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A Gata Christie


Quarta-feira, 17.10.18

Circo

Tenho cada vez menos paciência.

Para pessoas que não me interessam. Para conversas que não me interessam. Para trabalhos que não me interessam. Para coisas em geral que não me interessam. Tenho cada vez menos paciência para multidões. Para os restaurantes da moda. Para a moda em geral. Para os eventos a que toda a gente vai. Para o facebook. Para o instagram. Para os blogues. Para os lives em todas as plataformas. Para as polémicas nas redes sociais. Para os likes. Para os grupos no whatsapp. Para o ruído. 

Tenho cada vez menos paciência para todo este circo.

Só me resta perceber se isso é sinal de grande maturidade ou de grande depressão.

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por Gata às 19:13

Sábado, 13.10.18

Da beleza

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Sentada na plateia, a deliciar-me com o espetáculo Os seis concertos brandeburgueses, de Anne Teresa de Keersmaeker, pensei na sorte que tenho. Por poder desfrutar de tamanha beleza. Por poder ficar ali, durante duas horas, a ouvir a música de Bach (tocada ao vivo por uma orquestra, o que faz toda a diferença) e a deixar-me levar pelos movimentos dos bailarinos. Maravilhosos. 

Era exactamente aquilo que eu precisava ontem à noite.

A semana foi horrível. Discussões com os putos, trabalho merdoso, angústias várias, aquela sensação de que estou a fazer tudo errado (é oficial: o efeito das férias já passou, estamos de volta ao momento em que estávamos antes de junho). E a culminar: antes de ir para a Culturgest, passei num velório, para dar um beijinho a um amigo que acabou de perder a sua pessoa. 

Só me apetecia fugir.

E depois isto. Deixar-me ir. A tensão a desaparecer do corpo e o sorriso a instalar-se na cara. Sim, sou mesmo uma pessoa com sorte. Mas às vezes esqueço-me.

mais uma sessão esta tarde, às 19.00. Aproveitem.

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por Gata às 09:48

Quarta-feira, 11.07.18

Pontapés de bicicleta e outras habilidades

"Life is not just about glory", disse o Cristiano Ronaldo depois de ganhar a Liga dos Campeões e quando já se preparava para deixar o Real Madrid. Nem tudo se resolve com milhões. Até o Ronaldo quer estar num clube onde se sinta amado.

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O pontapé de bicicleta, contra a Juventus, a 3 de abril de 2018

 

Queria ter coisas importantes e bonitas para escrever aqui mas nem sempre isso acontece ou então sou eu que estou numa fase em que nada me parece suficientemente importante ou bonito para estar aqui. há coisas importantes de que não me apetece falar. e há coisas bonitas, que são as do costume e as que me salvam sempre da voragem dos dias. isto passa, como sempre. entretanto vejam os jogos de mundial que de vez em quando há por lá coisas bonitas a acontecerem. ou em alternativa vejam o ténis, que também tem valido muito a pena.

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por Gata às 23:12

Domingo, 01.07.18

O que aconteceu naquelas escadas?

Em dezembro de 2001, o romancista americano Michael Peterson ligou para o 911 pedindo ajuda para a mulher que tinha caído das escadas. Quando os médicos chegaram, poucos minutos depois, encontraram a mulher de Peterson morta e ensanguentada. Todo o cenário, com o sangue nas paredes, parecia mais de um crime do que de uma simples queda nas escadas. E o principal suspeito era o marido, que era a única pessoa que se encontrava em casa nessa noite.

The Staircase, que está disponível no Netflix, é uma série documental realizada pelo francês Jean-Xavier de Lestrade entre 2001 e 2012 e que acompanha todo o processo judicial de Michael Peterson - do ponto de vista da defesa. São 13 episódios de 45 minutos. Às vezes torna-se um pouco cansativo, confesso. Mas para quem se interessa pelo modo como a justiça funciona é fascinante. Ver como os advogados pensam, acompanhar todos os passos do inquérito, os testemunhos dos filhos, a investigação ao passado daquela família, as provas, as dúvidas, as simulações do tribunal, o que dizem os cientistas, como decidem os jurados. As voltas e reviravoltas. 

