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Fui num instantinho a Madrid em trabalho. Foram pouco mais de 30 horas na cidade, que tentei rentabilizar ao máximo. Claro que tive de trabalhar: entrevistar a diretora da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporânea durante a tarde, ver o espectáculo Amaramália à noite, ficar no hotel a escrever o texto durante a manhã. Mas todo o resto do tempo foi para aproveitar.
O que fiz:
- Visitei a exposição Leica. Un siglo de fotografía 1925-2025, no Centro Cultural Fernán Gomes, com fotografias de Steve McCurry, Elliot Erwin, Sebastião Salgado, Alberto Korda e muitos outros. Muito fotojornalismo e muita street photography. Gostei bastante. A entrada é livre.
- Fui ao Museu Thyssen-Bornemisza porque queria ver a exposição que junta Picasso e Paul Klee (tenho esta ideia de que as obras de Picasso nunca são de mais na nossa vida), depois acabei por ver também a exposição Warhol, Pollock e outros espaços americanos (é muito desigual, tem coisas muito interessantes e outras nem por isso) e por espreitar as salas da arte moderna e contemporânea.
- Entrei na Caixa Forum para ver a exposição do Matisse porque estava a chover e acabou por ser uma bela surpresa. Só conhecia aquelas obras mais famosas do Matisse e descobri que, afinal, ele teve uma carreira bastante longa e diversificada.
- Andei a passear pelo Barrio das Letras, um sítio bem agradável, com lojas mais alternativas e restaurantezinhos com um ar bastante simpático. Como continuava a chover, aproveitei para fazer uma visita guiada à casa de Lope de Vega. A guia era super divertida e empática e contou imensos pormenores sobre a vida do escritor. A entrada é livre mas é necessária inscrição porque as vagas são limitadas.
(no Barrio de las Letras)
E ainda consegui sentar-me a jantar e a pôr a conversa em dia com a minha querida Milú.
Não tenho a certeza, mas penso que só tinha ido uma ou duas vezes a Madrid, sempre em trabalho e sempre a correr. Lembro-me que fui ao Prado, onde vi obras de Goya e de Hieronymus Bosch, e ao Museu Reyna Sofia, ver a Guernica, pois claro. E pouco mais. Desta vez, quis evitar os museus maiores, até porque já não tenho paciência para passar horas infindas num museu, e consegui passear mais nas ruas, andei de metro, sentei-me a comer com calma. Deu para sentir mais a cidade, mas claro que ainda ficou muito por explorar.
Uma coisa de que gostei: em todos os museus a que fui havia bastantes pessoas (mas não tantas que se tornasse impossível ver as obras), muito diferentes - turistas, crianças das escolas, grupo de idosos com um guia, casais e famílias espanholas - e todas muito interessadas. Na visita à Casa de Lope de Vega, só com espanhóis, as pessoas fizeram imensas perguntas. Nos museus havia gente a tirar selfies, grupos a conversar, o ambiente era descontraído, muito diferente da solenidade que costumamos ver por cá. Sei que às vezes os museus mais conhecidos têm a gente a mais e isso também me incomoda, mas, neste caso apenas senti que os museus estavam vivos e a ser desfrutados pelas pessoas, e isso é muito importante. Um museu demasiado vazio e silencioso é um péssimo sinal.
A primeira vez que andei de avião foi em 1991, quando no final do 11º ano fomos à Alemanha num intercâmbio do liceu. Conseguem imaginar a excitação? Um grupo de miúdos vindos do Alentejo profundo a delirar com os toalhetes para lavar as mãos e as marmitas com lombo de salmão. Só voltei a entrar num avião quando já estava a trabalhar. Sou do tempo em que ainda se podia fumar lá atrás, ao pé das casas-de-banho; em que se servia café e amendoins à borla a bordo; em que ninguém nos tentava impingir raspadinhas. Depois vieram as low cost. Tornou-se quase corriqueiro. Malas de rodinhas a deslizar pelos aeroportos de todo o mundo, embalagens de champô em miniatura, check-in online. Vou de fim-de-semana a Paris como quem vai ao Algarve. Mas há coisas que não mudam: sempre (sempre) que sinto o avião a descolar, a lançar-se com mais ou menos turbulência nos céus, toda eu por dentro me agito e revolto, atacada por uma sensação de insegurança, um e se for desta?, e se for desta que isto corre mal e acaba-se tudo já aqui? Fecho os olhos e respiro. Não faço cenas, não entro em pânico. É só um pensamento que se atravessa à minha frente e ao qual não consigo escapar. E não vale a pena falarem-me das estatísticas e virem dizer-me que tinha mais hipóteses de morrer na A2 do que num avião. Não adianta tentar racionalizar. É o que é. E é assim. Passados esses momentos iniciais, depois de tapar o nariz umas quantas vezes para desentupir os ouvidos, geralmente consigo abstrair-me do facto de estar a dez mil metros de altitude. A não ser que aquilo comece tudo a abanar e se acendam as luzes para pormos os cintos, os assistentes apressados a mandarem-nos recolher as mesinhas. Ladies and gentlemen, this is your captain speaking. Se fosse uma pessoa de fé, este seria o momento para me pôr a encomendar esta alma ao criador. Como não, respiro outra vez profundamente e tento disfarçar. Só descanso novamente quando sinto os solavancos das rodas a baterem na pista. Aliviada, só não me ponho a bater palmas como fiz em 1991 porque entretanto alguém me explicou que isso era um bocadinho foleiro.
