Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


mw-860.jfif

Faltei a um jantar a que queria ter ido, aliás nesse dia nem jantei, e fui sozinha, o que é chato sobretudo por não ter com quem trocar ideias no final, mas apesar disto tudo fui ao CCB na sexta-feira porque não queria mesmo perder o Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa, da Sara Barros Leitão. Eu já sabia que ia ser bom. Foi ainda melhor.

O espectáculo parte da realidade das criadas, mulheres que, fosse no século XIX ou no Estado Novo, iam trabalhar e viver para casa dos patrões perdendo todos os seus direitos (incluindo a liberdade, a privacidade, o direito a ter uma família e até uma vida própria) para se dedicarem a cuidar dos outros, tantas vezes sem pagamento justo nem descanso assegurado. Está tudo explicado NESTE livro que conta as histórias dessas miúdas vindas da província ainda crianças e das humilhações que sofreram.

Mas, depois, o espectáculo vem até ao 25 de abril para mostrar como até nas revoluções que se dizem de esquerda há uns que são mais iguais do que outros e até os sindicalistas precisam de alguém que lhes limpe o pó e faça o assado para o almoço. E, finalmente, viaja até aos nossos dias e faz-nos pensar nas criadas de hoje. Nas mulheres-a-dias, nas empregadas, nas senhoras da limpeza, em todas essas mulheres (porque são maioritariamente mulheres) que continuam a limpar as nossas casas. Já sem falar daquelas que, em 2021, continuam a ser "internas", sujeitas a essa quase-escravidão disfarçada de caridade, pessoas que "são como da família" só que não são, são as pessoas que limpam as sanitas das outras.

Têm essas mulheres - muitas delas imigrantes, racializadas, sem papéis, quase todas desfavorecidas social e economicamente - os seus direitos garantidos? Ou continuam a ser exploradas, assediadas, abusadas? 

Esta é uma reflexão que é preciso ter. E que não é um problema só das elites, porque hoje em dia grande parte das pessoas tem empregada, nem que seja durante quatro horas por semana, como eu.

Num momento em que questionamos os horários laborais, as 40 horas por semana, as horas extraordinárias, é importante lembrar que todas essas regras foram instituídas num tempo em que muitas das mulheres ficavam em casa e asseguravam que as compras eram feitas, a casa era limpa, a comida chegava à mesa, as crianças eram educadas e mimadas. Eram criadas não pagas das suas próprias famílias.

Num momento em que lutamos pela igualdade de género e batalhamos pelo reconhecimento das mulheres no trabalho, exigindo que haja mais mulheres nas lideranças e que sejam igualmente pagas, não nos devemos esquecer que para as mulheres "saírem de casa" para trabalhar foi preciso que outras mulheres ficassem nessas casas a fazer o trabalho que antes era delas. 

É o seu trabalho reconhecido? Estamos a dar-lhes o devido valor e a garantir-lhes adequadas condições de trabalho?

Porque não basta olhar para o passado e reconhecer como tantas coisas estavam erradas se não tirarmos daí alguma lição para o presente.

E, para além disto, o texto é óptimo, o uso dos objectos é surpreendente, a Sara é fantástica e está tudo lá, no sítio certo, para nos fazer sorrir e pensar, de tal forma que nem se dá pelo tempo passar. Eu sei que há poucas sessões mas, se puderem, não percam.

publicado às 08:35

04
Nov21

"A Criada"

30maid-articleLarge.jpg

Se não viram ainda, vejam Maid - A Criada, na Netflix. Sobre violência doméstica, mas não só. Sobre repetição de padrões familiares. Sobre abuso emocional, controlo e medo. Sobre a importância de cada pessoa ter a sua independência financeira para poder ser livre. Sobre a dificuldade de sair. A dificuldade de pedir ajuda. A dificuldade de encontrar ajuda. Os entraves burocráticos. Os passos atrás. Sobre o que se faz pelos filhos. Sobre pais e mães. Sobre desigualdade de género. Sobre mulheres. Sobre deixar tudo. E ter coragem. E mudar de vida. E sonhar.

É lamechas, pois é. Preparem os lencinhos.

publicado às 13:43

Ando um pouco assoberbada de trabalho e de vida (o que é bom) e não consegui escrever sobre duas séries que vi há já uns tempos, tão diferentes e, ao mesmo tempo, ambas a fazerem-me pensar muito nisto que é ser mulher em 2020 e troca o passo, no que é envelhecer, no que queremos fazer e aproveitar nesta vida que é, vai-se a ver, tão curta. O outono dá-me para andar mais reflectiva, não se admirem.

