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Abril já acabou e não se fez só de gritos revolucionários.

Deu para ir ver os desenhos fantásticos do João Abel Manta.

Deu para ver o Guião para um país possível, da Sara Barros Leitão. Para rir e para pensar e para nos emocionarmos um pouco. Os actores são óptimos. Gostei mesmo muito.

Também fui ver a Luta Armada, dos Hotel Europa, sobre os movimentos armados antes e depois do 25 de Abril. Foi bom, que até foi, mas nada do outro mundo, e o melhor de tudo nesse dia foi ficar deitada na relva, de pés descalços, a ouvir música e a conversar sobre tudo e sobre nada com a minha amiga.

Voltei a cantar com a Garota Não, na inauguração do museu de Peniche. Apanhámos chuva e vai-se a ver nem conseguimos visitar o museu, mas o que ali conversámos em frente de um pão com sardinhas e de um prato de amêijoas valeu por tudo. Além da Garota, claro, que vale sempre a pena.

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Foi também um mês para "sair de pé" por duas vezes:

A propósito do espectáculo Na medida do impossível, do Tiago Rodrigues, fui moderar uma conversa na Culturgest com o João Santos, da Médicos Sem Fronteiras, e a fantástica Rita Costa, enfermeira que já esteve no Afeganistão e na Faixa de Gaza e nos falou de todo o amor que tem por este trabalho. Fico sempre nervosa quando tenho que falar em público, mas acho que até correu bem  (e se algum dia tiverem oportunidade de ver a peça, aproveitem, que é mesmo muito boa).

E, por falar em nervos, estreei-me a gravar voz, neste caso para uma reportagem sonora (aka podcast) que fiz para a Arte em Rede. Não tenho palavras para agradecer a confiança que o Bruno tem em mim (e a paciência enorme para me explicar as coisas que eu não sei). Fazer algo pela primeira vez é sempre um desafio, pior ainda quando se tem a auto-estima de uma formiga, como eu. Mas uma pessoa não gastou uma fortuna na terapia para depois ficar a tremer de medo e recusar uma oportunidade destas. O resultado já pode ser ouvido AQUI e, apesar de ainda ser muito estranho ouvir a minha voz, na verdade até me diverti a fazer isto. Agora, é "só" fazer cada vez melhor.

publicado às 19:01

"Estás bem?", uma pergunta tão simples, talvez a pergunta que mais vezes fazemos uns aos outros, "Está tudo bem?". É, na maior parte das vezes, uma pergunta inconsequente, ninguém quer saber realmente se estamos bem, e por isso respondemos de forma mecânica, "Tudo", e seguimos com a conversa sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre as eleições, o que for. Mas o que responderíamos se quiséssemos ser verdadeiramente honestos? Estou bem? Mesmo que não esteja "tudo bem", que nunca está tudo bem, estamos bem? Estou bem, digo a mim mesma. Se reflectir um pouco, se pesar os pratos da balança, se der o devido valor às coisas que me irritam e entristecem (valem assim tanto?), se quiser ser verdadeira, tenho que dizê-lo: estou bem. A vida não é a preto e branco. Os dias muito bons sucedem-se a dias muito maus que se sucedem a dias mais ou menos. No mesmo dia, temos coisas óptimas a acontecerem-nos e coisas que nos deprimem. Não é assim com todas as pessoas? Estou bem.

*

Fiquei muito deprimida com os resultados das eleições. Ainda estou deprimida com isto tudo. Há muitas coisas na minha vida de todos os dias que não são perfeitas, no topo delas estão o trabalho e as angústias com os miúdos, claro, mas tudo fica pior porque tenho que ver televisão e acompanhar as notícias relacionadas com a extrema-direita. Ouvir AV a toda a hora, as suas mentiras, os seus joguinhos, aquela retórica populista, a sua extrema falta de educação e falta de respeito por nós todos tem sido um grande foco de tristeza e desesperança. Por outro lado, existe também uma vontade de agir e reagir, partilhada por algumas pessoas à minha volta. Não sabemos ainda como, quando, onde, mas sinto que temos a responsabilidade de fazer alguma coisa.

