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Um filme: 

 

A violação de Recy Taylor é um documentário de Nancy Buirski que nos conta como, numa noite quente de 1944, em Abeville, Alabama, no Sul dos EUA, uma rapariga negra de 24 anos foi violada por seis rapazes brancos de 14 a 18 anos. E de como ela foi ignorada pelas autoridades e viu a sua vida estragada. Sem que nunca se fizesse justiça. A história é revoltante, como é revoltante a história do racismo e do segregacionismo na América do século XX. É importante sabermos. É importante falarmos disto. O filme está em exibição apenas no Cinema Ideal, em Lisboa, de quinta a domingo, às 17.30.

 

Um espectáculo:

 

Histórias de LX é um espectáculo com poucas palavras mas que tem muito a dizer. Uma denúncia desta Lisboa gentrificada e turistificada onde, aparentemente, um T2 acessível é aquele que custa o dobro de um salário mínimo. Está lá tudo, dos pedintes às trotinetas passando pelos restaurantes chiques. Porque, como costumo dizer, às vezes é preciso ir ao teatro para depois vermos o mundo com mais clareza. O espectáculo do Teatro Meridional está no São Luiz até dia 16 de junho.

 

Um livro:

 

Tem sido a minha companhia nas últimas semanas: Becoming, a autobiografia de Michelle Obama, não é um livro denúncia nem tem revelações escandalosas, há ali um tom muito "polite" que é exigido a uma ex-primeira-dama, mas tem o dom de estar escrito com honestidade e sentido humor. A história que ela conta é a de uma rapariga negra de classe média-baixa que cresceu num subúrbio de Chicago e se apaixonou por um rapaz negro com um apelido estranho e sem qualquer fortuna mas que era uma cabeça brilhante, e de como aqueles dois, com a sua determinação, e apesar de todos os percalços, chegaram à Casa Branca. O sonho americano tornado realidade à nossa frente. Não foi exactamente assim? Pode até nem ter sido, já sabemos que cada um conta a história à sua maneira. Mas também não há de ter sido muito diferente. E o livro está recheado de pequenas histórias que, só por si, valem muito a pena. E faz-nos pensar o quanto foi preciso andar para de Recy Taylor chegarmos a Michelle Obama - e, apesar de tudo, quanto ainda nos falta andar.

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publicado às 12:11

Já há muito tempo que não venho aqui partilhar coisas bonitas, o que é uma injustiça porque até quando tudo parece correr mal na nossa vida há coisas bonitas a acontecerem.

 

Por exemplo, ainda vão a tempo de ir ver o espectáculo Xtròrdinário do Teatro Praga para os 125 anos do Teatro São Luiz. Se gostaram da Tropa Fandanga vão gostar ainda mais deste "musicól" que é muito divertido e "não binário". E tem os Fado Bicha, que são maravilhosos.

 

Já estreou na Netflix a terceira temporada da série Easy e continua a ser muito a vida como ela é, histórias de pessoas comuns com desejos comuns e problemas comuns. Sem batalhas sangrentas. Tal e qual como que gosto.

 

A Lena D'Água tem um disco novo, que se chama Desalmadamente. Eu ainda não o ouvi todo mas gostei muito daquilo que ouvi. Espero mesmo que lhe corra bem este come back. Esta é a Grande Festa e faz-nos abanar o corpinho com leveza:

 

E, já agora, o Manel Cruz também tem Vida Nova, que é como quem diz um novo álbum. E esta canção, O Navio Dela, é qualquer coisa. Prestem atenção à letra.

"A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela"

 

As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar. Mas há meses (anos?) que ando sem paciência para discotecas e noitadas. Tenho de encontrar um sítio com bom ambiente para dançar antes, muito antes, da meia-noite. Alguma sugestão?

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publicado às 08:29

09
Mai19

Recomeços

"Vladimir: We could start all over again perhaps.
Estragon: That should be easy.
Vladimir: It's the start that's difficult.
Estragon: You can start from anything.
Vladmir: Yes, but you have to decide."

