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Quarta. O concerto do Manel Cruz foi incrível, como já se sabia que iria ser. Não basta as canções serem muito boas, com poemas que nos tocam cá dentro, como ele é um excelente intérprete e ainda um óptimo entertainer que vai contando histórias e fazendo comentários, com uma honestidade e uma verdade desarmantes, sem tiques de estrela. Além disso, o concerto foi precedido de um jantar para matar as saudades de amigos muito queridos, com quem já ando a congeminar aventuras para o próximo ano.

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Sexta. O espectáculo Coro de Amantes, que tenho uma vaga ideia de ter visto na sua versão inicial no Teatro Maria Matos, em 2006, envelheceu e voltou à cena, no Teatro do Bairro Alto, já com rugas e cabelos brancos, ou seja, ainda melhor do que era. O Tónan Quito e a Cláudia Gaiolas interpretam o texto do Tiago Rodrigues, que fala do amor, com as suas venturas e desventuras, e de como o tempo passa a fugir e nunca parece ser suficiente para vivermos todo o amor de todas as maneiras que gostaríamos (e que me deixou com lagriminhas nos olhos).

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Domingo. Pelo meio, tive uma noite bem boa de conversas, confissões e muitas calorias com a minha Paula. Hoje estava bastante podre mas lá me animei e saí de casa para ir ao CCB ver Só uma gaivota, o novo espectáculo do Miguel Fragata e da Inês Barahona, que é lindo, lindo, lindo. A partir d'A Gaivota de Tchekhov e das memórias do espectáculo de fim de curso do actor e encenador, há 20 anos, este espectáculo é um hino ao teatro e a todos os que algum dia sonharam ser artistas. O Miguel e a Inês são pessoas muitos especiais e isso nota-se nos seus projectos, sempre muito tocantes. Neste caso, quero sublinhar também a beleza da cenografia do Fernando Ribeiro, os figurinos do António José Tenente e a luz do Rui Monteiro. 

549653693_1210458934460858_1211466900324501769_n.jEsta rentrée está a acabar comigo. Entre bilhetes que tinha comprado há meses e de que já não me lembrava e bilhetes de última hora porque achava que poderia não ir e afinal podia, tenho passado muito tempo em salas de espectáculos. E se a felicidade é grande a verdade é que não estou a conseguir encaixar nas 24 horas do dia tudo o que preciso fazer e tudo o que quero fazer. Isto agora vai acalmar, prometo. É tempo de me jogar ao trabalho.

publicado às 21:55

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Foi uma alegria muito grande ver Adilson, o espectáculo musical imaginado e encenado por Dino D'Santiago a partir do texto "Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão e com direcção musical de Martim Sousa Tavares. O espectáculo acompanha um afrodescendente, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Angola mas que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. Adilson passa horas à espera da sua vez em gabinetes e serviços, sofrendo humilhações por parte das autoridades, perdido no labirinto burocrático para provar que existe e que é português. A sua história - que é verdadeira - é a história de muitos dos que aqui moram e é também um pouco da história deste país. (Leiam este texto do Gonçalo Frota que está lá tudo explicado)

Que Adilson seja interpretado por uma rapariga jovem é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste espectáculo um manifesto pela inclusão e um grito contra os regulamentos que insistem em impedir-nos de sermos quem realmente somos. Koffy tem apenas 19 anos e uma voz magnífica.

O espectáculo tem momentos de humor e outros mais sérios, tem momentos mais bem conseguidos e outros que poderiam estar melhor. Já a música é sempre boa, uma mistura de ritmos e de instrumentos, tudo unido pela poesia de Dino D'Santiago. 

No final, uma alegria enorme, sim, e um travo amargo na boca: temos ainda tanto por andar neste caminho pela igualdade e pela democracia plena. 

 

"Nas curvas do bairro
Aqui toda a gente senteTerra não é só lugar onde se nasceuÉ também o chão que trazemos na mente
Aqui toda gente é parenteMesmo quando se nasceu d'outro ventreChamamos mãe ao mesmo continente"

Esquinas, de Dino D'Santiago e Slow J
 

*

Estive a trabalhar no fim-de-semana, mas ainda assim, e apesar do cansaço acumulado, consegui aproveitar bem o meu tempo. No sábado ao final do dia fui ver Adilson no CCB, integrado no festival Boca. No domingo, saí do trabalho a correr e fui à Culturgest ver Nôt, o espectáculo de Marlene Monteiro Freitas. 