Continuo nas histórias de mulheres, como se vê.

Não tenho tempo para elaborar muito, mas ficam, ainda assim, as sugestões. 

I may destroy you (na HBO), da fabulosa Michaela Coel, fala sobre violação e trauma, sobre consentimento e sobre o machismo que perdura, mesmo quando achamos que já não. A acção passa-se em Londres, entre um grupo de pessoas de vintes e trintas, alguns hipsters, outros nem por isso. Gente criativa, que faz yoga e frequenta workshops de pintura mas na verdade tem pouco dinheiro. Gente que anda à procura de si mesma. Em luta pelo seu espaço. A querer fazer-se ouvir.

On the Verge (na Netflix), de Julie Delpy (sim, a atriz do Antes do Amanhecer e etc.), apresenta-nos um grupo de amiga quarentonas, com filhos e relações, umas mais felizes, outras mais destruídas. Classe mais alta que média, que vive junto à praia, nos Estados Unidos, mas com os problemas típicos das mulheres que parece que tiveram tudo e no entanto sentem a vida a fugir-lhes por entre os dedos. A crise da meia-idade em tom de comédia, com a ajuda de Elisabeth Shue e a breve aparição de Patrick Duffy (e saber quem é o Patrick Duffy sem precisar de ir ao Google é sinal de que se tem a idade certa para ver esta série).

publicado às 17:28

Então, Maria João, já viste a Casa de Papel? Nem por isso. Mas em compensação vi isto:

A Diretora

The Chair, no original, é uma das estreias recentes na Netflix. Sandra Oh (que para mim há de ser sempre a Cristina Yang da Anatomia de Grey) é a professora Ji-Yoon Kim, que acaba de assumir o cargo de diretora do departamento de literatura inglesa numa pequena universidade americana e se vê a braços com uma série de dificuldades, a começar pela falta de interesse dos alunos pela literatura (e aquilo que a universidade está disposta a fazer para "seduzir" mais alunos e mais financiadores), passando pelos professores mais velhos que não sabem como cativar os jovens e tecnológicos estudantes, e terminando com um professor que é filmado a fazer uma saudação nazi (ainda que irónica) numa aula. Isto, sem falar dos muitos dramas pessoais que por ali se cruzam. Há muita questões a ser levantadas, sobretudo no que toca ao elitismo e à falta de representatividade nos meios académicos e também ao chamado "politicamente correcto" (a que poderíamos chamar só "o correcto", não?), aos julgamentos nas redes sociais e à "cancel culture". No final fica uma certa desilusão, gostava que a série tivesse ido um pouco mais fundo na análise do caso, mas, vistas bem as coisas, isto é só um "comedy-drama" que se quer leve e até temos direito a David Duchovny (ele mesmo, o dos Ficheiros Secretos) a gozar consigo próprio, o que é muito bom.

Mrs. Fletcher

Uma mulher com quarenta e tal anos, divorciada, enfrenta a solidão depois de o filho sair de casa para ir para a universidade. Uma vez que já não tem que dar contas a ninguém, esta é a oportunidade para se descobrir e para concretizar algumas das suas fantasias. Kathryn Hahn é a protagonista desta minissérie que está na HBO. Não é nada do outro mundo (mesmo) mas fala de uma maneira divertida de alguns assuntos que ainda são mais ou menos tabu na sexualidade das mulheres (pornografia, masturbação, fantasias, sexo com outra mulheres, com rapazes mais jovens, com várias pessoas...). Às vezes parece tudo um bocadinho forçado, mas gosto muito da ideia: faz o que te apetecer que já não tens idade para estares com vergonhas e com merdas.

