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De vez em quando estou a conversar com alguém ou a ler um livro ou a ver um filme ou o que seja e dou por mim a surpreender-me: uma ideia nova, um conceito estranho, uma descoberta. Como é que eu nunca tinha pensado nisto? Aconteceu-me recentemente ao ler Não serei eu mulher?, de Bell Hooks, e agora mesmo com Memórias da Plantação: Episódios do Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba. E se eu, que me interesso por estes assuntos, do feminismo e do racismo, nunca tinha pensado em algumas das coisas que elas ali escrevem, imaginem todas aquelas pessoas que vivem felizes e contentes a achar que vivemos numa sociedade muito igualitária e justa, onde todos são tratados de forma igual e têm as mesmas oportunidades, aqueles que dizem que o colonialismo português foi suave e que não há racismo em Portugal, entre outras narrativas apaziguadoras. Memórias da Plantação pôs-me a pensar nos nossos pequenos actos e também nas palavras que usamos. As palavras são importantes, isso eu já sabia. As palavras são ideologia e são poder, isso eu também já sabia. Mas nunca tinha pensado verdadeiramente em como as palavras podem ser violentas para muitas pessoas. Não tinha considerado como deve ser a dimensão desta violência.

 

Agora que já sei o que posso fazer com este conhecimento? Mudar algumas das minhas atitudes e das minhas palavras, obviamente. E, além disso, tenciono fazer aquilo que sei fazer melhor: não ficar calada. O que me faz ter muitas discussões com as pessoas que estão à minha volta e que insistem em dizer barbaridades, mas, pronto, assim como assim já tenho a fama de ter mau feitio mais vale usá-la para algo importante como fazer com que este mundo seja um bocadinho melhor.

 

A propósito:

 

Aproveitem para ir ver Três Rostos, o filme de Jafar Panahi, sobre a condição das mulheres no Irão. Só para nos lembrarmos que, apesar deste país imperfeito que temos, vivemos num local muito privilegiado a todos os níveis.

E votar.  Já foram votar? 

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publicado às 13:08

Queria ter colocado esta imagem no post de ontem mas depois entusiasmei-me com a escrita e acabei por me esquecer. De qualquer forma, vamos sempre a tempo de nos derretermos com as ilustrações da Mari Andrew:

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publicado às 11:32

A Lina senta-se ao meu lado ou à minha frente ou pelo menos perto de mim há... quanto tempo?... eu vou dizer há uma meia dúzia de anos, mas sem grandes certezas. Conversamos quase todos os dias e temos vindo a descobrir que temos muito em comum para além do lugar onde trabalhamos. Nas preocupações que temos com os miúdos. Naquilo que pensamos do jornalismo. Na luta contra a discriminação das mulheres. Partilhamos muitos pontos de vista. Mas nem sempre concordamos. Por exemplo, temos gostos muito diferentes no que toca à roupa que usamos. E a homens. E há ainda aquela questão dos pullovers (private joke). E há o Trump.

O inominável, diz ela.

E desta vez, amiga, por muito que goste de ti, já deves ter reparado que não vou concordar contigo. Eu percebo o que queres dizer. Achas que estamos a dar-lhe demasiada atenção e a amplificar gestos e palavras desprezíveis. Eu percebo e concordo contigo se estivermos a falar de um desses bloguistas ou gurus ou outra gente armada ao pingarelho que aparece de repente na televisão e nas revistas a botar postas de pescadas. São opiniões que não interessam. E dar-lhes tempo de antena só vai dar-lhes mais poder e enriquecer as suas contas bancárias. É preciso ignorar mesmo.