É muito fácil andar sempre ver as coisas que eu sei à partida que vou gostar e ficar confortável no meu lugar. Mas também preciso de me desafiar e de ver coisas que não me são óbvias. Não posso dizer que tenha adorado este Nôt. Achei os intérpretes todos incríveis e gostei mesmo de alguns pormenores da coreografia, há coisas que resultam muito bem. Gostei muito de alguns momentos. Mas na maior parte do tempo senti-me bastante perdida. Este texto, que só li depois, já em casa, ajudou-me um pouco. Acho que ainda estou a processar.

E não desisto. Da próxima vez, lá estarei. 

publicado às 12:28

Há 25 anos, quando estreou no Citemor o solo Os Olhos de Gulay Cabbar, Olga Roriz falava-me do envelhecimento, de como o seu corpo de bailarina estava a mudar e de que maneira isso tinha consequências na sua criação. Lembro-me dessa conversa, já tarde na noite, depois de um ensaio, num casarão em ruínas em Montemor-o-Velho. Há 25 anos, Olga Roriz era mais nova do que eu sou hoje. Há umas semanas fui vê-la em O Salvado. Outra vez sozinha em palco, ali está aquele corpo de quase 70 anos, aquela mulher inteira, que ainda dança embora já não dance como antes, exprimindo as suas preocupações, os seus devaneios, os seus pensamentos, as suas dores. O seu fantástico sentido de humor e de auto-humor. [leiam o texto da Cláudia Galhós que vale bem a pena]

Saí desse espectáculo a pensar como o tempo passa por nós e como o nosso corpo tem tantas histórias para contar, as rugas das gargalhadas, as estrias das gravidezes, as cicatrizes das operações, as marcas do sol, os quilos que ganhámos em jantares felizes e os quilos que ganhámos com os chocolates que comemos para curar as tristezas, os músculos conseguidos com sofrimento no ginásio e os músculos doloridos de carregar os bebés e as compras, os arranhões de todas as quedas que demos, até mesmo as invisíveis, está tudo ali, trazemos a nossa história connosco e não dá para fugir disto que somos, mesmo que façamos dietas e lipoaspirações, que nos mascaremos de outros, que tentemos esquecer.

Não dá para mudar o que foi, mas estamos sempre a tempo para mudar o que vai ser. Ou pelo menos, quero acreditar nisso. 

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Outras coisas de julho:

Andava há meses a segui-las no instagram mas só agora consegui, finalmente, ir a uma roda de samba do Coletivo Gira. São mulheres, são brasileiras, são feministas, são queer. Os eventos transbordam de alegria e empoderamento. Não sei sambar, mas adorei e quero voltar.

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A exposição de Paula Rego e Adriana Varejão, no CAM - Centro de Arte Moderna, é muito boa. Não conhecia o trabalho desta artista brasileira mas gostei muito. É, tal como Paula Rego, uma artista que fala muito das mulheres, de forma violenta e íntima, de uma forma mais crua e mais explícita ainda do que Paula Rego. Mais em carne viva. E junta a isto uma reflexão muito interessante sobre colonialismo. Ver as obras destas duas artistas juntas faz todo o sentido. Fiz uma visita guiada e acabou por ser uma boa opção porque me levou a prestar atenção em pormenores e interpretações que de outra forma talvez me tivessem passado despercebidos.

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O mês terminou com Partes Sensíveis, um espectáulo de dança de David Marques e Nuno Pinheiro. Foi uma boa surpresa. Um espectáculo sobre a intimidade, sobre as pequenas e grandes coisas que partilhamos quando partilhamos uma casa, sobre a descoberta do outro - quando moramos com alguém é quase como se víssemos o outro através de uma lupa, descobrindo coisas que não conhecíamos, as suas características aumentadas. Estava muito muito muito calor na sala da ZDB em Marvila, mas sobrevivemos.