Já passou.
Pelo menos até à próxima.
Não fotografei essa primeira viagem de avião. Outros tempos, não havia telemóveis e não nos lembrávamos de fotografar tudo e mais alguma coisa. Mas guardei alguns bons momentos num dos meus queridos álbuns.
*
Há outras almas a vaguear pelo largo:
Houve dois momentos da viagem em Lviv em que sentimos a guerra mesmo ali tão perto, e não, não foi quando ouvimos o alerta de ataque aéreo.
O primeiro aconteceu logo no primeiro dia, na visita ao cemitério onde estão sepultados os militares e outras vítimas da guerra. É muito impactante, antes de mais, porque é um sítio muito colorido, cheio de bandeiras e flores, mas, sobretudo, porque rapidamente percebemos que muitos daqueles rapazes (são sobretudo rapazes) tinham pouco mais de 20 anos. As fotografias mostram-nos sorridentes, confiantes. Tantas vidas que ficaram por viver. Tantos filhos, irmãos, namorados, amigos, pais que se perderam.
O segundo momento foi a visita ao Unbroken Center, um centro de reabilitação que recebe feridos da guerra, vindos de todas as partes da Ucrânia, sobretudo pessoas afectadas por minas, explosões, tiros e que, muitas vezes, tiveram que ser amputadas. O trabalho com estas pessoas, que por cima de tudo isto têm certamente traumas psicológicos, é absolutamente incrível. Um dos terapeutas que nos guiou pelas salas equipadas com aparelhos de última geração disse-nos que por cada paciente que consegue lugar neste hospital há 60 que continuam em lista de espera. Aqueles que ali estão, que deslizam pelos corredores em cadeiras de rodas, a quem falta uma ou ambas as pernas, braços, bocados da cara ou tronco, aqueles são, afinal, privilegiados.
*
What they found - O que encontraram é um documentário realizado por Sam Mendes a partir de imagens filmadas em 35 mm e sem som pelo sargento Mike Lewis e pelo sargento Bill Lawrie, da Unidade de Cinema e Fotografia do Exército Britânico, antes e durante a libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945, a que se juntaram partes do áudio de entrevistas realizadas em 1980 aos dois operadores de câmara.
O filme, que está disponível no Filmin, tem apenas 36 minutos. Começa com a história dos dois homens, depois a chegada ao campo de concentração, o relato do que viram, o tratamento dado aos sobreviventes, as valas comuns onde foram depositados milhares de corpos. Lewis e Lawrie contam como se sentiram. E se as suas palavras são perturbadoras, o silêncio que se instala é-o ainda mais. As últimas imagens são poderosíssimas. Já vi vários documentários sobre o Holocausto e provavelmente até já tinha visto algumas destas imagens, no entanto fico sempre em choque. Não há maneira de me habituar a isto. Só me apetece chorar. Por todas as vítimas, por nós todos, por esta humanidade que parece não aprender nada com os seus erros.
*
Antes de terminar as férias consegui dar um saltinho a Almada para ir ver a exposição Venham mais cinco, com 200 fotografias de fotógrafos estrangeiros que estiveram em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril ou nos meses seguintes, a testemunhar o processo revolucionário. Mais uma vez: emociono-me sempre com as imagens da nossa Revolução, e aqui é uma emoção boa, comovo-me com a alegria dos militares nas ruas de Lisboa e das pessoas que os rodeavavam, as crianças curiosas, os jovens entusiasmados com o fim da ditadura, as senhoras que distribuíram café; comovo-me com a esperança que se vê nos olhos de toda a gente, a desfilar pelas ruas com cartazes, a reivindicar os seus direitos, à saída das prisões, nas reuniões sindicais, nas filas para votar pela primeira vez em democracia. As trabalhadoras do campo a entrarem na casa dos senhores e a tocarem ao de leve nas colchas das camas. Tanta ingenuidade.
