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Nas últimas duas semanas, por uma daquelas coincidências de agenda que não conseguimos controlar, fui atropelada por um camião de trabalho que me obrigou a dormir algumas noites fora de casa, noutras a chegar à cama muito tarde, a fazer muitos quilómetros para baixo e para cima, a deixar um pouco os miúdos por sua conta e a fechar os olhos ao caos que se instalava aqui em casa. Nada disto foi fácil, por diferentes motivos. Mas, apesar do cansaço, das dores nas costas e nos joelhos, da ansiedade, da tensão permanente nos ombros, do sono (muito sono) e da culpa (a culpa, sempre), há também aqui uma grande alegria. Porque nestas duas semanas tive oportunidade de fazer algumas das coisas de que mais gosto. Por um lado, a pretexto da campanha eleitoral, pude sair da redacção e andar por aí, descobrindo o país e falando com pessoas. Por outro lado, tive um convite maravilhoso da Patrícia Portela, diretora do Teatro Viriato, em Viseu, para moderar algumas conversas com artistas no NANT - Encontro de Dança Contemporânea. O único problema foi calhar acontecer tudo ao mesmo tempo.

Esta noite dormi pouco mais de três horas e estou podre como não me sentia há muito tempo, jogada no sofá praticamente sem me mexer. Mas, apesar de tudo, é bom quando, de vez em quando, o trabalho não é só um trabalho, é também algo que nos faz sentirmos vivos, que nos desafia e nos leva a arriscar por terrenos desconhecidos, quando nos permite ultrapassar medos (e se me espalho ao comprido e só digo parvoíces em frente daquelas pessoas todas?), quando chegamos ao fim e, mesmo quando temos capacidade de auto-crítica para percebemos onde errámos e onde poderíamos ter feito melhor, sentimos que o balanço até é positivo (e, que alívio, afinal, não nos espalhámos ao comprido). E no meio disto, reencontrei algumas pessoas de que gosto muito e conheci pessoas novas, muito fixes, que quero manter por perto.

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Na foto, na conversa com a fantástica Piny. Acho que aquele sorriso diz tudo. Não fui feita para o palco, isso é certo, mas talvez possa aprender a gostar disto em doses moderadas.

publicado às 19:11

Não sejamos injustos. Houve coisas boas em 2021.

Novos trabalhos, novos desafios.

Voltei a fazer yoga. Sou péssima mas estou a esforçar-me.

A viagem a Paris.

Os bons momentos com os meus putos.

Caminhar, voltar aos transportes públicos, andar a pé sempre que possível.

Voltei à terapia. Também sou péssima nisto mas estou a esforçar-me.

Os meus amigos (vocês sabem quem são). Não estive com eles tanto quanto gostaria mas aproveitei todas as oportunidades para encontrá-los, abraçá-los e mostrar-lhes o quanto são importantes para mim.

Fiz uma amiga nova ("e coisa mais preciosa no mundo não há").

Os espectáculos que vi, os filmes e as séries, os livros (poucos mas bons), as músicas que descobri e todas as outras coisas boas da vida.

A família reunida e feliz no dia do meu aniversário.

Os sonhos do natal.

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Para 2022 só queria isto tudo mas mais. 

publicado às 13:31

22
Nov21

Breaking news

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Daqui a pouco estreia a CNN Portugal. Televisão e site.

Que alegria poder fazer parte desta aventura.

publicado às 07:56

Há um ano fui despedida.

Há um ano, houve um despedimento colectivo na Global Media. Em mais uma das suas reformulações, o Diário de Notícias decidiu extinguir a secção de Cultura e despedir os jornalistas que ainda lá restavam. Foi o terceiro despedimento colectivo a que assisti nos mais de vinte anos que ali passei - o primeiro em 2009 e o segundo em 2014 - por isso já sabia bem como estas coisas eram, já sabia das justificações atabalhoadas que nos dão, da hipocrisia dos directores que fingem que não é nada com eles, das injustiças que são cometidas nestes processos e da habitual falta de consideração da casa por quem ali trabalha. Não fiquei surpreendida nem magoada nem nada. Recebi o telefonema do director quando estava a meio de um trabalho. Terminei as entrevistas que estava a fazer, depois decidi andar a pé até casa e pelo caminho liguei para um advogado amigo e para os meus pais e fui fazer o jantar. Em momentos de crise, sou a pessoa mais racional do mundo. Avalio a situação, percebo quais são os próximos passos a dar e sigo. É sorrir e acenar, como diziam os pinguins.