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Julho teve isto tudo e ainda teve uns dias de férias com momentos de cumplicidade com os miúdos, teve dias de praia e encontros bons com alguns amigos, e teve um dia muito especial em que voltei à Colónia, mas, desta vez, levei o meu pai, a minha irmã e o meu cunhado e foi tudo muito bom. Julho também teve dias de grande solidão, desalento e muitas dúvidas. Continuo à procura do equilíbrio. Não tem sido fácil. A arte ajuda, as minhas pessoas ajudam, mas não tem sido fácil. A luta continua.

publicado às 21:16

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No espaço de uma semana fui ver dois espectáculos sobre isto de se querer ter ou não filhos, o que muda nas nossas vidas, se estamos mesmo dispostos a isso e que expectativas temos. Na semana passada vi Corre, Bebé, de Ary Zara e Gaya de Medeiros (na foto), e ontem fui ver Começar Tudo Outra Vez, de Raquel André e Tonan Quito. Apesar de partirem do mesmo sítio - um casal de artistas que equaciona engravidar - e de percorrerem caminhos semelhantes, os dois espectáculos são bastante diferentes na sua forma. Corre, Bebé é mais abstracto e com uma maior componente de fisicalidade. Começar Tudo Outra Vez junta os universos da Raquel e do Tonan - ela mais ligada à realidade, fazendo entrevistas para procurar histórias reais, recorrendo ao vídeo; ele trazendo a sua formação de actor e os textos clássicos, de Sófocles, Shapeare ou Tchekhov. Foram duas experiências muito distintas mas que me deixaram feliz. Este é um tema de que gosto muito e que raramente é posto em palco, e não deixa de ser curioso que surjam na mesma altura, trazendo para a luz os problemas que as novas gerações enfrentam. No caso de Ary e Gaya, duas pessoas trans, as questões ligadas à paternidade/maternidade são bastante complexas, e só poder falar disto assim já é uma vitória. Mas, na verdade, são um casal como qualquer outro, a tentar perceber se quer ou não embarcar nesta viagem. No espectáculo da Raquel e do Tonan é impossível não nos comovermos com as histórias das famílias deles (que são as histórias de muitas famílias) e é muito engraçado ver como tem mudado a nossa percepção sobre o parto, o papel do pai ou a figura da madrasta.

Existe aquela famosa frase do Tolstoi, que toda a gente cita quando fala de famílias e eu também o vou fazer, que diz que "todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". No final destes dois espectáculos, fica mais forte a convicção de que uma família para ser feliz, seja em que configuração for, tem de ser um sinónimo de amor, sempre, mais do que de sangue. 

*

Aconteceu outra coisa engraçada, que foi, em cada noite, encontrar pessoas que conheci há muito tempo e que me deram saudades daquela altura em que o meu trabalho me levava tantas vezes ao teatro e, por causa disso, decidi voltar à faculdade e fazer estudos de teatro, para ter mais ferramentas. Foi uma fase muito boa, em que conheci tanta gente, participei em conversas interessantes, li textos estimulantes. Era quase como se sentisse o meu pensamento a expandir-se, sabem? Parece que foi noutra vida. Entretanto, eu fui-me afastando desse mundo, arrastada pela vida. E de então para cá, também deixou de existir crítica de teatro, fosse na imprensa ou noutras publicações ou sites. Foi como se as redes sociais tivessem aniquilado qualquer hipótese de reflexão e não conseguíssemos ir mais além do gostei ou não gostei (que é o que eu faço aqui). Claro que há muita gente a reflectir, mas essa reflexão dificilmente chega ao público em geral - e eu hoje sou do público em geral e tenho saudades disso.

Para contrariar o que acabei de dizer:

O Tiago Bartolomeu Costa voltou a escrever sobre teatro, agora no Comunidade Cultura e Arte. O Tiago, que conheci nos tempos do blog O Melhor Anjo, está longe de ser uma pessoa consensual, mas é uma pessoa que pensa e que, com os seus textos, me dá sempre algo para pensar. É o que se quer de uma crítica, afinal. 