Alias Grace

A pessoa não resiste a uma série histórica, não é? Esta, baseada numa obra de Margaret Atwood (que aparece por breves segundos numa das cenas), conta-nos a história de Grace Marks, imigrante irlandesa no Canadá do século XIX, condenada por homicídio tendo já passado por hospícios e prisões com diferentes graus de tortura. Desafiada a contar a história da sua vida a um psicólogo americano, que irá tentar perceber se ela é de facto culpada ou inocente ou apenas louca, a impassível Grace (interpretação de Sarah Gadon) mergulha nas memórias e cria uma narrativa de si mesma sem que seja possível distinguir onde está a verdade e onde está a mentira (e não faremos todos um bocadinho isso?).

publicado às 08:12

As mulheres passam muito tempo a falar sobre o seu corpo, sobre os defeitos do seu corpo, sobre o que têm de fazer para melhorar o seu corpo. Reparei nisso em todos os meus grupos de amigas, não é uma coisa que afecte mais umas do que outras, é geral. Gordura, peso a mais, celulite, rugas, peles flácidas, pêlos, de tudo isto as mulheres se queixam. Olham-se ao espelho e vêem mil falhas. Eu é as ancas, eu o rabo, eu as pernas, eu a barriga, as mamas que são pequenas ou que são grandes demais. Até mesmo as que têm tudo no sítio insistem em encontrar imperfeições. As mulheres planeiam dietas e exercício físico, discutem métodos, trocam experiências, menus e receitas, beber muita água, fazer jejum intermitente, eliminar os hidratos, contar as calorias, correr quilómetros, ir ao ginásio, contratar um PT. As mais determinadas ponderam consultas com médicos diversos, comprimidos milagrosos, intervenções cirúrgicas. É uma tarefa sempre em progresso. Marca-se um jantar e em algum momento o assunto aparece. Há sempre alguém que não vai pedir sobremesa, que não pode comer pão ou batatas fritas ou arroz, ou que avisa que vai comer mas só porque é um dia excepcional, o meu dia da asneira. Há sempre alguém a precisar de se controlar, de fechar a boca, para, definitivamente, emagrecer. É esse o objetivo. Emagrecer. As mulheres querem-se magras. 

Não estou a criticar as outras mulheres, atenção. Eu não sou excepção. Eu também sou em parte assim. Eu também queria ser magra. Eu também odeio os mil defeitos do meu corpo. E há momentos em que odeio todo o meu corpo. Eu também morro de vergonha ao ir à praia, sinto-me meia desconchavada ao vestir um biquíni, odeio comprar roupa porque concluo sempre que nada me serve e tudo me fica mal e, como é óbvio, morro de medo que os homens não gostem de mim por me acharem feia e gorda. Essa sou eu no meu dia-a-dia, com a auto-estima bem lá em baixo.

A única diferença é que eu combato esta vergonha do corpo de uma maneira muito peculiar (reparem na palavra, eu não digo que é a maneira certa, é só a maneira que eu arranjei para lidar com isto e tentar sofrer o mínimo possível). Nunca fiz uma dieta nem nunca tive um plano de exercício destinado a melhorar o meu corpo. A batalha acontece toda dentro da minha cabeça. É uma batalha enorme entre todos os meus traumas de mulher, todos os ideais de beleza que me foram inculcados e todos os estereotipos que se entranharam em mim desde que nasci e dos quais, por muito que queira, não consigo fugir, e aquela certeza, que fui adquirindo, conscientemente, deliberadamente, de que um corpo é só um corpo, que este corpo, que é meu e do qual não me posso livrar, que é na verdade aquilo que tenho de mais irredutível, não pode, apesar disso, ser o que me define. Que eu sou muito mais do que um corpo. Que qualquer mulher é muito mais do que um corpo. 

É uma batalha, digamos assim, entre sentimentos e razão. Racionalmente, eu estou-me nas tintas para o corpo e sei que não é isso que importa, mas no fundo, lá bem no fundo, sou uma fútil como todas as outras.

Portanto, se estiver vestida, se estiver feliz, se estiver bem com a minha vida, consigo ser super-racional. Sinto-me invencível, quero lá saber de como é que deveria ser o meu corpo. Mas quando estou mais exposta, quando algo corre mal, nos momentos em que me sinto mais frágil por algum motivo, é como se o meu corpo passasse a pesar mais vinte quilos, sinto-me miserável, não tenho dúvidas de que sou uma baleia e de que nunca ninguém (leia-se, um homem) vai alguma vez gostar de mim.

É que, depois, ainda há isto, temos de reconhecê-lo, somos todas mulheres modernas e emancipadas e preocupamo-nos com o nosso corpo não por causa dos outros mas porque queremos ser saudáveis e sentirmo-nos bonitas para nós (se eu não gostar de mim, quem gostará?, não era assim o anúncio?), mas a verdade é que é muito mais fácil gostar de nós próprias quando há alguém que também gosta e nos mima e nos diz que somos maravilhosas. A minha luta, muito pessoal, também passa por aqui. 

