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A Gata Christie


Terça-feira, 31.07.18

Vietname

Uma pessoa sabe que está a ter uma vida realmente pouco interessante quando manda os filhos de férias para o Alentejo e, em vez de desatar a marcar jantares e copos e outras coisas que não pode fazer no resto do ano, passa os serões pacatamente em casa a ver uma série sobre a guerra do Vietname. Em minha defesa devo dizer-vos que até tentei fazer algumas dessas coisas mas os meus amigos não estavam assim tão disponíveis e, além disso, esta é seguramente a melhor série que alguma vez foi feita sobre a guerra do Vietname.

 

 

Realizada por Ken Burns e Lynn Novich, The Vietname War tem 10 episódios e quase 18 horas. Os autores passaram mais de dez anos fazendo pesquisa e entrevistas. O resultado é uma viagem que começa em 1958, atravessa toda a década de 60 e vem até aos anos 80, ou mais. As imagens são brutais, é quase como se estivéssemos a ver várias versões do Platoon, de Oliver Stone, mas com imagens reais e bastante impressionantes. Além das imagens, os sons: as gravações das conversas dos presidentes americanos (Kennedy, Lyndon Johnson e Nixon) com os seus conselheiros e assessores são documentos importantíssimos (e permitem-nos ver como é que um país se mete numa embrulhada destas muito porque os presidentes estão mais preocupados em ganhar eleições do que em fazer algum bem no Vietname). E, depois, para além de toda a informação factual, em vez de entrevistar historiadores e políticos, os autores decidiram entrevistar os verdadeiros intervenientes na guerra: homens e mulheres que combateram no Vietname, americanos, sul-vietnamitas, norte-vietnamitas, vietcongs, os seus familiares, os jornalistas que lá estiveram, pessoas que viviam no norte e no sul, prisioneiros, os que fugiram da guerra, os que defenderam a guerra, os que foram para a rua gritar contra a guerra... A guerra do Vietname é contada ao pormenor, de muitos ângulos diferentes, por aqueles que a viveram, efectivamente. Com os seus sonhos, as suas convicções, os seus medos, os seus fantasmas, os seus arrependimentos. E, apesar de as memórias serem tantas vezes enganadoras, é muito importante que estas memórias possam ser registadas e guardadas. Para o futuro. Para que tentemos compreender. Para que tentemos evitar repetir os mesmos erros (tenho ainda, sempre, essa esperança).

A série está disponível no Netflix (já sei, já sei, até parece que sou patrocinada pelo Netflix, mas infelizmente não sou...).

Deixo-vos com uma imagem de Deer Hunter/ O Caçador (1978), de Michael Cimino, com Robert de Niro e Christopher Walken, que é um dos filmes mais perturbadores que já vi sobre o Vietname (ainda hoje, mesmo sabendo o que vai acontecer, sempre que vejo algumas cenas não consigo ficar indiferente), e que retrata muito bem o impacto da guerra em tantos "bons rapazes" da América.

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por Gata às 08:42

Segunda-feira, 30.07.18

Nanette

Há um momento, a meio do espetáculo de stand-up comedy Nanette, em que as gargalhadas deixam de se ouvir. Nem um aplauso. Nem sequer um daqueles risos envergonhados. Nada. Só o silêncio na enorme sala da Ópera de Sydney enquanto Hannah Gadsby, de 40 anos, conta como foi crescer na Tasmânia onde 70% das pessoas achavam que a homossexualidade era não só um pecado como deveria ser considerada um crime - como aconteceu até 1997. Conta como disse à mãe que era lésbica mas nunca, até agora, teve coragem de contá-lo à avó porque, apesar de fazer espetáculos onde fala abertamente sobre o assunto, no seu íntimo continua a sentir vergonha. Conta como foi violada por duas vezes e como foi espancada por um homem por ser, como ele lhe chamou, “uma aberração” e “uma paneleira de merda”. Conta como construiu uma carreira “à base do humor autodepreciativo”, humilhando-se voluntariamente em público, e como não quer continuar a fazê-lo. “Vou deixar a comédia”, anuncia, sabendo que é um paradoxo irresolúvel e até risível isso de se anunciar que se vai deixar a comédia a meio de um espetáculo de stand-up comedy.