A minha querida professora Maria João Brilhante (uma das minhas queridas professoras e professores, não quero ser injusta), que agora já se reformou, falou-me do seu último projeto, uma investigação sobre arquivos de companhia de teatro - que está disponível AQUI. Ainda tenho que explorar isto melhor, mas, num tempo tão fugaz e em que tudo é descartável, acho mesmo importante este trabalho sobre o arquivo e a memória.

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publicado às 12:21

O mês mais curto foi cheio de coisas boas.

A começar pelos concertos de Ana Lua Caiano e Amélia Muge e de Samuel Úria e Manel Cruz. Foram ambos muito bons. E também uma oportunidade para estar com alguns amigos queridos. Geralmente evito ter programas em dias de semana porque sei que estarei cansada e não me vai apetecer e depois vou ficar ainda mais cansada. Mas foi tudo tão bom nestas duas noites que valeu muito a pena.

Fui moderar um painel numa conferência na Gulbenkian. Deus sabe o que me custa expor-me assim, as noites que passo sem dormir, os nervos que me atacam o corpo. Ainda assim, fiquei mesmo feliz quando recebi o convite e achei o tema tão interessante, tão a minha cara, que é claro que não podia dizer que não [o que é o pior que pode acontecer?, não é?]. Olhando para trás, odeio ver-me e ouvir-me, encontro mil erros, mil coisas que podiam ter sido melhores. Mas tive muita sorte com o meu painel, eram pessoas realmente interessantes e com quem gostei muito de conversar. 

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Foi o aniversário da Helena, que é uma das minhas pessoas preferidas. E foi um dia mesmo bom porque estive com as minhas amigas mais antigas e com quem não tenho tido muita oportunidade de estar, por motivo nenhum especial, apenas porque andamos desencontradas. Foi como se estivéssemos de volta à faculdade, com as conversas a sobreporem-se e a cumplicidade e a honestidade e a amizade de sempre. Gosto mesmo destas miúdas que me entendem bem, mesmo quando falamos pouco. Esse dia; a tarde em que, do nada, combinei com a Isabel irmos ouvir a escritora, Elizabeth Strout à Livraria Bucholz; a caminhada de duas horas pelos caminhos de Monsanto, que me deixou de corpo cansado mas de coração cheio. Foram todos momentos especiais. Não me canso de o dizer: os amigos verdadeiros são o meu oxigénio.

O espectáculo do Tiago Rodrigues, No Yogurt for the Dead, é simplesmente incrível. O texto é muito bom, com um tema muito duro mas ao mesmo tempo com um sentido de humor apurado, a fazer-nos rir e chorar quase ao mesmo tempo. As barbas, a música, a atriz que fala neerlandês, o humor, a montanha - as soluções que ele encontrou para nos falar da morte do pai, ao mesmo tempo emocionando-nos mas criando uma distância segura, são perfeitas. E que dizer daquelas duas actrizes, a Beatriz Brás e a Manuela Azevedo. Sim, a Manuela, dos Clã. Já a tinha visto noutras peças, mas aqui ela excede-se e, além de cantar como sabemos que canta, é uma actriz de corpo inteiro.

 Quem viu o espectáculo sabe como ele fala a todos os que já perderam alguém. É impossível não nos relacionarmos, não nos revermos em alguma das cenas. Ainda por cima, no natal tinha oferecido bilhetes à minha irmã e ao meu cunhado. Já estava contente por termos um programa juntos. Só depois reparei que o espectáculo era no mesmo dia do aniversário da morte da nossa mãe. Acabou por ser ainda mais especial.

Os problemas não se resolveram mas, este mês, parece que estiveram mais suportáveis. Os putos mais orientados. O trabalho menos odioso. Um bocadinho menos, vá. Ou então era eu que estava tão entretida a fazer planos para março que já não me chateei muito. Também há isso. 

