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17
Jan21

"Chernobyl"

HBO. Finalmente. Comecei com Chernobyl. E é, de facto, brutal. Muito, muito bem feita. Claro que é uma série e, portanto, tem uma parte de ficção assumida e ainda uma parte de realidade ficcionada. Mas está mesmo muito próxima da realidade, acreditem.  

Tinha apenas uma ideia vaga sobre Chernobyl. O acidente aconteceu em abril de 1986, portanto eu teria quase 12 anos, lembro-me de ver as notícias e de ficar preocupada e de mais tarde ver mais notícias sobre os efeitos da radiação na população. Mas parecia tudo muito longínquo e eu tinha mais em que pensar. Além de que, soubemo-lo entretanto, muita da informação foi barrada pela cortina de ferro. Esse é um dos factos que mais nos choca hoje, ao vermos a série: o modo como o totalitarismo funcionava. Como penetrava em todos os aspectos da vida. Uma sociedade dominada pelo medo, controlada à custa de  ameaças de prisão, despromoção ou outro qualquer castigo. A força imensa do partido, a voz da verdade, a única voz autorizada. Uma elite política mais preocupada em manter a sua imagem e a imagem do regime do que em resolver os verdadeiros problemas.

Tal como um adolescente apanhado pelos pais numa infracção: a primeira reacção ao acidente nuclear é negar, negar sempre. Isso não aconteceu. E se eu, que sou a autoridade, digo que isso não aconteceu, se alguém se atrever a desmentir-me está a pôr em causa a minha autoridade e será castigado. Dizer a verdade é considerado um acto de traição.

Mas calar a verdade não altera os factos tal como eles são. A radiação não conhece fronteiras políticas nem obedece às ordens do KGB. Não havia como negar. Gorbatchev diria mais tarde que Chernobyl foi o princípio do fim do regime soviético. 

Claro que fiquei curiosa e acabei por ir ao Google procurar mais informação sobre Chernobyl. E pelo meio pude confirmar como a série foi minuciosa na recriação dos eventos, dos espaços, das roupas e de tudo o resto. Ora vejam:

- um artigo sobre a vida em Pripyat, a cidade mais próxima de Chernobyl

- estas fotografias do acidente

- e ainda mais estas imagens

- a opinião dos cientistas sobre a série

- e as falhas encontradas na série

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publicado às 12:52

12
Jan21

Fran Lebowitz

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Nunca tinha ouvido falar desta Fran Lebowitz até ela me aparecer com cara de poucos amigos num destaque da Netflix. Fui ao Google e fiquei mais descansada, afinal ela não é assim tão importante e é verdade que eu sou meia desligada do mundo mas desta vez a minha falha não era gritante. Aos 70 anos, Fran Lebowitz é conhecida sobretudo pelas crónicas que escreveu quando tinha 20 e poucos anos. E depois por ser uma pessoa que diz tudo o que pensa e di-lo com muita piada. Aquilo que gosta mais de fazer é ler. A segunda coisa de que gosta é conversar. Com um enorme sentido crítico e muito humor, Fran tornou-se uma comentadora do quotidiano. Nos últimos anos, viveu disso mesmo: pagam-lhe para participar em conversas públicas e dar a sua opinião sobre todos os assuntos (menos política). Além de ser uma intelectual, Fran Lebowitz é aquilo a que costumamos chamar "uma figura". Não tem telemóvel nem computador, vive sozinha com os seus 10 mil livros e sem internet. Gosta de comer fora, de conviver com os seus amigos e de ir a festas. Mas odeia todos os contactos sociais fora do seu círculo. Fran não faz qualquer esforço para ser simpática ou para ser gostada e essa antipatia faz parte do seu charme. Odeia desporto, odeia turistas, odeia viajar, evitar sair de Manhattan (a não ser em trabalho) e nunca vai de férias. A sua curiosidade ou preocupação em relação ao mundo resume-se a isto: afecta-me ou não me afecta? É por isso que o seu principal assunto é Nova Iorque. 

Vi, de uma vez só, a minissérie Pretend It's a City, na qual Fran Lebowitz conversa com o amigo Martin Scorsese sobre a sua vida e a cidade. É só isto. Mas isto muito bem feito, muito bem realizado, muito bem editado, com música escolhida a dedo. Isto com muita graça. Ela a gozar com o mundo e consigo mesma mas a dizer umas verdades pelo meio. São episódios curtos, não dá para ficarmos aborrecidos. E, surpreendentemente, podemos acabar por gostar um bocadinho desta mulher rabugenta.

