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Sorry, baby é um daqueles filmes onde, à superfície, parece que nada acontece. É só a vida pacata de uma jovem professora numa terrinha perdida da América, com o seu gato, um vizinho esquisito mas simpático, a amiga que entretanto mudou de cidade e casou mas continua a voltar para visitá-la. Mas, depois, Sorry, baby é muito mais do que isso. É um filme sobre uma violação. Sobre como ainda é difícil explicar aos outros o que se passou. Sobre a incompreensão. Sobre o desconforto das instituições que fingem que não vêem. É como se a agressão continuasse, mas de outra forma, uma e outra vez. É por isso que este é um filme sobre como lidar com o trauma. Sobre seguir em frente, ainda que doa. Ou entao fingir que se segue em frente quando, na verdade, não se consegue sair daquele lugar. Sobre as feridas que não saram. Sobre a amizade e como é importante ter quem nos vê como realmente somos e nos ouve e nos acolhe. Sobre isto de ser mulher. Sobre como continuamos a falhar às mulheres. Tudo isto contado sem pressas, com os diálogos reduzidos ao essencial e com a calma transmitida pela música original de Lia Ouyang Rusli.

A actriz Eva Victor, de 31 anos, estreia-se como argumentista e realizadora neste filme baseado na sua própria experiêcia e em que também é protagonista. E que boa estreia esta. 

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publicado às 22:24

Aconteceu no início do mês: no podcast Interesting Times, do The New York Times, Ross Douthat convidou Helen Andrews and Leah Libresco Sargeant, apresentadas como escritoras conservadoras e críticas do feminismo, para debater o papel da mulher nas sociedades liberais. Helen Andrews é a autora do ensaio The Great Feminization, no qual argumenta que o feminismo falhou porque tornou as instituições demasiado feminas, expulsando delas os homens e as virtudes masculinas. Por outro lado, Leah Libresco Sargeant escreveu um livro intitulado The Dignity of Dependence, onde sugere que o feminismo liberal falhou ao obrigar as mulheres a suprimirem a sua natureza e a adaptarem-se a locais de trabalho e sistemas sociais feitos para os homens.

Na abertura, Douthat lançava o tema: "Men and women are different. That is a core premise of conservatism in the age of Trump, that liberalism and feminism have come to grief by pretending that the sexes are the same. But what does that difference really mean? Should the right be trying to roll back the entire feminist era? Or is there a form of conservative feminism that corrects liberalism’s mistakes?" A conversa desenrolou-se nestes termos,  discutindo em 2025 (!!!) a natureza das mulheres e de que forma a entrada da mulher no mercado de trabalho alterou os modos de trabalhar e afectou a sociedade, mas também criticando o feminismo, o movimento #metoo e a denominada cultura woke

Quando foi publicado no site do NYT, o podcast apareceu com este lindo título: "Did Women Ruin the Workplace?". Choveram críticas de todos os cantos do mundo e de (quase) todos os quadrantes políticos. De tal forma que o jornal se viu obrigado a mudar o título para "Did Liberal Feminism Ruin the Workplace?" - mas o mal já estava feito, as redes sociais são implacáveis a fixar tudo aquilo que preferíamos esquecer.

Na verdade, este debate veio só tornar ainda mais visível uma ideia que parece ter estado adormecida durante algumas décadas mas tem vindo novamente a ganhar força em canais de youtube e tiktok conservadores e machistas, espalhando-se como um vírus entre as cabeças tanto de jovens rapazes como de homens-feitos: o lugar natural das mulheres é em casa, a tomar conta da família e do lar, parindo e educando filhos, cozinhando e passando a ferro, e deixando o homem tomar contas das "coisas que realmente importam". Não vou aqui linkar nem sequer citar, mas a quantidade de pequenos e grandes influencers que tenho visto, lido e ouvido nos últimos tempos a dizer isto, por estas ou por outras palavras, de forma mais aberta ou com insinuações pouco subtis, tem-me deixado absolutamente abismada e furibunda. Como é possível que 200 anos depois de as feministas terem saído à rua para lutar pelos direitos das mulheres estejamos novamente a ter este tipo de conversas? 