A decadência do jornal era óbvia há muito tempo (e continua) e também há muito tempo que eu me sentia insatisfeita ali. Consegui sempre, e isso tenho que reconhecer, encontrar momentos de felicidade no meu trabalho, porque eu sou geralmente feliz quando saio da redacção para falar com pessoas e contar as suas histórias. Mas a verdade é que essas ocasiões eram cada vez mais rarasNos últimos anos sentia-me a sufocar. A mirrar. Varias vezes pensei em sair. Tive esta conversa com alguns amigos, todos me aconselharam a ir embora, a "mudar enquanto é tempo". Mas faltava-me a coragem. Acomodei-me. Porque é do meu feitio, por medo da mudança, mas também por ter noção das dificuldades desse passo, sobretudo quando se é divorciada e com dois filhos, deixei-me ficar. 

Apesar disto tudo, não posso dizer que seja fácil ser despedida. Não é.

É, antes de mais, uma machadada no nosso ego. É impossível não sentir uma certa humilhação ao sabermos que somos dispensáveis. Descartáveis. Uma coisa é nós querermos sair, outra coisa é não nos quererem. Não vale a pena dourar a pílula: esta parte é mesmo difícil de engolir. 

E é também uma machadada na nossa estabilidade. A estabilidade financeira, sim, e a estabilidade da vida em geral. Porque toda a nossa vida é organizada em função do trabalho, daquelas tarefas, daquelas rotinas. Sobretudo quando se trabalha muito tempo no mesmo sítio. A nossa identidade parece irremediavelmente ligada àquela frase com que nos apresentamos há mais de vinte anos: "Maria João Caetano, do Diário de Notícias". E, de repente, fica um vazio. É um pouco assustador, admito.

Felizmente, não tive muito tempo para me apoquentar. Ainda nem tinha assinado os papéis da rescisão e já tinha novos trabalhos no horizonte.

Passou um ano. 

Correu tudo bem.

É verdade o que dizem, quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. E eu tenho espreitado por várias janelas, algumas delas com vistas bem bonitas.

Tenho um emprego bom e, para além disso, tenho feito alguns trabalhos que me dão muito prazer (por exemplo AQUI ou AQUI ou AQUI). Também faço coisas de que não gosto tanto, mas isso é a vida. Tenho encontrado pessoas que me desafiam e estimulam a ser melhor. Continuo a aprender coisas novas. Continuo a gostar de ser jornalista.

A verdade é que profissionalmente estou bastante mais feliz do que estava há um ano, e isso é uma surpresa para mim, confesso.

So far so good.

A parte boa de ir ao tapete é aprender a cair. E depois levantamo-nos, sacudimos o pó e estamos prontos para outra.

publicado às 08:22

Eu nem por isso.

O que é surpreendente. Sempre fui uma pessoa muito sociável, que gosta de conversar e partilhar com os outros, que gosta de conhecer toda a gente na redação e de saber "o que se passa". Por isso, nunca imaginei que pudesse realmente gostar de trabalhar em casa. Sozinha. E, sim, ao princípio, foi difícil, claro. Novas rotinas, novos desafios. E estarmos todos fechados em casa não é bom. Miúdos com aulas virtuais, proibição de sair, de estar com as nossas pessoas, de fazer o que quer que fosse. Não, assim não. Mas. À medida que a vida vai voltando ao que era, com os putos na escola, a possibilidade de ir jantar com os amigos, de ir ali tomar um café ao fim dia, de ir ao cinema... por que não? Se tudo o resto estiver de facto "normal", não será bom poder ficar em casa?

Será assim tão necessário estar "lá" se posso fazer o mesmo "aqui"?

Já andava a pensar nisto e a rabiscar este texto nos rascunhos quando li a opinião de Tracy Moore, no Washington Post. Identifiquei-me bastante. E fiquei aliviada: afinal não sou só eu.

Está tudo em pulgas para voltar ao escritório?

"Not me. I’ve been working remotely for more than a year, and though monitoring a fifth-grader’s virtual education has certainly tested my limits, it has granted me greater sanity and family connection than in my previous life. A part of me misses in-person brainstorming and camaraderie, but a larger part wonders: At what cost?"

