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Para uma história do teatro

No Dia Mundial do Teatro, o André e. Teodósio deu uma conferência sobre a história do teatro experimental em Portugal, desde os anos 40 até ao presente. Para além da enorme pesquisa, é impressionante ver toda a reflexão que ele fez para conseguir esquematizar e sintetizar influências, linhas de trabalho, objectivos, problemas, projectos e desafios de tanta gente. Além disso, dá para sentir toda a paixão do André pelo teatro e pelo teatro experimental. A conferência continua disponível no Facebook do Teatro do Bairro Alto. Aproveitem.

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(a foto é de O Misantropo, o primeiro espetáculo da Cornucópia, 1973)

Casas para as pessoas

Também no Dia Mundial do Teatro, o São Luiz propôs uma programação online para "Estar em Casa" que, entre muitas outras coisas, incluiu uma intervenção da designer e antropóloga brasileira Zoy Anastassakis que falou sobre a sua relação com a obra do seu pai, o arquiteto e urbanista Demetre Anastassakis. Oportunidade para pensarmos no direito à habitação e na arquitectura para as pessoas, em vez de ser só uma arte da monumentalidade e do exibicionismo de formas e de egos. Aqui está:

Duas séries para ver em streaming

Não tenho visto muita coisa e ainda nem comecei a ver os filmes dos Óscares (desta semana não passa, está decidido) mas, neste último mês, vi na HBO duas séries muito diferentes e de que gostei bastante.

It's a Sin coloca-nos em Londres, nos anos 80, a acompanhar um grupo de jovens na descoberta da sua sexualidade (para quase todos homossexualidade) e, depois, no confronto com a sida. Oscila, por isso, entre a alegria queer desenfreada e a tristeza mais profunda. É também uma história do preconceito e da ignorância - e de como o medo do desconhecido pode ser tão desumanizador. 

Normal People leva-nos para a Irlanda e também nos põe a acompanhar um grupo de jovens, primeiro no liceu e depois na faculdade, e, de entre eles, os amores e desamores de Marianne e Connell. São duas pessoas bastante problemáticas. Ele com muita dificuldade em expressar o que sente e em dizer o que quer. Ela com traumas familiares que influenciam muito a ideia que tem si mesma e o que julga ser o seu lugar no mundo. Ambos com uma imensa dificuldade em ser quem realmente são, em assumir-se perante os outros. Algo que só conseguirão ultrapassar juntos. O amor nem sempre é um caminho fácil e nem sempre tem um happy end, mas nem por isso deixa de ser amor, não é?

Escusado será dizer que me fartei de chorar a ver estas duas séries. 

E já agora prestem atenção às bandas sonoras, as duas magníficas, cada uma no seu género.

Música para fugir das breaking news

Uma das coisas de que tenho mais saudades é de ouvir música enquanto trabalho. Era algo que eu fazia e que, agora, no meu trabalho novo, porque tenho que estar sempre atenta à televisão, não é possível. O ritmo das breaking news pode ser muito intenso e, às vezes, é mesmo preciso parar e desligar. Nas minhas pausas, nestes últimos dias, tenho tido a companhia de Bach interpretado pelo pianista islandês Víkingur Ólafsson:

(e dizer, mais uma vez, que sou muito agradecida a todas as pessoas que me mostram músicas novas, livros novos, mundos novos e que me ajudam a cuidar do meu jardim. assim vai valendo a pena.)

publicado às 16:13

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Não era um tema fácil. De tal forma que, antes mesmo de estrear, o espectáculo já estava a ser criticado, só pelo título, só por aquilo que se lia na sinopse e que na altura não era ainda mais do que um manifesto de intenções: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas é uma peça escrita e encenada por Tiago Rodrigues, que fala sobre isso mesmo, sobre fascismo e sobre pessoas que matam fascistas. Não, não é um tema fácil. Mas é um tema necessário.

Comecemos pela Catarina do título, referência a Catarina Eufémia, uma ceifeira alentejana que, a 19 de maio de 1954, durante uma greve e um protesto das trabalhadoras que pediam um aumento salarial, foi assassinada por um elemento da GNR com três tiros. Na altura, tinha apenas 26 anos.