Foi crime? Foi acidente? Foi ele? Não foi ele? 

Independentemente do que seja a verdade, há aqui muita matéria para reflectir.

Primeiro, que nunca poderemos saber realmente o que se passa dentro da casa das outras pessoas, o que falam, como se relacionam, o que escondem. Podemos achar que conhecemos as outras pessoas mas não poderemos ter a certeza de nada.

Depois, que nenhuma pessoa resistiria a uma investigação total à sua vida. Por muito que nos consideremos honestos e transparentes, todos temos segredos, todos já mentimos em alguma ocasião, todos temos as nossas coisas, que nos parecem coisas sem importância mas que, quando expostas numa sala do tribunal, fora do contexto, se podem transformar em coisas muito importantes.

Finalmente, é impossível ficarmos indiferentes ao desgaste que esta família sofre ao longo destes anos. O Peterson que aparece no último episódio a ouvir a música de Leonard Cohen é um homem completamente diferente daquele que vimos no início, a contar como, antes de tudo acontecer, passou o serão a beber um copo de vinho e a conversar com a mulher, Kathleen, na beira da piscina. 

É uma pena que a vida não seja como um conto da Agatha Christie, sempre com um desfecho claro e um criminoso atrás das grades. 

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por Gata às 23:25

Quarta-feira, 20.06.18

Finalmente o verão

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por Gata às 22:10

Domingo, 03.06.18

Junho

Fui comer sardinhas com duas amigas do trabalho. Estávamos a terminar o dia e de repente estás livre? eu também, que coisa rara, bora. Fomos. Esta espontaneidade. É uma das coisas de que tenho saudades da minha vida pré-filhos. Não que eu tivesse uma vida assim tão preenchida e fizesse assim tantas coisas, mas poderia fazê-las, se quisesse, e isso faz toda a diferença na minha cabeça. Agora há sempre que ter atenção aos horários, os horários da escola, do futebol, de estudar, de dormir, de acordar. Os horários e as vontades deles. Se quero fazer alguma coisa fora da rotina tenho que tomar tantas diligências que acabo por desistir.

Fui comer sardinhas a Alfama com duas amigas, só isso, uma coisa tranquila, beber sangria, conversar, comer pimentos assados, ficar com as mãos a cheirar mal, rir com gosto. Nem era meia-noite quando apanhámos o metro de volta para casa. E foi tão bom como se tivesse ido desbundar para uma praia paradísiaca longe daqui.

E isso lembra-me que já falta pouco para os putos estarem de férias e para entrarmos nos melhores três meses do ano. São só mais duas semanas. E estamos em contagem decrescente.

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por Gata às 20:13

Segunda-feira, 14.05.18

O que fazemos a pensar no ambiente

As notícias são alarmantes mas, de alguma forma, parece que não tocam a maioria das pessoas. O rio Tejo completamente poluído. A falta de água em países longínquos. A falta de água no nosso país. Os plásticos que se acumulam no mar. A destruição da Amazónia. E só estou a falar das notícias mais sonantes, há mais, muito mais. Como é possível que não estejamos todos preocupados?, é o que muitas vezes me pergunto. Na semana passada, falei com a Ana Pêgo, bióloga e educadora ambiental, responsável pelo projeto Plasticus Maritimus (é muito fixe, deviam seguir o link e ir lá ver) e ela dizia-me que, hoje em dia, aos três "R" da sustentatibilidade (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) se deveria juntar um quarto "R", talvez ainda mais importante, para Recusar. Porque, diz ela, há coisas com as quais não devíamos mesmo ser condescendentes. São demasiado importantes. Fiquei a pensar nisso. O que faço eu para proteger o ambiente? Será suficiente? O que poderei mudar?