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Já quase ninguém escreve nos blogues. Eu própria quase não escrevo no blogue. Não temos tempo, não temos paciência, assim como assim ninguém lê, pois não? Somos cada vez mais descartáveis. O Facebook está praticamente morto. O Twitter é um ninho de víboras, pessoas desejosas de dizerem coisas, seja o que for, desejosas de provocar reacções. No Twitter sou apenas observadora, mas o Instagram transformou-se no meu álbum de fotografias e memórias. O Instagram, como bem escreveu a Gabriela (que também se lamenta por escrever cada vez menos, e é uma pena), é aquela "rede social onde os mais novos só deixam 'histórias' efémeras e os mais velhos registos vários para a posteridade. É muito isto que nos diferencia, parece-me. Instagrams que vivem de marcas que permanecem e os outros, que têm zero publicações, mas inúmeras histórias que as 24 horas apagam". Eu sou da permanência ("é urgente permanecer", diz o poema de Eugénio de Andrade). A mim faz-me falta a escrita. Faz-me falta escrever-me. Não me tenho sentido suficientemente livre para fazê-lo, não sei como explicar-vos. Tenho de pensar melhor nisto.

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Emocionei-me muito a ver Um Mini Museu Vivo de Memórias do Portugal Recente, um espectáculo do Teatro do Vestido, que conta um pouco da história Portugal dos anos da ditadura e da democracia. É mesmo preciso não esquecer.

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Os jornalistas fizeram greve. Não serviu para nada, não vamos ser aumentados nem vamos ter melhores condições de trabalho, os despedimentos vão continuar, os órgãos de comunicação continuam com problemas financeiros, e, no entanto, foi importante que nos juntássemos todos, que nos olhássemos, que os outros olhassem para nós, que disséssemos em voz alta que temos mesmo que fazer alguma coisa por nós, para mudar isto, que não podemos continuar a encolher os ombros. Foi um dia muito bonito.

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Fomos ver o Sérgio Godinho ao Coliseu. Foi tão bom, tão bom. Foi tão bom poder ouvir aquelas canções acompanhada daquelas pessoas (as pessoas são sempre o mais importante). Ouvir outra vez A Garota Não. Gritar pela paz, o pão e a habitação. Cantar o Zeca e o Zé Mário. Ter um "brilhozinho nos olhos" e acreditar que, apesar de tudo, este poderia ser o "primeiro dia do resto da nossa vida".

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Também fui ver a Patti Smith com os Soundwalk Collective ao CBB. Que maravilha. O espectáculo chama-se Correspondences e baseia-se na poesia de Patti Smith, a partir do trabalho de outros artistas, aquela voz incrível num ambiente composto por vídeos e sons, levando-nos numa reflexão sobre o mundo em que vivemos, a destruição da natureza, os desastres nucleares ou questões mais humanas da nossas existência. Foi uma experiência bastante intensa que terminou com um momento de libertação, o público todo de pé a cantar People Have The Power ("The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools").

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Ainda não tinha ido à Casa Fernando Pessoa depois da remodelação. Vale muito a pena. A exposição está muito bonita, com partes mais informativas e outras mais poéticas. Numa das salas há uma montagem de espelhos - porque cada um de nós é muitos, porque cada pessoa é diferente dependendo do ponto de vista. Aí, conseguimos ver-nos de costas. Completamente. Não sei se alguma vez me tinha visto de costas, como se fosse outra pessoa. Foi bastante estranho. Ficámos ali algum tempo. Há algo de quase transcendental nesta experiência.

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"I know not what tomorrow will bring" - foi esta a última frase escrita por Fernando Pessoa. Não sabemos o que o amanhã nos traz. Tenho feito um esforço para tentar viver o presente sem pensar no futuro. No meu futuro, no futuro dos meus filhos, no futuro em geral. Talvez seja por estar a chegar aos 50, não sei. Não é tanto um "seize the day" no sentido de fazer tudo e devorar o mundo como se não houvesse amanhã. Não é isso. É mais um ser feliz agora, por inteiro, sem alimentar expectativas para amanhã, tentando não me angustiar. Se me conhecessem saberiam que é um desafio e tanto. É quase como suspender o pensamento. Não vou dizer que é fácil, mas até agora tem sido possível e tem sido bom. Talvez o amanhã nos traga beijos e passeios de mão dada à beira-mar. Talvez o amanhã me traga uma tarde numa esplanada, sozinha, com um livro. Seja como for, o importante é estar em paz.