publicado às 14:12

Estive com a Adília Lopes uma única vez, há mais de vinte anos, num ensaio do espectáculo A Birra da Viva, de Lúcia Sigalho. Queria lembrar-me melhor desse espectáculo, desse momento. Tenho tão boas memórias das noites passadas no Armazém do Ferro. A Lúcia Sigalho e a Mónica Calle foram uma revolução na minha vida. Eu era ainda uma miúda, mal tinha começado a pensar nestas coisas, e elas a fazerem espectáculos sobre isto de ser mulher, a dizerem-me que o importante é sermos quem realmente somos, assumirmos os nossos desejos e deitarmos fora a culpa, elas a mostrarem-me o caminho. Devo-lhes tanto. Foi por causa da Lúcia e desse espectáculo sobre mulheres e mães e sobre corpos que dão vida e morte que fiquei com vontade de ler a Adília. Foi depois de a ver ali, de ouvir a maneira contida, desassombrada, crua como falava, que fui descobrir os seus poemas. A Adília Lopes morreu ontem e eu li a notícia e não queria acreditar. Tinha apenas 64 anos. Fiquei tão triste.  Chorei por ela e por mim e por todas as mortes que ficaram por chorar. 

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“Posso morrer porque amei e fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de natas, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara a um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante”

De Irmã Barata, Irmã Batata, de Adília Lopes

(na página 409 de Dobra, poesia reunida, 2021, Assírio & Alvim)

publicado às 11:55

Já passou algum tempo mas não queria deixar de vir aqui escrever porque quero mesmo guardar comigo esse momento maravilhoso que foi o espectáculo A Colónia, de Marco Martins. Antes de ir eu já sabia que ia gostar. Primeiro, por ter a ver com o Estado Novo e os presos políticos, e depois porque gosto muito de teatro documental e tenho esta panca com tudo o que tenha a ver com a memória e a fixação das memórias. Ainda assim, nada me preparou para esta avalanche.

A ideia surgiu de uma reportagem de Joana Pereira Bastos, publicada no Expresso, sobre a colónia de férias para filhos de presos políticos, que aconteceu em 1972, nas Caldas da Rainha e que, durante duas semanas,  juntou 18 crianças entre os 3 e os 14 anos. Mas o que se conta em palco vai muito além disso. Partindo dos testemunhos de duas dessas crianças, hoje crescidas, a Manuela e a Rita, e com a ajuda de Conceição Matos e Domingos Abrantes, começa-se por recordar o sistema opressivo em que se vivia, contar como era a vida dos opositores ao regime, a clandestinidade, a prisão e a tortura pela Pide. Só depois é que se passa para a colónia, juntando os testemunhos da monitora e de mais três dessas crianças. Como era para uma criança viver na clandestinidade, sem saber o seu verdadeiro nome e sem brincar com outras crianças? Como foi ver o pai a ser preso ou visitar o pai na prisão? 

Não se limitando a ter estas pessoas todas em palco a contar as suas histórias, o que já seria brutal, Marco Martins criou um espectáulo cheio de camadas e de uma grande beleza, com os extraordinários actores João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça e Rodrigo Tomás (e aquele achado inicial - viver em clandestinidade era, também, representar, interpretar diversas personagens), a que se juntaram um grupo de jovens actores e ainda B. Fachada e um pequeno coro infantil. E aquilo que era a história de um grupo de crianças passa a ser a história de um povo, a nossa história, a história das crianças e dos jovens de hoje, que se perguntam afinal o que é isso de ser livre.

Posso dizer-vos que chorei muito e embora isso não queira dizer nada sobre a qualidade da obra quer dizer muito sobre o quanto me tocou e me abalou. É muito importante que estas histórias sejam contadas uma e outra vez, que não sejam esquecidas. Fascismo nunca mais, gritou-se no momento dos aplausos. Fascismo nunca mais. Fascismo nunca mais.

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Ainda deste último mês temos a assinalar:

A Reunião, um espectáculo bonito e igualmente importante do Teatro Meridional. Confesso que não sou a maior fã de commedia dell'arte e nessa noite estava um pouco cansada e talvez não tenha apreciado devidamente a peça, mas o texto do Mário Botequilha é muito bom.

Um grande concerto dos Expresso Transatlântico no MusicBox. São todos óptimos, mas o Gaspar Varela tem, de facto, uma energia especial.

Um workshop com a Ana "apetite pela vida" sobre comida saudável, sem açúcares nem processados nem proteína animal. Vim de barriga cheia e com muitas dicas para melhorar as receitas cá de casa.

