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Não tenho tido tempo para muito mais, mas não queria deixar passar a oportunidade de falar aqui da série documental A duas voltas: Mário Soares as Presidenciais de 1986, de autoria de Ivan Nunes e Paulo Pena, que está disponível na RTP Play. Para quem, como eu, andou com autocolantes de "Soares é fixe" ao peito e se lembra bem da campanha, é uma pequena delícia. Além do retrato do país que éramos há 40 anos, ainda deu para ficar a perceber algumas coisas mais políticas que, como eu era ainda uma miúda, com apenas 11 anos, me passaram um bocado ao lado na altura. Num momento em que nos preparamos para eleger o próximo Presidente da República, acho que é um bom programa para o dia de reflexão.

Nos poucos dias de férias com os miúdos consegui ver a última temporada de The Bear. Não há muito mais que se possa dizer sobre esta série, definitivamente uma das minhas preferidas. Óptimo argumento, excelentes soluções na realização, grandes interpretações, música escolhida a dedo. Dá mesmo gosto ver uma série onde tudo é tão pensado, onde cada episódio tem uma identidade própria, não há um modelo que é preciso seguir, pelo contrário, em cada episódio procura-se a melhor forma de contar aquela parte da história. Esta quarta temporada é menos angustiante do que a terceira, menos sufocante. Continua a ser uma corrida contra o tempo, mas Carmy parece estar a avançar em alguma direcção.
O último episódio tem um final aberto, percebia-se logo que estariam a ponderar continuar para uma quinta temporada e, entretanto, isso confirmou-se, já foi anunciado. Tenho pena. Acho mesmo que a série está bem como está, não precisava de mais. Espero que não estraguem tudo.
Entretanto, já que estava na Disney+, vi também Beth e a Vida, uma série da Amy Schumer que já tem duas temporadas. É bem fácil de ver, é uma série de comédia mas com aquele toquezinho de emoção que sempre dá para uma pessoa se comover um bocadinho. É ficção mas algumas personagens e situações são inspiradas na própria vida da actriz e argumentista (e também, ocasionalmente, realizadora). Beth é uma mulher de 40 anos, que, infeliz com a sua vida, depois da morte da mãe, decide terminar a relação, mudar de trabalho e voltar à sua casa de infância. A série conta vários episódios da vida de Beth com a irmã, os amigos, o namorado, os colegas de trabalho, tudo coisas aparentemente banais de uma vida banal, mas é mesmo dessa normalidade que eu gosto, portanto, vi os vinte episódios com grande alegria.
Já agora, aproveito para deixar aqui a referência a três séries que já vi há mais tempo mas que ainda não tinha comentado (e desde quando é que eu me tornei uma "papa-séries"? não sei, mas parece-me que não dá para desmenti-lo, está a acontecer):
We were the lucky ones (Nós tivemos sorte, também na Disney+) - acompanha uma família judia durante a Segunda Guerra Mundial. Um casal e os seus muitos filhos são separados pela guerra, enfrentam bombardeamentos, guetos, esconderijos e campos de trabalho. Não é a melhor série do mundo, mas eu adoro o tema e, portanto, vi tudo sofregamente. Ainda por cima é baseada na história de uma família real, o que é sempre um plus para quem, como eu, gosta de ir procurar as fotografias e as histórias das pessoas na internet.
Nobody wants this (Ninguém quer isto, na Netflix) - é uma série de comédia que junta um improvável par romântico: uma agnóstica muito progressista e um rabino judeu. É divertida mas nada do outro mundo. Li críticas muito boas na altura, mas a mim pareceu-me só ok. Não fiquei fã da Kristen Bell, mas percebo que qualquer pessoa se apaixone pelo Adam Brody com a sua barba e aquele ar frágil e fofinho.
