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A Gata Christie


Terça-feira, 12.02.19

Com o coração

Saber de cor um texto é sabê-lo "by heart", dizem os ingleses. Com o coração.

No sábado voltei a By Heart, o espetáculo de Tiago Rodrigues. Tinha-o visto há quatro anos e nessa noite saí do teatro com a certeza que queria voltar a vê-lo. Esperei pacientemente. Assim que soube desta apresentação única comprei os bilhetes à maluca. Como se conseguisse prever a minha vida com mais de um mês de antecedência. Calhou num fim de semana de trabalho, o António tinha um jantar de aniversário, o Pedro teve de ficar um bocadinho em casa de um amigo, a minha companhia cortou-se à última hora, eu estava exausta. Podia ter corrido tudo mal. Mas não. Embora já sem o factor surpresa, foi tão bom como da primeira vez. Se houver outra oportunidade, quero lá estar, de novo, para aprender de cor o soneto 30 de Shakespeare. By Heart é um espetáculo sobre a memória e o esquecimento. E sobre aquilo que realmente importa: aquilo que está dentro de nós. Além disso é uma experiência de partilha - partilha de histórias, de risos, de lágrimas, partilha de palco, de coisas para pensar, de afectos.

A vida vai torta por estes lados, de maneiras várias e com grande dificuldade em endireitar-se. Mas. Sair de uma sala de espectáculos feliz continua a ser uma das melhores coisas do mundo. 

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por Gata às 09:06

Quinta-feira, 03.01.19

Descomplicar

Fui ver as Conversas Sérias da Marta Gautier e trouxe de lá algumas coisas para pensar e esta música dos Titãs que se chama Epitáfio e que fala de como tantas vezes perdemos tempo com coisas que não valem a pena em vez de nos concentrarmos naquilo que é realmente importante. Esse tem sido um caminho que me tenho esforçado por fazer nos últimos anos. Ainda não consigo completamente, como é óbvio. Ainda há muita coisa que me ocupa a cabeça e me tira noites de sono (quase sempre coisas relacionadas com os putos ou com trabalho). Ainda me irrito muito e desatino e perco o controlo (tantas vezes) e digo coisas absolutamente desnecessárias. Ainda desespero por vezes quando as coisas não são exactamente como eu gostaria e percebo que não consigo controlar tudo o que acontece na minha vida ou à minha volta. Mas, acreditem, já consegui livrar-me de muita tralha. Mesmo muita. Cada vez mais me afasto de conversas e de situações irrelevantes. Cada vez mais sei aquilo que (e quem) me interessa. Aceitar as imperfeições, minhas e dos outros. Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Dar o meu melhor a quem o merece. Escolher muito bem as minhas batalhas. Ignorar tudo o resto. É um caminho. Quero que seja o meu caminho, mesmo sabendo como é difícil.

Vamos lá, 2019.

"Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr"

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por Gata às 09:47

Sábado, 13.10.18

Da beleza

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Sentada na plateia, a deliciar-me com o espetáculo Os seis concertos brandeburgueses, de Anne Teresa de Keersmaeker, pensei na sorte que tenho. Por poder desfrutar de tamanha beleza. Por poder ficar ali, durante duas horas, a ouvir a música de Bach (tocada ao vivo por uma orquestra, o que faz toda a diferença) e a deixar-me levar pelos movimentos dos bailarinos. Maravilhosos. 

Era exactamente aquilo que eu precisava ontem à noite.

A semana foi horrível. Discussões com os putos, trabalho merdoso, angústias várias, aquela sensação de que estou a fazer tudo errado (é oficial: o efeito das férias já passou, estamos de volta ao momento em que estávamos antes de junho). E a culminar: antes de ir para a Culturgest, passei num velório, para dar um beijinho a um amigo que acabou de perder a sua pessoa. 

Só me apetecia fugir.

E depois isto. Deixar-me ir. A tensão a desaparecer do corpo e o sorriso a instalar-se na cara. Sim, sou mesmo uma pessoa com sorte. Mas às vezes esqueço-me.

mais uma sessão esta tarde, às 19.00. Aproveitem.

