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Nowhere, de Dimitris Papaioannou

A meio de uma conversa sobre tudo e mais alguma coisa, ele falou-me desta coreografia. Não conheces? Depois mando-te. E mandou. E eu não paro de me surpreender com a beleza disto tudo. Há algo de especial num padre que nos fala de dança e de corpo como o padre Paulo Duarte faz. E que vê deus nestes detalhes. Eu, que não acredito em coisa nenhuma, gosto cada vez mais de perceber a maneira como algumas pessoas acreditam e de, de vez em quando, ver o mundo pelos olhos delas. É que é tão mais bonito. 

publicado às 09:16

31
Jan19

Shalom shalom

No dia em que fiquei em casa doente, depois de despachar um texto de trabalho, pus-me a navegar na Netflix à procura de algo que me apetecesse ver e descobri isto:

Shtisel é uma série israelita, de 2013, sobre uma família judia ortodoxa que mora no bairro Geula, em Jerusalém. A série é falada é hebraico (li que as personagens mais velhas falam yiddish) e é fascinante pelo modo como retrata o dia-a-dia destes judeus haredi -  tudo é tão diferente, das roupas, chapéus e penteados, passando pelas comidas e bebidas, até aos namoros e casamentos. Por exemplo: homens e mulheres não se podem tocar antes de casar, existe um rabino casamenteiro que arranja os encontros (que acontecem sempre em locais públicos), os casamentos são decididos pela família e, mesmo depois, os casais dormem em camas separadas. As mulheres têm de cobrir o seu cabelo verdadeiro com turbantes ou perucas, na escola as crianças praticamente só estudam temas religiosos, no bairro não há internet e até a televisão é inexistente (e depois há a avó que vai para um lar não-ortodoxo e aos 88 anos fica fã das séries americanas). Tanto quanto consegui perceber, a série retrata a vida destes judeus com grande realismo, mostrando as coisas boas e menos boas - afinal, por mais religiosas que sejam e por mais que tentem controlar os seus ímpetos, estas personagens são humanas, têm medos e desejos que nem sempre se acalmam com uma oração. Mas ao mesmo tempo a série tem um grande sentido de humor.

Ainda só vi meia dúzia de episódios mas já posso dizer que Shtisel foi uma boa e inesperada descoberta. Aqui fica a sugestão para quem, como eu, não tem paciência para a outra maluca das arrumações em degradê.

publicado às 19:53

21
Jan19

Da empatia

"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor."

(excerto de 1 Coríntios 13 )

 

Encontrei esta citação num texto da Ana Rute e achei interessante porque este é um daqueles excertos que são muitos usados nos casamentos mas ela usou-o num contexto bastante diferente e continua a fazer todo o sentido. Falava ela dos fardos que cada um tem de carregar e de como é  complicado saber quem é que tem o fardo mais pesado, questionando se temos mesmo que fazer esse tipo de comparações. Eu não gosto muito de me lamentar mas aprendi nos últimos anos que um queixume feito com a pessoa certa (uma pessoa que não nos julga e que não compara fardos, que é como quem diz: um amigo) pode ter realmente a capacidade de nos aliviar. 

Saber ouvir o outro é também um acto de amor. 

Às vezes só precisamos de um colo. E mais nada.

publicado às 22:45

wild_wild_country_still.jpg 

Wild Wild Country é um documentário em seis partes (no total são mais de seis horas), realizado por Chapman e Maclain Way, que estreou na Netflix em março. E que eu vi - todo - em menos de 24 horas. Fiquei completamente agarrada. Wild Wild Country conta como, em 1981, um guru indiano, Bhagwan Shree Rajneesh, e o seu grupo de seguidores se instalaram num rancho enorme no meio do nada, em Oregon, EUA, e como aquilo que deveria ser uma comunidade ligada à meditação e à procura da felicidade se transformou no culto das "pessoas cor-de-laranja", gente de armas à cintura e disposta a fazer o que fosse preciso para garantir a permanência no rancho e o poder dos seus líderes. O tema é absolutamente fascinante e o que é estranho é como é que eu, que adoro estes assuntos (e já vi tantas coisas sobre Jonestown, por exemplo), nunca tinha ouvido falar desta desta Rajneeshpuram. 

