sentem que não têm opção, mas sempre por terem medo. Ou, então, recusam delicadamente os avanços e enfrentam sozinhas as consequências. E continuam a sentir medo.

Nada disto é aceitável.

E, sim, é bom ver que também em Portugal as vítimas estão a perder o medo de denunciar estas situações. Bravo, corajosas. 

Mas também seria bom que todos nós tomássemos consciência da quantidade de vezes em que vimos estas coisas acontecer à nossa frente e não fizemos nada. As vezes em que não mandámos calar aquele colega inconveniente. As vezes em que avisámos alguém: "tem cuidado com o fulano" em vez de confrontarmos directamente o fulano. As vezes em que falámos entre nós e o máximo que conseguimos foi insultar o gajo pelas costas e garantir que íamos estar sempre ali para as nossas amigas.

As vezes em que pessoas com poder em empresas e instituições foram complacentes com estas situações, riram-se dos comentários sobre as estagiárias, olharam para o outro lado para não verem, encolheram os ombros e disseram "ele é assim" em vez de tomarem uma posição: admoestando os abusadores, abrindo processos disciplinares e deixando bem claro que tais comportamentos não seriam mais tolerados.

Nem todos os homens são assim, felizmente. Mas, infelizmente, basta que alguns o sejam para causar um enorme sofrimento nas suas vítimas.

A quantidades de testemunhos que li nestas últimas semanas - nas redes sociais e na imprensa - denunciando casos de assédio, e o baixo nível dos comentários, críticas e insultos lançados a essas mulheres mostram bem o quanto ainda nos falta andar.  

Vamos?

publicado às 01:04

É muito cansativo ser mulher no Dia da Mulher. No supermercado, havia ontem uma bancada especial com flores. No Facebook, amigos falavam do quanto as mulheres são especiais porque têm o poder de dar vida e mandavam mensagens desejando um "feliz dia". Na comunicação social, repetiram-se as entrevistas às mulheres de sucesso. A sério. É muito cansativo ser mulher no Dia da Mulher, o que nos mostra o quanto este dia ainda é necessário.

Fixemos isto: em 2021 houve uma mulher, diretora de um jornal, que se deu ao luxo de escrever nas suas redes sociais que "das fracas não rezará a história", como se só as CEO deste mundo fossem "mulheres com M maiúsculo". Infelizmente, não é a única a pensar assim.

Podíamos comentar como é fácil ser forte quando se é herdeira de uma empresa e se tem uma Marilene lá em casa a fazer o jantar para toda a família, mas não vamos entrar por aí, não é? O problema é muito mais grave do que isso. É que esta ideia de mulheres fortes e fracas remete para uma hierarquização das pessoas em função de um determinado conceito de estatuto social. E isso é algo tão inacreditavelmente preconceituoso.

Em nome das "fraquinhas" deste mundo, quero homenagear todas as mulheres - mesmo aquelas anónimas que não terão nunca direito a um rodapé nos livros de história - e dizer-lhes que independentemente de serem criadas ou gestoras de empresas, de serem ricas ou pobres, gordas ou magras, feias ou bonitas, de usarem chinelos ou saltos altos, independentemente do apelido, da cor da pele, da quantidade de pêlos que têm no corpo, independentemente de terem ou não filhos e dos motivos para tal, independentemente de terem nascido em Portugal ou na Índia, de morarem na avenida de Roma ou na Cova da Moura, independentemente das origens e das opções de vida, independentemente de se manifestarem na rua pelos vossos direitos ou de sofrerem em silêncio por todas as violências de que são alvo, vocês, mulheres, todas as mulheres, merecem ter todo o respeito, toda a liberdade e todos os direitos que os homens têm.  E isto é só o começo da conversa.

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publicado às 13:46

08
Jan21

"Fofinhas"

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Vi, finalmente, nas férias de natal, o polémico filme Mignonnes (Cuties, na versão inglesa), da francesa Maïmouna Doucouré. A realizadora, filha de senegaleses, cresceu dividida entre a cultura muçulmana da sua família e a cultura ocidental da cidade de Paris, e foi buscar muita dessa experiência para fazer a sua primeira longa-metragem. O filme acompanha Amy, uma rapariga franco-senegalesa que, além de viver neste caldo de culturas, tem 11 anos, ou seja, está a deixar de ser criança e, como todos os adolescentes, tem na cabeça um turbilhão de dúvidas, de insatisfações e de vontades. Faz parte do crescimento.