O ponto de partida do espectáculo é este: uma das companheiras de Catarina Eufémia, que viu o que aconteceu, ficou tão revoltada que nesse dia decidiu matar o seu marido, também ele guarda, que assistiu ao assassinato sem nada fazer tornando-se seu cúmplice. Essa mulher decide então que todos os anos irá matar um fascista e depois enterrá-lo no seu terreno, plantando no local um sobreiro. A estranha tradição passa para os filhos e netos que, chegados aos 26 anos, se tornam assassinos de fascistas - sobretudo fascistas que tenham de alguma forma contribuído para a morte de uma ou mais mulheres. Todos os anos, em maio, a família reúne-se na casa do Alentejo. Nesse dia, todos os elementos da família, sejam homens ou mulheres, vestem-se de ceifeira e são chamados de Catarina. Juntam-se à mesa para comer e beber e depois matam um fascista.

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É aí que os encontramos, num futuro próximo do nosso: imaginemos que daqui a meia dúzia de anos os fascistas chegam ao poder em Portugal e preparam-se para aprovar uma nova Constituição. Em maio, como sempre, a família captura um dos principais ideólogos do regime e vai matá-lo. Será a primeira vez que Catarina, agora com 26 anos, vai matar um fascista. Mas no momento de apertar o gatilho ela tem dúvidas.

Matar ou não matar? É legítimo usar a violência para combater o fascismo? É legítimo fazer justiça pelas próprias mãos quando sentimos que o sistema nos falha? 

E ainda: como poderemos impedir os fascistas de chegar ao poder? Terá a democracia as armas necessárias para travar um combate com quem mente, destorce e aldraba as regras democráticas? Serão as palavras suficientemente poderosas para esta luta? E se não fizermos nada seremos cúmplices dos fascistas? 

Todo o espectáculo é extraordinário no modo como nos vai introduzindo as personagens, com os seus motivos e as suas nuances, ora fazendo-nos rir ora fazendo-nos pensar, ao mesmo tornando real e utópica aquela situação, mas a cena central é a troca de argumentos entre Catarina-mãe e Catarina-filha. O dilema é também nosso e é do presente: o que podemos nós fazer? Catarina e a Beleza de Matar Fascistas não nos dá respostas mas faz-nos muitas perguntas. E à medida que se aproxima do fim faz-nos remexer na cadeira, num desconforto, olhando para o lado, indagando aqueles que nos rodeiam: e agora?

É essa a pergunta que continuamos a fazer depois do espectáculo e que é tão necessária nos dias de hoje: o que fazemos agora?

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Muito mais do que mensagem, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas é um prazer para os olhos e para os ouvidos, para o cabeça e para o coração. A peça é muito bem escrita - embora às vezes eu preferisse que não fosse tão explícita, percebe-se que as referências concretas têm como objectivo alertar-nos para o perigo real que vivemos, em Portugal, em 2020 - e muito bem interpretada (António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva, Sara Barros Leitão - todos óptimos), os figurinos de José António Tenente são fabulosos, o cenário de F. Ribeiro é lindo, a música de Pedro Costa perfeita.

E o Alentejo está ali todo, para nosso deleite, mesmo para quem, como eu, não gosta de pezinhos de coentrada.

Se quiseram saber mais, leiam a crítica do Rui Pina Coelho.

Depois de duas sessões esgotadas no CCB, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas vai estar em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 7 a 25 de abril. Não percam.

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publicado às 12:04

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Há um momento em Cock cock... Who's there? em que vemos Samira Elagoz com a mãe e a avó a falarem sobre os abusos que sofreram dos homens: a avó há muito tempo por parte de um estranho, a neta há pouco tempo pelo seu namorado. É tudo tão comovente. O modo como falam e aquilo que não conseguem verbalizar. A conversa termina com um abraço de grupo, Samira desata a chorar incontrolavelmente, a mãe abraça-a com força como as mães costumam fazer quando querem que o seu amor proteja os filhos de todos os males do mundo, a cadela ladra, a avó olha-as imensamente triste sem saber o que dizer.

A verdade é que as mulheres sempre foram mal tratadas e abusadas ao longo de toda a história, mesmo quando não tinham coragem para falar, mesmo quando se encolhiam na vergonha e no medo e fingiam que não tinha acontecido nada. E a triste verdade é que isso acontece ainda hoje, apesar de cada vez mais mulheres terem coragem para denunciar e sentirem necessidade de falar sobre o que lhes aconteceu para que o tema deixe de ser um tabu e possa ser encarado como aquilo que é: um crime. E, no entanto, apesar de muito ter mudado nos últimos anos, vemos este espectáculo e sabemos que ainda muito falta mudar.