No final, deixa este conselho aos jovens e não só (escrito há 40 anos mas bastante actual):

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publicado às 09:19

22
Nov20

Sophia, a Loren

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Vi a quarta temporada de The Crown em poucos dias e não achei nada de especial. Nem a Thatcher de Gillian Andersen nem a Diana de Emma Corrin, actrizes demasiado preocupadas em compor bonecos, me cativaram. Nem as tricas dos palácios e dos amantes. Os melhores episódios da série, para mim, são sempre aqueles em que a história acontece - o acidente nas minas, por exemplo, os dilemas do Churchill, o espião russo, a viagem à Lua. E, claro, todos os detalhes da reconstituição histórica, os cenários, as roupas, as músicas, os ambientes, seja uma caçada lamacenta ou um baile de gala, tudo isso é fascinante, mais ainda porque a série é muito bem feita, muito bem filmada e editada. Mas não consigo imaginar com que tretas vão encher mais duas temporadas. Que pena.

Depois, este fim-de-semana confinei com um bolo de chocolate delicioso, as agulhas de tricot a todo o vapor e o novo filme de Sophia Loren, The Life Ahead, realizado pelo filho, Edoardo Ponti. É um filme competente, talvez um pouco lamechas, admito, mas que nos fala de uma realidade actual, de uma Itália porto de abrigo de imigrantes vindos de África, local onde se juntam línguas e religiões diferentes, refugiados de muitas guerras e de muitos tempos. Ibrahima Gueye é o excelente actor que interpreta Momo, um rapaz de 12 anos, vindo do Senegal, que perdeu toda a sua família, e Sophia Loren é Madame Rosa, uma antiga prostituta que ajuda outras prostitutas recebendo os filhos delas em sua casa. Sophia Loren tem 86 anos e continua a olhar-nos com os seus olhos vibrantes, para lá das rugas, das peles caídas, dos movimentos lentos. Tão linda.

Não vou contar pormenores mas vou dizer-vos isto: uma das melhores cenas é aquela em que madame Rosa e a amiga transexual Lola (a atriz Abril Zamora) dançam ao som de Elza Soares. Puro deleite.

publicado às 19:30

15
Nov20

Três conselhos

Andava à procura de filmes para ver durante o recolher obrigatório e encontrei, por acaso, The Soul of America, um documentário que estreou no final de outubro (ou seja, antes das eleições) na HBO: pareceu-me interessante, comecei a vê-lo e, a meio, percebo que o protagonista do filme, o jornalista e historiador Jon Meacham, é o mesmo que esteve no centro de uma polémica recente por ter comentado na televisão o discurso da vitória de Joe Biden que ele próprio tinha ajudado a escrever. Não foi bonito, temos de admitir, e a situação acabou por tirar-lhe algum crédito. Confesso também que me enerva um bocado esta onda de documentários personalizados, tão propensos a exaltações de egos e a visões parciais da realidade. Mas, se nos abstrairmos um pouco daquelas cenas nos bastidores das palestras e da imagem que tentam passar do homem como grande paladino da democracia, Meacham diz, de facto, algumas coisas interessantes e o filme é mais uma oportunidade para pensarmos na América e no mundo em que vivemos, mas também no que deve ser o jornalismo e no que é ser cidadão.

Basicamente, no seu livro The Soul of America, publicado em 2018, em grande parte como reacção à eleição de Donald Trump, Jon Meacham atravessa os últimos cem anos da história dos EUA, cheia de desigualdades e de injustiças, da discriminação das mulheres ao segregacionismo, dos campos de concentração para japoneses ao mccarthismo, para nos mostrar como o país já passou por momentos críticos muito semelhantes ("History does not repeat itself, but it rhymes", disse Mark Twain) e como, em cada momento, houve pessoas e atitudes que fizeram a diferença e que levaram a América a dar um passo em frente. Portanto, sim, este é um momento complicado e há muitos problemas para resolver, mas a boa notícia é que podemos aprender com o passado e tentar fazer melhor.

No final, Meacham enumera três características que, na sua opinião, são comuns aos grandes líderes mas que também são úteis para todas as outras pessoas:

- curiosidade: querer sempre saber mais, querer conhecer os outros e ouvi-los, sobretudo aqueles que pensam de maneira diferente de nós;

- humildade: para reconhecer os nossos erros e aprender com eles, às vezes é preciso mudar de ideias para podermos progredir;

- empatia: saber ver o mundo pelos olhos dos outros e perceber que, por vezes, é preciso fazer cedências para atingir um objectivo maior.

Acho que se todos procurássemos mais ser assim o mundo seria, certamente, um lugar melhor. 

publicado às 09:34

Estive a ver o documentário sobre a Joan Didion, na Netflix. Jornalista e escritora, Didion é a autora de O Ano do Pensamento Mágico, monólogo brutal sobre a morte e a perda que Eunice Muñoz interpretou há uns anos no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Diogo Infante. Não conhecia mais nada dela e fiquei com muita vontade de ler as suas reportagens e ensaios e livros e tudo. Pareceu-me uma mulher do caraças.