Tendo filhos adolescentes, consigo identificar perfeitamente alguns dos problemas por que os miúdos passam nestas idades, seja pela pressão de pertencer a um grupo e de se identificarem com os outros, seja pela dependência das tecnologias e pelo papel exagerado que as redes sociais têm na sua visão do mundo. Mas claro que os rapazes sofrem menos pressão em relação à sua imagem. A hiperssexualização das raparigas na adolescência, visível no modo como se vestem e nas fotografias que publicam, é um dos aspectos que é focado no filme. Elas têm muita pressa de crescer mas continuam a dormir com peluches e a perder a cabeça por um saco de gomas.

Cuties é bastante realista e isso é algo que me agrada. Percebe-se que Maïmouna Doucouré conhecia a realidade que estava a filmar e escolheu bem as atrizes, sobretudo a protagonista Fathia Youssouf e a sua melhor amiga, Médina El Aidi-Azouni. As cenas do quotidiano das raparigas, em casa e na rua, são as mais bem conseguidas do filme. No entanto, e sem querer ser spoiler, eu achei o final um bocadinho moralista.

Sobre a polémica: é preciso lembrar que ela foi provocada acima de tudo pelo modo como o filme foi promovido pela Netflix, que usou no cartaz uma imagem que explorava a sexualização do corpo das miúdas (precisamente um dos aspectos que o filme pretende criticar) e é uma pena que, como sempre, tantas pessoas embarquem em críticas e petições sem primeiro ver o filme e construir a sua própria opinião.

Podem ler AQUI algumas das explicações que a realizadora deu nessa altura.

Vendo o filme, não me parece que haja motivo a tamanhas indignações, embora haja motivo para grandes reflexões. Mesmo. Eu confesso que apesar de ter gostado senti algum desconforto. Primeiro, não é despropositado questionar se, ao reproduzir a estética dos videoclipes no modo como filma as cenas de dança das raparigas, Doucouré não estará a perpetuar o tal male gaze que tanto nos incomoda. Há, de facto, demasiados grandes planos de rabos e de boquinhas. E também é importante lembrar que as atrizes que ali vemos a fazer twerking e a imitar posições sensuais tinham 12 e 13 anos na altura - sim, sabemos que de uma maneira geral as raparigas dessa idade não são assim tão inocentes, mas isso não faz com que seja legítimo colocá-las nessa situação (são, para todos os efeitos, crianças e por isso não terão a capacidade de perceber o alcance e o significado que aquelas imagens podem ter, logo, é suposto serem protegidas - em vez de expostas - pelos adultos). 

publicado às 09:56

"O nojo da amamentação, essa função animal. E, mais tarde, os vapores mornos e adocicados das papas. Por mais que me lavasse, aquele mau cheiro a mãe não me saía do corpo. Mário às vezes colava-se a mim, abraçava-me e possuía-me ensonada, também ele cansado do trabalho, sem emoção. Fazia-o, atirando-se à minha carne quase ausente, que sabia a leite, a bolachas, a farinhas, cheio de um desespero pessoal que aflorava o meu sem o reconhecer. Eu era o corpo de um incesto, pensava atordoada pelo cheiro do vomitado de Gianni, era a violação da mãe e não a posse de uma amante."

de Os Dias do Abandono em Crónicas do Mal de Amor de Elena Ferrante 

A Céu pega neste excerto para perguntar: poderia um homem ter escrito isto? A resposta parece óbvia. Mas deixem-me devolver a pergunta, em forma de provocação: poderia uma mulher que nunca teve filhos ter escrito isto? E, mesmo das que tiveram filhos, quantas sentiram a experiência de forma a poder escrever isto?

O que eu quero mesmo perguntar é: o que é isso de uma "escrita feminina"?

Não tenho uma resposta. Tenho algumas ideias sobre o assunto e muitas dúvidas. É um facto que tenho lido mais livros de mulheres e sobre mulheres. Mas resisto muito a classificações simplistas. Parece-me cada vez mais problemático arrumar autores (ou pessoas) em gavetas. Mas ainda não sei bem que outro tipo de arrumação lhes dar.

