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Este post é só para me lembrar que há dias em que isto ainda vai valendo a pena. Isto do jornalismo. Isto de acordar de manhã e ir trabalhar durante oito horas, a maior parte das quais a fazer coisas que claramente dispensava. Isto de viver por turnos e trabalhar aos fins-de-semana e ganhar uma miséria e ter muitas dúvidas que o esforço compense. Mas há dias em que nos cruzamos com pessoas bonitas e temos conversas interessantes e vai que até o resultado nos deixa um bocadinho-muito satisfeitos. Há dias assim. E esses dias devem ser assinalados.

Falei com a poeta Alice Neto de Sousa, por skype, num sábado de chuva algures em fevereiro. Ela estava de pijama, bonita e sincera, tal como é. Depois aconteceram coisas na minha vida e no mundo e a conversa ficou guardada no gravador até haver tempo para lhe dar a devida atenção. AQUI está.

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E também falei com o Pedro Penim, que eu conheço seguramente há mais de vinte anos e agora é director do Teatro Nacional D. Maria II. É uma alegria vê-lo ali, tão entusiasmado e cheio de ideias, tal e qual como também vi o Tiago Rodrigues. Sou uma sortuda, eu sei. A conversa está AQUI.

publicado às 20:58

15
Mar22

O Jorge

Acordei com a notícia triste: morreu o Jorge Silva Melo. O Jorge. Que me mandava mensagens no Facebook: "Não nos queres vir ver?". Ou então alertava-me para coisas que aconteciam noutros teatros que não os dele: "Trata deles". Que me perguntava sempre: "Como está o António?", porque se lembrava de me ver grávida e tinha fixado que o meu filho tinha o nome do seu "rapaz de Lisboa". O Jorge que marcava entrevistas no "Estrela, 60, onde antes era O Bando", dizia, como se eu fosse desse tempo e soubesse. Que tinha sempre consigo um termo de chá. Que fumava cigarros atrás de cigarros. Não gostava de todos os espectáculos dele mas não faz mal. Aprendi tanto a vê-lo e a ouvi-lo. O Jorge que nos mostrou a Sarah Kane (e tanto outros autores) e o Miguel Borges (e tantos outros actores) e nos fez percorrer os caminhos d'A Capital numa altura da minha vida em que ir ver teatro naquelas ruínas no meio do Bairro Alto fazia todo o sentido. Que me falava de filmes e de espectáculos e de actores. Brilhavam-lhe os olhos quando falava dos "seus" actores. Que estava sempre disponível para conversar, sobre a crise na cultura, sobre as peças que ia fazer, sobre os atores desaparecidos, sobre as dificuldades do teatro. "Quando queres?". Só houve uma vez que me disse que não: "Desculpa, são memórias de que não quero falar. Beijos". O Jorge que falava apaixonadamente. E que inventou os ensaios de imprensa feitos à tarde, com cenas para televisão à parte, com semanas de antecedência, para dar tempo para tudo. Até para morrer e deixar um espectáculo pronto a estrear.

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publicado às 20:37

Conheci a Valentyna numa daquelas semanas em que só se falava do Rendeiro. As luzes de natal a piscarem, na televisão toda a gente a discutir a fuga do banqueiro e nós sentámo-nos a beber um carioca de limão e ela contou-me como foi difícil decidir deixar o seu país, um dia era professora de biologia na Ucrânia e poucos dias depois era a única mulher loira numa aldeia portuguesa e trabalhava numa fábrica, mas andava maravilhada com as arvores cheias de laranjas mesmo ali à porta de casa. "Comi tantas laranjas que me ficou a doer a barriga", disse, entre gargalhadas. Rimo-nos e emocionámo-nos e no fim despedimo-nos com um abraço apertado e ela deu-me um rebuçado. Há jornalistas que vibram com as notícias em primeira mão, os exclusivos, as cachas, as manchetes. Para mim um dia bom é aquele em que tenho oportunidade de conhecer pessoas boas, de conversar com elas e de ficar a conhecer as suas histórias. Pessoas como a Valentyna, a Zinaída, o Iuri ou a Irma. 