 

Waiting for Godot (1952), Samuel Beckett

 

No fim-de-semana fui ao Teatro Nacional D. Maria II ver o espetáculo Conversations Out Of Place, uma criação de Ivana Müller, e lembrei-me muito de Godot - e não foi só porque, tal como na peça de Beckett, também aqui o palco está praticamente vazio, apenas com uma árvore. Quatro personagens caminham perdidas numa floresta, não sabemos muito bem quem são nem de onde vêm, imaginamos que procuram o caminho de regresso a casa mas sem nunca alcançá-lo. Passam-se dias, semanas, meses. E nada mais lhes resta se não continuar a mexer-se (em câmara lenta) e a falar, pois enquanto se mexerem e enquanto falarem continuarão vivos. Mesmo que a deteterminada altura já não consigam lembrar-se para onde se dirigem nem porque continuam a caminhar. As conversas repetem-se mas já não interessa nada do que digam. É só preciso continuar. Tal como Estragon e Vladmir estão presos naquela encruzilhada, passam a vida a dizer "vamos" mas nunca vão, também estas personagens estão presas neste movimento permanente. A mensagem acaba por não ser tão desesperante quanto a de Godot mas não deixa de nos pôr a pensar. Estamos perdidos nesta floresta, e isso tem tanto de assustador como de desafiante. Iremos alguma vez encontrar o caminho para casa? Ou, como disse a minha amiga Cláudia, colocando o foco no livre arbítrio, teremos coragem para romper com o rame-rame da vida e fazer um verdadeiro esforço para encontrar o outro (para nos encontrarmos) ou seguimos a nossa vidinha fazendo aquilo que é esperado de nós, sem qualquer entusiasmo, sem objectivo?

 

Podemos sempre começar. Ou começar de novo. Mas para isso temos que decidir fazê-lo. Essa é a parte verdadeiramente difícil.

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publicado às 08:08

O espectáculo estreou em 2012 e já correu mundo mas, vá-se lá saber como, só o vi ontem à noite. O Senhor Ibrahim e as Flores do Corão: texto de Eric-Emmanuel Schmidt, encenação e interpretação de Miguel Seabra com o músico Rui Rebelo. Só isto. Guiados pela voz delicada de Miguel deixamo-nos levar para a rua Bleu, na Paris dos anos 60, a rua dos judeus, onde o pequeno Moisés, de 11 anos, se faz homem ao mesmo tempo que se faz amigo do senhor Ibrahim, o único árabe ali e dono da mercearia de onde ele rouba latas de comida para o jantar do pai. Com Ibrahim, Momo (como ele lhe chama) aprende como o sorriso pode ser uma arma e como o amor que se tem por outra pessoa é valioso mesmo quando não é correspondido: "O que dás é teu para sempre, o que guardas está perdido para sempre".

 

Mas se é para escolher um ensinamento de Ibrahim, escolho este: "A lentidão é o segredo da felicidade".

 

Não ter pressa. É o que quero. Viver cada momento em pleno (como já falei AQUI e AQUI). Por exemplo. Tirar uma noite no meio do caos para ir ao teatro. Ouvir uma história bem contada. Rir. Emocionarmo-nos um pouco. Suspender a vida por uma hora e meia. Sair de lá e pensar: aconteça o que acontecer amanhã, esta pequena felicidade já ninguém me tira. E isto serve para tudo.

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publicado às 10:24

12
Fev19

Com o coração

Saber de cor um texto é sabê-lo "by heart", dizem os ingleses. Com o coração.

No sábado voltei a By Heart, o espetáculo de Tiago Rodrigues. Tinha-o visto há quatro anos e nessa noite saí do teatro com a certeza que queria voltar a vê-lo. Esperei pacientemente. Assim que soube desta apresentação única comprei os bilhetes à maluca. Como se conseguisse prever a minha vida com mais de um mês de antecedência. Calhou num fim de semana de trabalho, o António tinha um jantar de aniversário, o Pedro teve de ficar um bocadinho em casa de um amigo, a minha companhia cortou-se à última hora, eu estava exausta. Podia ter corrido tudo mal. Mas não. Embora já sem o factor surpresa, foi tão bom como da primeira vez. Se houver outra oportunidade, quero lá estar, de novo, para aprender de cor o soneto 30 de Shakespeare. By Heart é um espetáculo sobre a memória e o esquecimento. E sobre aquilo que realmente importa: aquilo que está dentro de nós. Além disso é uma experiência de partilha - partilha de histórias, de risos, de lágrimas, partilha de palco, de coisas para pensar, de afectos.