Ia aconselhar-vos o clube do livro da Sara Barros Leitão que ao longo de um ano vai discutir livros feministas mas, infelizmente, as inscrições para a primeira sessão esgotaram-se em poucas horas. Podemos sempre ir lendo os livros e acompanhando a discussão online, é melhor do que nada.

E vou também tentar acompanhar o curso de Introdução à História do Feminismo, que começa este sábado.

Talvez lá mais para o fim do ano já consiga alinhavar umas frases sobre o assunto.

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Louisa May Alcott (1832-1888), autora de Mulherzinhas

publicado às 11:23

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Há um momento em Cock cock... Who's there? em que vemos Samira Elagoz com a mãe e a avó a falarem sobre os abusos que sofreram dos homens: a avó há muito tempo por parte de um estranho, a neta há pouco tempo pelo seu namorado. É tudo tão comovente. O modo como falam e aquilo que não conseguem verbalizar. A conversa termina com um abraço de grupo, Samira desata a chorar incontrolavelmente, a mãe abraça-a com força como as mães costumam fazer quando querem que o seu amor proteja os filhos de todos os males do mundo, a cadela ladra, a avó olha-as imensamente triste sem saber o que dizer.

A verdade é que as mulheres sempre foram mal tratadas e abusadas ao longo de toda a história, mesmo quando não tinham coragem para falar, mesmo quando se encolhiam na vergonha e no medo e fingiam que não tinha acontecido nada. E a triste verdade é que isso acontece ainda hoje, apesar de cada vez mais mulheres terem coragem para denunciar e sentirem necessidade de falar sobre o que lhes aconteceu para que o tema deixe de ser um tabu e possa ser encarado como aquilo que é: um crime. E, no entanto, apesar de muito ter mudado nos últimos anos, vemos este espectáculo e sabemos que ainda muito falta mudar.

Cock cock... Who's there? é uma performance-palestra de Samira Elagoz, artista finlandesa de 31 anos que partiu da sua própria experiência de violação para fazer uma investigação sobre as relações entre homens e mulheres: o que procuram quando se encontram?, como se comportam num primeiro encontro?, qual é a sua noção de abuso? Ao longo de quatro anos, Samira encontrou-se com estranhos que conheceu em plataformas de encontros online. Explicava-lhes que estava a fazer um documentário e filmava esse encontro.

[À margem: Lembrei-me da Raquel André e da sua Colecção de Amantes (vejam aqui: Raquel André.pdf): apesar de as motivações serem distintas, o dispositivo é muito semelhante, assim como a inquietação em torno do que é a intimidade e, por fim, a inevitável mistura entre realidade e representação/ficção.]

À nossa frente, Samira Elagoz mostra-nos os vídeos que fez e conta-nos estes episódios da sua vida, sem qualquer expressão no rosto ou emoção na voz. E faz-nos perguntar. Que narrativas criamos em torno de um acontecimento traumático como uma violação? Como poderemos lidar com esse trauma? De que forma essa experiência pode ser transformada em performance ora avassaladoramente documental e incómoda ora quase uma fábula, pintalgada de humor e de música, contada como quem conta uma história. 

Porque é sobre violação, Cock cock... Who's there? é também sobre o que é ser homem e mulher, sobre os estereótipos que persistem sobre a sexualidade de homens e mulheres, sobre a necessidade de deixar de olhar os corpos das mulheres como meros objectos do desejo dos homens, sobre a necessidade de deixar de culpar as mulheres pelos abusos que sofrem, sobre a necessidade de cada mulher ter controlo sobre a sua vida e o seu corpo - sem medo de sair à noite, sem medo de andar sozinha, sem medo de se encontrar com um desconhecido, sem medo dos homens.  

Se quiserem saber mais sobre Samira Elagoz leiam a entrevista ao Público.

Programado pelo Teatro do Bairro Alto, o espectáculo Cock cock... Who's there? pode ainda ser visto por maiores de 18 anos no domingo e na segunda-feira, às 11.00, no Lux. 