Fleishman is in trouble (Fleishman em apuros, na Disney +) - Jesse Eisenberg interpreta um médico quarentão em crise com o final do seu casamento, que se reaproxima dos amigos da faculdade ao mesmo tempo que procura aproveitar a sua nova vida de solteiro. Entretanto a mulher (interpretação de Clare Danes) desaparece e deixa-o completamente sozinho com os dois filhos. É uma série que se vê bem, com um tom de comédia mas muito certeira no retrato que faz das relações, como começam, como acabam. E tem um olhar crítico sobre a ambição e os objectivos materiais que tantas pessoas colocam para as suas vidas e que as levam a entrar numa espiral de trabalho e consumismo e aparências. O grande problema, para mim, é mesmo o Jesse Eisenberg que parece que faz sempre o mesmo papel, sempre com o mesmo tipo de interpretação (além de ter aquele ar de miúdo de 20 anos). Uma nota também para os amigos, interpretados por Lizzy Caplan (a narradora de toda a série) e Adam Brody (outra vez, mas aqui na sua versão sem barba, que não é tão interessante, convenhamos).
Nestes dias dei por mim a ver uma série com a Nicole Kidman e o Hugh Grant, The Undoing. Passa-se no mundo dos super-ricos de Manhatthan, pessoas que moram em casas lindas e enormes e têm criadas e vão a leilões, enfim, um mundo que não me diz muito mas que parece ser terreno fértil para séries de sucesso. Esta mulher sofisticada, sempre impecável e controlada, é um tipo de personagem em que a Nicole se especializou. Não gosto muito da Nicole Kidman como actriz, parece que é incapaz de mostrar verdadeiros sentimentos; aquele rosto já foi bonito mas agora está completamente esticado e desfigurado, sem rugas nem expressão.
Apesar de tudo, ao ver The Undoing não consegui evitar fixar-me no sentimento daquela mulher que descobre que o marido lhe mentiu. Ainda que possa acreditar que o marido não é um assassino, saber que ele lhe mentiu tanto é o suficiente para se questionar se conhecerá assim tão bem o homem com quem casou.
Por causa disto, lembrei-me de uma outra série, que penso que não cheguei a referir aqui e que é um pouco melhor do que esta: Disclaimer, uma série realizada pelo Alfonso Cuarón, com a Cate Blanchett, o Sacha Baron Cohen e o Kevin Kline. Mais uma vez temos um casal a braços com mentiras e com mais mentiras que servem para ocultar as mentiras anteriores. Como se mantém uma relação depois de se perder a confiança?
Há muito tempo que não pensava nisto (e isso é muito bom sinal).
Cate Blanchett em Disclaimer
(Will Forte e Tina Fey em Four Seasons)
Tenho tanta coisa atrasada para falar aqui que nem sei por onde começar. Hoje vou só referir três séries que vi nos últimos meses e que aconselho bastante:
Love and Death - já a vi há bastante tempo, mas no outro dia voltei a encontrá-la na HBO Max e percebi que não a tinha referido. Vale muito a pena. É uma série baseada na história real de Candy Montgomery (aviso spoiler, se não querem saber o que acontece não continuem a ler), uma americana do Texas que é a mulher ideal, a dona de casa de perfeita, a mãe dedicada. Religiosa, entretida com os chás das amigas e a quermesse da igreja, Candy envolve-se romanticamente com o marido de uma das amigas e perde completamente o controlo da sua vida. Enredada em mentiras, em 1980, Candy acaba por matar a mulher do amante, esfanqueando-a 41 vezes. Eu não sabia nada disto quando vi a série e acho que o facto de não saber o que ia acontecer e se ela iria ser ou não apanhada tornou tudo mais entusiasmante. Elizabeth Olsen e Jesse Plemons são os actores principais.
Não digas nada - é mais uma daquelas que apanhei por acaso na Disney Plus e comecei a ver sem saber nada do que aí vinha. A ação passa-se em Belfast, na Irlanda do Norte, sobretudo nos anos 70, e também é baseada nas vidas reais das irmãs Price e outros membros do IRA. É um tema fascinante. Tentar perceber aquelas vidas e a quela guerra, o que pode levar as pessoas a tornarem-se terroristas. Claro que depois fui à procura das histórias e das caras verdadeiras. Pareceu-me que a série é um pouco parcial, mas não tenho assim tantos conhecimentos para avaliar. Seja como for, também gostei.