Falei com eles para mais uma edição do Projeto Invisível, a revista sonora da Culturgest. E foi mais uma vez incrível.

Ouçam AQUI a conversa "For Real" feita a propósito do espectáculo Amores de Leste, dos Hotel Europa.

Se quiserem, também podem ouvir o número anterior da revista.

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publicado às 19:37

Nas últimas duas semanas, por uma daquelas coincidências de agenda que não conseguimos controlar, fui atropelada por um camião de trabalho que me obrigou a dormir algumas noites fora de casa, noutras a chegar à cama muito tarde, a fazer muitos quilómetros para baixo e para cima, a deixar um pouco os miúdos por sua conta e a fechar os olhos ao caos que se instalava aqui em casa. Nada disto foi fácil, por diferentes motivos. Mas, apesar do cansaço, das dores nas costas e nos joelhos, da ansiedade, da tensão permanente nos ombros, do sono (muito sono) e da culpa (a culpa, sempre), há também aqui uma grande alegria. Porque nestas duas semanas tive oportunidade de fazer algumas das coisas de que mais gosto. Por um lado, a pretexto da campanha eleitoral, pude sair da redacção e andar por aí, descobrindo o país e falando com pessoas. Por outro lado, tive um convite maravilhoso da Patrícia Portela, diretora do Teatro Viriato, em Viseu, para moderar algumas conversas com artistas no NANT - Encontro de Dança Contemporânea. O único problema foi calhar acontecer tudo ao mesmo tempo.

Esta noite dormi pouco mais de três horas e estou podre como não me sentia há muito tempo, jogada no sofá praticamente sem me mexer. Mas, apesar de tudo, é bom quando, de vez em quando, o trabalho não é só um trabalho, é também algo que nos faz sentirmos vivos, que nos desafia e nos leva a arriscar por terrenos desconhecidos, quando nos permite ultrapassar medos (e se me espalho ao comprido e só digo parvoíces em frente daquelas pessoas todas?), quando chegamos ao fim e, mesmo quando temos capacidade de auto-crítica para percebemos onde errámos e onde poderíamos ter feito melhor, sentimos que o balanço até é positivo (e, que alívio, afinal, não nos espalhámos ao comprido). E no meio disto, reencontrei algumas pessoas de que gosto muito e conheci pessoas novas, muito fixes, que quero manter por perto.

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Na foto, na conversa com a fantástica Piny. Acho que aquele sorriso diz tudo. Não fui feita para o palco, isso é certo, mas talvez possa aprender a gostar disto em doses moderadas.

publicado às 19:11

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Faltei a um jantar a que queria ter ido, aliás nesse dia nem jantei, e fui sozinha, o que é chato sobretudo por não ter com quem trocar ideias no final, mas apesar disto tudo fui ao CCB na sexta-feira porque não queria mesmo perder o Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa, da Sara Barros Leitão. Eu já sabia que ia ser bom. Foi ainda melhor.

O espectáculo parte da realidade das criadas, mulheres que, fosse no século XIX ou no Estado Novo, iam trabalhar e viver para casa dos patrões perdendo todos os seus direitos (incluindo a liberdade, a privacidade, o direito a ter uma família e até uma vida própria) para se dedicarem a cuidar dos outros, tantas vezes sem pagamento justo nem descanso assegurado. Está tudo explicado NESTE livro que conta as histórias dessas miúdas vindas da província ainda crianças e das humilhações que sofreram.

Mas, depois, o espectáculo vem até ao 25 de abril para mostrar como até nas revoluções que se dizem de esquerda há uns que são mais iguais do que outros e até os sindicalistas precisam de alguém que lhes limpe o pó e faça o assado para o almoço. E, finalmente, viaja até aos nossos dias e faz-nos pensar nas criadas de hoje. Nas mulheres-a-dias, nas empregadas, nas senhoras da limpeza, em todas essas mulheres (porque são maioritariamente mulheres) que continuam a limpar as nossas casas. Já sem falar daquelas que, em 2021, continuam a ser "internas", sujeitas a essa quase-escravidão disfarçada de caridade, pessoas que "são como da família" só que não são, são as pessoas que limpam as sanitas das outras.