Sim, já vimos muitas imagens como aquelas, é verdade, mas vão ver estas também, que nunca são de mais, e parece-me que, nos dias que correm, estamos todos a precisar de uma boa dose de esperança e optimismo e de nos lembrarmos que todos juntos somos mais fortes e podemos mesmo mudar o curso dos acontecimentos.
A exposição está aberta até 23 de novembro, de quinta a domingo e a entrada é gratuita.
Ocupação da herdade do Sol Posto, no Couço, Ribatejo, no dia 31 de Agosto de 1975, por Fausto Giaccone

Queres ir?
Quero.
O meu trabalho, com todos os seus defeitos e problemas, com todas as desilusões e tristezas, continua a dar-me momentos de grande alegria. Ter oportunidade de sair daqui, de conhecer sítios novos, de falar com pessoas diferentes, de ir, ver, ouvir, experimentar, é mesmo uma das melhores coisas do mundo. O mundo é tão grande e há tanto para descobrir. Quando me perguntam se estou diponível para uma viagem, respondo sempre que sim, seja para perto ou para longe, seja qual for o tema do trabalho, digo que sim e depois logo vejo como é que isto se encaixa na minha vida.
Foi assim que fui parar a Lviv, na Ucrânia.
Vim das férias diretamente para a viagem. Saí de casa no dia 2 de setembro, terça-feira, antes das 7:00 da manhã e voltei esta noite, cheguei a casa já depois da meia-noite. Uma semana inteira fora. Viagens cansativas, de avião e de autocarro, muitas horas de autocarro, um autocarro que esteve muito tempo parado na fronteira, para sair e depois para entrar na União Europeia. O programa era intenso. E, sobre esse programa, ainda tive que acrescentar as horas de trabalho - entrevistas realizadas nos momentos de pausa, textos escritos pela noite dentro, a roubar horas ao sono, às refeições e ao descanso. É sempre assim quando vamos para fora, sem horários, a dar tudo. Estou exausta, o meu cérebro está enevoado, não sei como é que vou conseguir enfrentar os dias que tenho pela frente e todas as coisas que tenho para fazer, mas valeu bem a pena é o que posso dizer.
Lviv é uma cidade muito bonita e senti-me sempre bastante segura, apesar da guerra. Na noite antes de chegarmos, quando estávamos em Cracóvia, na Polónia, toda a Ucrânia esteve sob alerta e a região de Lviv foi atacada. Durante a nossa estadia, houve dois alertas que nos obrigaram a ir para o abrigo, mas nada aconteceu. Ouvir as sirenes da cidade a tocar e receber a mensagem de alerta no telemóvel é um bocadinho assustador, há que reconhecer, mas depressa percebemos que - pelo menos destas vezes - não havia nada a temer. O recolher obrigatório é da meia-noite às 5:00 da manhã, mas até essa hora a população faz a sua vida normal, no centro os restaurantes e os bares estão abertos, as esplanadas movimentadas. Foi muito interessante ver como as pessoas continuam a fazer o seu dia-a-dia, apesar de todos os constrangimentos.
Mas a guerra está sempre presente, mesmo quando não há ataques. Há funerais de militares praticamente todos os dias, toda a gente tem familiares e amigos a combater na linha da frente, é comum nas ruas encontrar feridos de guerra. Em todas as conversas, a guerra. Falei com alguns jovens ucranianos e é claro que foi muito comovente. São miúdos, da idade dos meus filhos, e vivem há mais de três anos em guerra, alguns passaram por situações realmente dramáticas. Como não ficar a pensar nisto?
O alerta de ataque aéreo é acompanhado pelo som de uma sirente e uma voz que grita "Attention! Attention!"
O cemitério onde estão sepultados mais de 1.200 militares de Lviv, mortos na guerra desde 2022
Vários monumentos estão protegidos por causa dos ataques aéreos. Aqui, os vitrais da catedral tapados
Por todo o lado, nos jardins e nas igrejas, há memoriais que homenageiam as vítimas da guerra
Se quiserem perceber melhor o que fui lá fazer, podem procurar os seis textos que escrevi para a CNN Portugal sobre o (ou à volta do) encontro de jovens portugueses e ucranianos em Lviv: o primeiro é uma antecipação do programa, o último é uma espécie de balanço, pelo meio há outras histórias. Foi tudo escrito a quente e em contra-relógio, mas espero que gostem.