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publicado às 20:18

"Uma obra de arte não responde a questões, provoca-as, e o seu significado essencial está na tensão entre as respostas contraditórias."

A frase de Leonard Bernstein serve de epígrafe ao filme Maestro, realizado por Bradley Cooper. Não achei o filme particularmente estimulante, para ser sincera, apesar das óptimas interpretações de Cooper e de Carey Mulligan (no papel da mulher de Bernstein, Felicia Montealegre). Mas a frase pareceu-me perfeita para falar de Bravo 2023!, o espectáculo do Teatro Praga que fui ver há dias ao São Luiz e que me suscitou imensas perguntas. Uma dessas perguntas é: porque é que eu gostei disto?  

Não é a primeira vez que os Praga fazem uma revista. Em 2014 tinham feito a Tropa Fandanga, com o actor José Raposo. Desta vez,  o espectáculo tem a actriz Marina Mota, mas a receita é a mesma. A "revista à portuguesa" tem um modelo rígido que o grupo segue à risca, com um compère, os quadros cómicos, os números musicais, o número sério, a artista convidada. A revista tem uma visual específico, com telões a servirem de cenário e um guarda-roupa exuberante. Tem um estilo de representação próprio, uma cadência inconfundível. Tem também um humor que lhe é característico. Um tipo de humor "antigo", fora de moda. A tudo isso os Praga são fiéis. O que eles fazem não é uma paródia de uma revista, é uma revista a sério. 

E o que é extraordinário é que tudo aquilo que na revista do Parque Mayer nos parece cheirar a mofo, aqui faz todo o sentido. A interpretação demasido marcada, os estereotipos (de género, de idade, de região, de classe), as piadas xenófobas, que noutro contexto nos fariam revivar os olhos, aqui fazem-nos rir. O que no Teatro Maria Vitória consideraríamos kitsch, no São Luiz é cool. As sessões de Bravo 2023! estiveram todas esgotadas, muito provavelmente com pessoas que nunca foram ver uma revista e que, se fossem, achariam horrível. Mas que se riem desbragadamente da empregada da limpeza que aparece nos interlúdios e da imitação do José Castelo-Branco e da sua Betty a "cair da tripeça" (literalmente).

Um dos motivos porque isto acontece é porque, apesar de esta ser uma "revista a sério", ao mesmo tempo, esta não é uma verdadeira revista. A revista é popular, acessível a todos, básica. Esta é uma revista auto-consciente, que sabe com que linhas se cose, que adopta o formato popular mas é bastante intelectual. Este espectáculo tem um texto de uma enorme profundidade - um texto belíssimo, cheio de referências e meta-referências, cheio de subtilezas, que toca em vários temas do ano que agora termina (conseguir ir buscar os temas mais óbvios como a Jornada Mundial da Juventude mas também aquelas pequenas coisas de que já não nos lembrávamos, como a influencer e o submarino, ter o presidente dos afectos, a crise da habitação, o "Preço Certo" e o ministro da Cultura), que procura chegar a diferentes lugares, que faz críticas contundentes e outras mais ligeiras, que dá alfinetadas das boas mas outras vezes só lança piadas ou faz trocadilhos tontos, um texto inteligentíssimo, sem dúvida, mas bastante elitista. Para conseguir compreender tudo o que ali se diz é preciso estar muito dentro da cultura do "eixo baixa-chiado" (eu ri-me muito e mesmo assim tenho consciência que me passou muita coisa ao lado).

Mas isto também acontece porque os Praga têm lugar de fala. Eles podem gozar com os gay e com os ingleses, podem gozar com quem quiserem pois haverá poucos grupos mais inclusivos, verdadeiramente inclusivos, na sua essência, do que os Praga. Quando olhamos para o palco, a primeira coisa que nos chama a atenção é precisamente a diversidade de corpos que ali estão. Uma diversidade que não é forçada nem fruto de quotas, mas fruto de muitos anos de trabalho em conjunto, em que aquelas pessoas se foram conhecendo e tornando família - uns dos outros e, também, nossa.

