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Já há muito tempo que não venho aqui partilhar coisas bonitas, o que é uma injustiça porque até quando tudo parece correr mal na nossa vida há coisas bonitas a acontecerem.

 

Por exemplo, ainda vão a tempo de ir ver o espectáculo Xtròrdinário do Teatro Praga para os 125 anos do Teatro São Luiz. Se gostaram da Tropa Fandanga vão gostar ainda mais deste "musicól" que é muito divertido e "não binário". E tem os Fado Bicha, que são maravilhosos.

 

Já estreou na Netflix a terceira temporada da série Easy e continua a ser muito a vida como ela é, histórias de pessoas comuns com desejos comuns e problemas comuns. Sem batalhas sangrentas. Tal e qual como que gosto.

 

A Lena D'Água tem um disco novo, que se chama Desalmadamente. Eu ainda não o ouvi todo mas gostei muito daquilo que ouvi. Espero mesmo que lhe corra bem este come back. Esta é a Grande Festa e faz-nos abanar o corpinho com leveza:

 

E, já agora, o Manel Cruz também tem Vida Nova, que é como quem diz um novo álbum. E esta canção, O Navio Dela, é qualquer coisa. Prestem atenção à letra.

"A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela"

 

As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar. Mas há meses (anos?) que ando sem paciência para discotecas e noitadas. Tenho de encontrar um sítio com bom ambiente para dançar antes, muito antes, da meia-noite. Alguma sugestão?

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publicado às 08:29

16
Abr19

Vivian Maier

Descobri a Vivian Maier por acaso, como quase tudo o que nos acontece de bom. Numa noite de tédio em frente da televisão, ora vamos lá ver o que há para aqui para me entreter até me dar o sono. E havia este documentário sobre uma fotógrafa.

 

Vivian Maier nasceu em 1929 em Nova Iorque e cresceu para ser uma mulher solitária. Sem família, sem amores. Trabalhou brevemente numa fábrica e percebeu que não era nada disso que queria, então decidiu tornar-se ama, um trabalho que lhe permitia passar parte do dia na rua, a brincar e a passear com as crianças, e que além disso lhe dava alojamento e liberdade. Ela não precisava de mais nada. Não era propriamente a ama mais carinhosa do mundo. Falava pouco. Não contava nada da sua vida a ninguém. Em cada casa por onde passou contou um passado diferente, apresentou-se inclusivamente com nomes diferentes. No seu quarto, fechado à chave, guardava recortes de jornais e outras mil bugigangas. Descrevem-na como uma mulher "estranha", ou seja, diferente das outras. Muito alta, quase sempre de chapéu de abas na cabeça, com roupas pouco charmosas.

 

Vivian andava sempre com a sua Roliflex ao pescoço e fotografava de tudo um pouco. Mas imprimiu muito poucas fotografias. Fotografava obsessivamente e é óbvio que isso lhe dava prazer, mas não se interessava por ver as fotografias que tirava, muito menos por mostrá-las a outras pessoas. Quando morreu, sozinha e na pobreza, em 2009, deixou caixas cheias de milhares de negativos, rolos por revelar, provas de contacto. E só então se descobriu a maravilhosa fotógrafa que ela era. As suas fotografias, muitas a preto e branco, algumas a cores, são um documento incrível sobre a vida - em Nova Iorque, em Chicago, noutras partes do mundo - nos anos 50, 60 e 70. E o que é ainda mais fascinante é que aparentemente ela tirava aquelas fotografias instintivamente, enquanto deambulava pelas ruas, sozinha ou com crianças, sem perder muito tempo a pensar no enquadramento e na luz, muitas vezes apanhando as pessoas desprevenidas. Um momento. Um clique. E o resultado é incrível - descubram o seu trabalho no site www.vivianmaier.com que não se vão arrepender.

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Não temos que ser todos iguais. Ainda bem que não somos todos iguais. São as pessoas que são diferentes, que pensam de maneira diferente, que não se enquadram, que, ainda que se sujeitem às regras sociais, mantêm uma cabeça livre, são essas pessoas que fazem geralmente coisas maravilhosas. Ainda que sejam pequenas. Pequenas coisas maravilhosas. Como as fotografias de Vivian Maier.