Há dez anos, desde a primeira viagem a São Miguel e a primeira vez que ouvi falar do Tremor, que andava com vontade de lá ir. Mas era sempre tudo tão complicado, os miúdos e as férias da páscoa e o dinheiro e os bilhetes e ir com quem?, nunca conseguia, ficava só a ver as fotografias no instagram e a ouvir os relatos de quem lá ia e a achar que devia ser mesmo fixe. Até este ano. No aniversário dos 50, um grupo de amigos ofereceu-me a viagem de avião. Que alegria! Começámos por ser duas e acabámos a ser seis. E foi incrível. Cinco dias inteiros de felicidade, ora com chuva ora com sol, mas quem quer saber do tempo quando se está mergulhada na água quentinha da Poça da Dona Beija e rodeada de pessoas queridas? Tirando os telefonemas e as mensagens (sem stress) para os rapazes, consegui fugir completamente da rotina, das notícias, das preocupações, e entregar-me por completo a esta experiência. Porque o Tremor é, de facto, uma experiência. É um festival com um ambiente muito cool, relaxado, com poucas pessoas, que vamos encontrando uma e outra vez ao longo da semana, casais que trazem os filhos, grupos de amigos, gente da terra, todos juntos e todos a sorrir.
Também é preciso estar atento e disponível para desfrutar completamente - dos concertos, da beleza da ilha, da comunidade. O programa é muito extenso e não conseguimos ir a tudo (até porque a idade já pesa e esta pessoa não aguenta noitadas), mas tudo o que fizemos foi bom, de uma maneira ou de outra. Destaques:
Comer: bolo lêvedo e massa sovada nos nossos pequenos-almoços com vista para a marina, os chicharros com feijão no Mané Cigano, as bifanas de atum e o bolo de ananás da Tasca, o cozido e a carne no ponto do Tony's, as bifanas do Clipper, o peixe (e, diz quem comeu, também as iscas) do Nacional, cerveja e tremoços nas escadas da igreja da Lagoinha, o queijo com pimenta da terra em todo o lado, sempre que possível.
Tremor na Estufa: concertos surpresa em formato pop-up, em lugares inesperados. Vimos os divertidos The Zenmenn no Pinhal da Paz, estivemos nas Furnas com os Why The Eye e ainda ouvimos os Comfort no Museu do Tabaco da Maia (e o museu também é bastante interessante).

Tremor Todo-o-Terreno: pequena caminhada na Ferraria, mini-concerto do saxofonista Julius Gabriel junto ao mar e, a terminar, banho na piscina de água quente e salgada.
As salas: só conhecia o Teatro Micaelense, fiquei a conhecer o Coliseu Micaelense, o Ateneu Comercial, a Igreja do Colégio e o espaço das Portas do Mar, onde acabavam as noites (e que, por coincidência, ficava a apenas três minutos de casa, o que deu imenso jeito).
A música: a grande descoberta para mim foi Fidju Kitxora, um projecto muito incrível que junta as sonoridades de Cabo Verde e a electrónica e pôs toda a gente a dançar. Joseph Keckler, de que nunca tinha ouvido falar, foi uma óptima surpresa. O concerto de Norberto Lobo e Six Organs of Admittance foi muito, muito bom. Os 800 Gondomar, não sendo de todo o meu género musical, acabaram por ter a energia certa para aquele fim de tarde do Mercado da Ribeira Grande.
Mais do que música: foram muito especiais os momentos musicais que envolveram as pessoas de São Miguel e onde se percebe o impacto que um evento destes, quando é bem feito, pode ter, sobretudo nos jovens. O projecto Filhos do Vento pôs um grupo de rappers locais a trabalhar com o Xullaji e só de ver a alegria deles em palco a debitar as suas rimas já valeu a pena (ficámos de olho no Maçarico). O saxofonista Guillaume Perret esteve apenas cinco dias com a Escola de Música de Rabo de Peixe e o resultado foi extraordinário (foi mesmo). E o músico Romeu Bairos, além do seu disco, Romê das Furnas, trouxe para o palco músicos das Festas do Divino Espírito Santo e ainda contou com a participação inesperada do grande Zeca Medeiros. Gritou-se 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais, e estou em crer que me caiu uma lagrimita emocionada, não sei se pela música, se pela felicidade de estar ali e pela sorte, a imensa sorte que tenho, de ter estas oportunidades e estas pessoas na minha vida.
Sim, porque nada disto seria possível nem seria assim tão bom sem a energia e a alegria e as conversas e as piadas e a presença e a amizade e os abraços de Alda, Ana, Jô, Nuno e João. A dançar na fila da frente dos concertos ou para enfrentar caminhos íngremes no meio do nevoeiro, não consigo imaginar melhores companheiros de viagem. Tremor é amor, diz o lema do festival. E eu confirmo.
Vou fazer 50 anos. Nunca me apetece festejar e este ano não é excepção, por mim fingíamos que este dia nem se quer existia e dispensavam-se os telefonemas e as mensagens e tudo, mas, pronto, se calhar, desta vez, vai ter que ser, não é?, afinal, são 50, caramba, vamos mesmo ter que inventar alguma coisa.