“Quando saí do armário, a única coisa que sabia fazer era ser invisível e odiar-me. Demorei dez anos a perceber que podia ocupar um espaço no mundo mas, nessa altura, já o tinha transformado em piadas, como se não fosse nada de importante. Agora, preciso de contar a minha história como deve ser”, explica. Contar uma história com princípio, meio e fim; não em forma de piada. Porque “o riso é só o mel que adoça o remédio amargo”. O riso não é a verdadeira cura, percebeu.

E, já que estamos a ser sinceros, vamos lá falar de preconceitos e misoginia e machismo e de todas as outras mulheres que desde que o mundo é mundo são alvo de abusos vários. Vamos lá falar de Weinsten, de Bill Clinton, de Picasso. Também questionar o que é isso de fazer um "humor lésbico" e o que é isso de ser artista (toda a história em volta do Van Gogh é deliciosa). Nos momentos em que este ainda é um espetáculo de stand-up comedy, Hannah Gadsby é uma das mais corrosivas e certeiras humoristas que andam por aí e não é por acaso que Nanette se estreou em 2017 e ganhou prémios em vários festivais de humor até, em junho passado, chegar à Netflix e se tornar um verdadeiro fenómeno global. Nanette é também por isso uma lição de alguém que domina perfeitamente a arte da comédia e que decide desconstruí-la ali, à nossa frente. Pôr-nos a rir desbragadamente. E depois calar-nos. 

Na sexta-feira, em Montreal, Hannah Gadsby apresentou Nanette pela última vez. Ou pelo menos é o que ela diz. Se vai deixar a comédia? Isso não é importante. E o mais provável, ela já o admitiu, é que não desista. Mas talvez procure outros caminhos. “Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu”, avisa. Essa é a grande lição deste espetáculo. O que nos faz continuar, o que nos permite sobreviver é a ligação aos outros. Essa é a sua última palavra em palco: connection. Como quem diz: amor.

Este texto é uma adaptação de um texto que publiquei no passado domingo do DN.

Sobre Hannah Gadsby há muito para ler na internet. Aconselho-vos:

Entrevista à Vulture, em janeiro

Um texto da própria Hannah 

Este artigo no The Lily

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por Gata às 19:12

Domingo, 01.07.18

O que aconteceu naquelas escadas?

Em dezembro de 2001, o romancista americano Michael Peterson ligou para o 911 pedindo ajuda para a mulher que tinha caído das escadas. Quando os médicos chegaram, poucos minutos depois, encontraram a mulher de Peterson morta e ensanguentada. Todo o cenário, com o sangue nas paredes, parecia mais de um crime do que de uma simples queda nas escadas. E o principal suspeito era o marido, que era a única pessoa que se encontrava em casa nessa noite.

The Staircase, que está disponível no Netflix, é uma série documental realizada pelo francês Jean-Xavier de Lestrade entre 2001 e 2012 e que acompanha todo o processo judicial de Michael Peterson - do ponto de vista da defesa. São 13 episódios de 45 minutos. Às vezes torna-se um pouco cansativo, confesso. Mas para quem se interessa pelo modo como a justiça funciona é fascinante. Ver como os advogados pensam, acompanhar todos os passos do inquérito, os testemunhos dos filhos, a investigação ao passado daquela família, as provas, as dúvidas, as simulações do tribunal, o que dizem os cientistas, como decidem os jurados. As voltas e reviravoltas. 

Foi crime? Foi acidente? Foi ele? Não foi ele? 

Independentemente do que seja a verdade, há aqui muita matéria para reflectir.

Primeiro, que nunca poderemos saber realmente o que se passa dentro da casa das outras pessoas, o que falam, como se relacionam, o que escondem. Podemos achar que conhecemos as outras pessoas mas não poderemos ter a certeza de nada.