Como vêem, não é fácil estar dentro da minha cabeça. Está cheia de contradições e de coisas de que não gosto mas que não consigo evitar. Acho que já tinha explicado mais ou menos isto antes. Este também é um trabalho em constante progresso. Acredito muito que ter consciência das nossas falhas é um passo importante para melhorarmos.

Por isso, hoje, só porque sim, avanço mais um pouco nesta auto-terapia, dizendo: este é o meu corpo.

WhatsApp Image 2021-07-24 at 23.51.47.jpeg

A foto foi tirada pela Filipa num dia feliz. Encolhida, claro, para esconder as banhas. Mesmo assim, jurei que nunca a mostraria a ninguém. Mas agora achei que era ideal para acompanhar este texto, em jeito de perde a vergonha e assume os teus podres e os teus quilos, só possível graças às conversas recentes com a Ângela e com o Tiago que, cada um ao seu jeito, me fizeram perceber o quanto ainda tenho por andar neste processo de auto-aceitação e auto-estima.

Isto sou eu a aprender a ser feliz no meu corpo.

E a rir, pelo caminho.

(oxalá não tropece e me espatife toda)

publicado às 10:06

efd1a9cf-fbf8-4426-9df3-f0f1a1cdfe2f.jpg

Aquilo que vemos depende muito mais do que somos do que do que está efectivamente à nossa frente. Em Mare of Easttown, a fabulosa série da HBO protagonizada por Kate Winslet, eu vi mães, mulheres mas sobretudo mulheres-mães. A começar por Mare, a mãe que não conseguiu salvar o seu filho; passando por Helen, que é uma avó a recuperar o tempo perdido; por Carrie, a mãe que não o consegue ser; por Lori, a mãe que quer proteger o seu filho; até mesmo por Dawn, a mãe que procura desesperadamente a sua filha. E todas elas corroídas pelo sentimento de culpa, aquele sentimento de culpa que todas as mães conhecem tão bem, como se fosse sempre nossa responsabilidade, como se estivesse sempre ao nosso alcance garantir a felicidade dos nossos filhos, como se os erros deles fossem sempre, e antes de mais, erros nossos.

Depois há o resto. Mare of Easttown tem muitas camadas. Esta é também uma história sobre homens - e sobre pais. Sobre filhos e irmãos e os laços de solidariedade que existem nas famílias. Sobre jovens à procura de um caminho. Sobre a amizade. Sobre o certo e o errado. Sobre admitirmos os nossos erros. Sobre julgar os outros. Sobre aquilo que não controlamos. Mas, para mim, é sobretudo isto. Mães. Isto e uma mulher de quarenta e tal anos, sozinha, triste, cheia de falhas mas essencialmente comprometida com uma ideia de bem. 

Devorei os sete episódios de Mare of Easttown num dia de folga, o último dia de folga antes de mais uma empreitada de trabalho. Gostava de ter tempo para, daqui a uns tempos, voltar a vê-la, reparar nos pormenores, ver o que desta vez me passou ao lado. Sim, gostei assim tanto.

PS - E, já agora, aquele era mesmo o Guy Pearce com 53 anos? 

publicado às 08:08

Descobri esta semana (eu sei, sou um bocadinho ignorante), por causa de umas pesquisas que andava a fazer, que a palavra assédio é usada em contexto militar. 

Assédio: "acção que consiste em cercar militarmente uma posição inimiga, geralmente durante um período prolongado ou que se calcula dever durar muito. Sinónimo de cerco." (Priberam); "conjunto de operações que visam a conquista de uma posição inimiga" (Infopedia).

Fora do contexto militar, a palavra assédio tem mais ou menos o mesmo significado. É um cerco. Uma tentativa de domínio.

Falemos, então, do assunto do momento: o assédio sexual. Outra vez. As vezes que forem necessárias. E falemos, finalmente, do assédio sexual em Portugal.

Há mulheres que cometem assédio mas, convenhamos, na maioria dos casos o assédio é realizado por homens. Existe aqui uma forte componente cultural - não há nada na genética dos homens que os leve a ser javardos, os homens não sofrem de desejos incontroláveis nem têm ímpetos inatos que os levam a apalpar uma mulher na rua. Mas existe um caldo cultural no qual estes comportamentos têm sido apurados em lume brando ao longo de séculos. E que, como é óbvio, leva algum tempo a destruir. Estamos nesse caminho. Através da educação que damos aos rapazes e às raparigas. Através da legislação. Através dos debates que todos os dias temos no espaço público e que contribuem para mudar a forma como estes assuntos são encarados. Já conseguimos mudar muita coisa mas ainda há muito por mudar. 