Estou a fazer pilates clínico com uma instrutora muito querida que bate palminhas e diz "muito bem" sempre que eu consigo apertar as nádegas, os glúteos e os abdominais ao mesmo tempo e fazer todas as repetições. O estúdio parece uma sala de tortura cheia de máquinas esquisitas e, para já, só lá vi pessoas mais velhas do que eu. Não adoro, mas estou a esforçar-me. Porque é importante para a recuperação. Ando toda dorida o que só pode significar que estou a mexer músculos que estavam há muito adormecidos. Mas a parte melhor é quando, no fim da aula, ela me pendura pelos pés e me deixa a relaxar. Sou muito boa a relaxar. É bom que isto sirva para alguma coisa, uma vez que é caríssimo. Tenho orçamento para dois meses (três, na loucura), antes de voltar ao pilates dos pobres no ginásio.
O trabalho também tem sido uma tortura. Há dias em que me apetece desistir de tudo (depois lembro-me que tenho contas para pagar). A única coisa boa dos últimos tempos foi ler o livro da Sally Rooney e escrever sobre ele. Nunca tinha lido nada dela e gostei mais do que estava à espera.
Antes de me abalançar na última temporada da série A Amiga Genial, decidi rever as três temporadas anteriores. Voltei a gostar como da primeira vez. E gostei ainda mais de "passear" por Nápoles, agora que já conheço a cidade.
Foi há quase um ano que fui a Nápoles. Tem sido um ano bom. Muito bom, mesmo. Apesar de tudo. Um dia vou escrever sobre isto. Gostaria de um dia escrever sobre isto no presente, e não no passado como normalmente acontece. Dizer "gostaria de um dia escrever sobre isto no presente" é já dizer tanto.
Na outra noite fui ver o Samuel Úria. Foi uma noite tão feliz. Já não me lembrava como gosto dele e daquelas canções.
Hoje comi uma romã e, como sempre, lembrei-me da minha avó. Outubro é também o mês dela. É o nosso mês. Das que cá estão e das que já não estão.

(Peço desculpa se não perceberam este post. Às vezes sou um bocadinho egoísta e escrevo só para mim. Outubro ainda vai a meio. Tenho tanta coisa para fazer até aos 50, a agenda cheia, nem vou ter tempo de me angustiar. Digo eu.)
"Amigos com quem temos vontade de apanhar aviões", diz a Alda. São amigos preciosos esses. Acho que ganhei mais uma amiga dessas, com quem gosto de calcorrear caminhos e descobrir lugares. Fomos juntas a Nápoles. Foi a minha primeira vez em Itália. E foi tão bom. Em primeiro lugar por causa dela, claro. Com outra pessoa seria outra viagem. Fomos com os sentidos todos bem despertos, queríamos ver com olhos de ver, ouvir o italiano e o napolitano, andar pelas ruas a pé, sentir os cheiros todos, até mesmo o cheiro do peixe frito, provar as comidas verdadeiras. E foi tão bom (já disse, eu sei, mas nunca é demais repetir). Foram apenas quatro dias e deixámos muita coisa por ver, como é óbvio. Haveremos de voltar.
Para memória futura:
Ficámos instaladas mesmo no centro, numa ruazinha ao lado da Piazza Dante. Fantástica localização. Meia dúzia de passos e estávamos na Via Toledo, uma avenida comercial. Muito barulho. Muito trânsito. Todos os dias, a toda a hora. Montes de lambretas. Bastante poluição. Atravessar a rua era sempre um acto de bravura, uma vez que os condutores não páram nas passadeiras. É preciso avançar com determinação. Também vimos muitos condutores sem cinto de segurança e muita gente nas lambretas sem capacete - famílias inteiras, incluindo crianças, encavalitadas numa maquineta minúscula a acelerar por aquelas ruas estreitas, apitando para afastar os peões, desviando-se dos obstáculos. Andámos muito a pé, experimentámos o metro e o comboio que foram uma boa surpresa, o funicular e os autocarros. Não fomos ao bairro da Amiga Genial, da Elena Ferrante, mas "encontrámos" muitas personagens dos livros nas ruas.
O azul forte é a cor predominante em Nápoles, a cor do clube de futebol. Por todo o lado, até nos bairros menos populares, encontramos bandeiras e faixas a exaltar o "Napoli campione" e o Maradona, claro, a cara do Maradona para onde quer que nos viremos, nas paredes e nos cartazes, nas montras e nas camisolas. Não tenho muitas memórias do Maradona mas ajudou ter visto A Mão de Deus, do Sorrentino.