 

1. Limitar o consumo

Esta é uma coisa que faço naturalmente, não por motivos ecológicos ou filosóficos sequer, mas porque sou mesmo assim, desde sempre. Odeio comprar coisas. Roupas, sapatos, malas, brinquedos, móveis, cortinados, lençóis, o que for. Compro o mínimo possível. Em parte por questões financeiras, é óbvio, mas em grande parte porque é algo que não me dá prazer nenhum. Sim, gostava de ter uma casa toda em branco, com quadros nas paredes e objectos de design mas não tenho paciência. Digo sempre que vou comprar qualquer coisa mas acabo por ir adiando e por ir arranjando algo mais importante para fazer. Sim, gostava de abrir o armário e ter lá roupa gira para vestir. Mas não me lembro da última vez que comprei alguma peça de roupa para mim, acho mesmo que neste último inverno não comprei nada. Entretanto, percebi que esta aversão às compras é mais do que isso. É uma maneira de estar no mundo. De recusar o acessório e o superficial, de me centrar no que é importante. Na prevalência do ser sobre o ter. E também percebi que comprar só o que faz falta é uma atitude ecológica. Comprar menos para que se produza menos, para poupar os recursos, reduzir gastos energéticos, diminuir a poluição e evitar o desperdício.

2. Consumir com consciência

Aqui é mais difícil, confesso. Gostava de ser uma pessoa que sabe exactamente o que está a comprar - que boicota as marcas que usam mão de obra infantil e que não permitem tempos de descanso, as que destroem as florestas e poluem os rios. Não sou essa pessoa. Como consumo pouco desculpo-me dizendo que não hão de ser aqueles três pares de meias que vão mudar o mundo, mas sei que isto é só desculpa de mau pagador. Compenso evitando os sacos dos supermercados e escolhendo sempre que possível as embalagens maiores dos produtos, sejam detergentes ou iogurtes (já eliminei os pacotinhos individuais de leite ou de sumo da minha lista de compras). Estou muito mais atenta às embalagens desnecessárias. Evito palhinhas e talheres de plástico. Por outro lado, tento ter algum cuidado na alimentação - por uma questão de saúde mas também ambiental. Sou exigente na escolha dos ovos, preocupo-me com a origem da carne e do leite, por exemplo. Não sou fundamentalista com os legumes até porque a maior parte deles vão acabar na sopa e custa muito pagar caro por umas cenouras que vão acabar em puré. Falho muito, sei que tenho de melhorar mas vou me esforçando (e saber o que fazemos errado é meio caminho para mudar).

3. Reciclar

Cá em casa somos bons a reciclar. Todo o lixo é separado, todo, vidros, papéis e embalagens, sem distracções. Ainda levamos as tampas de plástico para a escola. E, claro, reciclamos tudo o que for possível, a começar pela roupa que vem do primo para o António, passa depois para o Pedro e ainda segue viagem para mais alguém (ou então transforma-se em esfregão). O mesmo para a minha roupa, os livros e os brinquedos. Verificamos sempre se há a quem sirva antes de pensar em pôr no lixo. Eu reciclo tanto que até os cortinados da sala ou os individuais da cozinha vieram reciclados da casa da minha irmã. 

4. Poupar

Ui. Ponto crítico. Luto todos os dias contra o desperdício. Seja na comida, guardando restos em tuperwares e comendo tudo antes que se estrague (nem sempre acontece). Seja na energia - apagar luzes, desligar electrodomésticos, evitar acender luzes, encurtar os banhos, fechar as torneiras. Tanto ainda por batalhar aqui... Uma vitória: há já uns meses, quando se começou a falar da seca, decidimos colocar um balde na banheira, para a água que corre enquanto esperamos que saia a água quente. E depois usamos a água do balde na sanita. Não dá muito - evitamos três descargas diárias, mais coisa menos coisa. Mas já é alguma coisa. Os miúdos aderiram imediatamente. A casa-de-banho tem andado um bocadinho mais badalhoca mas paciência. É a nossa pequena contribuição.