Têm essas mulheres - muitas delas imigrantes, racializadas, sem papéis, quase todas desfavorecidas social e economicamente - os seus direitos garantidos? Ou continuam a ser exploradas, assediadas, abusadas? 

Esta é uma reflexão que é preciso ter. E que não é um problema só das elites, porque hoje em dia grande parte das pessoas tem empregada, nem que seja durante quatro horas por semana, como eu.

Num momento em que questionamos os horários laborais, as 40 horas por semana, as horas extraordinárias, é importante lembrar que todas essas regras foram instituídas num tempo em que muitas das mulheres ficavam em casa e asseguravam que as compras eram feitas, a casa era limpa, a comida chegava à mesa, as crianças eram educadas e mimadas. Eram criadas não pagas das suas próprias famílias.

Num momento em que lutamos pela igualdade de género e batalhamos pelo reconhecimento das mulheres no trabalho, exigindo que haja mais mulheres nas lideranças e que sejam igualmente pagas, não nos devemos esquecer que para as mulheres "saírem de casa" para trabalhar foi preciso que outras mulheres ficassem nessas casas a fazer o trabalho que antes era delas. 

É o seu trabalho reconhecido? Estamos a dar-lhes o devido valor e a garantir-lhes adequadas condições de trabalho?

Porque não basta olhar para o passado e reconhecer como tantas coisas estavam erradas se não tirarmos daí alguma lição para o presente.

E, para além disto, o texto é óptimo, o uso dos objectos é surpreendente, a Sara é fantástica e está tudo lá, no sítio certo, para nos fazer sorrir e pensar, de tal forma que nem se dá pelo tempo passar. Eu sei que há poucas sessões mas, se puderem, não percam.

publicado às 08:35

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Fomos ver o espectáculo Meio no Meio, do Victor Hugo Pontes e da Arte em Rede, com um grupo de guerreiros-bailarinos maravilhosos. Os putos iam reticentes, como sempre. Eu, que escolho com pinças os espectáculos para vermos juntos, com medo que eles odeiem e acabem por não querer nunca mais ir comigo ao teatro, tremia um pouco por dentro, confesso. Mas foi bom. Foi muito bom. Foi emocionante e divertido e tocante e deu vontade de dançar e fez-nos pensar e a mim até me fez lacrimejar. 

Pergunto-me muito o que ficará disto tudo. Das vezes que os levei ao teatro e a ver exposições, dos filmes e dos livros que lhes mostrei, dos passeios e das experiências que lhes proporciono, mesmo quando eles não querem, quando vão contrariados, a mal-dizer a mãe que lhes calhou na rifa. Será que fica alguma coisa? As pessoas à minha volta, talvez para me animarem, garantem que sim, que há sementes que só germinam mais tarde, que um dia a adolescência passa e todas as coisas boas que lhes demos vão finalmente revelar-se, mas às vezes tenho tantas dúvidas, parece que é tudo em vão. 

Só sei que eles se divertiram ontem à noite, que gostaram, que talvez não tenham percebido tudo (sobretudo o mais novo) mas alguma coisa terão percebido e, se o espectáculo não serviu para mais nada, terá ao menos servido para lhes mostrar algo diferente dos vídeos parvos que eles vêem todos os dias no tictoc e no instagram. 

Desta noite, para além do espectáculo, guardo os momentos passados a três. As músicas (horríveis) que o António nos fez ouvir no carro. O Pedro fascinado com a energia da cidade num sábado à noite. Os putos a descerem a rua do Carmo a toda a velocidade numa trotinete. Aquele momento em que me montei eu na trotinete, agarrada ao António, e desatei aos gritos julgando que ia cair e espatifar-me toda. As gargalhadas que demos juntos. As conversas que surgiram, as partilhas que só acontecem quando estamos relaxados. Só por isso já valeu o pena. E isso é muito.

publicado às 12:35

22
Set21

Love: For real

"Love" é o espectáculo de Alexander Zeldin que vai estar esta semana (quinta e sexta-feira) na Culturgest. Um espectáculo que parte de situações reais de pessoas que, por algum motivo, vivem num abrigo, sendo forçadas a partilhar o seu espaço e a sua intimidade com outras pessoas que mal conhecem. Pessoas que não têm uma casa ou que tiveram de sair da sua casa ou que estão à procura de uma casa.

