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25
Fev20

Be a lady

Campanha da revista Girls Girls Girls com a atriz Cynthia Nixon (de O Sexo e a Cidade) e palavras escritas em 2017 pela blogger Camille Rainville sobre a dificuldade em ser mulher e cumprir todas as expectativas que têm para nós. Sobre todo o controlo que é exercido sobre o corpo e a vida das mulheres. Sobre a pressão e o escrutínio constantes a que as mulheres estão sujeitas. Sobre o modo como os homens dominam a nossa vontade. E a necessidade absoluta de as mulheres fazerem o que querem fazer sem pensarem no que fica bem ou no que os outros vão dizer. Tenho escrito muito sobre isto por aqui. E nunca é demais.

 

“Be a lady they said. Your skirt is too short. Your shirt is too low. Your pants are too tight. Don’t show so much skin. Don’t show your thighs. Don’t show your breasts. Don’t show your midriff. Don’t show your cleavage. Don’t show your underwear. Don’t show your shoulders. Cover up. Leave something to the imagination. Dress modestly. Don’t be a temptress. Men can’t control themselves. Men have needs. You look frumpy. Loosen up. Show some skin. Look sexy. Look hot. Don’t be so provocative. You’re asking for it. Wear black. Wear heels. You’re too dressed up. You’re too dressed down. Don’t wear those sweatpants; you look like you’ve let yourself go.

Be a lady they said. Don’t be too fat. Don’t be too thin. Don’t be too large. Don’t be too small. Eat up. Slim down. Stop eating so much. Don’t eat too fast. Order a salad. Don’t eat carbs. Skip dessert. You need to lose weight. Fit into that dress. Go on a diet. Watch what you eat. Eat celery. Chew gum. Drink lots of water. You have to fit into those jeans. God, you look like a skeleton. Why don’t you just eat? You look emaciated. You look sick. Eat a burger. Men like women with some meat on their bones. Be small. Be light. Be little. Be petite. Be feminine. Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Be a lady they said. Remove your body hair. Shave your legs. Shave your armpits. Shave your bikini line. Wax your face. Wax your arms. Wax your eyebrows. Get rid of your mustache. Bleach this. Bleach that. Lighten your skin. Tan your skin. Eradicate your scars. Cover your stretch marks. Tighten your abs. Plump your lips. Botox your wrinkles. Lift your face. Tuck your tummy. Thin your thighs. Tone your calves. Perk up your boobs. Look natural. Be yourself. Be genuine. Be confident. You’re trying too hard. You look overdone. Men don’t like girls who try too hard.

Be a lady they said. Wear makeup. Prime your face. Conceal your blemishes. Contour your nose. Highlight your cheekbones. Line your lids. Fill in your brows. Lengthen your lashes. Color your lips. Powder, blush, bronze, highlight. Your hair is too short. Your hair is too long. Your ends are split. Highlight your hair. Your roots are showing. Dye your hair. Not blue, that looks unnatural. You’re going grey. You look so old. Look young. Look youthful. Look ageless. Don’t get old. Women don’t get old. Old is ugly. Men don’t like ugly.

Be a lady they said. Save yourself. Be pure. Be virginal. Don’t talk about sex. Don’t flirt. Don’t be a skank. Don’t be a whore. Don’t sleep around. Don’t lose your dignity. Don’t have sex with too many men. Don’t give yourself away. Men don’t like sluts. Don’t be a prude. Don’t be so up tight. Have a little fun. Smile more. Pleasure men. Be experienced. Be sexual. Be innocent. Be dirty. Be virginal. Be sexy. Be the cool girl. Don’t be like the other girls.