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publicado às 09:31

After Life é uma minissérie de seis episódios escritos, realizados e interpretados por Ricky Gervais. Tendo visto Gervais em The Office, a fazer solos de stand up ou a apresentar os Globos de Ouro, uma pessoa poderia esperar que esta fosse uma série de comédia. Mas não. É muito negra até. Esta é a história de um homem, Tony, que acabou de perder a mulher e que está a passar por um complicado processo de luto, sem vontade de continuar a viver, sem conseguir encontrar qualquer sentido nisto tudo. Isto tudo é um pai que está num lar e praticamente não o reconhece, um emprego que já não o entusiasma como repórter no jornal local, e uma série de pessoas com que se vai cruzando e que lhe vão mostrando como a vida pode ser bastante ridícula. E no entanto há uma enorme ternura aqui. After Life não nos faz rir e isso acaba por ser uma boa surpresa.

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publicado às 22:03

31
Jan19

Shalom shalom

No dia em que fiquei em casa doente, depois de despachar um texto de trabalho, pus-me a navegar na Netflix à procura de algo que me apetecesse ver e descobri isto:

Shtisel é uma série israelita, de 2013, sobre uma família judia ortodoxa que mora no bairro Geula, em Jerusalém. A série é falada é hebraico (li que as personagens mais velhas falam yiddish) e é fascinante pelo modo como retrata o dia-a-dia destes judeus haredi -  tudo é tão diferente, das roupas, chapéus e penteados, passando pelas comidas e bebidas, até aos namoros e casamentos. Por exemplo: homens e mulheres não se podem tocar antes de casar, existe um rabino casamenteiro que arranja os encontros (que acontecem sempre em locais públicos), os casamentos são decididos pela família e, mesmo depois, os casais dormem em camas separadas. As mulheres têm de cobrir o seu cabelo verdadeiro com turbantes ou perucas, na escola as crianças praticamente só estudam temas religiosos, no bairro não há internet e até a televisão é inexistente (e depois há a avó que vai para um lar não-ortodoxo e aos 88 anos fica fã das séries americanas). Tanto quanto consegui perceber, a série retrata a vida destes judeus com grande realismo, mostrando as coisas boas e menos boas - afinal, por mais religiosas que sejam e por mais que tentem controlar os seus ímpetos, estas personagens são humanas, têm medos e desejos que nem sempre se acalmam com uma oração. Mas ao mesmo tempo a série tem um grande sentido de humor.

Ainda só vi meia dúzia de episódios mas já posso dizer que Shtisel foi uma boa e inesperada descoberta. Aqui fica a sugestão para quem, como eu, não tem paciência para a outra maluca das arrumações em degradê.

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publicado às 19:53

1. Djaimilia Pereira de Almeida tem um livro novo. Depois de Esse cabelo, de que eu já tinha gostado tanto, ela agora publica Luanda, Lisboa, Paraíso, um livro triste, daqueles que em certas páginas nos deixa com um nó na garganta, sobretudo por ser tão a vida como ela é e por a vida às vezes ser assim mesmo triste. Também gostei de conhecê-la. Leiam aqui para ficarem a saber mais sobre ela e sobre o livro.

2. Consegui, finalmente!, ir ver BlacKkKlansman, o mais recente joint de Spike Lee, e posso dizer-vos que vale muito a pena. Fala de racismo, claro, e põe-nos a pensar nos dias de hoje, mas é também um filme bastante divertido com uma história que se passa no início dos anos 1970 e que está cheia de referências à blaxploitation.

3. Ainda vão a tempo de ver Sara, a série criada por Bruno Nogueira e Marco Martins, com a grande Beatriz Batarda (a ficha técnica é uma reunião de grandes talentos, é impossível listá-los todos aqui). É uma comédia sobre o mundo dos actores, da televisão e do cinema, e também um bocadinho sobre todos nós. E é muito mas mesmo muito bem feita. Em cada episódio delicio-me com os detalhes, do cenário à inteligência das piadas, a iluminação, a música, tudo. Passa na RTP2 ao domingo à noite (programa ideal para fechar o fim-de-semana, depois de deitar os miúdos) mas também está disponível no site da RTP-Play.

 

E mais uma. Foi Djailimia que me falou de Jacob Riis, o dinamarquês que fotografou a vida dos pobres na Nova Iorque do final do século XIX, início do século XX. Procurem na internet e vejam como são bonitas e ao mesmo tempo tristes as suas fotografias. Escolhi esta, de dois pequenos ardinas, de um tempo em que ler jornais era uma coisa importante (esta é uma reflexão que fica para outro dia).