A propósito de "Love", fui falar com o Marco, o José e a Sumaj, três pessoas que já moraram na rua, já moraram em abrigos e agora têm um casa. 

A reportagem "For real - O real à procura do teatro" faz parte do primeiro número do "Projecto Invisível", a nova revista sonora da Culturgest, uma maneira diferente de explorar a programação e de viajar com ela e a partir dela.

Fiquei mesmo contente por poder fazer parte deste projecto e por fazer uma coisa de que gosto tanto, que é descobrir pessoas, conversar com elas e arranjar uma maneira (desta vez uma maneira não-escrita) de contar as suas histórias. 

Espero que ouçam e que gostem. Eu acho que está mesmo bonito.

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publicado às 19:57

Para uma história do teatro

No Dia Mundial do Teatro, o André e. Teodósio deu uma conferência sobre a história do teatro experimental em Portugal, desde os anos 40 até ao presente. Para além da enorme pesquisa, é impressionante ver toda a reflexão que ele fez para conseguir esquematizar e sintetizar influências, linhas de trabalho, objectivos, problemas, projectos e desafios de tanta gente. Além disso, dá para sentir toda a paixão do André pelo teatro e pelo teatro experimental. A conferência continua disponível no Facebook do Teatro do Bairro Alto. Aproveitem.

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(a foto é de O Misantropo, o primeiro espetáculo da Cornucópia, 1973)

Casas para as pessoas

Também no Dia Mundial do Teatro, o São Luiz propôs uma programação online para "Estar em Casa" que, entre muitas outras coisas, incluiu uma intervenção da designer e antropóloga brasileira Zoy Anastassakis que falou sobre a sua relação com a obra do seu pai, o arquiteto e urbanista Demetre Anastassakis. Oportunidade para pensarmos no direito à habitação e na arquitectura para as pessoas, em vez de ser só uma arte da monumentalidade e do exibicionismo de formas e de egos. Aqui está:

Duas séries para ver em streaming

Não tenho visto muita coisa e ainda nem comecei a ver os filmes dos Óscares (desta semana não passa, está decidido) mas, neste último mês, vi na HBO duas séries muito diferentes e de que gostei bastante.

It's a Sin coloca-nos em Londres, nos anos 80, a acompanhar um grupo de jovens na descoberta da sua sexualidade (para quase todos homossexualidade) e, depois, no confronto com a sida. Oscila, por isso, entre a alegria queer desenfreada e a tristeza mais profunda. É também uma história do preconceito e da ignorância - e de como o medo do desconhecido pode ser tão desumanizador. 

Normal People leva-nos para a Irlanda e também nos põe a acompanhar um grupo de jovens, primeiro no liceu e depois na faculdade, e, de entre eles, os amores e desamores de Marianne e Connell. São duas pessoas bastante problemáticas. Ele com muita dificuldade em expressar o que sente e em dizer o que quer. Ela com traumas familiares que influenciam muito a ideia que tem si mesma e o que julga ser o seu lugar no mundo. Ambos com uma imensa dificuldade em ser quem realmente são, em assumir-se perante os outros. Algo que só conseguirão ultrapassar juntos. O amor nem sempre é um caminho fácil e nem sempre tem um happy end, mas nem por isso deixa de ser amor, não é?

Escusado será dizer que me fartei de chorar a ver estas duas séries. 

E já agora prestem atenção às bandas sonoras, as duas magníficas, cada uma no seu género.