Há, por um lado, um fascínio, admito, por estes modos de vida alternativos. Tenho tantas dúvidas sobre o nosso modo de vida contemporâneo (ocidental, capitalista, materialista, consumista) que me interessam todas as experiências de pessoas que procuram outros caminhos. É impossível não simpatizar com esta ideia de uma comunidade de pessoas que trabalha e medita em conjunto, longe dos moralismos cristãos (ou de qualquer outra religião) e sem os contrangimentos do sistema. Mas, depois, fico impressionada com a forma como as pessoas abdicam da sua vontade e se entregam totalmente nas mãos dos outros. Como se sujeitam. Todos vestidos da mesma cor, entregando o seu dinheiro ao guru, cumprindo as regras dos líderes sem questionar. O poder do grupo é enorme. A cegueira. Que impede esta multidão de ver como os seus líderes, que ao início até podiam ter a melhor das intenções, não resistem à luxúria do poder e da riqueza pessoal. Ou como a sua comunidade se está a transformar numa réplica daquilo que eles próprios criticavam.

Ao mesmo tempo, e esse é um dos motivos porque este documentário é tão bom, também é muito interessante ver como as pessoas de fora (no caso, a comunidade conservadora, cristã, americana, branca de Antelope, no Oregon) reage perante o desconhecido. Todos os preconceitos. E o medo do sexo, claro, é sempre o sexo: ouvem dizer que "as pessoas cor-de-laranja" não casam, que podem ter relações com quem quiserem, que andam nus. E essas pessoas muito respeitadoras de deus não podem tolerar tamanha degradação dos costumes. O habitual, portanto.

Usando muitas (e preciosas) imagens de arquivo e entrevistas actuais a pessoas que viveram dentro e fora do rancho (com destaque para a misteriosa Ma Anand Sheela, a secretária do guru), Wild Wild Country é, mais do que um documentário sobre o culto de Bhagwani, uma reflexão sobre a utopia e o confronto com a realidade. A luta entre duas comunidades, a escalada de violência e o que é que se está disposto a fazer para ganhar. Sobre a ganância e a perda de limites. E aquela ténue linha que separa o certo e o errado. 

publicado às 09:21

fatima.jpg 

Quando me deitei na minha cama com lençóis lavados na noite de quinta-feira e ouvi a chuva a cair torrencialmente lá fora, pensei nas pessoas que estavam acampadas em Fátima, nas suas tendas frágeis, nos baldes onde tinham que fazer xixi, no banho quente que não iam tomar na manhã seguinte. Quando, terminada a missa de sexta-feira, já a entrar na madrugada de sábado, atravessei o recinto do santuário para ir dormir num quarto de hotel, surpreendi-me com a quantidade de pessoas embrulhadas em sacos-cama, deitadas no chão de pedra, umas encostadas às outras, desafiando o frio e as dores nas costas, preparadas para passar ali a noite.

Porque o fazem?, pergunto-me.

Não sou católica. Não sei bem o que sou mas a acreditar em algo nunca seria em aparições e muito menos em milagres. Faz-me alguma confusão acreditar que um deus ou uma santa se dá ao trabalho de curar as maleitas e os pequenos problemas de algumas pessoas só porque elas acendem umas velas, andam uns metros de joelhos, rezam uns pais-nosso ou umas avés-maria, como quem mete uma cunha (e eu odeio cunhas), e depois esse mesmo deus ignora olimpicamente todos os problemas do mundo e das outras pessoas, incluindo muitas que também rezam, que também são boas pessoas, que também mereciam um milagre. E já nem falo dos negócios em volta das aparições, da exploração da fé de quem ali vai, dos terços, dos santinhos, da água benta. Tudo isso me causa urticária.

Não, Fátima não me toca. A mim o que me toca são as pessoas. Nos últimos dias, falando com os peregrinos que estavam em Fátima, ouvi histórias de quem caminhou centenas de quilómetros durante uma semana e de quem veio de parte longínquas do mundo, vi pés descalços em muito mau estado, encontrei gente que passou dois dias inteiros num banco trôpego num canto do santuário só para rezar com o Papa Francisco. Novos e velhos, homens e mulheres, sozinhos ou em grupo, com bebés, com doenças, com deficiências. Nenhum se queixou. Disseram-me que não era assim tão mau. Ofereceram-me bolinhos de bacalhau e copos de vinho, tem a certeza que não quer, menina? Cantavam, sorriam, aplaudiam, ajudavam-se uns aos outros, davam as mãos. Vi os grupos de peregrinos a chegarem cantando à Capelinha das Aparições, o silêncio que faziam na primeira oração, os abraços emocionados e as lágrimas que poucos continham naquele momento. E depois a alegria nos seus rostos.

Às vezes, não temos que compreender tudo. Não foi Fátima, foram as pessoas que fui encontrando que me deram uma lição de resiliência e de esperança. Que me disseram: somos apenas um grão de areia. E me lembraram que, apesar de sermos assim pequeninos, somos capazes de muito. Basta querer (ou talvez baste apenas crer).