Eu fui hoje de manhã. Deixei os putos a dormir e tirei um tempinho para mim, que tanto preciso. E foi bem bom. Voltei para casa, para o confinamento, com montes de coisas para pensar e esta música:

You don't own me, Lesley Gore

publicado às 17:03

A escritora Elena Ferrante fez uma lista com os seus 40 livros preferidos escritos por mulheres. Tem Chimamanda e Lucia Berlin, tem Marguerite Duras e Clarice Lispector. Li pouquíssimos. Quero todos.

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie;
O Assassino Cego, de Margaret Atwood;
The Enlightenment of the Greengage Tree, de Shokoofeh Azar;
Malina, de Ingeborg Bachmann;
Manual para Mulheres de Limpeza, de Lucia Berlin; 
A Contraluz, de Rachel Cusk;
O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion;
A Filha Devolvida, de Donatella Di Pietrantonio;
Disoriental, de Négar Djavadi;
O Amante, de Marguerite Duras;
Os Anos, de Annie Ernaux; 
Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg;
O Conservador, de Nadine Gordimer;
Destinos e Fúrias, de Lauren Groff; 
Maternidade, de Sheila Heti;
A Pianista, de Elfriede Jelinek; 
Breasts and Eggs, de Mieko Kawakami; 
Intérprete de Enfermidades, de Jhumpa Lahiri; 
O Quinto Filho, de Doris Lessing; 
A Paixão segundo GH, de Clarice Lispector;
Lost Children Archive, de Valeria Luiselli; 
A Ilha de Arturo, de Elsa Morante;
Beloved, de Toni Morrison;
Amada Vida, de Alice Munro;
O Sino, de Iris Murdoch;
Accabadora, de Michela Murgia; 
O Baile, de Irene Nemirovsky; 
Blonde, de Joyce Carol Oates;
The Love Object: Selected Stories, de Edna O’Brien; 
Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, de Flannery O’Connor; 
Evening Descends Upon the Hills: Stories from Naples, de Anna Maria Ortese;
Gilead, de Marylinne Robinson; 
Pessoas Normais, de Sally Rooney;
O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy; 
Dentes Brancos, de Zadie Smith; 
Olive Kitteridge, de Elizabeth Strout;
A Porta, de Magda Szabò; 
Cassandra, de Christa Wolf; 
Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara; 
Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar.

publicado às 09:00

A liberdade é uma luta constante é o título do livro da Angela Davis que ando a ler agora. São entrevistas e pequenos ensaios sobre o feminismo, a democracia, as desigualdades e como combatê-las. Nada de muito profundo, mas bom para nos lembrarmos do muito que ainda nos falta lutar. Às vezes, estamos tão entretidos nas nossas vidinhas que nos esquecemos.

Nem de propósito:

Esta semana tive o privilégio de conversar com uma pessoa muito bonita: a Teresa Coutinho, que é uma mulher corajosa e talentosa.

E, no fim-de-semana, por entre a limpeza da casa (desta vez, incluiu janelas e frigorífico), duas pilhas de roupa para passar (ainda não acabei) e uma incursão ao supermercado, consegui ver o documentário Women, de Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova, que passou na RTP2 (foi na quinta-feira, ainda o apanham na box), com testemunhos de mulheres do mundo inteiro sobre o que é isto de ser mulher. Muito bonito às vezes, muito triste noutras.

E, para além disto tudo, deu para estar com algumas das minhas amigas. Sim, sim, temos que aprender a estar sozinhos e blá blá blá mas nada se compara à felicidade de estar com aqueles de quem gostamos.

E rir.

Rir da vida para que a vida não se fique a rir de nós. 

publicado às 16:46

25
Fev20

Be a lady

Campanha da revista Girls Girls Girls com a atriz Cynthia Nixon (de O Sexo e a Cidade) e palavras escritas em 2017 pela blogger Camille Rainville sobre a dificuldade em ser mulher e cumprir todas as expectativas que têm para nós. Sobre todo o controlo que é exercido sobre o corpo e a vida das mulheres. Sobre a pressão e o escrutínio constantes a que as mulheres estão sujeitas. Sobre o modo como os homens dominam a nossa vontade. E a necessidade absoluta de as mulheres fazerem o que querem fazer sem pensarem no que fica bem ou no que os outros vão dizer. Tenho escrito muito sobre isto por aqui. E nunca é demais.