Mas Trump é o presidente dos Estados Unidos da América e, quer queiramos, quer não, este homem foi eleito pelos americanos, é apoiado por muita gente e tem, de facto, muito poder. Tem poder para estragar a vida aos americanos e tem poder para estragar a nossa vida, de tantas maneiras, directas e indirectas, que é assustador. Por isso, sinto que temos que estar vigilantes. E que devemos denunciar as suas mentiras. E que não podemos calar-nos perante frases e tomadas de posição que vão contra aquilo em que acreditamos. Não, não devemos perder tempo com o seu penteado, a sua mulher, os seus passos de dança e todo o folclore em volta da figura. Mas temos que prestar atenção ao que de facto interessa, que são as suas decisões e actos políticos. Se em dois dias já aconteceu tanta coisa - foram apagadas as referências ao aquecimento global no site da Casa, foi decretado o fim do Obamacare, foi eliminada a versão em espanhol do site da Casa Branca (que tinha sido criada por Obama), foi decretada uma guerra aos jornalistas que não alinhem na versão oficial da verdade de Trump e aprendemos o que são "factos alternativos" - temo que coisas muito piores virão a acontecer à medida que o senhor tomar efectivamente o poder nas suas mãos. 

Claro que não adiantará de nada aquilo que eu digo ou escrevo aqui ou no meu facebook, mas, como costumo dizer, uma voz é como um voto, sozinha é impotente mas se formos muitos há de ter algum efeito. Nem que seja só alertar meia dúzia de pessoas à minha volta. Isto quer dizer que, amiga, ou mudas de lugar ou vais levar com Trump mais vezes do que gostarias :) (smile)

E ainda:

- um texto para nos fazer pensar sobre os motivos que levaram tantas pessoas a votar em Trump. temos de pensar sobre isto, tentar perceber para tentar encontrar uma saída.

- foi lindo ver as marchas das mulheres no sábado. a iniciativa superou em muito as minhas expectatitvas (e as expectativas da própria organização). mesmo que não sirva para mais nada, já serviu para que os opositores a Trump nos vários cantos dos EUA e nos vários cantos do mundo saibam que não estão sozinhos. vejam algumas imagens AQUI.

- uma exposição em Nova Iorque com fotografias de outros protestos. parece que não tem nada a ver, mas tem. 

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publicado às 14:20

Tem estado um bocadinho de frio, é verdade, mas, guess what?, estamos no inverno. A mim preocupa-me mais eu ter estado no natal a passear no alentejo sem precisar de um casaco ou até o facto de praticamente não ter chovido nesta estação (diz que lá para quinta-feira talvez chova mas nunca se sabe). Se puderem, agasalhem-se como deve ser, com botas, camisolas, casacos, cachecóis, luvas, gorros, tudo a que têm direito, e depois vão para a rua e aproveitem o sol. Isto, claro, se não estiverem a trabalhar este fim-de-semana, como eu.

Três sugestões:

1. A Noite da Iguana é a última peça do ciclo que os Artistas Unidos dedicam a Tennessee Williams. Eu sou suspeita porque gosto muito do Tennessee Williams mas acho que este texto é mesmo bom. O espetáculo é encenado por Jorge Silva Melo e tem ali alguns pormenores que me desagradam (o ruído provocado pela galeria de personagens secundárias reduzidas a caricaturas é bastante perturbador em alguns momentos) mas depois ganha-nos nas cenas mais íntimas interpretadas por um trio de luxo: Nuno Lopes, Maria João Luís e Joana Bárcia (reparem na Joana, como ela encontra o tom certo para a sua Hannah).

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Esta fotografia é de Leonardo Negrão/ Global Imagens. E a Iguana está no Teatro São Luiz, em Lisboa, até 5 de fevereiro.

2. Quando o Paulo Barata, um querido ex-colega, me falou há já uns tempos da sua paixão pelos letreiros antigos e da colecção que estava a construir com a sua mulher, Rita Múrias, eu nunca imaginei que eles conseguissem mesmo fazer uma exposição como esta, Cidade Gráfica, que pode ser visitada até 18 de março no Convento da Trindade, no Chiado. A exposição foi montada em parceria com o Mude - Museu do Design e faz-nos recuar no tempo e passear por uma Lisboa que já não existe, cheia de néons e letreiros luminosos a indicarem-nos alfaiates, telefones públicos e outras raridades (até jornais...). Uma pequena delícia. A entrada é livre, aproveitem.