A figura do ano para mim é, sem dúvida, Gisèle Pelicot. No meio de todo o horror, esta mulher dá-nos alguma esperança. Este caso mexeu muito comigo e penso que não exagero quando digo que através da sua análise podemos perceber um pouco do tanto que precisamos mudar enquanto sociedade. 

(temos outras coisas a assinalar, boas e más, mas vou tentar escrever sobre elas com calma)

Ainda nem é natal e já estou empaturrada. De comida, sim, mas sobretudo de amor. Dezembro tem esta magia, fazemos um esforço para encaixar na agenda encontros com os amigos (não todos, mas quase). Só nesta última semana contaram-se um almoço e três jantares, deitando por terra o esforço dos últimos meses para comer menos e para comer melhor. Sim, eu sei, eu sei, se eu tivesse realmente força de vontade conseguiria, mas não tenho, portanto isto anda assim mais ou menos ao sabor do vento e das flutações da minha vida e da minha cabeça, mas não nos martirizemos, em janeiro retomamos o caminho.

publicado às 11:34

A Vida Secreta dos Velhos, que fui ver hoje à Culturgest, é um espectáculo maravilhoso interpretado por um grupo de actores mais velhos que partilham as suas histórias amorosas, passadas e presentes. Uma das actrizes, com 92 anos, garante-nos que continua a sentir desejo. Outra fala-nos da importância da masturbação. Um homem recorda a sua iniciação sexual, com prostitudas. Outro lembra como os pais o repudiaram quando ele saiu do armário. Uma mulher revela que teve o seu primeiro orgasmo aos 65 anos. Outra que, finalmente, encontrou a felicidade, já depois dos 70. Um homem toma viagra. Outro frequenta saunas. Uma delas fala da importância de se sentir desejada por alguém. Muitas pessoas têm dificuldade em aceitar que os velhos continuam a ter vontades e prazer nos seus corpos flácidos. Eu própria, sentindo os anos a passar, às vezes, pergunto-me: como será quando eu envelhecer? Será diferente do que era quando tinha 20 anos, com certeza. Será diferente do que é aos 50. Mas alguma coisa será. "Agora, de cada vez que faço amor, digo a mim mesmo: Pode ser a última vez, então trata de te aplicares", conta um dos actores. É um belo conselho. O que este espectáculo nos mostra, com humor mas também de forma muito emocionante (e eu chorei muito), é que todas as pessoas, independentemente da sua idade, precisam de amar e ser amadas. Os velhos somos nós (se tivermos sorte). Os velhos que nós seremos serão tanto mais felizes quanto nos deixarmos de merdas e aceitarmos, com naturalidade, a sua (nossa) vida sexual, seja ela como for.

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Infelizmente, não haverá mais apresentações deste espectáculo criado pelo encenador francês Mohamed El Khatib. Mas podem sempre ler o texto do Gonçalo Frota para ficar a saber mais.

Lembrei-me deste texto e também me lembrei muito dos meus velhos amigos da Companhia Maior, de quem eu tanto gosto.

 

Para tentar fintar a neura de novembro, recorri aos amigos e à arte. Para além deste espectáculo, aconteceram coisas como:

Um filme: Por ti, Portugal, eu juro. Documentário da Sofia da Palma Rodrigues com a equipa da Divergente, é um extraordinário documento sobre um tema pouco (nada) falado: os Comandos Africanos da Guiné, jovens guineenses que foram forçados a combater pelo exército português, mas que, depois do 25 de Abril, foram abandonados por Portugal e perseguidos pelo novo poder da Guiné.

Um concerto: Dora Morenlebaum. Foi no Musicbox, levada por uma amiga, que descobri esta artista brasileira que até então desconhecia. Filha do violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum e da cantora Paula Morelenbaum, tem 28 anos e muito boa vibe. Junta bossa nova, jazz, disco, funk e o que mais apanhar à mão. Foi um belo serão.

Um espectáculo: O céu da língua, de Gregório Duvivier. Uma viagem em volta da língua portuguesa e da poesia que se escreve com essa língua. Muito divertido mesmo. Muito inteligente. É tão bom e tão raro ter oportunidade de rir assim com um espectáculo.

