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"Ostra feliz não faz pérola
Não faz pérola, Não faz pérola!

Madrepérola, eu mando como Chimamanda
No comando como Che, sambo como Jôjô samba
Se caio, caio de pé, imortal como Chavela
Sensual como Sade, vertical como Mandela!
Nobel como Malala, Má como Mala Rodriguez
Amada como Amália Rodrigues.
Como Nina Simone ou Simone de Beauvoir
Dá-me um microfone sou Simone a cantar!
Invensível como Elza, eterna como Lhasa
Diva como Eva, Donna como em casa.
Mandona como Madonna, bossy como Kelis
Louca como Maradona, prima-dona como Elis.
Quem te manda, sou malandra, manda-chuva tipo Anitta
Pêlo na venta, tu tentas, eu sou Conchita.
Wasted como Rita, livre como a Lee
Eu faço a minha guita com o Rap: Cardi B!

Madrepérola, eu mando como Chimamanda
No comando como Che, sambo como Jôjô samba
Se caio, caio de pé, imortal como Chavela
Sensual como Sade, vertical como Mandela!

(Karol Conka) A mensagem se espalha
A resistência é combustível pra batalha!
Sem contos de fadas
Pesadelo causado por quem está de farda!
Só quem vive sabe
Num mundo de ambição não tem perdão.
Só quem vive sabe
Criar a condição na contramão.
E eu faço do meu jeito
Se vem com pouco não me contento
Tento fazer do meu tempo o meu sustento.
Vejo que não temos nada a temer, nada a esconder
É! Só quem vive sabe!
Se vem com pouco não me contento
Tento fazer do meu tempo o meu sustento
Vejo que não temos nada a temer, nada a esconder
Capicua e Karol Conka, saber!

Madrepérola, como Frida não me calo,
Faço arte da ferida, cuspo no patriarcado,
Faço parte da família como Venus e Serena
Temos pena, como Azealia, a minha língua dá problema!
Tombo como Conka, reino como Badú
Bailo com a Blaya, ave Maya Angelou!
Tu não entres na disputa, sou filha da luta
Histórica como Djamal neste rap tuga.
No pódio como Laurin Hill, Cruella De Vil
Tinha 101 problemas, derreti-os num vinil.
Pioneira como Lady Pink, tu não te compares
Tu chegas-te a mim, eu digo “Dracarys!”
Primeira de meu nome, rainha da rima sábia
Tipo Grace Jones: revolucionária!
Vim dar lições a putos e a homens das cavernas
Sobre a vida com V grande e V no meio das pernas!"

Madrepérola, música nova de Capicua com Karol Conka
(e a voz da grande Hannhah Gadsby a fechar)

publicado às 12:31

A dona Dolores tirou uma fotografia de bikini na beira da piscina. E partilhou-a nas redes sociais.

Eu admiro muito aquela mulher.  

Eu não tiro fotografias em bikini. E se na praia alguém quiser tirar fotografias eu vou a correr vestir uma roupita ou encolho-me de maneira a que não apareça muito do meu corpo. E se tirar alguma fotografia de certeza que não a partilho nas redes sociais. Aliás, se eu estiver de bikini faço os possíveis para não encontrar ninguém que seja vagamente conhecido. Porque eu - até posso disfarçar e fingir que não é nada e pôr um ar super-seguro de quem é a maior mas a verdade é que - tenho muita vergonha que as outras pessoas olhem para o meu corpo gordo despido e para as banhas e celulites todas que eu para aqui tenho. Portanto, sempre que posso, evito mostrá-lo. E eu sei que isto é errado. Sei que as pessoas são mais do que um corpo (sei que eu sou mais do que um corpo). E defendo com unhas e dentes o direito a cada um ter o corpo que tem, sem vergonhas nem tabus. E até consigo, no dia-a-dia, viver tranquilamente com o meu corpo. É só vestir uma roupa discreta e esquecer que tenho um corpo. Mas quando estou seminua é mais difícil. Uma pessoa fica consciente de todas as suas imperfeições e não há auto-estima que resista.