3. É uma marcha das mulheres mas é também uma marcha de quem quiser ir lá marchar e mostrar a sua preocupação em relação a um período que se adivinha negro para os direitos humanos. Nos EUA mas não só. Pelo que andei a ler da organização portuguesa, será uma marcha contra tudo o que achamos que está mal, desde a precariedade salarial ao neo-fascismo, para lembrar alguns políticos que o aquecimento global não é uma invenção e que os refugiados são um problema de todos. Imagino que será uma salganhada mas ainda assim não posso deixar de simpatizar com uma causa que tem como slogan #don'tbetrump ou #nãosejastrump. E já que não podemos fazer mais nada ao menos vamos para a rua gritar. As manifestações acontecem sábado, em muitos locais do mundo. Em Lisboa, a concentração é em frente da Embaixada dos Estados Unidos da América às 15.00. 

A propósito: uma música nova para aquecer, para dançar e para protestar, tudo ao mesmo tempo:

Arcade Fire, I Give You Power

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publicado às 23:32

11
Jan17

We the people

No seu último discurso como presidente americano, Barack Obama enunciou os perigos que ameaçam a democracia - do racismo à falta de educação, à desinformação ou até à burocracia - e os desafios que o país enfrenta - seja a questão ambiental ou a recuperação económica. Deixou uma palavra contra os fanatismos e contra a intolerância. E lembrou os americanos (lembrou-nos a todos) que a democracia é feita por todos os cidadãos. E todos somos responsáveis por ela. O presidente está lá para servir o país e não o contrário. Não é preciso concordar com tudo o que ele diz para admirar este homem. Ouçam-no que vale muito a pena.

Algumas das melhores fotos de Pete Souza, o fotógrafo oficial da Casa Branca, estão AQUI.

E AQUI está o último discurso, igualmente brilhante, de Michelle Obama.

Vamos ter muitas saudades destes dois, pois vamos.

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publicado às 10:19

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Estávamos na praia, no sábado à tarde, quando soube da morte de Mário Soares. Tentei explicar aos meus putos quem tinha sido este homem. A mãe fez a campanha dele quando se candidatou a presidente da república, disse-lhes. O que é fazer campanha?, perguntou o António. Ups. Isto está pior do que eu pensava. Senti-me a pior mãe do mundo. Em que momento é que nos afastámos assim da política? Em que momento é que a política passou a ser uma coisa "deles" em vez de ser coisa nossa? Pensar um pouco nisso. Tentar mudar isso. Este será o meu tributo a Mário Soares. 

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publicado às 23:34

18
Dez16

Cornucópia (2)

Afinal, tinha ainda mais coisas para dizer sobre a Cornucópia. Estive lá ontem, na despedida, e foi bonito e emocionante. Admiro muito a serenidade e a lucidez de Luís Miguel Cintra e de Cristina Reis. É óbvio que pensaram muito nesta decisão antes de a tomarem. Não é à toa que uma companhia com 43 anos de trabalho decide que não se vai recandidatar aos apoios do Estado e, assim, declara que termina a sua actividade.

Se isto fosse, de facto, uma jogada, como alguns acusam, não o teriam feito assim - o fim foi propositadamente "escondido" num mail enviado à comunicação social há duas semanas, onde se anunciava a récita de ontem. Mesmo quando o assunto começou a ser falado, esta semana, Cintra recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas. Só falou na sexta-feira. A despedida era sábado. O prazo para a recandidatura aos subsídios termina na próxima sexta-feira, dia 28. Se fosse uma jogada, seria muito arriscada, não acham? Eles, melhor do que ninguém, sabem que os estatutos de excepção não se cozinham em meia dúzia de dias na semana do natal. 

O que eu senti foi que tanto o Luís Miguel como a Cristina estavam tranquilos com a decisão que tomaram. Tristes mas conscientes de que terminar assim é a melhor maneira de terminar - sem fazer concessões no seu trabalho e sem se endividarem. Estão cansados, disseram-no tantas vezes ontem. O Luís Miguel está bastante debilitado. Não querem continuar nestes moldes e estão no seu direito. 