Este texto foi publicado no DN na segunda-feira, depois de ter passado três dias em Fátima a acompanhar a viagem do Papa Francisco. A fotografia foi tirada às 7 da manhã do dia 13 de maio (mas não é por isso que estou com aquela cara de poucos amigos, é mesmo porque me sinto sempre muito ridícula a tirar selfies).

publicado às 21:03

"O que é a fé? (...) Invejo aqueles que conseguiram munir-se de uma ideia definitiva sobre a religião. Tanto os que acham que a religião é uma fonte de bem estar e prosperidade, e que quem está fora acabará por ser justamente punido pela insolência e rebeldia, como os que pensam que a religão é a fonte de todos os males, o ópio do povo, uma força obscurantista que oferece aos homens ilusões que o adormecem. (...) Apesar de todos os defeitos que encontro na religão organizada; apesar do meu anti-clericalismo precoce e do qual todavia ainda não me libertei por causa da figura de alguns padres e do seu odioso papel no controlo e no silenciamento dos mais fracos; apesar de todas as reservas que me merecem os profetas, os apóstolos, os mártires, os bispos, os vendedores da salvação, os ginastas da fé, os cantares de aleluias; apesar de tudo isto, sei, porque já o testemunhei, da fé genuína que move pessoas (tantas vezes mais difíceis de mover do que as montanhas), leigos e clero, sem distinção, do amor pelos outros e da crença sincera em Deus e em fazer bem que os anima, da orientação que têm na Bíblia e em fazer o bem dos seus irmãos na fé, e de terem encontrado um sentido para as suas vidas nesta selva confusa de dúvidas, temores e padecimentos. (...) Eu, e tantos como eu, procuramos consolo na arte, na literatura, na música, no amor, nos filhos, numa certa ideia de humanismo, criando assim uma para-religião para suprir as nossas lacunas espirituais."

Este é só um excerto do último capítulo, que é o mais pessoal, de Aleluia, de Bruno Vieira Amaral. Chegar ao fim com vontade de ler mais. É um tema fascinante.

Leiam o que escreveu, a propósito do livro, o Tiago Cavaco aqui e aqui.

publicado às 00:21

charlie.jpg

Um nó na garganta ao longo de todo o dia. Como dizia um colega meu esta tarde, as vidas destas pessoas não valem mais do que as vidas das outras pessoas, mas o que estas mortes simbolizam é inegável - é um atentado à democracia e à liberdade. De todos nós. É impossível não ficar revoltado (outra vez, mais uma vez, quantas vezes mais?).

publicado às 22:06

Tivemos muita pena de não podermos convidar alguns amigos para estarem connosco neste dia mas a crise, a malfadada crise, não permite grandes festanças. Por isso ficámos só nós, a família e os padrinhos, que agora já são da família, e fizemos uma festa pequenina mas fabulosa, como é sempre que estamos com aquelas pessoas que nos são mais queridas. Escolhemos o Jardim da Estrela porque é um dos nossos jardins preferidos e porque, depois de uma busca desesperante em restaurantes, hotéis e empresas de catering, tudo com propostas que não se adequavam ao que eu queria (parece que um lanche às 6 da tarde é uma coisa estranha) e preços proibitivos (pelo menos para mim), me lembrei que já há uns anos tinha ali organizado um almoço e tinha corrido tudo bem. Bendita a hora em que tive esta ideia. Num recanto do jardim, a Inês preparou-nos, com todo o cuidado, um lanche que misturava o menu dos adultos (com folhadinhos, pastéis de bacalhau, chamuças, guacamole, uma massada fria e cheesecake) e o menu das crianças (com croquetes, pães de leite, batatas fritas, chocolates, gomas e pão-de-ló), a preços bastante simpáticos. No meio da confusão, não me lembrei de tirar uma fotografia à chegada para vos mostrar como estava tudo tão bonito e apetitoso. Mas garanto-vos que foi um belo fim de tarde. Enquanto nós, os crescidos, ficámos sentados a gargalhar e a beber sangria, os miúdos puderam correr e brincar à vontade. O António estava feliz e isso era mesmo o mais importante.

publicado às 18:53

A igreja estava à pinha e a cerimónia durou duas horas, mais meia hora para assinaturas e formalidades, mas o miúdo nem pestanejou, tão concentrado que estava a renunciar a satanás. Concentrado e lindo, de camisa e ténis, que há coisas com as quais não vale a pena a gente preocupar-se muito.

Obrigado ao avô-fotógrafo que registou tudo, como de costume.

publicado às 12:43

Nos preparativos para o baptismo, a catequista avisa que o António deve levar roupa clara e pede por favor para ele não usar ténis.

Porquê? O que é que deus tem contra as crianças de dez anos que usam ténis? O que é que isso interessa? Porque é que a igreja insiste em deter-se nos detalhes em vez de dar importância ao que é realmente importante?

publicado às 11:41


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