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Já vi tudo. A terceira temporada de After Life toda de seguida, numa manhã nublada de sábado em que tinha tantas outras coisas mais importantes para fazer. O trabalho pode esperar, a roupa por passar pode esperar e se hoje não sair de casa nem fizer exercício nem fôr comprar pão também não há de ser grave. Comecei com vou só ver um bocadinho e acabei por ver os episódios todos ali entre o riso e a lágrima, uma gargalhada de vez em quando, uma ternura constante, um sentimento enorme de empatia e, depois, no último episódio, não deu mais para conter e foi choradeira do princípio ao fim.

Sobre as duas temporadas anterior escrevi AQUI e AQUI. Não há muito mais que possa dizer. Só que é muito bom.

E, já agora, se estiverem em mood lamechas, podem ir ouvir a playlist oficial.

publicado às 15:40

30
Nov21

Tudo passa

Estou a ver o documentário dos Beatles. Como tenho pouco tempo ainda só vi o primeiro episódio. Acredito que para quem não é grande fã aquilo seja extremamente aborrecido mas para mim está a ser só delicioso. Estou a desfrutar de todos os detalhes. E a redescobrir músicas que já não ouvia há muito tempo. Como esta. Que maravilha.
 

"Sunrise doesn't last all morning
A cloudburst doesn't last all day
Seems my love is up
And has left you with no warning
But it's not always going to be this grey
 
All things must pass
All things must pass away
 
Sunset doesn't last all evening
A mind can blow those clouds away
After all this my love is up
And must be leaving
It has not always been this grey
 
All things must pass
All things must pass away
 
All things must pass
None of life's strings can last
So I must be on my way
And face another day
 
Now the darkness only stays at nighttime
In the morning it will fade away
Daylight is good
At arriving at the right time
It's not always going to be this grey
 
All things must pass
All things must pass away
All things must pass
All things must pass away"
 
(All Things Must Pass, de George Harrison)

publicado às 13:51

18
Nov21

Casamentos

Scenes from a Marriage, a série da HBO com Jessica Chastain e Oscar Isaac, não é, ao contrário do que o título indica, sobre um casamento mas sim sobre um divórcio. Algo que também acontecia, aliás, com Marriage Story. Acho isto curioso.

Gostava de ter gostado mais destas cenas de um casamento. Os actores estão óptimos - e são lindos, os dois - e é tudo muito bem feito, os cenários, os diálogos, a realização claustrofóbica. O primeiro episódio até começa bem. Sentimos perfeitamente que aquela relação tem problemas embora todos digam que são felizes. Mas, depois, não sei, fui-me desligando daquelas personagens demasiado confusas, sem saberem bem o que querem, incongruentes até. Deve ser um problema meu que já estou numa fase da minha vida em que não tenho grande paciência para dramas (acho que nunca tive, mas agora tenho ainda menos, suponho). Comecei a enervar-me com as personagens que ora sim, ora não, ora nim. O quarto episódio, então, foi um martírio. E no quinto já estava mais do que aborrecida a desejar que aquilo acabasse.

(Também dispensava perfeitamente as cenas no backstage, não percebi qual era o objectivo, acho que não sou suficientemente intelectual para alcançar.)

publicado às 18:59

04
Nov21

"A Criada"

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Se não viram ainda, vejam Maid - A Criada, na Netflix. Sobre violência doméstica, mas não só. Sobre repetição de padrões familiares. Sobre abuso emocional, controlo e medo. Sobre a importância de cada pessoa ter a sua independência financeira para poder ser livre. Sobre a dificuldade de sair. A dificuldade de pedir ajuda. A dificuldade de encontrar ajuda. Os entraves burocráticos. Os passos atrás. Sobre o que se faz pelos filhos. Sobre pais e mães. Sobre desigualdade de género. Sobre mulheres. Sobre deixar tudo. E ter coragem. E mudar de vida. E sonhar.