Portanto, ainda a batalha feminista estava longe de ser vencida, ainda estávamos aqui a tentar desenvencilhar-nos do maldito patriarcado, a apontar as desigualdades salariais e a exigir maior equidade na divisão das tarefas domésticas, a desesperar com os números relativos à violêncida doméstica e a lutar pela criminalização do assédio sexual, quando fomos abalroadas pelas ideias conservadoras (eu diria reaccionárias) que tomaram conta da internet, da sociedade e do discurso político, bramindo contra todas as conquistas tão arduamente conseguidas até aqui. 

De que têm medo estes homens?

De perder os seus privilégios. 

É só isso.

Ainda assim, que estes tristes machos encontrem nas mulheres o bode expiatório perfeito para justificarem os seus fracassos existenciais até me parece compreensível. Mas que mulheres embarquem neste discurso (assim como imigrantes votaram em Trump sem perceber que eram o alvo das duas políticas; ou as classas trabalhadoras votam repetidamente em partidos que não defendem os seus interesses) mostra bem o tanto que ainda está por fazer. E é um bom lembrete para todos nós de que não há direitos adquidiridos, a luta é constante.We_Can_Do_It!_NARA_535413_-_Restoration_2.jpg

Segundo a Wikipédia: We Can Do It! (em português: Somos capazes!) é o título de um cartaz de propaganda criado nos Estados Unidos, em 1943, por J. Howard Miller para a empresa Westinghouse, com o objectivo de levantar o moral dos seus trabalhadores durante o esforço de guerra. O cartaz é baseado na fotografia em preto e branco de uma operária que então trabalhava na Base Aeronaval de Alameda, na Califórnia.

*

A correr atrás do prejuízo para cumprir o tema do largo da semana passada, que era bode expiatório. E lembram-se do dia em que não consegui escrever sobre fúrias? Pois aqui estão elas, ou pelo menos parte das fúrias que me têm assolado nos últimos tempos.

Ah, e vão ler as minhas vizinhas, que vale sempre a pena:

publicado às 08:35

E já que falamos de textos que fale a pena ler, fica também a referência a ESTE que a Rebeca Solnit escreveu para o The Guardian. 

Para quem não sabe, a Rebeca Solnit é uma investigadora e activista americana, que se debruça sobre vários temas importantes, entre os quais o feminismo e a violência sobre as mulheres. Ficou muito conhecida pelo livro As Coisas que os Homens Me Explicam

Neste texto Rebeca Solnit recorda como há ainda poucas décadas, o mundo parecia olhar indiferente para os casos de abuso sobre as mulheres e de abuso de menores. Histórias que todos conheciam aconteciam às claras, os homens vangloriavam-se dos seus casos e a sociedade encolhia os ombros. Esta cultura patriarcal era sancionada e vangloriada por Hollywood. E se os famosos podiam, quem éramos nós para dizer que não podia ser? Foi assim até há muito pouco tempo. O #metoo aconteceu apenas em 2017. E mesmo assim ainda são muitos os que não perceberam que os tempos mudaram e que já não podem agir como antigamente. Que as mulheres já não aceitam.

 

Shocked by Epstein’s birthday book? That culture was everywhere before feminism

(...) The last Woody Allen movie I ever saw was Manhattan, in which he cast himself as more or less himself, a dweeb in his mid-40s, dating a high school student played by Mariel Hemingway. She was my age, 17, and I was only too familiar with creeps, and the movie creeped me out, even though it was only long afterward that I read that she said he was at the time pressuring her to get sexually involved with him in real life.

Manhattan came out in 1979; two years earlier Roman Polanski, on the pretext that he was taking photographs for French Vogue, got a 13-year-old girl to come alone to a house, where he drugged and raped her vaginally and anally. The probation officer assigned to him wrote: “There was some indication that circumstances were provocative, that there was some permissiveness by the mother,” and “that the victim was not only physically mature, but willing”. In her own account, the girl had said no repeatedly and even pretended to have an asthma attack to try to dissuade him, but the probation officer was of his era and only too willing to blame a drugged child. That was normal then.