E é isso que estamos a tentar a fazer quando falamos publicamente sobre o assunto.

Há diferentes comportamentos masculinos que estão errados e que demonstram uma profunda falta de respeito pelas mulheres. Mas estando todos errados não são todos iguais.

Há as situações de rua (que também podem acontecer no local de trabalho) - os piropos, os encostos no metro ou no elevador, os gajos que não param de olhar para o nosso corpo, o maluco sentado no canto do autocarro a mexer na pila, os colegas que comentam a tua aparência (são elogios, quem é não gosta? lol). É tudo horrível. As mulheres aprendem cedo a proteger-se destas situações. Mudamos para o outro lado do passeio. Baixamos os olhos. Encolhemos os ombros para esconder o decote. Ignoramos as javardices que ouvimos. Mulher séria não tem ouvidos, foi o que nos disseram desde pequeninas. Mas não deveria ser assim. Não deveríamos ter que passar por isto. Nenhuma mulher deveria sujeitar-se a ser tratada desta forma, nem deveria sentir-se desconfortável ou insegura apenas pelo facto de ter um corpo. Muita gente acha que não, mas isto já é assédio.

Existem outras situações de assédio que são já um passo em frente, que é quando os homens tentam interagir com as mulheres e, mesmo quando elas recusam os seus avanços, eles insistem. Isto é comum acontecer na noite, em bares ou discotecas. Mas pode acontecer noutras situações sociais, em festas de amigos ou mesmo entre colegas de trabalho. Há homens que têm muita dificuldade em aceitar um não. Que insistem em chegar-se mais perto, em colocar uma mão no nosso braço, em fazer sorrisos e olhinhos e insinuações mesmo quando já demos a entender que não estamos interessadas. Porque, entendamo-nos: uma coisa é um homem estar interessado numa mulher, demonstrar de alguma forma esse interesse e ser retribuído, ela interage com ele e a coisa evolui como ambos querem - isso é aquele processo de sedução que se quer saudável e divertido; outra coisa é um homem estar interessado numa mulher, ela demonstrar que não está interessada e ele insistir, tomando atitudes cada vez mais intrusivas. Uma coisa não se confunde com a outra, acreditem.

Estas duas situações de assédio são não só bastante comuns como são geralmente desvalorizadas pelos homens que, quando confrontados, raramente admitem que estão a fazer alguma coisa errada. Afinal, são só homens a ser homens, não é? Ora agora, já não se pode dizer nada? 

E, por fim, e num patamar ainda mais grave, diria eu, existe o assédio que é realizado por homens que estão numa posição de poder em relação à mulher. Os professores em relação às alunas. Os chefes em relação a subalternas. Os ministros, diretores, presidentes, senhores doutores (e etc.) em relação a qualquer mulher que, por algum motivo, sinta que se não corresponder pode ser prejudicada - no seu emprego, na sua vida. Sou uma sortuda, nunca passei por uma situação destas. Mas sei que, nestes casos, é triste dizê-lo, as mulheres acabam algumas vezes por sujeitar-se a fazerem coisas que não querem fazer. Por medo. Quase sempre por medo de represálias. Ou porque não têm, naquele momento, as ferramentas necessárias para saberem recusar, ou porque são muito novas ou muito frágeis ou porque se sentem encurraladas ou porque sentem que não têm opção, mas sempre por terem medo. Ou, então, recusam delicadamente os avanços e enfrentam sozinhas as consequências. E continuam a sentir medo.

Nada disto é aceitável.

E, sim, é bom ver que também em Portugal as vítimas estão a perder o medo de denunciar estas situações. Bravo, corajosas. 

Mas também seria bom que todos nós tomássemos consciência da quantidade de vezes em que vimos estas coisas acontecer à nossa frente e não fizemos nada. As vezes em que não mandámos calar aquele colega inconveniente. As vezes em que avisámos alguém: "tem cuidado com o fulano" em vez de confrontarmos directamente o fulano. As vezes em que falámos entre nós e o máximo que conseguimos foi insultar o gajo pelas costas e garantir que íamos estar sempre ali para as nossas amigas.