 

“Be a lady they said. Your skirt is too short. Your shirt is too low. Your pants are too tight. Don’t show so much skin. Don’t show your thighs. Don’t show your breasts. Don’t show your midriff. Don’t show your cleavage. Don’t show your underwear. Don’t show your shoulders. Cover up. Leave something to the imagination. Dress modestly. Don’t be a temptress. Men can’t control themselves. Men have needs. You look frumpy. Loosen up. Show some skin. Look sexy. Look hot. Don’t be so provocative. You’re asking for it. Wear black. Wear heels. You’re too dressed up. You’re too dressed down. Don’t wear those sweatpants; you look like you’ve let yourself go.

Be a lady they said. Don’t be too fat. Don’t be too thin. Don’t be too large. Don’t be too small. Eat up. Slim down. Stop eating so much. Don’t eat too fast. Order a salad. Don’t eat carbs. Skip dessert. You need to lose weight. Fit into that dress. Go on a diet. Watch what you eat. Eat celery. Chew gum. Drink lots of water. You have to fit into those jeans. God, you look like a skeleton. Why don’t you just eat? You look emaciated. You look sick. Eat a burger. Men like women with some meat on their bones. Be small. Be light. Be little. Be petite. Be feminine. Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Be a lady they said. Remove your body hair. Shave your legs. Shave your armpits. Shave your bikini line. Wax your face. Wax your arms. Wax your eyebrows. Get rid of your mustache. Bleach this. Bleach that. Lighten your skin. Tan your skin. Eradicate your scars. Cover your stretch marks. Tighten your abs. Plump your lips. Botox your wrinkles. Lift your face. Tuck your tummy. Thin your thighs. Tone your calves. Perk up your boobs. Look natural. Be yourself. Be genuine. Be confident. You’re trying too hard. You look overdone. Men don’t like girls who try too hard.

Be a lady they said. Wear makeup. Prime your face. Conceal your blemishes. Contour your nose. Highlight your cheekbones. Line your lids. Fill in your brows. Lengthen your lashes. Color your lips. Powder, blush, bronze, highlight. Your hair is too short. Your hair is too long. Your ends are split. Highlight your hair. Your roots are showing. Dye your hair. Not blue, that looks unnatural. You’re going grey. You look so old. Look young. Look youthful. Look ageless. Don’t get old. Women don’t get old. Old is ugly. Men don’t like ugly.

Be a lady they said. Save yourself. Be pure. Be virginal. Don’t talk about sex. Don’t flirt. Don’t be a skank. Don’t be a whore. Don’t sleep around. Don’t lose your dignity. Don’t have sex with too many men. Don’t give yourself away. Men don’t like sluts. Don’t be a prude. Don’t be so up tight. Have a little fun. Smile more. Pleasure men. Be experienced. Be sexual. Be innocent. Be dirty. Be virginal. Be sexy. Be the cool girl. Don’t be like the other girls.

Be a lady they said. Don’t talk to loud. Don’t talk too much. Don’t take up space. Don’t sit like that. Don’t stand like that. Don’t be intimidating. Why are you so miserable? Don’t be a bitch. Don’t be so bossy. Don’t be assertive. Don’t overact. Don’t be so emotional. Don’t cry. Don’t yell. Don’t swear. Be passive. Be obedient. Endure the pain. Be pleasing. Don’t complain. Let him down easy. Boost his ego. Make him fall for you. Men want what they can’t have. Don’t give yourself away. Make him work for it. Men love the chase. Fold his clothes. Cook his dinner. Keep him happy. That’s a woman’s job. You’ll make a good wife some day. Take his last name. You hyphenated your name? Crazy feminist. Give him children. You don’t want children? You will some day. You’ll change your mind.

Be a lady they said. Don’t get raped. Protect yourself. Don’t drink too much. Don’t walk alone. Don’t go out too late. Don’t dress like that. Don’t show too much. Don’t get drunk. Don’t leave your drink. Have a buddy. Walk where it is well lit. Stay in the safe neighborhoods. Tell someone where you’re going. Bring pepper spray. Buy a rape whistle. Hold your keys like a weapon. Take a self-defense course. Check your trunk. Lock your doors. Don’t go out alone. Don’t make eye contact. Don’t bat your eyelashes. Don’t look easy. Don’t attract attention. Don’t work late. Don’t crack dirty jokes. Don’t smile at strangers. Don’t go out at night. Don’t trust anyone. Don’t say yes. Don’t say no.