A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo. 

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publicado às 09:06

03
Jan19

Descomplicar

Fui ver as Conversas Sérias da Marta Gautier e trouxe de lá algumas coisas para pensar e esta música dos Titãs que se chama Epitáfio e que fala de como tantas vezes perdemos tempo com coisas que não valem a pena em vez de nos concentrarmos naquilo que é realmente importante. Esse tem sido um caminho que me tenho esforçado por fazer nos últimos anos. Ainda não consigo completamente, como é óbvio. Ainda há muita coisa que me ocupa a cabeça e me tira noites de sono (quase sempre coisas relacionadas com os putos ou com trabalho). Ainda me irrito muito e desatino e perco o controlo (tantas vezes) e digo coisas absolutamente desnecessárias. Ainda desespero por vezes quando as coisas não são exactamente como eu gostaria e percebo que não consigo controlar tudo o que acontece na minha vida ou à minha volta. Mas, acreditem, já consegui livrar-me de muita tralha. Mesmo muita. Cada vez mais me afasto de conversas e de situações irrelevantes. Cada vez mais sei aquilo que (e quem) me interessa. Aceitar as imperfeições, minhas e dos outros. Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Dar o meu melhor a quem o merece. Escolher muito bem as minhas batalhas. Ignorar tudo o resto. É um caminho. Quero que seja o meu caminho, mesmo sabendo como é difícil.

Vamos lá, 2019.

"Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr"

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publicado às 09:47

13
Out18

Da beleza

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Sentada na plateia, a deliciar-me com o espetáculo Os seis concertos brandeburgueses, de Anne Teresa de Keersmaeker, pensei na sorte que tenho. Por poder desfrutar de tamanha beleza. Por poder ficar ali, durante duas horas, a ouvir a música de Bach (tocada ao vivo por uma orquestra, o que faz toda a diferença) e a deixar-me levar pelos movimentos dos bailarinos. Maravilhosos. 

Era exactamente aquilo que eu precisava ontem à noite.

A semana foi horrível. Discussões com os putos, trabalho merdoso, angústias várias, aquela sensação de que estou a fazer tudo errado (é oficial: o efeito das férias já passou, estamos de volta ao momento em que estávamos antes de junho). E a culminar: antes de ir para a Culturgest, passei num velório, para dar um beijinho a um amigo que acabou de perder a sua pessoa. 

Só me apetecia fugir.

E depois isto. Deixar-me ir. A tensão a desaparecer do corpo e o sorriso a instalar-se na cara. Sim, sou mesmo uma pessoa com sorte. Mas às vezes esqueço-me.

mais uma sessão esta tarde, às 19.00. Aproveitem.

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publicado às 09:48

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Provisional Figures quer dizer números provisórios, que é como no Reino Unido são designados os imigrantes ilegais ou em situação indefinida. É também o nome do espectáculo que Marco Martins criou em Yarmouth, na Inglaterra. Começou por ser um projecto de trabalho com a grande comunidade portuguesa de Yarmouth mas tornou-se, mais do que isso, um espectáculo sobre a decadência de uma cidade e a decadência das pessoas, sobre um grupo de pessoas mal tratadas pela vida e que acabam, quase todas, a trabalhar nas fábricas de carnes da região, esventrando, cortando e embalando perús. Em palco estão nove pessoas, de origem portuguesa e não só, que nos contam bocados das suas histórias, das suas memórias, das suas vidas. É impossível não nos sentirmos tocados por aquelas presenças. É desarmante o modo como Sérgio exibe as cicatrizes no seu corpo. Como Carmo se sentiu uma máquina na linha de montagem da fábrica. Como Richard nos conta o amor da sua vida e nos mostra a tatuagem que fez e desfez por causa desse amor. Como Victoria dança e canta como a Spice Girl que não chegou a ser. Psycho Spice. Old Spice. Pressentimos a verdade nas suas vozes. Nos gestos. Nos olhos. No modo como se exibem em palco. Às vezes é preciso ir ao teatro para podermos enfrentar a realidade. Para vermos aquilo que está à nossa volta mas que no dia-a-dia não conseguimos ou não queremos ver.