Depois, que nenhuma pessoa resistiria a uma investigação total à sua vida. Por muito que nos consideremos honestos e transparentes, todos temos segredos, todos já mentimos em alguma ocasião, todos temos as nossas coisas, que nos parecem coisas sem importância mas que, quando expostas numa sala do tribunal, fora do contexto, se podem transformar em coisas muito importantes.

Finalmente, é impossível ficarmos indiferentes ao desgaste que esta família sofre ao longo destes anos. O Peterson que aparece no último episódio a ouvir a música de Leonard Cohen é um homem completamente diferente daquele que vimos no início, a contar como, antes de tudo acontecer, passou o serão a beber um copo de vinho e a conversar com a mulher, Kathleen, na beira da piscina. 

É uma pena que a vida não seja como um conto da Agatha Christie, sempre com um desfecho claro e um criminoso atrás das grades. 

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por Gata às 23:25

Terça-feira, 29.05.18

"I'm so out of love with you!"

Quando os meus filhos eram mais pequenos perdi muitos filmes. Não tinha tempo para ir ao cinema todas as vezes que queria e depois não podia compensar isso porque não tinha Tv-cines nem essa invenção maravilhosa que é a box da televisão que nos permite pôr para trás e ver aquilo que perdemos, além de que nem me passava pela cabeça piratear filmes a partir de sites manhosos. Outros tempos. Aprendi a viver com todos os filmes que não via como aprendi a lidar com os concertos a que não fui (e a que não vou) e com todos os convites que ainda recuso para programas que não se compadecem com treinos de futebol até às nove da noite e crianças que têm de estudar e acordar cedo para ir para a escola. De vez em quando encontro filmes perdidos na televisão e surpreendo-me. Como é que eu não vi este?

Aconteceu-me esta semana. Apareceu-me do nada num zapping tardio. Tive que o ver em duas noites porque ando estourada e adormeço no sofá muito antes da hora da Cinderela (mas isso dava outro post), mas lá consegui ver este filme de 2010: Blue Valentine ou, em português, Só Tu e Eu, realizado por Derek Cianfrance (que, depois desse, já fez Como um Trovão e A Luz Entre os Oceanos), com Ryan Gosling e Michelle Williams a fazerem de Dean e Cindy. A história de uma relação a caminho do fim. Ou de como a paixão é tantas vezes triturada pela vidinha. 

"I'm so out of love with you!", diz Cindy a Dean, no meio de uma discussão. "I've got nothing left for you, nothing." 

Se calhar sou eu que ando demasiado sensível e cansada e à procura de desculpas para lacrimejar, mas eu gostei muito e achei ao mesmo tempo tão triste e tão realista e tão doce e tão duro e depois tão triste outra vez. Nos filmes, como na vida, nem todos os finais são felizes.

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por Gata às 23:16

Sábado, 05.05.18

Maternidade

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Chama-se The Letdown, ou em português da netflix Maternidade e Desapontamento, e são apenas sete episódios que todas as mães deviam ver. Para não se sentirem sozinhas. Para se sentirem menos falhadas. Melhor do que qualquer palestra de um guru qualquer que vos diga o que é que vocês deviam estar a fazer para serem melhores mães. Mesmo. 

Esta é uma série australiana, protagonizada por uma fantástica Alison Bell mas que nos mostra não só a sua experiência como mãe de uma bebé como também outras experiências de outras mães que ela vai conhecendo. E está lá tudo. Qualquer pessoa que tenha sido mãe vai encontrar algum ponto de contacto. Seja as noites sem dormir seja a falta de apetite sexual (ou o medo de voltar a fazê-lo). As dores do parto. O cansaço. A insegurança (bolas, a insegurança, quando é que nos livramos disto?). A incompreensão dos amigos que não têm filhos. A solidão, aquela grande solidão que se sente naqueles meses que passamos em casa com um bebé. A amamentação. As críticas dos outros. Os olhares reprovadores. As noites sem dormir. A total inaptidão de um marido que até aí era perfeito. As discussões. A casa desarrumada. O desejo de fazer tudo bem. O falhanço. O cansaço outra vez. As hormonas. A sogra. A nossa mãe. A culpa. Sentir que estamos a crescer. A enorme responsabilidade de ter um bebé ao nosso cuidado. Aquela sensação de que isto não é a nossa vida, é como se estivéssemos a ver um filme. Só que não.