O resultado disto tudo é um espectáculo que é muito bom, ainda que desigual, obviamente - ou não fosse este um espectáculo de revista. Para mim, os dois quadros mais bem conseguidos foram os da "Artista está presente" e do "Rabo de Peixona", aqueles onde dei por mim a rir incontrolavelmente, com o texto extraordinário e uma Marina Mota no seu melhor. O número sério, dedicado ao poeta Manuel Gusmão é muito tocante (e a Joana Manuel fá-lo impecavelmente). As músicas de Pedro Mafama são óptimas (queremos ouvi-las outra vez!). Os cenários de João Pedro Vale e Nuno Alexandre e os figurinos de Joana Barrios são muito bons. E o luxo que é ter uma orquestra a tocar ao vivo, dirigida pelo Alex D'Alva Teixeira. Entre os números bons, os falhados e aqueles que tanto faz, o espectáculo tem três horas mas quase não damos por elas, e isso é dizer muito.

No final, quando apanhei o táxi para voltar para casa, trazia a cabeça a mil, com muitas perguntas e poucas respostas. Demorei algum tempo a conseguir estruturar (mais ou menos) um pensamento sobre este Bravo, que tanto é a revista alemã que líamos nos anos 80 como é esfregão para lavar mesmo bem a loiça, como é grito lançado da plateia para um ano que nos trouxe tantos amargos de boca e também tantos motivos para rir.

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publicado às 20:08

05
Out23

Jon Fosse

Nobel da Literatura para Jon Fosse. Conheço-o pelo teatro. Peças minimalistas, becktianas, quer pela forma quer pelo conteúdo, sempre a questionar o sentido disto tudo, a confrontar-nos com o absurdo do quotidiano. Poucas palavras, repetições, uma musicalidade que nos embala. Angústia, tristeza. Lembro também o seu jeito tímido, quase envergonhado, engolindo as palavras num inglês enrolado.

Dia de lembrar o Jorge e os dias d'A Capital. De agradecer ter vivido o que vivi. A brincar, a brincar, esta pessoa especialista em coisa nenhuma já entrevistou dois prémios Nobel da Literatura. Não está na internet, mas garanto-vos que aconteceu.

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publicado às 18:19

Como posso viver a vida ao máximo e não desperdiçar o meu potencial?, perguntou Ruben, de 13 anos, ao músico Nick Cave, através do (maravilhoso) site "The Red Hand Files". 

A resposta é fantástica. Serve para o Ruben e serve para todos nós. É exactamente isto.

"Dear Ruben, 

When I read this question, my initial thought was that the kid who wrote this has nothing to worry about, they’re going to be all right. Ruben, you are very smart, you are engaged with the world and I’m not sure what your creative interests are, but you can certainly already write. Not only that, you are also reaching out for answers. At thirteen, this is all brilliant! Luckily for you, Ruben, I have some! So here goes!

Read. Read as much as possible. Read the big stuff, the challenging stuff, the confronting stuff, and read the fun stuff too. Visit galleries and look at paintings, watch movies, listen to music, go to concerts –  be a little vampire running around the place sucking up all the art and ideas you can. Fill yourself with the beautiful stuff of the world. Have fun. Get amazed. Get astonished. Get awed on a regular basis, so that getting awed is habitual and becomes a state of being. Fully understand your enormous value in the scheme of things because the planet needs people like you, smart young creatives full of awe, who can minister to the world with positive, mischievous energy, young people who seek spiritual enrichment and who see hatred and disconnection as the corrosive forces they are. These are manifest indicators of a human being with immense potential.

Absorb into yourself the world’s full richness and goodness and fun and genius, so that when someone tells you it’s not worth fighting for, you will stick up for it, protect it, run to its defence, because it is your world theyre talking about, then watch that world continue to pour itself into you in gratitude. A little smart vampire full of raging love, amazed by the world – that will be you, my young friend, the earth shaking at your feet.