Vamos por partes.

É verdade que mudei de emprego e que não conheço ninguém no meu sítio novo. Por mais que simpatize com os meus colegas nas conversas que temos no whatsapp, não dá para morrer de saudades de estar com eles porque nunca estive. Isso ajuda.

E, talvez porque já estou numa idade mais avançada, já não sinto essa necessidade de ter de conhecer toda a gente e de saber tudo o que se passa. De estar no centro do furacão. Já gosto mais do silêncio do que do barulho. Tenho cada vez mais prazer em ficar calada (não é de agora, é de há muito mais tempo).

Além disso, a perspectiva de passar dias inteiros com uma máscara na cara também não é lá muito animadora, há que reconhecer.

Mas, o mais importante, é de facto o ganho de tempo e de qualidade de vida. Não perder tempo em viagens, não ter sequer que tomar banho quando começo a trabalhar às 7.00 da manhã, não ter que vestir o soutien nem calçar sapatos nem ter o botão das calças da ganga a marcar-me a barriga o dia inteiro, poder ir a corrrer apanhar a roupa se começar a chover, aproveitar a hora do almoço para ver um bocadinho daquela série, desligar o computador à meia-noite e estar deitada na cama cinco minutos depois. O que há para não gostar?

E, depois, os putos. Olhem que eu nem me posso queixar muito porque (com grande esforço meu e até com perdas para a minha carreira) nunca deixei de estar com os meus filhos. Para mim, as prioridades sempre foram claras. Por isso, não posso dizer que tenha descoberto no confinamento como é bom estar com a minha família. Eu sempre estive com a minha família, sempre acompanhei os meus filhos. Mas isto que tenho agora é outra coisa e é, de facto, o ideal para esta fase em que eles estão, porque já são crescidos e bastante autónomos. Desejo-lhes um bom dia de manhã, vejo-os a entrar e a sair, digo até logo, pergunto onde vais. Podemos fazer as refeições juntos ou não, depende dos nossos horários, mas vou sempre estando por ali para os lembrar de comerem fruta, para comentar com eles as notícias, para saber por onde eles andam sem me intrometer muito. É perfeito. Depois disto, sei que me vai custar horrores sair de manhã e só voltar à tarde e não ter esta proximidade.

Mas o trabalho não corre melhor se estivermos todos juntos?

Há momentos em que sim, em que a proximidade ajuda, não há como negá-lo. Mas também há momentos em que é absolutamente indiferente. Afinal, nós conseguimos fazer isto à distância e correu tudo bem, não foi? E há ganhos também para o trabalho. Não há intermináveis reuniões em que se perde mais tempo a dizer piadas do que a tomar decisões. Não há tantas distracções nem idas ao café nem conversas paralelas. E há pessoas felizes. As pessoas felizes trabalham sempre melhor, acredito muito nisto, embora esta não seja uma opinião acarinhada pelos empregadores de uma maneira geral.

Estou a preparar-me mentalmente para o regresso. Vai acontecer. E não é que seja o fim do mundo, que não é. Não tarda nada vou estar outra vez no ritmo do vai e vem e da confusão e vai correr tudo bem, como sempre correu. E até me vou entusiasmar e tudo, estou certa.

Mas se eu pudesse escolher...

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publicado às 09:52

Des'ree, You Gotta Be

 

Liguei o computador às 11.00 da manhã para acompanhar mais uma sessão do clube de leitura Heróides e a Sara recebeu-nos com esta música. Tão bom. É engraçado como, tantas vezes, as músicas que ouvimos por acaso parecem falar para nós. 

Está quase a fazer um ano que a pandemia nos caiu em cima e acho que ainda não temos uma compreensão plena de como isto tudo nos mudou e mudou a nossa vida. Eu a trabalhar em casa. Os miúdos a terem aulas por zoom. Todos longe dos amigos. Um ano inteiro com os contactos sociais reduzidos ao mínimo. Nós três aqui fechados, uns dias a seguir aos outros, com a cabeça enfiada nos computadores, nos telefones, na televisão e na playstation. Tentar manter a sanidade. Tentar encontrar a felicidade nas coisas pequenas. E, no meio disto, um layoff, um despedimento e começar um novo trabalho. É muita coisa para assimilar e não, ainda não é tempo para escrever sobre esta parte (lá chegaremos, prometo).