Be a lady they said. Don’t talk to loud. Don’t talk too much. Don’t take up space. Don’t sit like that. Don’t stand like that. Don’t be intimidating. Why are you so miserable? Don’t be a bitch. Don’t be so bossy. Don’t be assertive. Don’t overact. Don’t be so emotional. Don’t cry. Don’t yell. Don’t swear. Be passive. Be obedient. Endure the pain. Be pleasing. Don’t complain. Let him down easy. Boost his ego. Make him fall for you. Men want what they can’t have. Don’t give yourself away. Make him work for it. Men love the chase. Fold his clothes. Cook his dinner. Keep him happy. That’s a woman’s job. You’ll make a good wife some day. Take his last name. You hyphenated your name? Crazy feminist. Give him children. You don’t want children? You will some day. You’ll change your mind.

Be a lady they said. Don’t get raped. Protect yourself. Don’t drink too much. Don’t walk alone. Don’t go out too late. Don’t dress like that. Don’t show too much. Don’t get drunk. Don’t leave your drink. Have a buddy. Walk where it is well lit. Stay in the safe neighborhoods. Tell someone where you’re going. Bring pepper spray. Buy a rape whistle. Hold your keys like a weapon. Take a self-defense course. Check your trunk. Lock your doors. Don’t go out alone. Don’t make eye contact. Don’t bat your eyelashes. Don’t look easy. Don’t attract attention. Don’t work late. Don’t crack dirty jokes. Don’t smile at strangers. Don’t go out at night. Don’t trust anyone. Don’t say yes. Don’t say no.

Just “be a lady” they said.”

publicado às 17:07

Frida Mom é uma marca de produtos de higiene íntima feminina. O seu último anúncio publicitário foi censurado pela ABC e proibido de passar na televisão no intervalo da cerimónia dos Óscares. Demasiado gráfico, disseram. Não porque seja violento ou porque revele qualquer nudez, mas porque mostra algo que nunca é mostrado e de que ninguém fala: o sofrimento de uma mulher, depois de dar à luz, com algo tão básico como fazer chichi.

É um daqueles tabus que ainda existem em volta do corpo (sobretudo do corpo da mulher). O parto parece que já é um assunto mais ou menos normal mas a menstruação e as necessidades fisiológicas são temas proibidos. Sobre o pós-parto, então, ninguém fala. Nem às grávidas. É como se não existisse. Dizem-nos: "o corpo está preparado para cicatrizar e voltar ao lugar". Ninguém nos diz quão doloroso vai ser. Porquê? 

Quando o António nasceu eu fui cortada e cosida, como quase todas as mulheres que vão parir aos hospitais públicos. A episiotomia é (ou pelo menos era) um procedimento de rotina, feito por princípio, sem se avaliar da sua real necessidade e sem que a mulher seja consultada. O pós-parto é terrível. As dores são imensas. No hospital, deram-me gelo para ajudar o inchaço a diminuir. Como sabem, mesmo depois do nascimento do bebé, o corpo continua a libertar muito sangue. E mesmo com dores e com pontos na vagina, é preciso ir à casa-de-banho, fazer chichi e cocó (e por mais que nos digam que está tudo bem, é inevitável ter medo de fazer força). Não é uma fase muito agradável. A cicatrização pode correr às mil maravilhas ou podem surgir complicações. No meu caso, talvez porque eu estava imbuída do espírito da super-mulher, típico de quem é mãe pela primeira vez, e me tenha esforçado mais do que era aconselhável, correu mal. Os pontos caíram mas a costura não cicatrizou, avisou-me a médica na primeira consulta do puerpério, daí o facto de as dores persistirem. Eu quase não me conseguia mexer, nem andar nem sentar-me normalmente. Foi preciso ter cuidados redobrados. De cada vez que ia à casa-de-banho lavava-me com água fria (que arrepio) e com um sabão especial e limpava-me com uma toalha com muito cuidado. Depois, usava o secador, com vento frio, para ter a certeza que a zona ficava bem seca. Tenho ideia que também punha uma pomada qualquer. O processo demorou quase um mês. Aquele mês em que estava a aprender a ser mãe, a lidar com hormonas aos saltos, com noites sem dormir e com essas coisas todas, boas e más, que nos acontecem no corpo e na vida quando temos um filho. Entretando, as dores passaram e a médica confirmou a cicatrização. Mas a minha (nossa) vida sexual continuou arruinada ainda por bastante tempo. Por medo, sim, mas também porque a cabeça é lixada e não é fácil ter vontade de procurar o prazer numa zona do corpo que tanto sofrimento me tinha causado. Com o segundo filho as coisas correram bastante melhor. Voltei a ser cortada e cosida mas já sabia o que tinha de fazer e não fazer, desde o primeiro dia, para evitar complicações. Doeu (doeu muito) mas foi tudo mais fácil e rápido.