Estariam dispostos a continuar noutros moldes? Claro que se entra por ali um furacão Marcelo a propor estatutos de excepção e a perguntar "se lhes dessem mais dinheiro vocês continuariam?", até eles ficaram um pouco entusiasmados com a ideia. Quem não ficaria? As televisões a filmar e o professor a querer uma resposta concreta para poder sair dali rapidamente e com a imagem de salvador. Mas é óbvio que os problemas estruturais do teatro português não se resolvem com uma intervenção "espectacular" do Presidente da República (se fosse assim tão simples, alguém já o teria feito). E o que ficou claro, não só naquele momento como depois, em tudo o que foi dito ao longo da tarde (e noite), é que não há tempo e muito provavelmente também não há paciência nem disposição para muito mais negociações. Posso estar enganada, claro, vamos ter que esperar pelos próximos acontecimentos.

Quanto ao resto, os que lá estiveram sabem que assistiram a um momento especial. Mais um naquela casa. 

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(fui roubar esta foto ao instagram da Maria João Costa porque, para mim, é mesmo a melhor)

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publicado às 11:59

Não há muito mais que se possa dizer sobre a eleição de Donald Trump. Não sou das que acham que se deve votar numa mulher só por ser mulher. Ou que quando uma mulher ganha umas eleições é sempre uma vitória para as mulheres. Nada disso. Mas, quando a escolha é entre Hillary Clinton e Donald Trump, se já me é difícil perceber porque é que alguém vota Trump, é ainda mais complicado entender como é que uma mulher vota num candidato que é obviamente machista, que se orgulha de mal tratar as mulheres, que se está nas tintas para as questões da igualdade entre os géneros. Adiante. Se esse fosse o seu maior defeito nem teríamos que nos preocupar assim tanto. Para mim, Trump representa quase tudo o que odeio nos homens e nos políticos (a boçalidade, a ambição desmedida, o chico-espertismo para os negócios e para subir na vida à custa seja de quem for, o egocentrismo, o quero-posso-e-mando de quem tem dinheiro), a que se juntam depois umas quantas ideias políticas contrárias a tudo aquilo em que acredito (a defesa de uma América pura, seja lá o que isso signifique, fechada aos outros; o isolacionismo; o ódio aos estrangeiros; o racismo; a crença cega no liberalismo; a falta de solidariedade entre classes). Custa-me muito aceitar que uma pessoa assim tenha sido eleita presidente de um país que ainda por cima não é um país qualquer, são os Estados Unidos da América, é um país que influencia tudo o que acontece nos outros países.

Quando, na quarta-feira, liguei a televisão de manhã e percebi que Trump ia ganhar, senti uma tristeza enorme. Fiquei assim o dia inteiro. Não discuti acaloradamente o assunto como costumo fazer, limitei-me a ir lendo as análises políticas que iam sendo feitas e a ficar triste. Não tanto porque ache que venha aí uma grande calamidade (espero mesmo que não), mas mais pelo que esta eleição significa sobre as pessoas, sobre a quantidade de pessoas que apoiam aquele homem, sobre o enorme descontentamento destas pessoas e a sua falta de horizontes (leiam AQUI uma reflexão séria sobre isto), sobre o modo como a ignorância, a prepotência, o machismo, os preconceitos estão muito mais presentes na nossa sociedade do que eu imaginava. Preocupa-me saber que vivemos num mundo assim. É por isso que fico triste, mais do que pelo facto de Donald Trump ser o presidente da América.

Mas, perante isto, há que reagir. O mundo somos nós. E nós podemos fazer o mundo um bocadinho melhor, cada um à sua maneira, em pequenas coisas, na nossa casa, no nosso bairro, na nossa escola, no nosso país, o que for. Por isso, temos que continuar a acreditar e a lutar por aquilo em que acreditamos.

Como tão bem disse Hillary Clinton no seu último discurso:

"You will have successes and setbacks too. This loss hurts. But please never stop believing that fighting for what’s right is worth it. (...) There are more seasons to come and there is work to do."