Movies of the 1970s normalized all this. Jodie Foster was 12 when she played a prostitute in Taxi Driver. In Pretty Baby, an 11-year-old Brooke Shields played another prostitute in quaint New Orleans whose virginity is auctioned off, and who appears nude in some scenes, as she did in a Playboy Magazine special “sugar and spice” issue at age 10. In Milos Forman’s 1971 Taking Off, the runaway 15-year-old daughter of the protagonist reappears with a rock star boyfriend. Groupie culture included more than a few children sleeping with rock stars; Interview Magazine recounts of one prominent groupie that she “lost her virginity at age 12 to Spirit guitarist Randy California. For a time, she was involved with Iggy Pop, who glorified their relationship in his 1996 song Look Away. I slept with Sable when she was 13 / Her parents were too rich to do anything.”

It was the 70s in which the soft-focus color photographs of nude and semi-clad pubescent girls of David Hamilton were normalized as coffee table books and posters. (...)

What happened between the 1970s I’ve described and the present is feminism: feminism that insisted that women were people endowed with rights, that sex, as distinct from rape, had to be something both parties desired, that consent had to be active and conscious, that all human interactions involve power and that the vast power differential between adult men and children meant that no such consent was possible.

It was feminism that exposed the ubiquity of child abuse, rape, sexual harassment and domestic violence, that denormalized these abuses that were so much part of patriarchal society. And still are, far too much, but the dismissive, permissive attitude of the past is past, at least in mainstream culture."

publicado às 17:27

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São mulheres com um sotaque (lindo) do Alentejo. Vejo ali traços das minhas avós e bocados das suas vidas, e só isso já seria suficiente para me comover. São mulheres que nos contam como era a sua vida antes do 25 e Abril de 1974. Umas nunca foram à escola, outras estudaram até à terceira ou quarta classe, começaram a trabalhar com 11, 12, 15 anos, no campo - na apanha da azeitona, na monda, na ceifa - ou então a servir em casa de alguém. Eram crianças ainda e já tomavam conta dos irmãos mais pequenos ou dos filhos das senhoras, faziam a lida da casa, cozinhavam para a família. Casaram virgens e sem saber nada sobre sexo. Serviram os maridos como serviram os patrões: com respeito e obediência. Foram criadas em suas próprias casas, sem pagamento nem reconhecimento. Poucas vezes se questionaram se eram felizes, se poderia ser diferente, se mereciam melhor. Resignaram-se. 

Os vídeos do projecto Antigamente é que era bom estão na página de instagram aifi.lhas e são ao mesmo tempo tristes e belos, mas são, sobretudo, um alerta para que não esqueçamos como era e para não acreditarmos em teorias revisionistas. Muita coisa mudou nestes 51 anos e muita coisa mudou para melhor. Sobretudo para as mulheres.

[Existe um outro projecto muito bonito, o podcast Memória Futura, da Laura Falésia, em que ela entrevista mulheres mais velhas, cada uma com uma história incrível. Fica a dica.]

*

Hoje é dia do trabalhador. E da trabalhadora. A foto lá em cima foi tirada DAQUI. Aproveito para aconselhar que procurem as fotografias que a Maria Lamas tirou às mulheres do nosso país e para lembrar o que escrevi num dia particularmente irritada.  

*

Queria aproveitar também para falar do meu trabalho, mas, precisamente, estes têm sido dias muito exigentes, e não estou a conseguir escrever o que gostaria de escrever. Mas fica prometido. Ser feliz no trabalho que escolhemos (ainda que não sejamos felizes todos os dias nem todas as semanas, ainda que por vezes duvidemos de tudo, ainda que muitos dias sintamos que não vale a pena e só nos apeteça desistir) é um privilégio enorme. 

*

A propósito, já viram o On Falling?

*

No nosso largo só se trabalha por gosto:

publicado às 19:23

11
Abr25

Purgatório

“Essa sensação de o tempo estar a escassear e uma pessoa ser demasiado medricas para fazer explodir a vida que leva.”

No livro De Quatro, Miranda July mostra como uma mulher de 45 anos enfrenta a sua crise de meia-idade (também conhecida como perimenopausa) e decide abanar a sua vida e o seu casamento tradicional para se permitir partir à descoberta daquilo que realmente gosta e quer para si. Antes que seja demasiado tarde. Ou seja, antes de o envelhecimento a desfigurar.

