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A Gata Christie



Sábado, 07.04.18

"Wild Wild Country"

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Wild Wild Country é um documentário em seis partes (no total são mais de seis horas), realizado por Chapman e Maclain Way, que estreou na Netflix em março. E que eu vi - todo - em menos de 24 horas. Fiquei completamente agarrada. Wild Wild Country conta como, em 1981, um guru indiano, Bhagwan Shree Rajneesh, e o seu grupo de seguidores se instalaram num rancho enorme no meio do nada, em Oregon, EUA, e como aquilo que deveria ser uma comunidade ligada à meditação e à procura da felicidade se transformou no culto das "pessoas cor-de-laranja", gente de armas à cintura e disposta a fazer o que fosse preciso para garantir a permanência no rancho e o poder dos seus líderes. O tema é absolutamente fascinante e o que é estranho é como é que eu, que adoro estes assuntos (e já vi tantas coisas sobre Jonestown, por exemplo), nunca tinha ouvido falar desta desta Rajneeshpuram. 

Há, por um lado, um fascínio, admito, por estes modos de vida alternativos. Tenho tantas dúvidas sobre o nosso modo de vida contemporâneo (ocidental, capitalista, materialista, consumista) que me interessam todas as experiências de pessoas que procuram outros caminhos. É impossível não simpatizar com esta ideia de uma comunidade de pessoas que trabalha e medita em conjunto, longe dos moralismos cristãos (ou de qualquer outra religião) e sem os contrangimentos do sistema. Mas, depois, fico impressionada com a forma como as pessoas abdicam da sua vontade e se entregam totalmente nas mãos dos outros. Como se sujeitam. Todos vestidos da mesma cor, entregando o seu dinheiro ao guru, cumprindo as regras dos líderes sem questionar. O poder do grupo é enorme. A cegueira. Que impede esta multidão de ver como os seus líderes, que ao início até podiam ter a melhor das intenções, não resistem à luxúria do poder e da riqueza pessoal. Ou como a sua comunidade se está a transformar numa réplica daquilo que eles próprios criticavam.

Ao mesmo tempo, e esse é um dos motivos porque este documentário é tão bom, também é muito interessante ver como as pessoas de fora (no caso, a comunidade conservadora, cristã, americana, branca de Antelope, no Oregon) reage perante o desconhecido. Todos os preconceitos. E o medo do sexo, claro, é sempre o sexo: ouvem dizer que "as pessoas cor-de-laranja" não casam, que podem ter relações com quem quiserem, que andam nus. E essas pessoas muito respeitadoras de deus não podem tolerar tamanha degradação dos costumes. O habitual, portanto.

Usando muitas (e preciosas) imagens de arquivo e entrevistas actuais a pessoas que viveram dentro e fora do rancho (com destaque para a misteriosa Ma Anand Sheela, a secretária do guru), Wild Wild Country é, mais do que um documentário sobre o culto de Bhagwani, uma reflexão sobre a utopia e o confronto com a realidade. A luta entre duas comunidades, a escalada de violência e o que é que se está disposto a fazer para ganhar. Sobre a ganância e a perda de limites. E aquela ténue linha que separa o certo e o errado. 

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por Gata às 09:21




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