É lamechas, pois é. Preparem os lencinhos.

publicado às 13:43

Ando um pouco assoberbada de trabalho e de vida (o que é bom) e não consegui escrever sobre duas séries que vi há já uns tempos, tão diferentes e, ao mesmo tempo, ambas a fazerem-me pensar muito nisto que é ser mulher em 2020 e troca o passo, no que é envelhecer, no que queremos fazer e aproveitar nesta vida que é, vai-se a ver, tão curta. O outono dá-me para andar mais reflectiva, não se admirem.

Continuo nas histórias de mulheres, como se vê.

Não tenho tempo para elaborar muito, mas ficam, ainda assim, as sugestões. 

I may destroy you (na HBO), da fabulosa Michaela Coel, fala sobre violação e trauma, sobre consentimento e sobre o machismo que perdura, mesmo quando achamos que já não. A acção passa-se em Londres, entre um grupo de pessoas de vintes e trintas, alguns hipsters, outros nem por isso. Gente criativa, que faz yoga e frequenta workshops de pintura mas na verdade tem pouco dinheiro. Gente que anda à procura de si mesma. Em luta pelo seu espaço. A querer fazer-se ouvir.

On the Verge (na Netflix), de Julie Delpy (sim, a atriz do Antes do Amanhecer e etc.), apresenta-nos um grupo de amiga quarentonas, com filhos e relações, umas mais felizes, outras mais destruídas. Classe mais alta que média, que vive junto à praia, nos Estados Unidos, mas com os problemas típicos das mulheres que parece que tiveram tudo e no entanto sentem a vida a fugir-lhes por entre os dedos. A crise da meia-idade em tom de comédia, com a ajuda de Elisabeth Shue e a breve aparição de Patrick Duffy (e saber quem é o Patrick Duffy sem precisar de ir ao Google é sinal de que se tem a idade certa para ver esta série).

publicado às 17:28

Então, Maria João, já viste a Casa de Papel? Nem por isso. Mas em compensação vi isto:

A Diretora

The Chair, no original, é uma das estreias recentes na Netflix. Sandra Oh (que para mim há de ser sempre a Cristina Yang da Anatomia de Grey) é a professora Ji-Yoon Kim, que acaba de assumir o cargo de diretora do departamento de literatura inglesa numa pequena universidade americana e se vê a braços com uma série de dificuldades, a começar pela falta de interesse dos alunos pela literatura (e aquilo que a universidade está disposta a fazer para "seduzir" mais alunos e mais financiadores), passando pelos professores mais velhos que não sabem como cativar os jovens e tecnológicos estudantes, e terminando com um professor que é filmado a fazer uma saudação nazi (ainda que irónica) numa aula. Isto, sem falar dos muitos dramas pessoais que por ali se cruzam. Há muita questões a ser levantadas, sobretudo no que toca ao elitismo e à falta de representatividade nos meios académicos e também ao chamado "politicamente correcto" (a que poderíamos chamar só "o correcto", não?), aos julgamentos nas redes sociais e à "cancel culture". No final fica uma certa desilusão, gostava que a série tivesse ido um pouco mais fundo na análise do caso, mas, vistas bem as coisas, isto é só um "comedy-drama" que se quer leve e até temos direito a David Duchovny (ele mesmo, o dos Ficheiros Secretos) a gozar consigo próprio, o que é muito bom.

Mrs. Fletcher

Uma mulher com quarenta e tal anos, divorciada, enfrenta a solidão depois de o filho sair de casa para ir para a universidade. Uma vez que já não tem que dar contas a ninguém, esta é a oportunidade para se descobrir e para concretizar algumas das suas fantasias. Kathryn Hahn é a protagonista desta minissérie que está na HBO. Não é nada do outro mundo (mesmo) mas fala de uma maneira divertida de alguns assuntos que ainda são mais ou menos tabu na sexualidade das mulheres (pornografia, masturbação, fantasias, sexo com outra mulheres, com rapazes mais jovens, com várias pessoas...). Às vezes parece tudo um bocadinho forçado, mas gosto muito da ideia: faz o que te apetecer que já não tens idade para estares com vergonhas e com merdas.