As vezes em que pessoas com poder em empresas e instituições foram complacentes com estas situações, riram-se dos comentários sobre as estagiárias, olharam para o outro lado para não verem, encolheram os ombros e disseram "ele é assim" em vez de tomarem uma posição: admoestando os abusadores, abrindo processos disciplinares e deixando bem claro que tais comportamentos não seriam mais tolerados.

Nem todos os homens são assim, felizmente. Mas, infelizmente, basta que alguns o sejam para causar um enorme sofrimento nas suas vítimas.

A quantidades de testemunhos que li nestas últimas semanas - nas redes sociais e na imprensa - denunciando casos de assédio, e o baixo nível dos comentários, críticas e insultos lançados a essas mulheres mostram bem o quanto ainda nos falta andar.  

Vamos?

publicado às 01:04

É muito cansativo ser mulher no Dia da Mulher. No supermercado, havia ontem uma bancada especial com flores. No Facebook, amigos falavam do quanto as mulheres são especiais porque têm o poder de dar vida e mandavam mensagens desejando um "feliz dia". Na comunicação social, repetiram-se as entrevistas às mulheres de sucesso. A sério. É muito cansativo ser mulher no Dia da Mulher, o que nos mostra o quanto este dia ainda é necessário.

Fixemos isto: em 2021 houve uma mulher, diretora de um jornal, que se deu ao luxo de escrever nas suas redes sociais que "das fracas não rezará a história", como se só as CEO deste mundo fossem "mulheres com M maiúsculo". Infelizmente, não é a única a pensar assim.

Podíamos comentar como é fácil ser forte quando se é herdeira de uma empresa e se tem uma Marilene lá em casa a fazer o jantar para toda a família, mas não vamos entrar por aí, não é? O problema é muito mais grave do que isso. É que esta ideia de mulheres fortes e fracas remete para uma hierarquização das pessoas em função de um determinado conceito de estatuto social. E isso é algo tão inacreditavelmente preconceituoso.

Em nome das "fraquinhas" deste mundo, quero homenagear todas as mulheres - mesmo aquelas anónimas que não terão nunca direito a um rodapé nos livros de história - e dizer-lhes que independentemente de serem criadas ou gestoras de empresas, de serem ricas ou pobres, gordas ou magras, feias ou bonitas, de usarem chinelos ou saltos altos, independentemente do apelido, da cor da pele, da quantidade de pêlos que têm no corpo, independentemente de terem ou não filhos e dos motivos para tal, independentemente de terem nascido em Portugal ou na Índia, de morarem na avenida de Roma ou na Cova da Moura, independentemente das origens e das opções de vida, independentemente de se manifestarem na rua pelos vossos direitos ou de sofrerem em silêncio por todas as violências de que são alvo, vocês, mulheres, todas as mulheres, merecem ter todo o respeito, toda a liberdade e todos os direitos que os homens têm.  E isto é só o começo da conversa.

escrava.jpg

Laundress-1024x660.jpg

women-working-in-a-facotry-pic-getty-images-367492

Mulheres-cultivo-arroz-Alentejo_VNR_site-destaque.

gender_on_the_homefront_header_image.jpg

4a6aab9daac43f1e66b32737fadffd43.jpg

publicado às 13:46

08
Jan21

"Fofinhas"

cuties_french_poster.0.jpg

Vi, finalmente, nas férias de natal, o polémico filme Mignonnes (Cuties, na versão inglesa), da francesa Maïmouna Doucouré. A realizadora, filha de senegaleses, cresceu dividida entre a cultura muçulmana da sua família e a cultura ocidental da cidade de Paris, e foi buscar muita dessa experiência para fazer a sua primeira longa-metragem. O filme acompanha Amy, uma rapariga franco-senegalesa que, além de viver neste caldo de culturas, tem 11 anos, ou seja, está a deixar de ser criança e, como todos os adolescentes, tem na cabeça um turbilhão de dúvidas, de insatisfações e de vontades. Faz parte do crescimento.

Tendo filhos adolescentes, consigo identificar perfeitamente alguns dos problemas por que os miúdos passam nestas idades, seja pela pressão de pertencer a um grupo e de se identificarem com os outros, seja pela dependência das tecnologias e pelo papel exagerado que as redes sociais têm na sua visão do mundo. Mas claro que os rapazes sofrem menos pressão em relação à sua imagem. A hiperssexualização das raparigas na adolescência, visível no modo como se vestem e nas fotografias que publicam, é um dos aspectos que é focado no filme. Elas têm muita pressa de crescer mas continuam a dormir com peluches e a perder a cabeça por um saco de gomas.