Disto ninguém fala, não é?

Ah, não é bonito, é uma coisa íntima, que necessidade há de contar? 

Pois eu acho que é muito importante. Quanto mais preparadas estivermos para o que vai acontecer mais hipóteses temos de que tudo corra bem. Quanto mais avisadas estivermos de que isto é normal, menos probabilidades haverá de nos sentirmos miseráveis e ainda mais deprimidas (porque este é um momento muito propenso a depressões). Quanto mais informados estiverem os que estão à nossa volta (incluindo os companheiros) melhor compreenderão o nosso sofrimento.

Não é bonito, pois não, mas existe, é o que é, portanto, mais vale aprendermos a lidar com isto como gente grande. 

publicado às 11:10

Não sou grande consumidora de séries mas estou em crer que desde que Charlotte e Miranda nos mostraram as maravilhas do Rabbitt, na quinta temporada de Sexo e a Cidade, que uma série não falava tão abertamente de masturbação feminina como acontece na primeira temporada de Fleabag. Só por isso esta série já merecia um pouco atenção. Mas a verdade é que Fleabag faz muito mais do que isso pois fala de mulheres e de sexo sem complexos, com inteligência e com humor, o que é uma verdadeira raridade.

A criadora de Fleabag é Phoebe Waller-Bridge, atriz e argumentista britânica que tem agora 34 anos. Tudo começou como um pequeno solo de stand-up comedy que depois deu origem à primeira temporada de uma série sobre uma mulher independente e solteira, em Londres, as suas angústias, os seus desejos, os seus falhanços, as suas paixões, as suas tristezas e a relação com a família - a irmã e o cunhado, o pai e a madrasta. Ela é daquelas pessoas a quem corre sempre tudo mal, mas também é daquelas que consegue (quase) sempre desenrascar-se. Com inúmeros defeitos mas por quem nos apaixonamos ao primeiro sorriso. A primeira temporada estreou em 2016 na BBC e o sucesso foi enorme, pelo que a segunda temporada estreou em 2019. Ambas estão disponíveis em Portugal no serviço da Amazon Prime. Cada temporada tem seis episódios com menos de 30 minutos, o que significa que esta é a série ideal para uma noitada de binge watching. É quase impossível parar, garanto-vos.

Fleabag foi nomeada para vários vários prémios, e ganhou alguns deles, incluindo Emmys e Globos de Ouro, o último dos quais na semana passada para a melhor atriz, Phoebe Waller-Bridge. Apesar disso, ela já garantiu que não vai haver terceira temporada pois não vê como poderá ser mais criativa e levar mais longe as premissas da série (por exemplo, os apartes da personagem, que "conversa" com os espectadores). Apesar de ter imensa pena de não ter mais episódios para ver, espero que mantenha a sua decisão. É que a série, tal como está, é tão boa, com as doses certas de humor e drama, emoção e sexo, reflexão e palhaçada, que era bem provável que ficássemos desiludidos com a continuação. 

Fleabag significa espelunca (se for um lugar) ou de má reputação (se for uma pessoa). Não se deixem enganar pelo título. Para mim, é mesmo do melhor que há por aí.

Podia deixar aqui o trailer, mas prefiro deixar-vos esta pérola sobre a menopausa (e sobre isto de ser mulher) por Kristin Scott-Thomas, num dos episódios da segunda temporada:

publicado às 18:23

"Ostra feliz não faz pérola
Não faz pérola, Não faz pérola!