Alias Grace

A pessoa não resiste a uma série histórica, não é? Esta, baseada numa obra de Margaret Atwood (que aparece por breves segundos numa das cenas), conta-nos a história de Grace Marks, imigrante irlandesa no Canadá do século XIX, condenada por homicídio tendo já passado por hospícios e prisões com diferentes graus de tortura. Desafiada a contar a história da sua vida a um psicólogo americano, que irá tentar perceber se ela é de facto culpada ou inocente ou apenas louca, a impassível Grace (interpretação de Sarah Gadon) mergulha nas memórias e cria uma narrativa de si mesma sem que seja possível distinguir onde está a verdade e onde está a mentira (e não faremos todos um bocadinho isso?).

publicado às 08:12

No meu perfil do Tinder (nas fases, raras, em que tenho o perfil do Tinder activo), em vez de uma auto-descrição tenho um excerto de uma canção do Chico, que está identificado como autor assim mesmo, (Chico), entre parêntesis. Vamos deixar para lá o porquê de eu não saber auto-descrever-me e vamos concentrar-nos nisto: um dia, um tal de Pedro, que até tinha bom ar e uma auto-descrição catita, mandou-me uma mensagem em que tentava meter conversa: "olá, quem é o Chico?". Fui incapaz de lhe responder. Dir-me-ão que é um pouco de soberba da minha parte. De preconceito, até. Será. Mas é o que temos. Não lhe exigiria que conhecesse a música, que até nem é das mais óbvias (se bem que pode consultar o amigo google e fazer boa figura, não é?, sempre mostra um esforço), mas não saber quem é o Chico é too much. Não consigo lidar.

Lembrei-me desta história porque estive a ver o documentário sobre Chico Buarque que está na Netflix e pensei que é incrível como mesmo sendo um documentário fraquinho, sem qualquer rasgo e até com alguns defeitozitos técnicos que me parecem inadmissíveis, até mesmo com aquelas versões absolutamente dispensáveis interpretadas por outros cantores, é impossível não nos deliciarmos a ver um documentário com o Chico. Ele é lindo, novo ou velho, a cores ou a preto e branco, e até de bigode, o que é difícil. E é um encanto ouvi-lo, contar aquelas histórias, rir-se de si mesmo, mostrar uma humildade desarmante, perceber-lhe as ideias, invejar-lhe a liberdade. Isto sem falar das canções, claro.

Esta, por exemplo, que eu já não ouvia há tanto tempo e é extraordinário como continuo a sabê-la de cor e a emocionar-me com cada palavra, como quando a ouvi pela primeira vez, era ainda uma adolescente e chorava sozinha, às escuras na sala, com os discos de vinil do meu pai.

Conclusão da história: o Chico Buarque faz-nos bem, quem o ouve é mais feliz, e até pode valer um engate, por isso, homens deste mundo, vão lá ouvir o Chico e, por favor, evitem dizer coisas como "eu também gosto muito de música, gosto do João Pedro Pais, conheces?" (true story, juro).

E ainda, só por curiosidade: aos 77 anos, Chico Buarque vai casar-se com Carol Proner, de 47. Acho lindo. E, depois, não digam que não acreditam em histórias de amor.

publicado às 20:59

Andamos sempre a trocar ideias sobre séries. O que tens visto? Aconselham alguma coisa? Ah, tenho mesmo que ver essa. Mas, depois, não. Na maior parte das vezes, ou me esqueço de tudo o que me foi aconselhado (é o mais comum) ou então descubro que não me apetece ver nada daquilo e acabo a ver outra coisa qualquer, daquelas de que mais ninguém gosta, muito provavelmente documentários. Portanto, nestes dias de férias em casa, acabei a ver, entre outras coisas, estas de que gostei muito:

Leonard and Marianne: Words of Love, sobre a história de amor entre o músico Leonard Cohen e a norueguesa Marianne, que começou na ilha grega de Hydra quando Cohen era ainda um escritor falhado, antes de se tornar um músico conhecido.