Outro espectáculo: Volta para a tua terra, de Keli Freitas (de quem já tinha falado AQUI). A artista brasileira continua a mergulhar na sua história para fazer pequenos espectáculos de teatro documental. Desta vez, sobre a vinda para Portugal e o significado das travessias. Mas também sobre a investigação à sua família e a necessidade de saber de onde vem. Tal como no outro espectáculo que tinha visto dela, voltei a ficar com a sensação de estar "incompleto", uma vez que são colocadas perguntas que ficam sem resposta, começam a contar-se histórias e ficamos sem saber o seu desfecho. Imagino que seja propositado. Percebo que se queira contrariar esta obrigatoriedade de contar histórias com princípio, meio e fim. Mas eu fiquei com vontade de mais. De saber mais. De saber como acabou. Ainda assim, gostei muito.

Claro que nada disto - nem os filmes, nem as músicas, nem os espectáculos, nem sequer os amigos que me deram colo e copos de vinho, que me fizeram rir e desfrutar momentos de verdadeira felicidade, fosse a ouvir poesia ou simplesmente a conversar - resolveu a frustração com o trabalho ou apaziguou as preocupações que me afligem por causa dos meus filhos. Mas estas coisas ajudam. A vida é isto tudo. O bom e o mau misturado. Os problemas e as alegrias, as aflições e as gargalhadas. É preciso ir juntando coisas boas, sempre, para não nos deixarmos abater pelas coisas más.

Hoje, saí do teatro e vim no metro a pensar no que aqueles actores disseram. “Vou amar-te toda a vida, porque a vida pode acabar a qualquer instante", disse um deles. Não é preciso ser velho para perceber isto. Passei no supermercado para comprar ovos, senti umas gotas de chuva no cabelo, enrosquei-me no sofá com o meu filho, fiz um bolo de iogurte, sentei-me a escrever este texto. São tantas as coisas pequenas que me fazem feliz. E, depois, novembro está quase a acabar. 

publicado às 22:18

Foi um verão atípico, mas, ainda assim, foi bem bom. Houve praia no Algarve de sempre. Os miminhos deles. Os amigos. Voltámos ao Bons Sons, e foi outra vez um conforto para a alma. Voltámos à Zambujeira. Os amigos, já disse? Houve almoços e jantares e conversas prolongadas, gargalhadas e confissões. A habitual reunião de família no Alentejo (é cada vez mais difícil juntar os putos todos). A primeira coisa que fiz quando a médica me deu alta foi ir ao cinema ver o Verdade ou Consequência e ouvir o Luís Miguel Cintra, que vale sempre a pena. Já em setembro deu para ir ver o Rodrigo Amarante ao B.Leza. Para ir ao teatro ver o belíssimo Blackface do Marco Mendonça (levei o Pedro, foi alegria a dobrar), ouvir umas histórias do "retorno" (A Outra Casa na Praia, pelo Teatro Meia Volta) e as histórias que poucas vezes são contadas do Brasil (Depois do Silêncio, de Christiane Jatahy). Para espreitar a nova pala do CAM

No último fim-de-semana, para fechar o verão, rumámos ao outro canto do Algarve: eu, a Filipa, a Patrícia, a Lina, a Ana Bela, a Maia. Elas que me perdoem, que eu sei que nem todas gostam de estar assim expostas na internet, mas é que quero mesmo dizer o seu nome e dizer que gosto muito destas miúdas e gosto de como funcionamos todas juntas, tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas, ainda que às vezes as conversas se sobreponham e pareça que 48 horas não chegam para tudo o que queremos partilhar, e que, quando a noite avança, eu adormeça e perca as partes mais divertidas. 

Gosto muito do verão, destes três meses em que fazemos de conta que não temos problemas e em que optamos por só ter coisas boas, dias compridos, calor na pele, pés descalços, os amigos, já disse, não já?, os filhos felizes, horários flexíveis, tardes a ler, passadeiras que nos levam à praia, as farófias da Noélia, a cor do céu antes de o sol se pôr, a liberdade. Preciso muito disto tudo para recarregar as baterias e poder, agora, enfrentar este outubro cinzento.