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publicado às 22:34

No liceu, fiz parte de uma lista para a associação de estudantes. Havia duas listas, tal como havia dois lados do pátio - o lado dos betinhos, que usavam sapatos de vela e casacos ensebados, e o lado dos vanguardas, uma mancha negra e enfumarada de pessoas que calçavam botas doc martens. Eu não pertencia a nenhum dos lados, costumava parar à frente da escola, com uma data gente sem estilo definido, mas se eu pudesse (se eu tivesse coragem) também iria pintar o cabelo de azul e furar o nariz. Aquelas pessoas que ouviam Cure e Smiths eram as minhas pessoas. Havia duas listas, uma da direita e outra da esquerda. E eu, mesmo sem doc martens, sabia exactamente qual era o meu lado. Passámos horas a discutir o programa eleitoral, os intervalos a pintar cartazes, as tardes livres a distribuir folhetos e autocolantes. Havia aquela ideia ingénua de que poderíamos mesmo contribuir para que a nossa escola fosse melhor. Discuti muito com algumas pessoas. Queria convencê-las da importância de ter uma rádio dos alunos. Do grupo de teatro que não havia. Do campo de jogos que era preciso melhorar. Da estupidez das praxes (no meu liceu havia praxes). Da estupidez da PGA (lembram-se?). De pouco valeu. Os outros tinham o apoio da JSD, davam balões cor-de-laranja e tinham folhetos impressos a cores. Foi em 1991/92, o Cavaco Silva era primeiro-ministro e havia uma série de boys no liceu a sonharem com carreiras políticas. Perdemos as eleições. 

Nunca mais fiz campanhas por coisa nenhuma mas continuo a discutir apaixonadamente (às vezes com paixão em demasia) quando acredito em alguma coisa.

docs.JPG(estas não são docs, são uma versão light. mas ando novamente tentada)

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publicado às 12:56

25
Nov15

Paridade

Sou contra as quotas. De mulheres ou do que for. Sou a favor de promover a igualdade de oportunidades e a igualdade no tratamento de homens e mulheres - em casa, no trabalho, na sociedade. Comprar bonecas para todas as crianças, independentemente de serem rapazes ou rapazes. Ensiná-las a lavar a loiça e a pendurar quadros na parede, qualquer que seja o seu sexo. Mas sou contras as quotas. Não exijo para mim nenhum tratamento especial por ser mulher. Não vou votar numa mulher (na maria de belém, por exemplo) só por ser mulher. Quando introduzimos o factor "naturalista" numa discussão destas estamos a dar um passo para, daqui a nada, estar a dizer coisas como que as mulheres são mais sensíveis do que os homens ou as mulheres preocupam-se mais com os outros (o que não é verdade, depende das mulheres e depende dos homens com que as estamos a comparar) ou que as mulheres têm uma relação privilegiada com os filhos (o que também não é sempre assim, como se sabe). Quando introduzimos o factor "naturalista" numa discussão destas estamos a abrir caminho para mais desigualdades e para justificar comportamentos racistas, homofóbicos, etc., como tão bem nos ensina a história.

É óbvio que eu gostava que houvesse mais mulheres no governo, porque isso significaria que vivemos numa sociedade mais igualitária, onde homens e mulheres têm igual acesso aos centros de poder. Mas, para falar a verdade, o que eu gostava mesmo era de ter um governo mais competente. Se são homens ou mulheres que lá estão, pouco me interessa. Se são negros ou brancos, de origem brasileira ou goesa, se usam óculos ou próteses nas pernas, se são hetero ou gay, se são gordos ou magros, se gostam de punk rock ou música clássica, se usam minissaias ou calças à boca de sino. Interessa-me que sejam honestos e competentes, que cumpram as suas promessas, que não sejam preguiçosos e que não se deixem corromper, que pensem no que é melhor para o seu país, que governem como deve ser. E sobre isso, deixem-me que vos diga, tenho muitas dúvidas.

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publicado às 11:07


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