Quatro estações - esta já não foi surpresa, porque já tinha lido sobre ela e porque tem Tina Fey (também co-criadora), Steve Carrell e Colman Domingo. É uma comédia, mas uma comédia-dramática, como agora se diz. Há um artigo na Vulture com o título "The Four Seasons is probably not your thing", que se refere ao facto de esta ser uma comédia com e para pessoas que estão nos 50s. Começa assim:
"The Netflix comedy The Four Seasons stars (mostly) actors who are in their 50s, playing characters who are in their 50s, in a show whose target demographic is (I assume) people in their 50s. Perhaps that explains why this series’s greatest strength is its deep understanding of how it feels to be a person — admittedly with some privilege and a generous serving of self-absorption — in the deepest throes of midlife, staring down a future filled with empty nests, potential health issues, and the nagging fear that all chances for happiness are way past their expiration dates."
Fiquei a pensar que, provavelmente, a Vulture "is not my thing anymore" (mas isso é toda uma outra reflexão), porque gostei bastante desta série que anda à volta de três casais amigos, com as suas crises de meia idade, casamentos complicados, filhos crescidos, sonhos por cumprir e muito companheirismo. É para rir, mas, ainda assim, faz-nos pensar um bocadinho (e a banda sonora é muito boa).

O que fariam se soubessem que vão morrer em breve?
Molly quer fazer sexo. Quer fazer sexo sem culpa, sem tabus, sem restrições. E gostaria também de ter um orgasmo fazendo sexo com outra pessoa, algo que nunca conseguiu.
De alguma forma a série Dying for Sex está ligada ao livro da Miranda July de que falei aqui, só que em vez de uma mulher perante a constatação de que está a envelhecer temos uma mulher, um pouco mais nova, com o diagnóstico de um cancro terminal. Em ambas a mesma necessidade, a mesma urgência, de viverem como bem lhes apetece este tempo tão curto que têm pela frente. E isso inclui não continuar numa relação que não as faz feliz e explorarem os seus desejos sexuais, que até aqui estavam aprisionados.
Molly, interpretada por Michelle Williams, tem outros traumas para resolver, incluindo o facto de ter sido abusada sexualmente quando era criança e de ter uma relação complicada com a mãe. E tem uma grande amiga, Nikki, que muda toda a sua vida para a acompanhar nesta fase (e esta é também uma série sobre a amizade e a dor de perder alguém que nos é muito querido).
A série baseia-se na história verdadeira de Molly Kochan, uma americana de Los Angeles que, depois de quatro anos antes ter tratado um cancro, em 2015, quando tinha 41 anos, foi diagnosticada com cancro da mama em estádio 4. Nessa altura, decidiu embarcar numa aventura de descoberta sexual e contar tudo num podcast em que conversava com a sua melhor amiga, Nikki Boyer. “O sexo faz-me sentir viva - e é uma óptima distracção da doença”, disse. O podcast só foi lançado depois da sua morte, em 2019. Molly também contou a sua história no livro de memórias, Screw Cancer: Becoming Whole, que foi lançado em 2020.
Acho que nunca tinha visto uma série que retratasse de forma tão pormenorizada a vida com cancro e o caminho para a morte. Apesar do humor e de todo o sexo, senti-me muito angustiada, sobretudo nos últimos episódios. Se, por um lado, é incrível que já se consiga falar destes temas e fazê-lo assim, com esta personagem tão luminosa e especial, por outro lado, não consegui deixar de me sentir extremamente triste e de pensar em todas as pessoas que eu conheço que passaram por situações semelhantes. O que terão pensado? O que terão sentido? Sentiram-se sozinhas? Será que fizemos tudo o que era possível por elas?


Gostei muito de To the End, o documentário sobre os Blur que está no Filmin. Para mim, que ouvia os Blur no início dos anos 90, sobretudo o Modern Life is Rubbish e depois o Parklife e The Great Escape, foi uma viagem e tanto. Continuei a ouvi-los e, mesmo não lhes dando a mesma atenção, nunca me desiludiram. Só os vi duas vezes em concerto e foram ambas incríveis. Em 2015 no Super Bock Super Rock no Parque das Nações e depois em 2023 no Festival Kalorama no Parque da Bela Vista. O filme centra-se nesta última fase da carreira e no concerto de consagração em Wembley, mas vai recuperando algumas imagens antigas, para contar a história, para mostrar como foi e como é. Eles estão mais velhos, claro, com rugas, com barriga, a voz do Damon já não é tão limpa, às vezes estão cansados, já lhes custa ficarem acordados até às tantas, mas no essencial estão na mesma. Continuam a ser um grupo de miúdos que se junta para tocar e que tem prazer nisso. Vê-los agora, a falar dos filhos, das casas no campo, das dores nos corpos, é incrível. Envelhecemos todos, obviamente. Envelhecemos juntos. E isso é bastante comovente.