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por Gata às 09:48

Sexta-feira, 29.06.18

Números provisórios

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Provisional Figures quer dizer números provisórios, que é como no Reino Unido são designados os imigrantes ilegais ou em situação indefinida. É também o nome do espectáculo que Marco Martins criou em Yarmouth, na Inglaterra. Começou por ser um projecto de trabalho com a grande comunidade portuguesa de Yarmouth mas tornou-se, mais do que isso, um espectáculo sobre a decadência de uma cidade e a decadência das pessoas, sobre um grupo de pessoas mal tratadas pela vida e que acabam, quase todas, a trabalhar nas fábricas de carnes da região, esventrando, cortando e embalando perús. Em palco estão nove pessoas, de origem portuguesa e não só, que nos contam bocados das suas histórias, das suas memórias, das suas vidas. É impossível não nos sentirmos tocados por aquelas presenças. É desarmante o modo como Sérgio exibe as cicatrizes no seu corpo. Como Carmo se sentiu uma máquina na linha de montagem da fábrica. Como Richard nos conta o amor da sua vida e nos mostra a tatuagem que fez e desfez por causa desse amor. Como Victoria dança e canta como a Spice Girl que não chegou a ser. Psycho Spice. Old Spice. Pressentimos a verdade nas suas vozes. Nos gestos. Nos olhos. No modo como se exibem em palco. Às vezes é preciso ir ao teatro para podermos enfrentar a realidade. Para vermos aquilo que está à nossa volta mas que no dia-a-dia não conseguimos ou não queremos ver.

Marco Martins sabe fazer isto como ninguém. O longo trabalho de pesquisa, o casting perfeito, a precisão com que tira de cada um apenas aquela história que vale a pena contar, a gestão das emoções daquelas pessoas que não estão habituadas a estar num palco, a seleção das músicas, a dramaturgia que nos vai tirando o chão.

E ali estamos nós, sentados na plateia do teatro, espectadores da miséria dos outros. Aplaudindo as vidas desgraçadas daquelas pessoas e a coragem que tiveram para se apresentar perante nós. Independentemente do que aquela experiência significa para nós (experiência estética, intelectual, emocional - e eu emocionei-me mesmo), não consigo evitar um certo desconforto. Pelo voyeurismo. Por transformarmos a vida de outras pessoas em espectáculo. Por pagarmos bilhetes não para vermos actores a representar mas para vermos pessoas a exibirem as suas lágrimas verdadeiras.

E, depois, temos obrigação de parar para pensar o que é que lhes acontece depois de saírem do palco. Pessoas que (neste caso, quase todas) nunca tinham sequer visto um espectáculo de teatro. E que agora são expostas desta maneira. Como num reality show, só que mais bonito e trabalhado, com falas decoradas e marcações.

Não é a primeira vez que penso nisto. Nem sequer posso dizer, com toda a certeza, que isto esteja errado. Mas tenho esta dúvida. Porque se é verdade que grande parte da força deste espetáculo (tal como já acontecia em Todo o Mundo é um Palco) vem da genuinidade daquelas pessoas, também é verdade que o teatro não tem que ser genuíno - se os actores forem bons, se o espectáculo for bom, não precisamos de genuinidade para nada. É esse o jogo do teatro.

Da noite de ontem, para além das histórias da Victoria, do Richard, da Carmo e dos outros, trouxe mais isto para pensar. 

Podem ver Provisional Figures, até 4 de julho, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

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por Gata às 09:33

Domingo, 29.04.18

Tenente

Foram quase quatro meses de contactos. Ele tem tanto trabalho que mal consegue ter tempo para uma conversa. Mas eu sabia que queria fazer esta entrevista. E sabia que ainda ninguém tinha contado esta história - de como um dos grandes estilistas nacionais decide abandonar a moda (as lojas, os desfiles, as colecções, as tendências do mercado) e dedicar-se exclusivamente aos figurinos de espectáculos. Foram quase quatro meses a encontrá-lo em ensaios, então?, esta semana?, na próxima?, quando?. Lá conseguimos. A entrevista a José António Tenente foi publicada ontem e eu fiquei contente e até um pouco orgulhosa. Porque ele é uma pessoa muito fixe (já tinha ficado com essa impressão da primeira vez que o entrevistei, há mais de dez anos). Porque se dedica de corpo e alma àquilo que faz. E porque está feliz, e isso nota-se.