É bom para rir. Se bem que às vezes também fiquei aqui com um nó na garganta.

The world created by The Letdown, largely with a light touch, is very real: small, chaotic, sometimes lonely, and very, very sleep-deprived. Inevitably however, as a new parent, the more absurd jokes often feel less comedy, more cinéma vérité.

 

Ser mãe de um bebé é isto tudo e é também absolutamente maravilhoso. Pode não ser exactamente como nós imaginávamos (e, sobretudo, nós não somos exactamente como imaginámos que seríamos) mas (lá vem o tal cliché) a verdade é que não há nada que se compare a este amor que sentimos por estas pessoas pequenas que nos fazem sentir tão miseráveis e felizes ao mesmo tempo. Acho que esse é um dos grandes mistérios da humanidade.

(depois melhora. numas coisas. e também piora. noutras. enfim.)

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por Gata às 22:55

Domingo, 15.04.18

A felicidade nas coisas pequenas (XXXV)

Foi uma semana cheia de imprevistos, desilusões, coisas más, desmotivação geral, chuva e hormonas aos saltos. Mas também foi uma semana com:

A Marta Gautier a explicar a diferença entre "alfas" e "betas" no espetáculo Pessoas Estranhas.

Almoçar sozinha (entretida com as conversas das outras mesas) a comida bem boa de A Luz Ideal.

As vidas banais da série Easy, no Netflix.

Fazer biscoitos. Molhá-los no leite morno.

Jantar em casa de amigos. Beber vinho. Trocar confidências. Gargalhar.

Cometer loucuras, porque é bom.

O jogo que importa foi ganho pelos nossos miúdos.

Os abraços deles (mesmo quando são umas pestes). 

Um fim-de-semana inteiro quase offline. Neste momento, desligar é a palavra de ordem cá em casa.

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Quando te sentires a perder o pé, flutua. Recupera o fôlego. E continua.

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por Gata às 22:38

Sábado, 07.04.18

"Wild Wild Country"

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Wild Wild Country é um documentário em seis partes (no total são mais de seis horas), realizado por Chapman e Maclain Way, que estreou na Netflix em março. E que eu vi - todo - em menos de 24 horas. Fiquei completamente agarrada. Wild Wild Country conta como, em 1981, um guru indiano, Bhagwan Shree Rajneesh, e o seu grupo de seguidores se instalaram num rancho enorme no meio do nada, em Oregon, EUA, e como aquilo que deveria ser uma comunidade ligada à meditação e à procura da felicidade se transformou no culto das "pessoas cor-de-laranja", gente de armas à cintura e disposta a fazer o que fosse preciso para garantir a permanência no rancho e o poder dos seus líderes. O tema é absolutamente fascinante e o que é estranho é como é que eu, que adoro estes assuntos (e já vi tantas coisas sobre Jonestown, por exemplo), nunca tinha ouvido falar desta desta Rajneeshpuram. 

Há, por um lado, um fascínio, admito, por estes modos de vida alternativos. Tenho tantas dúvidas sobre o nosso modo de vida contemporâneo (ocidental, capitalista, materialista, consumista) que me interessam todas as experiências de pessoas que procuram outros caminhos. É impossível não simpatizar com esta ideia de uma comunidade de pessoas que trabalha e medita em conjunto, longe dos moralismos cristãos (ou de qualquer outra religião) e sem os contrangimentos do sistema. Mas, depois, fico impressionada com a forma como as pessoas abdicam da sua vontade e se entregam totalmente nas mãos dos outros. Como se sujeitam. Todos vestidos da mesma cor, entregando o seu dinheiro ao guru, cumprindo as regras dos líderes sem questionar. O poder do grupo é enorme. A cegueira. Que impede esta multidão de ver como os seus líderes, que ao início até podiam ter a melhor das intenções, não resistem à luxúria do poder e da riqueza pessoal. Ou como a sua comunidade se está a transformar numa réplica daquilo que eles próprios criticavam.