Um livro
É engraçado quando vamos lendo livros de um autor e vamos percebendo qual é o seu universo, os temas de que gosta, o espaço onde se movimentam as suas personagens. No seu mais recente livro, Toda a Gente Tem um Plano, Bruno Vieira do Amaral continua a sua investida pelos bairros mais pobres da margem Sul para nos mostrar aqueles que tantas vezes parecem invisíveis. Continua, por exemplo, entre gente que veio de África (ou do Brasil) e gente que procura conforto em deus. Gosto muito da maneira como o autor construiu esta história, evitando a linearidade, fazendo-nos ir lá atrás no tempo, uma vez e outra vez, para conhecermos melhor este Calita e as curvas da sua vida. Também gosto muito do cuidado que põe na criação das personagens e dos contextos, quase como se nos transportasse para aqueles locais, como se aquelas pessoas fossem de carne e osso e nos pudéssemos ter cruzado com elas em algum momento. Gosto de me apegar às personagens, de compreender as suas fraquezas, de ficar a torcer por elas. De sofrer com elas quando elas sofrem.
Um filme
Já o vi há algum tempo, mas, depois, com o barulho dos Óscares e a crise política que nos caiu em cima, acabei por não ter tempo de vir aqui escrever sobre O Atentado de 5 de Setembro. O filme acompanha o atentado terrorista ocorrido nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, mas do ponto de vista dos jornalistas do canal americano CBS, que estavam na torre do satélite, a uma centenas de metros da aldeia olímpica. Admito que será um filme que talvez toque mais os jornalistas. E ainda mais os jornalistas que estejam ligados à televisão. Afinal, aquela foi não só a primeira vez que os jogos olimpicos foram transmitidos em directo, mas também a primeira vez que um atentado terrorista foi transmitido em directo pela televisão - com todas as questões que isso levanta. Mas acho que pode ser interessante para toda a gente. Posso dizer-vos que, mesmo sabendo como aquilo ia acabar, o filme conseguiu envolver-me completamente e até deixar-me nervosa.
Uma série
Adolescência é mesmo imperdível. O nome diz tudo: é uma minissérie sobre a adolescência, nos seus muitos aspectos. A pressão a que os jovens estão sujeitos, por parte dos outros jovens, agravada pelas redes sociais. A influência que alguns gurus e ideologias podem ter sobre os jovens. A relação com os pais. A escola. O desespero dos professores. A falta de perspectivas. A falta de empatia. A linguagem. Os telemóveis sempre na mão. As portas dos quartos fechadas. A impotência dos pais. A culpa. Está lá tudo, mas ao mesmo tempo é uma série muito diferente de todas as outras séries que já vimos sobre adolescentes. São quatro episódios muito bem feitos, muito bem realizados, muito bem interpretados. O primeiro episódio tem imensa tensão. O episódio da escola é bastante perturbador. O último é o mais tocante (pelo menos, para mim). Fez-me pensar tanto. Não quero estar a contar muito. Está na Netflix. Vejam que não se vão arrepender.
Como prometido, e antes que me esqueça, venho aqui falar de alguns filmes que andei a ver e que poderão não ser os melhores nem estar indicados a prémios, mas, ainda assim, são filmes que me tocaram de alguma maneira.
Challengers
Realizado por Luca Guadagnini, Challengers acompanha o triângulo amoroso composto por uma estrela do ténis lesionada que se transforma em treinadora (Zendaya), o seu ex-namorado e jogador de ténis sem grande sucesso (Josh O'Connor) e o seu marido e campeão de ténis (Mike Faist) ao longo de 13 anos de relacionamento, culminando numa partida entre eles num jogo do ATP Challenger Tour. Para quem gosta de ténis, como eu, este filme é uma delícia, retratando muito bem vários aspectos da vida dos jogadores e todo aquele mundo (aconselho a leitura deste testemunho de Conor Niland e, sobre o filme, o texto de uma ex-jogadora, Andrea Petkovic). Depois, isto do triângulo amoroso pode não ser muito original, mas parece-me que o Guadagnini lhe dá bem a volta.