Há muito sexo em De Quatro. Há masturbação, sexo hetero e homossexual, fantasias, brinquedos sexuais, role play. É engraçado pormo-nos na cabeça de outra mulher. Porém, não gostei assim tanto quanto esperava deste livro, que me foi muito recomendado. Em parte acho que isso tem a ver com a escrita da autora, que não faz bem o meu estilo, e também com a tradução (que odiei). Não foi só isso, há também ali coisas naquela mulher que me causam alguma estranheza, tenho que admitir. Mas prefiro falar daquilo que gostei. Sendo um livro escrito por uma mulher sobre mulheres e envelhecimento é claro que há sempre algum momento onde nos reconhecemos. Por exemplo, na eterna questão: conseguiremos, apesar de todas as condicionantes sociais, ser quem realmente somos (ainda que para isso precisemos de ter um quarto-refúgio num motel a vinte minutos de casa, como esta mulher)? Ou na outra pergunta, que todas nos fazemos a determinada altura: como será a paixão (ainda haverá paixão) quando envelhecemos? 

Depois, achei interessante a relação dela com as amigas e as conversas com outras mulheres, como quem percebe que afinal não está sozinha. E gostei de toda a parte mais doméstica, da relação da protagonista com o marido e o filho, a vidinha que temos e que às tantas já nem sabemos se estamos ali porque queremos ou simplesmente porque nos habituámos a viver daquela forma.

Falando com amigos, apercebo-me da quantidade de gente que vive infeliz em casamentos e que não sabe o que fazer. Porque é mesmo muito difícil ficar uma vida inteira com uma pessoa. As pessoas crescem e evoluem e é normal que aos 50 anos já não sejamos exactamente a mesma pessoa que éramos quando nos apaixonámos e fizemos juras de amor aos 20 e tal. Talvez por isso são cada vez mais as pessoas que pura e simplesmente não casam, também as que não querem ter filhos. São cada vez mais as que procuram outras maneiras de viver o amor. Não é à toa que cada vez mais se fala de relações abertas, de poliamor, de casais que querem permanecer juntos, mas que precisam que essa relação seja diferente do que é. E finalmente são cada vez mais as pessoas que dizem chega! e se divorciam.

Infelizmente são, parece-me, também muitas aquelas que se deixam ficar na infelicidade, como se o casamento fosse um buraco do qual não conseguem sair. Por causa dos filhos. Por causa da estabilidade. Por causa das memórias. Por causa do compromisso. Por causa de um sonho por cumprir. Por causa de dinheiro. Por causa dos outros. Por causa do medo. Por medo da solidão e da velhice. Por não terem a certeza que sozinhos ficarão melhor. Cada pessoa tem as suas razões, e são todas válidas. Mas quão triste será viver nesta espécie de beco sem saída?

Não tenho respostas nem conselhos. Só perguntas. E, ainda que não tenha adorado, ler um livro que me deixa tantas perguntas nunca é tempo perdido.

A este propósito:

  • muito interessante o podcast 451 MHz sobre o livro;
  • no outro dia, a Tânia Graça falava um pouco sobre os motivos porque se fica numa relação em que não se é feliz;
  • também apanhei por acaso um artigo na The Atlantic com boas dicas para quem, como eu, tem dificuldades em fazer mudanças na sua vida: To Be Happier, Stop Resisting Change;
  • outra perspectiva engraçada aqui: "Para as mulheres, o melhor sexo pode chegar depois dos 50"
  • Não sabia quem era a Miranda July, tive que ir à procura. Nesta entrevista ela fala um pouco das suas motivações para escrever este livro. All Fours é um dos nomeados para o prémio britânico Women's Prize for Fiction, cujo vencedor será anunciado a 12 de junho; e também já se sabe que o livro vai ser adaptado para uma série de televisão.

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O que é que isto tudo tem a ver com "purgatório", que é o tema desta semana no largo? Ah, essa também é uma boa pergunta. Talvez encontrem respostas mais úteis aqui:

publicado às 08:48

Não gosto de filmes de terror nem gore, portanto, parece-me natural que não tenha gostado d'A Substância, realizado por Coralie Fargeat. Aliás, nem tinha intenções de perder tempo com isto. Mas depois apareceu-me ali no streaming do Movistar e eu ainda tinha uns dias até desactivar a conta e achei por bem aproveitar. Está visto, e a primeira coisa que me ocorre dizer é que é um disparate pegado.