[Também me fez pensar em mim e perguntar-me porque é que escrevo, aqui e não só. Não, não me estou a comparar à Joan Didion, não me interpretem mal. Mas gostava de ser suficientemente corajosa - e talentosa, para dizer a verdade - para escrever algumas coisas que gostaria de escrever. Talvez um dia. Talvez nunca. Who knows.]

Angústias existencialistas à parte, tenho aproveitado estes dias para ver outros documentários, também na Netflix. Não tenho visto nenhuma ficção. Estou numa fase "vidas reais". Gostei destes:

Frank Sinatra: All or Nothing - visão muito soft sobre o cantor, sem grandes escândalos nem Marilyn por perto, mas, ainda assim, como eu não sabia muito sobre a vida dele, gostei bastante.

Miles Davis: Birth of the Cool - o trompetista da voz rouca teve uma vida cheia de altos e baixos, eu não conheço nada de jazz mas, mais uma vez, gostei de ficar a saber montes coisas que não sabia.

Mucho, mucho amor: The legend of Walter Mercado - não fazia ideia quem era esta pessoa, nunca tinha ouvido falar dele, mas fiquei completamente fascinada por este artista e astrólogo de Porto Rico, figura andrógina e grande estrela da televisão hispânica nos anos 70, 80 e 90. 

publicado às 15:57

Ela é Hannah Gadsby, a humorista que nos deu Nanette e que agora nos dá Douglas. O programa é todo bom mas as lições sobre história da arte são, para mim, a parte melhor. 

publicado às 15:58

01
Mai20

Depois da vida

Fartei-me de chorar a ver a segunda temporada de After Life. A primeira temporada já tinha sido de partir o coração, mas acho que esta é ainda mais devastadora. Tony (Ricky Gervais) já não está naquele estado de desespero de não querer continuar a viver sem a mulher (bom, pelo menos na maior parte do tempo), mas também já percebeu que a tristeza não vai passar, portanto trata-se de tentar aceitar que esta é a sua nova condição. A vida continua, seja como for, ainda que nós não façamos nada para isso. As pessoas à volta de Tony podem ser um "bunch of losers" mas são elas que lhe permitem encontrar algum sentido nos dias que passam, uns a seguir aos outros, entre as saudades e a enorme solidão. 

Não tenho visto muitas coisas mas durante a quarentena vi mais duas séries muito boas, também na Netflix:

- Unorthodox, sobre uma rapariga que sai de uma comunidade judia ultra-ortodoxa (escrevi sobre ela AQUI, se gostaram de Shtisel acho que vão gostar mais desta);

- Unbelievable, que nos coloca numa investigação criminal a um violador em série, mas de uma maneira bastante realista, muito longe dos CSI do costume, e que nos mostra de maneira brutal como é que algumas vítimas (mulheres) são tratadas nestes casos.

publicado às 16:38

18
Fev20

Refugiados

Debaixo do Céu é um documentário de Nicholas Oulman sobre judeus que, por causa das políticas nazis, fugiram da Alemanha (ou da Bélgica ou da França ou da Holanda) e se tornaram refugiados. Todos eles acabam por, em algum momento, passar por Portugal. É engraçado saber o que eles acharam do nosso país, mas isso não é de todo o mais importante aqui. O mais importante é ouvir os seus testemunhos sobre a guerra e sobre o holocausto. Eram crianças e jovens, viviam a sua vida tranquilamente, iam à escola, tinham amigos. E de repente passaram a ser o inimigo. Tiveram que fugir, uns com os pais, outros com os irmãos. Tão novos e já a lutar por sobreviver. E a tentar entender o mundo.

É um filme contado pelos sobreviventes, agora já idosos, e por isso cheio de memórias imprecisas, de pequenos detalhes, de perguntas sem resposta.

E é também um filme que nos faz pensar no mundo de hoje. Nos refugiados que todos os dias tentam atravessar o mar e chegar à Europa. No que os faz correr o risco de uma viagem que tantas vezes acaba em morte, sem saberem o que vão encontrar. 

Debaixo do Céu está a passar por estes dias no canais Tv Cine. 

 

Já agora, também vi, nesta última semana:

- um documentário sobre Eduardo Prado Coelho, que passou na RTP2. Vale a pena porque EPC era, de facto, uma figura fascinante. Mas soube-me a pouco. Falta-lhe ali aquele rasgo que fazia de EPC um intelectual muito diferente dos aborrecidos professores universitários seus contemporâneos. Formalmente, também é um documentário muito certinho, muito by the book.