Love, Nick"

publicado às 08:12

Um post para correr atrás do prejuízo. Porque não quero esquecer algumas das coisas boas que têm acontecido.

Dois filmes

Aftersun é uma pequena maravilha. Trata-se da primeira longa-metragem de Charlotte Wells, que, aparentemente, se inspira em parte na sua infância. A ação passa-se talvez nos finais dos anos 90 ou início dos 2000 (estou a calcular, pela banda sonora, que inclui a Macarena e os Blur). Um pai (Paul Mescal, que conhecemos de Normal People), recentemente divorciado e a braços com vários problemas materiais e emocionais, leva a filha de onze anos (Frankie Corio) para umas férias de verão num resort turístico na Turquia. As conversas entre eles são deliciosas, os silêncios ainda mais. Não sei se foi por ter essa experiência, de passar tanto tempo com os meus filhos, sem mais adultos por perto, mas emocionei-me muito porque sei bem o tanto que ali se passa, naqueles silêncios, em que pai e filha partilham cumplicidades e cuidam um do outro, com pequenos gestos, pequenos nadas que são tudo. 

No dia em que fui ao cinema ver Ursos não há, o realizador iraniano Jafar Panahi encontrava-se preso desde julho do ano pasado. Foi libertado dias depois, a 4 de fevereiro. Tal como tem vindo a fazer, Panahi continua a trabalhar a autoficção, apresentando-se a si mesmo no ecrã e às dificuldades que enfrenta como realizador num país onde não existe liberdade de expressão e que, além disso, se rege por tradições ancestrais, patriarcais e castradoras. A vigilância não é só policial, é também exercida pela comunidade. Estas circunstâncias levam-no a interrogar o seu trabalho, a importância das imagens e o papel do cinema. Ursos não há, mas as ameaças e o medo podem ser reais.

Dois livros

Com Nora Webster, de Colm Tóibin, conheci uma mulher que fica viúva e de repente se vê sozinha a braços com a vida e os filhos. A ação passa-se em Enniscorthy, na Irlanda, no final da década de 60. Mas podia ser aqui e agora (houve ali momentos - por exemplo quando, cheia de sentimentos de culpa, ela tem de deixar os filhos pequenos desacompanhados durante algumas horas para ir trabalhar - em que podia perfeitamente ser eu). Nora procura o seu próprio caminho, sem medos. Isso implica tomar decisões que vão parecer aberrantes vistas de fora. Tem de libertar-se das suas obrigações perante a comunidade, do peso da religião, do enorme fardo das aparências. Às vezes, temos forças que nem sabíamos que tínhamos. 

Shuggie Bain, de Douglas Stuart, chegou-me através da Sónia, que me assegurou que tinha sido um dos melhores livros que já tinha lido. É, de facto, muito bom. Um mergulho de cabeça nas dificuldades das classes mais baixas de Glasgow, na Escócia, nos anos 80. A miséria contada a partir da história de um miúdo, Shuggie Bain, que cresce a assistir à luta da mãe, Agnes, contra as injustiças do mundo, contra os homens que a exploram e contra o vício do álcool. E que ao mesmo tempo vive também a sua própria luta, a tentar perceber porque é que não é como os outros rapazes. Da alegria de comer um chocolate à tristeza de não ter mais o que comer. Maravilhosamente escrito, com pormenores que nos vão fazer chorar mas também sorrir, que às vezes me fizeram sentir uma enorme revolta. O livro foi o vencedor do Booker Prize em 2020 (e acho que tem tudo para vir a ser um filme).

Dois espectáculos

Onde é que eu ia?, monólogo de Nuno Artur Silva (na verdade, não é, está lá o António Jorge Gonçalves, a dialogar com desenhos, mas, vá), espécie de stand-up comedy mas num tom e num ritmo muito próprios, humor umas vezes mais aguçado, noutras mais light, umas vezes mais confessional, noutras mais desbragado. Gosto muito de ouvir pessoas inteligentes, mais ainda se forem capazes de rir de si mesmas. 