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A parte boa de não ter com quem falar ao serão é que, se me organizar e não me distrair nas redes sociais, enquanto os putos jogam playstation e me ignoram durante horas, eu posso aproveitar para desfrutar de muitas coisas bonitas.

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publicado às 19:54

31
Jul18

Vietname

Uma pessoa sabe que está a ter uma vida realmente pouco interessante quando manda os filhos de férias para o Alentejo e, em vez de desatar a marcar jantares e copos e outras coisas que não pode fazer no resto do ano, passa os serões pacatamente em casa a ver uma série sobre a guerra do Vietname. Em minha defesa devo dizer-vos que até tentei fazer algumas dessas coisas mas os meus amigos não estavam assim tão disponíveis e, além disso, esta é seguramente a melhor série que alguma vez foi feita sobre a guerra do Vietname.

 

 

Realizada por Ken Burns e Lynn Novich, The Vietname War tem 10 episódios e quase 18 horas. Os autores passaram mais de dez anos fazendo pesquisa e entrevistas. O resultado é uma viagem que começa em 1958, atravessa toda a década de 60 e vem até aos anos 80, ou mais. As imagens são brutais, é quase como se estivéssemos a ver várias versões do Platoon, de Oliver Stone, mas com imagens reais e bastante impressionantes. Além das imagens, os sons: as gravações das conversas dos presidentes americanos (Kennedy, Lyndon Johnson e Nixon) com os seus conselheiros e assessores são documentos importantíssimos (e permitem-nos ver como é que um país se mete numa embrulhada destas muito porque os presidentes estão mais preocupados em ganhar eleições do que em fazer algum bem no Vietname). E, depois, para além de toda a informação factual, em vez de entrevistar historiadores e políticos, os autores decidiram entrevistar os verdadeiros intervenientes na guerra: homens e mulheres que combateram no Vietname, americanos, sul-vietnamitas, norte-vietnamitas, vietcongs, os seus familiares, os jornalistas que lá estiveram, pessoas que viviam no norte e no sul, prisioneiros, os que fugiram da guerra, os que defenderam a guerra, os que foram para a rua gritar contra a guerra... A guerra do Vietname é contada ao pormenor, de muitos ângulos diferentes, por aqueles que a viveram, efectivamente. Com os seus sonhos, as suas convicções, os seus medos, os seus fantasmas, os seus arrependimentos. E, apesar de as memórias serem tantas vezes enganadoras, é muito importante que estas memórias possam ser registadas e guardadas. Para o futuro. Para que tentemos compreender. Para que tentemos evitar repetir os mesmos erros (tenho ainda, sempre, essa esperança).

A série está disponível no Netflix (já sei, já sei, até parece que sou patrocinada pelo Netflix, mas infelizmente não sou...).

Deixo-vos com uma imagem de Deer Hunter/ O Caçador (1978), de Michael Cimino, com Robert de Niro e Christopher Walken, que é um dos filmes mais perturbadores que já vi sobre o Vietname (ainda hoje, mesmo sabendo o que vai acontecer, sempre que vejo algumas cenas não consigo ficar indiferente), e que retrata muito bem o impacto da guerra em tantos "bons rapazes" da América.

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publicado às 08:42

30
Jul18

Nanette

Há um momento, a meio do espetáculo de stand-up comedy Nanette, em que as gargalhadas deixam de se ouvir. Nem um aplauso. Nem sequer um daqueles risos envergonhados. Nada. Só o silêncio na enorme sala da Ópera de Sydney enquanto Hannah Gadsby, de 40 anos, conta como foi crescer na Tasmânia onde 70% das pessoas achavam que a homossexualidade era não só um pecado como deveria ser considerada um crime - como aconteceu até 1997. Conta como disse à mãe que era lésbica mas nunca, até agora, teve coragem de contá-lo à avó porque, apesar de fazer espetáculos onde fala abertamente sobre o assunto, no seu íntimo continua a sentir vergonha. Conta como foi violada por duas vezes e como foi espancada por um homem por ser, como ele lhe chamou, “uma aberração” e “uma paneleira de merda”. Conta como construiu uma carreira “à base do humor autodepreciativo”, humilhando-se voluntariamente em público, e como não quer continuar a fazê-lo. “Vou deixar a comédia”, anuncia, sabendo que é um paradoxo irresolúvel e até risível isso de se anunciar que se vai deixar a comédia a meio de um espetáculo de stand-up comedy.