Devíamos todos poder trabalhar naquilo que nos faz feliz (mas nem sempre é possível. deal with it. again).

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Fotografia de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

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por Gata às 19:33

Domingo, 15.04.18

A felicidade nas coisas pequenas (XXXV)

Foi uma semana cheia de imprevistos, desilusões, coisas más, desmotivação geral, chuva e hormonas aos saltos. Mas também foi uma semana com:

A Marta Gautier a explicar a diferença entre "alfas" e "betas" no espetáculo Pessoas Estranhas.

Almoçar sozinha (entretida com as conversas das outras mesas) a comida bem boa de A Luz Ideal.

As vidas banais da série Easy, no Netflix.

Fazer biscoitos. Molhá-los no leite morno.

Jantar em casa de amigos. Beber vinho. Trocar confidências. Gargalhar.

Cometer loucuras, porque é bom.

O jogo que importa foi ganho pelos nossos miúdos.

Os abraços deles (mesmo quando são umas pestes). 

Um fim-de-semana inteiro quase offline. Neste momento, desligar é a palavra de ordem cá em casa.

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Quando te sentires a perder o pé, flutua. Recupera o fôlego. E continua.

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por Gata às 22:38

Segunda-feira, 05.03.18

Montanha russa

Ter um filho adolescente é como ser mãe pela primeira vez, outra vez. Nada nos prepara para isto. As crianças têm 10 anos e uma pessoa acha que já sabe mais ou menos com o que pode contar, que já dá conta do recado, que isto de ser mãe se calhar não é assim tão difícil, julgamo-nos o melhor condutor do mundo e, no entanto, lá vem a adolescênca para nos trocar as voltas. 13 anos. Aquela criança linda e amorosa transforma-se, de repente, numa pessoa que mal conhecemos, uma pessoa de phones nos ouvidos e os olhos pregados ao telemóvel, que tanto nos derrete com as suas conversas queridas e com o seu sentido de humor como diz umas parvoíces enormes e é tão mal educado que temos que nos controlar para não lhe dar um belo par de estalos. É como ter um estranho em casa. Dou por mim a perguntar: onde está o meu filho? Os adolescentes fazem coisas como soprar quando os mandamos arrumar a roupa, dar respostas tortas, mentir quando não lhes convém dizer a verdade, amuar quando os obrigamos a fazer programas de família, não estudar, ouvir músicas horríveis, desafiar a autoridade dos pais, ignorar o que lhes dizemos, estar-se nas tintas para o mundo, teimar que estão certos, ser ainda mais mal educados. Pelo meio também fazem coisas boas, é claro. Mas em muito menos quantidade. Ter um filho adolescente é muito mas mesmo muito mais difícil do que ter um bebé, e eu sei que isto é um cliché mas não é por isso que é menos verdade. Porque nós sabemos que os bebés crescem rapidamente e, com mama ou sem mama, com chucha ou sem chucha, com mais ou menos histórias ao fim do dia, desde que a gente esteja ali a tomar conta deles, desde que haja colo e comida e amor tudo irá ao lugar. Já quanto aos adolescentes aquilo que sinto é que posso mesmo estar a fazer tudo errado e que os erros que eu cometer agora poderão ter consequências mesmo graves no futuro. Estamos permanentemente na corda bamba. E nunca se sabe o que poderá acontecer. É uma sensação horrível. Mas continuarei a dar o meu melhor, que é a única coisa que posso fazer.

Não tenho soluções milagrosas. Vou errando. Vou aprendendo. Continuo a errar.

Sei que não estou sozinha nisto. O que não me ajuda mas dá-me algum alento.

E tento sempre lembrar-me que se isto é mau para mim, para ele também não deve ser nada fácil. Afinal, estamos juntos nesta montanha russa de emoções e hormonas descontroladas. 

É sobre isto tudo que fala o espectáculo Montanha Russa, de Miguel Fragata e Inês Barahona, que se estreia esta semana no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Eu vi um ensaio mas gostei tanto que já reservei bilhetes para ir ver de novo e levar os meus miúdos. Aconselhado a adolescentes e a pais de adolescentes. E ainda que não tenham nada a ver com adolescentes podem ir ver à mesma porque é um espectáculo muito fixe, com boa música, bons actores. Que nos diverte. Que nos faz pensar. Que nos faz voltar aos nossos 13 anos.