Massa Mãe, espectáculo da minhota Sara Inês Gigante, com a amiga também minhota Carolina Vieira, uma viagem pelas suas memórias de criança, passando pelas brincadeiras com a cadela Pancas, as festas da Senhora da Agonia, o ouro pendurado ao pescoço, os lenços dos namorados, o fato da avó Cândida e os conselhos da tia Maria. E as perguntas todas que surgem quando olhamos para as tradições. A vida é como o ciclo do pão de milho - semea-se, cuida-se, apanha-se, desfolha-se, mói-se, amassa-se, coze-se, come-se. Mas, tal como com a "massa mãe", deixamos sempre algo para os que vêm a seguir.

Vendo bem, são duas criações em modo "a minha vida dava um espectáculo". Cada um à sua maneira. E também por isso - porque sou esta pessoa que se pensa e se narra e se questiona e se memorializa por aqui - me agradaram tanto e me levantaram tantas questões.

Duas reportagens

"Estou a lutar pela vida e agora vou falar de sexo?" Após o diagnóstico de cancro, os doentes experienciam geralmente uma diminuição da líbido, o que se agrava com os sintomas da doença e, depois, os efeitos dos tratamentos. Na maioria das vezes, vivem com este problema em silêncio, têm vergonha de falar do assunto com os médicos pois temem que as outras pessoas achem que não é adequado pensar em sexo quando se está em risco de morrer. 

Na Mouraria, uma cama num quarto partilhado por seis pessoas pode custar 200 euros. Andei pelas ruas dos bairro, acompanhada pela Farhana, a tentar perceber as dificuldades dos imigrantes que ali moram. “Se as pessoas vivem em condições tão miseráveis é porque não têm alternativas”, disse-me o Farid. Se a habitação é um problema tão grande na nossa sociedade actual, imaginem para aqueles que acabaram de chegar a um país novo, que não têm rede de apoio nem falam a língua, que podem até não ter um trabalho nem documentação legal.

Mouraria_019.JPG Fotografia de Rodrigo Cabrita

publicado às 09:47

03
Jul22

O espaço vazio

“I can take any empty space and call it a bare stage. A man walks across this empty space, whilst someone else is watching him, and this is all that is needed for an act of theatre to be engaged.” (O Espaço Vazio, 1968)

Peter Brook (1925-2022) foi encenador, realizador, investigador, pensador, desafiador.  Tenho ideia de só ter visto um espectáculo encenado por ele (O Fato, apresentado na Culturgest, em 2002), mas sei bem como influenciou tantos criadores (inclusivamente portugueses) e tanto do teatro que vemos. Como forma de despedida, estive a ler os textos no The Guardian e no Le Monde, dois olhares muito diferentes sobre a sua obra. Também vale a pena ir ver o seu site oficial

Obrigado por tudo, Peter Brook.

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publicado às 12:13

(texto praí com três semanas de atraso, mas mais vale tarde do que nunca)

Fui ver o espectáculo Last time to see me before I die, do John Cleese. Acho que quase todos os que ali estavam naquele dia (e nos outros dias, o homem conseguiu encher o coliseu para seis espectáculos) foram sobretudo por causa das boas memórias dos Monty Python e da série Faulty Towers. Sabendo disso, o humorista deu-nos bastantes memórias. E foi fixe ouvi-lo a contar histórias desses tempos, mesmo que algumas dessas histórias já fossem bastante conhecidas, e a fazer algumas reflexões sobre porque é que aquele tipo de humor teve tanto sucesso. 

O que foi menos fixe foi perceber que, para além disso, ele tinha pouco mais a oferecer. Só uma lenga-lenga contra a "cultura de cancelamento" (ou "cultura woke") que vai-se a ver em 2022 já tem muito pouco de revolucionário e parece só rabujice. Eu, que não sou a maior fã de humor em geral nem de Monty Python em particular (ai, o escândalo, como é possível? pois, é verdade. acho que algumas coisas têm graça, outras mais ou menos e outras são só tontas, pronto) mas sou completamente contra cancelamentos e linchamentos públicos, senti só muita pena daquele velhote sem noção - e alguma vergonha alheia, em alguns momentos, confesso. 