Mas, sabem, eu não queria ser magra. Eu só queria estar-me nas tintas para o que os outros pensam. Eu não faço dieta, eu luto contra a minha falta de confiança.

Por isso eu admiro a dona Dolores. E queria ser assim. Uma mulher que vive bem com o seu corpo. Que diz: esta sou e estou-me a cagar para vocês. Esta sou eu e sou feliz, olhem lá para mim e vejam como eu sou feliz. 

Acho mesmo triste que haja gente a gozar com ela. E que alguma dessa gente sejam mulheres e que até se digam feministas. E que alguma dessa gente sejam pessoas inteligentes e que até se digam defensoras da liberdade individual. Mas não resistem a gozar. Ah, é só uma brincadeira, dizem. Mas não é. Porque quando gozam com ela na verdade estão a dizer: "olhem o desplante desta gorda que não tem vergonha de se mostrar, não saberá ela que as gordas têm de se tapar? que só as magras e boas é que têm o direito de exibir o seu corpo de bikini?" E isso não tem graça, é só maldade e mesquinhez.

Voltamos sempre ao mesmo

E, já agora, podem ler AQUI sobre um livro extraordinário, A Gorda.

publicado às 19:52

03
Mai19

Pêlos

Tenho calores e frios e tudo ao mesmo tempo sempre que vejo notícias e comentários e polémicas sobre esta coisa dos pêlos. Esta mania que a sociedade tem de determinar como é que deve ser o corpo da mulher. Mais do que isso: como é que deve ser a mulher. E de culpabilizar as mulheres que não correspondem à suposta norma. Isso acontece com o peso, com as formas, com a celulite, com os pêlos, com a roupa, com o cabelo, com o trabalho, com a maternidade, com tudo... Existe uma imagem da mulher que é considerada a certa e depois existem mulheres que são diferentes e, logo, são publicamente criticadas. Porquê? No caso dos pêlos, por exemplo, digam-me lá qual é a justificação para se aceitar que um homem tenha pêlos (nos sovacos, nas pernas, na zona púbica) mas depois numa mulher isso já ser considerado feio e até nojento? 

Mas, claro, isto é a apenas a ponta de um iceberg muito maior que é esta mania (antiga como o mundo mas agora muito mais visível e potencializada pelas redes sociais) de que temos direito a meter o bedelho na vidinha dos outros.

Esta mania de dar a nossa opinião, por tudo e por nada. E de querer impor a nossa opinião sobre a dos outros, criticando e insultando quem se atreve a ser diferente.

Deixem as mulheres (e as pessoas em geral) serem como quiserem ser.origin.jpg

Esta é Annahstasia no anúncio da Nike que tanto chocou algumas pessoas.

Lembrei-me DISTO, que escrevi há mais de dez anos. Tão bom. Tão eu.

publicado às 11:00

16
Abr19

Vivian Maier

Descobri a Vivian Maier por acaso, como quase tudo o que nos acontece de bom. Numa noite de tédio em frente da televisão, ora vamos lá ver o que há para aqui para me entreter até me dar o sono. E havia este documentário sobre uma fotógrafa.

Vivian Maier nasceu em 1929 em Nova Iorque e cresceu para ser uma mulher solitária. Sem família, sem amores. Trabalhou brevemente numa fábrica e percebeu que não era nada disso que queria, então decidiu tornar-se ama, um trabalho que lhe permitia passar parte do dia na rua, a brincar e a passear com as crianças, e que além disso lhe dava alojamento e liberdade. Ela não precisava de mais nada. Não era propriamente a ama mais carinhosa do mundo. Falava pouco. Não contava nada da sua vida a ninguém. Em cada casa por onde passou contou um passado diferente, apresentou-se inclusivamente com nomes diferentes. No seu quarto, fechado à chave, guardava recortes de jornais e outras mil bugigangas. Descrevem-na como uma mulher "estranha", ou seja, diferente das outras. Muito alta, quase sempre de chapéu de abas na cabeça, com roupas pouco charmosas.