Cock cock... Who's there? é uma performance-palestra de Samira Elagoz, artista finlandesa de 31 anos que partiu da sua própria experiência de violação para fazer uma investigação sobre as relações entre homens e mulheres: o que procuram quando se encontram?, como se comportam num primeiro encontro?, qual é a sua noção de abuso? Ao longo de quatro anos, Samira encontrou-se com estranhos que conheceu em plataformas de encontros online. Explicava-lhes que estava a fazer um documentário e filmava esse encontro.

[À margem: Lembrei-me da Raquel André e da sua Colecção de Amantes (vejam aqui: Raquel André.pdf): apesar de as motivações serem distintas, o dispositivo é muito semelhante, assim como a inquietação em torno do que é a intimidade e, por fim, a inevitável mistura entre realidade e representação/ficção.]

À nossa frente, Samira Elagoz mostra-nos os vídeos que fez e conta-nos estes episódios da sua vida, sem qualquer expressão no rosto ou emoção na voz. E faz-nos perguntar. Que narrativas criamos em torno de um acontecimento traumático como uma violação? Como poderemos lidar com esse trauma? De que forma essa experiência pode ser transformada em performance ora avassaladoramente documental e incómoda ora quase uma fábula, pintalgada de humor e de música, contada como quem conta uma história. 

Porque é sobre violação, Cock cock... Who's there? é também sobre o que é ser homem e mulher, sobre os estereótipos que persistem sobre a sexualidade de homens e mulheres, sobre a necessidade de deixar de olhar os corpos das mulheres como meros objectos do desejo dos homens, sobre a necessidade de deixar de culpar as mulheres pelos abusos que sofrem, sobre a necessidade de cada mulher ter controlo sobre a sua vida e o seu corpo - sem medo de sair à noite, sem medo de andar sozinha, sem medo de se encontrar com um desconhecido, sem medo dos homens.  

Se quiserem saber mais sobre Samira Elagoz leiam a entrevista ao Público.

Programado pelo Teatro do Bairro Alto, o espectáculo Cock cock... Who's there? pode ainda ser visto por maiores de 18 anos no domingo e na segunda-feira, às 11.00, no Lux. 

Eu fui hoje de manhã. Deixei os putos a dormir e tirei um tempinho para mim, que tanto preciso. E foi bem bom. Voltei para casa, para o confinamento, com montes de coisas para pensar e esta música:

You don't own me, Lesley Gore

publicado às 17:03

Este sábado fui ao teatro às 11.00.

Eu percebo que para as pessoas que já não são muito fãs de teatro este horário é mais difícil. Não dá para fazer aquele programa básico de jantar mais espectáculo mais copo e tornar a ida ao teatro mais atractiva porque significa também estar com um amigo e pôr a conversa em dia. A esta hora, e com o confinamento às 13.00, nem dá para almoçar a seguir, é verdade. Também há aquelas pessoas que têm dificuldade em funcionar de manhã e que acham que isto de acordar cedo (cedo?) ao fim-de-semana para ir ao teatro é capaz de ser uma maluqueira.

Mas, para mim, que gosto de teatro e gosto de manhãs, e que assim como assim raramente arranjo quem me queira acompanhar, é óptimo. E atrapalha-me muito menos a dinâmica familiar, uma vez que as manhãs de sábado cá em casa são geralmente de muita preguiça. 

Fui ver Os Silvas, o novo espectáculo do Teatro Meridional, com um texto original de Mário Botequilha e encenação de Miguel Seabra, que é uma reflexão sobre estes tempos de pandemia e confinamento que vivemos e o modo como isto nos está afectar - nas relações familiares, na relação que temos com o mundo "lá fora", nas nossas perspectivas para o futuro e muito também na sanidade mental da maioria de nós. É como um retrato deste momento, com desinfectante, pantufas e algum humor.

O espectáculo fica em cena até 20 de dezembro. De quarta a sexta às 20.00, sábados e domingos às 11.00.

Com máscaras, álcool-gel e distanciamento, seja a que horas for, #aculturaésegura.

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publicado às 13:42

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O meu pai mandou-me esta foto em jeito de prenda de anos. Há 46 anos eu era assim, pequenina e tranquila ao colo da minha avó.