Venha de lá, então, a vidinha. A gente aguenta.

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publicado às 17:18

Julho. Tivemos os nossos dias de praia, poucos mas bons. Depois os miúdos também tiveram os seus dias de praia. Mandam-me fotografias repletas de céu azul e sorrisos rasgados. Estão enormes. Como crescem os filhos quando estão longe de nós. Temo que no regresso já não me caibam nos abraços que lhes quero (preciso) dar. A parte boa de os filhos estarem de férias sem mim é que, apesar de estar a trabalhar, tenho tempo de sobra para fazer as minhas coisas sem sentimentos de culpa nem pensar no que vai ser o jantar. Coisas como ficar horas sentada no sofá a ver os jogos olímpicos. Ou jantar com amigos. Ou ir fazer um workshop de cozinha do Médio Oriente no Mezze. Ou não fazer nada. Ou isto:

Dois espectáculos 

À Primeira Vista, texto de Suzie Miller, encenação de Tiago Guedes, interpretação de Margarida Vila-Nova. Sobre isto de ser mulher, as agressões sexuais a que estamos sujeitas, o machismo da sociedade em que vivemos mas, sobretudo, do sistema judicial. As estatísticas dizem que uma em cada três mulheres já sofreram algum tipo de agressão sexual. Então, porque continuamos a tratar assim as vítimas? Porque continuamos a duvidar das suas palavras? A menosprezar o trauma que sofreram? A dar o benefício da dúvida aos agressores? Oh, coitado, foi só um deslize, tinha bebido de mais, ele no fundo não é má pessoa. O texto é muito bom. A Margarida Vila-Nova aguenta-se à bronca. O resultado não é uma obra-prima mas é bom. E importante. Depois de uma primeira temporada esgotada, o espectáculo vai voltar ao Teatro Maria Matos de 18 de setembro a 27 de novembro.

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Madrinhas de Guerra, de Keli Freitas. Uma reflexão sobre o colonialismo e o modo como, em 2024,  ainda romantizamos as "descobertas" dos portugueses que "deram novos mundo ao mundo" e a guerra onde tantos rapazes morreram e sofreram em nome de um império que não era seu. É um olhar inquiridor mas ao mesmo tempo com sentido de humor. Um espectáculo que parece estar inacabado, que levanta mais perguntas do que dá respostas, que nos deixa com vontade de mais. Vi-o no auditório do Museu de História Natural e só isso já foi uma experiência. Se o voltarem a encontrar por aí não percam.

Um livro

Tudo é rio, de Carla Madeira

Preparem-se para todo o balanço e toda a doçura que o português do Brasil nos pode dar. Porque há sotaques que parecem perfeitos para contar o amor (e desamor) e o desejo. Esta é a história de um improvável trio amoroso, a prostituta Lucy, o instável Venâncio e a doce Dalva, mas é também a história das suas famílias, das dores que trazemos connosco e da importância de procurarmos a alegria contra todas as evidências em contrário. Uma delícia.

Um filme

Memória, realizado por Michel Franco, com Jessica Chastain e Peter Sarsgaard. Um encontro improvável entre uma mulher que luta para sobreviver ao trauma (outra vez uma agressão sexual e todas as suas consequências) e manter-se longe do álcool e um homem que sofre de demência e está a perder a memória. Uma batalha entre aquilo que queremos recordar e aquilo que gostaríamos de esquecer. A alegria (a tal alegria) de descobrir o amor confronta-se com as dificuldades da vida real. A verdade é que todos precisamos de quem cuide de nós.

Uma série

Nem uma mais, série espanhola na Netflix, sobre como a violência sexual está presente no dia a dia de um grupo de amigas no liceu (outra vez, sim, juro que não foi de propósito, mas é um tema mesmo importante, ainda bem que se fala disto). Um namorado, um amigo, um professor, qualquer um pode ser um abusador. Mais uma vez, não é uma obra prima, mas é uma série muito bem feita, as miúdas são fantásticas e tenho a certeza que muitas de nós se vão relacionar com aquelas situações. 

publicado às 12:08


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