Entretanto. No último mês, tenho trabalhado praticamente de manhã à noite. Entre o emprego novo -  com tanta coisa para aprender, aquela sensação de me sentir uma estagiária outra vez e de ter de provar a toda a gente (incluindo a mim mesma) que sou capaz -  e os projetos que entretanto aceitei porque eram irresistíveis e eu sou um bocadinho louca, não tenho tido tempo para muito mais. Nem livros, nem filmes, nem passeios, nem nada. A casa está meio caótica, os putos andam em roda livre e as amigas queixam-se da minha ausência nos grupos de whatsapp. Mas está quase. 

Agora que já se vê a luz de março ao fundo do túnel, quero dizer-vos isto: 

"Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers, they may cause you tears
Go ahead release your fears
Stand up and be counted
Don't be ashamed to cry

You gotta be
You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day

Herald what your mother said
Read the books your father read
Try to solve the puzzles in your own sweet time
Some may have more cash than you
Others take a different view
My, oh, my, yea, eh, ee

You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day

Time ask no questions, it goes on without you
Leaving you behind if you can't stand the pace
The world keeps on spinning
Can't stop it, if you tried to
This best part is danger staring you in the face

Remember
Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers, they may cause you tears
Go ahead release your fears
My oh my yea, ye, ee

You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day".

publicado às 15:05

"Não vou lamentar, o que passou, passou
Eu vou embora, o meu tempo acabou
Tenho muita coisa para descobrir
Eu sinto muito, mas tenho que ir
 
E vou pro mundo porque nada mais me prende aqui
É o final do show
E não fique magoado porque vou partir
É só o jeito que eu sou
 
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora porque eu vou me dar bem
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Sei que tá na hora e eu vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás
 
Não é por nada não, mas vou me divertir
Enquanto a vida assim permitir
Só vou procurar fazer amigos do bem
Se precisar, ajudar também
 
E agora, a liberdade e o horizonte
Só voce não sacou
Nova York, Ipanema ou Hong Kong
É nessa aí que eu tô
 
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora porque eu sei que vou me dar bem
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Sei que tá na hora e eu vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás
 
Livre eu me sinto, sublime
Gente, mais gente, o mar e o céu azul
 
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora e eu sei que vou me dar bem
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora e eu sei que vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás
Sempre em frente, nunca pra trás"
 
Changes, de David Bowie, na versão de Seu Jorge
 
 
* Enquanto houver estrada para andar (só que por outras palavras)

publicado às 22:03

Desde o dia em que recebi o telefonema do meu director a informar-me que iria ser despedida até hoje, dia em que levantei nos correios a carta que oficializa o meu despedimento, passaram-se exactamente dois meses. Foram dois meses estranhos. Ainda empregada mas sem trabalho. Quase desempregada mas sem poder procurar activamente uma nova ocupação. Os dias podem ser demasiado longos quando não temos um horário a cumprir. Mas a vida continua a ser demasiado curta. Por outro lado, quem tem filhos e uma casa para cuidar sabe que temos sempre muito com que nos entreter. Na verdade, quase poderíamos fazer só isto. Lavar o chão, passar a roupa, temperar a carne para o jantar. Mas eu não quero. Não quero ficar enredada nas compras e nos almoços. Odeio a sensação de estar a perder tempo. Não me quero deixar ficar. No entanto, para já, ainda não há muito que possa fazer. Não é fácil. 

O meu desafio nestes últimos meses tem passado por três frentes:

Organização. 

O pior que pode acontece quando temos tempo a mais é deixar tudo para amanhã e não fazer nada. É preciso manter algumas rotinas. Fazer sempre a cama, não acumular louça suja. Limpar a casa. Cozinhar refeições. Comer fruta. Beber água. Pagar as contas. Organizar os meus contactos. Mandar mails. Apagar mails. Fazer listas das coisas que tenho que fazer para não me esquecer delas (estou cada vez mais desmemoriada, tenho de fazer listas de tudo). Estabelecer pequenos objectivos. Ter uma agenda para 2021 (e a alegria de ter já alguns dias ocupados).

Cuidar do corpo.