É verdade que instintivamente rimo-nos de coisas que racionalmente não têm graça. Rimo-nos ao ver pessoas a cair e todo esse género de trapalhices (Chaplin sabia-o bem). Rimo-nos, infantilmente, quando alguém diz piadas com segundos sentidos "marotos" ou expressões proibidas. Rimo-nos de coisas muito parvas. Não há mal nenhum nisso. Nesse ponto, Cleese tem razão. Há um lado mais básico da comédia que evoluiu muito pouco. Mas também é verdade que o humor é das formas de arte que envelhece pior. Aquilo que era transgressor ou surpreendente nos anos 70 ou 80, hoje já nos parece banal. E ainda bem que assim é. Estranho seria se fosse de outra forma. Podemos defender que O Tal Canal de Herman José foi um programa importantíssimo quando estreou e, ao mesmo tempo, admitir que ao ver aquilo agora já não damos assim tantas gargalhadas.

O que é verdadeiramente incompreensível é não compreender isto e insistir em ficar parado no tempo.

publicado às 09:25

Este post é só para me lembrar que há dias em que isto ainda vai valendo a pena. Isto do jornalismo. Isto de acordar de manhã e ir trabalhar durante oito horas, a maior parte das quais a fazer coisas que claramente dispensava. Isto de viver por turnos e trabalhar aos fins-de-semana e ganhar uma miséria e ter muitas dúvidas que o esforço compense. Mas há dias em que nos cruzamos com pessoas bonitas e temos conversas interessantes e vai que até o resultado nos deixa um bocadinho-muito satisfeitos. Há dias assim. E esses dias devem ser assinalados.

Falei com a poeta Alice Neto de Sousa, por skype, num sábado de chuva algures em fevereiro. Ela estava de pijama, bonita e sincera, tal como é. Depois aconteceram coisas na minha vida e no mundo e a conversa ficou guardada no gravador até haver tempo para lhe dar a devida atenção. AQUI está.

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E também falei com o Pedro Penim, que eu conheço seguramente há mais de vinte anos e agora é director do Teatro Nacional D. Maria II. É uma alegria vê-lo ali, tão entusiasmado e cheio de ideias, tal e qual como também vi o Tiago Rodrigues. Sou uma sortuda, eu sei. A conversa está AQUI.

publicado às 20:58

15
Mar22

O Jorge

Acordei com a notícia triste: morreu o Jorge Silva Melo. O Jorge. Que me mandava mensagens no Facebook: "Não nos queres vir ver?". Ou então alertava-me para coisas que aconteciam noutros teatros que não os dele: "Trata deles". Que me perguntava sempre: "Como está o António?", porque se lembrava de me ver grávida e tinha fixado que o meu filho tinha o nome do seu "rapaz de Lisboa". O Jorge que marcava entrevistas no "Estrela, 60, onde antes era O Bando", dizia, como se eu fosse desse tempo e soubesse. Que tinha sempre consigo um termo de chá. Que fumava cigarros atrás de cigarros. Não gostava de todos os espectáculos dele mas não faz mal. Aprendi tanto a vê-lo e a ouvi-lo. O Jorge que nos mostrou a Sarah Kane (e tanto outros autores) e o Miguel Borges (e tantos outros actores) e nos fez percorrer os caminhos d'A Capital numa altura da minha vida em que ir ver teatro naquelas ruínas no meio do Bairro Alto fazia todo o sentido. Que me falava de filmes e de espectáculos e de actores. Brilhavam-lhe os olhos quando falava dos "seus" actores. Que estava sempre disponível para conversar, sobre a crise na cultura, sobre as peças que ia fazer, sobre os atores desaparecidos, sobre as dificuldades do teatro. "Quando queres?". Só houve uma vez que me disse que não: "Desculpa, são memórias de que não quero falar. Beijos". O Jorge que falava apaixonadamente. E que inventou os ensaios de imprensa feitos à tarde, com cenas para televisão à parte, com semanas de antecedência, para dar tempo para tudo. Até para morrer e deixar um espectáculo pronto a estrear.

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publicado às 20:37


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