“Quando saí do armário, a única coisa que sabia fazer era ser invisível e odiar-me. Demorei dez anos a perceber que podia ocupar um espaço no mundo mas, nessa altura, já o tinha transformado em piadas, como se não fosse nada de importante. Agora, preciso de contar a minha história como deve ser”, explica. Contar uma história com princípio, meio e fim; não em forma de piada. Porque “o riso é só o mel que adoça o remédio amargo”. O riso não é a verdadeira cura, percebeu.

E, já que estamos a ser sinceros, vamos lá falar de preconceitos e misoginia e machismo e de todas as outras mulheres que desde que o mundo é mundo são alvo de abusos vários. Vamos lá falar de Weinsten, de Bill Clinton, de Picasso. Também questionar o que é isso de fazer um "humor lésbico" e o que é isso de ser artista (toda a história em volta do Van Gogh é deliciosa). Nos momentos em que este ainda é um espetáculo de stand-up comedy, Hannah Gadsby é uma das mais corrosivas e certeiras humoristas que andam por aí e não é por acaso que Nanette se estreou em 2017 e ganhou prémios em vários festivais de humor até, em junho passado, chegar à Netflix e se tornar um verdadeiro fenómeno global. Nanette é também por isso uma lição de alguém que domina perfeitamente a arte da comédia e que decide desconstruí-la ali, à nossa frente. Pôr-nos a rir desbragadamente. E depois calar-nos. 

Na sexta-feira, em Montreal, Hannah Gadsby apresentou Nanette pela última vez. Ou pelo menos é o que ela diz. Se vai deixar a comédia? Isso não é importante. E o mais provável, ela já o admitiu, é que não desista. Mas talvez procure outros caminhos. “Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu”, avisa. Essa é a grande lição deste espetáculo. O que nos faz continuar, o que nos permite sobreviver é a ligação aos outros. Essa é a sua última palavra em palco: connection. Como quem diz: amor.

Este texto é uma adaptação de um texto que publiquei no passado domingo do DN.

Sobre Hannah Gadsby há muito para ler na internet. Aconselho-vos:

Entrevista à Vulture, em janeiro

Um texto da própria Hannah 

Este artigo no The Lily

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publicado às 19:12

Em dezembro de 2001, o romancista americano Michael Peterson ligou para o 911 pedindo ajuda para a mulher que tinha caído das escadas. Quando os médicos chegaram, poucos minutos depois, encontraram a mulher de Peterson morta e ensanguentada. Todo o cenário, com o sangue nas paredes, parecia mais de um crime do que de uma simples queda nas escadas. E o principal suspeito era o marido, que era a única pessoa que se encontrava em casa nessa noite.

The Staircase, que está disponível no Netflix, é uma série documental realizada pelo francês Jean-Xavier de Lestrade entre 2001 e 2012 e que acompanha todo o processo judicial de Michael Peterson - do ponto de vista da defesa. São 13 episódios de 45 minutos. Às vezes torna-se um pouco cansativo, confesso. Mas para quem se interessa pelo modo como a justiça funciona é fascinante. Ver como os advogados pensam, acompanhar todos os passos do inquérito, os testemunhos dos filhos, a investigação ao passado daquela família, as provas, as dúvidas, as simulações do tribunal, o que dizem os cientistas, como decidem os jurados. As voltas e reviravoltas. 

Foi crime? Foi acidente? Foi ele? Não foi ele? 

Independentemente do que seja a verdade, há aqui muita matéria para reflectir.

Primeiro, que nunca poderemos saber realmente o que se passa dentro da casa das outras pessoas, o que falam, como se relacionam, o que escondem. Podemos achar que conhecemos as outras pessoas mas não poderemos ter a certeza de nada.

Depois, que nenhuma pessoa resistiria a uma investigação total à sua vida. Por muito que nos consideremos honestos e transparentes, todos temos segredos, todos já mentimos em alguma ocasião, todos temos as nossas coisas, que nos parecem coisas sem importância mas que, quando expostas numa sala do tribunal, fora do contexto, se podem transformar em coisas muito importantes.

Finalmente, é impossível ficarmos indiferentes ao desgaste que esta família sofre ao longo destes anos. O Peterson que aparece no último episódio a ouvir a música de Leonard Cohen é um homem completamente diferente daquele que vimos no início, a contar como, antes de tudo acontecer, passou o serão a beber um copo de vinho e a conversar com a mulher, Kathleen, na beira da piscina. 