Nunca fui muito boa nisto. Gosto de comer e gosto pouco de me mexer. Mas estou a tentar, juro. Esta semana estou em detox pós-natalício. Aproveito a ausência dos miúdos para fazer refeições diferentes. Obrigo-me a sair de casa. Caminho sempre que possível (quase todos os dias, mesmo com frio e com chuva). E inscrevi-me no "treino das mães" no clube de BTT do Pedro. Domingo de manhã, ao ar livre, com um grupo de mães divertidas e uma PT que puxa por nós e me obriga a mexer partes do corpo que têm estado adormecidas. Não é muito, eu sei, mas é melhor do que nada.

Ginasticar a mente.

A ordem é para fugir das redes sociais e do facilitismo do scrolldown. Não é fácil mas é necessário. Tenho tentado ser selectiva nos filmes e séries que vejo (e tenho visto muitos). Ir ao teatro. Ler, claro (nem sempre encontro o mood certo mas há que insistir). Escrever (aqui, mas não só). Continuar a aprender. Preciso muito disso. Fiz uma assinatura de um jornal para me manter actualizada. Já fiz um curso online (daqueles com direito a diploma e tudo), estou a acompanhar um seminário online só para ouvir pessoas interessantes e abrir a cabeça, e inscrevi-me num mini-curso mais sério para o início 2021. Ainda não consegui voltar à rotina matinal de me sentar ao computador e ir ver os "meus" sites mas lá chegarei.

E assim vamos. Caminhando no arame, lentamente, tentando manter o equilíbrio e não dar nenhum passo em falso. Não tarda nada chegamos ao outro lado, seja lá isso onde for.

Where is my mind?, Placebo com Franck Black.

publicado às 14:25

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O meu pai mandou-me esta foto em jeito de prenda de anos. Há 46 anos eu era assim, pequenina e tranquila ao colo da minha avó.

Agora já não sou pequenina. Mas estou tranquila. 

Este foi um fim-de-semana cheio de emoções. Um confinamento. Um despedimento. Um aniversário. E uma bela TPM. A tempestade perfeita. E, afinal, correu tudo bem. Pela primeira vez desde que me lembro não fiz nenhum bolo mas tive dois bolos deliciosos. E, de longe ou de perto, tive muitos abraços. Porque tenho amigos dos bons (os amigos salvam-me todos os dias, já o sabia, e posso sempre recorrer a um texto lamechas lido na adolescência e trazê-lo para aqui e está tudo certo). E, para terminar em grande, levei os meus filhos a ver todas as coisas maravilhosas e só o facto de termos ido e de eles terem gostado (principalmente o adolescente) foi maravilhoso. 

Nem de propósito, uma das músicas do espectáculo é esta, do Jorge Palma, que cantei em coro com o Ivo Canelas e as lágrimas a embaciarem-me os óculos. 

Acho que é mesmo a música perfeita para hoje.

"Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"

publicado às 12:51

Escrevi-o no primeiro dia: não estamos todos em casa. Para alguns poderem publicar no instagram fotografias dos almoços que encomendam na ubereats, felizes e contentes por estarem em casa, a beber um copo de vinho na varanda, a devorar séries na netflix, a falar com os amigos no zoom e a mandar bitaites #stayathome, há uma multidão de gente a trabalhar na agricultura, nas fábricas, na distribuição, nos mercados e supermercados, nos restaurantes, nos transportes, na recolha do lixo, nas limpezas, na segurança, na comunicação social, nos hospitais, nas farmácias, nos lares, na assistência social, na construção, na manutenção, nas funerárias, em muitos outras atividades. Não são meia dúzia, são milhares de pessoas. Que nos últimos 50 dias continuaram a fazer a sua vida normal, a  acordar às 5 da manhã, a esperar meia hora por um comboio, a andar em autocarros cheios de gente, a trabalhar imenso, provavelmente com dificuldades e preocupações acrescidas e - muitos deles - a ganharem muito mal. Também continuou a haver gente a viver na rua, em barracas, em sítios sem condições. Para todas essas pessoas não houve confinamento. 

Sim, a romantização da quarentena é um privilégio de classe. Não temos que nos martirizar por causa disso. Mas um bocadinho de consciência social não nos ficaria mal.

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Ilustração de Bruno Saggese.

publicado às 10:04


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