- e os dois episódios de Nós, Portugueses: nascer para não morrer (Fundação Francisco Manuel dos Santos/ RTP1), que são um bom ponto de partida para reflectirmos nos problemas demográficos (e, consequentemente, sociais, económicos, ambientais) que enfrentamos. É um trabalho muito bem feito, que ouve muitos especialistas mas nunca é demasiado especializado. Fiquei com vontade de mais, gostaria que tivesse talvez ido mais longe. Mas é de facto um documentário para o prime time e para o grande público - e nesse sentido cumpre os seus objectivos. Na minha opinião abusa um pouco dos drones, mas, pronto, não é grave.

publicado às 12:04

25
Jan20

A Amiga Genial

Estive a ver a série Amiga Genial (HBO), baseada no primeiro livro da tetralogia de Elena Ferrante, e tenho mixed feelings. Por um lado, gosto muito da imagem em tons pastel. Gosto do bairro. Gosto de Nápoles e de Ischia. Gosto dos actores, que correspondem bem àquilo que imaginámos quando lemos os livros. Acho que a adaptação está correcta, é claro que faltam alguns pormenores mas seria impossível pôr tudo na série e o essencial está lá, quem não leu os livros não sentirá falta de nada e penso que consegue captar a complexidade daquela amizade e daquelas cabeças. Mas (e este é um grande mas) apetece-me abanar aquelas duas. Falta-lhes vida. Faltam-lhes risos e palavras e espontaneidade. Sobretudo quando crescem. Parece que estão sempre demasiado pensativas, de braços caídos, de olhar no infinito. Quase sempre inexpressivas. Isso não acontece com as outras personagens, só com Lila e Lenù, por isso penso que seja intencional. Mas tenho alguma dificuldade em vê-las como miúdas normais, que eram, com aquela postura. E é uma pena porque o resto está mesmo tudo tão bem.

Dito isto, se houver mais episódios eu irei vê-los, claro.

publicado às 19:50

Não sou grande consumidora de séries mas estou em crer que desde que Charlotte e Miranda nos mostraram as maravilhas do Rabbitt, na quinta temporada de Sexo e a Cidade, que uma série não falava tão abertamente de masturbação feminina como acontece na primeira temporada de Fleabag. Só por isso esta série já merecia um pouco atenção. Mas a verdade é que Fleabag faz muito mais do que isso pois fala de mulheres e de sexo sem complexos, com inteligência e com humor, o que é uma verdadeira raridade.

A criadora de Fleabag é Phoebe Waller-Bridge, atriz e argumentista britânica que tem agora 34 anos. Tudo começou como um pequeno solo de stand-up comedy que depois deu origem à primeira temporada de uma série sobre uma mulher independente e solteira, em Londres, as suas angústias, os seus desejos, os seus falhanços, as suas paixões, as suas tristezas e a relação com a família - a irmã e o cunhado, o pai e a madrasta. Ela é daquelas pessoas a quem corre sempre tudo mal, mas também é daquelas que consegue (quase) sempre desenrascar-se. Com inúmeros defeitos mas por quem nos apaixonamos ao primeiro sorriso. A primeira temporada estreou em 2016 na BBC e o sucesso foi enorme, pelo que a segunda temporada estreou em 2019. Ambas estão disponíveis em Portugal no serviço da Amazon Prime. Cada temporada tem seis episódios com menos de 30 minutos, o que significa que esta é a série ideal para uma noitada de binge watching. É quase impossível parar, garanto-vos.

Fleabag foi nomeada para vários vários prémios, e ganhou alguns deles, incluindo Emmys e Globos de Ouro, o último dos quais na semana passada para a melhor atriz, Phoebe Waller-Bridge. Apesar disso, ela já garantiu que não vai haver terceira temporada pois não vê como poderá ser mais criativa e levar mais longe as premissas da série (por exemplo, os apartes da personagem, que "conversa" com os espectadores). Apesar de ter imensa pena de não ter mais episódios para ver, espero que mantenha a sua decisão. É que a série, tal como está, é tão boa, com as doses certas de humor e drama, emoção e sexo, reflexão e palhaçada, que era bem provável que ficássemos desiludidos com a continuação. 

Fleabag significa espelunca (se for um lugar) ou de má reputação (se for uma pessoa). Não se deixem enganar pelo título. Para mim, é mesmo do melhor que há por aí.

Podia deixar aqui o trailer, mas prefiro deixar-vos esta pérola sobre a menopausa (e sobre isto de ser mulher) por Kristin Scott-Thomas, num dos episódios da segunda temporada:

publicado às 18:23


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