Ao mesmo tempo, e esse é um dos motivos porque este documentário é tão bom, também é muito interessante ver como as pessoas de fora (no caso, a comunidade conservadora, cristã, americana, branca de Antelope, no Oregon) reage perante o desconhecido. Todos os preconceitos. E o medo do sexo, claro, é sempre o sexo: ouvem dizer que "as pessoas cor-de-laranja" não casam, que podem ter relações com quem quiserem, que andam nus. E essas pessoas muito respeitadoras de deus não podem tolerar tamanha degradação dos costumes. O habitual, portanto.

Usando muitas (e preciosas) imagens de arquivo e entrevistas actuais a pessoas que viveram dentro e fora do rancho (com destaque para a misteriosa Ma Anand Sheela, a secretária do guru), Wild Wild Country é, mais do que um documentário sobre o culto de Bhagwani, uma reflexão sobre a utopia e o confronto com a realidade. A luta entre duas comunidades, a escalada de violência e o que é que se está disposto a fazer para ganhar. Sobre a ganância e a perda de limites. E aquela ténue linha que separa o certo e o errado. 

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por Gata às 09:21

Sábado, 06.01.18

A propósito de reis e rainhas

Não sei como é que isto aconteceu mas estou a tornar-me uma pessoa que vê séries. Esta semana comecei a ver The Crown, sobre a rainha Isabel II. Que delícia. Uma história contada sem pressa e com montes de pequenos detalhes. Ainda só vi quatro episódios mas estou com muita vontade de ver as duas temporadas a grande velocidade. Bendita Netflix.

A propósito: vejam AQUI as fotografias verdadeiras e da série dos membros da familia real. É muito fixe.

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por Gata às 18:53

Segunda-feira, 20.11.17

Rame-rame

Eu sei que existem fases boas e más e outras assim assim e já me habituei a isto por isso já não estranho nem me preocupo muito. Há dias em que durmo pessimamente a pensar em tudo o que fiz mal, em tudo o que não fiz, em tudo o que deveria fazer, e sou uma pessoa com sorte, apesar de tudo, pois não tenho problemas graves entre mãos e, entre as contas para pagar e as chatices no trabalho, aquilo que me tira mesmo o sono são os putos. Sabem quando nos dizem que vamos ter saudades das fraldas e das birras? Ah, pois. Não é bem saudades, porque eu adoro vê-los a crescer, mas é todo um novo mundo de problemas e discussões e preocupações. Enfim. Depois há dias em que basta uma coisa boa para me sentir feliz e recompensada. Como, por exemplo, ir ver um espetáculo daqueles bons. Ou dançar uma noite inteira com as minhas amigas. Ou passar horas na cozinha a preparar o jantar. Ou vê-los a fazer os trabalhos de casa sem protestar. Sou pessoa que se contenta com pouco, como se vê. E até, nos dias bons, consigo achar que vai correr tudo bem. Isto também tem muito a ver com as estações do ano e com os ciclos da natureza, com os ciclos menstruais e provavelmente com a lua e os outros astros e energias e mais não sei quê, porque isto anda tudo ligado. De maneiras que o melhor é uma pessoa ir levando e tentar não stressar muito. E relativizar, sempre. Dito isto, não me tem apetecido vir aqui escrever, ou melhor, até me tem apetecido mas ou não tenho tempo, ou adormeço no sofá, ou então, o que também acontece muito, ponho-me para aqui a escrevinhar e depois chego ao fim e acho que não vale a pena publicar. Não se preocupem. É só uma fase.