How to have sex
Vi no Filmim, entusiasmada pelo trailer, e foi uma boa surpresa. O filme é a estreia na realização da britânica Molly Manning Walker, de 31 anos. Acho que se sente, nos pequenos detalhes, que é realizado por uma mulher. Em vez do habitual male gaze, temos um olhar bastante honesto e sensível sobre este grupo de raparigas de 16 anos numa viagem a Creta. O ambiente é aquele que imagino que seja nas viagens de finalistas, com miúdos vindos do Reino Unido com o único objectivo de se divertirem, beberem, dançarem e curtirem uns com os outros (que é uma expressão que se usava muito no meu tempo, embora agora tenha caído em desuso). Eventualmente, ter sexo, claro. Podia ser um filme sobre a primeira vez. Mas é sobretudo sobre a peer pressure a que os adolescentes estão sujeitos, sobretudo as raparigas, presas naquela vontade de agradar aos homens e de ser desejadas, e de como por causa disso tantas vezes ignoram os seus próprios desejos. Muito boa a interpretação de Mia McKenna-Bruce.

Lee
A história de Lee Miller, só por si, já é um filme. Foi uma fotógrafa americana que começou por trabalhar como modelo, o que a levou a trabalhar com Man Ray, em Paris, e a começar também a fotografar. Durante a Segunda Guerra Mundial, passou do surrealismo e dos retratos para o fotojornalismo, documentou os bombardeamentos em Londres e depois acompanhou o exército americano na Europa. Esteve na casa de Hitler, captou o uso de napalm e registou a libertação de Paris e os campos de concentração de Buchenwald e Dachaus. Realizado por Ellen Kuras e protagonizado por Kate Winslet, Lee não tem nada de extraordinário, mas também não é um mau filme.

As Três Filhas
As Três Filhas é um filme especialmente tocante para quem tem esta idade que eu tenho e vê os seus pais a envelhecer. É a história de três irmãs que seguiram percursos muito diferentes mas que tentam pôr de parte as suas desavenças para cuidar do pai nos seus últimos dias de vida. É muito sobre aquele balanço que fazemos em determinadas alturas da vida do que fizemos e deixámos de fazer, as decisões que tomámos e os sonhos que deixámos para trás. E como eventualmente percebemos que o amor e aquilo que partilhamos com as pessoas que amamos é mesmo o mais importante. Realizado por Azazel Jacobs, o filme conta com óptimas interpretações de Carrie Coon, Natasha Lyonne e Elizabeth Olse. Está na Netflix.

Janet Planet
Janet Planet é o primeiro filme realizado pela dramaturga Annie Baker. Janet (Julianne Nicholson) é uma mãe solteira e acumpucturista hippie, que vive com a filha de 11 anos, Lucy (Zoe Ziegler), numa pequena cidade americana. A acção passa-se no início dos anos 90. Ainda não há telemóveis. Lucy, que não tem muitos amigos, arranja maneira de escapar ao campo de férias e passa os longos dias do verão sozinha, ou com a mãe e com os amigos da mãe, que vão aparecendo por ali. Estamos tanto no mundo de Janet, uma mulher que quer mais para a sua vida, como estamos no mundo daquela miúda solitária, Lucy, a braços com as confusas emoções da adolescência. Janet Planet é também sobre mães e filhas e sobre esta relação essencial mas tão complicada. Um filme aparentemente simples e onde pouco acontece, e é em parte nisso que está a sua beleza.


Devorei a série espanhola Los Años Nuevos. São dez episódios que acompanham a vida de Ana e Óscar ao longo de dez anos. Encontramo-los sempre na passagem de ano, um dia apenas. O resto, o que se passa entretanto, só podemos imaginar. Apaixonam-se no primeiro episódio, mas a relação vai mudando. Umas vezes estão juntos e são namorados, outras vezes são apenas amigos, encontram-se por acaso ou até podem estar separados. Ao longo de dez anos, vemo-los amadurecer, envelhecer, transformar-se. Aproximam-se e afastam-se, desejam-se ao longe ou ao perto.