Diz quem já lá esteve antes que a cidade está cada vez mais turística. Há de facto muitos grupos de turistas, filas gigantes para comer nas pizzarias mais famosas, mil lojinhas de recordações. Domingo de manhã no centro histórico era quase impossível avançar por entre a multidão - fugimos dali o mais rapidamente possível. A gentrificação está a fazer o seu caminho, é visível. O segredo é procurar outros caminhos. E pedir dicas a pessoas de lá.
Como qualquer outra cidade, Nápoles é uma cidade feita de muitas cidades. Os Quartieri Spagnoli são o bairro mais tradicional, com ruínhas estreitas que sobem e descem, prédios quase em ruínas, mercados de rua, peixe em alguidares, legumes de cores garridas. É também aqui que fica o Mural do Maradona, pintado em 1990 pelo adepto Mario Filardi.
Atravessando para o outro lado da Via Toledo, temos o Centro Histórico. Continuam a ser ruas muito estreitas mas o ambiente é diferente. Todas as paredes e portas estão grafitadas, o que lhes dá um certo ar decadente. Há uma sujidade que faz parte do encanto destes bairros mais antigos. Vale a pena espreitar pelos portões dos pátios, alguns estão muito bem recuperados. A Piazza Bellini é um recanto simpático, a que se segue aquela que me pareceu ser uma zona mais hipster.

Subimos no funicular até lá a cima, ao Vomero, e é como se estivéssos noutra cidade. Quem leu A Vida Mentirosa dos Adultos, da Ferrante, vai reconhecer. É uma zona mais rica, com prédios bons, árvores, silêncio. Outro tipo de lojas, outro tipo de pessoas. E uma vista fantástica sobre toda a região. Seja do Castel Sant'Elmo ou da Villa Floridiana, um pequeno paraíso verde numa cidade que é quase só cimento. Vemos o Vesúvio lá ao fundo - haveremos de lá ir numa próxima vez, assim como às ilhas de Capri, Ischia e Procida.


À medida que descemos as escadinhas (há muitas escadinhas, intermináveis, também podem optar por subir mas é preciso ter fôlego) voltamos ao mundo das ruelas com pouca luz e muita roupa estendida. Passeámos junto ao mar, numa zona com urbanização mais recente - Posillipo e Chiaia - e visitámos o Castel Nuovo.

Além dos dois castelos, só entrámos brevemente no Duomo, a catedral, que é bastante bonita, mas não tínhamos tempo para explorar - também não fomos ao Museu Arqueológico nem aos subterrâneos. Guardámos todo o nosso empenho histórico para a visita a Pompeia. Monumental. Por mais que tenha lido sobre Pompeia, não estava preparada para aquela dimensão. Ficámos lá umas quatro horas e temos a noção de que não vimos tudo, mas tentámos ver as casas principais, os murais mais interessantes e bem conservados. Dá mesmo para imaginar a vida naquela cidade. E compensa bem as dores nos pés ao final do dia causadas pelo pavimento irregular.
Comer e beber: Tudo óptimo. Não houve um dia que tivéssemos comido mal. Panini (sandes) maravilhosas, pasta (massa), peixe de todas as maneiras e feitios, pizza frita - de que não fiquei particularmente fã, a verdadeira pizza Margherita, gelados. Aperol Spritz (bebe-se mas não é a minha cena) e Limoncello (melhor, mas não dá para beber tanto).
Dicas que nos foram úteis e por isso partilho:
O Spiedo D'oro é um restaurante com comida de todos-os-dias, muita gente a ir buscar para levar para casa. Além da comida, tem a simpatia do Vicenzo, que, assim que descobriu que éramos portuguesas, foi ainda mais simpático.
Para uma experiência mais turística mas ainda assim compensadora, há a Pescheria Azzurra. É daqueles sítios onde se tem de ir com tempo para desfrutar verdadeiramente. Bom para quem, como eu, gosta de ficar a observar as pessoas e as suas dinâmicas. E a comida é bastante boa.
Entre as várias livrarias-bar, gostámos da Libreria Berisio.
Para a pizza fomos à Dal Presidente que, além de ter um verdadeiro mural do Banksy (cuja fotografia, sabe-se lá como, desapareceu do meu telefone), tem muito menos confusão.
A Vineria Indovino (para vinho e panini) e o Zazzu - Gusto Sano Napoletano (para vinho e pratos tradicionais) ficam um ao lado do outro, numa rua pouco movimentada, com esplanada e óptimo ambiente.