Também é verdade que no pouco tempo livre tenho ficado entretida a ver o Master of None. Há pouco mais de uma semana, o puto pediu para assinar a Netflix para ver umas séries quaisquer com super-heróis e eu, desejosa que ele passe menos tempo a ver os parvos dos youtubers, fui na conversa e agora também me estou a tornar uma pessoa que vê séries, embora - ainda - não veja as séries da moda.

Sobre Master of None, a série de Aziz Ansari, a melhor coisa que posso dizer é que me fez lembrar imenso Seinfeld - uma série sobre nada - mas com muito menos momentos cómicos e muito mais gente como nós. Bom, um bocadinho mais hipsters do que nós, mas ainda assim gente banal com problemas banais. Gente que também tem fases boas e más e assim e assim e vai levando como pode. De preferência, com uns sorrisos. Eu ainda estou a meio da segunda temporada (deveria dizer que  estou a meio da segunda temporada, porque na verdade só há duas temporadas).

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por Gata às 23:08

Quarta-feira, 17.08.16

Jogos em directo. Ou mais ou menos.

As transmissões dos campeonatos de atletismo sempre foram assim. Há várias provas a acontecer ao mesmo tempo e o realizador escolhe aquilo que vai dando em directo e depois vai recuperando (em diferido) algumas das provas que perdeu e há outras que se perdem para sempre, é a vida. É impossível agradar a todos os espectadores, haverá uns que gostam mais de saltos e outros de corridas, há uns que querem ver todos portugueses e outros para quem isso não é importante.

Se sempre foi assim, então porque é que este ano parece que há tanta gente descontente com a transmissão da RTP?

Tenho uma ideia: porque o mundo mudou e porque a maneira como vemos o mundo e a maneira como vemos televisão mudou. Mas as transmissões continuam iguaizinhas ao que eram há 20 anos.

Por um lado, existem outros canais que estão a transmitir as mesmas provas - muitas vezes sem cortes nem anúncios pelo meio. Já me aconteceu ter vários canais ligados (no trabalho, que eu em casa só tenho uma televisão) e constatar as diferenças.

Por outro lado, existe a internet. Através da internet nós podemos acompanhar os resultados das provas quase ao segundo. Não precisamos de esperar pela RTP. E por isso nos irrita tanto quando eles dão anúncios e nós sabemos que estão a acontecer coisas importantes. E por isso nos irrita ainda mais quando eles dão provas em diferido fazendo de conta que é em directo, como se o mundo todo estivesse à espera da RTP para saber, como se não houvesse outros canais nem internet nem liveblogs nem pessoas a conversar no facebook sobre coisas que já aconteceram mas que só vão passar na RTP daqui a uns minutos.

Tenho sido muito crítica em relação a isto e tenho recebido algumas respostas e explicações. Agradeço. As explicações podem fazer com que eu seja mais compreensiva mas não fazem com que eu seja uma espectadora mais satisfeita. Se calhar já é tempo de repensar estas transmissões. Não podemos continuar a fazer as coisas sempre da mesma forma quando o mundo à nossa volta está a mudar.

Por exemplo, explicaram-me que vem tudo decidido do Brasil. Acredito. Mas vem tudo decidido depois de ter sido contratualizado entre as duas partes - não vamos achar que as pessoas da Bielorrússia não viram os seus saltadores mas estiveram a ver o Nelson Évora, não é? Há um acordo com cada país. Então, se calhar, também deverá ser possível decidir quando é que se quer pôr anúncios e quanto tempo duram. Porque falhar os saltos da Patrícia Mamona (recorde nacional) e do Nelson Évora para dar publicidade (e nem sequer era a Nike a pagar para estar no meio dos jogos olímpicos, eram mesmo televendas parvas, foi uma coisa despropositada) é inadmissível. Podia acontecer há 20 anos e ninguém dava por isso. Agora, não pode acontecer.

É verdade, não se consegue satisfazer toda a gente. Haverá sempre quem queira ver o hipismo e quem não queira. Haverá sempre quem prefira a vela ao andebol. Mas há mínimos. Os tais mínimos olímpicos.

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por Gata às 00:39



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