Marco Martins sabe fazer isto como ninguém. O longo trabalho de pesquisa, o casting perfeito, a precisão com que tira de cada um apenas aquela história que vale a pena contar, a gestão das emoções daquelas pessoas que não estão habituadas a estar num palco, a seleção das músicas, a dramaturgia que nos vai tirando o chão.

E ali estamos nós, sentados na plateia do teatro, espectadores da miséria dos outros. Aplaudindo as vidas desgraçadas daquelas pessoas e a coragem que tiveram para se apresentar perante nós. Independentemente do que aquela experiência significa para nós (experiência estética, intelectual, emocional - e eu emocionei-me mesmo), não consigo evitar um certo desconforto. Pelo voyeurismo. Por transformarmos a vida de outras pessoas em espectáculo. Por pagarmos bilhetes não para vermos actores a representar mas para vermos pessoas a exibirem as suas lágrimas verdadeiras.

E, depois, temos obrigação de parar para pensar o que é que lhes acontece depois de saírem do palco. Pessoas que (neste caso, quase todas) nunca tinham sequer visto um espectáculo de teatro. E que agora são expostas desta maneira. Como num reality show, só que mais bonito e trabalhado, com falas decoradas e marcações.

Não é a primeira vez que penso nisto. Nem sequer posso dizer, com toda a certeza, que isto esteja errado. Mas tenho esta dúvida. Porque se é verdade que grande parte da força deste espetáculo (tal como já acontecia em Todo o Mundo é um Palco) vem da genuinidade daquelas pessoas, também é verdade que o teatro não tem que ser genuíno - se os actores forem bons, se o espectáculo for bom, não precisamos de genuinidade para nada. É esse o jogo do teatro.

Da noite de ontem, para além das histórias da Victoria, do Richard, da Carmo e dos outros, trouxe mais isto para pensar. 

Podem ver Provisional Figures, até 4 de julho, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

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publicado às 09:33

29
Abr18

Tenente

Foram quase quatro meses de contactos. Ele tem tanto trabalho que mal consegue ter tempo para uma conversa. Mas eu sabia que queria fazer esta entrevista. E sabia que ainda ninguém tinha contado esta história - de como um dos grandes estilistas nacionais decide abandonar a moda (as lojas, os desfiles, as colecções, as tendências do mercado) e dedicar-se exclusivamente aos figurinos de espectáculos. Foram quase quatro meses a encontrá-lo em ensaios, então?, esta semana?, na próxima?, quando?. Lá conseguimos. A entrevista a José António Tenente foi publicada ontem e eu fiquei contente e até um pouco orgulhosa. Porque ele é uma pessoa muito fixe (já tinha ficado com essa impressão da primeira vez que o entrevistei, há mais de dez anos). Porque se dedica de corpo e alma àquilo que faz. E porque está feliz, e isso nota-se.

Devíamos todos poder trabalhar naquilo que nos faz feliz (mas nem sempre é possível. deal with it. again).

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Fotografia de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

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publicado às 19:33

Foi uma semana cheia de imprevistos, desilusões, coisas más, desmotivação geral, chuva e hormonas aos saltos. Mas também foi uma semana com:

A Marta Gautier a explicar a diferença entre "alfas" e "betas" no espetáculo Pessoas Estranhas.

Almoçar sozinha (entretida com as conversas das outras mesas) a comida bem boa de A Luz Ideal.

As vidas banais da série Easy, no Netflix.

Fazer biscoitos. Molhá-los no leite morno.

Jantar em casa de amigos. Beber vinho. Trocar confidências. Gargalhar.

Cometer loucuras, porque é bom.

O jogo que importa foi ganho pelos nossos miúdos.

Os abraços deles (mesmo quando são umas pestes). 

Um fim-de-semana inteiro quase offline. Neste momento, desligar é a palavra de ordem cá em casa.

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Quando te sentires a perder o pé, flutua. Recupera o fôlego. E continua.

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publicado às 22:38


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