Agora já não sou pequenina. Mas estou tranquila. 

Este foi um fim-de-semana cheio de emoções. Um confinamento. Um despedimento. Um aniversário. E uma bela TPM. A tempestade perfeita. E, afinal, correu tudo bem. Pela primeira vez desde que me lembro não fiz nenhum bolo mas tive dois bolos deliciosos. E, de longe ou de perto, tive muitos abraços. Porque tenho amigos dos bons (os amigos salvam-me todos os dias, já o sabia, e posso sempre recorrer a um texto lamechas lido na adolescência e trazê-lo para aqui e está tudo certo). E, para terminar em grande, levei os meus filhos a ver todas as coisas maravilhosas e só o facto de termos ido e de eles terem gostado (principalmente o adolescente) foi maravilhoso. 

Nem de propósito, uma das músicas do espectáculo é esta, do Jorge Palma, que cantei em coro com o Ivo Canelas e as lágrimas a embaciarem-me os óculos. 

Acho que é mesmo a música perfeita para hoje.

"Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"

publicado às 12:51

13
Set20

Tempos modernos

A Modern Man, de George Carlin

“I’m a modern man, a man for the millennium. Digital and smoke free. A diversified multi-cultural, post-modern deconstruction that is anatomically and ecologically incorrect. I’ve been up linked and downloaded, I’ve been inputted and outsourced, I know the upside of downsizing, I know the downside of upgrading. I’m a high-tech low-life. A cutting edge, state-of-the-art bi-coastal multi-tasker and I can give you a gigabyte in a nanosecond!
I’m new wave, but I’m old school and my inner child is outward bound. I’m a hot-wired, heat seeking, warm-hearted cool customer, voice activated and bio-degradable. I interface with my database, my database is in cyberspace, so I’m interactive, I’m hyperactive and from time to time I’m radioactive.
 
Behind the eight ball, ahead of the curve, ridin the wave, dodgin the bullet and pushin the envelope. I’m on-point, on-task, on-message and off drugs. I’ve got no need for coke and speed. I've got no urge to binge and purge. I’m in-the-moment, on-the-edge, over-the-top and under-the-radar. A high-concept, low-profile, medium-range ballistic missionary. A street-wise smart bomb. A top-gun bottom feeder. I wear power ties, I tell power lies, I take power naps and run victory laps. I’m a totally ongoing big-foot, slam-dunk, rainmaker with a pro-active outreach. A raging workaholic. A working rageaholic. Out of rehab and in denial!
 
I’ve got a personal trainer, a personal shopper, a personal assistant and a personal agenda. You can’t shut me up. You can’t dumb me down because I’m tireless and I’m wireless, I’m an alpha male on beta-blockers.
 
I’m a non-believer and an over-achiever, laid-back but fashion-forward. Up-front, down-home, low-rent, high-maintenance. Super-sized, long-lasting, high-definition, fast-acting, oven-ready and built-to-last! I’m a hands-on, foot-loose, knee-jerk head case pretty maturely post-traumatic and I’ve got a love-child that sends me hate mail.
 
But, I’m feeling, I’m caring, I’m healing, I’m sharing-- a supportive, bonding, nurturing primary care-giver. My output is down, but my income is up. I took a short position on the long bond and my revenue stream has its own cash-flow. I read junk mail, I eat junk food, I buy junk bonds and I watch trash sports! I’m gender specific, capital intensive, user-friendly and lactose intolerant.
 
I like rough sex. I like tough love. I use the “F” word in my emails and the software on my hard-drive is hardcore--no soft porn.
 
I bought a microwave at a mini-mall; I bought a mini-van at a mega-store. I eat fast-food in the slow lane. I’m toll-free, bite-sized, ready-to-wear and I come in all sizes. A fully-equipped, factory-authorized, hospital-tested, clinically-proven, scientifically- formulated medical miracle. I’ve been pre-wash, pre-cooked, pre-heated, pre-screened, pre-approved, pre-packaged, post-dated, freeze-dried, double-wrapped, vacuum-packed and, I have an unlimited broadband capacity.
 
I’m a rude dude, but I’m the real deal. Lean and mean! Cocked, locked and ready-to-rock. Rough, tough and hard to bluff. I take it slow, I go with the flow, I ride with the tide. I’ve got glide in my stride. Drivin and movin, sailin and spinin, jiving and groovin, wailin and winnin. I don’t snooze, so I don’t lose. I keep the pedal to the metal and the rubber on the road. I party hearty and lunch time is crunch time. I’m hangin in, there ain’t no doubt and I’m hangin tough, over and out!”
 