Vivian andava sempre com a sua Roliflex ao pescoço e fotografava de tudo um pouco. Mas imprimiu muito poucas fotografias. Fotografava obsessivamente e é óbvio que isso lhe dava prazer, mas não se interessava por ver as fotografias que tirava, muito menos por mostrá-las a outras pessoas. Quando morreu, sozinha e na pobreza, em 2009, deixou caixas cheias de milhares de negativos, rolos por revelar, provas de contacto. E só então se descobriu a maravilhosa fotógrafa que ela era. As suas fotografias, muitas a preto e branco, algumas a cores, são um documento incrível sobre a vida - em Nova Iorque, em Chicago, noutras partes do mundo - nos anos 50, 60 e 70. E o que é ainda mais fascinante é que aparentemente ela tirava aquelas fotografias instintivamente, enquanto deambulava pelas ruas, sozinha ou com crianças, sem perder muito tempo a pensar no enquadramento e na luz, muitas vezes apanhando as pessoas desprevenidas. Um momento. Um clique. E o resultado é incrível - descubram o seu trabalho no site www.vivianmaier.com que não se vão arrepender.

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Não temos que ser todos iguais. Ainda bem que não somos todos iguais. São as pessoas que são diferentes, que pensam de maneira diferente, que não se enquadram, que, ainda que se sujeitem às regras sociais, mantêm uma cabeça livre, são essas pessoas que fazem geralmente coisas maravilhosas. Ainda que sejam pequenas. Pequenas coisas maravilhosas. Como as fotografias de Vivian Maier.

publicado às 09:31

06
Mar19

Mulher

Esta coisa de sermos quem somos, sem mas, sem culpas, sem tabus. Esta tem sido a longa caminhada das mulheres ao longo da história. E tem sido também a minha própria caminhada nestes quase 45 anos. As mulheres crescem sob censura. Uma menina não deve. Uma rapariga nunca. Uma senhora jamais. De coisas tão simples como não dizer palavrões a coisas tão complexas como não revelar os seus desejos sexuais (mulher decente não tem cá disso) passando pelas coisas óbvias como não andar sozinha na rua à noite, é longa a lista de coisas que as mulheres não devem fazer porque são mulheres e só por isso estão sujeitas a mil perigos ou apenas porque têm uma reputação a manter (o que é que as pessoas vão pensar?).

Esconder. Calar. Aceitar. Obedecer. Tapar o corpo. Sufocar as vontades. Conter os gestos. Silenciar as palavras. Sentir vergonha.  

Evoluímos muito, não há dúvida. Mas ainda há muito por fazer. No mundo inteiro. Aqui mesmo em Portugal, não se deixem enganar. As mulheres que fazem o que querem ainda são seres estranhos. Ainda são motivos de artigos de jornal no dia da mulher - e enquanto for necessário fazer artigos de jornal sobre as mulheres extraordinárias que fazem o que querem é porque ainda há um caminho por andar.

A propósito:

- O filme Period. End of sentence, que ganhou o Óscar para Melhor Curta Metragem de Documentário, mostra uma comunidade na Índia (um país onde apenas 10% das mulheres usam pensos higiénicos, as outras usam "paninhos") onde uma pequena unidade de produção de pensos low cost está a mudar a vida de muitas raparigas. É comovente de muitas maneiras. E não deixa de nos pôr a pensar que enquanto nós, na Europa, nos preocupamos com o ambiente e andamos a tentar substituir os pensos por copos menstruais, ainda há mulheres para quem o simples uso de um penso descartável pode significar um passo gigantesco rumo à emancipação. O filme está disponível na Netflix.

- A música de Mynda Guevara, uma rapper de 22 anos. Conto a história dela e da sua determinação AQUI

- E, já agora, o filme de Raquel Freire onde Mynda Guevara aparece. Chama-se Mulheres do Meu País e é um documentário que nos mostra como várias mulheres são heroínas todos os dias, só pelo simples facto de serem mulheres e de, apesar disso, não quererem deixar de fazer as coisas que têm vontade de fazer. Estudar, pescar, ser bombeira, fazer rap, o que for. O filme tem ante-estreia amanhã, em Lisboa, e depois vai chegar à RTP. 