Simplificando, é isto: Elisabeth, uma estrela de Hollwyood (Demi Moore), vai ser afastada porque está a ficar velha e já não corresponde ao estereótipo de beleza pretendido pelo produtor do seu programa de televisão. Então, decide experimentar uma substância inovadora que faz "nascer" do seu corpo uma versão mais jovem de si, Sue (Margaret Qualley). À custa de um complexo sistema de injecções, alimentam-se uma da outra e vivem em semanas alternadas, enquanto uma está inconsciente, a outra está activa. Até que Sue começa a gostar demasiado da sua vida e a aldrabar o esquema para prolongar a sua semana, e a partir daí as coisas descontrolam-se.

Eu, que sou da realidade, lido sempre muito mal com estes filmes de fantasia porque começo a encontrar falhas na história, coisas que não batem certo, que não podiam ser assim. Isso não me leva a lado nenhum, claro, porque para ver um filme destes a primeira premissa é aceitar o que nos dão sem questionar. Mas, vamos lá ver - e só vou perguntar isto -, se durante a semana em que estava "desligada" a Elisabeth não tinha qualquer consciência e não podia desfrutar da beleza e da juventude da Sue, para que é que aquilo lhe servia afinal?

Há ali uma cena em que Elisabeth se prepara para ir jantar fora com um homem, mas não satisfeita com a imagem que o espelho lhe devolve continua a emendar a maquilhagem à procura de uma perfeição que não existe, a tal ponto que a sua cara se transforma num borrão e ela acaba por desistir. Essa cena é muito forte.

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Mas, honestamente, se queriam encontrar uma mulher que representasse o medo de envelhecer talvez tivesse sido bom ir buscar uma actriz que não estivesse tão esticada e botocada e que tivesse um corpo um bocadinho mais envelhecido (nada contra, atenção, o corpo dela é óptimo e ainda bem, só estou a dizer que não dá para uma pessoa normal sentir muita identificação com o seu medo de envelhecer - só para que tenham uma ideia, ela tem 62 anos e está a representar uma mulher de 50, sendo que o seu corpo é bem melhor do que o da maioria das mulheres de 50 que eu conheço). 

Por aquilo que li, A Substância tinha pretensões de fazer alguma crítica social e ter uma mensagem feminista. Não encontrei lá nada disso. Mas isso também já é hábito em mim, como se pode comprovar AQUI e AQUI.

Tudo bem, já sabemos que existe uma pressão da sociedade sobre os corpos das mulheres. Mas se  por um lado o envelhecimento não é só uma questão de corpo, por outro nem toda a juventude é bela e nem toda a velhice é feia. E que fixe que é quando conseguimos escapar desses estereótipos. Isso sim, seria uma verdadeira mensagem feminista. Pelo contrário, o que ali vejo são duas mulheres, uma mais jovem e outra mais velha, mas ambas igualmente obcecadas com o corpo e com a imagem e com necessidade de agradarem aos homens que babam à sua frente. Duas mulheres sem amigos, sem família, sem vida, sem objectivos que não manterem-se lindas e serem adoradas. Que estão dispostas a tudo, até a submeterem-se a tratamentos estranhos e sobre os quais não sabem absolutamente nada, em troca da promessa da eterna juventude. Que se destroem a si mesmas e que, até ao fim, não dão qualquer mostra de ter dois dedos de testa ou de fazer qualquer auto-crítica (nota-se que estou enervada com isto?, é porque estou).

E já nem falo nos grandes planos exagerados - completely male gaze, ainda que a realizadora seja uma mulherdas mamas e dos rabos das actrizes. Feminismo? Onde?

publicado às 22:51

publicado às 14:05

A Capicua tem música nova. Chama-se Making Teenage Ana Proud e, como sempre, é certeira a falar dos nossos tempos. 