 
Descobri este texto através de um vídeo no Instagram do Ivo Canelas. Não conhecia o George Carlin, humorista que morreu em 2008, e ainda perdi algum tempo ver alguns dos seus sketches no YouTube. Tem algumas coisas muitos boas, outras nem por isso. Mas este Modern Man é qualquer coisa.
A propósito, fiquem a saber que Ivo Canelas está de volta com o espectáculo Todas as Coisas Maravilhosas. E já há sessões esgotadas. Eu já vi, mas gostei tanto que já comprei bilhetes para ir ver outra vez. 

publicado às 16:57

Fui ontem ver o espectáculo La Maquina de la Soledad, dos Microscopía Y Oligor, integrado no Descon'FIMFA, o festival de marionetas que está a decorrer em Lisboa. Uma hora e meia de puro deleite. Deixarmo-nos ir para dentro de uma história, sem pressas. Estava a precisar muito disto. Depois das minhas pessoas, com quem tenho procurado estar, apesar de todos os constrangimentos, tenho saudades de ir ao teatro e ao cinema - tantas vezes até ia sozinha - só para desligar da vida durante um bocadinho, só para sair de mim, ou, pelo contrário, para fazer uma introspecção, só para expandir o meu mundo, ou para desfrutar da beleza, ou para desafiar o pensamento, ou para me emocionar, ou para o que fosse.

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publicado às 16:23

Ao 100º dia os miúdos foram passar o fim-de-semana com o pai. E eu adoro-os do fundo do meu coração mas estava mesmo a precisar disto. De não pensar neles, de não me preocupar com a escola, de não ter que fazer o jantar, de não ouvir as parvoíces que eles dizem o dia inteiro enquanto jogam playstation, estava a precisar de não pensar em absolutamente nada. E assim foi. Nestas 34 horas fui só eu. Uma amiga ao jantar de sábado, outra amiga ao almoço de domingo, muita conversa para pôr em dia, uma peça de teatro pelo meio e uma casa em silêncio. Vai acabar não tarda (e também é por isso, por ser assim só por um bocadinho, que é tão bom, como é óbvio).

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By Heart, outra vez. E aquela sensação de voltar a casa. Como escrevi há pouco mais de um ano: "A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo."

publicado às 19:12

Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o Rei Lear e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de Rua de Sentido Único, que Mónica Calle apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois  espectadores  de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de subir eu mesma ao palco para dançar com gente desconhecida depois de Fica no Singelo, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis. 

Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?

Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. AQUI estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.

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publicado às 11:03

O Pedro viu o anúncio na televisão e pediu: podemos ir, mãe? Eu nem tinha sugerido nada porque já tínhamos visto os Stomp há seis anos (já seis anos? o tempo passa depressa), mas a verdade é que ele era ainda pequeno e por isso tinha memórias um pouco difusas. Além disso, uma pessoa não se cansa de ver os Stomp, não é? Eu já os vi três vezes e continuo a adorar. Então, em vez de estudar a fotossíntese, como planeado, deixámos um jogador de futebol lesionado em casa a estudar (ou a jogar playstation, nunca o saberemos) e lá fomos os dois. 

Sorrimos durante uma hora e quarenta minutos. Que alegria. Que alegria a dele. Que alegria a minha, com o espectáculo mas também por vê-lo assim feliz.

Ao longo do espectáculo, apercebi-me de outra coisa: os intérpretes, além de extraordinários e também eles felizes por estarem ali, são um grupo diverso, composto por gente de todas as cores, homens e mulheres, altos e baixos, gordos e magros, com muitas tatuagens e penteados divertidos. É bom ver a diversidade no palco. A mensagem que isto transmite aos miúdos é que qualquer um deles poderá um dia também estar no palco (ou onde quiser estar). Não é preciso corresponder a um esteoreótipo qualquer para fazer algo belo e ouvir aplausos. Podemos dizê-lo muitas vezes mas nada como vê-lo para que a lição fique bem sabida.

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Os Stomp estão no Teatro Tivoli, em Lisboa, até 29 de março. Se ainda não os viram, aproveitem que é mesmo fixe.

publicado às 16:40


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