Five Came Back sobre os cinco realizadores norte-americanos que, durante a Segunda Guerra Mundial, se juntaram ao exército para fazer filmes de propaganda: John Ford, Frank Capra, William Wyler, George Stevens e John Houston. É muito interessante perceber como os filmes foram feitos, quais os objetivos políticos e estratégicos e o modo como cada realizador lidou com a situação e como a guerra acabaria por influenciar o seu trabalho futuro. Fiquei com imensa vontade de ver ou rever todos os filmes destes homens - com todos os seus anacronismos, patriotismo, machismo, moralismo, excesso de americanismo e todas essas coisas que hoje nos parecem insuportáveis mas que são, por isso mesmo, um excelente retrato do seu tempo.

Circus of Books conta a história de um banal casal de norte-americanos que acabam por se tornar donos de uma conhecida loja de artigos de pornografia gay em Los Angeles. O filme é realizado por uma das filhas e tem pormenores bastante curiosos, como o facto de a mãe ser judia e muito religiosa e de, durante muito tempo, eles terem escondido o seu negócio de todos os familiares e amigos.

publicado às 11:31

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Aquilo que vemos depende muito mais do que somos do que do que está efectivamente à nossa frente. Em Mare of Easttown, a fabulosa série da HBO protagonizada por Kate Winslet, eu vi mães, mulheres mas sobretudo mulheres-mães. A começar por Mare, a mãe que não conseguiu salvar o seu filho; passando por Helen, que é uma avó a recuperar o tempo perdido; por Carrie, a mãe que não o consegue ser; por Lori, a mãe que quer proteger o seu filho; até mesmo por Dawn, a mãe que procura desesperadamente a sua filha. E todas elas corroídas pelo sentimento de culpa, aquele sentimento de culpa que todas as mães conhecem tão bem, como se fosse sempre nossa responsabilidade, como se estivesse sempre ao nosso alcance garantir a felicidade dos nossos filhos, como se os erros deles fossem sempre, e antes de mais, erros nossos.

Depois há o resto. Mare of Easttown tem muitas camadas. Esta é também uma história sobre homens - e sobre pais. Sobre filhos e irmãos e os laços de solidariedade que existem nas famílias. Sobre jovens à procura de um caminho. Sobre a amizade. Sobre o certo e o errado. Sobre admitirmos os nossos erros. Sobre julgar os outros. Sobre aquilo que não controlamos. Mas, para mim, é sobretudo isto. Mães. Isto e uma mulher de quarenta e tal anos, sozinha, triste, cheia de falhas mas essencialmente comprometida com uma ideia de bem. 

Devorei os sete episódios de Mare of Easttown num dia de folga, o último dia de folga antes de mais uma empreitada de trabalho. Gostava de ter tempo para, daqui a uns tempos, voltar a vê-la, reparar nos pormenores, ver o que desta vez me passou ao lado. Sim, gostei assim tanto.

PS - E, já agora, aquele era mesmo o Guy Pearce com 53 anos? 

publicado às 08:08

Devorei a terceira temporada de Shtisel, na Netflix. Ao princípio, confesso, estava um bocado céptica. Se calhar deveriam ter ficado por duas temporadas, se calhar já não vai ser tão bom, pensei. Mas não. Se nos primeiros episódios fiquei fascinada com aquele mundo dos judeus ortodoxos, tão diferente do nosso -  todas as regras, os preceitos religiosos,  as mil pequenas coisas, das roupas à comida, da língua às casas e aos sacos plásticos que eles carregam de um lado para o outro - desta vez, já nada me pareceu estranho. A verdade é que as pessoas, independentemente do sítio onde vivam e da religião que tenham, são todas muito parecidas. Todas anseiam pela felicidade e todas procuram o amor. Todos temos dificuldade em dizer adeus, seja a uma pessoa que morre ou a alguém que parte. Todos temos medo perante o desconhecido. Por isso é tão fácil identificarmo-nos com aquelas personagens. E sentirmo-nos tocados pela determinação de Ruchami, pela ingenuidade de Yosa'le, pela desorientação quase infantil de Akiva, pela força de Gitti (mesmo quando está errada), pela independência de Tovi, pela casmurrice de Shulem, pela insegurança de Racheli, pelas imperfeições de Lippe.

"Um caminho longo que é curto" é o título do sétimo episódio (talvez aquele de que gostei mais) e que tem como tema principal o coração - o real e o metafórico.

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publicado às 17:18


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