Madrepérola, eu mando como Chimamanda
No comando como Che, sambo como Jôjô samba
Se caio, caio de pé, imortal como Chavela
Sensual como Sade, vertical como Mandela!
Nobel como Malala, Má como Mala Rodriguez
Amada como Amália Rodrigues.
Como Nina Simone ou Simone de Beauvoir
Dá-me um microfone sou Simone a cantar!
Invensível como Elza, eterna como Lhasa
Diva como Eva, Donna como em casa.
Mandona como Madonna, bossy como Kelis
Louca como Maradona, prima-dona como Elis.
Quem te manda, sou malandra, manda-chuva tipo Anitta
Pêlo na venta, tu tentas, eu sou Conchita.
Wasted como Rita, livre como a Lee
Eu faço a minha guita com o Rap: Cardi B!

Madrepérola, eu mando como Chimamanda
No comando como Che, sambo como Jôjô samba
Se caio, caio de pé, imortal como Chavela
Sensual como Sade, vertical como Mandela!

(Karol Conka) A mensagem se espalha
A resistência é combustível pra batalha!
Sem contos de fadas
Pesadelo causado por quem está de farda!
Só quem vive sabe
Num mundo de ambição não tem perdão.
Só quem vive sabe
Criar a condição na contramão.
E eu faço do meu jeito
Se vem com pouco não me contento
Tento fazer do meu tempo o meu sustento.
Vejo que não temos nada a temer, nada a esconder
É! Só quem vive sabe!
Se vem com pouco não me contento
Tento fazer do meu tempo o meu sustento
Vejo que não temos nada a temer, nada a esconder
Capicua e Karol Conka, saber!

Madrepérola, como Frida não me calo,
Faço arte da ferida, cuspo no patriarcado,
Faço parte da família como Venus e Serena
Temos pena, como Azealia, a minha língua dá problema!
Tombo como Conka, reino como Badú
Bailo com a Blaya, ave Maya Angelou!
Tu não entres na disputa, sou filha da luta
Histórica como Djamal neste rap tuga.
No pódio como Laurin Hill, Cruella De Vil
Tinha 101 problemas, derreti-os num vinil.
Pioneira como Lady Pink, tu não te compares
Tu chegas-te a mim, eu digo “Dracarys!”
Primeira de meu nome, rainha da rima sábia
Tipo Grace Jones: revolucionária!
Vim dar lições a putos e a homens das cavernas
Sobre a vida com V grande e V no meio das pernas!"

Madrepérola, música nova de Capicua com Karol Conka
(e a voz da grande Hannhah Gadsby a fechar)

publicado às 12:31

A dona Dolores tirou uma fotografia de bikini na beira da piscina. E partilhou-a nas redes sociais.

Eu admiro muito aquela mulher.  

Eu não tiro fotografias em bikini. E se na praia alguém quiser tirar fotografias eu vou a correr vestir uma roupita ou encolho-me de maneira a que não apareça muito do meu corpo. E se tirar alguma fotografia de certeza que não a partilho nas redes sociais. Aliás, se eu estiver de bikini faço os possíveis para não encontrar ninguém que seja vagamente conhecido. Porque eu - até posso disfarçar e fingir que não é nada e pôr um ar super-seguro de quem é a maior mas a verdade é que - tenho muita vergonha que as outras pessoas olhem para o meu corpo gordo despido e para as banhas e celulites todas que eu para aqui tenho. Portanto, sempre que posso, evito mostrá-lo. E eu sei que isto é errado. Sei que as pessoas são mais do que um corpo (sei que eu sou mais do que um corpo). E defendo com unhas e dentes o direito a cada um ter o corpo que tem, sem vergonhas nem tabus. E até consigo, no dia-a-dia, viver tranquilamente com o meu corpo. É só vestir uma roupa discreta e esquecer que tenho um corpo. Mas quando estou seminua é mais difícil. Uma pessoa fica consciente de todas as suas imperfeições e não há auto-estima que resista.

Mas, sabem, eu não queria ser magra. Eu só queria estar-me nas tintas para o que os outros pensam. Eu não faço dieta, eu luto contra a minha falta de confiança.