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Fotografia de Nuno Fox/ Agência Lusa

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por Gata às 10:23

Domingo, 25.02.18

Mergulhar

Foi trabalho mas foi também uma enorme alegria. Na semana passada, aproveitando aqueles dias de pausa escolar do carnaval, consegui dar uma escapadela até Aljezur para ver o trabalho que a Madalena e o Giacomo estão a fazer por lá. Foi tudo perfeito. As conversas, as comidas, as pessoas. Até aquelas horas passadas a conduzir, sozinha, enquanto o sol baixava sobre o mar, para lá e depois para cá. O texto, publicado ontem no jornal, deixa muito por dizer e sobretudo receio que não consiga transmitir toda a paixão da equipa do Lavrar o Mar, um projeto de programação de artes performativas, fora da época alta e num trabalho de proximidade e interligação com a comunidade. Repito-me e não me importo. Esta é mesmo uma coisa bonita que merece muito ser partilhada.

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A foto é de Rui Minderico/ Global Imagens.

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por Gata às 10:27

Segunda-feira, 22.01.18

Actores

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Tudo começa com o casting. O mesmo texto dito por actores diferentes, com emoções diferentes, transforma-se num outro texto. Esse é um dos (super) poderes dos actores. Mas há mais. O de viverem vidas que não são a sua. E mortes também. E de nos mostrarem sentimentos que de outra forma desconheceríamos. O de improvisar. O de fazer o mesmo, todas as noites, sempre igual e sempre diferente. O de rir quando é para rir. E de chorar quando é para chorar. O de mudar de personagem como quem muda de camisa, de manhã, à tarde e à noite, uma pessoa diferente a cada hora, com um outro passado, uma maneira de andar, uma voz, uma intenção. Os actores são atletas emocionais, diz-se a certa altura. E, tal como os outros atletas, têm de treinar uma e outra vez, para se apresentarem em forma no momento da competição. Dando a ilusão que é fácil numa ginástica de que, tantas vezes, nos esquecemos (se eles forem bons, diria, se eles forem mesmo bons, não nos mostram o seu verdadeiro eu, não nos deixam perceber o que por ali vai, as dores que sentem no corpo e na alma, as suas dores tão bem escondidas que às vezes até eles próprios as esquecem).

Os actores têm ainda mais um poder que eu - pessoa que só obrigada se coloca perante uma audiência e, ainda assim, com suores frios, dores de barriga e voz tremida - admiro imenso, que é essa capacidade de darem o corpo às balas, de se exporem perante o público, seja uma sala esgotada ou uma plateia vazia, sem medo do ridículo, sabendo que estarão permanentemente a ser julgados. E ainda bem que o fazem porque só assim podem tocar os que estão sentados no escuro, mesmo à sua frente.

É de tudo isto que fala Actores, o espectáculo absolutamente fantástico que Marco Martins criou (e encena e realiza e interpreta) com os actores Nuno Lopes, Bruno Nogueira, Miguel Guilherme, Rita Cabaço, Luísa Cruz e Carolina Amaral.

Não é para termos pena deles. É para os admirarmos (ainda mais). 

Um espectáculo com tudo no sítio - os excertos escolhidos dos espectáculos em que estes actores participaram, os enquadramentos da câmara, os momentos de riso e os momentos mais sérios, a voz do encenador que interrompe (mesmo) quando acha que é necessário repetir, as histórias que são ou não verdadeiras e tanto faz, as interpretações dos actores que fazem de actores. E, quando achávamos que já nada nos poderia surpreender, aquele final. 

Esta música. E nós, deleitados, a vê-los.

"Everybody's gotta live
And everybody's gunna die
Everybody's gotta live
I think you know the reason why"

Love, Everybody's Gotta Live

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por Gata às 21:21

Domingo, 05.11.17

A bolha (2)

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Sopro, o espetáculo de Tiago Rodrigues que está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, é uma pequena maravilha.

A beleza e o afecto são os melhores antídotos para os males do mundo.

E tantos que são os males. Ainda ando à procura das palavras certas para escrever sobre alguns dos acontecimentos que me têm ocupado e preocupado nos últimos tempos.

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por Gata às 13:32



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