Embora não ligue nada, acho bem que se assinale o Dia da Mulher, porque ainda é necessário, mas não se esqueçam: somos mulheres todos os dias.

publicado às 17:36

06
Jan19

Eliete

A Dulce Maria Cardoso tem a capacidade incrível de escrever sobre o mundo, o nosso mundinho, aquelas pequenas coisas do dia-a-dia em que nós quase nem reparamos mas que fazem parte da nossa vida. Os likes no facebook. A pastelaria da esquina. O quintal da avó. Os ciúmes da tableforone. As casas à venda. Os sapatos que magoam os pés. O frango assado para o jantar. A cave onde guardamos o passado encaixotado. Os betos do liceu. A lingerie barata. Os turistas na praia. O inglês macarrónico com que cantamos as canções da rádio. A final do europeu. O cheiro a desinfectante nos lares da terceira idade. Além disso, a Dulce Maria Cardoso tem a capacidade muito rara de escrever sobre o que se passa na cabeça das mulheres - sem preconceitos. Lemos Eliete e sentimos que ela está a falar de nós. Não porque eu seja como ela ou faça o que ela faz. Mas porque sabemos exactamente como é que ela é e tudo o que sente. Está lá tudo. A relação de amor-ódio com a mãe. As saudades do pai. A melhor amiga. Os miúdos da escola. As memórias da infância. O príncipe sonhado. O sexo sonhado. O futuro sonhado. O presente mal-amanhado. As rugas na cara. A celulite. A dieta. Os filhos que crescem. A avó com alzheimer. O envelhecimento.  O querer sentir-se desejada. Estão lá os desejos e as frustrações de uma mulher de 40 anos, que podia ser alguma de nós, que de certa forma é uma de nós. A solidão. A insegurança. A busca por algo que dê sentido a isto tudo. 

De Dulce Maria Cardoso já li O Retorno (o meu preferido) e Os Meus Sentimentos. O mais recente, Eliete, é um daqueles livros que nos agarra e nos leva sofregamente por ali afora com aquelas palavras simples encadeadas como se encadeia a vida. Só é pena aquele final. O Salazar. Que despropósito. Mas pronto. 

publicado às 23:17

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A editora Minotauro está a reeditar a obra de Maria Judite de Carvalho (1921-1998) e eu, que sabia muito pouco sobre esta autora, fiquei curiosa e decidi levar o Tanta gente, Mariana para ler na praia. Não me arrependi. Ali estão as mulheres de um outro tempo - confinadas à casa, subjugadas a uma moral machista e a um poder masculino, tantas vezes imersas numa solidão que não ousavam confessar, frustradas nos seus desejos. De um outro tempo, disse eu? Felizmente, sim. Mas, ao mesmo tempo, reconhecemo-nos (a nós, às nossas mães, às nossas avós) ainda tanto nelas. Congratulei-me por todas as conquistas que entretanto fizemos mas não pude deixar de me entristecer ao perceber que ainda somos tantas vezes mulheres caladas, escondidas, envergonhadas. 

Por estes dias li também Florinhas de Soror Nada, de Luísa Costa Gomes, que de uma maneira completamente diferente acaba por nos falar do mesmo - do modo como a religião e a educação se têm ocupado a incutir na mulher uma vergonha do corpo e do prazer.

É por isso que todos deveriam ler Querida Ijeawele - Como educar para o feminismo, de Chimamanda Ngozi Adichie. Trata-se de uma carta escrita pela autora nigeriana para uma amiga grávida com conselhos para a educação da rapariga que aí vem. Não traz nenhuma novidade para quem já anda a pensar nestes assuntos, mas tem a vantagem de sistematizar aquilo que andamos a dizer e de servir como um reforço do que já eram as minhas convicções.

Não foi de propósito que escolhi estes livros para ler nas férias mas não deixa de ser sintomático que se tenham juntado todos na minha mala de viagem. 

publicado às 13:22

02
Mar18

Birth

Alguns sites de notícias publicaram as fotografias com um aviso: estas imagens podem ser chocantes. Ou perturbadoras, também houve quem escrevesse perturbadoras. O mundo das mulheres continua envolto em mil tabus. A menstruação, a gravidez, o parto, a amamentação. Tudo tem de ser tapado, calado, velado, segredado. Como se tivéssemos que sentir vergonha por sermos mulheres. Quando na verdade não há nada mais natural, mais animal, mais banal do que isto. A mim parecem-me apenas imagens muito bonitas. Com vida.