O melhor de viajar é sair da nossa conforto e deixarmo-nos ir. Entrar por ruas que não conhecemos. Levantar os olhos do chão e ver uma nesga de mar lá ao fundo. Surpreendermo-nos com os cartazes colados na parede que anunciam funerais e missas de sétimo dia como quem anuncia o circo. Tentar perceber o que dizem as pessoas na ruas e dizer um "grazzie" sem parecer que estamos a tossir. Conversar com desconhecidos que também estão a ver a final do rugby e descobrir que são jornalistas (aconteceu mesmo). Vestir uma camisola do Nápoles e ir ver o jogo de futebol num café. Ficar só a ver a paisagem, sem olhar para o relógio. Ter conversas profundas ao jantar, enquanto bebemos uma garrafa de vinho, e percebermos que queremos voltar - voltar a Nápoles, voltar a Itália, voltar a viajar, voltar a apanhar um avião ou um comboio ou uma boleia ou o que seja. Assim haja orçamento para cumprir os sonhos.
Uma das coisas que eu descobri acerca dos homens através das aplicações de encontros é que são todos muito aventureiros. Não fazia ideia. Tenho andado distraída, certamente. A mim a maioria dos homens que encontro no meu dia-a-dia parece-me extremamente cinzenta e acomodada. Mas a verdade, está lá escrita no perfil, é que os homens, além do cliché clássico "uma boa conversa acompanhada de um bom vinho" (momento para revirar os olhos), também gostam de aventura. Quase todos fazem surf e outros desportos aquáticos, fotografam-se a saltar de paraquedas e a pilotar barcos, em trilhos de bicicleta, com motos potentes. E melhor ainda se isto acontecer em lugares exóticos e distantes, como desertos, montanhas, selvas, praias de água muito azul. Porque a aventura também é isso. Viagens. Toda a gente gosta de viajar e está à procura de companhia para descobrir o mundo, querem alguém disponível para fazer as malas e ir por aí. Dizer que se gosta de viajar é uma maneira de dizer que se é uma pessoa muito interessante. Vejam, eu sou muito interessante, já fui à Tailândia e a Marraquexe (este ano, é Marraquexe que está na moda, não sei se já repararam), já mergulhei entre peixinhos e já dormi no deserto. As pessoas que viajam são melhores pessoas do que as outras, porque têm "a cabeça aberta", são "espíritos livres", são "pessoas do mundo". Não queremos cá matches com pessoas tacanhas.
Claro que viajar é bom. Como não? Tirando a Fran Lebowitz, acho que todos concordamos com isso. Não é assim uma coisa muito original para se dizer. Para já porque se está de férias e só isso já é maravilhoso. Depois porque temos oportunidade de descansar e sair da rotina e, muitas das vezes, de ir a sítios bonitos ou de fazermos coisas de que gostamos, de estarmos sozinhos se nos apetecer estar sozinhos ou estarmos com pessoas com quem queremos estar, sem horários, sem constrangimentos. Eu gosto de viajar. Ou gostaria, se tivesse mais condições para fazê-lo. Eu também tento viajar, sempre que possível. Adoro ir a sítios diferentes, descobrir novas culturas, falar com as pessoas, provar as comidas, aprender coisas que não sabia. Eu também sou essa pessoa, acreditem. Mas a minha vida não é isto. Não é isto que me define. Não é isso que quero pôr no meu perfil. E fico sempre a pensar para quantas daquelas pessoas (e são muitas) que ali se declaram amantes de aventura e de viagens isso é realmente uma coisa assim tão importante na sua vida de todos os dias, naquilo que eles são.
"Vamos?", pergunta o rapaz da fotografia, piscando-me o olho. Fico na dúvida. Esquerda ou direita? Por muito que queira um companheiro de aventuras (sobretudo se me pudesse pagar viagens às Maldivas ou ao Grand Canyon, isso é que era), queria mesmo era um companheiro para ir ao teatro, para ir jantar a um restaurante indiano ou só para ficar encostado a mim no sofá.
Está visto, nunca serei uma pessoa interessante.
A propósito de viagens, um texto para nos fazer pensar da próxima vez que apanharmos o avião. De Agnes Callard, na New Yorker:
Um dia, estava a conversar com a minha amiga Paula e o que é que vais fazer nas férias, sei lá, os putos não querem fazer nada, acham tudo uma seca, pois é, podíamos fazer alguma coisa juntos, isso era giro, eu gostava de os levar aos Açores, olha, eu também, o que dizes?, é uma boa ideia, pois é, vamos tratar já disso. Confirmámos as disponibilidades com os adolescentes, perdemos horas em sites a ver preços de voos e marcámos. São Miguel, aí vamos nós.