É uma pena que a vida não seja como um conto da Agatha Christie, sempre com um desfecho claro e um criminoso atrás das grades. 

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publicado às 23:25

Quando os meus filhos eram mais pequenos perdi muitos filmes. Não tinha tempo para ir ao cinema todas as vezes que queria e depois não podia compensar isso porque não tinha Tv-cines nem essa invenção maravilhosa que é a box da televisão que nos permite pôr para trás e ver aquilo que perdemos, além de que nem me passava pela cabeça piratear filmes a partir de sites manhosos. Outros tempos. Aprendi a viver com todos os filmes que não via como aprendi a lidar com os concertos a que não fui (e a que não vou) e com todos os convites que ainda recuso para programas que não se compadecem com treinos de futebol até às nove da noite e crianças que têm de estudar e acordar cedo para ir para a escola. De vez em quando encontro filmes perdidos na televisão e surpreendo-me. Como é que eu não vi este?

Aconteceu-me esta semana. Apareceu-me do nada num zapping tardio. Tive que o ver em duas noites porque ando estourada e adormeço no sofá muito antes da hora da Cinderela (mas isso dava outro post), mas lá consegui ver este filme de 2010: Blue Valentine ou, em português, Só Tu e Eu, realizado por Derek Cianfrance (que, depois desse, já fez Como um Trovão e A Luz Entre os Oceanos), com Ryan Gosling e Michelle Williams a fazerem de Dean e Cindy. A história de uma relação a caminho do fim. Ou de como a paixão é tantas vezes triturada pela vidinha. 

"I'm so out of love with you!", diz Cindy a Dean, no meio de uma discussão. "I've got nothing left for you, nothing." 

Se calhar sou eu que ando demasiado sensível e cansada e à procura de desculpas para lacrimejar, mas eu gostei muito e achei ao mesmo tempo tão triste e tão realista e tão doce e tão duro e depois tão triste outra vez. Nos filmes, como na vida, nem todos os finais são felizes.

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publicado às 23:16

05
Mai18

Maternidade

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Chama-se The Letdown, ou em português da netflix Maternidade e Desapontamento, e são apenas sete episódios que todas as mães deviam ver. Para não se sentirem sozinhas. Para se sentirem menos falhadas. Melhor do que qualquer palestra de um guru qualquer que vos diga o que é que vocês deviam estar a fazer para serem melhores mães. Mesmo. 

Esta é uma série australiana, protagonizada por uma fantástica Alison Bell mas que nos mostra não só a sua experiência como mãe de uma bebé como também outras experiências de outras mães que ela vai conhecendo. E está lá tudo. Qualquer pessoa que tenha sido mãe vai encontrar algum ponto de contacto. Seja as noites sem dormir seja a falta de apetite sexual (ou o medo de voltar a fazê-lo). As dores do parto. O cansaço. A insegurança (bolas, a insegurança, quando é que nos livramos disto?). A incompreensão dos amigos que não têm filhos. A solidão, aquela grande solidão que se sente naqueles meses que passamos em casa com um bebé. A amamentação. As críticas dos outros. Os olhares reprovadores. As noites sem dormir. A total inaptidão de um marido que até aí era perfeito. As discussões. A casa desarrumada. O desejo de fazer tudo bem. O falhanço. O cansaço outra vez. As hormonas. A sogra. A nossa mãe. A culpa. Sentir que estamos a crescer. A enorme responsabilidade de ter um bebé ao nosso cuidado. Aquela sensação de que isto não é a nossa vida, é como se estivéssemos a ver um filme. Só que não.

É bom para rir. Se bem que às vezes também fiquei aqui com um nó na garganta.

The world created by The Letdown, largely with a light touch, is very real: small, chaotic, sometimes lonely, and very, very sleep-deprived. Inevitably however, as a new parent, the more absurd jokes often feel less comedy, more cinéma vérité.

 

Ser mãe de um bebé é isto tudo e é também absolutamente maravilhoso. Pode não ser exactamente como nós imaginávamos (e, sobretudo, nós não somos exactamente como imaginámos que seríamos) mas (lá vem o tal cliché) a verdade é que não há nada que se compare a este amor que sentimos por estas pessoas pequenas que nos fazem sentir tão miseráveis e felizes ao mesmo tempo. Acho que esse é um dos grandes mistérios da humanidade.

(depois melhora. numas coisas. e também piora. noutras. enfim.)

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publicado às 22:55


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