Um dos segredos desta série é o seu enorme realismo. O autor é Rodrigo Sorogoyen, argumentista e realizador de cinema e televisão, vencedor de prémios Goya, nomeado a um Óscar com uma curta-metragem, Madre (2017). Os actores são todos óptimos, mas o destaque vai obviamente para os protagonistas Irina del Río e Francesco Carril. Os diálogos são muito naturais e o facto de as cenas terem sido filmadas em locais reais também ajuda. O resultado é que às vezes até me esquecia que estava a ver uma série, mais parecia que aquelas pessoas eram minhas amigas. É tudo muito a vida como ela é. Com casas desarrumadas, nódoas na roupa, gestos banais, as dúvidas e as máscaras de uma pandemia, o sexo no sofá. E o tempo que passa. Os pais que envelhecem, os amigos que têm filhos, os casamentos e os divórcios, os trabalhos, as carreiras, as frustrações e as alegrias. Erros e acertos, beijos e abraços, desentendimentos e discussões, problemas e desilusões que podiam ser os nossos (e tanto que poderia dizer sobre isto).
Vi em espanhol com legendas em espanhol, ao início achei que não ia perceber nada mas depois entrei no ritmo dos diálogos e acho que percebi quase tudo.
Se quiserem ouvir músicas lamechas espanholas de que nunca gostaram mas que em determinado momento da vida até fazem sentido, podem fazer como eu e cuscar a banda sonora.
Se assinarem o Movistar Plus para ver a série, aproveitem também para ver o filme Volveréis, de Jonás Trueba, que é muito o mesmo género e se cruza, a determinada altura, com Los Años Nuevos - é só uma curiosidade, mas fica a dica.
Vou fazer 50 anos. Nunca me apetece festejar e este ano não é excepção, por mim fingíamos que este dia nem se quer existia e dispensavam-se os telefonemas e as mensagens e tudo, mas, pronto, se calhar, desta vez, vai ter que ser, não é?, afinal, são 50, caramba, vamos mesmo ter que inventar alguma coisa.
Estou a fazer pilates clínico com uma instrutora muito querida que bate palminhas e diz "muito bem" sempre que eu consigo apertar as nádegas, os glúteos e os abdominais ao mesmo tempo e fazer todas as repetições. O estúdio parece uma sala de tortura cheia de máquinas esquisitas e, para já, só lá vi pessoas mais velhas do que eu. Não adoro, mas estou a esforçar-me. Porque é importante para a recuperação. Ando toda dorida o que só pode significar que estou a mexer músculos que estavam há muito adormecidos. Mas a parte melhor é quando, no fim da aula, ela me pendura pelos pés e me deixa a relaxar. Sou muito boa a relaxar. É bom que isto sirva para alguma coisa, uma vez que é caríssimo. Tenho orçamento para dois meses (três, na loucura), antes de voltar ao pilates dos pobres no ginásio.
O trabalho também tem sido uma tortura. Há dias em que me apetece desistir de tudo (depois lembro-me que tenho contas para pagar). A única coisa boa dos últimos tempos foi ler o livro da Sally Rooney e escrever sobre ele. Nunca tinha lido nada dela e gostei mais do que estava à espera.
Antes de me abalançar na última temporada da série A Amiga Genial, decidi rever as três temporadas anteriores. Voltei a gostar como da primeira vez. E gostei ainda mais de "passear" por Nápoles, agora que já conheço a cidade.
Foi há quase um ano que fui a Nápoles. Tem sido um ano bom. Muito bom, mesmo. Apesar de tudo. Um dia vou escrever sobre isto. Gostaria de um dia escrever sobre isto no presente, e não no passado como normalmente acontece. Dizer "gostaria de um dia escrever sobre isto no presente" é já dizer tanto.
Na outra noite fui ver o Samuel Úria. Foi uma noite tão feliz. Já não me lembrava como gosto dele e daquelas canções.
Hoje comi uma romã e, como sempre, lembrei-me da minha avó. Outubro é também o mês dela. É o nosso mês. Das que cá estão e das que já não estão.

(Peço desculpa se não perceberam este post. Às vezes sou um bocadinho egoísta e escrevo só para mim. Outubro ainda vai a meio. Tenho tanta coisa para fazer até aos 50, a agenda cheia, nem vou ter tempo de me angustiar. Digo eu.)