O único receio era juntar este quatro putos - o mais novo com 14 anos, um de 17, outro de 18 e a mais velha com 20. Os miúdos conhecem-se. Brincaram juntos quando eram pequenos. Tínhamos passado uma semana de férias em 2015 e tinha sido óptimo. E voltámos a encontrar-nos na praia durante uns dias em 2018. Mas, depois disso, vieram as adolescências. E a pandemia. Cada um cresceu à sua maneira. Tornaram-se pessoas muito diferentes. Ainda assim, pareceu-nos possível. E toda a gente estava animada com a ideia.
No primeiro dia, depois de uma noite mal dormida e de uma madrugadora viagem de avião, olhei para os quatro putos a dormitar estendidos na areia preta, cada um para seu lado, quase sem trocarem uma palavra entre si, e temi o pior. Ai, tu queres ver que isto vai correr mal? Mas, logo nessa noite, os três mais velhos saíram para beber um copo em Ponta Delgada e no regresso, quando o táxi os deixou à porta de casa à duas da manhã, já eram grandes companheiros. A partir daí correu tudo bem. Mesmo com todas as diferenças de gostos e de personalidades. Foi lindo de se ver, sobretudo os dois rapazes do meio que, há que admitir, vivem em mundos completamente distintos, mas conseguiram facilmente encontrar uma plataforma de entendimento e de cumplicidades que fez com que, pelo menos durante aqueles dez dias, fossem os melhores amigos.
Com este problema resolvido, as férias só podiam ser óptimas. Alugámos uma carrinha de sete lugares e fizemo-nos à estrada, por paisagens verdejantes, espreitando em miradouros, com os putos a protestarem por causa da música que as cotas escolhiam e nós a odiarmos a música que eles escolhiam. A ilha de São Miguel é linda, já se sabe, e entre águas quentes e águas frias, águas doces e águas salgadas, acho que mergulhámos em todos os cantos em que se podia mergulhar. Bom, eu não, bem entendido, que não sou muito de mergulhos, mas o resto do grupo. Da Caldeira Velha à Ponta da Ferraria, com passagens repetidas pela Poça da Dona Beija e pelas praias - Milícias, Pópulo, Mosteiros, Santa Bárbara (e os rapazes divertidos, nas ondas, a fingirem que sabiam surfar). Os dois rapazes foram acampar uma noite com amigos da ilha e foram a um "festival de música" numa aldeia próxima. As mães vestiram roupa colorida e foram destoar para a "noite branca" de Ponta Delgada. Fizemos umas férias low-cost, sem hotel nem restaurantes. E foi do melhor. Dormimos ao molho na casa da família Paula, comemos bolos lêvedos todos os dias, provámos os gelados do Tomé, eles beberam Kima, eu deliciei-me com os chicharros fritos e ainda tivemos a sorte de fazer um almoço nas Furnas, com uma bela de uma feijoada caseira.
Foram dias muito bons. Familiares. Entre amigos que são casa. Sem merdas. Foram dias muito felizes, daquela felicidade que nos enche a alma e nos faz pensar que, mesmo com todas as dificuldades e todas as tristezas, esta vida vale a pena. Porque, com sorte, uma vez por ano, temos direito ao nosso bocadinho no paraíso.









Fomos passar o fim-de-semana a Sevilha. Fomos - eu e um grupo de amigas. Foi espectacular. Por estarmos juntas. Pelas conversas e pelas partilhas e pelas gargalhadas. Porque é muito fixe ver como esta amizade entre seis pessoas tão diferentes e tão parecidas tem evoluído. Porque é bom ter pessoas que são casa. Eu já tinha algumas pessoas assim e, nos últimos anos, ganhei mais estas pessoas-casa e sinto uma enorme alegria por isso. Foi muito fixe também porque comemos maravilhosamente e passeámos e porque (do pouco que vi) achei Sevilha uma cidade muito bonita. Agradável, animada e com poucos carros. Num momento em que em Lisboa se discute tanto esta questão, foi bom passear no centro de Sevilha com tantas ruas sem carros. Não são uma nem duas, são muitas. Ruas largas, ruas estreitas, ruas antigas, ruas novas. E não há carros a passarem nem carros estacionados em cada canto nem carros de pessoas que vão só ali e já vêm nem carros de lojistas nem carros de moradores nem carros de ninguém. Há eléctricos e bicicletas e trotinetes e pessoas a andarem a pé. Muitas pessoas na rua, muitas lojas, muita vida. Todo o centro sem carros. Acho que o Moedas devia ir lá, e os seus acólitos também. Para verem que é possível. Que até pode ser difícil ao início, que é preciso garantir que os transportes públicos funcionam e é preciso todo um trabalho de educação para o civismo mas, sabem, não é assim tão complicado não chegar de carro até à porta da Louis Vitton ou da escola ou do escritório ou do cinema ou do que for. E que é bom passear e parar numa das muitas esplanadas, aproveitando o silêncio e o ar puro.