(e eu com tantas saudades da minha barriga de grávida).

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Deliciem-se em Birth becomes her.

publicado às 10:11

No último episódio da segunda temporada de Master of None (desculpem estar a falar outra vez desta série, mas é que é simplesmente espectacular), Jeff, um big boss da televisão, é acusado de assédio sexual por várias colegas de trabalho. O episódio foi lançado em maio deste ano, muito antes do escândalo de Harvey Weinstein, e é impressionante encontrar as semelhanças entre a realidade e a ficção.

Esta é só mais uma prova de que este problema não é recente nem é restrito a uns quantos tipos malucos - não, não é. É uma questão cultural. É o resultado de séculos e séculos de dominação de uma cultura machista. Os homens crescem a achar que é normal comentar o corpo das mulheres que passam na rua, que é normal mandar bocas, apalpar mulheres nos transportes públicos, ou esfregarem-se nelas, é normal olhar os decotes das colegas de trabalho, é normal fazer comentários javardos com colegas de trabalho ignorando a presença de mulheres na sala, é normal oferecer boleias às colegas e aproveitar para fazer avanços, é normal insinuar a uma subordinada que se ela se portar bem até pode ter um aumento, é normal impor a sua presença a uma mulher que já disse que não queria nada com ele, é normal não saber quando parar porque lhe parecia que ela estava mesmo a pedi-las.

Uma coisa verdadeiramente assustadora é ver como, quando as mulheres se queixam de assédio, a maioria dos homens não percebe: não percebe como foi inconveniente, não percebe porque é que não pode fazer aquilo, acha que é tudo normal. "Que mal é que tem?" E isso mostra-nos que ainda temos muito por andar.

O caso de Weinstein é impressionante pela sua dimensão - pela quantidade de mulheres envolvidas; por percebermos que era algo que ele fazia sistematicamente; porque exigia a cumplicidade e até a ajuda de várias pessoas que, aparentemente, achavam tudo normal; pela maneira como ele usava o seu poder no meio audiovisual para pressionar as mulheres (miúdas, na sua maioria), ameaçando a sua carreira. O caso de Louis CK é muito diferente mas é igualmente revelador de como alguns homens só pensam em si e no seu prazer e olham para as mulheres apenas como meio para conseguir alguma satisfação.

Não acompanhei assim com tanta atenção todos os outros casos que foram sendo denunciados e ouvi vários comentários sobre o facto de haver aqui histórias muito diferentes e também diferentes níveis de assédio e de abuso sexual e até poder haver casos em que uma pessoa fique a pensar que se calhar já estamos a exagerar nisto e que juntar no mesmo saco do assédio tanta coisa só vai contribuir para desvalorizar as denúncias realmente graves. Mas a verdade é que estamos sempre a falar do mesmo: de abuso de poder. 

When men use sex to push women into inferior, undervalued, and invisible roles, that isn’t sex; that’s punishment. We must reject the idea that harassment is measured by how sexually violated the victim feels (or how she is told she is supposed to feel). Our conflict is not over sex, or with men in particular or in general, but over power.

Sinceramente, devo dizer que acho maravilhoso que finalmente tenhamos chegado a esta fase de evolução em que as mulheres não têm medo de falar e recusam-se a continuar caladas.

Durante muito tempo, as mulheres sentiam vergonha de dizerem que tinham passado por experiências destas. Como se fosse culpa sua. Eu era miúda quando vi Os Acusados, com a Jodie Foster (1988), e lembro-me perfeitamente de pensar: como assim, dizem que a culpa é dela?, e sentir profundamente a injustiça da situação. Mas é assim que as mulheres crescem. Aprendem a não andar sozinhas na rua à noite porque sentem medo, e só isso já seria um mau sintoma, mas se acontecer alguma coisa a culpa é delas, claro, porque se puseram a jeito. Aprendem a fingir que não é nada quando o marido lhes bate ou as maltrata, porque ele é o marido e elas têm que aceitá-lo como ele é. E acima de tudo aprendem a ficar caladas, para que ninguém saiba, porque, primeiro, ninguém acreditaria nelas, e, segundo, é uma vergonha.