publicado às 23:15

Estive com a Adília Lopes uma única vez, há mais de vinte anos, num ensaio do espectáculo A Birra da Viva, de Lúcia Sigalho. Queria lembrar-me melhor desse espectáculo, desse momento. Tenho tão boas memórias das noites passadas no Armazém do Ferro. A Lúcia Sigalho e a Mónica Calle foram uma revolução na minha vida. Eu era ainda uma miúda, mal tinha começado a pensar nestas coisas, e elas a fazerem espectáculos sobre isto de ser mulher, a dizerem-me que o importante é sermos quem realmente somos, assumirmos os nossos desejos e deitarmos fora a culpa, elas a mostrarem-me o caminho. Devo-lhes tanto. Foi por causa da Lúcia e desse espectáculo sobre mulheres e mães e sobre corpos que dão vida e morte que fiquei com vontade de ler a Adília. Foi depois de a ver ali, de ouvir a maneira contida, desassombrada, crua como falava, que fui descobrir os seus poemas. A Adília Lopes morreu ontem e eu li a notícia e não queria acreditar. Tinha apenas 64 anos. Fiquei tão triste.  Chorei por ela e por mim e por todas as mortes que ficaram por chorar. 

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“Posso morrer porque amei e fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de natas, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara a um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante”

De Irmã Barata, Irmã Batata, de Adília Lopes

(na página 409 de Dobra, poesia reunida, 2021, Assírio & Alvim)

publicado às 11:55

Está nas listas todas de melhores do ano, da Sight & Sound a Barack Obama: All We Imagine As Light - Tudo o que Imaginamos como Luz, filme escrito e realizado pela indiana Payal Kapadia, é ao mesmo tempo lindo e triste, seja na forma como retrata a vida das mulheres, tão condicionadas pelas famílias, pela religião, pela moral, seja no modo como nos mostra aquela cidade, Mumbai, na sua enormidade e na sua pobreza. Uma cidade onde mais de 12 milhões de pessoas se movimentam (conseguem imaginar?) e onde a toda a hora se ouvem carros, buzinas, motores, mil ruídos.

Lembro-me que quando vim estudar para Lisboa, ainda nem 18 anos tinha, a cidade grande apresentava-se como um mundo de possibilidades. Aqui eu poderia ser quem eu quisesse e fazer o que me apetecesse. Andar na rua sem ter que cumprimentar todas as pessoas, sem que toda a gente me conhecesse e controlasse, era exactamente aquilo de que precisava naquele momento. A cidade cumpriu as expectativas. Não sou a maior fã de Lisboa, não consigo ver beleza em todos os seus recantos, mas sei que aquilo que sou hoje se deve em grande parte a todas as experiências que esta cidade me proporcionou. Aos cinemas. Aos teatros. Aos bares. Às ruas. Ao anonimato. Ao trabalho. Às pessoas. À diversidade. 

Para as três mulheres de All We Imagine As Light, Mumbai também representava essa liberdade. Mas as expectativas delas não se cumpriram. Vieram das suas terras para trabalhar no hospital, mas continuam ligadas a tradições, presas por preceitos antigos, dependentes das decisões de outros. A enfermeira Prabha casou com um homem que mal conhecia, escolhido pela família, que depois foi morar a Alemanha e praticamente a abandonou - e no entanto ela mantém-se fiel a este casamento infeliz. A jovem Anu, também enfermeira, apaixonou-se por um muçulmano e namora às escondidas, enquanto os pais procuram um marido para ela e lhe mandam fotografias de pretendentes. A cozinheira Parvaty, a mais velha das três, ficou viúva e agora está em risco de ser despejada porque o marido não lhe deixou os documentos que comprovariam que a casa é dela. O dia a dia delas, entre o hospital e as casas modestas, é molhado - estamos em plena época das chuvas -  e barulhento mas ao mesmo tempo solitário. A cidade acolheu-as, mas não lhes permite serem livres. Só fora dali, quando Parvaty decide voltar para a sua terra e as amigas a ajudam na mudança, é que elas se vão conseguir encontrar a si mesmas. 

All We Imagine As Light é um filme de sensibilidade e poesia, filmado sem pressas, o que deixou algumas pessoas inquietas na sala de cinema, constantemente a olharem para o telefone. Mas é tão bom quando nos deixamos levar por um filme, quando nos permitimos abrandar e esquecer o mundo lá fora. E ficar só ali, a apreciar todos os detalhes. A música. Os silêncios. Um amor a nascer. Os pequenos gestos. A amizade entre três mulheres. Os olhos delas.

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publicado às 10:48


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