Música para fugir das breaking news

Uma das coisas de que tenho mais saudades é de ouvir música enquanto trabalho. Era algo que eu fazia e que, agora, no meu trabalho novo, porque tenho que estar sempre atenta à televisão, não é possível. O ritmo das breaking news pode ser muito intenso e, às vezes, é mesmo preciso parar e desligar. Nas minhas pausas, nestes últimos dias, tenho tido a companhia de Bach interpretado pelo pianista islandês Víkingur Ólafsson:

(e dizer, mais uma vez, que sou muito agradecida a todas as pessoas que me mostram músicas novas, livros novos, mundos novos e que me ajudam a cuidar do meu jardim. assim vai valendo a pena.)

publicado às 16:13

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Não era um tema fácil. De tal forma que, antes mesmo de estrear, o espectáculo já estava a ser criticado, só pelo título, só por aquilo que se lia na sinopse e que na altura não era ainda mais do que um manifesto de intenções: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas é uma peça escrita e encenada por Tiago Rodrigues, que fala sobre isso mesmo, sobre fascismo e sobre pessoas que matam fascistas. Não, não é um tema fácil. Mas é um tema necessário.

Comecemos pela Catarina do título, referência a Catarina Eufémia, uma ceifeira alentejana que, a 19 de maio de 1954, durante uma greve e um protesto das trabalhadoras que pediam um aumento salarial, foi assassinada por um elemento da GNR com três tiros. Na altura, tinha apenas 26 anos.

O ponto de partida do espectáculo é este: uma das companheiras de Catarina Eufémia, que viu o que aconteceu, ficou tão revoltada que nesse dia decidiu matar o seu marido, também ele guarda, que assistiu ao assassinato sem nada fazer tornando-se seu cúmplice. Essa mulher decide então que todos os anos irá matar um fascista e depois enterrá-lo no seu terreno, plantando no local um sobreiro. A estranha tradição passa para os filhos e netos que, chegados aos 26 anos, se tornam assassinos de fascistas - sobretudo fascistas que tenham de alguma forma contribuído para a morte de uma ou mais mulheres. Todos os anos, em maio, a família reúne-se na casa do Alentejo. Nesse dia, todos os elementos da família, sejam homens ou mulheres, vestem-se de ceifeira e são chamados de Catarina. Juntam-se à mesa para comer e beber e depois matam um fascista.

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É aí que os encontramos, num futuro próximo do nosso: imaginemos que daqui a meia dúzia de anos os fascistas chegam ao poder em Portugal e preparam-se para aprovar uma nova Constituição. Em maio, como sempre, a família captura um dos principais ideólogos do regime e vai matá-lo. Será a primeira vez que Catarina, agora com 26 anos, vai matar um fascista. Mas no momento de apertar o gatilho ela tem dúvidas.

Matar ou não matar? É legítimo usar a violência para combater o fascismo? É legítimo fazer justiça pelas próprias mãos quando sentimos que o sistema nos falha? 

E ainda: como poderemos impedir os fascistas de chegar ao poder? Terá a democracia as armas necessárias para travar um combate com quem mente, destorce e aldraba as regras democráticas? Serão as palavras suficientemente poderosas para esta luta? E se não fizermos nada seremos cúmplices dos fascistas? 

Todo o espectáculo é extraordinário no modo como nos vai introduzindo as personagens, com os seus motivos e as suas nuances, ora fazendo-nos rir ora fazendo-nos pensar, ao mesmo tornando real e utópica aquela situação, mas a cena central é a troca de argumentos entre Catarina-mãe e Catarina-filha. O dilema é também nosso e é do presente: o que podemos nós fazer? Catarina e a Beleza de Matar Fascistas não nos dá respostas mas faz-nos muitas perguntas. E à medida que se aproxima do fim faz-nos remexer na cadeira, num desconforto, olhando para o lado, indagando aqueles que nos rodeiam: e agora?

É essa a pergunta que continuamos a fazer depois do espectáculo e que é tão necessária nos dias de hoje: o que fazemos agora?

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Muito mais do que mensagem, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas é um prazer para os olhos e para os ouvidos, para o cabeça e para o coração. A peça é muito bem escrita - embora às vezes eu preferisse que não fosse tão explícita, percebe-se que as referências concretas têm como objectivo alertar-nos para o perigo real que vivemos, em Portugal, em 2020 - e muito bem interpretada (António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva, Sara Barros Leitão - todos óptimos), os figurinos de José António Tenente são fabulosos, o cenário de F. Ribeiro é lindo, a música de Pedro Costa perfeita.