Por isso eu admiro a dona Dolores. E queria ser assim. Uma mulher que vive bem com o seu corpo. Que diz: esta sou e estou-me a cagar para vocês. Esta sou eu e sou feliz, olhem lá para mim e vejam como eu sou feliz. 

Acho mesmo triste que haja gente a gozar com ela. E que alguma dessa gente sejam mulheres e que até se digam feministas. E que alguma dessa gente sejam pessoas inteligentes e que até se digam defensoras da liberdade individual. Mas não resistem a gozar. Ah, é só uma brincadeira, dizem. Mas não é. Porque quando gozam com ela na verdade estão a dizer: "olhem o desplante desta gorda que não tem vergonha de se mostrar, não saberá ela que as gordas têm de se tapar? que só as magras e boas é que têm o direito de exibir o seu corpo de bikini?" E isso não tem graça, é só maldade e mesquinhez.

Voltamos sempre ao mesmo

E, já agora, podem ler AQUI sobre um livro extraordinário, A Gorda.

publicado às 19:52

03
Mai19

Pêlos

Tenho calores e frios e tudo ao mesmo tempo sempre que vejo notícias e comentários e polémicas sobre esta coisa dos pêlos. Esta mania que a sociedade tem de determinar como é que deve ser o corpo da mulher. Mais do que isso: como é que deve ser a mulher. E de culpabilizar as mulheres que não correspondem à suposta norma. Isso acontece com o peso, com as formas, com a celulite, com os pêlos, com a roupa, com o cabelo, com o trabalho, com a maternidade, com tudo... Existe uma imagem da mulher que é considerada a certa e depois existem mulheres que são diferentes e, logo, são publicamente criticadas. Porquê? No caso dos pêlos, por exemplo, digam-me lá qual é a justificação para se aceitar que um homem tenha pêlos (nos sovacos, nas pernas, na zona púbica) mas depois numa mulher isso já ser considerado feio e até nojento? 

Mas, claro, isto é a apenas a ponta de um iceberg muito maior que é esta mania (antiga como o mundo mas agora muito mais visível e potencializada pelas redes sociais) de que temos direito a meter o bedelho na vidinha dos outros.

Esta mania de dar a nossa opinião, por tudo e por nada. E de querer impor a nossa opinião sobre a dos outros, criticando e insultando quem se atreve a ser diferente.

Deixem as mulheres (e as pessoas em geral) serem como quiserem ser.origin.jpg

Esta é Annahstasia no anúncio da Nike que tanto chocou algumas pessoas.

Lembrei-me DISTO, que escrevi há mais de dez anos. Tão bom. Tão eu.

publicado às 11:00

16
Abr19

Vivian Maier

Descobri a Vivian Maier por acaso, como quase tudo o que nos acontece de bom. Numa noite de tédio em frente da televisão, ora vamos lá ver o que há para aqui para me entreter até me dar o sono. E havia este documentário sobre uma fotógrafa.

Vivian Maier nasceu em 1929 em Nova Iorque e cresceu para ser uma mulher solitária. Sem família, sem amores. Trabalhou brevemente numa fábrica e percebeu que não era nada disso que queria, então decidiu tornar-se ama, um trabalho que lhe permitia passar parte do dia na rua, a brincar e a passear com as crianças, e que além disso lhe dava alojamento e liberdade. Ela não precisava de mais nada. Não era propriamente a ama mais carinhosa do mundo. Falava pouco. Não contava nada da sua vida a ninguém. Em cada casa por onde passou contou um passado diferente, apresentou-se inclusivamente com nomes diferentes. No seu quarto, fechado à chave, guardava recortes de jornais e outras mil bugigangas. Descrevem-na como uma mulher "estranha", ou seja, diferente das outras. Muito alta, quase sempre de chapéu de abas na cabeça, com roupas pouco charmosas.