Just “be a lady” they said.”

publicado às 17:07

Frida Mom é uma marca de produtos de higiene íntima feminina. O seu último anúncio publicitário foi censurado pela ABC e proibido de passar na televisão no intervalo da cerimónia dos Óscares. Demasiado gráfico, disseram. Não porque seja violento ou porque revele qualquer nudez, mas porque mostra algo que nunca é mostrado e de que ninguém fala: o sofrimento de uma mulher, depois de dar à luz, com algo tão básico como fazer chichi.

É um daqueles tabus que ainda existem em volta do corpo (sobretudo do corpo da mulher). O parto parece que já é um assunto mais ou menos normal mas a menstruação e as necessidades fisiológicas são temas proibidos. Sobre o pós-parto, então, ninguém fala. Nem às grávidas. É como se não existisse. Dizem-nos: "o corpo está preparado para cicatrizar e voltar ao lugar". Ninguém nos diz quão doloroso vai ser. Porquê? 

Quando o António nasceu eu fui cortada e cosida, como quase todas as mulheres que vão parir aos hospitais públicos. A episiotomia é (ou pelo menos era) um procedimento de rotina, feito por princípio, sem se avaliar da sua real necessidade e sem que a mulher seja consultada. O pós-parto é terrível. As dores são imensas. No hospital, deram-me gelo para ajudar o inchaço a diminuir. Como sabem, mesmo depois do nascimento do bebé, o corpo continua a libertar muito sangue. E mesmo com dores e com pontos na vagina, é preciso ir à casa-de-banho, fazer chichi e cocó (e por mais que nos digam que está tudo bem, é inevitável ter medo de fazer força). Não é uma fase muito agradável. A cicatrização pode correr às mil maravilhas ou podem surgir complicações. No meu caso, talvez porque eu estava imbuída do espírito da super-mulher, típico de quem é mãe pela primeira vez, e me tenha esforçado mais do que era aconselhável, correu mal. Os pontos caíram mas a costura não cicatrizou, avisou-me a médica na primeira consulta do puerpério, daí o facto de as dores persistirem. Eu quase não me conseguia mexer, nem andar nem sentar-me normalmente. Foi preciso ter cuidados redobrados. De cada vez que ia à casa-de-banho lavava-me com água fria (que arrepio) e com um sabão especial e limpava-me com uma toalha com muito cuidado. Depois, usava o secador, com vento frio, para ter a certeza que a zona ficava bem seca. Tenho ideia que também punha uma pomada qualquer. O processo demorou quase um mês. Aquele mês em que estava a aprender a ser mãe, a lidar com hormonas aos saltos, com noites sem dormir e com essas coisas todas, boas e más, que nos acontecem no corpo e na vida quando temos um filho. Entretando, as dores passaram e a médica confirmou a cicatrização. Mas a minha (nossa) vida sexual continuou arruinada ainda por bastante tempo. Por medo, sim, mas também porque a cabeça é lixada e não é fácil ter vontade de procurar o prazer numa zona do corpo que tanto sofrimento me tinha causado. Com o segundo filho as coisas correram bastante melhor. Voltei a ser cortada e cosida mas já sabia o que tinha de fazer e não fazer, desde o primeiro dia, para evitar complicações. Doeu (doeu muito) mas foi tudo mais fácil e rápido.

Disto ninguém fala, não é?

Ah, não é bonito, é uma coisa íntima, que necessidade há de contar? 

Pois eu acho que é muito importante. Quanto mais preparadas estivermos para o que vai acontecer mais hipóteses temos de que tudo corra bem. Quanto mais avisadas estivermos de que isto é normal, menos probabilidades haverá de nos sentirmos miseráveis e ainda mais deprimidas (porque este é um momento muito propenso a depressões). Quanto mais informados estiverem os que estão à nossa volta (incluindo os companheiros) melhor compreenderão o nosso sofrimento.

Não é bonito, pois não, mas existe, é o que é, portanto, mais vale aprendermos a lidar com isto como gente grande. 

publicado às 11:10


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