E o Alentejo está ali todo, para nosso deleite, mesmo para quem, como eu, não gosta de pezinhos de coentrada.

Se quiseram saber mais, leiam a crítica do Rui Pina Coelho.

Depois de duas sessões esgotadas no CCB, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas vai estar em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 7 a 25 de abril. Não percam.

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publicado às 12:04

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Há um momento em Cock cock... Who's there? em que vemos Samira Elagoz com a mãe e a avó a falarem sobre os abusos que sofreram dos homens: a avó há muito tempo por parte de um estranho, a neta há pouco tempo pelo seu namorado. É tudo tão comovente. O modo como falam e aquilo que não conseguem verbalizar. A conversa termina com um abraço de grupo, Samira desata a chorar incontrolavelmente, a mãe abraça-a com força como as mães costumam fazer quando querem que o seu amor proteja os filhos de todos os males do mundo, a cadela ladra, a avó olha-as imensamente triste sem saber o que dizer.

A verdade é que as mulheres sempre foram mal tratadas e abusadas ao longo de toda a história, mesmo quando não tinham coragem para falar, mesmo quando se encolhiam na vergonha e no medo e fingiam que não tinha acontecido nada. E a triste verdade é que isso acontece ainda hoje, apesar de cada vez mais mulheres terem coragem para denunciar e sentirem necessidade de falar sobre o que lhes aconteceu para que o tema deixe de ser um tabu e possa ser encarado como aquilo que é: um crime. E, no entanto, apesar de muito ter mudado nos últimos anos, vemos este espectáculo e sabemos que ainda muito falta mudar.

Cock cock... Who's there? é uma performance-palestra de Samira Elagoz, artista finlandesa de 31 anos que partiu da sua própria experiência de violação para fazer uma investigação sobre as relações entre homens e mulheres: o que procuram quando se encontram?, como se comportam num primeiro encontro?, qual é a sua noção de abuso? Ao longo de quatro anos, Samira encontrou-se com estranhos que conheceu em plataformas de encontros online. Explicava-lhes que estava a fazer um documentário e filmava esse encontro.

[À margem: Lembrei-me da Raquel André e da sua Colecção de Amantes (vejam aqui: Raquel André.pdf): apesar de as motivações serem distintas, o dispositivo é muito semelhante, assim como a inquietação em torno do que é a intimidade e, por fim, a inevitável mistura entre realidade e representação/ficção.]

À nossa frente, Samira Elagoz mostra-nos os vídeos que fez e conta-nos estes episódios da sua vida, sem qualquer expressão no rosto ou emoção na voz. E faz-nos perguntar. Que narrativas criamos em torno de um acontecimento traumático como uma violação? Como poderemos lidar com esse trauma? De que forma essa experiência pode ser transformada em performance ora avassaladoramente documental e incómoda ora quase uma fábula, pintalgada de humor e de música, contada como quem conta uma história. 

Porque é sobre violação, Cock cock... Who's there? é também sobre o que é ser homem e mulher, sobre os estereótipos que persistem sobre a sexualidade de homens e mulheres, sobre a necessidade de deixar de olhar os corpos das mulheres como meros objectos do desejo dos homens, sobre a necessidade de deixar de culpar as mulheres pelos abusos que sofrem, sobre a necessidade de cada mulher ter controlo sobre a sua vida e o seu corpo - sem medo de sair à noite, sem medo de andar sozinha, sem medo de se encontrar com um desconhecido, sem medo dos homens.  

Se quiserem saber mais sobre Samira Elagoz leiam a entrevista ao Público.

Programado pelo Teatro do Bairro Alto, o espectáculo Cock cock... Who's there? pode ainda ser visto por maiores de 18 anos no domingo e na segunda-feira, às 11.00, no Lux. 

Eu fui hoje de manhã. Deixei os putos a dormir e tirei um tempinho para mim, que tanto preciso. E foi bem bom. Voltei para casa, para o confinamento, com montes de coisas para pensar e esta música:

You don't own me, Lesley Gore

publicado às 17:03


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