5. Agir

Ainda outro dia houve uma campanha muito gira para pôr os miúdos a plantar árvores em Lisboa e eu andei a ver o site e a fazer planos mas depois aconteceu qualquer coisa que nos trocou as voltas e não fomos. Isto acontece-nos muito e é contra isto que temos de lutar. Temos que nos envolver mais. Este é um problema cívico. É preciso alertar toda a gente para os problemas da falta de água, do excesso de detritos, da destruição da natureza, da poluição extrema, do excesso de plástico, do aquecimento global. São problemas nossos e dos nossos filhos e netos. Que nos afectam directa ou indirectamente. É preciso passar a palavra. E fazer o que está ao nosso alcance. Por exemplo, escrever um post sobre o asunto. 

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por Gata às 21:12

Domingo, 15.04.18

A felicidade nas coisas pequenas (XXXV)

Foi uma semana cheia de imprevistos, desilusões, coisas más, desmotivação geral, chuva e hormonas aos saltos. Mas também foi uma semana com:

A Marta Gautier a explicar a diferença entre "alfas" e "betas" no espetáculo Pessoas Estranhas.

Almoçar sozinha (entretida com as conversas das outras mesas) a comida bem boa de A Luz Ideal.

As vidas banais da série Easy, no Netflix.

Fazer biscoitos. Molhá-los no leite morno.

Jantar em casa de amigos. Beber vinho. Trocar confidências. Gargalhar.

Cometer loucuras, porque é bom.

O jogo que importa foi ganho pelos nossos miúdos.

Os abraços deles (mesmo quando são umas pestes). 

Um fim-de-semana inteiro quase offline. Neste momento, desligar é a palavra de ordem cá em casa.

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Quando te sentires a perder o pé, flutua. Recupera o fôlego. E continua.

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por Gata às 22:38

Terça-feira, 10.04.18

Como era suposto

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E isto aplica-se a quase todos os aspectos da nossa vida. 

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por Gata às 23:11

Quinta-feira, 08.02.18

Respirar

1. Fui almoçar ao Mezze, o restaurante de comida do médio Oriente no Mercado de Arroios que abriu em setembro do ano passado e que tem também como missão fomentar a integração de refugiados sírios. Tenho acompanhado o projecto nas redes sociais mas ainda não tinha tido oportunidade de lá ir. Aconselho mesmo. Boa comida, boa onda. Não vos consigo dizer o que comi (e também não tirei fotos) mas era tudo bom e em quantidade mais do que suficiente. Não é propriamente barato (paguei 17 euros) mas vale a pena a experiência. Fiquei com vontade de voltar e experimentar outros pratos.

2. Fui ao cinema. Tenho visto muitos filmes no computador, admito, mas esta é sempre uma solução de recurso. Nada se compara a ver um filme no grande ecrã. Gosto mesmo de ir ao cinema, mesmo que seja numa matiné às duas da tarde, numa sala quase vazia, só com meia dúzia de velhotas. Fui ver o Phantom Thread/ Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps. É a história de um estilista muito conceituado, requisitado pela senhoras da alta sociedade, na Londres na década de 1950. E de como a jovem Alma consegue penetrar nesse seu mundo cheio de regras e de rotinas. É um filme muito bonito. Muito bem realizado. Muito bem interpretado. Com uma música obsessiva de Johny Greenwood. Cheio de mistérios e de vestidos lindos. É também um filme sobre aparências. E sobre o amor (parece que andamos sempre a falar do mesmo). E de como o amor nem sempre é como nós achamos que devia ser.

 3. A música de Sufjan Stevens. A música que ele fez para Call Me By Your Name e as outras, algumas que eu já conhecia e outras que não conhecia. Tem sido a minha banda sonora nos últimos dias.

Ainda não fui ver o mar. Mas um dia de folga a meio da semana, com isto tudo e ainda a passear sozinha ao sol pelas ruas de Lisboa, em silêncio, pode ser suficiente para recuperar a energia. Respirar. Para não sufocar.

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por Gata às 11:23



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