Cuties é bastante realista e isso é algo que me agrada. Percebe-se que Maïmouna Doucouré conhecia a realidade que estava a filmar e escolheu bem as atrizes, sobretudo a protagonista Fathia Youssouf e a sua melhor amiga, Médina El Aidi-Azouni. As cenas do quotidiano das raparigas, em casa e na rua, são as mais bem conseguidas do filme. No entanto, e sem querer ser spoiler, eu achei o final um bocadinho moralista.

Sobre a polémica: é preciso lembrar que ela foi provocada acima de tudo pelo modo como o filme foi promovido pela Netflix, que usou no cartaz uma imagem que explorava a sexualização do corpo das miúdas (precisamente um dos aspectos que o filme pretende criticar) e é uma pena que, como sempre, tantas pessoas embarquem em críticas e petições sem primeiro ver o filme e construir a sua própria opinião.

Podem ler AQUI algumas das explicações que a realizadora deu nessa altura.

Vendo o filme, não me parece que haja motivo a tamanhas indignações, embora haja motivo para grandes reflexões. Mesmo. Eu confesso que apesar de ter gostado senti algum desconforto. Primeiro, não é despropositado questionar se, ao reproduzir a estética dos videoclipes no modo como filma as cenas de dança das raparigas, Doucouré não estará a perpetuar o tal male gaze que tanto nos incomoda. Há, de facto, demasiados grandes planos de rabos e de boquinhas. E também é importante lembrar que as atrizes que ali vemos a fazer twerking e a imitar posições sensuais tinham 12 e 13 anos na altura - sim, sabemos que de uma maneira geral as raparigas dessa idade não são assim tão inocentes, mas isso não faz com que seja legítimo colocá-las nessa situação (são, para todos os efeitos, crianças e por isso não terão a capacidade de perceber o alcance e o significado que aquelas imagens podem ter, logo, é suposto serem protegidas - em vez de expostas - pelos adultos). 

publicado às 09:56

"O nojo da amamentação, essa função animal. E, mais tarde, os vapores mornos e adocicados das papas. Por mais que me lavasse, aquele mau cheiro a mãe não me saía do corpo. Mário às vezes colava-se a mim, abraçava-me e possuía-me ensonada, também ele cansado do trabalho, sem emoção. Fazia-o, atirando-se à minha carne quase ausente, que sabia a leite, a bolachas, a farinhas, cheio de um desespero pessoal que aflorava o meu sem o reconhecer. Eu era o corpo de um incesto, pensava atordoada pelo cheiro do vomitado de Gianni, era a violação da mãe e não a posse de uma amante."

de Os Dias do Abandono em Crónicas do Mal de Amor de Elena Ferrante 

A Céu pega neste excerto para perguntar: poderia um homem ter escrito isto? A resposta parece óbvia. Mas deixem-me devolver a pergunta, em forma de provocação: poderia uma mulher que nunca teve filhos ter escrito isto? E, mesmo das que tiveram filhos, quantas sentiram a experiência de forma a poder escrever isto?

O que eu quero mesmo perguntar é: o que é isso de uma "escrita feminina"?

Não tenho uma resposta. Tenho algumas ideias sobre o assunto e muitas dúvidas. É um facto que tenho lido mais livros de mulheres e sobre mulheres. Mas resisto muito a classificações simplistas. Parece-me cada vez mais problemático arrumar autores (ou pessoas) em gavetas. Mas ainda não sei bem que outro tipo de arrumação lhes dar.

Ia aconselhar-vos o clube do livro da Sara Barros Leitão que ao longo de um ano vai discutir livros feministas mas, infelizmente, as inscrições para a primeira sessão esgotaram-se em poucas horas. Podemos sempre ir lendo os livros e acompanhando a discussão online, é melhor do que nada.

E vou também tentar acompanhar o curso de Introdução à História do Feminismo, que começa este sábado.

Talvez lá mais para o fim do ano já consiga alinhavar umas frases sobre o assunto.

df41a863cdb18e97eda5577c317ad36f.jpg

Louisa May Alcott (1832-1888), autora de Mulherzinhas

publicado às 11:23


Mais sobre mim

foto do autor