Portanto, sim, é óptimo que finalmente as mulheres deixem de ter vergonha. E acusem. E digam às outras mulheres que não há motivo para ter vergonha. Que têm a razão do seu lado.  

Sim, é importante que as mulheres tenham educação, porque quantas mais ferramentas tiverem melhor se defenderão de todas as formas de pressão e porque saberão exactamente qual é o seu valor, quais são os seus direitos, como devem agir nestas situações.

Sim, é importante que as mulheres tenham autonomia financeira, porque ser independente é o primeiro passo para não se deixar espezinhar. Porque terão opções.

Sim, é importante acusar os homens que abusam do seu poder e da sua posição. Mas é preciso que se perceba que não se trata de uns quantos prevertidos e que nem tudo se resolve mandando-os fazer terapia durante dois meses numa clínica. Esta é uma questão de educação e de cultura (aqui ficam umas dicas, só para começar a mudar algumas atitudes). Que diz respeito a todos nós. E que está muito longe de estar solucionada. 

Para já: "Women are speaking up and they're being believed." E isso faz toda a diferença 

Nestes últimos meses li alguns artigos excelentes sobre este assunto. Alguns que relacionavam esta onda de denúncias com a crise económica e nos media e com a situação política dos EUA e a presidência de Trump. Outros que nos punham a pensar sobre os castigos a aplicar nestes casos. Ou mostravam como toda a gente pactuou com situações destas, talvez até nós mesmos. Ou perguntavam como devemos lidar com a obra dos artistas que são acusados de assédio (um tema fascinante, hei de escrever sobre isto um destes dias). Gostava de pôr aqui os links para alguns desses artigos mas, entretanto, como demorei a escrever este post, fui-lhes perdendo o rasto.

Fica este, que explica porque a revista Time elegeu como personalidade do ano as mulheres que quebraram o silêncio. Com a certeza, porém, de que a procissão ainda vai no adro. O ano está a terminar mas há muito ainda por dizer sobre o assunto.

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publicado às 22:36

21
Jul17

A Gorda

Acabei, finalmente, de ler A Gorda, de Isabela Figueiredo, um extraordinário livro sobre uma mulher que na verdade é sobre muitas mulheres. E sobre os seus corpos. Sobre a difícil relação que as mulheres têm com o seu corpo. Sobre a educação moralista e castradora a que as mulheres são submetidas. Sobre a pressão social para se ter um corpo perfeito. Sobre a pressão que o espelho exerce sobre cada uma de nós. Sobre o amor-próprio e o amor dos outros. Sobre o desamor. Sobre a vergonha. Sobre o envelhecimento. Sobre a solidão. Sobre ir ao tapete. E levantarmo-nos. Existe algo de Maria Luísa em mim. E a escrita de Isabela Figueiredo, a dizer o que tem de ser dito, sem rodriguinhos, consegue tocar-nos de uma maneira profunda. 

 

A propósito:

 

- uma visão muito interessante deste livro, pelo Henrique Raposo.

 

- é muito raro encontrar o universo feminino retratado com tanta honestidade na literatura. Lembrei-me de Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso, e lembrei-me muito da Elena Ferrante, por exemplo.

 

- Isabela Figueiredo organiza o livro em capítulos que correspondem às várias divisões da casa. Bruno Vieira Amaral reflete neste texto sobre a casa-corpo, a propósito do também belíssimo filme Aquarius.

 

- esta semana fui ver o concerto dos Pretenders e, antes deles, Rita Redshoes, que me surpreendeu com uma versão de I Got Life, de Nina Simone. A lembrar-nos isto: o nosso corpo é a nossa casa, o nosso corpo somos nós, e mesmo quando tudo falha existe este corpo, que amamos ou odiamos, mas ao qual não podemos escapar. 

 

"Ain't Got No (I Got Life)"

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

And what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?

Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

publicado às 19:51


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