Vivian andava sempre com a sua Roliflex ao pescoço e fotografava de tudo um pouco. Mas imprimiu muito poucas fotografias. Fotografava obsessivamente e é óbvio que isso lhe dava prazer, mas não se interessava por ver as fotografias que tirava, muito menos por mostrá-las a outras pessoas. Quando morreu, sozinha e na pobreza, em 2009, deixou caixas cheias de milhares de negativos, rolos por revelar, provas de contacto. E só então se descobriu a maravilhosa fotógrafa que ela era. As suas fotografias, muitas a preto e branco, algumas a cores, são um documento incrível sobre a vida - em Nova Iorque, em Chicago, noutras partes do mundo - nos anos 50, 60 e 70. E o que é ainda mais fascinante é que aparentemente ela tirava aquelas fotografias instintivamente, enquanto deambulava pelas ruas, sozinha ou com crianças, sem perder muito tempo a pensar no enquadramento e na luz, muitas vezes apanhando as pessoas desprevenidas. Um momento. Um clique. E o resultado é incrível - descubram o seu trabalho no site www.vivianmaier.com que não se vão arrepender.

VM19XXW03457-07-MC.jpg

Não temos que ser todos iguais. Ainda bem que não somos todos iguais. São as pessoas que são diferentes, que pensam de maneira diferente, que não se enquadram, que, ainda que se sujeitem às regras sociais, mantêm uma cabeça livre, são essas pessoas que fazem geralmente coisas maravilhosas. Ainda que sejam pequenas. Pequenas coisas maravilhosas. Como as fotografias de Vivian Maier.

publicado às 09:31

06
Mar19

Mulher

Esta coisa de sermos quem somos, sem mas, sem culpas, sem tabus. Esta tem sido a longa caminhada das mulheres ao longo da história. E tem sido também a minha própria caminhada nestes quase 45 anos. As mulheres crescem sob censura. Uma menina não deve. Uma rapariga nunca. Uma senhora jamais. De coisas tão simples como não dizer palavrões a coisas tão complexas como não revelar os seus desejos sexuais (mulher decente não tem cá disso) passando por não andar sozinha na rua à noite, é longa a lista de coisas que as mulheres não devem fazer porque são mulheres e só por isso estão sujeitas a mil perigos ou apenas porque têm uma reputação a manter (o que é que as pessoas vão pensar?).

Esconder. Calar. Aceitar. Obedecer. Tapar o corpo. Sufocar as vontades. Conter os gestos. Silenciar as palavras. Sentir vergonha.  

Evoluímos muito, não há dúvida. Mas ainda há muito por fazer. No mundo inteiro. Aqui mesmo em Portugal, não se deixem enganar. As mulheres que fazem o que querem ainda são seres estranhos. Ainda são motivos de artigos de jornal no dia da mulher - e enquanto for necessário fazer artigos de jornal sobre as mulheres extraordinárias que fazem o que querem é porque ainda há um caminho por andar.

A propósito:

- O filme Period. End of sentence, que ganhou o Óscar para Melhor Curta Metragem de Documentário, mostra uma comunidade na Índia (um país onde apenas 10% das mulheres usam pensos higiénicos, as outras usam "paninhos") onde uma pequena unidade de produção de pensos low cost está a mudar a vida de muitas raparigas. É comovente de muitas maneiras. E não deixa de nos pôr a pensar que enquanto nós, na Europa, nos preocupamos com o ambiente e andamos a tentar substituir os pensos por copos menstruais, ainda há mulheres para quem o simples uso de um penso descartável pode significar um passo gigantesco rumo à emancipação. O filme está disponível na Netflix.

- A música de Mynda Guevara, uma rapper de 22 anos. Conto a história dela e da sua determinação AQUI

- E, já agora, o filme de Raquel Freire onde Mynda Guevara aparece. Chama-se Mulheres do Meu País e é um documentário que nos mostra como várias mulheres são heroínas todos os dias, só pelo simples facto de serem mulheres e de, apesar disso, não quererem deixar de fazer as coisas que têm vontade de fazer. Estudar, pescar, ser bombeira, fazer rap, o que for. O filme tem ante-estreia amanhã, em Lisboa, e depois vai chegar à RTP. 

Embora não ligue nada, acho bem que se assinale o Dia da Mulher, porque ainda é necessário, mas não se esqueçam: somos mulheres todos os dias.

publicado às 17:36

06
Jan19

Eliete

A Dulce Maria Cardoso tem a capacidade incrível de escrever sobre o mundo, o nosso mundinho, aquelas pequenas coisas do dia-a-dia em que nós quase nem reparamos mas que fazem parte da nossa vida. Os likes no facebook. A pastelaria da esquina. O quintal da avó. Os ciúmes da tableforone. As casas à venda. Os sapatos que magoam os pés. O frango assado para o jantar. A cave onde guardamos o passado encaixotado. Os betos do liceu. A lingerie barata. Os turistas na praia. O inglês macarrónico com que cantamos as canções da rádio. A final do europeu. O cheiro a desinfectante nos lares da terceira idade. Além disso, a Dulce Maria Cardoso tem a capacidade muito rara de escrever sobre o que se passa na cabeça das mulheres - sem preconceitos. Lemos Eliete e sentimos que ela está a falar de nós. Não porque eu seja como ela ou faça o que ela faz. Mas porque sabemos exactamente como é que ela é e tudo o que sente. Está lá tudo. A relação de amor-ódio com a mãe. As saudades do pai. A melhor amiga. Os miúdos da escola. As memórias da infância. O príncipe sonhado. O sexo sonhado. O futuro sonhado. O presente mal-amanhado. As rugas na cara. A celulite. A dieta. Os filhos que crescem. A avó com alzheimer. O envelhecimento.  O querer sentir-se desejada. Estão lá os desejos e as frustrações de uma mulher de 40 anos, que podia ser alguma de nós, que de certa forma é uma de nós. A solidão. A insegurança. A busca por algo que dê sentido a isto tudo. 

De Dulce Maria Cardoso já li O Retorno (o meu preferido) e Os Meus Sentimentos. O mais recente, Eliete, é um daqueles livros que nos agarra e nos leva sofregamente por ali afora com aquelas palavras simples encadeadas como se encadeia a vida. Só é pena aquele final. O Salazar. Que despropósito. Mas pronto. 

publicado às 23:17

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A editora Minotauro está a reeditar a obra de Maria Judite de Carvalho (1921-1998) e eu, que sabia muito pouco sobre esta autora, fiquei curiosa e decidi levar o Tanta gente, Mariana para ler na praia. Não me arrependi. Ali estão as mulheres de um outro tempo - confinadas à casa, subjugadas a uma moral machista e a um poder masculino, tantas vezes imersas numa solidão que não ousavam confessar, frustradas nos seus desejos. De um outro tempo, disse eu? Felizmente, sim. Mas, ao mesmo tempo, reconhecemo-nos (a nós, às nossas mães, às nossas avós) ainda tanto nelas. Congratulei-me por todas as conquistas que entretanto fizemos mas não pude deixar de me entristecer ao perceber que ainda somos tantas vezes mulheres caladas, escondidas, envergonhadas. 

Por estes dias li também Florinhas de Soror Nada, de Luísa Costa Gomes, que de uma maneira completamente diferente acaba por nos falar do mesmo - do modo como a religião e a educação se têm ocupado a incutir na mulher uma vergonha do corpo e do prazer.

É por isso que todos deveriam ler Querida Ijeawele - Como educar para o feminismo, de Chimamanda Ngozi Adichie. Trata-se de uma carta escrita pela autora nigeriana para uma amiga grávida com conselhos para a educação da rapariga que aí vem. Não traz nenhuma novidade para quem já anda a pensar nestes assuntos, mas tem a vantagem de sistematizar aquilo que andamos a dizer e de servir como um reforço do que já eram as minhas convicções.

Não foi de propósito que escolhi estes livros para ler nas férias mas não deixa de ser sintomático que se tenham juntado todos na minha mala de viagem. 

publicado às 13:22


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